Carlos Motta / Créditos: Arquivo pessoal
Publicação compartilhada do site da REVISTA TRIP, de 18 de setembro de 2026
Carlos Motta: ‘Existir é um privilégio enorme, mesmo adoecido’
Por Paulo Lima
Aos 74 anos, o designer e arquiteto que fez do móvel uma questão de conforto e originalidade e da arquitetura a expressão de seu jeito sensível de estar no mundo, está abrindo um instituto, um cinema comunitário e um liceu de artes e ofícios na Serra da Mantiqueira. Ao Trip FM, ele fala da infância, da Califórnia no auge da contracultura, dos dois cânceres na medula óssea que enfrenta e das transformações do surfe e das praias por onde surfou
A palavra que organiza esta conversa brota logo no primeiro minuto e remete a um ofício que o entrevistado aprendeu. Carlos Motta trabalhou na forja quando morava na Califórnia, nos anos 1970, e descreve o gesto com a precisão de quem o repetiu muitas vezes. Ele está, como diz, há 74 anos nessa forja.
Nascido em São Paulo, filho de uma mãe descendente de imigrantes italianos e de um publicitário com quem ela não se casou, Foi expulso de quase todas as escolas em que estudou e passou a infância sem que ninguém percebesse que era disléxico.
Entrou em arquitetura em Mogi das Cruzes, segundo ele mesmo, “a única faculdade em que consegui passar”, e para onde ia de trem todos os dias. Formou-se em 1975, com direito a um estágio no escritório de Paulo Mendes da Rocha. Na faculdade se apaixonou pela marcenaria, onde, para seu fascínio, os desenhos viravam objetos tridimensionais.
Foi se aprofundar no ofício em cursos na Califórnia, tomada pela contracultura em plena década de 1970. Voltou ao Brasil em 1978 e abriu o Atelier Carlos Motta na Vila Madalena, então um bairro operário que começava a ser ocupado por estudantes e artistas. Em 1985 inaugurou a Fábrica de Cadeiras São Paulo, batizada com o nome da cadeira que havia desenhado três anos antes, e em 1986 ganhou o primeiro lugar na categoria móveis do Prêmio Museu da Casa Brasileira. Trabalha sobretudo com madeira de demolição, completada por madeira certificada quando não há reúso possível.
Seus móveis estão em coleções e galerias em diferentes cidades da Europa e dos Estados Unidos, seus projetos de arquitetura saíram do litoral norte de São Paulo para lugares como a Patagônia chilena e o Havaí.
Há 31 anos Motta frequenta São Francisco Xavier, distrito de São José dos Campos encravado na Serra da Mantiqueira e resguardado por uma área de proteção ambiental, onde decidiu morar há sete. Sua ida para a montanha, ele explica, tem a ver com a busca por encontrar e estar perto das nascentes dos rios que desaguam no mar onde passou a vida surfando.
Nos últimos anos, descobriu um câncer que vem tratando . Faz um ano e meio que não surfa, por conta do tratamento.
Abaixo, os melhores momentos da conversa com Motta. Você também pode ouvir a entrevista no play desta página, no Spotify, Deezer, YouTube, Apple Podcasts e em outras plataformas de áudio. E tem mais: a partir de outubro, as entrevistas do Trip FM voltam, com grande alegria, aos agora 107,9 MHz da Eldorado FM.
Trip FM: Gosto de começar essas conversas pela infância, porque ela revela como a gente é forjado. Você nasceu numa família de juristas conhecidos, seu pai foi um publicitário pioneiro e importante em São Paulo, certo?
Carlos Motta: A palavra que você usou é correta, forjado. Aprendi a trabalhar na forja quando morava na Califórnia, e a forja é uma coisa muito louca, porque você esquenta o metal e bate no metal para ele tomar a forma que você quer. É na porrada. Essa forma que eu desejo para mim vim forjando desde a minha chegada ao planeta.
Vindo lá do zero, foi sempre complicada essa tal existência, porque meu pai não era casado com a minha mãe. Minha mãe era filha de imigrantes italianos, e meu avô Temístocles Marazzi era um italianão, glutão, trabalhador, que veio pro Brasil para fazer os acabamentos do Theatro Municipal.
Meus pais se conheceram, eles se amavam, eram meio amantes. Primeiro nasceu a minha irmã, que foi morar com a minha avó, e onze meses depois eu nasci. Fiquei morando com a minha mãe, e meu pai de vez em quando vinha visitar. Quando fui fazer terapia, fiz uns cinco, seis anos de terapia, fui forçado a rememorar e buscar informações sobre os meus três primeiros anos de vida, e fiquei surpreso ao ver como esse período foi difícil. Não vejo com melancolia, a palavra melancolia é meio boba. Uma vez, ouvi que melancolia é a tristeza guardada na gaveta, e achei que fazia sentido.
Eu não tenho uma tristeza guardada, tenho uma emoção, e às vezes uma tristeza, mas essa tristeza é bonita, porque ela me faz olhar a vida de um jeito muito bonito. Quando ela me pega, é incrível como fico sensível e delicado com tudo aquilo que é vivo, e mesmo com o que não é vivo e tem outro tempo, que pode ser uma rocha.
Trip FM: E isso transparece na sua arquitetura.
Carlos Motta: Eu moro na Mantiqueira, que é uma das formações geológicas mais antigas do país, com centenas de milhões de anos. Às vezes me sento numa pedra, fico olhando as águas que brotam daqui e penso no tempo que aquilo tem. Eu faço muitos projetos de arquitetura nessa região, mas , seja qual for a região, nunca fiz um corte com máquina, nunca fiz um platô. Imagina, chego a um terreno e vejo que ali tem insetos, tem pequenos animais, tem pássaros, todo mundo vivendo e convivendo de uma maneira tão linda. Eu não posso chegar, sendo apenas mais um dos animais, de botinão, e pisar em cima de tudo, trazer uma máquina e fazer um platô para botar uma casa para um cara que vem passar o fim de semana. É o auge da violência, é o desrespeito máximo.
Trip FM: Ao mesmo tempo que essa infância complexa te trouxe sensibilidade, também te trouxe uma coragem meio atípica para o recorte social em que você nasceu. Você passou boa parte da vida peitando o status quo, inclusive o da sua família. Lembro de você contando como foi se declarar marceneiro numa família de juristas nos anos 70.
Carlos Motta: Essa coragem vem também desde esse marco zero da minha vida, de eu ter que encontrar em mim mesmo o meu âmago, ou a procura disso, pelo menos. Esse confronto puxa a minha vida até hoje. Foi um percurso bastante agressivo do meu lado, mas é engraçado você conseguir ser agressivo com doçura.
Fui expulso das escolas em que estudei. No Dante Alighieri, eu não conseguia lidar com aquela autoridade que vinha de cima para baixo. Soltei uma bomba no banheiro sabendo que iam me mandar embora, e tudo bem, porque aquilo era muito pequeno frente a tudo que eu queria realizar. Antes de ir embora, fiz uma coisa de que gosto muito: no Dante tinha um sino que um italiano chamado Marino tocava para sinalizar a troca de aula. Eu quis tocar esse sino numa hora que ia provocar a maior desorganização possível dentro daquela escola, onde nada estava certo , pelo menos na minha maneira de entender o que é educação, o que é ensinar, o que é ser colega. Fui lá no meio da aula e toquei o sino com muito entusiasmo.
Trip FM: E, décadas depois, você virou professor universitário , mas também foi mandado embora, certo?
Carlos Motta: A minha família inteira do lado dos Motta é de professores. Eu nunca quis ser, porque já não gostava de escola. Aí meus filhos entraram na FAAP, o curso era caro pra cacete, e me chamaram pra dar aulas . Pensei: vou topar, porque são os cursos de dois filhos que não vou precisar pagar e ainda vou receber um salário. Topei, mas topei do meu jeito. A minha turma tinha 28 alunos, e nunca dei uma aula com menos de 40 pessoas na sala, porque vinha gente da administração, vinha gente da faculdade de publicidade assistir.
Nunca preparei uma aula, sempre foi de bate-pronto. A minha aula era de projeto, para quem estava se formando, então o que interessava era o objeto.
A FAAP começou a achar aquilo estranho. Um dia entrou um fiscal, sei lá, um gerente, ou diretor, na sala. Ele deu de cara com 40 alunos amontoados curtindo ali, e eu estava em pé em cima da mesa falando com a turma. O cara achou aquilo um absurdo e denunciou. E aí começou uma coisa de olhar tudo e me fiscalizar: por exemplo, eu ia de bermuda, e não podia dar aula de bermuda. Sempre achei que um professor passando calor, com o sapato apertado, vai ficar com raiva dos alunos. Não aceitaram. Também não aceitavam que, prontos os protótipos, a gente levasse as poltronas e as cadeiras desenhadas pelos alunos para a praça central da escola no recreio, para todo mundo poder experimentar o que os colegas da arquitetura tinham feito.
Quando me mandaram embora, falei para o diretor: que coerência, todas as escolas por que passei foram me mandando embora, e hoje entendo o porquê. Nenhuma delas entendeu o que é transmitir conhecimento, nenhuma entendeu a importância de criar um espaço para que alguém que já tem uma trajetória passe isso para os mais jovens com afeto, com doçura.
Trip FM: Tem uma parte dessa dificuldade toda com a escola que só foi ficar clara muito depois, confere?
Carlos Motta: Sim. Eu sou canhoto. A primeira escola em que estudei foi o São Norberto, e tinha uma madre indiana, que deve arder no inferno até hoje. Ela tinha umas unhas compridas e me pegava pelo braço cheia de ódio, com aquelas unhas cravadas na minha pele e me forçava a escrever com a mão direita. Isso me provocou cacoetes que tenho até hoje, com o olho, com o pescoço. Outra coisa: sou disléxico, e ninguém sacou, nem em casa nem na escola. Diziam que eu tinha dificuldade de aprender, que escrevia ao contrário, que era burro. Isso me deixou mais agressivo.
Trip FM: Até você chegar na faculdade de arquitetura,certo? Ali você fez as pazes com a escola?
Carlos Motta: Entrei em publicidade primeiro, e não era o que eu queria. Estava numa fase hippie, usando os xampus que eu mesmo fazia de babosa com iogurte, e via meu pai fazendo publicidade de produtos da Bozzano. Aquilo não tinha nada a ver comigo. Não queria vender uma coisa em que não acreditava. Fui para o direito e vi que ia ter que viver do litígio, ganhar dinheiro só se existisse briga. Aí fui para a arquitetura, de uma maneira completamente avoada, meio de embalo por conta dos amigos que estavam nessa área, como o Eduardo Longo e o Alfredo Pimenta. Não entrei em nenhuma escola em São Paulo, só entrei em Mogi, e ia de trem.
Na faculdade tinha uma marcenaria. Eu sempre gostei de mexer com madeira, desde molequinho. Já fazia algumas coisas com o que o mar trazia, porque eu surfava e ia para a Praia de São Pedro, e com aquelas madeiras lindíssimas que apareciam na areia eu fazia esculturas e até alguns móveis.
Aí aconteceu uma mágica. Tive aula de desenho, e vi que o desenho no plano bidimensional, na hora em que eu passava para a marcenaria, ia para o tridimensional. Aquilo que eu tinha desenhado virava um objeto. Foi a primeira vez na vida que eu quis muito entender um processo. Fiz na faculdade a primeira poltrona, fiz a segunda, e um professor perguntou se podia fotografar para publicar numa revista que estava saindo no Brasil. A revista foi parar na Holanda, e o diretor de uma grande indústria de móveis de lá entrou em contato comigo querendo comprar os desenhos. Fomos ao consulado para assinar os papéis: ganhei 4 mil dólares por cada desenho. Foi o início da minha marcenaria, com esse dinheiro comprei minhas primeiras máquinas.
Trip FM: Você tinha o desenho, tinha até um comprador holandês, mas ainda não tinha exatamente um ofício. Onde é que se aprendia marcenaria em São Paulo nos anos 70?
Carlos Motta: O curso do Liceu de Artes e Ofícios, que era o lugar onde eu poderia aprender alguma coisa, havia fechado. Então me empreguei numa marcenaria na Rua Piratininga, com um italiano mal-humorado que era mais um desses que jamais reconheceriam que eu era canhoto ou disléxico. Eles só me mandavam engraxar máquinas e varrer o chão. Fiquei um tempo lá, depois mandei eles à merda e fui para a Califórnia.
Foi a grande virada que aconteceu na minha vida. Conheci o Reinhard Bendix, um dos meus grandíssimos amigos, meu mestre, um marceneiro construtor genial. Colei nele e aprendi muita coisa: aprendi a fazer ferramentas, aprendi marcenaria, aprendi construção civil. Fiz o Cabrillo College, que é uma espécie de faculdade local da cidade de Santa Cruz, fiz curso de marcenaria e metal, que capacita quem vai trabalhar na construção de navios. Eu queria usar aquilo nas esculturas de metal e nos móveis com componentes de metal junto com madeira. E aproveitei o embalo para me inscrever num curso que ensinava a fazer parto, porque minha mulher estava grávida e eu queria fazer o parto do meu primeiro filho. Aprendi e fiz.
Foi um momento de muitas realizações. Surfando, plantando fumo em casa, que lá era permitido, comendo comida natureba, cuidando do meu filho pequeno, fazendo a cômoda e os moveizinhos dele. A contracultura bombando, isso tudo em 1976. O Neil Young, músico por quem eu tenho loucura, era meu vizinho no verão de 77. As coisas estavam acontecendo, tudo aquilo de que eu mais gostava.
Trip FM: Depois desse período você volta para o Brasil e monta a sua empresa de marcenaria em 78 a partir de dois conceitos fundamentais, numa época em que nem a palavra ecologia era usada. Que conceitos eram esses?
Carlos Motta: O primeiro conceito é a responsabilidade ambiental na escolha das matérias-primas, tentar reutilizar ou escolher aquilo que cause o menor impacto possível. O segundo é a responsabilidade social: todo mundo da cadeia produtiva participa do lucro. Demorou 35, quase 40 anos para a empresa virar uma realidade do ponto de vista financeiro, porque até então, tudo foi indo aos trancos e barrancos. Hoje trabalho com escritórios ingleses, norte-americanos, de todo canto. E eles trabalham comigo atraídos pela responsabilidade social, pela responsabilidade ambiental, pela qualidade e pela ergonomia dos objetos que faço.
Trip FM: Percebi que existem duas palavras de sons semelhantes que você usou várias vezes hoje falando sobre seu jeito de ser: confronto e conforto.
Carlos Motta: Todo o mobiliário que criei, sempre partiu do conforto. Uma cadeira para comer, uma cadeira para trabalhar, uma poltrona para descansar ou para ler. Tudo isso tem ergonomia, tem a relação do corpo com o objeto. Para mim, se não tiver afeto nas coisas, não rola. Fazer coisas por fazer não tem o menor sentido. Só entro nas histórias quando o lado afetivo está pulsando, porque é isso que dá o sentido da vida para mim.
Trip FM: Uma vez o documentarista Carlos Nader me disse que quando entrou numa das casas que você fez, sentiu um tipo de conforto acústico , um silêncio diferente, como se você estivesse numa cápsula, num canto reservado do planeta. Como é fazer uma casa para alguém morar, respeitando ao mesmo tempo as suas crenças e as da pessoa que te contrata?
Carlos Motta: É delicado mesmo. Nos anos 70, quando a contracultura estava no auge, as pessoas estavam questionando tudo, e um dos questionamentos era onde morar e como morar. Aí foi feito uma espécie de livreto, com encadernação de papel meio de jornal, que se chama “Shelter”, que em inglês é abrigo. Gosto demais dessa palavra e gosto dela em relação ao que se faz em arquitetura. No fundo é o abrigo.
Quando comprei um terreno na praia de Camburi, comecei a subir o morro e vi um teiú, aquele lagarto enorme. Tinha teiú, cutia, gambá, uma série de bichos morando ali, e você não via a casa deles, não via nada daquela formação lindíssima da Mata Atlântica sendo prejudicado por eles. Pensei: estou chegando aqui e vou fazer a minha casa, e os bichos estão todos aqui com as casas deles, e eu estou lá na frente, no mar, surfando, olhando para isso e não vejo um rastro de ninguém. Como é que eu faço a minha casa com esse mesmo conceito? Criando o menor impacto visual, o menor impacto ambiental, o menor impacto possível para uma estrutura pousando no planeta. Fiz aquele barraquinho de madeira o mais leve possível, só pousando os pilares no morro, e pintei a casa com o mesmo verde da Mata Atlântica que está ali, para ela sumir, para ficar mimetizada.
“Trabalho com escritórios ingleses, norte-americanos, de todo canto. E eles trabalham comigo atraídos pela responsabilidade social, pela responsabilidade ambiental, pela qualidade e ergonomia dos objetos que faço”
Trip FM: Freud fala nas pequenas traições do corpo, esse momento em que nos deparamos com questões de saúde que aparecem subitamente confrontando uma espécie de fantasia do ego de que somos indestrutíveis. Você encontrou algum conforto nesse confronto que está vivendo agora?
Carlos Motta: As minhas não foram traições tão pequenas, são traições brabas. Nunca me achei indestrutível, sei que a única certeza absoluta é a morte, e sempre achei isso bonito. Mas na hora em que soube que tinha um câncer no sangue, que se chama mieloma múltiplo, foi um impacto. Todas as vezes em que fui traído, seja por quem for, por amigo, por mulher, por cachorro, pelo mar, tive dificuldade de lidar.
Senti uma punhalada pelas costas com esse câncer, porque uma coisa é você ter uma gripe, ter um covid, você pegou de alguém, é um vírus. O câncer é uma coisa sua. É você que cria. Ele me pertence, não posso culpar ninguém. Fiquei bastante triste, mas não fiquei deprimido em nenhum momento, porque não perdi o tesão pela vida nem a gratidão pela existência. Existir é um privilégio enorme, mesmo adoecido.
A minha hemoglobina é baixa, e a hemoglobina é o que transporta o oxigênio no organismo. Faz um ano e meio que não surfo. Atravessar uma arrebentação hoje é praticamente impossível para mim. Mas continuo sendo um surfista, vou ser surfista até a hora de apagar a luz.
Tive que fazer um transplante de medula, que foi a coisa mais barra-pesada por que passei na vida. Fiquei 22 dias num quarto isolado, com um cateter entrando vinte centímetros na jugular. Minhas plaquetas foram para 9 mil, quase morto. Aquilo era para me salvar, e me salvou, tanto que estou aqui. Mas existia a possibilidade de vir um segundo câncer, e veio, a síndrome mielodisplásica.
Estou bastante baleado, mas continuo o mesmo, e estou mais humilde, porque o sofrimento, que não faltou ao longo da minha vida e se intensificou com o adoecimento, vai te deixando cada vez mais humilde. Mas não estou infeliz, a felicidade ainda habita aqui fortemente. A minha filha Layla mudou-se para cá, por exemplo, meus netos estão aqui, é tudo uma delícia.
Trip FM: Você estava me contando que ganhou um dinheiro extra com o seu trabalho nos últimos anos, não tinha nenhum plano específico sobre o que fazer com ele e decidiu criar um instituto em São Francisco Xavier para abrigar o acervo de cinquenta anos de trabalho. Junto com ele vem um liceu de artes e ofícios, que é justamente o que não existia quando você quis aprender o ofício.
Carlos Motta: Estou há 31 anos por aqui, e morando há sete, construindo e capacitando mão de obra. Os caras que fui ensinando absorveram uma qualidade absurda em termos de construção civil e de marcenaria, agora eu quero fazer uma marcenaria aqui. Então estou fazendo um Liceu de Artes e Ofícios. Vamos começar com marcenaria, em seguida vai ser serralheria, depois os trabalhos em couro, porque quando a gente veio para cá comprava sela de cavalo feita aqui, arreios, e hoje não tem mais, os artesãos estão velhinhos e o saber está se perdendo .
“Estou mais humilde, porque o sofrimento, que não faltou ao longo da minha vida e se intensificou com o adoecimento, vai te deixando cada vez mais humilde”
Comprei um terreno na cidade, a coisa mais linda do mundo, caríssimo, usei toda a minha grana. Fica a um quarteirão da praça central ,para as pessoas poderem ir a pé, os estudantes, os mais velhos, a terceira idade. Já tive duas reuniões com o prefeito, com o secretário do Meio Ambiente e com a turma da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, que é a de cultura.
A gente tem um grupo aqui chamado Regenera, que fundamos antes da pandemia, de contato com a comunidade, de valorização das qualidades de São Francisco Xavier. Depois de uma vida muito urbana e muito no litoral, hoje estou centrado na Mantiqueira, e sempre com essa palavra mágica muito presente, que é o afeto.
Trip FM: É emblemático que hoje a gente quase não tenha falado de surfe, que foi aquilo que nos aproximou lá atrás. Agora o chique na Faria Lima é ser surfista, ter título de um clube com piscina de ondas onde você surfa entre uma reunião e outra. Grande parte das praias também está tomada por mansões, resorts e uma infinidade de “condomínios”, uma ocupação muitas vezes equivocada e que transfere a tensão urbana para a beira mar. A nossa ligação com o surfe, de certa forma, era o contrário disso. Ela tinha a ver com o encontro e o aprendizado com a natureza intocada e com as comunidades dos lugares. Essas mudanças drásticas te afetaram?
Carlos Motta: O surfe é uma coisa tão poderosa que jamais vai sair de mim. Tenho quatro filhos surfistas, tenho um filho shaper e um que mora em Ilhabela pescando e surfando, tenho algumas pranchas que são alguns dos objetos pelos quais eu tenho mais amor.
Mas isso que você falou é uma grande verdade, e não aconteceu só no surfe. Aconteceu na vida em geral: na construção civil, na ocupação dos lugares, nas estradas, nos restaurantes, mudando a comida, mudando o uso da praia. A praia é uma praça pública da mais alta qualidade, com um oceano na frente. No fim do ano, as marcas invadem a praia para fazer merchandising, montam estruturas horrorosas e desrespeitosas, e ainda falam que têm autorização da prefeitura. Em Camburi nós nunca aceitamos isso, desmontávamos as coisas e expulsávamos essas pessoas que nunca fizeram nada por aquela praia e nos últimos quatro, cinco dias do ano vão lá fazer o tal merchandising. Como assim, você vem, chupa o caldo e joga o bagaço? Fomos respeitados até um limite. Hoje, se você for lá, vai ver que a gente perdeu para o poder da grana e para a miopia.
“Praia é uma praça pública da mais alta qualidade, com um oceano na frente. No fim do ano, as marcas invadem a praia para fazer merchandising, montam estruturas horrorosas e desrespeitosas”
E não são só as marcas. Às vezes a gente vai para os lados do Bonete, em Ilhabela, e pega um lugar ainda muito puro. Depois chegam quatro, cinco iates com música alta e churrasco, e em um minuto aquilo deteriora o lugar. Nós somos muito ignorantes, nós, seres humanos.
Trip FM: Para fechar: onde está contida a maior dose de sabedoria? Num tronco de madeira, num cachorro ou numa pessoa?
Carlos Motta: Nos três, não tem como separar. Aí é que está a grande coisa: o cachorro não pode só mijar no tronco e cair fora, o homem não pode só cortar o tronco para usar a madeira, e a madeira não pode ser só o caixão que leva o homem embora. Como é esse convívio? A coexistência é a coisa mais linda. Parei de ver os jornais na televisão, chorava todo dia porque via a destruição das vidas e das comunidades em Gaza. É inacreditável que até hoje a gente não consiga entender que o outro sofre a mesma coisa que você sofre. E existirem certas figuras que, ao mesmo tempo, são meus irmãos, feitos da mesma coisa que eu, filhos da natureza. Um está matando milhões de pessoas enquanto o outro está fazendo tudo para salvar. Essa é a nossa raça.
Texto e imagem reproduzidos do site: revistatrip uol com br







