Um oficial de polícia vigia diante de um cartaz dia 23 de
janeiro em Pequim.
Publicado originalmente no site do jornal EL PAÍS BRASIL, em 22 de março de 2020
O coronavírus de hoje e o mundo de amanhã, segundo o
filósofo Byung-Chul Han
Países asiáticos estão lidando melhor com essa crise do que
o Ocidente. Enquanto lá se trabalha com dados e máscaras, aqui se chega tarde e
fecham fronteiras
Por Byung-Chul Han*
O coronavírus está colocando nosso sistema à prova. Ao que
parece a Ásia controla melhor a epidemia do que a Europa. Em Hong Kong, Taiwan
e Singapura há poucos infectados. Em Taiwan foram registrados 108 casos e 193
em Hong Kong. Na Alemanha, pelo contrário, após um período muito mais breve já
existem 19.000 casos confirmados, e na Espanha 19.980 (dados de 20 de março). A
Coreia do Sul já superou a pior fase, da mesma forma que o Japão. Até a China,
o país de origem da pandemia, já está com ela bem controlada. Mas Taiwan e a
Coreia não decretaram a proibição de sair de casa e as lojas e restaurantes não
fecharam. Enquanto isso começou um êxodo de asiáticos que saem da Europa.
Chineses e coreanos querem regressar aos seus países, porque lá se sentem mais
seguros. Os preços dos voos multiplicaram. Já quase não é possível conseguir
passagens aéreas para a China e a Coreia.
A Europa está fracassando. Os números de infectados aumentam
exponencialmente. Parece que a Europa não pode controlar a pandemia. Na Itália morrem
diariamente centenas de pessoas. Retiram os respiradores dos pacientes idosos
para ajudar os jovens. Mas também vale observar ações inúteis. Os fechamentos
de fronteiras são evidentemente uma expressão desesperada de soberania. Nós nos
sentimos de volta à época da soberania. O soberano é quem decide sobre o estado
de exceção. É o soberano que fecha fronteiras. Mas isso é uma vã tentativa de
soberania que não serve para nada. Seria muito mais útil cooperar intensamente
dentro da Eurozona do que fechar fronteiras alucinadamente. Ao mesmo tempo a
Europa também decretou a proibição da entrada a estrangeiros: um ato totalmente
absurdo levando em consideração o fato de que a Europa é justamente o local ao
qual ninguém quer ir. No máximo, seria mais sensato decretar a proibição de
saídas de europeus, para proteger o mundo da Europa. Depois de tudo, a Europa é
nesse momento o epicentro da pandemia.
As vantagens da Ásia
Em comparação com a Europa, quais vantagens o sistema da
Ásia oferece que são eficientes para combater a pandemia? Estados asiáticos
como o Japão, Coreia, China, Hong Kong, Taiwan e Singapura têm uma mentalidade
autoritária, que vem de sua tradição cultural (confucionismo). As pessoas são
menos relutantes e mais obedientes do que na Europa. Também confiam mais no
Estado. E não somente na China, como também na Europa e no Japão a vida
cotidiana está organizada muito mais rigidamente do que na Europa.
Principalmente para enfrentar o vírus os asiáticos apostam fortemente na
vigilância digital. Suspeitam que o big data pode ter um enorme potencial para
se defender da pandemia. Poderíamos dizer que na Ásia as epidemias não são
combatidas somente pelos virologistas e epidemiologistas, e sim principalmente
pelos especialistas em informática e macrodados. Uma mudança de paradigma da
qual a Europa ainda não se inteirou. Os apologistas da vigilância digital
proclamariam que o big data salva vidas humanas.
A consciência crítica diante da vigilância digital é
praticamente inexistente na Ásia. Já quase não se fala de proteção de dados,
incluindo Estados liberais como o Japão e a Coreia. Ninguém se irrita pelo
frenesi das autoridades em recopilar dados. Enquanto isso a China introduziu um
sistema de crédito social inimaginável aos europeus, que permitem uma valorização
e avaliação exaustiva das pessoas. Cada um deve ser avaliado em consequência de
sua conduta social. Na China não há nenhum momento da vida cotidiana que não
esteja submetido à observação. Cada clique, cada compra, cada contato, cada
atividade nas redes sociais são controlados. Quem atravessa no sinal vermelho,
quem tem contato com críticos do regime e quem coloca comentários críticos nas
redes sociais perde pontos. A vida, então, pode chegar a se tornar muito
perigosa. Pelo contrário, quem compra pela Internet alimentos saudáveis e lê
jornais que apoiam o regime ganha pontos. Quem tem pontuação suficiente obtém
um visto de viagem e créditos baratos. Pelo contrário, quem cai abaixo de um
determinado número de pontos pode perder seu trabalho. Na China essa vigilância
social é possível porque ocorre uma irrestrita troca de dados entre os
fornecedores da Internet e de telefonia celular e as autoridades. Praticamente
não existe a proteção de dados. No vocabulário dos chineses não há o termo
“esfera privada”.
Na China existem 200 milhões de câmeras de vigilância,
muitas delas com uma técnica muito eficiente de reconhecimento facial. Captam
até mesmo as pintas no rosto. Não é possível escapar da câmera de vigilância.
Essas câmeras dotadas de inteligência artificial podem observar e avaliar
qualquer um nos espaços públicos, nas lojas, nas ruas, nas estações e nos
aeroportos.
Toda a infraestrutura para a vigilância digital se mostrou
agora ser extremamente eficaz para conter a epidemia. Quando alguém sai da
estação de Pequim é captado automaticamente por uma câmera que mede sua
temperatura corporal. Se a temperatura é preocupante todas as pessoas que
estavam sentadas no mesmo vagão recebem uma notificação em seus celulares. Não
é por acaso que o sistema sabe quem estava sentado em qual local no trem. As
redes sociais contam que estão usando até drones para controlar as quarentenas.
Se alguém rompe clandestinamente a quarentena um drone se dirige voando em sua
direção e ordena que regresse à sua casa. Talvez até lhe dê uma multa e a deixe
cair voando, quem sabe. Uma situação que para os europeus seria distópica, mas
que, pelo visto, não tem resistência na China.
Na China e em outros Estados asiáticos como a Coreia do Sul,
Hong Kong, Singapura, Taiwan e Japão não existe uma consciência crítica diante
da vigilância digital e o big data. A digitalização os embriaga diretamente.
Isso obedece também a um motivo cultural. Na Ásia impera o coletivismo. Não há
um individualismo acentuado. O individualismo não é a mesma coisa que o
egoísmo, que evidentemente também está muito propagado na Ásia.
Ao que parece o big data é mais eficaz para combater o vírus
do que os absurdos fechamentos de fronteiras que estão sendo feitos nesses
momentos na Europa. Graças à proteção de dados, entretanto, não é possível na
Europa um combate digital do vírus comparável ao asiático. Os fornecedores
chineses de telefonia celular e de Internet compartilham os dados sensíveis de
seus clientes com os serviços de segurança e com os ministérios de saúde. O
Estado sabe, portanto, onde estou, com quem me encontro, o que faço, o que
procuro, em que penso, o que como, o que compro, aonde me dirijo. É possível
que no futuro o Estado controle também a temperatura corporal, o peso, o nível
de açúcar no sangue etc. Uma biopolítica digital que acompanha a psicopolítica
digital que controla ativamente as pessoas.
É possível que no futuro o Estado controle também a
temperatura corporal, o peso, o nível de açúcar no sangue
Em Wuhan se formaram milhares de equipes de pesquisa
digitais que procuram possíveis infectados baseando-se somente em dados
técnicos. Tendo como base, unicamente, análises de macrodados averiguam os que
são potenciais infectados, os que precisam continuar sendo observados e
eventualmente isolados em quarentena. O futuro também está na digitalização no
que se refere à pandemia. Pela epidemia talvez devêssemos redefinir até mesmo a
soberania. É soberano quem dispõe de dados. Quando a Europa proclama o estado
de alarme e fecha fronteiras continua aferrada a velhos modelos de soberania.
Não somente na China, como também em outros países asiáticos
a vigilância digital é profundamente utilizada para conter a epidemia. Em
Taiwan o Estado envia simultaneamente a todos um SMS para localizar as pessoas
que tiveram contato com infectados e para informar sobre os lugares e edifícios
em que existiram pessoas contaminadas. Já em uma fase muito inicial, Taiwan
utilizou uma conexão de diversos dados para localizar possíveis infectados em
função das viagens que fizeram. Na Coreia quem se aproxima de um edifício em
que um infectado esteve recebe através do “Corona-app” um sinal de alarme.
Todos os lugares em que infectados estiveram estão registrados no aplicativo.
Não são levadas muito em consideração a proteção de dados e a esfera privada.
Em todos os edifícios da Coreia foram instaladas câmeras de vigilância em cada
andar, em cada escritório e em cada loja. É praticamente impossível se mover em
espaços públicos sem ser filmado por uma câmera de vídeo. Com os dados do
telefone celular e do material filmado por vídeo é possível criar o perfil de
movimento completo de um infectado. São publicados os movimentos de todos os
infectados. Casos amorosos secretos podem ser revelados. Nos escritórios do
Ministério da Saúde coreano existem pessoas chamadas “tracker” que dia e noite
não fazem outra coisa a não ser olhar o material filmado por vídeo para
completar o perfil do movimento dos infectados e localizar as pessoas que
tiveram contato com eles.
Chineses, todos de máscara, fazem fila no ponto de ônibus em
Pequim, em 20 de março.
Uma diferença chamativa entre a Ásia e a Europa são
principalmente as máscaras protetoras. Na Coreia quase não existe quem ande por
aí sem máscaras respiratórias especiais capazes de filtrar o ar de vírus. Não
são as habituais máscaras cirúrgicas, e sim máscaras protetoras especiais com
filtros, que também são utilizadas pelos médicos que tratam os infectados.
Durante as últimas semanas, o tema prioritário na Coreia era o fornecimento de
máscaras à população. Diante das farmácias enormes filas se formaram. Os
políticos eram avaliados em função da rapidez com que eram fornecidas a toda a
população. Foram construídas a toda pressa novas máquinas para sua fabricação.
Por enquanto parece que o fornecimento funciona bem. Há até mesmo um aplicativo
que informa em qual farmácia próxima ainda se pode conseguir máscaras. Acho que
as máscaras protetoras fornecidas na Ásia a toda a população contribuíram
decisivamente para conter a epidemia.
Os coreanos usam máscaras protetoras antivírus até mesmo nos
locais de trabalho. Até os políticos fazem suas aparições públicas somente com
máscaras protetoras. O presidente coreano também a usa para dar o exemplo,
incluindo em suas entrevistas coletivas. Na Coreia quem não a usa é
repreendido. Na Europa, pelo contrário, frequentemente se diz que não servem
para muita coisa, o que é um absurdo. Por que então os médicos usam as máscaras
protetoras? Mas é preciso trocar de máscara frequentemente, porque quando
umedecem perdem sua função filtradora. Os coreanos, entretanto, já
desenvolveram uma “máscara ao coronavírus” feita de nanofiltros que podem ser
lavados. O que se diz é que podem proteger as pessoas do vírus durante um mês.
Na verdade, é uma solução muito boa enquanto não existem vacinas e
medicamentos.
Está surgindo uma sociedade de duas classes. Quem tem carro
próprio se expõe a menos riscos
Na Europa, pelo contrário, até mesmo os médicos precisam
viajar à Rússia para consegui-las. Macron mandou confiscar máscaras para
distribui-las entre os funcionários da área de saúde. Mas o que acabaram
recebendo foram máscaras normais sem filtro com a indicação de que bastariam
para proteger do coronavírus, o que é uma mentira. A Europa está fracassando.
De que adianta fechar lojas e restaurantes se as pessoas continuam se
aglomerando no metrô e no ônibus durante as horas de pico? Como guardar a
distância necessária assim? Até nos supermercados é quase impossível. Em uma
situação como essa, as máscaras protetoras realmente salvariam vidas humanas.
Está surgindo uma sociedade de duas classes. Quem tem carro próprio se expõe a
menos riscos. As máscaras normais também seriam de muita utilidade se os
infectados as usassem, porque dessa maneira não propagariam o vírus.
Nos países europeus quase ninguém usa máscara. Há alguns que
as usam, mas são asiáticos. Meus conterrâneos residentes na Europa se queixam
de que são olhados com estranheza quando as usam. Por trás disso há uma
diferença cultural. Na Europa impera um individualismo que traz atrelado o
costume de andar com o rosto descoberto. Os únicos que estão mascarados são os
criminosos. Mas agora, vendo imagens da Coreia, me acostumei tanto a ver
pessoas mascaradas que o rosto descoberto de meus concidadãos europeus me
parece quase obsceno. Eu também gostaria de usar máscara protetora, mas aqui já
não existem.
No passado, a fabricação de máscara, da mesma forma que
tantos outros produtos, foi externalizada à China. Por isso agora não se
conseguem máscaras na Europa. Os Estados asiáticos estão tentando prover toda a
população com máscaras protetoras. Na China, quando também começaram a
escassear, fábricas chegaram a ser reequipadas para produzir máscaras. Na
Europa nem mesmo os funcionários da área de saúde as conseguem. Enquanto as
pessoas continuarem se aglomerando nos ônibus e metrôs para ir ao trabalho sem
máscaras protetoras, a proibição de sair de casa logicamente não adiantará muito.
Como é possível guardar a distância necessária nos ônibus e no metrô nos
horários de pico? E uma lição que deveríamos tirar da pandemia deveria ser a
conveniência de voltar a trazer à Europa a produção de determinados produtos,
como máscaras protetoras, remédios e produtos farmacêuticos.
O presidente da Coreia do Su, terceiro na imagem, em 25 de
fevereiro.
Apesar de todo o risco, que não deve ser minimizado, o
pânico desatado pela pandemia de coronavírus é desproporcional. Nem mesmo a
“gripe espanhola”, que foi muito mais letal, teve efeitos tão devastadores
sobre a economia. A que isso se deve na realidade? Por que o mundo reage com um
pânico tão desmesurado a um vírus? Emmanuel Macron fala até de guerra e do
inimigo invisível que precisamos derrotar. Estamos diante de um retorno do
inimigo? A gripe espanhola se desencadeou em plena Primeira Guerra Mundial.
Naquele momento todo o mundo estava cercado de inimigos. Ninguém teria
associado a epidemia com uma guerra e um inimigo. Mas hoje vivemos em uma
sociedade totalmente diferente.
Na verdade, vivemos durante muito tempo sem inimigos. A
Guerra Fria terminou há muito tempo. Ultimamente até o terrorismo islâmico
parecia ter se deslocado a áreas distantes. Há exatamente dez anos afirmei em
meu ensaio Sociedade do Cansaço a tese de que vivemos em uma época em que o
paradigma imunológico perdeu sua vigência, baseada na negatividade do inimigo.
Como nos tempos da Guerra Fria, a sociedade organizada imunologicamente se
caracteriza por viver cercada de fronteiras e de cercas, que impedem a circulação
acelerada de mercadorias e de capital. A globalização suprime todos esses
limites imunitários para dar caminho livre ao capital. Até mesmo a
promiscuidade e a permissividade generalizadas, que hoje se propagam por todos
os âmbitos vitais, eliminam a negatividade do desconhecido e do inimigo. Os
perigos não espreitam hoje da negatividade do inimigo, e sim do excesso de
positividade, que se expressa como excesso de rendimento, excesso de produção e
excesso de comunicação. A negatividade do inimigo não tem lugar em nossa
sociedade ilimitadamente permissiva. A repressão aos cuidados de outros abre
espaço à depressão, a exploração por outros abre espaço à autoexploração
voluntária e à auto-otimização. Na sociedade do rendimento se guerreia
sobretudo contra si mesmo.
Limites imunológicos e fechamento de fronteiras
Pois bem, em meio a essa sociedade tão enfraquecida
imunologicamente pelo capitalismo global o vírus irrompe de supetão. Em pânico,
voltamos a erguer limites imunológicos e fechar fronteiras. O inimigo voltou.
Já não guerreamos contra nós mesmos. E sim contra o inimigo invisível que vem
de fora. O pânico desmedido causado pelo vírus é uma reação imunitária social,
e até global, ao novo inimigo. A reação imunitária é tão violenta porque
vivemos durante muito tempo em uma sociedade sem inimigos, em uma sociedade da
positividade, e agora o vírus é visto como um terror permanente.
Mas há outro motivo para o tremendo pânico. Novamente tem a
ver com a digitalização. A digitalização elimina a realidade, a realidade é
experimentada graças à resistência que oferece, e que também pode ser dolorosa.
A digitalização, toda a cultura do “like”, suprime a negatividade da
resistência. E na época pós-fática das fake news e dos deepfakes surge uma
apatia à realidade. Dessa forma, aqui é um vírus real e não um vírus de
computador, e que causa uma comoção. A realidade, a resistência, volta a se
fazer notar no formato de um vírus inimigo. A violenta e exagerada reação de
pânico ao vírus se explica em função dessa comoção pela realidade.
Espero que após a comoção causada por esse vírus não chegue
à Europa um regime policial digital como o chinês.
A reação de pânico dos mercados financeiros à epidemia é,
além disso, a expressão daquele pânico que já é inerente a eles. As convulsões
extremas na economia mundial fazem com que essa seja muito vulnerável. Apesar
da curva constantemente crescente do índice das Bolsas, a arriscada política
monetária dos bancos emissores gerou nos últimos anos um pânico reprimido que
estava aguardando a explosão. Provavelmente o vírus não é mais do que a gota
que transbordou o copo. O que se reflete no pânico do mercado financeiro não é
tanto o medo ao vírus quanto o medo a si mesmo. O crash poderia ter ocorrido
também sem o vírus. Talvez o vírus seja somente o prelúdio de um crash muito
maior.
Žižek afirma que o vírus deu um golpe mortal no capitalismo,
e evoca um comunismo obscuro. Acredita até mesmo que o vírus poderia derrubar o
regime chinês. Žižek se engana. Nada disso acontecerá. A China poderá agora
vender seu Estado policial digital como um modelo de sucesso contra a pandemia.
A China exibirá a superioridade de seu sistema ainda mais orgulhosamente. E
após a pandemia, o capitalismo continuará com ainda mais pujança. E os turistas
continuarão pisoteando o planeta. O vírus não pode substituir a razão. É
possível que chegue até ao Ocidente o Estado policial digital ao estilo chinês.
Com já disse Naomi Klein, a comoção é um momento propício que permite
estabelecer um novo sistema de Governo. Também a instauração do neoliberalismo
veio precedida frequentemente de crises que causaram comoções. É o que
aconteceu na Coreia e na Grécia. Espero que após a comoção causada por esse
vírus não chegue à Europa um regime policial digital como o chinês. Se isso
ocorrer, como teme Giorgio Agamben, o estado de exceção passaria a ser a
situação normal. O vírus, então, teria conseguido o que nem mesmo o terrorismo
islâmico conseguiu totalmente.
O vírus não vencerá o capitalismo. A revolução viral não
chegará a ocorrer. Nenhum vírus é capaz de fazer a revolução. O vírus nos isola
e individualiza. Não gera nenhum sentimento coletivo forte. De alguma maneira,
cada um se preocupa somente por sua própria sobrevivência. A solidariedade que
consiste em guardar distâncias mútuas não é uma solidariedade que permite
sonhar com uma sociedade diferente, mais pacífica, mais justa. Não podemos
deixar a revolução nas mãos do vírus. Precisamos acreditar que após o vírus
virá uma revolução humana. Somos NÓS, PESSOAS dotadas de RAZÃO, que precisamos
repensar e restringir radicalmente o capitalismo destrutivo, e nossa ilimitada
e destrutiva mobilidade, para nos salvar, para salvar o clima e nosso belo
planeta.
* Byung-Chul Han é um filósofo e ensaísta sul-coreano que dá
aulas na Universidade de Artes de Berlim. Autor, entre outras obras, de
‘Sociedade do Cansaço’, publicou há um ano ‘Loa a la tierra’, na editora
Herder.
Texto e imagens reproduzidos do site: brasil.elpais.com
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