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sexta-feira, 23 de outubro de 2026
Woody Allen: A minha filosofia
sábado, 19 de setembro de 2026
Carlos Motta: ‘Existir é um privilégio enorme, mesmo adoecido’
Carlos Motta / Créditos: Arquivo pessoal
Publicação compartilhada do site da REVISTA TRIP, de 18 de setembro de 2026
Carlos Motta: ‘Existir é um privilégio enorme, mesmo adoecido’
Por Paulo Lima
Aos 74 anos, o designer e arquiteto que fez do móvel uma questão de conforto e originalidade e da arquitetura a expressão de seu jeito sensível de estar no mundo, está abrindo um instituto, um cinema comunitário e um liceu de artes e ofícios na Serra da Mantiqueira. Ao Trip FM, ele fala da infância, da Califórnia no auge da contracultura, dos dois cânceres na medula óssea que enfrenta e das transformações do surfe e das praias por onde surfou
A palavra que organiza esta conversa brota logo no primeiro minuto e remete a um ofício que o entrevistado aprendeu. Carlos Motta trabalhou na forja quando morava na Califórnia, nos anos 1970, e descreve o gesto com a precisão de quem o repetiu muitas vezes. Ele está, como diz, há 74 anos nessa forja.
Nascido em São Paulo, filho de uma mãe descendente de imigrantes italianos e de um publicitário com quem ela não se casou, Foi expulso de quase todas as escolas em que estudou e passou a infância sem que ninguém percebesse que era disléxico.
Entrou em arquitetura em Mogi das Cruzes, segundo ele mesmo, “a única faculdade em que consegui passar”, e para onde ia de trem todos os dias. Formou-se em 1975, com direito a um estágio no escritório de Paulo Mendes da Rocha. Na faculdade se apaixonou pela marcenaria, onde, para seu fascínio, os desenhos viravam objetos tridimensionais.
Foi se aprofundar no ofício em cursos na Califórnia, tomada pela contracultura em plena década de 1970. Voltou ao Brasil em 1978 e abriu o Atelier Carlos Motta na Vila Madalena, então um bairro operário que começava a ser ocupado por estudantes e artistas. Em 1985 inaugurou a Fábrica de Cadeiras São Paulo, batizada com o nome da cadeira que havia desenhado três anos antes, e em 1986 ganhou o primeiro lugar na categoria móveis do Prêmio Museu da Casa Brasileira. Trabalha sobretudo com madeira de demolição, completada por madeira certificada quando não há reúso possível.
Seus móveis estão em coleções e galerias em diferentes cidades da Europa e dos Estados Unidos, seus projetos de arquitetura saíram do litoral norte de São Paulo para lugares como a Patagônia chilena e o Havaí.
Há 31 anos Motta frequenta São Francisco Xavier, distrito de São José dos Campos encravado na Serra da Mantiqueira e resguardado por uma área de proteção ambiental, onde decidiu morar há sete. Sua ida para a montanha, ele explica, tem a ver com a busca por encontrar e estar perto das nascentes dos rios que desaguam no mar onde passou a vida surfando.
Nos últimos anos, descobriu um câncer que vem tratando . Faz um ano e meio que não surfa, por conta do tratamento.
Abaixo, os melhores momentos da conversa com Motta. Você também pode ouvir a entrevista no play desta página, no Spotify, Deezer, YouTube, Apple Podcasts e em outras plataformas de áudio. E tem mais: a partir de outubro, as entrevistas do Trip FM voltam, com grande alegria, aos agora 107,9 MHz da Eldorado FM.
Trip FM: Gosto de começar essas conversas pela infância, porque ela revela como a gente é forjado. Você nasceu numa família de juristas conhecidos, seu pai foi um publicitário pioneiro e importante em São Paulo, certo?
Carlos Motta: A palavra que você usou é correta, forjado. Aprendi a trabalhar na forja quando morava na Califórnia, e a forja é uma coisa muito louca, porque você esquenta o metal e bate no metal para ele tomar a forma que você quer. É na porrada. Essa forma que eu desejo para mim vim forjando desde a minha chegada ao planeta.
Vindo lá do zero, foi sempre complicada essa tal existência, porque meu pai não era casado com a minha mãe. Minha mãe era filha de imigrantes italianos, e meu avô Temístocles Marazzi era um italianão, glutão, trabalhador, que veio pro Brasil para fazer os acabamentos do Theatro Municipal.
Meus pais se conheceram, eles se amavam, eram meio amantes. Primeiro nasceu a minha irmã, que foi morar com a minha avó, e onze meses depois eu nasci. Fiquei morando com a minha mãe, e meu pai de vez em quando vinha visitar. Quando fui fazer terapia, fiz uns cinco, seis anos de terapia, fui forçado a rememorar e buscar informações sobre os meus três primeiros anos de vida, e fiquei surpreso ao ver como esse período foi difícil. Não vejo com melancolia, a palavra melancolia é meio boba. Uma vez, ouvi que melancolia é a tristeza guardada na gaveta, e achei que fazia sentido.
Eu não tenho uma tristeza guardada, tenho uma emoção, e às vezes uma tristeza, mas essa tristeza é bonita, porque ela me faz olhar a vida de um jeito muito bonito. Quando ela me pega, é incrível como fico sensível e delicado com tudo aquilo que é vivo, e mesmo com o que não é vivo e tem outro tempo, que pode ser uma rocha.
Trip FM: E isso transparece na sua arquitetura.
Carlos Motta: Eu moro na Mantiqueira, que é uma das formações geológicas mais antigas do país, com centenas de milhões de anos. Às vezes me sento numa pedra, fico olhando as águas que brotam daqui e penso no tempo que aquilo tem. Eu faço muitos projetos de arquitetura nessa região, mas , seja qual for a região, nunca fiz um corte com máquina, nunca fiz um platô. Imagina, chego a um terreno e vejo que ali tem insetos, tem pequenos animais, tem pássaros, todo mundo vivendo e convivendo de uma maneira tão linda. Eu não posso chegar, sendo apenas mais um dos animais, de botinão, e pisar em cima de tudo, trazer uma máquina e fazer um platô para botar uma casa para um cara que vem passar o fim de semana. É o auge da violência, é o desrespeito máximo.
Trip FM: Ao mesmo tempo que essa infância complexa te trouxe sensibilidade, também te trouxe uma coragem meio atípica para o recorte social em que você nasceu. Você passou boa parte da vida peitando o status quo, inclusive o da sua família. Lembro de você contando como foi se declarar marceneiro numa família de juristas nos anos 70.
Carlos Motta: Essa coragem vem também desde esse marco zero da minha vida, de eu ter que encontrar em mim mesmo o meu âmago, ou a procura disso, pelo menos. Esse confronto puxa a minha vida até hoje. Foi um percurso bastante agressivo do meu lado, mas é engraçado você conseguir ser agressivo com doçura.
Fui expulso das escolas em que estudei. No Dante Alighieri, eu não conseguia lidar com aquela autoridade que vinha de cima para baixo. Soltei uma bomba no banheiro sabendo que iam me mandar embora, e tudo bem, porque aquilo era muito pequeno frente a tudo que eu queria realizar. Antes de ir embora, fiz uma coisa de que gosto muito: no Dante tinha um sino que um italiano chamado Marino tocava para sinalizar a troca de aula. Eu quis tocar esse sino numa hora que ia provocar a maior desorganização possível dentro daquela escola, onde nada estava certo , pelo menos na minha maneira de entender o que é educação, o que é ensinar, o que é ser colega. Fui lá no meio da aula e toquei o sino com muito entusiasmo.
Trip FM: E, décadas depois, você virou professor universitário , mas também foi mandado embora, certo?
Carlos Motta: A minha família inteira do lado dos Motta é de professores. Eu nunca quis ser, porque já não gostava de escola. Aí meus filhos entraram na FAAP, o curso era caro pra cacete, e me chamaram pra dar aulas . Pensei: vou topar, porque são os cursos de dois filhos que não vou precisar pagar e ainda vou receber um salário. Topei, mas topei do meu jeito. A minha turma tinha 28 alunos, e nunca dei uma aula com menos de 40 pessoas na sala, porque vinha gente da administração, vinha gente da faculdade de publicidade assistir.
Nunca preparei uma aula, sempre foi de bate-pronto. A minha aula era de projeto, para quem estava se formando, então o que interessava era o objeto.
A FAAP começou a achar aquilo estranho. Um dia entrou um fiscal, sei lá, um gerente, ou diretor, na sala. Ele deu de cara com 40 alunos amontoados curtindo ali, e eu estava em pé em cima da mesa falando com a turma. O cara achou aquilo um absurdo e denunciou. E aí começou uma coisa de olhar tudo e me fiscalizar: por exemplo, eu ia de bermuda, e não podia dar aula de bermuda. Sempre achei que um professor passando calor, com o sapato apertado, vai ficar com raiva dos alunos. Não aceitaram. Também não aceitavam que, prontos os protótipos, a gente levasse as poltronas e as cadeiras desenhadas pelos alunos para a praça central da escola no recreio, para todo mundo poder experimentar o que os colegas da arquitetura tinham feito.
Quando me mandaram embora, falei para o diretor: que coerência, todas as escolas por que passei foram me mandando embora, e hoje entendo o porquê. Nenhuma delas entendeu o que é transmitir conhecimento, nenhuma entendeu a importância de criar um espaço para que alguém que já tem uma trajetória passe isso para os mais jovens com afeto, com doçura.
Trip FM: Tem uma parte dessa dificuldade toda com a escola que só foi ficar clara muito depois, confere?
Carlos Motta: Sim. Eu sou canhoto. A primeira escola em que estudei foi o São Norberto, e tinha uma madre indiana, que deve arder no inferno até hoje. Ela tinha umas unhas compridas e me pegava pelo braço cheia de ódio, com aquelas unhas cravadas na minha pele e me forçava a escrever com a mão direita. Isso me provocou cacoetes que tenho até hoje, com o olho, com o pescoço. Outra coisa: sou disléxico, e ninguém sacou, nem em casa nem na escola. Diziam que eu tinha dificuldade de aprender, que escrevia ao contrário, que era burro. Isso me deixou mais agressivo.
Trip FM: Até você chegar na faculdade de arquitetura,certo? Ali você fez as pazes com a escola?
Carlos Motta: Entrei em publicidade primeiro, e não era o que eu queria. Estava numa fase hippie, usando os xampus que eu mesmo fazia de babosa com iogurte, e via meu pai fazendo publicidade de produtos da Bozzano. Aquilo não tinha nada a ver comigo. Não queria vender uma coisa em que não acreditava. Fui para o direito e vi que ia ter que viver do litígio, ganhar dinheiro só se existisse briga. Aí fui para a arquitetura, de uma maneira completamente avoada, meio de embalo por conta dos amigos que estavam nessa área, como o Eduardo Longo e o Alfredo Pimenta. Não entrei em nenhuma escola em São Paulo, só entrei em Mogi, e ia de trem.
Na faculdade tinha uma marcenaria. Eu sempre gostei de mexer com madeira, desde molequinho. Já fazia algumas coisas com o que o mar trazia, porque eu surfava e ia para a Praia de São Pedro, e com aquelas madeiras lindíssimas que apareciam na areia eu fazia esculturas e até alguns móveis.
Aí aconteceu uma mágica. Tive aula de desenho, e vi que o desenho no plano bidimensional, na hora em que eu passava para a marcenaria, ia para o tridimensional. Aquilo que eu tinha desenhado virava um objeto. Foi a primeira vez na vida que eu quis muito entender um processo. Fiz na faculdade a primeira poltrona, fiz a segunda, e um professor perguntou se podia fotografar para publicar numa revista que estava saindo no Brasil. A revista foi parar na Holanda, e o diretor de uma grande indústria de móveis de lá entrou em contato comigo querendo comprar os desenhos. Fomos ao consulado para assinar os papéis: ganhei 4 mil dólares por cada desenho. Foi o início da minha marcenaria, com esse dinheiro comprei minhas primeiras máquinas.
Trip FM: Você tinha o desenho, tinha até um comprador holandês, mas ainda não tinha exatamente um ofício. Onde é que se aprendia marcenaria em São Paulo nos anos 70?
Carlos Motta: O curso do Liceu de Artes e Ofícios, que era o lugar onde eu poderia aprender alguma coisa, havia fechado. Então me empreguei numa marcenaria na Rua Piratininga, com um italiano mal-humorado que era mais um desses que jamais reconheceriam que eu era canhoto ou disléxico. Eles só me mandavam engraxar máquinas e varrer o chão. Fiquei um tempo lá, depois mandei eles à merda e fui para a Califórnia.
Foi a grande virada que aconteceu na minha vida. Conheci o Reinhard Bendix, um dos meus grandíssimos amigos, meu mestre, um marceneiro construtor genial. Colei nele e aprendi muita coisa: aprendi a fazer ferramentas, aprendi marcenaria, aprendi construção civil. Fiz o Cabrillo College, que é uma espécie de faculdade local da cidade de Santa Cruz, fiz curso de marcenaria e metal, que capacita quem vai trabalhar na construção de navios. Eu queria usar aquilo nas esculturas de metal e nos móveis com componentes de metal junto com madeira. E aproveitei o embalo para me inscrever num curso que ensinava a fazer parto, porque minha mulher estava grávida e eu queria fazer o parto do meu primeiro filho. Aprendi e fiz.
Foi um momento de muitas realizações. Surfando, plantando fumo em casa, que lá era permitido, comendo comida natureba, cuidando do meu filho pequeno, fazendo a cômoda e os moveizinhos dele. A contracultura bombando, isso tudo em 1976. O Neil Young, músico por quem eu tenho loucura, era meu vizinho no verão de 77. As coisas estavam acontecendo, tudo aquilo de que eu mais gostava.
Trip FM: Depois desse período você volta para o Brasil e monta a sua empresa de marcenaria em 78 a partir de dois conceitos fundamentais, numa época em que nem a palavra ecologia era usada. Que conceitos eram esses?
Carlos Motta: O primeiro conceito é a responsabilidade ambiental na escolha das matérias-primas, tentar reutilizar ou escolher aquilo que cause o menor impacto possível. O segundo é a responsabilidade social: todo mundo da cadeia produtiva participa do lucro. Demorou 35, quase 40 anos para a empresa virar uma realidade do ponto de vista financeiro, porque até então, tudo foi indo aos trancos e barrancos. Hoje trabalho com escritórios ingleses, norte-americanos, de todo canto. E eles trabalham comigo atraídos pela responsabilidade social, pela responsabilidade ambiental, pela qualidade e pela ergonomia dos objetos que faço.
Trip FM: Percebi que existem duas palavras de sons semelhantes que você usou várias vezes hoje falando sobre seu jeito de ser: confronto e conforto.
Carlos Motta: Todo o mobiliário que criei, sempre partiu do conforto. Uma cadeira para comer, uma cadeira para trabalhar, uma poltrona para descansar ou para ler. Tudo isso tem ergonomia, tem a relação do corpo com o objeto. Para mim, se não tiver afeto nas coisas, não rola. Fazer coisas por fazer não tem o menor sentido. Só entro nas histórias quando o lado afetivo está pulsando, porque é isso que dá o sentido da vida para mim.
Trip FM: Uma vez o documentarista Carlos Nader me disse que quando entrou numa das casas que você fez, sentiu um tipo de conforto acústico , um silêncio diferente, como se você estivesse numa cápsula, num canto reservado do planeta. Como é fazer uma casa para alguém morar, respeitando ao mesmo tempo as suas crenças e as da pessoa que te contrata?
Carlos Motta: É delicado mesmo. Nos anos 70, quando a contracultura estava no auge, as pessoas estavam questionando tudo, e um dos questionamentos era onde morar e como morar. Aí foi feito uma espécie de livreto, com encadernação de papel meio de jornal, que se chama “Shelter”, que em inglês é abrigo. Gosto demais dessa palavra e gosto dela em relação ao que se faz em arquitetura. No fundo é o abrigo.
Quando comprei um terreno na praia de Camburi, comecei a subir o morro e vi um teiú, aquele lagarto enorme. Tinha teiú, cutia, gambá, uma série de bichos morando ali, e você não via a casa deles, não via nada daquela formação lindíssima da Mata Atlântica sendo prejudicado por eles. Pensei: estou chegando aqui e vou fazer a minha casa, e os bichos estão todos aqui com as casas deles, e eu estou lá na frente, no mar, surfando, olhando para isso e não vejo um rastro de ninguém. Como é que eu faço a minha casa com esse mesmo conceito? Criando o menor impacto visual, o menor impacto ambiental, o menor impacto possível para uma estrutura pousando no planeta. Fiz aquele barraquinho de madeira o mais leve possível, só pousando os pilares no morro, e pintei a casa com o mesmo verde da Mata Atlântica que está ali, para ela sumir, para ficar mimetizada.
“Trabalho com escritórios ingleses, norte-americanos, de todo canto. E eles trabalham comigo atraídos pela responsabilidade social, pela responsabilidade ambiental, pela qualidade e ergonomia dos objetos que faço”
Trip FM: Freud fala nas pequenas traições do corpo, esse momento em que nos deparamos com questões de saúde que aparecem subitamente confrontando uma espécie de fantasia do ego de que somos indestrutíveis. Você encontrou algum conforto nesse confronto que está vivendo agora?
Carlos Motta: As minhas não foram traições tão pequenas, são traições brabas. Nunca me achei indestrutível, sei que a única certeza absoluta é a morte, e sempre achei isso bonito. Mas na hora em que soube que tinha um câncer no sangue, que se chama mieloma múltiplo, foi um impacto. Todas as vezes em que fui traído, seja por quem for, por amigo, por mulher, por cachorro, pelo mar, tive dificuldade de lidar.
Senti uma punhalada pelas costas com esse câncer, porque uma coisa é você ter uma gripe, ter um covid, você pegou de alguém, é um vírus. O câncer é uma coisa sua. É você que cria. Ele me pertence, não posso culpar ninguém. Fiquei bastante triste, mas não fiquei deprimido em nenhum momento, porque não perdi o tesão pela vida nem a gratidão pela existência. Existir é um privilégio enorme, mesmo adoecido.
A minha hemoglobina é baixa, e a hemoglobina é o que transporta o oxigênio no organismo. Faz um ano e meio que não surfo. Atravessar uma arrebentação hoje é praticamente impossível para mim. Mas continuo sendo um surfista, vou ser surfista até a hora de apagar a luz.
Tive que fazer um transplante de medula, que foi a coisa mais barra-pesada por que passei na vida. Fiquei 22 dias num quarto isolado, com um cateter entrando vinte centímetros na jugular. Minhas plaquetas foram para 9 mil, quase morto. Aquilo era para me salvar, e me salvou, tanto que estou aqui. Mas existia a possibilidade de vir um segundo câncer, e veio, a síndrome mielodisplásica.
Estou bastante baleado, mas continuo o mesmo, e estou mais humilde, porque o sofrimento, que não faltou ao longo da minha vida e se intensificou com o adoecimento, vai te deixando cada vez mais humilde. Mas não estou infeliz, a felicidade ainda habita aqui fortemente. A minha filha Layla mudou-se para cá, por exemplo, meus netos estão aqui, é tudo uma delícia.
Trip FM: Você estava me contando que ganhou um dinheiro extra com o seu trabalho nos últimos anos, não tinha nenhum plano específico sobre o que fazer com ele e decidiu criar um instituto em São Francisco Xavier para abrigar o acervo de cinquenta anos de trabalho. Junto com ele vem um liceu de artes e ofícios, que é justamente o que não existia quando você quis aprender o ofício.
Carlos Motta: Estou há 31 anos por aqui, e morando há sete, construindo e capacitando mão de obra. Os caras que fui ensinando absorveram uma qualidade absurda em termos de construção civil e de marcenaria, agora eu quero fazer uma marcenaria aqui. Então estou fazendo um Liceu de Artes e Ofícios. Vamos começar com marcenaria, em seguida vai ser serralheria, depois os trabalhos em couro, porque quando a gente veio para cá comprava sela de cavalo feita aqui, arreios, e hoje não tem mais, os artesãos estão velhinhos e o saber está se perdendo .
“Estou mais humilde, porque o sofrimento, que não faltou ao longo da minha vida e se intensificou com o adoecimento, vai te deixando cada vez mais humilde”
Comprei um terreno na cidade, a coisa mais linda do mundo, caríssimo, usei toda a minha grana. Fica a um quarteirão da praça central ,para as pessoas poderem ir a pé, os estudantes, os mais velhos, a terceira idade. Já tive duas reuniões com o prefeito, com o secretário do Meio Ambiente e com a turma da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, que é a de cultura.
A gente tem um grupo aqui chamado Regenera, que fundamos antes da pandemia, de contato com a comunidade, de valorização das qualidades de São Francisco Xavier. Depois de uma vida muito urbana e muito no litoral, hoje estou centrado na Mantiqueira, e sempre com essa palavra mágica muito presente, que é o afeto.
Trip FM: É emblemático que hoje a gente quase não tenha falado de surfe, que foi aquilo que nos aproximou lá atrás. Agora o chique na Faria Lima é ser surfista, ter título de um clube com piscina de ondas onde você surfa entre uma reunião e outra. Grande parte das praias também está tomada por mansões, resorts e uma infinidade de “condomínios”, uma ocupação muitas vezes equivocada e que transfere a tensão urbana para a beira mar. A nossa ligação com o surfe, de certa forma, era o contrário disso. Ela tinha a ver com o encontro e o aprendizado com a natureza intocada e com as comunidades dos lugares. Essas mudanças drásticas te afetaram?
Carlos Motta: O surfe é uma coisa tão poderosa que jamais vai sair de mim. Tenho quatro filhos surfistas, tenho um filho shaper e um que mora em Ilhabela pescando e surfando, tenho algumas pranchas que são alguns dos objetos pelos quais eu tenho mais amor.
Mas isso que você falou é uma grande verdade, e não aconteceu só no surfe. Aconteceu na vida em geral: na construção civil, na ocupação dos lugares, nas estradas, nos restaurantes, mudando a comida, mudando o uso da praia. A praia é uma praça pública da mais alta qualidade, com um oceano na frente. No fim do ano, as marcas invadem a praia para fazer merchandising, montam estruturas horrorosas e desrespeitosas, e ainda falam que têm autorização da prefeitura. Em Camburi nós nunca aceitamos isso, desmontávamos as coisas e expulsávamos essas pessoas que nunca fizeram nada por aquela praia e nos últimos quatro, cinco dias do ano vão lá fazer o tal merchandising. Como assim, você vem, chupa o caldo e joga o bagaço? Fomos respeitados até um limite. Hoje, se você for lá, vai ver que a gente perdeu para o poder da grana e para a miopia.
“Praia é uma praça pública da mais alta qualidade, com um oceano na frente. No fim do ano, as marcas invadem a praia para fazer merchandising, montam estruturas horrorosas e desrespeitosas”
E não são só as marcas. Às vezes a gente vai para os lados do Bonete, em Ilhabela, e pega um lugar ainda muito puro. Depois chegam quatro, cinco iates com música alta e churrasco, e em um minuto aquilo deteriora o lugar. Nós somos muito ignorantes, nós, seres humanos.
Trip FM: Para fechar: onde está contida a maior dose de sabedoria? Num tronco de madeira, num cachorro ou numa pessoa?
Carlos Motta: Nos três, não tem como separar. Aí é que está a grande coisa: o cachorro não pode só mijar no tronco e cair fora, o homem não pode só cortar o tronco para usar a madeira, e a madeira não pode ser só o caixão que leva o homem embora. Como é esse convívio? A coexistência é a coisa mais linda. Parei de ver os jornais na televisão, chorava todo dia porque via a destruição das vidas e das comunidades em Gaza. É inacreditável que até hoje a gente não consiga entender que o outro sofre a mesma coisa que você sofre. E existirem certas figuras que, ao mesmo tempo, são meus irmãos, feitos da mesma coisa que eu, filhos da natureza. Um está matando milhões de pessoas enquanto o outro está fazendo tudo para salvar. Essa é a nossa raça.
Texto e imagem reproduzidos do site: revistatrip uol com br
terça-feira, 25 de agosto de 2026
O país dos golpes
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
'Data centers' vão acabar com o mundo?
Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 18 de agosto de 2026
'Data centers' vão acabar com o mundo?
Eles impactam o meio ambiene, mas há muito preconceito nas denúncias. Dagomir Marquezi para a Oeste:
Data centers (“centros de dados”) viraram tema constante do noticiário. Foram eleitos como a nova ameaça à vida no planeta. Esse medo pode esconder outra realidade. Vamos por partes. Primeiro, uma definição da Enciclopédia Britânica: “Um data center é uma instalação projetada para abrigar sistemas e equipamentos de computação destinados ao armazenamento e processamento de grandes volumes de dados. Esses centros são fundamentais para a computação em nuvem, que envolve a execução de aplicativos e o armazenamento de dados em sistemas centrais acessíveis pela internet”.
Data centers já eram importantes para cada um de nós. Eles processam dados quando mandamos uma piadinha para alguém pelo WhatsApp ou conferimos o saldo do banco. Agora, na era da inteligência artificial, se tornaram vitais. Um data center reúne milhares de computadores de alta potência conectados entre si. Quando formulamos uma pergunta ou pedimos para que o aplicativo de IA faça uma ilustração, ocorre, claro, um consumo de energia, que não é pequeno, mas também não é um absurdo de grande. Exemplo: pedir uma imagem para um aplicativo de IA gasta o equivalente a cerca de 8 segundos de uso de um forno de micro-ondas. Criar de 20 a 50 imagens equivale ao gasto de energia de uma hora de TV LED. Um simples ciclo de secadora de roupa gasta cerca de 3.500 Watt/hora — energia suficiente para criar milhares de imagens.
O alto consumo de energia gera aquecimento, e o aquecimento exige uma grande quantidade de água para o resfriamento, o que faz muitas pessoas dizerem que “a inteligência artificial vai provocar uma catástrofe ecológica devido ao aquecimento dos data centers”. A IA veio para ficar e mudar os rumos da história humana. Hoje existe uma tendência, especialmente entre os “formadores de opinião”, de atribuir a ela um caráter maligno, que pode assumir várias formas — da perda de empregos até a ameaça de aquecimento global.
Data centers consomem, sim, grandes quantidades de eletricidade para operar. E uma enorme quantidade de água (que pode ser reciclada) para seus sistemas de refrigeração. Isso provoca críticas especialmente em regiões que já enfrentam secas ou dificuldades de abastecimento. Há ainda queixas de impactos locais, como ocupação de terrenos, ruído constante e a necessidade de construção de novas linhas elétricas.
Suco de Brasil
A revista britânica The Economist mostrou recentemente que a construção de grandes data centers virou uma importante fonte de crescimento econômico para a Índia. O Brasil também está nessa corrida. Há unidades especialmente no interior de São Paulo, e também no Rio de Janeiro e no Ceará. Grandes projetos estão em processo de implantação nesses mesmos Estados e no Rio Grande do Sul. Quase sempre são vistos com desconfiança e hostilidade.
Uma reportagem publicada recentemente pelo site G1 demonstra um pouco dessa má vontade. A reportagem fala sobre o BEL1, um data center que está sendo construído no bairro do Barreiro, na cidade de Belém, capital do Pará. O repórter do G1 relata o temor, segundo o Ministério Público do Pará, de que o empreendimento crie “ilhas de calor”. O promotor local Márcio Maués já anunciou que quer “apurar a legalidade da instalação e os riscos de ‘dano climático’”. A matéria cita um estudo que indica que “data centers de IA aumentam a temperatura do solo em média de 2 a 9,1 graus Celsius, com dispersão de calor no raio de até dez quilômetros”.
O promotor Maués “destaca ainda a vulnerabilidade de comunidades ribeirinhas nos arredores da cidade, como a Ilha das Onças, situada a apenas 4,5 km do local”. Existe também, segundo o pesquisador Juliano Ximenes, da UFPA, a possibilidade de que manter o resfriamento contínuo dessas máquinas pode “gerar uma poluição sonora severa”. Outro professor, Marcus Braga, cita um suposto “novo ciclo de ‘extrativismo tecnológico’” e defende que “o Estado poderia exigir, por exemplo, 10% da carga de processamento para que possa utilizar essa infraestrutura para setores estratégicos, como saúde e monitoramento ambiental”. O professor Ximenes “reforça a urgência de regulamentar o uso de IA e exigir transparência das transnacionais”, diz a reportagem.
É um suco de Brasil. Não inventamos nem máquinas de somar, não inventamos os computadores, não criamos a internet. Mas quando chega a oportunidade de um gigantesco salto tecnológico por meio da inteligência artificial, o que vemos são essas forças de sempre torcendo contra a evolução — jornalistas e professores militantes, burocratas, juízes, promotores, “anti-imperialistas”, e os fãs do aparelho estatal.
Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o consumo global de eletricidade dos data centers alcançou algo em torno de 1,5% da demanda elétrica mundial. A projeção é que essa participação dobre até 2030. Para diminuir o impacto ambiental, empresas que trabalham com IA — inclusive a Elea, que está construindo o data center de Belém — buscam o resfriamento com o uso de ar-condicionado. O CEO da Elea declarou ao G1 que “será como um shopping center de médio porte, que ainda consome muito mais calor do que um data center deste tamanho na fase inicial”.
Outro dado não pode ser deixado de lado: o consumo de energia usado pela inteligência artificial está sendo otimizado pela… inteligência artificial. Segundo estimativas da Agência Internacional de Energia, em dez anos os benefícios dessa otimização vão ultrapassar, de maneira geral, o impacto ambiental produzido pelos data centers.
A IA está gerando uma reação desproporcional aos fatos. Muitas pessoas utilizam diariamente os serviços de streaming, as redes sociais, os jogos online, os serviços bancários e o armazenamento em nuvem sem questionar a infraestrutura necessária para todas essas facilidades. Mas passam a denunciá-la quando ela serve à IA.
Isso sugere que, em parte, o alvo não é o data center, mas aquilo que a inteligência artificial simboliza: uma transformação rápida, difícil de controlar e capaz de alterar as relações de trabalho e poder. A inteligência artificial assusta os que têm ideias fixas, os que querem viver dirigidos por ideologias e velhas crenças, os que consideram o ser humano o auge da racionalidade e sentem medo de perder a comodidade de tantas certezas.
Uma solução pode estar vindo do vilão das esquerdas, Elon Musk. Sua empresa SpaceX protocolou o pedido para instalar nada menos que um milhão de satélites em órbita para funcionarem como data centers orbitais de IA. As vantagens: energia solar abundante, resfriamento natural no vácuo, ausência de limites. Os primeiros lançamentos estão previstos para 2027 ou 2028.
Não é o único projeto. A empresa americana Starcloud já lançou um primeiro satélite para esse fim no ano passado. Outros projetos estão a caminho: o Sunrise (da Blue Origin, de Jeff Bezos), a Orbital, o projeto Suncatcher (da Google), além de programas chineses como o ADA e a constelação Three-Body.
Aí não haverá mais as “ilhas de calor” dos data centers terrestres, nem a “poluição sonora severa”, nem o “extrativismo tecnológico”. Vai começar então a gritaria reclamando que os milhares de satélites vão prejudicar nossa visão do espaço e provocar, segundo aquela velha canção, “as derradeiras noites de luar”.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
O fim da leitura?
Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 12 de agosto de 2026
O fim da leitura?
Depois de milênios, o meio básico de comunicação entra em crise, mas está longe do fim. Dagomir Marquezi para a Oeste:
A revista Atlantic publicou uma matéria escrita por Rose Horowitch dizendo que o hábito da leitura está no fim e que estamos entrando numa era “pós-literária”. Bom, se é assim, foi bom enquanto durou. Valeu, letrinhas! Obrigado por tudo que vocês me ensinaram!
A d e u s ...
Opa, vamos com calma. O longo artigo de Horowitch fala de uma crise, não do apocalipse alfabético. Vamos começar do começo.
A escrita, que hoje parece sempre ter existido, é muito recente. Para se ter uma ideia, o Homo sapiens surgiu há aproximadamente 300 mil anos. Comunicavam-se por gestos, sons, danças, pinturas e objetos. Só por volta de 3200 a.C. surgiram os primeiros sistemas de escrita, no Egito e na Mesopotâmia.
A escrita é um código de sinais com significados. Nosso cérebro enxerga alguns desses sinais (como estas letras) e decifra automaticamente o que significam. A linguagem escrita permitiu que não fosse mais necessário se comunicar pessoalmente. Ela fica registrada, pode ser transportada e preservada. Foi uma enorme evolução, uma conquista que permitiu o florescimento de civilizações através da educação e da transmissão do conhecimento. Mas é importante ter consciência de que a humanidade passou cerca de 295 mil anos sem a escrita. Ou seja, fomos “analfabetos” por mais de 98% da história da nossa espécie.
Os sinais da crise
A arte da escrita e da leitura existe, portanto, há “apenas” 5,2 mil anos. Em termos de perspectiva histórica, não representa praticamente nada. Outras conquistas são ainda mais recentes. Johannes Gutenberg imprimiu sua célebre Bíblia entre 1452 e 1455. Em 1650, surgiu o primeiro jornal diário conhecido, também na Alemanha.
Outros grandes saltos foram dados na passagem para o atual século 21. Surgiu a leitura digital, que dispensou meios físicos permanentes. O Google Translator (e depois a inteligência artificial) eliminaram a distância entre 250 línguas diferentes. Publicar um livro ou uma revista passou a estar disponível agora para qualquer pessoa com acesso à internet.
Então, por que a escrita estaria em crise? O artigo de Rose Horowitch baseia-se na situação dos Estados Unidos. Ela cita dados que, para os padrões americanos, são preocupantes. A pesquisa foi realizada pelo National Endowment for the Arts, um instituto que acompanha atentamente os hábitos de leitura dos EUA.
Segundo essa pesquisa, menos da metade de todos os adultos declarou ter lido ao menos um livro em 2022. Só 38% leu um romance ou um conto. A proporção de americanos que leu por prazer em qualquer dia caiu de 28% em 2004 para 16% em 2023. E esse índice engloba qualquer tipo de leitura — livro, revista, jornal, e-book, ou mesmo ouvir um audiobook. Em 1975, metade dos americanos na faixa dos 20 anos de idade lia jornais diariamente. Hoje, esse número caiu para menos de 10%.
Se a situação está assim nos EUA, imagine no Brasil, que nunca foi um campeão nessa área. Não é preciso imaginar. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Ipec com 5.504 pessoas de 5 anos ou mais em 208 municípios, mostra o tamanho do nosso problema. Apenas 47% dos entrevistados tinham lido ao menos um trecho de algum livro. Os não-leitores se tornaram maioria: 53%. Em outras palavras, o Brasil perdeu estatisticamente 6,7 milhões de leitores entre 2019 e 2024.
Apenas 27% dos entrevistados leram um livro inteiro nesse período. Entre os brasileiros alfabetizados, só 7% afirmaram ler livros de literatura por vontade própria todos ou quase todos os dias. Outros 11% leem ao menos uma vez por semana, enquanto 62% disseram não ler literatura espontaneamente.
Entre todos os brasileiros, a quantidade média de literatura lida por vontade própria foi de somente 1,17 livros por ano. Considerando apenas obras literárias inteiramente concluídas, a média geral foi de aproximadamente 0,51 livros em três meses. Em 2024, 29% dos brasileiros disseram não gostar de ler, contra 22% em 2019. Somente 26% afirmaram gostar muito de leitura. Apenas 7% dos brasileiros alfabetizados dizem ler todos os dias ou quase todos os dias.
Não estamos preparados
O artigo da Atlantic lembra que existe uma curiosa contradição com esses fatos hoje em dia: “Estranhamente, os americanos estão lendo mais palavras do que nunca leram antes. O que mudou é o que eles leem, e como. As pessoas são bombardeadas por e-mails, mensagens de texto, posts nas redes sociais, legendas no Instagram. Essa explosão de fragmentos de texto surgiu às custas da atenção a trabalhos escritos que transmitem informação rica e detalhada”.
Nós estamos vivendo mesmo um momento de extrema superficialidade. As pessoas nunca tiveram tanto acesso à leitura. Um simples celular poderia ser uma biblioteca completa ou a mais rica das bancas de jornais e revistas. No entanto, estamos na era do “kkk”.
O que estamos vendo nas redes sociais é o contrário da leitura profunda. São vídeos rápidos, frases isoladas, polarização ideológica rasteira, exibicionismo, dancinhas, truques baratos para atrair algoritmos, cenas engraçadinhas e atitudes condenáveis a que assistimos repetidas vezes para acumular raiva.
A culpa então é da tecnologia? A era digital deu aos humanos um poder que nunca tiveram. A inteligência artificial multiplicou esse poder ao infinito. O que estamos fazendo com tantas possibilidades não é um problema da tecnologia. Apenas mostra que talvez ainda não estejamos mentalmente prontos para tanto poder.
A palavra escrita não desaparece no ar
Tudo se move com muita rapidez nos dias de hoje. E vai se mover muito mais rapidamente amanhã. Quando sabemos que existem experiências como uma touca para ler pensamentos ou chips para conectar cérebros diretamente a computadores, tudo se torna possível. É cedo para prever como essas possibilidades tecnológicas vão mudar nossas vidas. Talvez chegue o dia em que a gente não precise mais ler. O conhecimento poderá entrar direto em nossas mentes sem precisar dessas letrinhas que você está visualizando agora.
Mas nada que possa acontecer deveria nos tirar o prazer de ler da forma convencional — uma letra depois da outra, palavras organizadas em frases, frases encaixadas em parágrafos, tudo recheado por pontos, vírgulas, acentos, travessões e aspas.
“Como escrever uma frase leva mais tempo do que pronunciá-la, a escrita obriga o autor a desacelerar e refletir”, escreveu Rose Horowitch em seu artigo para a Atlantic. “A linguagem escrita tende a empregar estruturas de frases e um vocabulário mais complexos do que a linguagem falada. E, ao contrário da fala, ela não desaparece no ar. Os leitores podem voltar a um texto e explorá-lo em busca de novos significados e de uma compreensão mais profunda. Como a escrita perdura, as pessoas podem esquecer temporariamente o que escreveram, confiando que aquilo não se perderá para sempre. Isso libera a mente para pensar em novas ideias e fazer novas descobertas.”
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com
segunda-feira, 10 de agosto de 2026
Por que eu detesto literatura de autoajuda e de cunho motivacional
domingo, 2 de agosto de 2026
Entre a página e a tela: educar depois do deslumbramento digital
Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 1 de agosto de 2026
Entre a página e a tela: educar depois do deslumbramento digital
O maior perigo não é uma criança usar um computador. É deixar de conseguir concentrar-se sem ele. Fernando Moreira para o Observador:
Ler faz bem e recomenda-se. A frase parece modesta numa época que prefere promessas grandiosas e soluções instantâneas. No entanto, poucas atividades serão tão decisivas para a formação de uma pessoa como permanecer diante de um texto, acompanhar um pensamento até ao fim e aceitar que uma ideia não se revele à primeira passagem.
Ler não é apenas recolher informação. Se assim fosse, bastariam resumos, listas e respostas automáticas. A leitura desenvolve o vocabulário, organiza o raciocínio, educa a imaginação e ensina-nos a conviver com a complexidade. Obriga a relacionar uma frase com outra, a conservar na memória aquilo que já foi dito e, por vezes, a regressar atrás para corrigir uma interpretação precipitada. Um texto exigente não se entrega imediatamente. Pede tempo, continuidade e uma forma de atenção que a vida contemporânea parece empenhada em fragmentar.
É por isso saudável que a leitura tenha regressado ao centro da discussão pública. Fala-se da diminuição dos hábitos de leitura, da dificuldade de concentração, do tempo passado diante de ecrãs e da presença crescente dos dispositivos eletrónicos nas escolas. O debate, porém, empobrece quando é reduzido a uma escolha absoluta: de um lado, o livro, o lápis e o papel; do outro, o computador, o tablet e a inteligência artificial. A escola não tem de escolher entre a biblioteca e o laboratório. Deve saber para que serve cada um.
A questão essencial já não consiste em decidir se a tecnologia deve entrar no ensino. Ela já entrou. A pergunta verdadeiramente educativa é outra: em que momentos, com que finalidade, durante quanto tempo, em que idades e sob que orientação deve ser utilizada?
Durante alguns anos, esta pergunta foi frequentemente ignorada. A presença de dispositivos nas salas de aula foi apresentada como prova de modernização. Compraram-se computadores, distribuíram-se tablets, contrataram-se plataformas e converteram-se manuais em ficheiros digitais. Em demasiados casos, a ferramenta chegou antes da estratégia, como se a simples substituição do papel pelo ecrã pudesse transformar a aprendizagem.
Agora, depois do entusiasmo, começa o tempo da avaliação. A digitalização da escola não nasceu de uma fantasia. Teve razões legítimas e produziu benefícios reais. As sociedades estavam a mudar, a informação circulava cada vez mais em ambientes digitais e muitas profissões exigiam novas competências. Manter o ensino afastado dessa transformação teria preparado os estudantes para um mundo que já não existia.
A tecnologia abriu o acesso a bibliotecas, bases de dados e recursos científicos. Permitiu visualizar fenómenos, experimentar, errar e corrigir, além de oferecer instrumentos indispensáveis a pessoas com necessidades específicas.
Durante a pandemia, os ambientes digitais impediram uma interrupção educativa total. O problema surgiu quando soluções de emergência permaneceram como se fossem adequadas a todas as circunstâncias. Uma ponte construída durante uma cheia não tem de se converter, sem avaliação, na estrada principal.
Houve ainda um equívoco político. A tecnologia pode ser comprada, distribuída e contabilizada; a qualidade de uma explicação ou o tempo concedido para pensar são investimentos menos visíveis. Foi assim que a aquisição tecnológica começou, em vários sistemas, a ser confundida com inovação pedagógica. Contudo, um computador não é apenas um manual mais luminoso. No mesmo objeto convivem o texto escolar, o simulador, as mensagens, os vídeos, os jogos e uma sucessão quase infinita de estímulos. A escola colocou uma biblioteca, um laboratório e uma máquina de distração dentro da mesma caixa, esperando que crianças e adolescentes separassem espontaneamente todas essas funções.
Mas a atenção não nasce educada. Aprende-se a concentrar do mesmo modo que se aprende a ler: com prática, orientação e esforço gradual.
O livro impresso oferece ao leitor uma geografia. A posição de uma passagem, a espessura das folhas e as anotações ajudam a representar fisicamente o percurso da leitura. O texto digital possui outra natureza. Pode ser ampliado, pesquisado e transportado com facilidade. Essa flexibilidade é valiosa, mas a página deixa de ser um território estável e passa a integrar um ambiente em que muitas outras ações permanecem disponíveis. O mesmo gesto que faz avançar um texto pode abrir uma mensagem ou conduzir a um vídeo.
A Suécia, a Noruega e a Dinamarca tornaram-se símbolos de um alegado regresso ao papel. A expressão é excessiva. Nenhum destes países está a abandonar a tecnologia. O que está em curso é uma correção de rumo depois de anos de rápida digitalização. Nos três casos, os dispositivos foram introduzidos para modernizar o ensino e reduzir desigualdades. Com o tempo, porém, começaram a ser usados mesmo onde pouco acrescentavam, deixando por vezes que o equipamento determinasse o modo de ensinar. A reação traduziu-se no reforço dos manuais impressos, das bibliotecas, da escrita manual e da autonomia dos professores. Surgiram também orientações para limitar telemóveis, reduzir distrações e guardar computadores durante atividades que não necessitam deles.
A principal lição não está numa rejeição do digital. Está no reconhecimento de que modernizar não significa aumentar indefinidamente o tempo de ecrã. Uma sociedade tecnologicamente avançada precisa de cidadãos capazes de utilizar dispositivos com competência e sentido crítico, incluindo a capacidade de os desligar.
O reencontro com os livros contém um perigo: substituir a antiga fé na tecnologia por uma hostilidade igualmente irrefletida. Seria trocar um dogma por outro. Um livro não garante aprendizagem pelo simples facto de ser impresso: também permite aulas passivas e rotineiras. Da mesma forma, um ecrã não produz superficialidade por natureza. Pode tornar visível o que o papel apenas descreve, permitir experiências, programação e feedback imediato. As ferramentas digitais bem integradas podem melhorar a aprendizagem, sobretudo através de simulações e sistemas tutoriais; os efeitos dependem, porém, da preparação dos professores.
A tecnologia não corrige automaticamente uma pedagogia fraca. Uma aula mal concebida não se torna boa porque aparece num quadro interativo. Um manual digital que apenas imita o impresso, acrescentando distrações, não representa necessariamente uma melhoria. O critério deve ser simples: o que permite esta ferramenta fazer que seria difícil, impossível ou menos eficaz sem ela? Se ajuda a visualizar, experimentar, colaborar ou receber feedback relevante, o uso pode justificar-se. Quando apenas substitui a folha, talvez seja preferível conservar a folha.
A escola precisa de uma ecologia de instrumentos, não de uma monocultura. A leitura prolongada pode beneficiar do papel; a pesquisa e a simulação exigem frequentemente meios digitais. Uma ideia pode nascer à mão e ser posteriormente revista num processador de texto.
A escrita manual possui um ritmo particular. Como é mais lenta, obriga a selecionar e a distinguir as ideias principais. O teclado facilita outras operações: rever, reorganizar, comparar versões e colaborar. Nenhum destes modos deve monopolizar a aprendizagem.
Também é necessário preservar períodos livres de dispositivos, porque a concentração precisa de condições para se desenvolver. Aprender exige permanecer diante do que ainda não compreendemos. O esforço cognitivo não é um defeito do ensino; um bom professor ajuda o estudante a enfrentar a dificuldade certa, na medida adequada.
A tecnologia deve funcionar como uma ponte. Se se transforma numa passadeira rolante que transporta o estudante até à resposta sem lhe permitir percorrer o raciocínio, o resultado pode parecer melhor, mas a aprendizagem será mais frágil.
Portugal investiu na digitalização da educação, distribuiu equipamentos, alargou a conectividade e desenvolveu experiências com manuais digitais. Muitos desses investimentos eram necessários, sobretudo para impedir que as diferenças económicas entre famílias se transformassem numa nova forma de exclusão. Contudo, não precisa de copiar mecanicamente as decisões nórdicas, mas deve aprender com a sua capacidade de rever políticas. Uma aula de programação não pode obedecer às mesmas regras de uma sessão de leitura literária, nem uma tecnologia de apoio pode ser confundida com exposição recreativa. Não precisamos de uma percentagem rígida de tempo de ecrã. Precisamos de critérios.
A inteligência artificial generativa altera profundamente este debate. Até há pouco tempo, discutíamos onde o estudante lia e escrevia. Agora, é necessário perguntar quem está realmente a realizar essas operações. Uma ferramenta de inteligência artificial pode resumir um livro, explicar um conceito, redigir um ensaio, resolver um problema ou produzir código. Esta capacidade abre oportunidades: explicações alternativas, exercícios adaptados, feedback e novos apoios para professores e estudantes. Mas surge uma ilusão perigosa: confundir a qualidade do produto com a qualidade da aprendizagem. Uma utilização equilibrada pode ter três momentos: o estudante enfrenta a tarefa, usa a IA para receber crítica e, por fim, explica e defende o resultado sem depender da ferramenta. Sem esta última etapa, é difícil saber se houve aprendizagem ou apenas produção.
Num mundo de respostas plausíveis, o valor humano desloca-se para a formulação de boas perguntas, a verificação, o discernimento, a criatividade e a responsabilidade. A literacia do futuro incluirá a capacidade de reconhecer quando não se deve utilizar inteligência artificial.
A multiplicação de recursos tecnológicos não diminui a importância do professor. Torna-a maior. É o professor que interpreta os silêncios, percebe quando uma resposta correta esconde uma compreensão frágil e adapta a atividade à turma. Um algoritmo pode reconhecer padrões, mas não assume responsabilidade moral pelo desenvolvimento de uma pessoa. O professor do “futuro” não será um guardião nostálgico dos livros nem um operador de plataformas. Será um profissional capaz de combinar suportes, criar experiências de aprendizagem e estabelecer limites. A sua autoridade já não resultará do controlo exclusivo da informação, mas da capacidade de transformar informação em conhecimento e conhecimento em julgamento.
O “futuro” da educação não pertence ao livro contra o ecrã, nem ao ecrã contra o livro. Pertence à capacidade de escolher. Há momentos em que a página impressa oferece a melhor condição para ler devagar e compreender. Outros exigem pesquisa, simulação, programação ou colaboração digital. A escrita manual ajuda a selecionar e consolidar ideias. O processador de texto facilita a revisão. A inteligência artificial pode apoiar uma reflexão, mas não deve ocupar o lugar da reflexão.
Uma escola equilibrada terá livros, cadernos, computadores, laboratórios e sistemas de inteligência artificial. Terá também momentos de silêncio, conversas sem dispositivos, perguntas sem respostas imediatas e dificuldades que não serão removidas ao primeiro sinal de desconforto. Não será menos moderna por ensinar uma criança a escrever à mão, nem será mais moderna por substituir cada livro por um tablet. O essencial está na ordem das decisões: primeiro, define-se aquilo que o estudante precisa de aprender; depois, escolhe-se o instrumento.
Ler faz bem e recomenda-se. Ler livros, textos digitais, imagens, dados e respostas produzidas por máquinas. Mas nem todas essas leituras exigem o mesmo ritmo, a mesma atenção ou o mesmo grau de confiança.
A escola não tem de escolher entre Gutenberg e a inteligência artificial. Deve preservar aquilo que o livro ensinou à humanidade (atenção, memória, continuidade e imaginação) e combiná-lo com as possibilidades reais da tecnologia.
Porque o maior perigo não é uma criança usar um computador. É deixar de conseguir concentrar-se sem ele. E o maior progresso não consiste em colocar um dispositivo em cada carteira. Consiste em formar uma inteligência capaz de decidir quando o deve abrir e quando é melhor fechá-lo.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com
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