quarta-feira, 29 de abril de 2026

Por que razão as sociedades modernas não gostam da verdade


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 28 de abril de 2026

Por que razão as sociedades modernas não gostam da verdade

Da verdade como fundamento à sua dissolução contemporânea. João Melo Baptista para o Observador:

I. DO AMOR À VERDADE AO HORROR À VERDADE

«Que é a verdade?» — Pôncio Pilatos

Durante grande parte da história intelectual do Ocidente, a verdade foi considerada um bem — condição de liberdade e de ordem. Na filosofia grega, de Platão a Aristóteles, a verdade é entendida como realidade objectiva — as Formas em Platão, a inteligibilidade do real em Aristóteles — à qual o intelecto (logos) deve adequar-se para alcançar o conhecimento verdadeiro e a sua plena realização. Para o pensamento clássico, o conhecimento da verdade constitui o horizonte último do intelecto e identifica-se com o bem supremo, estando intimamente ligado à ideia de felicidade (eudaimonia).

A tradição cristã aprofundou esta concepção, conferindo-lhe uma dimensão existencial e pessoal. No Evangelho de João (18, 37-38), perante Pilatos, Jesus declara: «…Nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz.» E à pergunta céptica da epígrafe, do prefeito romano, Jesus responde apenas com o silêncio da sua própria presença. O conceito de verdade deixa, assim, de se apresentar apenas como categoria metafísica, para surgir como realidade viva, visível na forma humana de Deus encarnado, que interpela e reclama adesão.

Nessa senda, encontramos depois, em Agostinho de Hipona, uma verdade que ilumina e julga a interioridade, como possibilidade de unificação da alma: luz que revela a dispersão interior e chama ao regresso à unidade. Já em Tomás de Aquino, a verdade é definida como adequação do intelecto à realidade (adaequatio intellectus et rei), precedendo a vontade e orientando a acção moral. O erro desorganiza; a verdade, mesmo exigente, ordena.

Durante séculos, esta concepção de verdade não permaneceu circunscrita à esfera individual, sendo reconhecida, ao menos ao nível dos princípios, pela política, pela justiça e pela educação como critério normativo. Mesmo quando traída, a verdade conservava autoridade suficiente para ter de ser simulada: a hipocrisia era ainda uma forma indirecta de homenagem — à mulher de César não basta ser, é preciso parecer — e a consciência da mentira de alguma forma preservava, ainda que negativamente, o primado da verdade.

Mas essa autoridade, durante séculos apenas dissimulada, começaria, na modernidade, a ser progressivamente questionada — e, por fim, erodida.

II. DA RUPTURA MODERNA DA VERDADE À SUA EROSÃO CONTEMPORÂNEA

«Nein, gerade Tatsachen gibt es nicht, nur Interpretationen. » — Friedrich Nietzsche

(Não, não existem factos, apenas interpretações.)

A modernidade introduz uma inflexão decisiva: a verdade deixa progressivamente de ser entendida na acepção clássica de correspondência entre intelecto e realidade, passando a ser interrogada à luz das condicionantes históricas, sociais e políticas que a envolvem.

Com Friedrich Nietzsche, a ruptura assume uma dimensão genealógica: as verdades deixam de ser descobertas intemporais para se revelarem como cristalizações de interpretações que triunfaram — um conjunto de metáforas esquecidas como tal, sob cuja pretensão de universalidade se oculta uma vontade de poder.

Martin Heidegger radicaliza esta deslocação, interrogando a história da metafísica ocidental, que teria reduzido a verdade à mera adequação à realidade.

Michel Foucault, por seu turno, propõe uma leitura histórico-crítica através da noção de “regimes de verdade”: práticas institucionais e relações de poder que, através de mecanismos, instituições (escola, a universidade, a prisão) e discursos, em cada época, definem o que é considerado verdadeiro ou falso.

Se o período moderno problematizou conceptualmente a verdade, as sociedades ocidentais contemporâneas tendem, não tanto a negá-la frontalmente, mas a relativizar a sua centralidade.

Essa deslocação manifesta-se em múltiplos planos — psicológico, social, político e cultural — que, embora distintos, convergem numa progressiva desvalorização da verdade enquanto critério orientador da vida colectiva:

1. Vieses e dissonância cognitiva – Verdade versus identidade

«Mundus vult decipi, ergo decipiatur.»

(O mundo quer ser enganado; seja, pois, enganado.)

Aproveitando a tendência natural do ser humano para procurar informação que confirme crenças prévias (confirmation bias) e — como a psicologia cognitiva tem vindo a demonstrar — com o aparente fim de rejeitar dados geradores de dissonância, as sociedades contemporâneas parecem fragmentar-se em grupos relativamente estanques, que militam, não raramente com cego fervor, em torno de posições previamente assumidas.

São disso exemplo a forma como, em debates altamente parecem — como os que emergiram durante a pandemia de COVID-19 ou em torno de questões ideológicas ou identitárias — muitos indivíduos seleccionam informação recorrendo apenas a fontes susceptíveis de confirmar a posição adoptada, ignorando consensos científicos, recensões jornalísticas ou estudos académicos mais amplos.

Admitamos que os media contemporâneos, arvorados à condição de modernos lanistas, têm contribuído para a simplificação do debate público. Em vez da sua densificação, privilegiam frequentemente modelos de confronto, convocando para as suas arenas intervenientes de intransigente militância na defesa de posições previamente definidas.

Neste contexto, a disposição para o juízo crítico ou para a moderação tende a ceder lugar à afirmação categórica, tornando o espaço público menos propício ao contraditório e mais permeável à irredutibilidade.

A informação passa, assim, a ser procurada e filtrada pela crença, e não o contrário. Não se trata apenas de ignorância factual, mas de autopreservação identitária: a admissão do erro — e, com ela, a aceitação da verdade — implicaria uma revisão profunda da própria narrativa pessoal.

2. Necessidade de validação grupal – Verdade versus lealdade

«Überzeugungen sind gefährlichere Feinde der Wahrheit als Lügen. » — Friedrich Nietzsche

(As crenças são mais perigosas inimigas da verdade do que as mentiras.)

Desde há muito que a pertença a grupos — políticos, religiosos, culturais ou, mais recentemente, digitais — constitui um elemento central da identidade individual. Nas sociedades contemporâneas, porém, a pressão para alinhar com o grupo e sustentar o seu ideário tende a sobrepor-se, e frequentemente a prevalecer, sobre a evidência factual.

Disso encontramos crescentes exemplos em contextos polarizados, como os políticos ou religiosos, onde membros de um partido, facção ou movimento defendem afirmações manifestamente imprecisas ou factualmente incorrectas, ainda que contrariadas por dados públicos evidentes, apenas por se tratarem de crenças de natureza nuclear para o grupo ou terem sido proferidas por figuras de referência do seu campo.

O custo social da dissidência interna afigura-se, assim, frequentemente superior ao da distorção factual e perante tal conflito, observamos que o indivíduo tende a preservar a pertença em detrimento da verdade. A lealdade ao grupo sobrepõe-se à fidelidade ao real.

3. Recusa de limites – Verdade versus conforto psicológico

«Facts do not cease to exist because they are ignored. » — Aldous Huxley

(Os factos não deixam de existir só por serem ignorados.)

Há verdades que confrontam o indivíduo com limites materiais: económicos, como no caso da evidente escassez de recursos finitos; ambientais, como sucede em tantas situações — infelizmente crescentes — de degradação ecológica; demográficos, como aqueles que se prendem com o envelhecimento populacional ou com fenómenos de migração em larga escala; ou biológicos, atinentes às próprias condições intrínsecas da natureza humana.

Observa-se, por isso, em diversos debates públicos, à resistência emocional por parte de actores relevantes em aceitar dados que contrariem expectativas optimistas ou narrativas de natureza ideológica ou identitária. E tal recusa não se limita ao plano argumentativo, antes traduzindo-se, frequentemente, no adiamento de decisões e reformas estruturais cuja urgência é evidente, precisamente porque o reconhecimento do problema implicaria um custo imediato — material, político ou, pior, simbólico.

A verdade surge, neste contexto, não como uma realidade a interpretar e integrar, mas como uma ameaça ao conforto psicológico, perante a qual, ao invés de se aceitar, se opta pela recusa — ainda que à custa de um agravamento futuro das consequências daí decorrentes.

4. Apelo emocional no discurso político e mediático – Verdade versus emoção

«Le cœur a ses raisons que la raison ne connaît point. » — Blaise Pascal

(O coração tem razões que a própria razão desconhece.)

As campanhas políticas contemporâneas recorrem frequentemente a slogans simplificadores e a narrativas mobilizadoras, substituindo o debate programático detalhado por mensagens identitárias de forte carga emocional.

Sem necessidade de recorrer ao panorama nacional — onde exemplos não faltariam —, basta recordar o referendo do Brexit no Reino Unido, em 2016. Nesse contexto, análises económicas complexas competiam com slogans de elevada eficácia simbólica, como “Take Back Control”, cuja força mobilizadora se revelou incomparavelmente superior à densidade técnica dos dados. Dinâmicas semelhantes – algumas de clamorosa actualidade – são observáveis noutras realidades políticas, designadamente nos Estados Unidos, com palavras de ordem de análogas natureza e eficiência.

A emoção não simplifica, apenas; também mobiliza, enquanto a verdade factual, pelo contrário, exige tempo, contexto e disposição para a complexidade — recursos escassos num espaço público orientado para o impacto imediato.

O padrão repete-se: a emoção galvaniza; a estatística raramente entusiasma.

5. Sobrecarga informativa e exaustão cognitiva – Verdade versus saturação

«I have become comfortably numb. » — Pink Floyd

(Tornei-me confortavelmente dormente.)

O volume de informação disponível excede largamente a capacidade individual de processamento e verificação. Em momentos de crise ou de grande impacto — atentados, crises sanitárias, processos eleitorais — circulam, em poucas horas, milhares de mensagens com conteúdos frequentemente contraditórios.

Acresce que, na economia digital, as plataformas digitais de uso massivo operam segundo a lógica fundamental da maximização do tempo de permanência e da interacção dos utilizadores, pelo que conteúdos que geram indignação, choque ou medo tendem a difundir-se mais rapidamente do que análises equilibradas ou informação rigorosa e devidamente fundamentada.

A arquitectura algorítmica favorece, assim, o sensacional e o polarizador, não por uma intenção ideológica intrínseca, mas por imperativos de eficiência económica e a verdade tende a ser preterida em favor do que melhor capta e retém a atenção.

O fenómeno das fake news (contradictio in adjecto?) não radica apenas na mentira deliberada, mas também na saturação informativa – fala-se já em “infobesidade” – que inunda o espaço público. O excesso gera ruído, e este dificulta a distinção entre o verdadeiro e o falso.

Perante este cenário, muitos indivíduos adoptam um cepticismo generalizado — “nada é fiável” — ou, alternativamente, aderem, com crescente indiferença perante a verdade, às fontes que confirmam predisposições prévias. A saturação não conduz necessariamente a maior esclarecimento, mas – e será esta a ultima ratio do fenómeno – antes a uma forma subtil de desistência cognitiva.

Não se trata, já, de rejeitar a verdade, mas de desistir de a procurar. E se, até aqui, a sua erosão parecia resultar sobretudo de limitações humanas e dinâmicas sociais, o desenvolvimento tecnológico recente introduz um factor qualitativamente distinto.

6. Simulação tecnológica e manipulação do real – Verdade versus hiper-realidade

«Nous vivons dans un monde où il y a de plus en plus d’information et de moins en moins de sens.» — Jean Baudrillard

(Vivemos num mundo onde há cada vez mais informação e cada vez menos significado.)

O desenvolvimento recente de tecnologias de manipulação digital, designadamente os chamados deepfakes (perfeita hipérbole para uma verosimilhança perversa) introduz uma nova dimensão no problema contemporâneo da verdade: a possibilidade de fabricar evidência aparentemente irrefutável.

Muitos de nós temos vindo a ser confrontados com imagens, vídeos ou registos sonoros, tradicionalmente percepcionados como suportes privilegiados de verificação factual — e até como meios idóneos de prova — artificialmente construídos com um grau de realismo que desafia, se não inviabiliza, a distinção entre o autêntico e o fabricado.

Não se trata apenas de mais um instrumento de desinformação, mas de uma alteração qualitativa do próprio estatuto da prova: aquilo que se vê ou se ouve deixa de constituir garantia de verdade.

Neste contexto, a questão já não é apenas saber o que é verdadeiro ou falso mas saber a que critérios fiáveis podemos recorrer para os distinguir. As sociedades contemporâneas colocaram-se perante um problema de natureza meta-analítica: deixou de estar em causa a sua capacidade de contestar a verdade, mas a própria possibilidade de a distinguir. Quando o verdadeiro pode ser tecnicamente replicado com perfeita verosimilhança, a verdade, tornando-se estruturalmente vulnerável à sua própria simulação, perde relevância – e, com ela, valor.

7. Publicidade e normalização da distorção – Verdade versus persuasão

«In a world that really is topsy-turvy, the true is a moment of the false. » — Guy Debord

(Num mundo que está mesmo de pernas para o ar, o verdadeiro é um momento do falso.)

A publicidade contemporânea constitui um dos exemplos mais evidentes da banalização da distorção factual. Como observava David Ogilvy, “The consumer isn’t a moron; she is your wife” (O consumidor não é um idiota; é a tua mulher) — irónica advertência que, longe de eliminar a distorção, parece antes evidenciar a sua crescente sofisticação.

Longe de se limitar à valorização legítima de produtos ou serviços, a publicidade transformou-se, em muitos casos, num dispositivo sistemático de produção de mensagens cuja correspondência com a realidade parece ser, no mínimo, questionável.

Desde a apresentação de produtos alimentares como saudáveis, apesar de evidência em sentido contrário, passando pela artificial caracterização de bens de consumo ou até dos seus não comprovados benefícios a comunicação publicitária opera frequentemente numa zona intermédia entre a omissão, o exagero e a reconfiguração do real.

O aspecto mais relevante, porém, não reside apenas na existência dessa distorção, mas na sua aceitação generalizada. Longe vai o nosso sorriso complacente perante o dolus bonus da varina que apregoava “sardinha viva”. Hoje, consumidores e produtores participam, de forma tácita, numa espécie de ficção partilhada, na qual a veracidade cede lugar à valorização de uma enaltecida eficácia persuasiva.

A distorção deixa, assim, de ser percebida como desvio e passa a integrar a própria lógica do sistema. A verdade não é recusada — apenas se torna irrelevante. E, nesse contexto, a comunicação deixa de ser um meio de esclarecimento para se afirmar, claramente, como instrumento de influência.

8. Primado da ideologia sobre o dado empírico – Verdade versus ideologia

«The Party told you to reject the evidence of your eyes and ears. It was their final, most essential command.» — George Orwell

(O Partido mandou-te rejeitar a evidência dos teus olhos e ouvidos. Era a sua ordem final, a mais essencial.)

Em certos sectores da academia contemporânea, bem como no espaço público que com ela interage, observa-se uma tendência crescente para subordinar o dado empírico a construções de natureza ideológica, particularmente em matérias relacionadas com identidade, género, pertença cultural ou nacionalidade.

Sem pôr em causa a legitimidade do debate filosófico ou normativo — que importa preservar — a questão assume contornos mais exigentes quando categorias analíticas fundadas em disciplinas como a biologia, a demografia ou a geografia são reconfiguradas exclusivamente à luz de pressupostos ideológicos prévios.

O debate em torno de questões aparentemente elementares — designadamente as atinentes à definição de categorias fundamentais da experiência humana — ilustra bem este fenómeno: a dificuldade em alcançar consensos mínimos não decorre da ausência de conhecimento, mas da resistência em reconhecer a primazia de critérios verificáveis sempre que estes colidem com determinadas construções identitárias.

Nestes casos, não assistimos a uma mera refutação da verdade; antes, à sua reinterpretação ou deslocação para um plano em que a coerência interna da narrativa prevalece sobre a sua correspondência com a realidade empírica.

9. Tolerância à inverdade no discurso político – Verdade versus indiferença

«As compared with last year there was more of everything… except disease, crime and insanity.» — George Orwell, 1984

(Por comparação com o ano passado, havia mais de tudo (…) excepto doença, crime e insanidade.)

Um dos traços mais inquietantes das sociedades contemporâneas reside na crescente tolerância — quando não indiferença — perante a falta de verdade no discurso político.

Depois da generalizada aceitação do incumprimento de promessas eleitorais, fenómeno há muito conhecido e, em certa medida, estrutural à prática política, passámos a também a consentir na banalização de afirmações factualmente incorrectas, proferidas com uma segurança que roça o cinismo, e que raramente encontram consequências proporcionais no plano político ou eleitoral.

A reacção pública a tais desvios revela uma progressiva dessensibilização: a exposição repetida à inverdade gera habituação, e a habituação conduz à indiferença. A mentira deixa de escandalizar para passar a integrar o ruído de fundo do discurso público.

Mais grave ainda, essa indiferença não é neutra. Ao não penalizar a distorção factual, o espaço público passa a recompensar, directa ou indirectamente, a sua utilização como instrumento retórico. A verdade perde, assim, não apenas centralidade normativa, mas também relevância funcional no próprio exercício da actividade política.

10. Construção de modelos simbólicos e cultura da aparência – Verdade versus representação

«Quando quis tirar a máscara,

Estava pegada à cara.

Quando a tirei e me vi ao espelho,

Já tinha envelhecido.»

— Álvaro de Campos

As sociedades contemporâneas revelam uma particular propensão para eleger como referências figuras cuja visibilidade não assenta necessariamente em mérito substantivo, mas na capacidade de captação de atenção e projecção mediática. Celebridades, influenciadores digitais, figuras do entretenimento têm vindo a afirmar-se como modelos aspiracionais, em particular junto das gerações mais jovens, assomando-lhes diaria e repetidamente à janela virtual.

Não está em causa a legitimidade do reconhecimento público do talento ou do sucesso. O que se observa, porém, é a progressiva valorização de representações cuidadosamente construídas, muitas vezes dissociadas da realidade pessoal ou das competências efectivas dos próprios. A identidade pública tende a transformar-se numa narrativa performativa, por vezes hiperbólica, ajustada às voláteis expectativas do público e aos mecanismos de visibilidade das plataformas.

Neste contexto, a aparência sobrepõe-se à substância. A imagem — artificialmente construída e frequentemente filtrada, editada ou encenada — adquire uma esmagadora primazia sobre a experiência vivida, e os sinais exteriores passam a valer mais do que os processos que os sustentariam. O resultado é a difusão de modelos que, não sendo necessariamente falsos em sentido estrito, assentam numa forma de representação que indelevelmente dilui a fronteira entre autenticidade e construção.

A cultura da visibilidade tende, assim, a privilegiar o que é exibível sobre o que é verdadeiro e, nesse processo, abandona-se a verdade como critério de referência, perante a crescente eficácia da mera imagem e a lógica crua da adesão.

Se, considerados isoladamente, estes fenómenos poderiam ainda ser entendidos como disfunções próprias de sociedades complexas, na sua convergência parecem indiciar algo de mais profundo e preocupante: não apenas a erosão da verdade, mas a transformação do seu próprio estatuto no espaço público.

III. DA EROSÃO DA VERDADE À ERA DA PÓS-VERDADE

“Verdade, Amor, Razão, Merecimento,

Qualquer alma farão segura e forte;

Porém Fortuna, Caso, Tempo, e Sorte,

Têm do confuso mundo o regimento.”

— Luís de Camões

Neste contexto multifactorial, emerge aquilo que foi designado como “pós-verdade”, termo amplamente difundido a partir de 2016 e associado a fenómenos como a eleição de Donald Trump ou o referendo do Brexit.

A pós-verdade não significa ausência de factos, mas a perda da sua centralidade normativa. A verdade parece ter deixado de ser horizonte comum para se tornar recurso estratégico, em que emoções, pertenças identitárias e eficácia comunicacional se afirmam como critérios decisivos.

Não nos encontramos perante um mero acidente moral, mas perante um fenómeno estrutural, alimentado por disposições psicológicas, incentivos tecnológicos e dinâmicas políticas. O “horror à verdade” não se manifesta apenas na mentira deliberada, mas na construção de ambientes onde a verdade se torna incómoda, secundária ou desvantajosa.

Se, para o pensamento clássico, a verdade ordenava o intelecto e a vida moral, e se a tradição cristã lhe conferiu densidade existencial e humana, a modernidade deslocou progressivamente esse centro, subtraindo-lhe a dimensão de fundamento estável para se tornar problema, interpretação ou construção. Tal deslocação trouxe ganhos — maior vigilância crítica e acrescida consciência histórica – mas, importa reconhecê-lo, também contribuiu para fragilizar o solo comum que sustentava a ideia de verdade como realidade partilhada.

A cultura contemporânea vive, assim, numa tensão paradoxal: reivindica a verdade — transparência, dados, provas — e, simultaneamente, resiste à sua autoridade quando esta impõe limites. O resultado não é apenas a normalização da mentira; é a erosão do estatuto normativo da verdade, que deixa de ser medida para se tornar instrumento.

A literatura, porém, pressentiu desde cedo este desconforto. Em Os Lusíadas, Luís de Camões celebra o heroísmo lusitano, mas não prescinde da denúncia incómoda, através do extraordinário Velho do Restelo, de uma certa embriaguez colectiva. A verdade assume ali a condição de limite — e, por isso mesmo, a dimensão de algo que poucos desejam ouvir.

Séculos depois, Fernando Pessoa escreve: «O mito é o nada que é tudo». A fragmentação do sujeito moderno traduz a dificuldade em habitar uma verdade una: multiplicam-se máscaras e perspectivas, e o drama deixa de ser apenas o erro de interpretação da realidade, para se tornar escolha entre uma multiplicidade dispersa de conteúdos.

A alienação contemporânea já não é apenas psicológica, mas também de natureza epistemológica. Deixou de estar em causa contestar a verdade, mas sim perder a capacidade de a escutar ou, até, de a compreender. A procura e o confronto cederam à anestesia e à dormência. O “horror à verdade” assume, assim, uma forma mais subtil: a indiferença.

Talvez, então, a questão decisiva não seja saber se pretendemos regressar a uma verdade primordial, una e íntegra, mas se estamos ainda dispostos a suportar o incómodo da sua exigente presença, que nos corrige e limita.

Importa questionar, particularmente face à complexidade geopolítica actual, se uma civilização, podendo sobreviver à ignorância e até à mentira, conseguirá sobreviver à indiferença perante a própria possibilidade de verdade. Talvez esta inquietação nos ajude a compreender por que razão, há dois milénios, alguém ensinava que o seu reino, o da Verdade, não pertence a este mundo.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

domingo, 29 de março de 2026

Herança sem voz

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 28 de março de 2026

Herança sem voz

Os gregos de hoje praticamente não estudam seus próprios filósofos. Mesmo assim, somos todos gregos. Dennys Xavier para a Crusoé:

Os gregos de hoje praticamente não estudam seus próprios filósofos.

Tenho ouvido isso durante minha atual viagem à Grécia. No começo, isso me pareceu um exagero. Depois, incômodo com arestas. Por fim, foi uma revelação.

Não é uma constatação dita com orgulho, nem com vergonha. Soa mais como um fato banal, conformado, desses que emergem numa conversa qualquer e seguem adiante.

Ainda assim fico com aquilo na cabeça por dias… talvez porque contrarie uma expectativa silenciosa.

A tradição que moldou parte decisiva do pensamento ocidental não desapareceu do mundo, mas desapareceu da vida cotidiana de quem a produziu.

E o curioso é que isso não acontece só aqui. Em quase todo lugar, até mesmo entre pessoas muito instruídas, Sócrates, Platão ou Aristóteles aparecem mais como nomes familiares do que como presenças reais.

Estão por perto, mas de maneira difusa, meio decorativa. Permanecem como referências smbólicas, raramente como interlocutores, merecedores de escuta crítica.

Mesmo assim, continuamos pensando com eles. Mesmo sem saber.

A ideia de discutir o que é justiça, por exemplo, não surgiu naturalmente em qualquer sociedade humana.

Ela precisou ser inventada como problema. A noção de que a vida pode ser examinada com rigor, debatida em público, posta em questão sem apelo imediato à autoridade religiosa ou ao costume herdado, também precisou surgir em algum momento.

Isso não acontece sozinho, no automático. Alguém começa. Alguém insiste. Alguém transforma a pergunta em hábito.

Hoje essas coisas parecem tão evidentes que raramente lembramos que tiveram origem, um momento inicial no tempo.

Herdamos uma forma de pensar e passamos a tratá-la como se fosse apenas o modo natural de pensar.

A lógica, tão maltratada em tempos de barbárie das redes sociais, virou ferramenta tácita. A ética virou vocabulário cotidiano. A política virou cenário inevitável.

O passado permanece ativo, mas recoberto, como se tivesse sido absorvido pelo ar.

Na Grécia contemporânea, pelo menos nas conversas que tenho, percebe-se uma relação ambígua com esse passado.

Existe orgulho, claro. Mas também distância. Às vezes, uma espécie de saturação silenciosa, como se o peso simbólico daquela herança fosse grande demais para acompanhar a vida comum.

Em outros momentos, aparece algo mais próximo de recusa, ligado a disputas ideológicas recentes, a mudanças no sistema educacional, a tentativas de redefinir o que significa ser moderno num país constantemente comparado com sua própria antiguidade.

Essa recusa não precisa ser estridente para produzir efeitos profundos. Basta que a filosofia deixe de ser considerada necessária. Basta que ela se torne um tanto dispensável. Basta que passe a parecer ornamental.

Aos poucos, a familiaridade com esses textos se retrai, e com ela se retrai também a memória de que certas perguntas/respostas foram conquistadas com esforço.

O que chama atenção é a velocidade discreta com que isso se espalha.

Não se trata de um fenômeno exclusivamente grego, preciso sublinhar. Em muitos países, a filosofia (especialmente a antiga) vai sendo empurrada para as margens da formação comum, substituída por conteúdos considerados mais úteis, mais práticos, mais alinhados com exigências imediatas.

A transformação acontece sem escândalo. Quando alguém percebe, ela já está instalada.

Mesmo assim, continuamos falando em democracia como se fosse uma palavra autoexplicativa.

Continuamos esperando que decisões públicas possam ser justificadas racionalmente (torpe ilusão).

Continuamos supondo que existe algo como responsabilidade individual diante da vida coletiva.

Ora, nada disso surgiu espontaneamente. Tudo foi pensado, discutido, disputado em algum momento por pessoas cujos nomes hoje raramente aparecem fora de contextos especializados.

Talvez por isso essa observação feita aqui tenha ficado comigo, latente.

Não parece apenas um detalhe local.

Soa mais como um pequeno sinal de um processo maior, algo que atravessa fronteiras com facilidade e quase não encontra resistência porque não provoca choque imediato.

Um esquecimento lento raramente chama atenção.

Existe também um elemento ideológico nesse movimento.

Em certos ambientes intelectuais, o passado clássico é tratado com desconfiança, como se fosse inseparável de hierarquias antigas, de exclusões históricas ou de projetos políticos que já não queremos repetir.

Parte dessa crítica é compreensível. Ainda assim, quando a reação se transmuta em afastamento sistemático, perde-se a possibilidade de reler essa herança com liberdade.

O contato desaparece antes da interpretação.

E então ocorre algo curioso: continuamos vivendo dentro de estruturas mentais herdadas de filósofos que já não lemos.

Seguimos discutindo questões que eles formularam com precisão surpreendente, mas como se estivéssemos começando do zero. A sensação de novidade cresce ao mesmo tempo que a memória diminui.

Talvez seja justamente por isso que ouvir gregos falarem com naturalidade sobre a ausência desses autores na formação atual produz um efeito tão persistente em mim.

Um sinal discreto de que uma tradição inteira pode continuar operando mesmo quando deixa de ser reconhecida como tradição.

E quando isso acontece, algo se desloca sem fazer barulho. Continua difícil dizer exatamente o quê.

Talvez seja apenas a maneira como passamos a habitar as perguntas que recebemos.

Talvez seja a forma como deixamos de perceber que elas vieram de muito longe.

Talvez seja só a impressão de que seguimos avançando enquanto esquecemos quem abriu o caminho antes de nós.

De todo modo, fica o gosto amargo de uma perda: gregos que não conhecem seu glorioso passado, mundo que desconhece o passado glorioso dos gregos… enquanto urge reconhecer, segundo algo já dito: de uma forma ou de outra, nós, ocidentais, somos todos gregos.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sexta-feira, 27 de março de 2026

Ser infeliz e querer morrer justifica o Estado tirar a vida de alguém?

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 26 de março de 2026

Ser infeliz e querer morrer justifica o Estado tirar a vida de alguém?

O caso da espanhola Noelia Castillo, paraplégica depois de tentativa de suicídio, exemplifica as complexidades éticas e humanas da eutanásia. Vilma Gryzinski:

Todo mundo entende que alguém com um câncer terminal, com poucas e terríveis semanas de vida pela frente, peça para partir e encerrar o sofrimento. Mas e o sofrimento mental, doenças psíquicas paralisantes, um desejo profundo de morrer, são justificativas válidas para a eutanásia legal? Noelia Castillo teve sua vida encerrada hoje, aos 25 anos. Era evidente que vivia em dor emocional, com tratamento psiquiátrico desde os 13 anos, dois estupros – um ex-namorado e outro praticado por três jovens, segundo relatava -, e uma tentativa de suicídio que a deixou paraplégica ao pular de uma janela do quinto andar, diante do pai, que perdeu a batalha legal para conservar a vida da filha, rompida com ele por causa disso.

Quem estava certo, o pai ou a filha? O caso é complexo justamente porque as duas partes têm argumentos fortes.

A eutanásia em si já é uma questão repleta de dilemas éticos e eles só aumentam quando está em questão a saúde mental. Uma depressão é obviamente diferente de um tumor cancerígeno. Uma pessoa que quer morrer através de instrumentos da medicina poderia ser curada de seu sofrimento psíquico? É certo usar o poder do Estado para encerrar sua vida? O individualismo do mundo contemporâneo provoca distorções absurdas ou é um argumento sólido em favor do “direito de morrer”?

A revista The Atlantic publicou há duas semanas uma reportagem com o médico holandês Menno Oosterhoff, um homem de setenta anos que matou legalmente pela primeira vez uma jovem de 18 anos, em outubro de 2022. Diagnosticada com transtorno obsessivo-compulsivo, distúrbio alimentar e autismo, ela queria morrer. O médico tinha autoridade para conceder o seu desejo. A eutanásia é legal na Holanda desde 2002.

‘MENTALMENTE TERMINAL’

Não deveria ele ter tratado a doença mental da jovem paciente? Colaborar para a sua morte não é uma forma de aceitar os argumentos em favor do suicídio que os médicos foram treinados para combater? Uma jovem de 18 anos está no pleno controle de suas capacidades para pedir para morrer – e ser atendida?

A conclusão de Oosterhoff que permitiu o suicídio assistido da sua primeira paciente foi que ela era “mentalmente terminal”. É uma tremenda confissão de derrota.

São casos assim que dão argumentos aos adversários da eutanásia – e é possível sê-lo mesmo se não for por motivo religioso nem com base na convicção que “Deus dá e Deus tira a vida”. A vida, revestida de santidade da perspectiva cristã, também pode ser encarada do ponto de vista humanista como um valor único e inquebrantável, o mais fundamental dos direitos humanos.

Na Holanda, uma criança de doze anos pode dizer que quer morrer por motivos de saúde mental e procurar ajuda para isso. Se os pais concordarem, terá início o processo que culmina com a eutanásia. Segundo os dados da Atlantic, houve 9 958 casos de eutanásia na Holanda em 2024. Desses, 86% foram por doenças físicas. Motivos psiquiátricos levaram a 675 casos de eutanásia entre 2020 e 2024.

SUPERIODADE MORAL

As facilidades para a eutanásia são maiores ainda no Canadá. Os números oficiais alcançam até 2024 e listam mais de 76 mil casos desde a legalização do suicídio assistido, em 2016. De cada vinte mortes no país, uma é por suicídio assistido, obviamente um número desproporcional que gera uma terrível impressão: em vez de tratar pessoas que se sentem sozinhas, abandonadas ou sem saída, o Estado aceita a opção de encerrar suas vidas. Até a perda de domicílio passou a ser vista como um motivo razoável para o suicídio assistido.

Casos como o de Noelia Castillo também passam uma mensagem extremamente negativa para vítimas de eventos devastadores: é melhor morrer do que procurar tratamento para sair do estado em que são precipitadas. Muitos sobreviventes relatam, ao contrário, que sentem a vitória do impulso da vida quando superam seus traumas, mesmo ao preço de enormes batalhas.

Não deixa de ser um fracasso não só das profissões médicas, mas de toda a civilização, quando o sofrimento psíquico é admitido como razão para tirar a vida legalmente de uma pessoa. Para seus defensores, claro, é uma vitória civilizacional. A maioria das pessoas fica dividida entre os dois sentimentos, com aqueles situados nos extremos em geral dotados de um sentimento de superioridade moral.

Noelia Castillo escolheu morrer sozinha na casa de repouso onde vivia, brigada com a família, com um vestido bonito e quatro fotos remetendo a momentos felizes de sua infância.

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quinta-feira, 19 de março de 2026

Reflexões sobre a morte

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 19 de março de 2026

Reflexões sobre a morte

Diz-se por vezes que ninguém pode conceber a sua própria inexistência, e que, portanto, não podemos realmente acreditar que a nossa existência terminará com as nossas mortes. Mas isto não parece verdadeiro. Thomas Nagel, publicado pela Crítica:

Todas as pessoas morrem, mas nem todas concordam acerca do que é a morte. Algumas acreditam que sobreviverão depois da morte dos seus corpos, e que vão para o Céu, ou para o Inferno, ou para qualquer outro sítio, tornando-se espíritos, ou que voltam à Terra num corpo diferente, talvez nem sequer como seres humanos. Outras acreditam que deixarão de existir — que o eu se extingue quando o corpo morre. E entre aquelas que acreditam que deixarão de existir, algumas pensam que isso é um facto terrível, e outras não.

Diz-se por vezes que ninguém pode conceber a sua própria inexistência, e que, portanto, não podemos realmente acreditar que a nossa existência terminará com as nossas mortes. Mas isto não parece verdadeiro. É claro que não consegues conceber a tua inexistência a partir de dentro. Não podes conceber como seria a aniquilação total, porque não seria como nada, a partir de dentro. Mas, nesse sentido, não podes conceber o que seria ser completamente inconsciente, mesmo temporariamente. O facto de não poderes conceber isso a partir de dentro não quer dizer que não o possas de todo conceber: tens apenas que pensar em ti a partir de fora, como se tivesses levado uma pancada que te pusesse inconsciente, ou como se estivesses profundamente adormecido. E apesar de teres de estar consciente para pensar nisso, isso não quer dizer que estejas a pensar em ti como se estivesses consciente.

O mesmo se passa com a morte. Para imaginar a tua própria aniquilação tens que pensar nela a partir do exterior — tens que pensar no corpo da pessoa que és, mas sem vida nem experiência. Para imaginares qualquer coisa não é necessário imaginares como tu te sentirias ao ter essa experiência. Quando imaginas o teu próprio funeral, não estás a imaginar a situação impossível de estar presente no teu próprio funeral: estás a imaginar como seria o funeral visto pelos olhos de outra pessoa. É claro que estás vivo quando pensas na tua própria morte, mas isso não é mais problemático do que estar consciente quando te imaginas inconsciente.

A questão da sobrevivência depois da morte relaciona-se com o problema da mente-corpo. Se o dualismo for verdadeiro, e cada pessoa consistir numa alma e num corpo ligados entre si, conseguimos compreender como a vida depois da morte poderia ser possível. A alma teria de ter a capacidade de existir por si própria e de ter uma vida mental sem o auxílio do corpo: nesse caso, podia deixar o corpo quando este morresse, em vez de ser destruída. Não seria capaz de ter uma vida mental que incluísse acções nem percepções sensoriais, pois estas dependem da ligação ao corpo (a não ser que se ligasse a um corpo novo), mas poderia ter um tipo diferente de vida interior, talvez dependendo de causas e influências diferentes — como a comunicação directa com as outras almas, por exemplo.

Afirmei que a vida depois da morte pode ser possível se o dualismo for verdadeiro. Mas também pode não ser possível, porque a sobrevivência da alma, e a persistência da sua consciência, podem depender inteiramente do apoio e do estímulo que recebem do corpo no qual a alma está alojada — e a alma pode não ser capaz de mudar de corpo.

Mas se o dualismo não for verdadeiro, e os processos mentais se desenrolam no cérebro e são inteiramente dependentes do funcionamento biológico do cérebro e do resto do organismo, então a vida depois da morte do corpo não é possível. Ou, para ser mais exacto, a vida mental após a morte requereria a restauração da vida biológica, da vida física: requereria que o corpo voltasse de novo à vida. Isto pode vir a ser tecnicamente possível no futuro: pode vir a ser possível congelar os corpos das pessoas quando morrem, e, por qualquer processo médico avançado, curá-las mais tarde do que tinham, trazendo-as assim de volta à vida.

Mesmo que isto se torne possível, ainda restaria a questão de saber se a pessoa que voltou à vida vários séculos mais tarde seria a mesma, ou se seria outra pessoa qualquer. Talvez acontecesse que, se fosses congelado depois da morte e o teu corpo fosse mais tarde reanimado, não serias tu a acordar, mas apenas alguém muito parecido contigo, com memórias da tua vida anterior. Mas mesmo que se torne possível a reanimação depois da morte da mesma pessoa no mesmo corpo, isso não é o que normalmente se quer dizer com a vida depois da morte. Vida depois da morte quer normalmente dizer vida sem o corpo antigo.

É difícil saber como poderíamos decidir se temos ou não almas separáveis. Todos os dados mostram que, antes da morte, a vida consciente depende inteiramente do que acontece ao sistema nervoso. Se seguirmos apenas a observação habitual, em vez de seguirmos doutrinas religiosas ou alegações espiritualistas de comunicação com os mortos, não há razão para acreditar numa vida depois da morte. Será esta, contudo, uma razão para acreditar que não há vida depois da morte? Penso que sim, mas outras pessoas podem preferir permanecer neutrais.

Outras pessoas ainda podem acreditar na vida depois da morte com base na fé, dada a ausência de provas. Por mim, não compreendo completamente como é possível este tipo de crença inspirada na fé, mas é evidente que algumas pessoas podem consegui-la, e até mesmo achá-la natural.

Abordemos agora o outro aspecto do problema: como devemos sentir-nos relativamente à morte. É uma coisa boa, uma coisa má, ou uma coisa neutra? Estou perguntar como será razoável sentires-te em relação à tua própria morte — e não tanto em relação à morte de outras pessoas. Deves encarar a perspectiva da morte com terror, pena, indiferença, ou alívio?

É óbvio que isso depende do que é a morte. Se há vida depois da morte, a perspectiva será triste ou alegre consoante o sítio para onde a tua alma irá. Mas a questão difícil e filosoficamente mais interessante é saber como nos devemos sentir se a morte for o fim. Deixar de existir é uma coisa terrível?

As pessoas divergem quanto a isto. Algumas dizem que a inexistência, não sendo nada, não pode ser nem boa nem má para a pessoa morta. Outras dizem que ser aniquilado, ter o curso futuro possível da tua vida completamente interrompido, é o pior de todos os males, mesmo que todos tenhamos que o enfrentar. Há ainda outras pessoas que dizem que a morte é uma bênção — não se vier muito cedo, é claro —, porque seria insustentavelmente entediante viver para sempre.

Se a morte sem nada a seguir é algo bom ou mau para a pessoa que morre, tem de ser um bem ou um mal negativo. Uma vez que a morte nada é em si mesma, não pode ser agradável nem desagradável. Se a morte é boa, então tem de ser porque é a ausência de algo mau (como o tédio ou a dor); se é má, tem de ser porque é a ausência de algo bom (como experiências interessantes ou agradáveis).

Mas também pode parecer que a morte não pode ter qualquer valor, positivo ou negativo, porque alguém que não existe não pode ser nem beneficiado nem prejudicado: afinal de contas, mesmo um bem ou mal negativo tem de acontecer a alguém. Mas, reflectindo melhor, isto não é realmente um problema. Podemos dizer que a pessoa que existia foi beneficiada ou prejudicada pela morte. Por exemplo, supõe que ela fica presa num edifício em chamas, e que uma trave lhe cai na cabeça, matando-a imediatamente. Em resultado disso, ela não sofre a agonia de morrer queimada. Parece que neste caso podemos dizer que ela teve sorte por ter uma morte indolor, uma vez que se evitou uma coisa pior. Nestas circunstâncias, a morte foi um bem negativo, porque ela foi salva do mal positivo que teria sofrido nos cinco minutos seguintes. E o facto de a pessoa não estar viva para gozar o bem negativo não quer dizer que não seja de todo um bem para ela. «Ela» significa a pessoa que estava viva e que teria sofrido se não tivesse morrido.

O mesmo tipo de coisa se poderia dizer acerca da morte como um mal negativo. Quando morres, acabam todas as coisas boas na tua vida: não há mais refeições, nem filmes, viagens, conversas, amor, trabalho, livros, música, ou qualquer outra coisa. Se essas coisas tivessem sido boas, a sua ausência é má. É claro que não sentirás a sua falta: a morte não é como estar de castigo fechado sozinho num quarto. Mas o fim de todas as coisas boas na vida, devido ao fim da própria vida, parece claramente um mal negativo para a pessoa que estava viva e que agora está morta. Quando morre alguém que conhecemos, temos pena não só por nós próprios mas por ela, porque hoje não pode ver o brilho do Sol, ou sentir o aroma do pão na torradeira.

Quando pensas na tua própria morte, o facto de todas as coisas boas na vida irem acabar é certamente um motivo para sentires desgosto. Mas isto não é tudo, ao que parece. A maior parte das pessoas querem prolongar aquilo de que gostam na vida mas, para algumas, a perspectiva da inexistência é em si assustadora — assustadora de uma maneira que não se pode explicar adequadamente pelo que se disse até agora. A ideia de que o mundo continuará sem ti, que te tornarás nada, é muito difícil de aceitar.

A razão de ser disso não é claro. Todos aceitamos o facto de ter existido um tempo anterior ao nosso nascimento, no qual ainda não existíamos — portanto, por que razão haveria de perturbar-nos tanto a perspectiva da inexistência depois da nossa morte? Mas, de algum modo, o sentimento não é o mesmo nos dois casos. A perspectiva da inexistência é assustadora, pelo menos para muitas pessoas — assustadora de uma maneira que a inexistência no passado não pode ser.

O medo da morte é enigmático de uma maneira que o desgosto pelo fim da vida não é. É fácil compreender que podemos querer ter mais vida, podemos querer ter mais das coisas que a vida inclui, o que implica ver a morte como um mal negativo. Mas como pode a perspectiva da tua própria inexistência ser alarmante de uma maneira positiva? Se realmente deixamos de existir com a morte, então nada há que possamos esperar; mas então como pode haver algo de que possamos ter medo? Se pensarmos logicamente sobre isso, parece que só devemos ter medo da morte se viermos a sobreviver-lhe, sofrendo com isso talvez uma transformação terrível. Mas este argumento não impede muitas pessoas de pensar que a aniquilação é uma das piores coisas que lhes pode acontecer.

Thomas Nagel

Que Quer Dizer Tudo Isto? (Lisboa: Gradiva, 1995), Cap. 9.

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domingo, 22 de fevereiro de 2026

Luc Ferry, filósofo francês


Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 22 de fevereiro de 2026

Luc Ferry, filósofo: ‘Os pais devem absolutamente limitar o uso das redes sociais pelos seus filhos’.

O filósofo francês, que estará no Brasil em maio para o SP Innovation Week, critica o consumo acelerado e o vício nas plataformas digitais. Reportagem do Estadão:

Ele foi ministro da Educação da França, é um dos filósofos contemporâneos mais lidos da Europa e, desde a publicação do livro “Aprendendo a Viver”, tornou-se uma referência para quem busca na filosofia um guia para atravessar a existência de forma mais serena. Em maio, Luc Ferry desembarca presencialmente no Brasil como um dos palestrantes do SP Innovation Week (SPIW).

O evento de inovação, tecnologia e negócios será realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Mercado Livre Arena Pacaembu e na Faap, e a venda de ingressos começa nesta segunda-feira, 23.

Em um dos 32 palcos do festival, que acontece entre os dias 13 e 15 de maio, Ferry vai discutir justamente aquilo que mais inquieta o ser humano contemporâneo: como viver em meio ao excesso de informações e à obsessão pela felicidade vendida como produto nas mídias sociais?

Em entrevista à Coluna, Ferry começa por desfazer um equívoco que, segundo ele, compromete o próprio entendimento do pensamento filosófico: “Vivemos hoje numa confusão inquietante que impede a compreensão da filosofia: aquela que consiste em misturar permanentemente valores espirituais e valores morais”.

E esclarece: “A moral, em qualquer sentido que se entenda, é o respeito pelo outro, pelos direitos do homem, com, além disso, a benevolência, a generosidade. Conduzir-se moralmente é respeitar o outro e querer-lhe ativamente o bem”.

Mas, diz ele, ainda que vivêssemos numa sociedade perfeitamente justa, isso não nos livraria da angústia fundamental.

“Se nós aplicássemos perfeitamente os valores morais, não haveria mais massacres, nem violações, nem roubos, nem assassinatos, nem injustiças. Seria uma revolução. E, no entanto, isso não nos impediria nem de envelhecer, nem de morrer, nem de perder um ente querido, nem mesmo de, se for o caso, sermos infelizes no amor ou, simplesmente, de nos aborrecermos ao longo de uma vida cotidiana mergulhada na banalidade”.

É aí que entra o que ele chama de espiritualidade, não necessariamente religiosa. “Há espiritualidades com deuses, que são as religiões, e espiritualidades sem Deus, que são as grandes filosofias”.

Em um momento em que a saúde mental ocupa o centro das conversas, Ferry observa uma mudança profunda no Ocidente. “Na Europa, em 1950, 95% dos franceses eram católicos, crentes.

Já agora são 40% que dizem acreditar em Deus. Então, a psicologia toma o lugar da religião, e a preocupação com a saúde mental ocupa o lugar das preocupações metafísicas”. Para ele, no entanto, a questão decisiva continua a mesma: a morte.

Citando Schopenhauer: “A morte é, propriamente falando, o gênio inspirador; sem ela, provavelmente não haveria filosofia”. A reflexão filosófica, Ferry pontua, nasce da consciência da finitude. “Vivemos pequenas mortes, perdas cotidianas que são formas de finitude que experimentamos.

A perda da juventude, filhos que crescem, amigos que se distanciam”. Desde “A Epopeia de Gilgamesh”, lembra, os humanos enfrentam a angústia: “Nem os animais nem os deuses colocam as mesmas questões que nós, pequenos humanos mortais…”

Redes sociais

Sobre tentar se distrair da angústia por meio do uso excessivo das telas na era digital, Ferry não suaviza o tom. “As redes são uma armadilha que pode ser mortal. Encerram-nos nas nossas próprias certezas e são, além disso, viciantes”.

E faz um alerta direto: “Os pais devem absolutamente limitar o uso das redes sociais pelos seus filhos; é vital!”.

A crítica às plataformas digitais, porém, não é apenas moral ou pedagógica – insere-se numa reflexão mais ampla sobre as ilusões contemporâneas e a dificuldade de lidarmos conosco mesmos.

Desafios do dia a dia

Ao falar sobre “viver em harmonia consigo mesmo”, recusa qualquer idealização. “Sou um ser profundamente angustiado e muitas vezes estou em desacordo comigo mesmo. (risos) Parece-me que um ser totalmente desprovido de angústia seria ou um grande doente ou um perfeito imbecil, pois, como dizia Immanuel Kant, ‘se a providência tivesse querido que fôssemos felizes, nunca nos teria dado a inteligência’”.

Em seu último livro, “O Frenesi da Felicidade”, Ferry critica a lógica do prazer imediato e recorre a uma imagem simples para explicar o presente.

“O grande problema do mundo moderno é que, em comparação com os nossos avós, o capitalismo globalizado fez tudo para mergulhar os nossos filhos no princípio do prazer, segundo o qual queremos ‘tudo, tudo imediatamente’. É infantil e perigoso. É preciso ensinar aos nossos filhos a resistir, mas é mais fácil dizer do que fazer, tal a força da lógica do consumo”.

A chamada “ciência da felicidade”, a psicologia positiva, também não escapa ao seu ceticismo. “Um pouco de bom senso deveria ser suficiente para compreender que se trata novamente de uma miragem, sendo a felicidade algo tão subjetivo que nenhuma definição científica é possível”.

Para ele, a promessa de fórmulas prontas é ilusória. “No fundo, somos felizes quando a vida é simpática, quando nos oferece bons momentos”.

Mas adverte, evocando Rousseau e Kant, que “a felicidade é apenas um ‘ideal da imaginação’, não uma realidade acessível aqui na Terra, muito menos um objeto de ciência”. E conclui com uma constatação quase clássica: “Para nós, os mortais, nada pode ser estável ou duradouro aqui na Terra, de modo que as nossas alegrias são necessariamente efêmeras e frágeis”.

Mas Ferry não encerra a entrevista sem esperança. Para ele, existe um “novo sagrado”, um valor que fundamenta uma nova ética: “O amor é uma forma de encontrar sentido na vida, a base do humanismo moderno, focado nas relações humanas e que transforma a maneira como vivemos”, conclui.

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Sobre o SP Innovation Week

Em uma área de 50 mil m², o festival terá 32 palcos simultâneos com mais de 1,5 mil palestrantes nacionais e internacionais, debatendo temas de tecnologia, negócios, empreendedorismo, luxo, impacto social, cultura e economia criativa.

A expectativa é receber mais de 90 mil visitantes, com cerca de 1 mil startups e 100 expositores envolvidos. A programação do megaevento será criada a partir de 15 trilhas de conhecimento, seguindo a variedade inerente à cidade de São Paulo.

Alguns nomes do time de palestrantes já estão confirmados para o festival, incluindo Luc Ferry, Douglas Rushkoff, indicado pelo MIT como um dos dez intelectuais mais influentes do mundo, o psicólogo americano e criador do conceito da inteligência emocional Daniel Goleman, a filósofa americana Rebecca Goldstein, o jornalista russo Dmitry Muratov — laureado com o Nobel da Paz em 2021 por sua defesa da liberdade de expressão —, o psicólogo e linguista canadense Steven Pinker e o premiado astrofísico brasileiro Marcelo Gleiser.

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Serviço
São Paulo Innovation Week
Local: Mercado Livre Arena Pacaembu e na Faap
Dias: 13, 14 e 15 de maio.
Ingressos: R$ 594 (De 23 de fevereiro até 1º de março preço com desconto do passaporte para os três dias do evento. Após essa data, a venda será realizada em lotes regulares).
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Nossos ancestrais tinham quatro olhos? Para que eles serviam?

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 19 de fevereiro de 2026

Nossos ancestrais tinham quatro olhos? Para que eles serviam?

Relógio biológico humano é calibrado pelo sol, mas opera de forma independente. Fernando Reinach para o Estadão:

No nosso corpo a luz tem duas funções. A primeira é permitir a visão. A segunda é controlar os processos que seguem a alternância entre o claro e o escuro. É o que chamamos de ciclo circadiano. Até alguns séculos atras acordávamos com o sol e nos recolhíamos ao anoitecer. Ao nascer demoramos três meses para adequar o sono ao ciclo claro/escuro. Acordamos à noite, dormimos de dia e deixamos os pais loucos e exaustos. Já adultos basta mudarmos abruptamente de fuso horário para nosso sono ficar biruta. É nosso relógio biológico em ação. Ele é calibrado pelo sol, mas opera de forma independente.

Faz muito sabemos que a glândula pineal, uma pequena pirâmide, do tamanho de um grão de arroz, localizada bem no centro de nosso cérebro, é onde reside o relógio biológico. Nos mamíferos ela recebe impulsos nervosos que chegam dos olhos. São esses impulsos que regulam a liberação de hormônios. O principal é a melatonina. Aquele mesmo que, em cápsulas, nos ajuda a regular o sono e a combater o jet lag.

Em alguns peixes e répteis existem orifícios na parte superior do crânio por onde os cientistas acreditam que a luz solar atinge diretamente o cérebro. Esses orifícios não são olhos propriamente ditos pois são recobertos por uma camada fina de osso e pele e não são capazes de formar imagens. Nesses animais existem extensões de vias nervosas que ligam esses locais à glândula pineal. Através desses sensores funções relacionadas ao ciclo circadiano são reguladas. Nesses animais a visão fica a cabo dos olhos e esse “quase olho” serve para regular o ciclo claro/escuro.

São essas descobertas que levaram muitos cientistas e filósofos a acreditar que nossa glândula pineal estaria relacionada a um terceiro olho. A maioria dessas teorias não tem base científica, mas a curiosidade sobre a existência de outros olhos persiste.

A novidade vem da análise dos mais antigos animais com uma coluna vertebral. Seus fósseis foram encontrados na China. São os animais que deram origem aos peixes, anfíbios e répteis, de onde surgiram as aves e os mamíferos. Eles viveram durante o Cambriano, 518 milhões de anos atrás. Esse pequeno animal, chamado Myllokunmingia, tinha 28 milímetros de comprimento e 6 milímetros de altura e parecia um minúsculo peixe. Fósseis desses animais são relativamente abundantes, mas em geral preservam poucos detalhes.

Agora, examinando alguns exemplares de duas espécies bem preservados, os cientistas localizaram, entre os dois olhos, mais duas estruturas circulares contendo evidências da presença de pigmentos semelhantes aos presentes nos olhos e duas estruturas semelhantes às lentes que existem nos olhos dos vertebrados. Isso indica que esses animais possuíam quatro olhos na cabeça e não somente os dois presentes em todos os vertebrados que conhecemos hoje.

O que os cientistas sugerem é que ao longo da evolução, os dois olhos presentes no dorso do animal desapareceram, e que o pequeno buraco no crânio de alguns peixes que deixam passar a luz e têm conexão com a glândula pineal, são as estruturas que sobraram desse par extra de olhos. Ao longo da evolução essas estruturas acabaram se especializando, juntamente com a glândula pineal, em regular nosso relógio interno. Num passo seguinte, nos mamíferos, esses buracos sumiram e sua conexão com a glândula pineal desapareceu.

Se essa descoberta for confirmada podemos dizer que os vertebrados surgiram com quatro olhos capazes de formar imagens e que ao longo de sua evolução dois desses olhos se tornaram capazes de detectar somente a presença de luz e regular nosso ciclo circadiano. Já os dois olhos laterais se especializaram na captura de imagens.

Mais informações: Four camera-type eyes in the earliest vertebrates from the Cambrian Period. Nature

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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A química do vício


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 18 de fevereiro de 2026

A química do vício

A dependência provoca dramas destruidores, mas surgem novos caminhas para a cura. Dagomir Marquezi para a revista Oeste:

Todo prazer é químico. E pode viciar. Quando você toma a primeira cerveja, faz sexo pela primeira vez, ouve uma música que te faz feliz, toma uma droga que alivia uma dor, sai do shopping cheio de sacolas ou bate um recorde num game, você quer de novo e de novo. Se você controla a vontade de repetir, está apenas tendo um prazer. Se não controla, está viciado.

A ciência do vício ocupou uma edição inteira da revista Time. O tema é bastante complexo, pois os limites entre o desejo e a compulsão podem ser muito sutis. Existe uma conexão entre vícios e componentes emocionais, o que torna a questão ainda mais complicada.

O fenômeno não é novidade. “O uso de drogas está sendo registrado desde o início da civilização”, declarou Nora Volkow, diretora do Nida (National Institute on Drug Abuse, ou “Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas”), à revista Time. “Os humanos, no meu ponto de vista, sempre vão querer experimentar coisas que os façam se sentir bem.

Todos temos dois polos no cérebro que disputam nosso poder de decisão. Um é receptor do neurotransmissor dopamina, o mensageiro do prazer. Quando fazemos ou consumimos algo de que gostamos muito, nosso cérebro recebe uma carga de dopamina — e quer mais.

O D3 é um desses polos cerebrais especializados em receber dopamina. Quando uma pessoa consome substâncias como cocaína, metanfetamina ou nicotina, esses receptores se multiplicam querendo mais.

O polo oposto ao D3 é conhecido como Gaba (ácido gama-aminobutírico). Localizado na parte frontal do cérebro, é encarregado de nos dar racionalidade e gerar uma sensação de saciedade. O D3 quer sempre mais. O Gaba diz que já chega.

Macarronada com queijo

Vivemos entre esses dois polos. Pessoas com Gaba em falta tendem a se entregar aos vícios sem controle. Um remédio à base de vigabatrina, indicado normalmente contra epilepsia, aumenta o poder do Gaba e, portanto, da racionalidade.

Outro caso é o corpo estriado, uma região no meio do cérebro rica em receptores de dopamina. Quando comemos uma macarronada com queijo ralado, é o estriado que sinaliza que estamos tendo prazer. Quando a dopamina encontra um corpo estriado sem mecanismo de controle, passamos a querer mais e mais.

Além do equilíbrio corpo estriado/dopamina, existe um hormônio chamado leptina, liberado por células de gordura. É a leptina que nos dá a sensação de saciedade. É ela que diz “chega, pede a conta”. Quando não temos leptina em quantidade suficiente, a refeição não tem fim. No dia seguinte, pediremos outra macarronada, dessa vez com sobremesa. Estamos comendo por vício, não por necessidade.

Fotografando o prazer

Novas pesquisas e tecnologia possibilitam “fotografar” essas regiões de prazer no cérebro, como o D3, facilitando possíveis tratamentos. Um exemplo: tomografias revelaram que pessoas patologicamente obesas exibem hiperatividade nas regiões do cérebro que processam a comida, como a boca, a língua e os lábios.

O médico Martin Paulus, presidente do Instituto para Pesquisa Cerebral de Tulsa — no estado americano de Oklahoma —, declarou que pode predizer de 80% a 90% quem vai fraquejar num tratamento contra o vício só por examinar suas tomografias cerebrais. A compulsão se revela visualmente no exame.

Certos fatores agravam a dependência. Um deles é o estresse. Quando estamos estressados, a produção de Gaba, o fator racional que freia nossos impulsos, diminui. E os captadores de dopamina, como o D3, agem à vontade.

O que é um vício?

Mas, afinal, o que é um vício? A edição especial da revista Time procurou mostrar que esse terreno é cheio de sutilezas e zonas cinzentas. O uso compulsivo da internet e de videogames, por exemplo, não é considerado oficialmente um vício. O DSM — a “bíblia” psiquiátrica americana — classificou o jogo compulsivo como um “transtorno de dependência”.

Essas sutilezas se estendem também às consequências. Um opioide pode matar rapidamente. Compras compulsivas não matam — mas podem destruir uma vida financeira ou uma família. Games também não são letais como uma overdose de drogas, mas um jogador compulsivo pode parar de comer e dormir, arruinando sua saúde.

A rede Alcoólicos Anônimos sabe que ninguém quer um segundo copo de bebida, ou um terceiro, ou um quinto ou um décimo. Todos querem repetir a sensação de prazer do primeiro drinque, de novo e de novo. Não é uma questão de quantidade, mas de multiplicar o barato do primeiro gole.

Outro complicador é o fato de que certas compulsões estão ligadas a hábitos legais e até necessários. Comer, por exemplo. Quem come dois hambúrgueres duplos com fritas e um copão de milkshake pode ter uma indigestão, mas nada parecido com uma overdose. Se a pessoa fizer essa refeição todos os dias, aí vira vício e sua saúde vai se deteriorar rapidamente.

O vício não é, enfim, uma ciência exata. O melhor exemplo é a cannabis, conhecida popularmente como maconha. A cannabis transformou-se na década de 1930 na “erva do diabo”, capaz de provocar o enlouquecimento imediato do usuário, e seu uso se tornou punível com prisão. Neste século, a maior parte dos Estados americanos legalizou o uso recreativo. O presidente Donald Trump determinou que a substância seja transferida da categoria 1 — substâncias mais perigosas — para a categoria 3, com menos restrições e reconhecimento do uso medicinal. O vício passou a ser encarado como um hábito, mas que também pode se tornar compulsivo, com todas as consequências.

O fator adolescência

O que diferencia alguém propenso ao vício de outro que não se vicia? Existem dois fatores principais: a predisposição genética e o ambiente. Um filho de alcoólatra tem cerca de 50% de possibilidade de seguir seus passos. Quem não possui essa herança e trabalha em um bar, por exemplo, pode se tornar alcoólatra porque todos ao seu redor bebem. Existe um momento na vida, no entanto, em que todos correm esse risco, explicou à Time Danielle Dick, pesquisadora da Universidade Rutgers. “Na adolescência, as partes do cérebro que processam recompensa estão altamente desenvolvidas, o que significa que os adolescentes gostam de se engajar na busca de recompensa.”

Ao mesmo tempo, o córtex pré-frontal — a parte do cérebro que faz as pessoas pensarem em seus atos — ainda não se desenvolveu. É por isso que dizemos aos filhos adolescentes: “não se meta em encrencas”. E eles se metem. Essa é a fase que, neurologicamente, representa a porta de entrada para os vícios.

A epidemia de opioides

Alguns dos vícios são iniciados pelos próprios médicos. A edição da Time conta a história de Penny (nome fictício), que descobriu que o filho tinha câncer aos 13 anos de idade. Para aliviar as dores do tratamento, o médico receitou o opioide oxicodona. Sua função é interromper a mensagem da dor antes que chegue ao cérebro. O câncer cedeu, mas o cérebro do adolescente já estava condicionado à sensação de prazer do opioide. Aos 17 anos, o filho de Penny partiu para a heroína. Ela declarou dramaticamente que preferia o tempo em que ele estava com câncer. “Naquele tempo, ele tinha apoio e agora tem que procurar traficantes.”

Drogas para controlar a dor à base de opioides sintéticos, como a fentanila, se popularizaram a partir dos anos 1990. No começo, serviam para tratar doenças graves como o câncer. Depois foram receitados para situações banais, como uma simples dor lombar. O resultado foi que, em 2024, 150 pessoas morriam por dia nos EUA por abuso de opioides. O músico Prince foi uma dessas vítimas. A cantora brasileira Nana Caymmi foi outra. Pacientes passaram a mentir para os médicos, dizendo que sofriam dores terríveis, quando queriam apenas mais uma dose. Virou uma epidemia. Dos que tentaram se livrar do vício, entre 85% a 90% acabaram voltando.

Felizmente, para combater a dependência de opioides, existe outra droga chamada naltrexona, que bloqueia momentaneamente os receptores de prazer do cérebro. Em resumo, a pessoa não sente mais o barato. Em 2025, foi lançada como uma injeção que manteve esse efeito bloqueador por 28 dias, facilitando o tratamento. Uma versão subcutânea aplicada nas costas aumenta o efeito para três a seis meses.

Implantes dentro do cérebro

A edição da Time lembra que tão importante no combate aos vícios quanto os remédios é a chamada Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Ela ajuda a pessoa a focar o seu objetivo. Ioga, tai chi chuan, apoio emocional de animais, hipnoterapia e outras possibilidades desvinculadas de remédios também ajudam.

Existe mais um caminho — a neuroestimulação. Localizados os pontos onde estão os terminais de prazer, implantam-se terminais elétricos. O implante pode ser dentro do cérebro (estimulação cerebral profunda – ECP) ou do lado de fora (estimulação transcraniana – EMT). Esse método já é usado para tratar problemas como transtorno obsessivo-compulsivo, Parkinson, epilepsia e depressão.

Esse método parte do princípio de que o vício existe porque alguns circuitos cerebrais estão funcionando mal. O implante funciona para aliviar com impulsos elétricos a necessidade “anormal” de substâncias. É a “neuromodulação”. O método ainda é experimental, mas promissor. É o mais “pessoal” dos procedimentos, pois cada paciente tem um cérebro único que precisa ser mapeado em detalhes.

O difícil papel da família

O vício em drogas provoca um desastre não só na vida do usuário. As famílias dos viciados viram reféns de uma situação dramática. Quem tem um filho afundado na cocaína ou no crack fica entre o abandono ou o envolvimento doloroso. Muitos gastam suas economias em clínicas ou mesmo financiando as drogas por via indireta. Até por instinto, os melhores pais se compadecem de seus filhos e acabam se tornando seus cúmplices.

A Time conta a história de Diane, igual a tantas outras. O filho de Diane se machucou em um treino, começou a usar opioides para aliviar a dor e se viciou. Com o fim do tratamento, passou para a heroína. Seu peso caiu de 72 quilos para 59. Ele passava seus dias no sofá, com o braço cheio de marcas de picadas de agulha, tentando focar a atenção na TV. De vez em quando, voltava à clínica de reabilitação e aumentava a conta que já estava em US$ 70 mil (cerca de R$ 365 mil). Diane percebeu que estava literalmente “amando o filho até a morte”. E tomou uma decisão dura: “Entre numa clínica gratuita ou vai morar com um amigo. Aqui você não fica mais”. Resultado: o filho de Diane está num plano de recuperação de sete anos e hoje é proprietário de uma empresa em New Hampshire. A decisão de Diane foi fundamental.

Outro caso interessante ocorreu com Fred e Virginia Leamnson. O filho deles, Sean, estava também dependente de heroína. Fred e Virgínia começaram gastando US$ 6 mil (cerca de R$ 31 mil) só para cobrir o débito do filho com os traficantes. Depois vieram os tratamentos, as clínicas, os remédios — nada adiantava. Ironicamente, Fred é consultor financeiro e estava torrando o patrimônio da família com o vício do filho.

Fred e Virginia tomaram uma atitude passo a passo. Cortaram o plano de celular da família. Os filhos teriam que pagar por seu celular. Depois cortaram o seguro dos carros e os cartões de crédito. Mas o último e definitivo passo foi o mais surpreendente: apresentaram ao filho viciado um contrato definindo seus próximos passos. Sean estava numa situação crítica, caminhando para se tornar um sem-teto, com a saúde destruída. E todo Natal ele dava um jeito de piorar a situação e ser hospitalizado para atrair a piedade da família. Até que, num Natal, seus pais decidiram tirar férias, fechar a casa e sair da cidade. Foi quando Sean percebeu que não havia escolha e assinou o contrato. Internou-se e decidiu cuidar da própria vida.

O vício nosso de cada dia

Os casos acima são extremos, nos quais as pessoas se afundam na dependência e precisam de soluções radicais. Mas a possibilidade do vício está ao nosso redor, especialmente com substâncias legais que podem ser compradas no mercadinho da esquina.

Café

A cafeína em doses moderadas aumenta a longevidade, diminui o risco de diabetes e doenças cardíacas. Segundo a Clínica Mayo, um limite aceitável são 400 miligramas de cafeína por dia, o equivalente a quatro xícaras de café da bebida. Aí é preciso diferenciar — os americanos costumam tomar um café mais aguado que o espresso, que é super concentrado. Quatro espressos é a conta. A professora de neurociência Merideth Addicott pesquisou sobre a cafeína e declarou que a substância não vicia como, por exemplo, o álcool. A dependência é mais psicológica do que física. Se mede pelo quanto uma pessoa fica irritada em abstinência. De qualquer jeito, café em excesso pode trazer insônia, dores de cabeça, palpitações, irritabilidade e prejudicar o estômago. Merideth garante que o café não tem tanto impacto na nossa atividade cerebral como imaginamos, mas nessa parte é mais difícil de acreditar.

Tabagismo

Como um vício legalizado e amplamente difundido, o tabagismo já produziu sua cota de milhões de vítimas de câncer e enfisema. Essa situação parece estar mais controlada, através de campanhas educativas nos maços de cigarro e limitações de uso em ambientes públicos. Mas surgiu outro problema: o cigarro eletrônico, conhecido como vape. Que está atingindo os jovens com força. O pequeno aparelho esquenta uma combinação de nicotina, aromatizante e outros elementos químicos transformados em vapor. O vape ameaça viciar novas gerações com nicotina. Os fabricantes tiveram o cuidado de diminuir a mistura de carcinógenos encontrados no cigarro comum, mas outros perigos estão associados ao vape — doenças cardíacas e respiratórias e mutações genéticas na boca que podem levar ao câncer.

Alcoolismo

O álcool é outra “droga” legal. Existe uma condescendência social e cultural com a bebida alcoólica. Beber uma taça de vinho no jantar é uma coisa. “Tomar todas”, “encher a cara” é outra. Todos conhecem os Alcoólicos Anônimos, que reúnem usuários em grupos de apoio e estabelecem uma meta de abstinência, geralmente a partir de 90 dias. Mas, para casos graves e urgentes, existem tratamentos radicais. A substância dissulfiram, se misturada ao álcool, causa reações físicas como náuseas, vômitos e palpitações. Há a metadona (recomendada usualmente para viciados em heroína) e a naltrexona, que bloqueia os receptores cerebrais do prazer, tirando a vontade de beber.

Com os avanços da medicina e as mudanças de comportamento, o fato básico permanece o mesmo: temos um polo de prazer, outro de racionalidade. Quem souber equilibrar esses dois polos vai viver melhor.

Texto e imagens reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A Era do Tédio: lembranças de uma infância analógica.

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 16 de fevereiro de 20264

A Era do Tédio: lembranças de uma infância analógica.

Alarmistas dizem que as redes enlouquecerão as crianças; é a mesma coisa que diziam, quando eu era criança, sobre a televisão. É possível que 90% do conteúdo das redes seja lixo, mas os 10% que sobram têm valor inestimável. Roberto Motta para a Gazeta do Povo:

As décadas de 1970 e 1980 foram, para mim, a era do tédio. Quando eu era criança e adolescente, o mundo era analógico. Não existiam computadores, internet ou telefone celular.

Naquela época, no Brasil, não havia nem TV a cabo. Os aparelhos de videocassete ainda não estavam ao alcance da classe média. Se você era criança ou adolescente naqueles anos, suas opções de lazer eletrônico eram meia dúzia de canais da TV aberta, e só.

Ah, mas o mundo real era mais divertido naquele tempo, dirão alguns.

Não para mim.

Em 1973, minha família se mudou de uma casa em Salvador - onde jogávamos bola no quintal e vivíamos na rua, brincando e andando de bicicleta - para um apartamento, não muito grande, em Botafogo. Nosso principal lazer passou a ser a TV.

Meu pai amava ler. Herdei sua curiosidade; leio de tudo e me interesso por quase todos os assuntos (a exceção é o futebol). Isso me colocou em posição de vantagem em vários momentos da vida. Mas, naquele tempo, não havia como satisfazer de forma adequada minha curiosidade. Pertencíamos àquela parte da classe média que luta para não empobrecer; depois de pagar as contas e a escola das quatro crianças, sobrava pouco dinheiro. Não era possível comprar muitos livros.

Depois de voltar da escola e fazer o dever de casa, eu passava o tempo assistindo séries americanas, já antigas, na TV preto e branco do meu quarto.

Não era possível imaginar que um dia existiriam canais de streaming com um cardápio infinito. Filmes a gente via no cinema, exceto em ocasiões especiais, quando a TV aberta resolvia passar algum filme bom, geralmente nas noites de sexta ou sábado.

Muita gente deve ter vivido uma infância diferente. Mas a minha vida, a partir dos onze anos - e até que a adolescência acabasse, por volta dos dezessete - foi assim: horas infinitas de tédio e uma curiosidade sobre o mundo que nunca foi saciada.

Penso nisso todas as vezes em que vejo pessoas reclamando da internet e das redes sociais.

Acho curioso quando dizem que, por causa das redes, vivemos em uma bolha. Basta uma reflexão rápida para perceber que sempre vivemos em uma bolha. A bolha atual é resultado dos algoritmos das redes sociais. Antes, a bolha era criada pela grande mídia. Se agora vivemos nas bolhas do Facebook ou do X, antes vivíamos na bolha da Rede Globo. Nunca houve um tempo em que o cidadão médio vivesse fora da bolha porque, para sair da bolha, é preciso um esforço individual incomum em qualquer época.

Na verdade, se existe uma época na qual é possível sair da bolha, esse tempo é agora - basta a decisão de buscar o entendimento do mundo fora do discurso dominante. Basta usara internet e as redes de forma consciente. Essa é uma opção ao alcance de qualquer um. Quando eu era jovem, essa opção não existia. As fontes de informação eram os grandes jornais, um canal de TV e, talvez, uma ou duas revistas semanais.

Fim da história.

A segunda afirmação que me espanta é a de que vivemos com excesso de informações, e que isso tira o foco das crianças e adolescentes e impacta negativamente seu futuro. Não vou discutir esse prognóstico, mas ofereço uma consideração: a criança e o adolescente que fui um dia, se pudessem, escolheriam um milhão de vezes viver nos dias de hoje ao invés de viver na era do tédio das décadas de 1970 e 1980.

Imagine-se entrando em uma máquina do tempo, voltando a 1976 e dizendo àquele menino que eu fui - e que assistia, pela décima vez, o mesmo episódio de um seriado tolo sobre um golfinho amestrado - que ele poderia, com o apertar de um botão, aprender sobre qualquer assunto, sem custo, ou que poderia ler praticamente qualquer livro e ver qualquer filme que desejasse. O que você acha que o menino diria?

A curiosidade daquele menino permanece em mim. Escrevo esse artigo em uma das três telas do meu computador. Entre um texto e outro, vejo o vídeo de um coral cantando De Spiritu Sancto, música composta por uma abadessa no ano 1150; depois leio um artigo sobre o economista Eugen von Böhm-Bawerk e sua crítica à teoria marxista da exploração. Leio outro artigo sobre o segundo mandato de Trump. O autor cita um livro que me interessa; eu acho o PDF na rede e em segundos já o estou lendo. Entre uma tarefa e outra, assisto a excelentes produções de vídeo sobre o mercado imobiliário em Las Vegas, montanhismo de grandes altitudes, desenvolvimentos da física quântica e um trecho do debate entre o Arcebispo de Canterbury e o biólogo evolucionário e ateísta Richard Dawkins. Posso ler a qualquer momento textos de Gustavo Maultasch e Roberto Rachewsky, dois dos pensadores mais originais do país. Antes que o dia acabe, eu provavelmente terei explorado uma variedade de assuntos maior do que aquele garoto de 1976 teria visto em um ano inteiro.

Alarmistas dizem que as redes enlouquecerão as crianças; é a mesma coisa que diziam, quando eu era criança, sobre a televisão. É possível que 90% do conteúdo das redes seja lixo, mas os 10% que sobram têm valor inestimável.

A época em que vivemos é maravilhosa. A combinação de internet, telefone celular e redes sociais operou o milagre de colocar em nossas mãos, instantaneamente, o conhecimento e a arte da humanidade. A abundância de informações é uma bênção pela qual devemos agradecer todos os dias.

É assim que se sente o menino de 1976.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com