segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Por que não reconhecer Lourival Bezerra como homem trans...


A divergência de gênero e a falta de documentação, segundo autoridades, estariam...

Arquivo Pessoal/Reprodução TV Globo 

Publicado originalmente no site  HUFFPOST BRASIL, em 6 de fevereiro de 2019

Por que não reconhecer Lourival Bezerra como homem trans é falha institucional

Corpo de Lourival está parado no IML há mais de 3 meses após ser identificado como "uma pessoa do sexo feminino".

By Leda Antunes

A divergência de gênero e a falta de documentação, segundo autoridades, estariam impedindo o enterro de Lourival no Mato Grosso do Sul.

Um homem trans que morreu em outubro passado e cujo corpo está no Instituto Médico Legal (Imol) do Mato Grosso do Sul há mais de 3 meses por estar sendo tratado pelas autoridades locais como “uma pessoa do sexo feminino” deve ter sua identidade trans reconhecida, defendem especialistas.

O caso de Lourival Bezerra de Sá, que morreu aos 78 anos, foi revelado pelo programa Fantástico, da TV Globo, no último domingo (3).

Para especialistas ouvidos pelo HuffPost Brasil, considerar que Lourival não é um homem trans e acusá-lo de uma suposta falsidade ideológica pode ser entendido como um ato de falha institucional e passa a mensagem de que ser transexual é ser uma mentira.

Lourival foi vítima de um infarto fulminante. Ao chegar ao serviço de verificação de óbito, o médico legista identificou que ele tinha um corpo de mulher. A divergência de gênero e a falta de documentação estariam impedindo o enterro.

Amigos, vizinhos e até mesmo filhos adotivos entrevistados pelo programa disseram que não sabiam que Lourival era um homem trans. Segundo o Fantástico, foi encontrado apenas um CPF em nome de Lourival. Os demais documentos ele alegava ter perdido.

“Não é nem uma questão de falta de informação [de Lourival sobre o processo de mudança para o nome social]. Não havia nem a possibilidade da retificação do registro até pouco tempo”, afirma a doutora em psicologia social Jaqueline Gomes de Jesus.

Somente em março de 2018 o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu o direito de pessoas trans retificarem seu registro civil sem necessidade de cirurgia de redesignação sexual, avaliação psicológica ou processo judicial.

“A pessoa viveu a vida inteira com uma identidade masculina. Para quem tem o mínimo de conhecimento sobre a existência de pessoas trans, é óbvio que ele era um homem trans. Ainda mais considerando a idade dele. Você entende que ele não tinha condições de buscar um reconhecimento civil”, explica a doutora em psicologia social Jaqueline Gomes de Jesus.

A delegada do caso, Christiane Grossi, afirmou também ao Fantástico que ele somente tomava banho com as portas do quarto e do banheiro trancadas, que usava faixas para esconder os seios e que nem mesmo a cuidadora, com quem ele vivia há mais de 40 anos, era autorizada a lhe dar banho.

Gomes de Jesus considera que há uma falha institucional que impede que Lourival tenha sua identidade reconhecida e que ele seja enterrado de maneira digna. “Pelo fato de não ter documentação, estão há meses com o corpo no IML. Há uma falha nas instituições para lidar com esse corpo”, avalia.

Para a pesquisadora, a própria decisão do STF pode ser usada pelas instituições policiais que cuidam do caso para reconhecer a verdadeira identidade de Lourival, para que ele possa finalmente ser enterrado.

“Ele sabia quem ele era. E vivia como tal, possivelmente sem muita teorização. Mas as instituições não aceitavam a existência dele”, afirma.

“Imagina uma pessoa trans, no interior, em um País em que a Justiça é cara. Era um senhor de 78 anos. Ele poderia até tentar fazer a retificação agora, mas criou toda uma vida não tendo que dizer isso para as pessoas, não tendo que expor a sua identidade de gênero”, completa.

Na época não havia como, não se discutia esse tema. Era tabu, tudo era visto como homossexualidade. (Alexandre Saadeh, do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero do Hospital das Clínicas da USP)

O psiquiatra Alexandre Saadeh, que coordena o Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero do Hospital das Clínicas da USP, rejeita a teoria de que Lourival “enganou” seus familiares e amigos.

“A mensagem que isso passa para a sociedade é que ser transexual é viver uma mentira. E não é. É uma necessidade da pessoa. É a verdade dela. Mentiroso é a gente forçar essa pessoa a viver de uma determinada maneira que não é a dela e que não tem nada a ver com a gente”, critica.

O médico avalia que, como Lourival já vivia sua identidade masculina há mais de 50 anos, fez a sua transição em uma época que não havia qualquer acompanhamento para a população transexual e preconceito. “Na época não havia como, não se discutia esse tema, era tabu, tudo era visto como homossexualidade”, afirma.

O especialista explica que esconder e ter dificuldade em exibir o corpo é algo comum à transexualidade. “Essa população não aceita as características do corpo que apresenta. Não querer ser visto, não querer ser tocado.”

Ele também aponta que o gênero de uma pessoa não tem relação com seu sexo biológico. “Quando a pessoa nasce, você reconhece o sexo de nascimento. O gênero - que é o que define a gente como homem ou mulher - você não pode determinar pelo sexo. Isso vai ser um desenvolvimento de cada pessoa.”

Organizações reagem após caso vir à público

O Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (Ibrat) emitiu uma nota de repúdio ao tratamento dado a Lourival pela reportagem do Fantástico.

“Insistem em se referir ao sr. Lourival como alguém enganador e que necessitava de investigação para descobrir sua ‘real identidade’. A identidade dele já estava confirmada pela família que construiu com sua companheira e pelos filhos que teve”, diz o texto.

Para o instituto, a identidade trans de Lourival foi apagada quando sua morte foi noticiada. “Fortalecer uma investigação descabida à procura da ‘verdadeira identidade’ do sr. Lourival é procurar uma maneira ainda mais violenta e dolorosa de deslegitimar a identidade de gênero dele”, diz a nota.

Após a repercussão negativa nas redes sociais, a TV Globo veiculou, nesta segunda-feira (4) uma entrevista com o médico psiquiatra Daniel Mori, também do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero do Hospital das Clínicas de São Paulo, que explicou porque Lourival era um homem transgênero. Procurada, a TV Globo não se manifestou até a publicação desta reportagem.

Na noite da última terça-feira (5), a Aliança Nacional LGBTI+ emitiu um comunicado pedindo às autoridades competentes que a identidade de gênero de Lourival seja reconhecida após a sua morte.

“Lourival era um homem. A seu modo, nascido em novembro 1939, afirmou a todos, até mesmo pelos relatos colhidos pela reportagem, ser do gênero masculino. (...) O corpo de Lourival não pode ser instrumento de exposição da curiosidade social”, afirma a nota.

Texto e imagem reproduzidos do site: huffpostbrasil.com

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Prostituição: regulamentar ou proibir?


Publicado originalmente no site PÁGINA22, em 20 de março de 2017

Prostituição: regulamentar ou proibir?

Por Amália Safatle e Magali Cabral

A atividade da prostituição deveria ser regulamentada, de modo a garantir uma prática segura que respeite direitos trabalhistas? Ou abolida, para evitar que as mulheres e outras minorias sejam vítimas de um sistema patriarcal que as explora? O feminismo deve ser contra ou a favor da prostituição? Os argumentos de um lado e de outro despertam muita polêmica. Página22 ouviu duas opiniões divergentes, leia nas entrevistas a seguir.

PONTO


Letizia Patriarca fez mestrado em Antropologia Social, com o título As Corajosas: etnografando experiências travestis na prostituição, e é pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Marcadores Sociais da Diferença (Numas-USP)

Para a antropóloga Letizia Patriarca, no que se refere à prostituição, existem as pessoas que de alguma forma escolhem exercer a atividade e as que praticamente não têm escolha, por contingências socioeconômicas – como as travestis, que dificilmente são aceitas em outros empregos.

Portanto, “o que deve ser garantido é somente a possibilidade de escolher”, defende a estudiosa, nesta entrevista concedida por email. Segundo ela, essa possibilidade de escolha se dá melhorando tanto as condições de trabalho geral, quanto as condições do trabalho da prostituição por meio de sua regulamentação.

Como a senhora vê o movimento pela regulamentação da prostituição no Brasil? Como tem evoluído e quais são os fatores que têm determinado essa evolução, como participação da sociedade civil e fortalecimento do feminismo no Brasil?

Cabe pontuar que eu não faço programas, venho trabalhando desde 2012, através da Antropologia, junto à militância por direitos para profissionais do sexo. Devido a contatos em um bairro de prostituição de Campinas – Jardim Itatinga – e à proximidade com a Associação Mulheres Guerreiras de lá, comecei a ouvir as falas de mulheres cisgênero [pessoas cisgênero são as que vivenciam seu gênero igual ao sexo que lhes foi atribuído em seu nascimento] e travestis em suas reivindicações como profissionais do sexo (mais sobre a Associação e o Jardim Itatinga na Entrevista). Saliento isso porque a movimentação na prostituição também conta com ativistas que encampam a causa e não são profissionais do sexo.

Ressalto aqui a importância de antropólogas/os que se aproximam, estudam e militam com as prostitutas, profissionais do sexo, trabalhadoras sexuais, putas, garotas de programa. Essas variações de como se identificam se devem também às discussões no movimento na prostituição que se organiza desde 1987, impulsionado pela saudosa Gabriela Leite.

Ali nascia então a Rede Brasileira de Prostitutas, e atualmente temos também a Central Única de Trabalhadoras e Trabalhadores Sexuais (CUTS), que funcionam por meio de organizações mais locais, como a Aprosmig (Minas Gerais), o Gempac (Pará) e o Núcleo de Estudos da Prostituição (NEP, do Rio Grande do Sul). Talvez a maior conquista dessa movimentação em busca da plena regulamentação da prostituição no Brasil tenha sido a entrada da categoria “profissional do sexo” em 2002 na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO). Em 2012, o deputado Jean Wyllys (PSOL), em contato com o movimento organizado de prostitutas, propôs o PL nº 4.211/2012, especificamente sobre a regulamentação. Mas este, assim como o movimento em prol da regulamentação, vem sofrendo uma também crescente oposição por parte de movimentos conservadores que ocupam cargos no Legislativo.

Nesse cenário, a prostituição vem sendo um assunto que recobrou visibilidade, as discussões proliferam em movimentações feministas, a produção bibliográfica cresce e aparecem publicamente novas figuras nessa militância. Há também uma discussão crescente acerca de travestis e como a grande maioria delas se prostitui, o que também dinamiza as discussões.

Em sua opinião, por que a regulamentação é uma causa que merece apoio?

É muito importante questionar no que consistiria essa regulamentação em face da legislação vigente. Como foi dito, a profissional do sexo é categorizada como profissão pela CBO, portanto, não é crime, e uma pessoa que se prostitui não poderia sofrer constrangimentos (legais e policiais). Quem é criminalizada é a pessoa que se enquadra como “favorecimento da prostituição” e também as casas de prostituição, embora haja um entendimento mais flexibilizado para estas recentemente.

A questão é que todo mundo já viu uma casa na qual se realiza prostituição, e sabemos onde encontrar um ponto na rua com mulheres cisgênero e travestis disponíveis para programas. A prostituição já vem ocorrendo em estabelecimentos e junto a terceiros, porque a realização dos programas não se limita só a profissionais do sexo e a clientes.

Discutir de que formas regulamentar e tirar da criminalidade esse suporte, esse entorno, ainda é difícil e não é consenso, mas percebe-se que, quanto mais uma parte da prostituição for criminalizada, mais na ilegalidade ficam as/os que estão realizando programas. Descriminalizar e regulamentar seu trabalho pode ser uma forma de reduzir as violências que já ocorrem por conta dessa ilegalidade. Refiro-me à violência de clientes, mas sobretudo à violência policial, que é lamentavelmente cotidiana contra aquelas/aqueles que vivenciam a prostituição.

O debate deve começar abordando como e o que regulamentar, até porque o movimento de prostitutas vem se organizando e exigindo isso há mais de três décadas. Alguns pontos são: quanto dinheiro do programa fica para as/os profissionais do sexo, como se organizam politicamente, como recebem aposentadoria.

Que características próprias a prostituição assume no Brasil por conta da imensa desigualdade social e pelo histórico de exploração de negras e indígenas desde o Brasil Colônia?

No contexto em que trabalhei, a maioria era de travestis negras. Importante ressaltar que nem sempre elas se autoidentificavam assim. Essas identidades – de travesti, de negra, de profissional do sexo – são políticas, no sentido de que são afirmadas e reivindicadas pra gerar determinados reconhecimentos, conquistar mais respeito, obter políticas públicas, mudar legislações e situações de opressão. Por isso é muito importante atentar quando essas identidades são acionadas, mas também não podemos deixar de combater as opressões, mesmo quando elas não estão assim claramente colocadas.

É preciso, portanto, considerar os contextos específicos de cada pessoa, entender quais são as violências e desigualdades que acometem determinados grupos e, principalmente, que as opressões são reproduzidas o tempo todo e por qualquer pessoa. Porque as pessoas são muitas coisas ao mesmo tempo. No Núcleo de Estudos sobre Marcadores Sociais da Diferença (Numas), da Antropologia da USP, onde trabalho, costumamos dizer que esses marcadores – como gênero, sexualidade, classe, raça, geração – estão sempre articulados e merecem atenção em cada situação.

Também tem havido recentes estudos com prostitutas indígenas – ressalto aqui os de Silvana de Souza Nascimento, em áreas não urbanas da Paraíba. É fundamental observar e analisar as diferenças na realização da prostituição, de acordo com diversos contextos de região e de marcadores que estão articulados nas vivências das profissionais do sexo.
  
Podemos dizer que a desigualdade no acesso às oportunidades é um fato de peso que leva as mulheres para a prostituição – não por escolha de seu destino, mas por contingências socioeconômicas?

Certamente a prostituição não é um mundo separado, então o que leva qualquer pessoa a escolher qualquer profissão tem a ver com contingências socioeconômicas – e na prostituição também. Há bairros, pontos e casas de prostituição que ficam propositadamente afastados, mas o que a existência desses sugere é justamente que a prostituição envolve negócio, mercados, rende dinheiro para quem agencia e para quem se prostitui.

Eu trabalhei especificamente com travestis, que têm em suas trajetórias uma série de exclusões mais marcadas, limitantes, pois muitas são expulsas de casa por familiares que não as aceitam como são, têm de largar a escola por não se encaixarem e assim também logo acessam o mercado de trabalho em situações precárias. Mas, mesmo entre elas, havia uma parcela considerável que havia escolhido fazer programas ou os fazia para complementar sua renda.

São infinitamente variadas as histórias e trajetórias das que realizam programas. Então, investigar como chegaram nessa profissão e se a escolheram pode ser infrutífero, além de descambar em argumentos moralizantes. O foco tem de ser mesmo isso que você colocou: a desigualdade no acesso às oportunidades, tanto pra mulheres cis quanto para travestis. Quais são as profissões disponíveis? Quais são as condições de trabalho e como são as remunerações? Por que diante de outras é na prostituição que muitas preferem, pois dali conseguem ganhar mais?

O trabalho como profissional do sexo é um campo no qual mulheres, transexuais, travestis e transgêneros podem exercer o ativismo feminista? De que forma?

Profissional do sexo pode ser também um termo interessante para pensarmos nos pontos em comum que perpassam as diferentes vivências da prostituição feminina. Então, pensar o que tem em comum para uma travesti, para uma mulher trans e para uma mulher cis, por exemplo na hora de negociar um programa com um cliente, ou na forma de exigir o pagamento dele ou pelo lado da relação com suas famílias, no dinheiro que elas ganham na prostituição e não só se sustentam, mas também revertem esse dinheiro para suas famílias. Enquanto atitude de afirmação, há luta feminista.

Vejo uma enorme potência dos feminismos como afirmação de si, do próprio corpo e da própria sexualidade da forma que se desejar, contanto que não violente as outras. Então, nesse sentido, a profissional do sexo é só mais uma das vozes que soma e luta nesse ativismo plural.

A prostituição é uma maneira de desafiar o patriarcado e empoderar essas minorias? Por quê?

Há figuras na prostituição que são vorazes contra o machismo e ao mesmo tempo a favor do trabalho na prostituição, e acho que é com elas que a gente pode aprender novas formas de luta. Uma luta que encare liberdade para o sexo e para a sexualidade de mulheres e travestis, ao mesmo tempo em que exige melhores condições para o trabalho sexual. Nesse sentido, vem se desenvolvendo o “Putafeminismo”. Acho muito importante, porque une o que parecem ser duas lutas separadas – uma contra o estigma moral, que liberta as putas, as vadias, em oposição às santas; e outra que luta pelas putas que são profissionais do sexo.

Cabe ressaltar que empoderamento não é algo individual, não basta somente eu desejar mudar e tomar consciência. Claro que, quando se passa a exercer uma forma aguerrida, resistente e subversiva, isso vai moldando e mudando todas as relações em volta. Mas isso precisa estar acompanhado com a luta mais geral por melhorias de condições e oportunidades para todas, melhorias nas oportunidades de acesso, nas remunerações e nas condições de trabalho gerais e do trabalho sexual em suas especificidades.

O movimento pela abolição da prostituição argumenta que a atividade se trata de uma forma de violência masculina, pois seria um exercício de livre escolha do homem e não da mulher e demais minorias. O que a senhora acha desse movimento?

Há essas vertentes feministas que se dizem abolicionistas, no sentido de querer o fim da prostituição. Eu acho fundamental ouvir os questionamentos levantados por elas, para que estejamos sempre alertas, porque opressão e violência contra mulheres estão sendo sempre reproduzidas e de formas diferentes. Mas está justamente aí a dificuldade, porque precisamos de disposição constante para analisar os casos diversos e entender de que forma estão se dando as situações e contextos violentos, para saber exatamente como combater, de forma prática e estruturada.

Não são só homens e mulheres que estão na prostituição. E às vezes suas posições estão invertidas. Há poucas, mas há as mulheres que são clientes e que pagam por serviços sexuais de homens. Aí entram os outros marcadores, e nesse caso costuma ser latente o de classe, mas podemos pensar no de geração também, por exemplo em uma relação entre a dona de casa de prostituição, que geralmente fez programas a vida toda e passa a agenciar a prática, e a profissional que trabalha para ela. É muito difícil captar o que há de opressão e de violência na prostituição.

Por conta também da situação de semilegalidade que comentei no início, existem pouquíssimos dados estatísticos, então os trabalhos de antropólogas/os acabam sendo uma boa ferramenta para pensar quais são essas variadas violências que podem ocorrer. Na grande maioria das vezes, o que eu ouvia como sendo violento era o cliente querer pagar menos ou não pagar pelo programa.

A prostituição em si não é uma violência, mas temos de ouvir o que elas dizem. Aí também nota-se outro impasse, porque não haverá uma única voz capaz de representar todas que estão na prostituição. Há quem escolhe e há quem não pode escolher, então o que deve ser garantido é somente a possibilidade de escolher. Possibilidade que se dá tanto melhorando as condições de trabalho geral quanto as da prostituição como um trabalho regulamentado.

A corrente abolicionista também afirma que a prática da prostituição atende aos interesses da sociedade patriarcal, propicia a violência, o uso de drogas e álcool, e estimula um mercado em que as profissionais do sexo são as que menos ganham – os maiores ganhadores seriam os intermediários e outros atores que orbitam em torno do serviço prestado. Como a senhora vê esses argumentos?

Há nuances mesmo nessas correntes abolicionistas e distintos argumentos são levantados, e até mesmo diversas formas de interpretar o que seria sociedade patriarcal. O que estamos dizendo com isso? Se estamos falando de regulações, julgamentos e violências contra as escolhas e vidas de mulheres, consigo pensar em diversas situações dessas que ocorrem em outros contextos que não na prostituição. Conheci alguns casos de mulheres que faziam programas e diziam que o problema era lidar com o marido em casa, mas que, com o dinheiro do programa, conseguiam uma certa liberdade diante dessa situação. Então, falta-nos perguntar quem são essas pessoas que estão fazendo programas. Não é só isso que elas fazem e não é só a prostituição que elas vivenciam.

Particularmente, pergunto-me o quanto essa ideia dá conta das variadas opressões, porque a gente perde muito considerando que é só o homem que violenta uma mulher. Por exemplo, faz tempo que a militância de mulheres lésbicas e bissexuais chama atenção para as relações violentas e opressoras entre mulheres.

O contexto de drogas também enfrenta situações paradoxais de criminalização, que só geram mais ilegalidade. Assim, as pessoas envolvidas ficam mais à mercê de abusos de poder policial, de uma polícia que atua de forma racista, classista, LGBTfóbica.

A violência que acaba orbitando a prostituição é consequência dessa situação que não regulamenta plenamente o exercício da/do profissional do sexo, o que está inserido em um contexto mais amplo de desigualdade social.

CONTRAPONTO 


Flávia Herédia e Ticiana Labate integram o Comitê pela Abolição da Prostituição. Herédia estuda Letras e Labate é formada em Ciências Sociais, ambas na Universidade de São Paulo

Flávia Herédia e Ticiana Labate não acreditam que as mulheres tenham liberdade de escolha quando se trata de prostituição. Para elas, a atividade é resultado de um sistema violento imposto sobre as mulheres pelo patriarcado, de mãos dadas com o capitalismo. Por isso, são adeptas da corrente abolicionista, um movimento ainda de pouca expressão no Brasil e que tem suas maiores referências em alguns países europeus e nos Estados Unidos. O abolicionismo entende a mulher como vítima da situação e busca protegê-la, criminalizando o consumidor, os intermediários e as casas de prostituição.

Quais são as bases de pensamento do movimento pela abolição da prostituição?

Flavia Herédia – Entendemos a prostituição como algo realmente exploratório para as mulheres, por isso a ideia de abolir. A prostituição, por ser algo exploratório em si mesmo, não tem como ser regulamentada, ficar mais limpinha, mais segura. O modelo abolicionista considera que a prostituição é uma forma de violência contra as mulheres. Os exemplos reais de países que regulamentaram foram horríveis. Na Holanda e Alemanha, por exemplo, o tráfico de mulheres aumentou muito, por que eles pegam mulheres do Leste Europeu, que têm uma situação financeira bem precária, e as trazem para estes lugares regulamentados. Elas aparentemente são autônomas, mas na verdade são traficadas. Para o Estado, parece que está tudo ok.

Ticiana Labate – Esse tráfico é visto pelo Estado como migração para o trabalho.

Quais são as principais referências do movimento abolicionista?

Labate – Uma delas se chama Yvonne Svanström [pesquisadora da Stockholm University], que fez várias pesquisas sobre o modelo nórdico. Tem a Melissa Farley, que coordena um projeto chamado Prostitution Research Education. Ela reúne bastante material sobre os bordéis legalizados de Nevada, nos Estados Unidos. A Catherine MacKinnon [advogada, adepta do feminismo radical], e a Andrea Rita Dworkin [escritora feminista conhecida por forte oposição à pornografia] foram duas das mais importantes no desenvolvimento do modelo abolicionista.

Na América Latina, a Coalizão Internacional Contra o Tráfico de Mulheres, que tem um posicionamento abolicionista, é bem forte. Mas no Brasil, não. Aqui é ainda muito difícil pautar essas ideias.

É um movimento recente?

Labate – Ainda é defendido por abolicionistas independentes, que não têm ligações grandes com partidos, com grandes movimentos. Algo bastante incipiente.

Que países aboliram e tiveram os índices de prostituição reduzidos?

Labate – Esses países nunca chegaram a 100%, mas conseguiram reduzir bastante. Primeiramente a Suécia, onde a lei de criminalização do consumidor (de prostituição) foi aprovada em 1998 e entrou em vigor em 1999. Depois vieram a Noruega e a Islândia e, mais recentemente, o Canadá, a França e a Irlanda do Norte. Quando esta lei foi aprovada na Suécia, veio justificada por uma lei maior que se chamava “Lei de Violência Contra as Mulheres”, atestando a posição do Estado sueco de que a prostituição era uma forma de violência masculina contra mulheres e crianças.

Herédia – Porque não é à toa que a maior parte das pessoas prostituídas seja formada por mulheres. E também que a maior parte das pessoas que consome a prostituição, o sexo pago, seja de homens. Isso revela que há uma estrutura de violência por trás que faz com que este sistema se mantenha. E é um sistema muito lucrativo. O patriarcado e o capitalismo estão de mãos dadas nesses países regulamentaristas. Porque tem gente lucrando com isso, tem cafetão lucrando com isso.

Os próprios consumidores se beneficiam desse sistema. Eles acham que está ótimo ter acesso ao corpo feminino pagando. Aí a mulher vira mercadoria. É como se fosse legitimado o papel da mulher enquanto objeto.

Existem informações de que a atividade da prostituição no Brasil é exercida, na maioria, por mulheres que optaram por essa profissão e não por outra. Abolir não significaria restringir a liberdade de escolha individual? E no caso das pessoas que estão ali por opção, sem cafetão e sem tráfico?

Labate – Para nós, a exploração não se dá somente quando existe um intermediário no processo, nem quando só existe tráfico sexual. A exploração é uma questão inerente da prostituição, por mais que a pessoa nem reconheça explicitamente como tal. Porque as mulheres estão coletivamente submetidas a uma questão de ideologia da apropriação dos corpos dela, à visão do corpo como uma mercadoria coletiva dos homens do qual eles podem se apropriar. Eu não acredito que a qualquer hora elas podem sair e fazer outra coisa da vida.

Existe um projeto na Estação da Luz [região central de São Paulo] com mulheres em situação de prostituição, coordenado pela Cleone [Santos], que integra a Marcha Mundial das Mulheres. Ela se prostituía no Jardim da Luz e saiu dessa situação depois de muito tempo. Lá tem uma mulher de quase 80 anos que até hoje fala: “Eu acredito que ainda vou sair! “ E, ano após ano, elas continuam lá. Tem uma moça que falou pra gente: “Eu preciso do dinheiro na hora. Eu não posso receber por mês”. É uma situação de precarização tão extrema… A maioria delas não tem o Ensino Médio completo e a maior parte não teve acesso a recursos básicos. Não sabe ler e escrever. Então não sei se é uma opção tão grande assim de que elas dispõem.

Herédia – Primeiro ponto: nós acreditamos que é muito violento este argumento de que as mulheres gostam e de que elas estão ali porque querem. Normalmente este é o argumento para justificar vários tipos de violência contra a mulher. Exemplo: a mulher acaba de sofrer violência doméstica, mas continuou com o marido porque ela gosta. Ou então ela foi assediada, mas ela também gosta. “Foi um elogio!” Então acho que é uma estratégia do próprio patriarcado falar que a gente gosta da própria exploração. Que a gente gosta de se prostituir. Segundo ponto: muitas mulheres que se pronunciam abertamente a favor da prostituição não estão em situação de prostituição. Estão agenciando, são intermediárias. Quando a mulher quer sair dessa situação, ela não vai dar a cara a tapa e falar na mídia, pois justamente não quer ser vista. Fica muito difícil quantificar quantas querem sair, porque elas não falam.

Mas nem se fizer uma pesquisa em que o nome não aparece?

Labate – É muito difícil. Estamos fazendo um projeto de trajetória de vida com as mulheres da Luz, e elas têm muito medo de aparecer. Elas não são as mulheres das reportagens que as pessoas gostam de ler, sabe? Sobre a prostituta feliz que fez uma faculdade de não sei o que, mas que prefere ser prostituta.

Herédia – Isso representa zero vírgula zero zero zero. Porque a maioria está se prostituindo por um prato de comida e para alimentar seus dependentes.

Labate – A maioria das mulheres da Luz é mãe solteira, 90% tem um filho, dois filhos ou muitos filhos. A Cleone fala muito isto: “Eu saí da prostituição, mas a prostituição não saiu de mim”. Uma vez que você entra, é muito difícil sair. Se sair, será vista como aquela mulher que estava lá naquele lugar se prostituindo. Há uma série de barreiras e entraves – inclusive o fato de já ter sofrido abuso na infância – que se perpetuam psicologicamente.

O movimento pela abolição não vem reforçar o estigma que a prostituta já sofre?

Labate – Não. Para mim é uma questão como: “Ah, você é a favor da abolição da escravidão, então você é contra os escravos”. Nós vemos a prostituição como um sistema … o sistema é violento contra as mulheres. A culpa não é delas. O abolicionismo nunca prevê a penalização das mulheres, e sim dos consumidores e dos intermediários. São oferecidas alternativas e assistência social para que as mulheres possam sair da prostituição e se inserir no mercado de trabalho. Em uma sociedade capitalista, isso é muito difícil. Não quer dizer que são projetos super bem-sucedidos, mas a tentativa é fazer com que as mulheres sempre possam sair da prostituição, que lhes seja dada uma alternativa.

Herédia – Na verdade, o grande estigma é achar que mulheres exploradas gostam de ser exploradas.

Mas e se elas próprias não se veem como exploradas?

Herédia – Vocês não acham estranho que 80% das pessoas nesta situação sejam mulheres? Por que o homem não está nesta situação? Se for realmente uma escolha, por que os homens não estão fazendo esta escolha? Por que será que essa escolha é feita normalmente por mulheres que não têm o que comer?

Labate – É muito difícil para uma mulher que está em uma situação violenta se reconhecer naquela situação. O modelo abolicionista implica uma política de legislação. Estamos falando da implementação de uma coisa muito grande. Quando você olhar para algumas mulheres dizendo “eu gosto, eu escolho, eu faço, eu opto”, tem de pensar em quantos milhões de outras mulheres podem ser prejudicadas com este tipo de política. Quando a prostituição é regulamentada, você vê os resultados gritantes e bizarros aparecendo. É preciso ter visão crítica sobre as falas das mulheres. Outra coisa: o foco é sempre colocado nas mulheres que se prostituem. Nunca vejo as pessoas discutindo sobre os consumidores. Eles são invisíveis, são blindados. Ninguém discute se está certo ou errado eles consumirem sexo. Ninguém pensa no sistema e em quem é responsável por criar demanda para esse sistema.

Vamos supor que um homem ou mulher com um problema físico, uma doença, tenha dificuldade em encontrar um parceiro e precise recorrer a um serviço sexual.

Herédia – O modelo abolicionista não trabalha com exceção, e sim com a estrutura. E estrutura é essa. São mulheres que trabalham com a prostituição, homem que usa a prostituição e acha que é legitimo usar o corpo da mulher pagando por isso.

Quando você fala do corpo da mulher, não podemos ver como uma prestação de serviço como qualquer outra que use o corpo? Por exemplo, uma modelo? É porque envolve o sexo que a coisa se torna problemática?

Herédia – Você está vendendo o seu corpo. Não é a mesma coisa de vender a sua força de trabalho.

Mas o cliente não está comprando o corpo em si, não pode levá-lo para casa. Está comprando um serviço que tem hora para acabar e que custa X. Até que ponto tem um moralismo aí?

Labate – Uma pessoa me perguntou isto uma vez: uma empregada doméstica também não está usando o corpo? A questão é, sim, o sexo. Porque vemos a prostituição como uma violação do corpo das mulheres, como um estupro.

Mas uma violação sendo consentida?

Herédia – O consentimento temos que questionar. É muito difícil falar que a gente consente ser explorada. A gente é objeto sexual. A gente é socializada para ser um objeto sexual. Então como dizer que consentimos esse papel? Isso é muito violento.

Labate – Para algo ser força de trabalho, este trabalho precisa se externalizar em alguma coisa. Tanto na forma física de algum objeto que se produz quanto em um trabalho intelectual. A prostituição não tem nenhum desses dois aspectos. Então é muito interessante tentar enxergar essa relação entre prostituição e trabalho… a prostituição é muito mais antiga que o capitalismo. Uma autora que estuda esse tema, chamada Amy Dru Stanley [professora na Yale University], fala como se deu a passagem de algo muito associado com a escravidão para essa relação de contrato. Tanto que o livro dela se chama From Bondage To Contract, ou Da Escravidão ao Trabalho Livre. Rechear a prostituição com essa noção de trabalho, de contrato, de jornada do que quer que seja, isso não torna a prostituição menos violenta. É quase como se fosse a própria moralização do trabalho em cima da prostituição. Então não é uma questão de moral do sexo, porque nem acho que você precisa fazer sexo só com alguém que você ama, que você goste. Mas significa homens poderem coletivamente dispor do direito de chegar em qualquer lugar e manter acesso sexual com uma mulher simplesmente porque ela está vendendo aquilo. E aquilo não é uma venda simplesmente arbitrária. É uma imposição coletiva mesmo. Existe algo por trás daquilo.

Quando a gente fala: “Ah, é o sexo que pesa?” Sim, porque existe violência sexual. Então é o sexo que pesa. Mas não é uma questão de moral sexual. É uma questão do sexo sempre sendo essa ferramenta pela qual os homens podem obter acesso à exploração sexual.

E se a mulher quiser comprar uma noite de diversão?

Labate – Acho que ninguém deve comprar sexo de ninguém. Mas não é a mesma relação.

Herédia – Eu nem consigo pensar nessa hipótese, porque o homem não é objeto sexual. Não consigo pensar em um mundo em que ele seja socializado para isso, para ser um objeto.

Tem alguns homens que já são objeto sexual.

Labate – Mas os consumidores na sua grande maioria são homens.

E se a coisa virar?

Labate – Só consigo pensar nas coisas que existem. Não consigo materializar…

Em um mundo hipotético ideal, o abolicionismo nem seria necessário. Se chegarmos a um nível de igualdade suficiente, talvez ele nem seja necessário. Estamos falando dele porque existe uma necessidade.

Na tentativa de proteger a mulher, existe um risco de vitimização? A prostituição não poderia ser uma forma de empoderamento feminino, na medida em que os movimentos das profissionais do sexo se unem para impor suas regras, definir os contornos da atividade de acordo com o seu bem-estar e conquistar direitos?

Labate – Nem todas as mulheres do mundo vão passar por todas as situações que algumas mulheres passam. Por exemplo: eu não passei por situação de violência doméstica, mas posso falar sobre a situação da violência doméstica. Para mim, este é o papel do feminismo. Ele fala por todas as mulheres porque enxerga uma questão coletiva e não um “roubo de fala”. O modelo abolicionista vai nesse sentido. Em relação à vitimização, a noção de vítima pode até fundar coisas que para o Direito são muito importantes. Por exemplo, as políticas de ação afirmativa. Elas existem quando você vê que há uma desigualdade colocada na sociedade e que é preciso agir em cima dessa desigualdade. Quando você vê pessoas em uma situação específica de vulnerabilidade, não é para dizer que elas são pessoas incapazes de mudar esta situação, nem que são pessoas completamente manipuladas. Não é isso. Mas, sim, enxergar que elas são submetidas a uma situação à qual você não quer que elas sejam submetidas. Eu não quero que as mulheres sejam forçadas a se prostituir coletivamente.

Herédia – As cotas, por exemplo. É uma questão afirmativa, certo? Quando você defende cotas para negros, não é porque você está falando que o negro não tem capacidade cognitiva para passar no vestibular. Mas é entender que, por ter havido a escravidão, e pelo fato de a inserção dos negros ser complicada até hoje, você enxerga que aquela comunidade é vítima, sim, porque não foi completamente inserida. Reconhecer que existem minorias que são vítimas faz com que a sociedade pense em alternativas para a inserção de fato.

O movimento pela abolição estaria alinhado com a bancada mais conservadora do Congresso, enquanto o deputado Jean Wyllys, do PSOL, encampou o projeto de lei pela legalização da profissão?

Labate – Bom, o próprio PT, que não é exatamente conservador, discorda completamente do PL. A CUT tem uma briga enorme contra o PL. O próprio grupo de mulheres do PSOL discorda do Jean Wyllys também. Tem várias abolicionistas no PSOL e elas estão tentando fazer com que ele retire este projeto de lei. Eu acho que as feministas radicais, sendo extremamente favoráveis à legalização do aborto, não podem ser consideradas moralistas ou religiosas. Todas as mulheres da SOF [Sempreviva Organização Feminista], ligada à Marcha Mundial das Mulheres, são contra o PL.

Herédia – Sobre o moralismo, primeiro a gente defende as mulheres. Dentro do modelo abolicionista, não está prevista nenhuma penalidade à mulher. Diferente da bancada conservadora, que acha que a prostituição só existe porque existe oferta. Na nossa concepção, a prostituição existe porque existe demanda. Porque homens querem consumir mulheres. A oferta se cria a partir disso. Mas, na cabeça dos conservadores, a mulher é responsabilizada de certa forma. Nós a vemos como uma vítima de uma estrutura que há por trás. O projeto do Jean Wyllys é extremamente problemático.

Por quê?

Labate – Começa no fato de que a própria emenda do projeto diz: é um projeto de lei que visa regulamentar os profissionais do sexo, o que deixa passar uma coisa que está por baixo. que é a legalização das casas de prostituição e da cafetinagem. Isso altera o Código Penal no Brasil.

Herédia – Inclusive algumas pessoas regulamentaristas discordam do PL porque ele é péssimo. Até as profissionais do sexo discordam.

Mas o PL, embora encampado pelo Jean Wyllys, foi feito pela Rede Brasileira de Prostitutas e vem sendo chamado de “Gabriela Leite” [que foi uma das líderes da rede].

Herédia – Gabriela Leite era uma universitária privilegiada que não representa a grande maioria das mulheres prostituídas.

Texto e imagens reproduzidos do site: pagina22.com.br 

A funcionária da Vale que alertou sobre o desastre...

Ana Paula da Silva Mota, de 30 anos, dirigia um caminhão de minério em uma 
estrada a apenas 550 metros da barragem quando ocorreu o rompimento
Imagem: VITOR FLYNN/BBC NEWS BRASIL

Publicado originalmente no site da revista ÉPOCA NEGÓCIOS, em 06/02/2019

A funcionária da Vale que alertou sobre o desastre e fugiu de ré em caminhão com 90 toneladas

Ana Paula da Silva Mota, de 30 anos, dirigia um caminhão de minério em uma estrada a apenas 550 metros da barragem quando ocorreu o rompimento

Por Amanda Rossi (enviada da BBC News Brasil a Brumadinho/MG).

Há mais de dez dias da tragédia de Brumadinho (MG), os olhos castanhos de Ana Paula da Silva Mota ainda passam grande parte do tempo opacos e ausentes, como se estivessem revendo as cenas que ela viveu a partir das 12h28 de 25 de janeiro.

Naquele exato minuto, a motorista dos megacaminhões da Vale olhou em direção às montanhas que circundam a mina Córrego do Feijão e viu uma imensa avalanche emergir do local onde ficava a barragem principal, a apenas 550 metros de onde estava.

"Eu estava de frente para a barragem. Acho que fui uma das primeiras pessoas a ver (a avalanche). Não dava para acreditar", diz Ana Paula, de 30 anos.

Em poucos segundos, a encosta verde de 87 metros de altura, que sustentava 11,7 milhões de toneladas de rejeito de minério de ferro, cedeu e se transformou em uma onda marrom densa. Tinha mais de 300 metros de comprimento e, em alguns pontos, até 20 metros de altura. Segundo o Corpo de Bombeiros, a velocidade inicial era de 80 quilômetros por hora.

"A onda veio muito rápido. Mas também parecia que estava em câmera lenta. É algo muito estranho, não consigo explicar", fala Ana Paula, mãe de uma menina de 8 anos e um menino de 3 anos.

O local onde a funcionária da Vale estava era o trecho final de uma estrada de terra que descia desde a área de extração de minério, no alto, até o terminal de carregamento do trem, na parte mais baixa do complexo mineiro, muito perto da barragem.

Nessa estrada, Ana Paula dirigia o gigantesco e potente Fora de Estrada 777, veículo usado para transportar minério, com quase cinco metros de altura e 11 de comprimento – o pneu, por exemplo, é mais alto que a motorista. Na sua caçamba, havia 91 toneladas de minério, que seriam despejados nos vagões do trem.

Era um trabalho que ela amava, com o qual havia sonhado por muitos anos e que iniciara alguns meses antes, em junho de 2018.

No primeiro momento, Ana Paula não entendeu o que estava acontecendo. "Achei que era uma detonação na mina", diz ela. Só instantes depois, compreendeu que a barragem havia estourado. "A gente achava que essa barragem estava seca. Olhando de cima, parecia um campo de futebol, firme, duro, não tinha esse lamaçal. Ninguém imaginava que estava assim por dentro", conta.

Além disso, "eu nunca tive receio dessa barragem, porque a Vale sempre passava muito treinamento de segurança. Inclusive, uns três meses antes, tinham feito uma simulação (de evacuação de emergência)", acrescentou Ana Paula.

Mas, "quando caiu a ficha, peguei o rádio transmissor (do veículo) e comecei a gritar desesperada: 'corre, foge, a barragem estourou'. Quem estava naquela faixa (de rádio) me escutou gritando. Depois, fiquei sabendo que teve gente que escapou porque ouviu uma mulher chorar e gritar no rádio. Era eu", diz ela.

Ana Paula ainda tentou chamar a central pelo rádio, mas escutou apenas um silêncio - o local havia sido rapidamente soterrado.

Em apenas 30 segundos, a avalanche chegou a cerca de 100 metros do megacaminhão de Ana Paula. Inundou de lama o começo da estrada onde estava o veículo, destruiu parte das instalações da Vale localizadas ali, e despencou em cima de um grupo de pessoas que tentava escapar.

"Minha vontade era me jogar naquela lama para ajudar a salvar as pessoas, mas não tinha jeito. A onda era muito mais forte que qualquer um de nós", fala ela.

A partir daquele ponto, se a onda tivesse seguindo em linha reta, poderia ter encoberto toda a estrada onde estava o megacaminhão de Ana Paula. Mas o mar de lama fez uma curva exatamente na encosta onde ficava a via, e se deslocou rumo ao terminal de carregamento. De lá, seguiu para a área administrativa e o refeitório - onde, acredita-se, estava a maior parte das vítimas.

Assim, a trabalhadora assistiu atônita à maior parte da avalanche desviar da sua direção e correr pelo seu lado direito, destruindo tudo que havia pela frente.

"Hoje, eu não posso mais olhar para uma montanha. Senão, eu vejo a onda vindo outra vez", desabafa. No total, Ana Paula calcula que perdeu "muito mais que vinte" colegas na tragédia. Sua tia Rosário, que também trabalhava na Vale, está desaparecida.

A fuga de ré com 91 toneladas na caçamba

Enquanto a barragem se rompia, um outro megacaminhão de minério começava a subir a estrada onde estava Ana Paula, no sentido oposto. Vazio, tinha acabado de descarregar minério nos vagões do trem.

O motorista, que dirigia de costas para a barragem, estava alheio à iminência da tragédia. Como o veículo é muito barulhento, o trabalhador usava protetores auriculares, que podem ter impedido que ouvisse o rompimento do reservatório e o som de árvores e construções sendo engolidas pela lama.

Foi Ana Paula quem o alertou. "Eu buzinei e dei luz, desesperada, para avisar meu colega. Ele não ouviu minha buzina, mas acabou percebendo o sinal de luz e acelerou para subir a estrada".

Mas havia outro problema: a estrada não comportava a passagem simultânea de dois caminhões de minério. Então, para que o colega pudesse acelerar, Ana Paula teve que tomar uma decisão corajosa e arriscada: encostou seu Fora de Estrada à direita da via e ficou parada, adiando a própria fuga. Enquanto isso, a lama ia varrendo a mina.

"Se não fosse isso, a onda tinha quebrado em cima dele. Foi por muito pouco", conta a funcionária da mina Córrego do Feijão.

Depois de passar por Ana Paula, esse segundo megacaminhão subiu por uma estrada lateral e se afastou da destruição da lama. Esse momento, ocorrido às 12h29, foi registrado por uma câmera de segurança da Vale - a mesma que gravou o rompimento da barragem, um minuto antes.

A imagem do veículo em fuga foi exibida pelas emissoras de TV na última sexta-feira. Quando viu a cena, Ana Paula relembrou de tudo que viveu e quase desmaiou. "Fiquei com tontura, meu corpo ficou bambinho", relata. Já o colega que dirigia o veículo mostrado na mídia, ainda muito abalado, não quis dar entrevista - por isso, a BBC News Brasil optou por preservar seu nome.

Após o colega conseguir fugir, era a vez de Ana Paula fazer algo para sair dali. A missão era difícil, já que a frente do seu megacaminhão estava virada para a direção oposta à rota de fuga. Manobrar o veículo era impossível - a estrada era estreita, o veículo enorme, e não haveria tempo para isso.

"Então, eu pensei: vou dar ré", lembra ela.

"Só que era uma subida e o caminhão estava cheio de minério. Eu achava que não ia subir de ré, mas era minha única opção. Então, fui dando ré e pedindo a Deus para me salvar. Eu dava ré e a lama ia chegando mais perto. Foi Deus que colocou a mão atrás do caminhão e puxou".

Foram cerca de 150 metros de ré - sempre de frente para a barragem, observando toda a destruição causada pela lama. Até que Ana Paula chegou ao entroncamento da estrada pela qual seu colega havia subido minutos antes. Então, embicou o megacaminhão de frente e dirigiu para longe dali.

Essa cena também foi captada pela câmera de segurança da Vale. Às 12h31, três minutos após o rompimento da barragem, quando parecia não haver mais vida alguma naquele local, o Fora da Estrada 777 de Ana Paula emergiu da poeira que havia sido levantada pela passagem da lama. Carregado de minério, o veículo se movia lentamente, último sobrevivente daquele campo de guerra.

"Se eu tivesse entrado em choque, paralisado, como aconteceu com muita gente, não teria saído dali. Eu acho que foi Deus que deixou minha cabeça boa para fazer o que eu fiz", acredita a motorista dos super caminhões.

Já fora de risco, a única coisa em que Ana Paula pensava era abraçar os filhos. Desde a tragédia, o mais novo pede abraços a todo momento. "Meu psicológico está abalado, mas tenho que ter força pelos meus filhos".

A chegada da lama ao refeitório

Enquanto Ana Paula dava ré no seu megacaminhão, a avalanche de lama atingia a área administrativa da Vale e o refeitório, a cerca de 1,4 quilômetro da base da barragem. O trajeto levou em torno de dois minutos, apenas.

Walcir Carvalho, de 30 anos, trabalha para uma empresa terceirizada que presta serviços elétricos para a Vale. No momento do rompimento da barragem, ele e seus oito colegas haviam acabado de almoçar no refeitório da mina Córrego do Feijão.

A seguir, a maioria do grupo foi descansar em uma pracinha ali perto. Já Walcir e outros dois colegas foram tirar um cochilo nos veículos da firma, que estavam estacionados em fila indiana a poucos metros dali, sob a sombra de árvores.

Mas, naquele dia, Walcir sentiu um incômodo diferente e não conseguiu pegar no sono. Por isso, saiu da caminhonete onde estava e foi se deitar na carroceria do veículo da frente. Minutos depois, ouviu um barulho de explosão muito alto.

"Achei que era uma explosão da mina. Mas então começou a vir poeira com lama, as árvores começaram a quebrar. Quando olhei, a onda já estava chegando na caminhonete. Aí foi cada um correndo por si", conta Walcir, cujo olhar lembra o de Ana Paula, distante e assustado.

"Nunca imaginamos que isso ia acontecer. A Vale tem um trabalho 100% em termos de segurança. E eu já trabalhei perto da barragem, parecia que era (feita de) terra. Nunca ficava água lá. Se enchia de água, uma bomba logo tirava", completa. A lama, portanto, foi uma surpresa também para Walcir.

O funcionário relata que não ouviu nenhuma sirene - a própria Vale admitiu que o alerta sonoro de emergência não soou "devido à velocidade com que ocorreu o evento". "Quem estava em um lugar mais aberto conseguiu ouvir pessoas gritarem (e pode fugir antes). Já a gente, que estava embaixo das árvores, só ouviu a onda chegando mesmo", conta. Segundo ele, ainda houve quem escutou uma mulher gritar e chorar no rádio.

Na fuga, o eletricista teve que pular um poste que caiu ao seu lado. "Minha sorte é que não estava eletrizado, senão eu tinha morrido na hora". Depois, atravessou uma área de mata e chegou em um ponto mais alto, a salvo da lama. Ali, também estavam outros sobreviventes.

"Éramos umas 50 pessoas. Ficamos desesperados, procurando se nossos amigos também tinham conseguido fugir", diz Walcir. Mas seus dois colegas que também estavam cochilando nas caminhonetes não apareceram. Ao longo das buscas, um deles teve o corpo identificado. Já o outro continua desaparecido. "Não consigo falar sobre eles não", disse o eletricista, muito emocionado.

Assim como os colegas de Walcir, há entre as vítimas do rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão um grande número de terceirizados. Nesta terça-feira, 130 funcionários da Vale tinham sido identificados entre os mortos ou estavam desaparecidos. Já entre funcionários terceirizados ou pessoas da comunidade, o número era maior, de 189.

Evangélico, Walcir acredita que foi salvo por um milagre. Dos três veículos da empresa, dois ficaram soterrados. Já o terceiro foi torcido pela lama, mas não afundou - "era a caminhonete onde estava minha Bíblia", diz o trabalhador.

"Graças a Deus eu consegui fugir. Muitas pessoas que faleceram ficaram paralisadas, sem reação, hipnotizadas pelo que estavam vendo e não conseguiram escapar", relata.

Cada um que sobreviveu é um 'milagre'

Em circunstâncias extremas, o curso da vida pode ser completamente alterado por ações fortuitas - ou, dependendo do ponto de vista, por pequenos milagres.

No caso de Ana Paula, foi o fato de estar descendo a estrada mais devagar que o de costume que a colocou fora do primeiro ponto de impacto da onda. "Se eu tivesse descido com uma marcha a mais, teria chegado mais rápido lá embaixo (na área dos vagões). E a onda teria quebrado em cima de mim", diz ela.

Já no caso de Walcir, a dificuldade de cochilar fez com que se movesse para um lugar por onde foi mais fácil fugir. Além disso, seu supervisor tinha decidido liberar a equipe para almoçar antes de iniciarem o próximo serviço: uma manutenção em postes localizados justamente ao pé da barragem. "Se a gente não tivesse ido almoçar aquela hora, não estávamos aqui respirando".

"Qualquer um que se salvou é um milagre", acredita Ana Paula.

Até avistar a avalanche de lama, a motorista dos supercaminhões da Vale estava vivendo um dia normal de trabalho. Havia acordado às 4h, como de costume, feito café e enchido a garrafa térmica que levava todos os dias para o serviço. Às 5h50, saiu de casa para pegar o ônibus que conduzia os trabalhadores de Brumadinho até a mina.

"Eu fico me lembrando do início daquele dia, quando estava esperando o ônibus junto com meus colegas de trabalho. Estávamos indo trabalhar felizes. Era meu sonho trabalhar lá. Mas, daquele grupo do ponto de ônibus, só eu sobrevivi".

Desde então, está difícil pensar em outro assunto. Na semana que seguiu à tragédia, Ana Paula passou grande parte do tempo em frente à TV. "Meu marido, minha família, um monte de gente briga comigo para eu parar de ver notícias sobre isso. Mas eu não consigo. Acordo e já ligo o aparelho, para tentar saber de algum colega", fala ela.

Assim como muitos funcionários da Vale que viram a lama e sobreviveram, Ana Paula passou alguns dias sem dormir. "Mas, se eu ficar na cama, de que vai adiantar eu ter sobrevivido?", questiona ela, que está sendo atendida por uma psicóloga contratada pela empresa - diversos profissionais da área foram disponibilizados pela mineradora para acompanhar quem foi afetado pelo desastre.

"Ela (a psicóloga) falou para eu pensar que sobrevivi e ajudei outras pessoas a se salvarem", diz Ana Paula.

E daqui para frente, o que vai acontecer? "Não sei. Eu nem penso nisso. Eu vou ter que trabalhar, ficar em casa vai ser pior. Acho que não vão mandar a gente embora. A maior parte de Brumadinho trabalha lá (na Vale)", responde a funcionária da mineradora.

E quanto à barragem? "Quem dera eles tivessem falado (do risco) para a gente, mas eu não sei se sabiam ou não. Tem que esperar a investigação esclarecer".

Texto e imagem reproduzidos do site: epocanegocios.globo.com

Freiras “escravas sexuais”: um novo capítulo dos abusos na Igreja

Uma comissão foi criada para freiras denunciarem abusos sofridos 
por membros religiosos (Donald G. Jean/Getty Images)

Publicado originalmente no site da revista EXAME, em 6 de fvereiro de 2019

Freiras “escravas sexuais”: um novo capítulo dos abusos na Igreja

Papa admitiu a jornalistas que sacerdotes e bispos cometeram abusos sexuais a freiras e disse que igreja está trabalhando sobre a questão

Por AFP 

A admissão pública do papa Francisco de que sacerdotes e bispos usaram freiras como “escravas sexuais” marca um novo capítulo da crise pelos abusos sexuais que atinge a Igreja Católica.

“É a primeira vez que o papa e a Igreja como instituição admitem publicamente que esses abusos foram cometidos. Isso é sumariamente importante”, reconheceu, satisfeita, à AFP a diretora do suplemento feminino do jornal “L’Osservatore Romano”, Lucetta Scaraffia.

A historiadora e jornalista italiana dedicou a edição de fevereiro do suplemento aos casos de abusos sexuais a religiosas, gerando um novo escândalo dentro da instituição.

A denúncia foi confirmada pelo pontífice argentino, que admitiu que padres e bispos abusaram sexualmente de freiras por décadas.

A admissão do papa surpreendeu os jornalistas que participavam da tradicional coletiva de imprensa concedida por Francisco no voo de retorno à Itália dos Emirados Árabes Unidos.

“Houve padres e bispos que fizeram isso”, indicou o papa, que nunca havia abordado esse tema publicamente. A Igreja “suspendeu vários clérigos” e o Vaticano esteve “trabalhando (nesta questão) durante muito tempo”, confessou.

O escândalo se soma à onda de denúncias contra sacerdotes pedófilos em muitos países, do Chile à Irlanda, passando por Estados Unidos e Austrália.

O semanário do Vaticano denunciou, inclusive, o estupro de freiras, que foram forçadas a abortar ou a criar filhos que não foram reconhecidos por seus pais sacerdotes.

Um fenômeno que tem sido pouco denunciado e tem vindo à tona em vários países, como Chile, Itália, Peru e Índia, além da África. “É uma situação muito difícil que tem suas raízes na dependência das freiras. Não são reconhecidas como iguais”, explicou Scaraffia.

Em um comunicado à imprensa divulgado nesta quarta, o porta-voz interino da Santa Sé, Alessandro Gisotti, declarou que quando o Santo Padre falou na véspera da “escravidão sexual” em algumas congregações, se referia também à “manipulação e a formas de abuso de poder, que incluem o abuso sexual”.

Desde novembro, a União Internacional das Superioras Gerais (UISG), organismo que representa mais de meio milhão de freiras católicas, assumiu o compromisso de atender todas as religiosas que denunciassem uma agressão sexual.

Quebrar o silêncio

O papa recordou que a batalha foi aberta por seu antecessor, Bento XVI (2005-2013), que “teve a coragem de dissolver uma congregação” por escravizar as mulheres, inclusive sexualmente, por parte de seu fundador.

Quebrem o silêncio, porque o silêncio é que permite que os estupradores continuem estuprando.
  
Francisco se referia à congregação francesa das contemplativas Irmãs de São João, cujos superiores foram retirados depois de uma investigação do Vaticano sobre seus excessos, entre eles sexuais.

Por conta das revelações sobre o abuso de crianças por parte de padres e do impacto mundial do movimento #MeToo, as freiras também começaram a quebrar o silêncio.

Na semana passada, um religioso de alto escalão do Vaticano, acusado por uma ex-freira alemã de abusos durante a confissão, renunciou depois de quatro anos e de um julgamento canônico que se limitou a chamar a sua atenção.

“Chegaram muitas queixas ao Vaticano, mas não deram prosseguimento”, explicou Scaraffia.

“Espero que formem uma comissão para investigar os casos, que participem especialistas religiosos nesse tema, que abram julgamentos, mas, sobretudo, que quebrem o silêncio. Porque o silêncio é que permite que os estupradores continuem estuprando”, acrescentou.

Para as freiras vítimas de abusos não é fácil falar disso, pois temem que a denúncia repercuta contra elas ou contra a congregação.

Scaraffia considera que a Igreja deve se questionar sobre o poder que os sacerdotes exercem sobre as freiras, já que decidem sobre a sua entrada ou não nas ordens religiosas, organizam suas vidas diárias e, inclusive, fixam o salário que recebem.

“Esta é uma oportunidade para demonstrar que a mudança está realmente em curso”, sustenta a historiadora, que espera acabar com o tradicional poder do sacerdote homem sobre a freira mulher.

Texto e imagem reproduzidos do site: exame.abril.com.br

Decote da deputada Paulinha não quebra decoro, dizem advogados

Ana Paula da Silva: deputada estadual foi alvo de ataques após sua 
posse na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Facebook/Reprodução)

Publicado originalmente no site da revista EXAME, em 6 de fevereiro de 2019 

Decote da deputada Paulinha não quebra decoro, dizem advogados

Constitucionalistas e penalistas condenam "reações raivosas e conservadoras" nas redes contra parlamentar estadual de Santa Catarina

Por Estadão Conteúdo

A deputada estadual Ana Paula da Silva (PDT), a Paulinha, foi alvo de ataques nas redes sociais após ter ido à posse na Assembleia Legislativa de Santa Catarina vestindo um macacão vermelho decotado. Segundo advogados consultados pela reportagem, “manifestações raivosas e conservadoras à parte, a conduta da deputada não configura quebra de decoro parlamentar”.

Para Marcellus Ferreira Pinto, advogado constitucionalista e eleitoral, a roupa da deputada é uma “opção individual e não atinge terceiros”.

“A discussão se restringe ao campo dos costumes e das interpretações individuais”, pondera Ferreira Pinto.

Em sua avaliação, Paulinha “fez uma opção individual de vestimenta, ou seja, sua conduta em nada interfere na órbita do direito alheio”.

Uma foto postada numa rede social pela parlamentar no mesmo dia da posse teve mais de 8 mil comentários e 6 mil compartilhamentos. Anotações ofensivas vieram de várias partes do País.

Prefeita da cidade de Bombinhas (SC) em dois mandatos, Paulinha foi eleita deputada com 51.739 votos.

De acordo com o regimento interno da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, os parlamentares devem “trajar passeio completo quando no Plenário”.

Para o advogado criminal João Paulo Martinelli, “os comentários podem configurar injúria, se o ofensor usa de xingamentos, difamação, se atribui um fato que atinja a reputação da vítima perante terceiros”.

“O grande problema é identificar e individualizar cada ofensor”, ressalta Martinelli.

Em entrevista à jornalista Dagmara Spautz, do NSC Total, a deputada afirmou ser “problema dela” o jeito que se vestiu.

“Santa Catarina tem um dos números mais agressivos de violência contra a mulher, e ninguém assume que isso é preconceito. É nessas situações que ele aflora. Vou responder a essa situação, é um grande momento pra trazermos essa pauta da violência contra a mulher. Por mais que alguém achasse minha roupa imprópria, e poderia até não gostar, mas isso está dentro dos limites da diferença. Ninguém pode me julgar moralmente, trazer comentários negativos por isso. Há mais mulheres com decotes, mas como política não é um ambiente para nós, veio esse clamor todo”, disse.


Texto e imagem reproduzidos do site: exame.abril.com.br