segunda-feira, 1 de junho de 2026

O que é agnosticismo?

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 28 de maio de 2026

O que é agnosticismo?

A origem formal do termo encontra-se na obra e na atividade intelectual de Thomas Henry Huxley, conhecido por sua vigorosa defesa da teoria da evolução de Charles Darwin. Para Huxley, o verdadeiro problema não consistia em afirmar ou negar Deus, mas em reconhecer honestamente os limites das evidências disponíveis. Não se deveria declarar como conhecido aquilo que não pode ser demonstrado por argumentos ou fatos suficientes. Artigo de Dennys Xavier:

Quando alguém se define como agnóstico, costuma imaginar que está utilizando uma palavra antiga, talvez tão antiga quanto os próprios debates sobre Deus. A surpresa surge quando descobrimos que o termo é relativamente recente. Embora a dúvida sobre a possibilidade de conhecer o divino acompanhe a filosofia ocidental desde a Antiguidade, a palavra “agnosticismo” nasceu apenas no século XIX. Sua história, contudo, remete a problemas muito mais antigos: o alcance do conhecimento humano, os limites da razão, a relação entre experiência e verdade e a possibilidade de afirmar algo sobre aquilo que transcende o mundo sensível.

A origem formal do termo encontra-se na obra e na atividade intelectual de Thomas Henry Huxley, conhecido por sua vigorosa defesa da teoria da evolução de Charles Darwin.

Em 1869, durante reuniões da chamada “Metaphysical Society”, em Londres, Huxley passou a empregar a palavra “agnostic” para designar uma atitude intelectual específica.

O vocábulo deriva do grego antigo: o prefixo privativo “a-” unido a “gnosis”, conhecimento. O agnóstico seria, literalmente, aquele que não possui conhecimento. Contudo, Huxley não pretendia criar simplesmente uma posição intermediária entre fé e ateísmo. Sua intenção era mais metodológica. Para ele, o verdadeiro problema não consistia em afirmar ou negar Deus, mas em reconhecer honestamente os limites das evidências disponíveis. Não se deveria declarar como conhecido aquilo que não pode ser demonstrado por argumentos ou fatos suficientes.

Huxley considerava que muitos sistemas filosóficos e religiosos incorriam precisamente nesse erro. Alguns afirmavam possuir certezas metafísicas sobre a natureza última da realidade; outros julgavam poder provar racionalmente a inexistência de qualquer divindade.

O agnosticismo surgia como uma disciplina intelectual fundada na suspensão do juízo diante de questões cuja solução ultrapassaria os meios legítimos do conhecimento humano. Em suas próprias palavras, tratava-se menos de um credo do que de um princípio: seguir a razão até onde as evidências permitissem e não fingir certeza onde ela não existisse.

Apesar da novidade da palavra, a atitude descrita por Huxley possuía ancestrais remotos.

Os primeiros candidatos são os céticos gregos. Em especial, Pirro de Élis e os pensadores ligados ao pirronismo desenvolveram uma filosofia baseada na suspensão do juízo, a “epoché”.

Diante da diversidade de opiniões e da dificuldade de alcançar uma certeza absoluta acerca da natureza das coisas, o sábio deveria evitar afirmações dogmáticas.

Séculos depois, Sexto Empírico registraria essa tradição de maneira sistemática, influenciando profundamente a filosofia moderna.

Outro antecedente importante encontra-se no próprio pensamento socrático. Quando Sócrates afirma saber apenas que nada sabe, não está defendendo uma ignorância absoluta. Sua declaração exprime a consciência dos limites humanos diante das questões mais elevadas.

O reconhecimento da própria ignorância torna-se condição para a investigação filosófica. Evidentemente, seria anacrônico chamar Sócrates de agnóstico. O contexto histórico é completamente distinto. Ainda assim, existe uma afinidade entre a humildade epistemológica socrática e o princípio posteriormente formulado por Huxley.

Durante a Antiguidade tardia e a Idade Média, o problema assumiu contornos diferentes. A questão central deixou de ser simplesmente o que o homem pode conhecer e passou a envolver a natureza do conhecimento de Deus. Surgiu então uma tradição conhecida como teologia negativa ou apofática.

Autores como Pseudo-Dionísio Areopagita sustentavam que Deus ultrapassa todas as categorias humanas. Podemos dizer o que Deus não é, mas qualquer definição positiva permanece inadequada. Curiosamente, essa tradição não conduz ao agnosticismo moderno. Seus representantes não duvidavam da existência de Deus. Pelo contrário, acreditavam que Deus transcende tanto a linguagem quanto o pensamento precisamente porque é real de modo absoluto. Ainda assim, contribuíram para aprofundar a reflexão sobre os limites do conhecimento humano diante do transcendente.

A modernidade trouxe novas transformações. O avanço das ciências naturais, a crise das autoridades religiosas tradicionais e as guerras de religião estimularam uma investigação mais rigorosa acerca das capacidades da razão.

Filósofos como David Hume questionaram a força de muitos argumentos metafísicos clássicos. Hume submeteu os raciocínios teológicos a uma crítica penetrante, argumentando que as inferências humanas permanecem limitadas à experiência. Quando pretendemos falar sobre a origem última do universo ou sobre a natureza divina, ultrapassamos aquilo que a experiência pode justificar.

O momento decisivo, porém, ocorre com Immanuel Kant. Embora Kant jamais tenha empregado o termo agnosticismo, muitos historiadores consideram sua filosofia uma das principais raízes intelectuais do fenômeno moderno.

Na Crítica da Razão Pura, Kant argumenta que o conhecimento humano depende das estruturas cognitivas pelas quais organizamos a experiência. Podemos conhecer os fenômenos, isto é, as coisas tal como aparecem para nós. Já a realidade em si mesma, o noumeno, permanece além do alcance do conhecimento teórico.

A influência dessa tese foi imensa. Muitos leitores concluíram que as grandes questões metafísicas não admitem conhecimento propriamente dito, apenas crença, esperança ou uma transcendência.

Quando Huxley introduziu a palavra “agnosticismo”, encontrou um terreno intelectual já preparado por séculos de reflexão filosófica. O contexto vitoriano acrescentava um elemento novo: a crescente autoridade das ciências naturais. A física, a geologia, a biologia e outras disciplinas produziam conhecimentos verificáveis e cumulativos. Em comparação, as disputas metafísicas pareciam incapazes de alcançar consensos semelhantes. O agnosticismo apresentou-se então como uma atitude de prudência intelectual adaptada à cultura científica moderna.

Com o passar do tempo, entretanto, o significado popular da palavra tornou-se mais amplo do que o pretendido por Huxley. Atualmente, ela costuma designar qualquer pessoa que considere impossível saber se Deus existe.

Essa definição é apenas parcialmente correta. Alguns agnósticos sustentam que a existência de Deus é desconhecida no presente, mas talvez possa ser conhecida no futuro. Outros acreditam que tal conhecimento é impossível em princípio. Há ainda aqueles que combinam agnosticismo e teísmo, admitindo a crença em Deus sem pretender demonstrá-la racionalmente. Da mesma forma, existem agnósticos inclinados ao ateísmo prático, vivendo como se nenhuma divindade existisse, embora reconheçam a impossibilidade de uma prova definitiva.

Essa diversidade mostra que o agnosticismo não constitui uma doutrina única. Trata-se antes de uma família de posições relacionadas pela mesma preocupação epistemológica. A pergunta fundamental não é “Deus existe?”. A pergunta é outra: “podemos saber se Deus existe?”. O deslocamento parece sutil, mas altera profundamente o debate. O centro da discussão deixa de ser a realidade divina e passa a ser a capacidade cognitiva humana.

Por essa razão, o agnosticismo ocupa uma posição singular na história das ideias. Ele não nasce primariamente de uma teoria sobre Deus, mas de uma teoria sobre o conhecimento.

Sua genealogia percorre o ceticismo antigo, atravessa a reflexão medieval sobre a transcendência divina, recebe o impacto das críticas empiristas e kantianas e encontra sua formulação clássica na cultura científica do século XIX. Desde então, tornou-se uma das respostas mais influentes ao problema religioso no mundo moderno.

Talvez sua permanência decorra justamente da tensão que ele preserva. O agnóstico recusa tanto a segurança do dogmatismo quanto a convicção de que todas as questões estão encerradas. Entre a certeza e a negação absoluta, permanece aberto um espaço de investigação. É nesse espaço que a palavra criada por Huxley continua a habitar.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Cannes: um espectro ronda os festivais

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 17  de maio de 2026

Cannes: um espectro ronda os festivais

Artistas deixaram de ter ambições estéticas e passaram a querer mudar a visão das pessoas e impor o próprio conjunto de ideias. Josias Teófilo para a Crusoé:

A 79ª edição do Festival de Cannes renovou o debate que aconteceu no Festival de Berlim do ano passado sobre cinema e política.

O presidente do júri do festival, Park Chan-wook, afirmou que arte e política não são incompatíveis, desde que a mensagem seja expressa com valor artístico.

Demi Moore, também integrante do júri, defendeu que artistas não deveriam ser prejudicados por opiniões políticas, dizendo que a autocensura sufoca a criatividade.

Esse debate iniciou-se ano passado no Festival de Berlim, o mais politizado do mundo. O diretor alemão Wim Wenders provocou uma verdadeira reviravolta nesse ambiente tão engajado.

Questionado sobre o posicionamento do festival em relação ao “genocídio em Gaza”, ele respondeu o seguinte: “Os filmes podem mudar o mundo, mas não de uma maneira política”.

E mais: “Nós somos o contrapeso da política. Somos o oposto da política. Temos que fazer o trabalho das pessoas, não o dos políticos".

O mundo veio abaixo. Houve grande comoção pela suposta insensibilidade de Wim Wenders.

Um abaixo-assinado foi feito para que o festival se manifestasse contra a situação em Gaza.

O cineasta brasileiro Kleber Mendonça Filho, que cumpria agenda na ocasião com o filme O Agente Secreto, tentou rebater Wim Wenders, dizendo que “se você fala da sociedade, fala de política”.

A esquerda diz que toda arte é política — o que é um erro.

Existe um aspecto político em toda obra de arte, assim como toda obra de arte tem um aspecto social, histórico e até espiritual.

Muitas vezes esse aspecto político é totalmente irrelevante. O que existe de político em Diário de um pároco de aldeia, de Robert Bresson? Ou em Morangos Silvestres, de Bergman? Ou Ondas do Destino, de Lars von Trier?

Pior: o que essas pessoas entendem por política não é a política no sentido amplo, de pensar a organização da sociedade, mas a política do dia a dia.

Elas esperam que se comentem as atualidades políticas, que se tome posição em relação aos temas do momento (Gaza, Guerra do Irã etc).

Isso é reduzir os festivais de cinema a um ambiente reativo ao noticiário. O debate deixou de ser estético e passou a ser uma disputa de posicionamentos imediatos. Virou o meme “I support the current thing”.

E os artistas deixaram de ter ambições estéticas e passaram a querer mudar a visão das pessoas, mudar o mundo, impor o próprio conjunto de ideias.

Um filme não precisa ter uma posição clara sobre tema algum. Ele pode ser motivado por uma certa atmosfera, por certo conjunto de cores, por um pensamento vago. E ainda assim comover o espectador até as lágrimas.

A pior fase da politização dos festivais — esse espectro que os ronda — parece, entretanto, ter passado. E a programação de filmes do Festival de Cannes parece confirmar isso.

O primeiro filme que vi no festival, La vie d’une femme, de Charline Bourgeois-Tacquet, foi nesse sentido: um filme delicado e simples sobre uma médica que tem uma relação homossexual.

Apesar do tema, o filme é de uma delicadeza tremenda, muito longe de uma abordagem engajada.

Veremos os próximos.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

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Amigo do Amigo, maio 18, 2026 

Cinema é diversão, além disso, vira peça ideológica, como o tosco "Agente Secreto", bem diferente de "La vie d’une femme". Aliás, o cinema foi o principal pilar da máquina de propaganda nazista!

sábado, 16 de maio de 2026

O que é mortal... morre

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 16  de maio de 2026

O que é mortal... morre

A filosofia oferece ao homem uma forma de permanecer humano diante da perda, sem revolta cega contra a realidade e sem fuga sentimental para ilusões confortáveis. Dennys Xavier para a Crusoé:

Algumas perdas chegam sem solenidade. Outras dão sinais de aproximação… sinais muitas vezes ignorados ou atropelados pelas tarefas do dia.

O sol continua sobre as ruas, pessoas seguem seus compromissos, motores continuam ligados, cafés continuam sendo ritualmente servidos, e o mundo mantém seu movimento indiferente diante da ausência recém-instalada.

Talvez uma das experiências mais desconcertantes da condição humana esteja justamente aí: perceber que a realidade não interrompe seu curso quando alguém desaparece.

A morte entra na vida como um silêncio novo, incômodo, amargo, dentro de uma paisagem antiga. Tudo permanece no lugar, mas o peso semântico muda.

Alguns filósofos observam esse fenômeno com uma lucidez cortante.

Entre os estóicos existia a convicção de que a consciência da mortalidade deveria acompanhar o homem como companhia permanente da razão. Eu mesmo, inspirado por esses antigos sábios, trago com força essa admoestação para o meu dia a dia (quase nunca bem compreendida por terceiros… pior para eles).

Não por morbidez, tampouco por pessimismo… pelo contrário!

A lembrança da finitude concede nitidez às coisas essenciais.

Marco Aurélio escreveu: “Poderias deixar a vida agora mesmo. Que isso determine o que fazes, dizes e pensas”. A frase tem a firmeza de uma pedra lançada contra as distrações humanas, contra nossas vaidades tolas, infantilóides.

Quando alguém entende que o tempo tem limites invisíveis, certas preocupações começam a perder densidade, presença. Pequenos ressentimentos enfraquecem. Perfumarias sociais revelam sua fragilidade. Muitas disputas parecem (e são) tolas diante da precariedade comum a todos os homens.

Talvez o espírito humano carregue uma expectativa secreta de permanência, mantida de forma meio envergonhada.

As pessoas vivem como se houvesse sempre uma extensão garantida do amanhã. Fazem planos longos, adiam conversas importantes, acreditam que haverá tempo suficiente para reorganizar afetos, pedir perdão, aproximar-se novamente de quem se afastou. Mentiras contadas para nós mesmos…

A morte surge e desmonta essa arquitetura imaginária construída sobre futuros inexistentes.

Sêneca observava isso com severidade: “Enquanto adiamos, a vida passa”. Não há qualquer exagero retórico na frase. O tempo se dissolve atrás de nós.

Os estóicos insistiam que a natureza nunca prometeu estabilidade ao homem. Ela é coisa de uma realidade mal compreendida (logo, problema de quem compreende mal).

Os corpos adoecem, os anos avançam, acidentes acontecem, famílias enfrentam perdas inesperadas. Epicteto dizia que o sofrimento humano nasce do desejo de controlar aquilo que jamais pertenceu inteiramente à nossa vontade.

Ora, a realidade não negocia com expectativas emocionais. Ela segue sua ordem própria, muitas vezes incompreensível para quem permanece preso à esperança de que a existência devesse obedecer a algum senso íntimo de justiça.

Mas a realidade é o que é, não veio para celebrar expectativas pessoais.

Apesar disso, os estóicos não cultivavam desespero.

Havia neles uma disciplina interior voltada para a serenidade. Marco Aurélio contemplava a dissolução de impérios, nomes célebres e glórias militares sem cair em niilismo, sem cair numa "nadificação” de valores ou princípios.

A mortalidade produzia nele humildade. Tudo desaparece: títulos, riqueza, poder, reconhecimento público. Resta somente aquilo que cada homem construiu dentro da própria alma enquanto atravessava o breve intervalo de sua existência.

Os epicuristas seguiram outro caminho para alcançar serenidade diante da morte. Epicuro desejava libertar o homem do terror constante produzido pela imaginação. Grande parte da angústia humana nasce da antecipação mental do sofrimento. O espírito projeta ausências futuras, imagina dissoluções, teme o desaparecimento como se pudesse observá-lo de fora.

Epicuro desmonta esse medo com uma simplicidade impressionante: “A morte não é nada para nós. Quando existimos, ela não está presente; quando ela está presente, nós não existimos.” A frase dissolve séculos inteiros de superstição emocional. A morte não constitui experiência do morto. Toda dor pertence aos vivos.

E os vivos permanecem cercados por memórias. Um objeto esquecido sobre a mesa. Uma fotografia antiga. O modo singular como alguém pronunciava determinadas palavras. A presença humana continua ecoando dentro da consciência daqueles que amaram. Talvez por isso Epicuro atribuísse tamanho valor à amizade. “De todas as coisas que a sabedoria proporciona para tornar a vida feliz”, escreveu ele, “a maior é a amizade.” Existe grande verdade nisso.

O homem atravessa o tempo sustentado pelos vínculos que conseguiu construir. No instante final, prestígio, dinheiro e ambição perdem importância diante da experiência concreta dos afetos compartilhados.

Os antigos compreendiam também que a brevidade da vida intensifica sua beleza. O homem contemporâneo aprendeu a pensar o tempo em termos quantitativos, como quem administra reservas futuras de dias.

Os filósofos antigos pensavam de outra forma. Importava a densidade da existência, a qualidade moral da alma, a capacidade de viver conscientemente dentro do instante recebido. Uma vida longa podia tornar-se espiritualmente vazia. Uma vida breve podia adquirir grandeza interior suficiente para permanecer viva na memória de muitos.

Sêneca dizia que alguns homens morrem cedo e outros apenas são enterrados tarde.

A frase continua atual porque existem pessoas que abandonam a própria vitalidade muito antes do fim biológico. Perdem a capacidade de contemplar, agradecer, amar, admirar. Vivem mecanicamente, aprisionadas por rotinas e preocupações sem profundidade. A consciência da mortalidade pode funcionar como despertar contra esse adormecimento da alma.

Talvez seja por isso que os estóicos valorizassem tanto a atenção ao presente. Não havia sentimentalismo nessa atitude. Existia rigor filosófico. O homem atento percebe a preciosidade escondida nas experiências simples: uma conversa tranquila, uma refeição compartilhada, uma tarde comum cercada por pessoas amadas, sentados na guia do passeio.

Grande parte da tragédia humana nasce do fato de que o valor de certos momentos só se revela plenamente depois que eles se tornam impossíveis de recuperar.

Marco Aurélio escrevia para si mesmo como alguém empenhado em permanecer desperto diante da transitoriedade universal. “Tudo é efêmero”, registrou ele. Corpos desaparecem. Casas envelhecem. Civilizações transformam-se em ruínas. O próprio nome dos homens termina dissolvido dentro do tempo. Mas essa percepção não destruía sua capacidade de amar a existência. Pelo contrário. A fragilidade das coisas parecia torná-las mais dignas de atenção.

Os epicuristas também compreendiam isso. O prazer verdadeiro não dependia de excessos, riqueza ou grandiosidade exterior. Epicuro vivia entre amigos, cultivando tranquilidade e liberdade interior. Havia sabedoria nessa simplicidade. O homem costumeiramente busca felicidade em regiões distantes enquanto negligencia aquilo que sustenta silenciosamente sua vida cotidiana: presença, amizade, serenidade, gratidão.

A morte de alguém querido obriga os vivos a olhar para a própria condição mortal. Nenhuma filosofia elimina completamente a dor da ausência.

Os filósofos, por óbvio, sabiam disso.

O que eles procuravam era outra coisa: impedir que o sofrimento destruísse inteiramente a alma de quem permanece. A filosofia oferece ao homem uma forma de permanecer humano diante da perda, sem revolta cega contra a realidade e sem fuga sentimental para ilusões confortáveis.

No fim, estóicos e epicuristas parecem convergir para uma mesma intuição: a vida adquire profundidade quando o homem abandona a fantasia da permanência absoluta.

Tudo o que existe carrega vulnerabilidade. Os dias passam, os corpos se desgastam, as pessoas partem. E talvez justamente por isso cada instante possua tamanho valor. A consciência da brevidade transforma o cotidiano em experiência mais intensa, mais lúcida, mais verdadeira.

Há vidas longas que atravessam o mundo sem deixar marcas interiores.

Há vidas breves que permanecem acesas dentro da memória dos outros durante décadas.

O tempo mede duração. A alma humana mede presença. Escolham a baliza.

Descanse em paz, Maíra.

PS: Homenagem a Maíra, prima que morreu na semana passada, tomada pelo câncer, aos 41 anos.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Por que razão as sociedades modernas não gostam da verdade


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 28 de abril de 2026

Por que razão as sociedades modernas não gostam da verdade

Da verdade como fundamento à sua dissolução contemporânea. João Melo Baptista para o Observador:

I. DO AMOR À VERDADE AO HORROR À VERDADE

«Que é a verdade?» — Pôncio Pilatos

Durante grande parte da história intelectual do Ocidente, a verdade foi considerada um bem — condição de liberdade e de ordem. Na filosofia grega, de Platão a Aristóteles, a verdade é entendida como realidade objectiva — as Formas em Platão, a inteligibilidade do real em Aristóteles — à qual o intelecto (logos) deve adequar-se para alcançar o conhecimento verdadeiro e a sua plena realização. Para o pensamento clássico, o conhecimento da verdade constitui o horizonte último do intelecto e identifica-se com o bem supremo, estando intimamente ligado à ideia de felicidade (eudaimonia).

A tradição cristã aprofundou esta concepção, conferindo-lhe uma dimensão existencial e pessoal. No Evangelho de João (18, 37-38), perante Pilatos, Jesus declara: «…Nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz.» E à pergunta céptica da epígrafe, do prefeito romano, Jesus responde apenas com o silêncio da sua própria presença. O conceito de verdade deixa, assim, de se apresentar apenas como categoria metafísica, para surgir como realidade viva, visível na forma humana de Deus encarnado, que interpela e reclama adesão.

Nessa senda, encontramos depois, em Agostinho de Hipona, uma verdade que ilumina e julga a interioridade, como possibilidade de unificação da alma: luz que revela a dispersão interior e chama ao regresso à unidade. Já em Tomás de Aquino, a verdade é definida como adequação do intelecto à realidade (adaequatio intellectus et rei), precedendo a vontade e orientando a acção moral. O erro desorganiza; a verdade, mesmo exigente, ordena.

Durante séculos, esta concepção de verdade não permaneceu circunscrita à esfera individual, sendo reconhecida, ao menos ao nível dos princípios, pela política, pela justiça e pela educação como critério normativo. Mesmo quando traída, a verdade conservava autoridade suficiente para ter de ser simulada: a hipocrisia era ainda uma forma indirecta de homenagem — à mulher de César não basta ser, é preciso parecer — e a consciência da mentira de alguma forma preservava, ainda que negativamente, o primado da verdade.

Mas essa autoridade, durante séculos apenas dissimulada, começaria, na modernidade, a ser progressivamente questionada — e, por fim, erodida.

II. DA RUPTURA MODERNA DA VERDADE À SUA EROSÃO CONTEMPORÂNEA

«Nein, gerade Tatsachen gibt es nicht, nur Interpretationen. » — Friedrich Nietzsche

(Não, não existem factos, apenas interpretações.)

A modernidade introduz uma inflexão decisiva: a verdade deixa progressivamente de ser entendida na acepção clássica de correspondência entre intelecto e realidade, passando a ser interrogada à luz das condicionantes históricas, sociais e políticas que a envolvem.

Com Friedrich Nietzsche, a ruptura assume uma dimensão genealógica: as verdades deixam de ser descobertas intemporais para se revelarem como cristalizações de interpretações que triunfaram — um conjunto de metáforas esquecidas como tal, sob cuja pretensão de universalidade se oculta uma vontade de poder.

Martin Heidegger radicaliza esta deslocação, interrogando a história da metafísica ocidental, que teria reduzido a verdade à mera adequação à realidade.

Michel Foucault, por seu turno, propõe uma leitura histórico-crítica através da noção de “regimes de verdade”: práticas institucionais e relações de poder que, através de mecanismos, instituições (escola, a universidade, a prisão) e discursos, em cada época, definem o que é considerado verdadeiro ou falso.

Se o período moderno problematizou conceptualmente a verdade, as sociedades ocidentais contemporâneas tendem, não tanto a negá-la frontalmente, mas a relativizar a sua centralidade.

Essa deslocação manifesta-se em múltiplos planos — psicológico, social, político e cultural — que, embora distintos, convergem numa progressiva desvalorização da verdade enquanto critério orientador da vida colectiva:

1. Vieses e dissonância cognitiva – Verdade versus identidade

«Mundus vult decipi, ergo decipiatur.»

(O mundo quer ser enganado; seja, pois, enganado.)

Aproveitando a tendência natural do ser humano para procurar informação que confirme crenças prévias (confirmation bias) e — como a psicologia cognitiva tem vindo a demonstrar — com o aparente fim de rejeitar dados geradores de dissonância, as sociedades contemporâneas parecem fragmentar-se em grupos relativamente estanques, que militam, não raramente com cego fervor, em torno de posições previamente assumidas.

São disso exemplo a forma como, em debates altamente parecem — como os que emergiram durante a pandemia de COVID-19 ou em torno de questões ideológicas ou identitárias — muitos indivíduos seleccionam informação recorrendo apenas a fontes susceptíveis de confirmar a posição adoptada, ignorando consensos científicos, recensões jornalísticas ou estudos académicos mais amplos.

Admitamos que os media contemporâneos, arvorados à condição de modernos lanistas, têm contribuído para a simplificação do debate público. Em vez da sua densificação, privilegiam frequentemente modelos de confronto, convocando para as suas arenas intervenientes de intransigente militância na defesa de posições previamente definidas.

Neste contexto, a disposição para o juízo crítico ou para a moderação tende a ceder lugar à afirmação categórica, tornando o espaço público menos propício ao contraditório e mais permeável à irredutibilidade.

A informação passa, assim, a ser procurada e filtrada pela crença, e não o contrário. Não se trata apenas de ignorância factual, mas de autopreservação identitária: a admissão do erro — e, com ela, a aceitação da verdade — implicaria uma revisão profunda da própria narrativa pessoal.

2. Necessidade de validação grupal – Verdade versus lealdade

«Überzeugungen sind gefährlichere Feinde der Wahrheit als Lügen. » — Friedrich Nietzsche

(As crenças são mais perigosas inimigas da verdade do que as mentiras.)

Desde há muito que a pertença a grupos — políticos, religiosos, culturais ou, mais recentemente, digitais — constitui um elemento central da identidade individual. Nas sociedades contemporâneas, porém, a pressão para alinhar com o grupo e sustentar o seu ideário tende a sobrepor-se, e frequentemente a prevalecer, sobre a evidência factual.

Disso encontramos crescentes exemplos em contextos polarizados, como os políticos ou religiosos, onde membros de um partido, facção ou movimento defendem afirmações manifestamente imprecisas ou factualmente incorrectas, ainda que contrariadas por dados públicos evidentes, apenas por se tratarem de crenças de natureza nuclear para o grupo ou terem sido proferidas por figuras de referência do seu campo.

O custo social da dissidência interna afigura-se, assim, frequentemente superior ao da distorção factual e perante tal conflito, observamos que o indivíduo tende a preservar a pertença em detrimento da verdade. A lealdade ao grupo sobrepõe-se à fidelidade ao real.

3. Recusa de limites – Verdade versus conforto psicológico

«Facts do not cease to exist because they are ignored. » — Aldous Huxley

(Os factos não deixam de existir só por serem ignorados.)

Há verdades que confrontam o indivíduo com limites materiais: económicos, como no caso da evidente escassez de recursos finitos; ambientais, como sucede em tantas situações — infelizmente crescentes — de degradação ecológica; demográficos, como aqueles que se prendem com o envelhecimento populacional ou com fenómenos de migração em larga escala; ou biológicos, atinentes às próprias condições intrínsecas da natureza humana.

Observa-se, por isso, em diversos debates públicos, à resistência emocional por parte de actores relevantes em aceitar dados que contrariem expectativas optimistas ou narrativas de natureza ideológica ou identitária. E tal recusa não se limita ao plano argumentativo, antes traduzindo-se, frequentemente, no adiamento de decisões e reformas estruturais cuja urgência é evidente, precisamente porque o reconhecimento do problema implicaria um custo imediato — material, político ou, pior, simbólico.

A verdade surge, neste contexto, não como uma realidade a interpretar e integrar, mas como uma ameaça ao conforto psicológico, perante a qual, ao invés de se aceitar, se opta pela recusa — ainda que à custa de um agravamento futuro das consequências daí decorrentes.

4. Apelo emocional no discurso político e mediático – Verdade versus emoção

«Le cœur a ses raisons que la raison ne connaît point. » — Blaise Pascal

(O coração tem razões que a própria razão desconhece.)

As campanhas políticas contemporâneas recorrem frequentemente a slogans simplificadores e a narrativas mobilizadoras, substituindo o debate programático detalhado por mensagens identitárias de forte carga emocional.

Sem necessidade de recorrer ao panorama nacional — onde exemplos não faltariam —, basta recordar o referendo do Brexit no Reino Unido, em 2016. Nesse contexto, análises económicas complexas competiam com slogans de elevada eficácia simbólica, como “Take Back Control”, cuja força mobilizadora se revelou incomparavelmente superior à densidade técnica dos dados. Dinâmicas semelhantes – algumas de clamorosa actualidade – são observáveis noutras realidades políticas, designadamente nos Estados Unidos, com palavras de ordem de análogas natureza e eficiência.

A emoção não simplifica, apenas; também mobiliza, enquanto a verdade factual, pelo contrário, exige tempo, contexto e disposição para a complexidade — recursos escassos num espaço público orientado para o impacto imediato.

O padrão repete-se: a emoção galvaniza; a estatística raramente entusiasma.

5. Sobrecarga informativa e exaustão cognitiva – Verdade versus saturação

«I have become comfortably numb. » — Pink Floyd

(Tornei-me confortavelmente dormente.)

O volume de informação disponível excede largamente a capacidade individual de processamento e verificação. Em momentos de crise ou de grande impacto — atentados, crises sanitárias, processos eleitorais — circulam, em poucas horas, milhares de mensagens com conteúdos frequentemente contraditórios.

Acresce que, na economia digital, as plataformas digitais de uso massivo operam segundo a lógica fundamental da maximização do tempo de permanência e da interacção dos utilizadores, pelo que conteúdos que geram indignação, choque ou medo tendem a difundir-se mais rapidamente do que análises equilibradas ou informação rigorosa e devidamente fundamentada.

A arquitectura algorítmica favorece, assim, o sensacional e o polarizador, não por uma intenção ideológica intrínseca, mas por imperativos de eficiência económica e a verdade tende a ser preterida em favor do que melhor capta e retém a atenção.

O fenómeno das fake news (contradictio in adjecto?) não radica apenas na mentira deliberada, mas também na saturação informativa – fala-se já em “infobesidade” – que inunda o espaço público. O excesso gera ruído, e este dificulta a distinção entre o verdadeiro e o falso.

Perante este cenário, muitos indivíduos adoptam um cepticismo generalizado — “nada é fiável” — ou, alternativamente, aderem, com crescente indiferença perante a verdade, às fontes que confirmam predisposições prévias. A saturação não conduz necessariamente a maior esclarecimento, mas – e será esta a ultima ratio do fenómeno – antes a uma forma subtil de desistência cognitiva.

Não se trata, já, de rejeitar a verdade, mas de desistir de a procurar. E se, até aqui, a sua erosão parecia resultar sobretudo de limitações humanas e dinâmicas sociais, o desenvolvimento tecnológico recente introduz um factor qualitativamente distinto.

6. Simulação tecnológica e manipulação do real – Verdade versus hiper-realidade

«Nous vivons dans un monde où il y a de plus en plus d’information et de moins en moins de sens.» — Jean Baudrillard

(Vivemos num mundo onde há cada vez mais informação e cada vez menos significado.)

O desenvolvimento recente de tecnologias de manipulação digital, designadamente os chamados deepfakes (perfeita hipérbole para uma verosimilhança perversa) introduz uma nova dimensão no problema contemporâneo da verdade: a possibilidade de fabricar evidência aparentemente irrefutável.

Muitos de nós temos vindo a ser confrontados com imagens, vídeos ou registos sonoros, tradicionalmente percepcionados como suportes privilegiados de verificação factual — e até como meios idóneos de prova — artificialmente construídos com um grau de realismo que desafia, se não inviabiliza, a distinção entre o autêntico e o fabricado.

Não se trata apenas de mais um instrumento de desinformação, mas de uma alteração qualitativa do próprio estatuto da prova: aquilo que se vê ou se ouve deixa de constituir garantia de verdade.

Neste contexto, a questão já não é apenas saber o que é verdadeiro ou falso mas saber a que critérios fiáveis podemos recorrer para os distinguir. As sociedades contemporâneas colocaram-se perante um problema de natureza meta-analítica: deixou de estar em causa a sua capacidade de contestar a verdade, mas a própria possibilidade de a distinguir. Quando o verdadeiro pode ser tecnicamente replicado com perfeita verosimilhança, a verdade, tornando-se estruturalmente vulnerável à sua própria simulação, perde relevância – e, com ela, valor.

7. Publicidade e normalização da distorção – Verdade versus persuasão

«In a world that really is topsy-turvy, the true is a moment of the false. » — Guy Debord

(Num mundo que está mesmo de pernas para o ar, o verdadeiro é um momento do falso.)

A publicidade contemporânea constitui um dos exemplos mais evidentes da banalização da distorção factual. Como observava David Ogilvy, “The consumer isn’t a moron; she is your wife” (O consumidor não é um idiota; é a tua mulher) — irónica advertência que, longe de eliminar a distorção, parece antes evidenciar a sua crescente sofisticação.

Longe de se limitar à valorização legítima de produtos ou serviços, a publicidade transformou-se, em muitos casos, num dispositivo sistemático de produção de mensagens cuja correspondência com a realidade parece ser, no mínimo, questionável.

Desde a apresentação de produtos alimentares como saudáveis, apesar de evidência em sentido contrário, passando pela artificial caracterização de bens de consumo ou até dos seus não comprovados benefícios a comunicação publicitária opera frequentemente numa zona intermédia entre a omissão, o exagero e a reconfiguração do real.

O aspecto mais relevante, porém, não reside apenas na existência dessa distorção, mas na sua aceitação generalizada. Longe vai o nosso sorriso complacente perante o dolus bonus da varina que apregoava “sardinha viva”. Hoje, consumidores e produtores participam, de forma tácita, numa espécie de ficção partilhada, na qual a veracidade cede lugar à valorização de uma enaltecida eficácia persuasiva.

A distorção deixa, assim, de ser percebida como desvio e passa a integrar a própria lógica do sistema. A verdade não é recusada — apenas se torna irrelevante. E, nesse contexto, a comunicação deixa de ser um meio de esclarecimento para se afirmar, claramente, como instrumento de influência.

8. Primado da ideologia sobre o dado empírico – Verdade versus ideologia

«The Party told you to reject the evidence of your eyes and ears. It was their final, most essential command.» — George Orwell

(O Partido mandou-te rejeitar a evidência dos teus olhos e ouvidos. Era a sua ordem final, a mais essencial.)

Em certos sectores da academia contemporânea, bem como no espaço público que com ela interage, observa-se uma tendência crescente para subordinar o dado empírico a construções de natureza ideológica, particularmente em matérias relacionadas com identidade, género, pertença cultural ou nacionalidade.

Sem pôr em causa a legitimidade do debate filosófico ou normativo — que importa preservar — a questão assume contornos mais exigentes quando categorias analíticas fundadas em disciplinas como a biologia, a demografia ou a geografia são reconfiguradas exclusivamente à luz de pressupostos ideológicos prévios.

O debate em torno de questões aparentemente elementares — designadamente as atinentes à definição de categorias fundamentais da experiência humana — ilustra bem este fenómeno: a dificuldade em alcançar consensos mínimos não decorre da ausência de conhecimento, mas da resistência em reconhecer a primazia de critérios verificáveis sempre que estes colidem com determinadas construções identitárias.

Nestes casos, não assistimos a uma mera refutação da verdade; antes, à sua reinterpretação ou deslocação para um plano em que a coerência interna da narrativa prevalece sobre a sua correspondência com a realidade empírica.

9. Tolerância à inverdade no discurso político – Verdade versus indiferença

«As compared with last year there was more of everything… except disease, crime and insanity.» — George Orwell, 1984

(Por comparação com o ano passado, havia mais de tudo (…) excepto doença, crime e insanidade.)

Um dos traços mais inquietantes das sociedades contemporâneas reside na crescente tolerância — quando não indiferença — perante a falta de verdade no discurso político.

Depois da generalizada aceitação do incumprimento de promessas eleitorais, fenómeno há muito conhecido e, em certa medida, estrutural à prática política, passámos a também a consentir na banalização de afirmações factualmente incorrectas, proferidas com uma segurança que roça o cinismo, e que raramente encontram consequências proporcionais no plano político ou eleitoral.

A reacção pública a tais desvios revela uma progressiva dessensibilização: a exposição repetida à inverdade gera habituação, e a habituação conduz à indiferença. A mentira deixa de escandalizar para passar a integrar o ruído de fundo do discurso público.

Mais grave ainda, essa indiferença não é neutra. Ao não penalizar a distorção factual, o espaço público passa a recompensar, directa ou indirectamente, a sua utilização como instrumento retórico. A verdade perde, assim, não apenas centralidade normativa, mas também relevância funcional no próprio exercício da actividade política.

10. Construção de modelos simbólicos e cultura da aparência – Verdade versus representação

«Quando quis tirar a máscara,

Estava pegada à cara.

Quando a tirei e me vi ao espelho,

Já tinha envelhecido.»

— Álvaro de Campos

As sociedades contemporâneas revelam uma particular propensão para eleger como referências figuras cuja visibilidade não assenta necessariamente em mérito substantivo, mas na capacidade de captação de atenção e projecção mediática. Celebridades, influenciadores digitais, figuras do entretenimento têm vindo a afirmar-se como modelos aspiracionais, em particular junto das gerações mais jovens, assomando-lhes diaria e repetidamente à janela virtual.

Não está em causa a legitimidade do reconhecimento público do talento ou do sucesso. O que se observa, porém, é a progressiva valorização de representações cuidadosamente construídas, muitas vezes dissociadas da realidade pessoal ou das competências efectivas dos próprios. A identidade pública tende a transformar-se numa narrativa performativa, por vezes hiperbólica, ajustada às voláteis expectativas do público e aos mecanismos de visibilidade das plataformas.

Neste contexto, a aparência sobrepõe-se à substância. A imagem — artificialmente construída e frequentemente filtrada, editada ou encenada — adquire uma esmagadora primazia sobre a experiência vivida, e os sinais exteriores passam a valer mais do que os processos que os sustentariam. O resultado é a difusão de modelos que, não sendo necessariamente falsos em sentido estrito, assentam numa forma de representação que indelevelmente dilui a fronteira entre autenticidade e construção.

A cultura da visibilidade tende, assim, a privilegiar o que é exibível sobre o que é verdadeiro e, nesse processo, abandona-se a verdade como critério de referência, perante a crescente eficácia da mera imagem e a lógica crua da adesão.

Se, considerados isoladamente, estes fenómenos poderiam ainda ser entendidos como disfunções próprias de sociedades complexas, na sua convergência parecem indiciar algo de mais profundo e preocupante: não apenas a erosão da verdade, mas a transformação do seu próprio estatuto no espaço público.

III. DA EROSÃO DA VERDADE À ERA DA PÓS-VERDADE

“Verdade, Amor, Razão, Merecimento,

Qualquer alma farão segura e forte;

Porém Fortuna, Caso, Tempo, e Sorte,

Têm do confuso mundo o regimento.”

— Luís de Camões

Neste contexto multifactorial, emerge aquilo que foi designado como “pós-verdade”, termo amplamente difundido a partir de 2016 e associado a fenómenos como a eleição de Donald Trump ou o referendo do Brexit.

A pós-verdade não significa ausência de factos, mas a perda da sua centralidade normativa. A verdade parece ter deixado de ser horizonte comum para se tornar recurso estratégico, em que emoções, pertenças identitárias e eficácia comunicacional se afirmam como critérios decisivos.

Não nos encontramos perante um mero acidente moral, mas perante um fenómeno estrutural, alimentado por disposições psicológicas, incentivos tecnológicos e dinâmicas políticas. O “horror à verdade” não se manifesta apenas na mentira deliberada, mas na construção de ambientes onde a verdade se torna incómoda, secundária ou desvantajosa.

Se, para o pensamento clássico, a verdade ordenava o intelecto e a vida moral, e se a tradição cristã lhe conferiu densidade existencial e humana, a modernidade deslocou progressivamente esse centro, subtraindo-lhe a dimensão de fundamento estável para se tornar problema, interpretação ou construção. Tal deslocação trouxe ganhos — maior vigilância crítica e acrescida consciência histórica – mas, importa reconhecê-lo, também contribuiu para fragilizar o solo comum que sustentava a ideia de verdade como realidade partilhada.

A cultura contemporânea vive, assim, numa tensão paradoxal: reivindica a verdade — transparência, dados, provas — e, simultaneamente, resiste à sua autoridade quando esta impõe limites. O resultado não é apenas a normalização da mentira; é a erosão do estatuto normativo da verdade, que deixa de ser medida para se tornar instrumento.

A literatura, porém, pressentiu desde cedo este desconforto. Em Os Lusíadas, Luís de Camões celebra o heroísmo lusitano, mas não prescinde da denúncia incómoda, através do extraordinário Velho do Restelo, de uma certa embriaguez colectiva. A verdade assume ali a condição de limite — e, por isso mesmo, a dimensão de algo que poucos desejam ouvir.

Séculos depois, Fernando Pessoa escreve: «O mito é o nada que é tudo». A fragmentação do sujeito moderno traduz a dificuldade em habitar uma verdade una: multiplicam-se máscaras e perspectivas, e o drama deixa de ser apenas o erro de interpretação da realidade, para se tornar escolha entre uma multiplicidade dispersa de conteúdos.

A alienação contemporânea já não é apenas psicológica, mas também de natureza epistemológica. Deixou de estar em causa contestar a verdade, mas sim perder a capacidade de a escutar ou, até, de a compreender. A procura e o confronto cederam à anestesia e à dormência. O “horror à verdade” assume, assim, uma forma mais subtil: a indiferença.

Talvez, então, a questão decisiva não seja saber se pretendemos regressar a uma verdade primordial, una e íntegra, mas se estamos ainda dispostos a suportar o incómodo da sua exigente presença, que nos corrige e limita.

Importa questionar, particularmente face à complexidade geopolítica actual, se uma civilização, podendo sobreviver à ignorância e até à mentira, conseguirá sobreviver à indiferença perante a própria possibilidade de verdade. Talvez esta inquietação nos ajude a compreender por que razão, há dois milénios, alguém ensinava que o seu reino, o da Verdade, não pertence a este mundo.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

domingo, 29 de março de 2026

Herança sem voz

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 28 de março de 2026

Herança sem voz

Os gregos de hoje praticamente não estudam seus próprios filósofos. Mesmo assim, somos todos gregos. Dennys Xavier para a Crusoé:

Os gregos de hoje praticamente não estudam seus próprios filósofos.

Tenho ouvido isso durante minha atual viagem à Grécia. No começo, isso me pareceu um exagero. Depois, incômodo com arestas. Por fim, foi uma revelação.

Não é uma constatação dita com orgulho, nem com vergonha. Soa mais como um fato banal, conformado, desses que emergem numa conversa qualquer e seguem adiante.

Ainda assim fico com aquilo na cabeça por dias… talvez porque contrarie uma expectativa silenciosa.

A tradição que moldou parte decisiva do pensamento ocidental não desapareceu do mundo, mas desapareceu da vida cotidiana de quem a produziu.

E o curioso é que isso não acontece só aqui. Em quase todo lugar, até mesmo entre pessoas muito instruídas, Sócrates, Platão ou Aristóteles aparecem mais como nomes familiares do que como presenças reais.

Estão por perto, mas de maneira difusa, meio decorativa. Permanecem como referências smbólicas, raramente como interlocutores, merecedores de escuta crítica.

Mesmo assim, continuamos pensando com eles. Mesmo sem saber.

A ideia de discutir o que é justiça, por exemplo, não surgiu naturalmente em qualquer sociedade humana.

Ela precisou ser inventada como problema. A noção de que a vida pode ser examinada com rigor, debatida em público, posta em questão sem apelo imediato à autoridade religiosa ou ao costume herdado, também precisou surgir em algum momento.

Isso não acontece sozinho, no automático. Alguém começa. Alguém insiste. Alguém transforma a pergunta em hábito.

Hoje essas coisas parecem tão evidentes que raramente lembramos que tiveram origem, um momento inicial no tempo.

Herdamos uma forma de pensar e passamos a tratá-la como se fosse apenas o modo natural de pensar.

A lógica, tão maltratada em tempos de barbárie das redes sociais, virou ferramenta tácita. A ética virou vocabulário cotidiano. A política virou cenário inevitável.

O passado permanece ativo, mas recoberto, como se tivesse sido absorvido pelo ar.

Na Grécia contemporânea, pelo menos nas conversas que tenho, percebe-se uma relação ambígua com esse passado.

Existe orgulho, claro. Mas também distância. Às vezes, uma espécie de saturação silenciosa, como se o peso simbólico daquela herança fosse grande demais para acompanhar a vida comum.

Em outros momentos, aparece algo mais próximo de recusa, ligado a disputas ideológicas recentes, a mudanças no sistema educacional, a tentativas de redefinir o que significa ser moderno num país constantemente comparado com sua própria antiguidade.

Essa recusa não precisa ser estridente para produzir efeitos profundos. Basta que a filosofia deixe de ser considerada necessária. Basta que ela se torne um tanto dispensável. Basta que passe a parecer ornamental.

Aos poucos, a familiaridade com esses textos se retrai, e com ela se retrai também a memória de que certas perguntas/respostas foram conquistadas com esforço.

O que chama atenção é a velocidade discreta com que isso se espalha.

Não se trata de um fenômeno exclusivamente grego, preciso sublinhar. Em muitos países, a filosofia (especialmente a antiga) vai sendo empurrada para as margens da formação comum, substituída por conteúdos considerados mais úteis, mais práticos, mais alinhados com exigências imediatas.

A transformação acontece sem escândalo. Quando alguém percebe, ela já está instalada.

Mesmo assim, continuamos falando em democracia como se fosse uma palavra autoexplicativa.

Continuamos esperando que decisões públicas possam ser justificadas racionalmente (torpe ilusão).

Continuamos supondo que existe algo como responsabilidade individual diante da vida coletiva.

Ora, nada disso surgiu espontaneamente. Tudo foi pensado, discutido, disputado em algum momento por pessoas cujos nomes hoje raramente aparecem fora de contextos especializados.

Talvez por isso essa observação feita aqui tenha ficado comigo, latente.

Não parece apenas um detalhe local.

Soa mais como um pequeno sinal de um processo maior, algo que atravessa fronteiras com facilidade e quase não encontra resistência porque não provoca choque imediato.

Um esquecimento lento raramente chama atenção.

Existe também um elemento ideológico nesse movimento.

Em certos ambientes intelectuais, o passado clássico é tratado com desconfiança, como se fosse inseparável de hierarquias antigas, de exclusões históricas ou de projetos políticos que já não queremos repetir.

Parte dessa crítica é compreensível. Ainda assim, quando a reação se transmuta em afastamento sistemático, perde-se a possibilidade de reler essa herança com liberdade.

O contato desaparece antes da interpretação.

E então ocorre algo curioso: continuamos vivendo dentro de estruturas mentais herdadas de filósofos que já não lemos.

Seguimos discutindo questões que eles formularam com precisão surpreendente, mas como se estivéssemos começando do zero. A sensação de novidade cresce ao mesmo tempo que a memória diminui.

Talvez seja justamente por isso que ouvir gregos falarem com naturalidade sobre a ausência desses autores na formação atual produz um efeito tão persistente em mim.

Um sinal discreto de que uma tradição inteira pode continuar operando mesmo quando deixa de ser reconhecida como tradição.

E quando isso acontece, algo se desloca sem fazer barulho. Continua difícil dizer exatamente o quê.

Talvez seja apenas a maneira como passamos a habitar as perguntas que recebemos.

Talvez seja a forma como deixamos de perceber que elas vieram de muito longe.

Talvez seja só a impressão de que seguimos avançando enquanto esquecemos quem abriu o caminho antes de nós.

De todo modo, fica o gosto amargo de uma perda: gregos que não conhecem seu glorioso passado, mundo que desconhece o passado glorioso dos gregos… enquanto urge reconhecer, segundo algo já dito: de uma forma ou de outra, nós, ocidentais, somos todos gregos.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sexta-feira, 27 de março de 2026

Ser infeliz e querer morrer justifica o Estado tirar a vida de alguém?

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 26 de março de 2026

Ser infeliz e querer morrer justifica o Estado tirar a vida de alguém?

O caso da espanhola Noelia Castillo, paraplégica depois de tentativa de suicídio, exemplifica as complexidades éticas e humanas da eutanásia. Vilma Gryzinski:

Todo mundo entende que alguém com um câncer terminal, com poucas e terríveis semanas de vida pela frente, peça para partir e encerrar o sofrimento. Mas e o sofrimento mental, doenças psíquicas paralisantes, um desejo profundo de morrer, são justificativas válidas para a eutanásia legal? Noelia Castillo teve sua vida encerrada hoje, aos 25 anos. Era evidente que vivia em dor emocional, com tratamento psiquiátrico desde os 13 anos, dois estupros – um ex-namorado e outro praticado por três jovens, segundo relatava -, e uma tentativa de suicídio que a deixou paraplégica ao pular de uma janela do quinto andar, diante do pai, que perdeu a batalha legal para conservar a vida da filha, rompida com ele por causa disso.

Quem estava certo, o pai ou a filha? O caso é complexo justamente porque as duas partes têm argumentos fortes.

A eutanásia em si já é uma questão repleta de dilemas éticos e eles só aumentam quando está em questão a saúde mental. Uma depressão é obviamente diferente de um tumor cancerígeno. Uma pessoa que quer morrer através de instrumentos da medicina poderia ser curada de seu sofrimento psíquico? É certo usar o poder do Estado para encerrar sua vida? O individualismo do mundo contemporâneo provoca distorções absurdas ou é um argumento sólido em favor do “direito de morrer”?

A revista The Atlantic publicou há duas semanas uma reportagem com o médico holandês Menno Oosterhoff, um homem de setenta anos que matou legalmente pela primeira vez uma jovem de 18 anos, em outubro de 2022. Diagnosticada com transtorno obsessivo-compulsivo, distúrbio alimentar e autismo, ela queria morrer. O médico tinha autoridade para conceder o seu desejo. A eutanásia é legal na Holanda desde 2002.

‘MENTALMENTE TERMINAL’

Não deveria ele ter tratado a doença mental da jovem paciente? Colaborar para a sua morte não é uma forma de aceitar os argumentos em favor do suicídio que os médicos foram treinados para combater? Uma jovem de 18 anos está no pleno controle de suas capacidades para pedir para morrer – e ser atendida?

A conclusão de Oosterhoff que permitiu o suicídio assistido da sua primeira paciente foi que ela era “mentalmente terminal”. É uma tremenda confissão de derrota.

São casos assim que dão argumentos aos adversários da eutanásia – e é possível sê-lo mesmo se não for por motivo religioso nem com base na convicção que “Deus dá e Deus tira a vida”. A vida, revestida de santidade da perspectiva cristã, também pode ser encarada do ponto de vista humanista como um valor único e inquebrantável, o mais fundamental dos direitos humanos.

Na Holanda, uma criança de doze anos pode dizer que quer morrer por motivos de saúde mental e procurar ajuda para isso. Se os pais concordarem, terá início o processo que culmina com a eutanásia. Segundo os dados da Atlantic, houve 9 958 casos de eutanásia na Holanda em 2024. Desses, 86% foram por doenças físicas. Motivos psiquiátricos levaram a 675 casos de eutanásia entre 2020 e 2024.

SUPERIODADE MORAL

As facilidades para a eutanásia são maiores ainda no Canadá. Os números oficiais alcançam até 2024 e listam mais de 76 mil casos desde a legalização do suicídio assistido, em 2016. De cada vinte mortes no país, uma é por suicídio assistido, obviamente um número desproporcional que gera uma terrível impressão: em vez de tratar pessoas que se sentem sozinhas, abandonadas ou sem saída, o Estado aceita a opção de encerrar suas vidas. Até a perda de domicílio passou a ser vista como um motivo razoável para o suicídio assistido.

Casos como o de Noelia Castillo também passam uma mensagem extremamente negativa para vítimas de eventos devastadores: é melhor morrer do que procurar tratamento para sair do estado em que são precipitadas. Muitos sobreviventes relatam, ao contrário, que sentem a vitória do impulso da vida quando superam seus traumas, mesmo ao preço de enormes batalhas.

Não deixa de ser um fracasso não só das profissões médicas, mas de toda a civilização, quando o sofrimento psíquico é admitido como razão para tirar a vida legalmente de uma pessoa. Para seus defensores, claro, é uma vitória civilizacional. A maioria das pessoas fica dividida entre os dois sentimentos, com aqueles situados nos extremos em geral dotados de um sentimento de superioridade moral.

Noelia Castillo escolheu morrer sozinha na casa de repouso onde vivia, brigada com a família, com um vestido bonito e quatro fotos remetendo a momentos felizes de sua infância.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com 

quinta-feira, 19 de março de 2026

Reflexões sobre a morte

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 19 de março de 2026

Reflexões sobre a morte

Diz-se por vezes que ninguém pode conceber a sua própria inexistência, e que, portanto, não podemos realmente acreditar que a nossa existência terminará com as nossas mortes. Mas isto não parece verdadeiro. Thomas Nagel, publicado pela Crítica:

Todas as pessoas morrem, mas nem todas concordam acerca do que é a morte. Algumas acreditam que sobreviverão depois da morte dos seus corpos, e que vão para o Céu, ou para o Inferno, ou para qualquer outro sítio, tornando-se espíritos, ou que voltam à Terra num corpo diferente, talvez nem sequer como seres humanos. Outras acreditam que deixarão de existir — que o eu se extingue quando o corpo morre. E entre aquelas que acreditam que deixarão de existir, algumas pensam que isso é um facto terrível, e outras não.

Diz-se por vezes que ninguém pode conceber a sua própria inexistência, e que, portanto, não podemos realmente acreditar que a nossa existência terminará com as nossas mortes. Mas isto não parece verdadeiro. É claro que não consegues conceber a tua inexistência a partir de dentro. Não podes conceber como seria a aniquilação total, porque não seria como nada, a partir de dentro. Mas, nesse sentido, não podes conceber o que seria ser completamente inconsciente, mesmo temporariamente. O facto de não poderes conceber isso a partir de dentro não quer dizer que não o possas de todo conceber: tens apenas que pensar em ti a partir de fora, como se tivesses levado uma pancada que te pusesse inconsciente, ou como se estivesses profundamente adormecido. E apesar de teres de estar consciente para pensar nisso, isso não quer dizer que estejas a pensar em ti como se estivesses consciente.

O mesmo se passa com a morte. Para imaginar a tua própria aniquilação tens que pensar nela a partir do exterior — tens que pensar no corpo da pessoa que és, mas sem vida nem experiência. Para imaginares qualquer coisa não é necessário imaginares como tu te sentirias ao ter essa experiência. Quando imaginas o teu próprio funeral, não estás a imaginar a situação impossível de estar presente no teu próprio funeral: estás a imaginar como seria o funeral visto pelos olhos de outra pessoa. É claro que estás vivo quando pensas na tua própria morte, mas isso não é mais problemático do que estar consciente quando te imaginas inconsciente.

A questão da sobrevivência depois da morte relaciona-se com o problema da mente-corpo. Se o dualismo for verdadeiro, e cada pessoa consistir numa alma e num corpo ligados entre si, conseguimos compreender como a vida depois da morte poderia ser possível. A alma teria de ter a capacidade de existir por si própria e de ter uma vida mental sem o auxílio do corpo: nesse caso, podia deixar o corpo quando este morresse, em vez de ser destruída. Não seria capaz de ter uma vida mental que incluísse acções nem percepções sensoriais, pois estas dependem da ligação ao corpo (a não ser que se ligasse a um corpo novo), mas poderia ter um tipo diferente de vida interior, talvez dependendo de causas e influências diferentes — como a comunicação directa com as outras almas, por exemplo.

Afirmei que a vida depois da morte pode ser possível se o dualismo for verdadeiro. Mas também pode não ser possível, porque a sobrevivência da alma, e a persistência da sua consciência, podem depender inteiramente do apoio e do estímulo que recebem do corpo no qual a alma está alojada — e a alma pode não ser capaz de mudar de corpo.

Mas se o dualismo não for verdadeiro, e os processos mentais se desenrolam no cérebro e são inteiramente dependentes do funcionamento biológico do cérebro e do resto do organismo, então a vida depois da morte do corpo não é possível. Ou, para ser mais exacto, a vida mental após a morte requereria a restauração da vida biológica, da vida física: requereria que o corpo voltasse de novo à vida. Isto pode vir a ser tecnicamente possível no futuro: pode vir a ser possível congelar os corpos das pessoas quando morrem, e, por qualquer processo médico avançado, curá-las mais tarde do que tinham, trazendo-as assim de volta à vida.

Mesmo que isto se torne possível, ainda restaria a questão de saber se a pessoa que voltou à vida vários séculos mais tarde seria a mesma, ou se seria outra pessoa qualquer. Talvez acontecesse que, se fosses congelado depois da morte e o teu corpo fosse mais tarde reanimado, não serias tu a acordar, mas apenas alguém muito parecido contigo, com memórias da tua vida anterior. Mas mesmo que se torne possível a reanimação depois da morte da mesma pessoa no mesmo corpo, isso não é o que normalmente se quer dizer com a vida depois da morte. Vida depois da morte quer normalmente dizer vida sem o corpo antigo.

É difícil saber como poderíamos decidir se temos ou não almas separáveis. Todos os dados mostram que, antes da morte, a vida consciente depende inteiramente do que acontece ao sistema nervoso. Se seguirmos apenas a observação habitual, em vez de seguirmos doutrinas religiosas ou alegações espiritualistas de comunicação com os mortos, não há razão para acreditar numa vida depois da morte. Será esta, contudo, uma razão para acreditar que não há vida depois da morte? Penso que sim, mas outras pessoas podem preferir permanecer neutrais.

Outras pessoas ainda podem acreditar na vida depois da morte com base na fé, dada a ausência de provas. Por mim, não compreendo completamente como é possível este tipo de crença inspirada na fé, mas é evidente que algumas pessoas podem consegui-la, e até mesmo achá-la natural.

Abordemos agora o outro aspecto do problema: como devemos sentir-nos relativamente à morte. É uma coisa boa, uma coisa má, ou uma coisa neutra? Estou perguntar como será razoável sentires-te em relação à tua própria morte — e não tanto em relação à morte de outras pessoas. Deves encarar a perspectiva da morte com terror, pena, indiferença, ou alívio?

É óbvio que isso depende do que é a morte. Se há vida depois da morte, a perspectiva será triste ou alegre consoante o sítio para onde a tua alma irá. Mas a questão difícil e filosoficamente mais interessante é saber como nos devemos sentir se a morte for o fim. Deixar de existir é uma coisa terrível?

As pessoas divergem quanto a isto. Algumas dizem que a inexistência, não sendo nada, não pode ser nem boa nem má para a pessoa morta. Outras dizem que ser aniquilado, ter o curso futuro possível da tua vida completamente interrompido, é o pior de todos os males, mesmo que todos tenhamos que o enfrentar. Há ainda outras pessoas que dizem que a morte é uma bênção — não se vier muito cedo, é claro —, porque seria insustentavelmente entediante viver para sempre.

Se a morte sem nada a seguir é algo bom ou mau para a pessoa que morre, tem de ser um bem ou um mal negativo. Uma vez que a morte nada é em si mesma, não pode ser agradável nem desagradável. Se a morte é boa, então tem de ser porque é a ausência de algo mau (como o tédio ou a dor); se é má, tem de ser porque é a ausência de algo bom (como experiências interessantes ou agradáveis).

Mas também pode parecer que a morte não pode ter qualquer valor, positivo ou negativo, porque alguém que não existe não pode ser nem beneficiado nem prejudicado: afinal de contas, mesmo um bem ou mal negativo tem de acontecer a alguém. Mas, reflectindo melhor, isto não é realmente um problema. Podemos dizer que a pessoa que existia foi beneficiada ou prejudicada pela morte. Por exemplo, supõe que ela fica presa num edifício em chamas, e que uma trave lhe cai na cabeça, matando-a imediatamente. Em resultado disso, ela não sofre a agonia de morrer queimada. Parece que neste caso podemos dizer que ela teve sorte por ter uma morte indolor, uma vez que se evitou uma coisa pior. Nestas circunstâncias, a morte foi um bem negativo, porque ela foi salva do mal positivo que teria sofrido nos cinco minutos seguintes. E o facto de a pessoa não estar viva para gozar o bem negativo não quer dizer que não seja de todo um bem para ela. «Ela» significa a pessoa que estava viva e que teria sofrido se não tivesse morrido.

O mesmo tipo de coisa se poderia dizer acerca da morte como um mal negativo. Quando morres, acabam todas as coisas boas na tua vida: não há mais refeições, nem filmes, viagens, conversas, amor, trabalho, livros, música, ou qualquer outra coisa. Se essas coisas tivessem sido boas, a sua ausência é má. É claro que não sentirás a sua falta: a morte não é como estar de castigo fechado sozinho num quarto. Mas o fim de todas as coisas boas na vida, devido ao fim da própria vida, parece claramente um mal negativo para a pessoa que estava viva e que agora está morta. Quando morre alguém que conhecemos, temos pena não só por nós próprios mas por ela, porque hoje não pode ver o brilho do Sol, ou sentir o aroma do pão na torradeira.

Quando pensas na tua própria morte, o facto de todas as coisas boas na vida irem acabar é certamente um motivo para sentires desgosto. Mas isto não é tudo, ao que parece. A maior parte das pessoas querem prolongar aquilo de que gostam na vida mas, para algumas, a perspectiva da inexistência é em si assustadora — assustadora de uma maneira que não se pode explicar adequadamente pelo que se disse até agora. A ideia de que o mundo continuará sem ti, que te tornarás nada, é muito difícil de aceitar.

A razão de ser disso não é claro. Todos aceitamos o facto de ter existido um tempo anterior ao nosso nascimento, no qual ainda não existíamos — portanto, por que razão haveria de perturbar-nos tanto a perspectiva da inexistência depois da nossa morte? Mas, de algum modo, o sentimento não é o mesmo nos dois casos. A perspectiva da inexistência é assustadora, pelo menos para muitas pessoas — assustadora de uma maneira que a inexistência no passado não pode ser.

O medo da morte é enigmático de uma maneira que o desgosto pelo fim da vida não é. É fácil compreender que podemos querer ter mais vida, podemos querer ter mais das coisas que a vida inclui, o que implica ver a morte como um mal negativo. Mas como pode a perspectiva da tua própria inexistência ser alarmante de uma maneira positiva? Se realmente deixamos de existir com a morte, então nada há que possamos esperar; mas então como pode haver algo de que possamos ter medo? Se pensarmos logicamente sobre isso, parece que só devemos ter medo da morte se viermos a sobreviver-lhe, sofrendo com isso talvez uma transformação terrível. Mas este argumento não impede muitas pessoas de pensar que a aniquilação é uma das piores coisas que lhes pode acontecer.

Thomas Nagel

Que Quer Dizer Tudo Isto? (Lisboa: Gradiva, 1995), Cap. 9.

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domingo, 22 de fevereiro de 2026

Luc Ferry, filósofo francês


Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 22 de fevereiro de 2026

Luc Ferry, filósofo: ‘Os pais devem absolutamente limitar o uso das redes sociais pelos seus filhos’.

O filósofo francês, que estará no Brasil em maio para o SP Innovation Week, critica o consumo acelerado e o vício nas plataformas digitais. Reportagem do Estadão:

Ele foi ministro da Educação da França, é um dos filósofos contemporâneos mais lidos da Europa e, desde a publicação do livro “Aprendendo a Viver”, tornou-se uma referência para quem busca na filosofia um guia para atravessar a existência de forma mais serena. Em maio, Luc Ferry desembarca presencialmente no Brasil como um dos palestrantes do SP Innovation Week (SPIW).

O evento de inovação, tecnologia e negócios será realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Mercado Livre Arena Pacaembu e na Faap, e a venda de ingressos começa nesta segunda-feira, 23.

Em um dos 32 palcos do festival, que acontece entre os dias 13 e 15 de maio, Ferry vai discutir justamente aquilo que mais inquieta o ser humano contemporâneo: como viver em meio ao excesso de informações e à obsessão pela felicidade vendida como produto nas mídias sociais?

Em entrevista à Coluna, Ferry começa por desfazer um equívoco que, segundo ele, compromete o próprio entendimento do pensamento filosófico: “Vivemos hoje numa confusão inquietante que impede a compreensão da filosofia: aquela que consiste em misturar permanentemente valores espirituais e valores morais”.

E esclarece: “A moral, em qualquer sentido que se entenda, é o respeito pelo outro, pelos direitos do homem, com, além disso, a benevolência, a generosidade. Conduzir-se moralmente é respeitar o outro e querer-lhe ativamente o bem”.

Mas, diz ele, ainda que vivêssemos numa sociedade perfeitamente justa, isso não nos livraria da angústia fundamental.

“Se nós aplicássemos perfeitamente os valores morais, não haveria mais massacres, nem violações, nem roubos, nem assassinatos, nem injustiças. Seria uma revolução. E, no entanto, isso não nos impediria nem de envelhecer, nem de morrer, nem de perder um ente querido, nem mesmo de, se for o caso, sermos infelizes no amor ou, simplesmente, de nos aborrecermos ao longo de uma vida cotidiana mergulhada na banalidade”.

É aí que entra o que ele chama de espiritualidade, não necessariamente religiosa. “Há espiritualidades com deuses, que são as religiões, e espiritualidades sem Deus, que são as grandes filosofias”.

Em um momento em que a saúde mental ocupa o centro das conversas, Ferry observa uma mudança profunda no Ocidente. “Na Europa, em 1950, 95% dos franceses eram católicos, crentes.

Já agora são 40% que dizem acreditar em Deus. Então, a psicologia toma o lugar da religião, e a preocupação com a saúde mental ocupa o lugar das preocupações metafísicas”. Para ele, no entanto, a questão decisiva continua a mesma: a morte.

Citando Schopenhauer: “A morte é, propriamente falando, o gênio inspirador; sem ela, provavelmente não haveria filosofia”. A reflexão filosófica, Ferry pontua, nasce da consciência da finitude. “Vivemos pequenas mortes, perdas cotidianas que são formas de finitude que experimentamos.

A perda da juventude, filhos que crescem, amigos que se distanciam”. Desde “A Epopeia de Gilgamesh”, lembra, os humanos enfrentam a angústia: “Nem os animais nem os deuses colocam as mesmas questões que nós, pequenos humanos mortais…”

Redes sociais

Sobre tentar se distrair da angústia por meio do uso excessivo das telas na era digital, Ferry não suaviza o tom. “As redes são uma armadilha que pode ser mortal. Encerram-nos nas nossas próprias certezas e são, além disso, viciantes”.

E faz um alerta direto: “Os pais devem absolutamente limitar o uso das redes sociais pelos seus filhos; é vital!”.

A crítica às plataformas digitais, porém, não é apenas moral ou pedagógica – insere-se numa reflexão mais ampla sobre as ilusões contemporâneas e a dificuldade de lidarmos conosco mesmos.

Desafios do dia a dia

Ao falar sobre “viver em harmonia consigo mesmo”, recusa qualquer idealização. “Sou um ser profundamente angustiado e muitas vezes estou em desacordo comigo mesmo. (risos) Parece-me que um ser totalmente desprovido de angústia seria ou um grande doente ou um perfeito imbecil, pois, como dizia Immanuel Kant, ‘se a providência tivesse querido que fôssemos felizes, nunca nos teria dado a inteligência’”.

Em seu último livro, “O Frenesi da Felicidade”, Ferry critica a lógica do prazer imediato e recorre a uma imagem simples para explicar o presente.

“O grande problema do mundo moderno é que, em comparação com os nossos avós, o capitalismo globalizado fez tudo para mergulhar os nossos filhos no princípio do prazer, segundo o qual queremos ‘tudo, tudo imediatamente’. É infantil e perigoso. É preciso ensinar aos nossos filhos a resistir, mas é mais fácil dizer do que fazer, tal a força da lógica do consumo”.

A chamada “ciência da felicidade”, a psicologia positiva, também não escapa ao seu ceticismo. “Um pouco de bom senso deveria ser suficiente para compreender que se trata novamente de uma miragem, sendo a felicidade algo tão subjetivo que nenhuma definição científica é possível”.

Para ele, a promessa de fórmulas prontas é ilusória. “No fundo, somos felizes quando a vida é simpática, quando nos oferece bons momentos”.

Mas adverte, evocando Rousseau e Kant, que “a felicidade é apenas um ‘ideal da imaginação’, não uma realidade acessível aqui na Terra, muito menos um objeto de ciência”. E conclui com uma constatação quase clássica: “Para nós, os mortais, nada pode ser estável ou duradouro aqui na Terra, de modo que as nossas alegrias são necessariamente efêmeras e frágeis”.

Mas Ferry não encerra a entrevista sem esperança. Para ele, existe um “novo sagrado”, um valor que fundamenta uma nova ética: “O amor é uma forma de encontrar sentido na vida, a base do humanismo moderno, focado nas relações humanas e que transforma a maneira como vivemos”, conclui.

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Sobre o SP Innovation Week

Em uma área de 50 mil m², o festival terá 32 palcos simultâneos com mais de 1,5 mil palestrantes nacionais e internacionais, debatendo temas de tecnologia, negócios, empreendedorismo, luxo, impacto social, cultura e economia criativa.

A expectativa é receber mais de 90 mil visitantes, com cerca de 1 mil startups e 100 expositores envolvidos. A programação do megaevento será criada a partir de 15 trilhas de conhecimento, seguindo a variedade inerente à cidade de São Paulo.

Alguns nomes do time de palestrantes já estão confirmados para o festival, incluindo Luc Ferry, Douglas Rushkoff, indicado pelo MIT como um dos dez intelectuais mais influentes do mundo, o psicólogo americano e criador do conceito da inteligência emocional Daniel Goleman, a filósofa americana Rebecca Goldstein, o jornalista russo Dmitry Muratov — laureado com o Nobel da Paz em 2021 por sua defesa da liberdade de expressão —, o psicólogo e linguista canadense Steven Pinker e o premiado astrofísico brasileiro Marcelo Gleiser.

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Serviço
São Paulo Innovation Week
Local: Mercado Livre Arena Pacaembu e na Faap
Dias: 13, 14 e 15 de maio.
Ingressos: R$ 594 (De 23 de fevereiro até 1º de março preço com desconto do passaporte para os três dias do evento. Após essa data, a venda será realizada em lotes regulares).
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Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com