Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 18 de fevereiro de 2026
A química do vício
A dependência provoca dramas destruidores, mas surgem novos caminhas para a cura. Dagomir Marquezi para a revista Oeste:
Todo prazer é químico. E pode viciar. Quando você toma a primeira cerveja, faz sexo pela primeira vez, ouve uma música que te faz feliz, toma uma droga que alivia uma dor, sai do shopping cheio de sacolas ou bate um recorde num game, você quer de novo e de novo. Se você controla a vontade de repetir, está apenas tendo um prazer. Se não controla, está viciado.
A ciência do vício ocupou uma edição inteira da revista Time. O tema é bastante complexo, pois os limites entre o desejo e a compulsão podem ser muito sutis. Existe uma conexão entre vícios e componentes emocionais, o que torna a questão ainda mais complicada.
O fenômeno não é novidade. “O uso de drogas está sendo registrado desde o início da civilização”, declarou Nora Volkow, diretora do Nida (National Institute on Drug Abuse, ou “Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas”), à revista Time. “Os humanos, no meu ponto de vista, sempre vão querer experimentar coisas que os façam se sentir bem.
Todos temos dois polos no cérebro que disputam nosso poder de decisão. Um é receptor do neurotransmissor dopamina, o mensageiro do prazer. Quando fazemos ou consumimos algo de que gostamos muito, nosso cérebro recebe uma carga de dopamina — e quer mais.
O D3 é um desses polos cerebrais especializados em receber dopamina. Quando uma pessoa consome substâncias como cocaína, metanfetamina ou nicotina, esses receptores se multiplicam querendo mais.
O polo oposto ao D3 é conhecido como Gaba (ácido gama-aminobutírico). Localizado na parte frontal do cérebro, é encarregado de nos dar racionalidade e gerar uma sensação de saciedade. O D3 quer sempre mais. O Gaba diz que já chega.
Macarronada com queijo
Vivemos entre esses dois polos. Pessoas com Gaba em falta tendem a se entregar aos vícios sem controle. Um remédio à base de vigabatrina, indicado normalmente contra epilepsia, aumenta o poder do Gaba e, portanto, da racionalidade.
Outro caso é o corpo estriado, uma região no meio do cérebro rica em receptores de dopamina. Quando comemos uma macarronada com queijo ralado, é o estriado que sinaliza que estamos tendo prazer. Quando a dopamina encontra um corpo estriado sem mecanismo de controle, passamos a querer mais e mais.
Além do equilíbrio corpo estriado/dopamina, existe um hormônio chamado leptina, liberado por células de gordura. É a leptina que nos dá a sensação de saciedade. É ela que diz “chega, pede a conta”. Quando não temos leptina em quantidade suficiente, a refeição não tem fim. No dia seguinte, pediremos outra macarronada, dessa vez com sobremesa. Estamos comendo por vício, não por necessidade.
Fotografando o prazer
Novas pesquisas e tecnologia possibilitam “fotografar” essas regiões de prazer no cérebro, como o D3, facilitando possíveis tratamentos. Um exemplo: tomografias revelaram que pessoas patologicamente obesas exibem hiperatividade nas regiões do cérebro que processam a comida, como a boca, a língua e os lábios.
O médico Martin Paulus, presidente do Instituto para Pesquisa Cerebral de Tulsa — no estado americano de Oklahoma —, declarou que pode predizer de 80% a 90% quem vai fraquejar num tratamento contra o vício só por examinar suas tomografias cerebrais. A compulsão se revela visualmente no exame.
Certos fatores agravam a dependência. Um deles é o estresse. Quando estamos estressados, a produção de Gaba, o fator racional que freia nossos impulsos, diminui. E os captadores de dopamina, como o D3, agem à vontade.
O que é um vício?
Mas, afinal, o que é um vício? A edição especial da revista Time procurou mostrar que esse terreno é cheio de sutilezas e zonas cinzentas. O uso compulsivo da internet e de videogames, por exemplo, não é considerado oficialmente um vício. O DSM — a “bíblia” psiquiátrica americana — classificou o jogo compulsivo como um “transtorno de dependência”.
Essas sutilezas se estendem também às consequências. Um opioide pode matar rapidamente. Compras compulsivas não matam — mas podem destruir uma vida financeira ou uma família. Games também não são letais como uma overdose de drogas, mas um jogador compulsivo pode parar de comer e dormir, arruinando sua saúde.
A rede Alcoólicos Anônimos sabe que ninguém quer um segundo copo de bebida, ou um terceiro, ou um quinto ou um décimo. Todos querem repetir a sensação de prazer do primeiro drinque, de novo e de novo. Não é uma questão de quantidade, mas de multiplicar o barato do primeiro gole.
Outro complicador é o fato de que certas compulsões estão ligadas a hábitos legais e até necessários. Comer, por exemplo. Quem come dois hambúrgueres duplos com fritas e um copão de milkshake pode ter uma indigestão, mas nada parecido com uma overdose. Se a pessoa fizer essa refeição todos os dias, aí vira vício e sua saúde vai se deteriorar rapidamente.
O vício não é, enfim, uma ciência exata. O melhor exemplo é a cannabis, conhecida popularmente como maconha. A cannabis transformou-se na década de 1930 na “erva do diabo”, capaz de provocar o enlouquecimento imediato do usuário, e seu uso se tornou punível com prisão. Neste século, a maior parte dos Estados americanos legalizou o uso recreativo. O presidente Donald Trump determinou que a substância seja transferida da categoria 1 — substâncias mais perigosas — para a categoria 3, com menos restrições e reconhecimento do uso medicinal. O vício passou a ser encarado como um hábito, mas que também pode se tornar compulsivo, com todas as consequências.
O fator adolescência
O que diferencia alguém propenso ao vício de outro que não se vicia? Existem dois fatores principais: a predisposição genética e o ambiente. Um filho de alcoólatra tem cerca de 50% de possibilidade de seguir seus passos. Quem não possui essa herança e trabalha em um bar, por exemplo, pode se tornar alcoólatra porque todos ao seu redor bebem. Existe um momento na vida, no entanto, em que todos correm esse risco, explicou à Time Danielle Dick, pesquisadora da Universidade Rutgers. “Na adolescência, as partes do cérebro que processam recompensa estão altamente desenvolvidas, o que significa que os adolescentes gostam de se engajar na busca de recompensa.”
Ao mesmo tempo, o córtex pré-frontal — a parte do cérebro que faz as pessoas pensarem em seus atos — ainda não se desenvolveu. É por isso que dizemos aos filhos adolescentes: “não se meta em encrencas”. E eles se metem. Essa é a fase que, neurologicamente, representa a porta de entrada para os vícios.
A epidemia de opioides
Alguns dos vícios são iniciados pelos próprios médicos. A edição da Time conta a história de Penny (nome fictício), que descobriu que o filho tinha câncer aos 13 anos de idade. Para aliviar as dores do tratamento, o médico receitou o opioide oxicodona. Sua função é interromper a mensagem da dor antes que chegue ao cérebro. O câncer cedeu, mas o cérebro do adolescente já estava condicionado à sensação de prazer do opioide. Aos 17 anos, o filho de Penny partiu para a heroína. Ela declarou dramaticamente que preferia o tempo em que ele estava com câncer. “Naquele tempo, ele tinha apoio e agora tem que procurar traficantes.”
Drogas para controlar a dor à base de opioides sintéticos, como a fentanila, se popularizaram a partir dos anos 1990. No começo, serviam para tratar doenças graves como o câncer. Depois foram receitados para situações banais, como uma simples dor lombar. O resultado foi que, em 2024, 150 pessoas morriam por dia nos EUA por abuso de opioides. O músico Prince foi uma dessas vítimas. A cantora brasileira Nana Caymmi foi outra. Pacientes passaram a mentir para os médicos, dizendo que sofriam dores terríveis, quando queriam apenas mais uma dose. Virou uma epidemia. Dos que tentaram se livrar do vício, entre 85% a 90% acabaram voltando.
Felizmente, para combater a dependência de opioides, existe outra droga chamada naltrexona, que bloqueia momentaneamente os receptores de prazer do cérebro. Em resumo, a pessoa não sente mais o barato. Em 2025, foi lançada como uma injeção que manteve esse efeito bloqueador por 28 dias, facilitando o tratamento. Uma versão subcutânea aplicada nas costas aumenta o efeito para três a seis meses.
Implantes dentro do cérebro
A edição da Time lembra que tão importante no combate aos vícios quanto os remédios é a chamada Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Ela ajuda a pessoa a focar o seu objetivo. Ioga, tai chi chuan, apoio emocional de animais, hipnoterapia e outras possibilidades desvinculadas de remédios também ajudam.
Existe mais um caminho — a neuroestimulação. Localizados os pontos onde estão os terminais de prazer, implantam-se terminais elétricos. O implante pode ser dentro do cérebro (estimulação cerebral profunda – ECP) ou do lado de fora (estimulação transcraniana – EMT). Esse método já é usado para tratar problemas como transtorno obsessivo-compulsivo, Parkinson, epilepsia e depressão.
Esse método parte do princípio de que o vício existe porque alguns circuitos cerebrais estão funcionando mal. O implante funciona para aliviar com impulsos elétricos a necessidade “anormal” de substâncias. É a “neuromodulação”. O método ainda é experimental, mas promissor. É o mais “pessoal” dos procedimentos, pois cada paciente tem um cérebro único que precisa ser mapeado em detalhes.
O difícil papel da família
O vício em drogas provoca um desastre não só na vida do usuário. As famílias dos viciados viram reféns de uma situação dramática. Quem tem um filho afundado na cocaína ou no crack fica entre o abandono ou o envolvimento doloroso. Muitos gastam suas economias em clínicas ou mesmo financiando as drogas por via indireta. Até por instinto, os melhores pais se compadecem de seus filhos e acabam se tornando seus cúmplices.
A Time conta a história de Diane, igual a tantas outras. O filho de Diane se machucou em um treino, começou a usar opioides para aliviar a dor e se viciou. Com o fim do tratamento, passou para a heroína. Seu peso caiu de 72 quilos para 59. Ele passava seus dias no sofá, com o braço cheio de marcas de picadas de agulha, tentando focar a atenção na TV. De vez em quando, voltava à clínica de reabilitação e aumentava a conta que já estava em US$ 70 mil (cerca de R$ 365 mil). Diane percebeu que estava literalmente “amando o filho até a morte”. E tomou uma decisão dura: “Entre numa clínica gratuita ou vai morar com um amigo. Aqui você não fica mais”. Resultado: o filho de Diane está num plano de recuperação de sete anos e hoje é proprietário de uma empresa em New Hampshire. A decisão de Diane foi fundamental.
Outro caso interessante ocorreu com Fred e Virginia Leamnson. O filho deles, Sean, estava também dependente de heroína. Fred e Virgínia começaram gastando US$ 6 mil (cerca de R$ 31 mil) só para cobrir o débito do filho com os traficantes. Depois vieram os tratamentos, as clínicas, os remédios — nada adiantava. Ironicamente, Fred é consultor financeiro e estava torrando o patrimônio da família com o vício do filho.
Fred e Virginia tomaram uma atitude passo a passo. Cortaram o plano de celular da família. Os filhos teriam que pagar por seu celular. Depois cortaram o seguro dos carros e os cartões de crédito. Mas o último e definitivo passo foi o mais surpreendente: apresentaram ao filho viciado um contrato definindo seus próximos passos. Sean estava numa situação crítica, caminhando para se tornar um sem-teto, com a saúde destruída. E todo Natal ele dava um jeito de piorar a situação e ser hospitalizado para atrair a piedade da família. Até que, num Natal, seus pais decidiram tirar férias, fechar a casa e sair da cidade. Foi quando Sean percebeu que não havia escolha e assinou o contrato. Internou-se e decidiu cuidar da própria vida.
O vício nosso de cada dia
Os casos acima são extremos, nos quais as pessoas se afundam na dependência e precisam de soluções radicais. Mas a possibilidade do vício está ao nosso redor, especialmente com substâncias legais que podem ser compradas no mercadinho da esquina.
Café
A cafeína em doses moderadas aumenta a longevidade, diminui o risco de diabetes e doenças cardíacas. Segundo a Clínica Mayo, um limite aceitável são 400 miligramas de cafeína por dia, o equivalente a quatro xícaras de café da bebida. Aí é preciso diferenciar — os americanos costumam tomar um café mais aguado que o espresso, que é super concentrado. Quatro espressos é a conta. A professora de neurociência Merideth Addicott pesquisou sobre a cafeína e declarou que a substância não vicia como, por exemplo, o álcool. A dependência é mais psicológica do que física. Se mede pelo quanto uma pessoa fica irritada em abstinência. De qualquer jeito, café em excesso pode trazer insônia, dores de cabeça, palpitações, irritabilidade e prejudicar o estômago. Merideth garante que o café não tem tanto impacto na nossa atividade cerebral como imaginamos, mas nessa parte é mais difícil de acreditar.
Tabagismo
Como um vício legalizado e amplamente difundido, o tabagismo já produziu sua cota de milhões de vítimas de câncer e enfisema. Essa situação parece estar mais controlada, através de campanhas educativas nos maços de cigarro e limitações de uso em ambientes públicos. Mas surgiu outro problema: o cigarro eletrônico, conhecido como vape. Que está atingindo os jovens com força. O pequeno aparelho esquenta uma combinação de nicotina, aromatizante e outros elementos químicos transformados em vapor. O vape ameaça viciar novas gerações com nicotina. Os fabricantes tiveram o cuidado de diminuir a mistura de carcinógenos encontrados no cigarro comum, mas outros perigos estão associados ao vape — doenças cardíacas e respiratórias e mutações genéticas na boca que podem levar ao câncer.
Alcoolismo
O álcool é outra “droga” legal. Existe uma condescendência social e cultural com a bebida alcoólica. Beber uma taça de vinho no jantar é uma coisa. “Tomar todas”, “encher a cara” é outra. Todos conhecem os Alcoólicos Anônimos, que reúnem usuários em grupos de apoio e estabelecem uma meta de abstinência, geralmente a partir de 90 dias. Mas, para casos graves e urgentes, existem tratamentos radicais. A substância dissulfiram, se misturada ao álcool, causa reações físicas como náuseas, vômitos e palpitações. Há a metadona (recomendada usualmente para viciados em heroína) e a naltrexona, que bloqueia os receptores cerebrais do prazer, tirando a vontade de beber.
Com os avanços da medicina e as mudanças de comportamento, o fato básico permanece o mesmo: temos um polo de prazer, outro de racionalidade. Quem souber equilibrar esses dois polos vai viver melhor.
Texto e imagens reproduzidos do blog: otambosi blogspot com











