quinta-feira, 19 de março de 2026

Reflexões sobre a morte

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 19 de março de 2026

Reflexões sobre a morte

Diz-se por vezes que ninguém pode conceber a sua própria inexistência, e que, portanto, não podemos realmente acreditar que a nossa existência terminará com as nossas mortes. Mas isto não parece verdadeiro. Thomas Nagel, publicado pela Crítica:

Todas as pessoas morrem, mas nem todas concordam acerca do que é a morte. Algumas acreditam que sobreviverão depois da morte dos seus corpos, e que vão para o Céu, ou para o Inferno, ou para qualquer outro sítio, tornando-se espíritos, ou que voltam à Terra num corpo diferente, talvez nem sequer como seres humanos. Outras acreditam que deixarão de existir — que o eu se extingue quando o corpo morre. E entre aquelas que acreditam que deixarão de existir, algumas pensam que isso é um facto terrível, e outras não.

Diz-se por vezes que ninguém pode conceber a sua própria inexistência, e que, portanto, não podemos realmente acreditar que a nossa existência terminará com as nossas mortes. Mas isto não parece verdadeiro. É claro que não consegues conceber a tua inexistência a partir de dentro. Não podes conceber como seria a aniquilação total, porque não seria como nada, a partir de dentro. Mas, nesse sentido, não podes conceber o que seria ser completamente inconsciente, mesmo temporariamente. O facto de não poderes conceber isso a partir de dentro não quer dizer que não o possas de todo conceber: tens apenas que pensar em ti a partir de fora, como se tivesses levado uma pancada que te pusesse inconsciente, ou como se estivesses profundamente adormecido. E apesar de teres de estar consciente para pensar nisso, isso não quer dizer que estejas a pensar em ti como se estivesses consciente.

O mesmo se passa com a morte. Para imaginar a tua própria aniquilação tens que pensar nela a partir do exterior — tens que pensar no corpo da pessoa que és, mas sem vida nem experiência. Para imaginares qualquer coisa não é necessário imaginares como tu te sentirias ao ter essa experiência. Quando imaginas o teu próprio funeral, não estás a imaginar a situação impossível de estar presente no teu próprio funeral: estás a imaginar como seria o funeral visto pelos olhos de outra pessoa. É claro que estás vivo quando pensas na tua própria morte, mas isso não é mais problemático do que estar consciente quando te imaginas inconsciente.

A questão da sobrevivência depois da morte relaciona-se com o problema da mente-corpo. Se o dualismo for verdadeiro, e cada pessoa consistir numa alma e num corpo ligados entre si, conseguimos compreender como a vida depois da morte poderia ser possível. A alma teria de ter a capacidade de existir por si própria e de ter uma vida mental sem o auxílio do corpo: nesse caso, podia deixar o corpo quando este morresse, em vez de ser destruída. Não seria capaz de ter uma vida mental que incluísse acções nem percepções sensoriais, pois estas dependem da ligação ao corpo (a não ser que se ligasse a um corpo novo), mas poderia ter um tipo diferente de vida interior, talvez dependendo de causas e influências diferentes — como a comunicação directa com as outras almas, por exemplo.

Afirmei que a vida depois da morte pode ser possível se o dualismo for verdadeiro. Mas também pode não ser possível, porque a sobrevivência da alma, e a persistência da sua consciência, podem depender inteiramente do apoio e do estímulo que recebem do corpo no qual a alma está alojada — e a alma pode não ser capaz de mudar de corpo.

Mas se o dualismo não for verdadeiro, e os processos mentais se desenrolam no cérebro e são inteiramente dependentes do funcionamento biológico do cérebro e do resto do organismo, então a vida depois da morte do corpo não é possível. Ou, para ser mais exacto, a vida mental após a morte requereria a restauração da vida biológica, da vida física: requereria que o corpo voltasse de novo à vida. Isto pode vir a ser tecnicamente possível no futuro: pode vir a ser possível congelar os corpos das pessoas quando morrem, e, por qualquer processo médico avançado, curá-las mais tarde do que tinham, trazendo-as assim de volta à vida.

Mesmo que isto se torne possível, ainda restaria a questão de saber se a pessoa que voltou à vida vários séculos mais tarde seria a mesma, ou se seria outra pessoa qualquer. Talvez acontecesse que, se fosses congelado depois da morte e o teu corpo fosse mais tarde reanimado, não serias tu a acordar, mas apenas alguém muito parecido contigo, com memórias da tua vida anterior. Mas mesmo que se torne possível a reanimação depois da morte da mesma pessoa no mesmo corpo, isso não é o que normalmente se quer dizer com a vida depois da morte. Vida depois da morte quer normalmente dizer vida sem o corpo antigo.

É difícil saber como poderíamos decidir se temos ou não almas separáveis. Todos os dados mostram que, antes da morte, a vida consciente depende inteiramente do que acontece ao sistema nervoso. Se seguirmos apenas a observação habitual, em vez de seguirmos doutrinas religiosas ou alegações espiritualistas de comunicação com os mortos, não há razão para acreditar numa vida depois da morte. Será esta, contudo, uma razão para acreditar que não há vida depois da morte? Penso que sim, mas outras pessoas podem preferir permanecer neutrais.

Outras pessoas ainda podem acreditar na vida depois da morte com base na fé, dada a ausência de provas. Por mim, não compreendo completamente como é possível este tipo de crença inspirada na fé, mas é evidente que algumas pessoas podem consegui-la, e até mesmo achá-la natural.

Abordemos agora o outro aspecto do problema: como devemos sentir-nos relativamente à morte. É uma coisa boa, uma coisa má, ou uma coisa neutra? Estou perguntar como será razoável sentires-te em relação à tua própria morte — e não tanto em relação à morte de outras pessoas. Deves encarar a perspectiva da morte com terror, pena, indiferença, ou alívio?

É óbvio que isso depende do que é a morte. Se há vida depois da morte, a perspectiva será triste ou alegre consoante o sítio para onde a tua alma irá. Mas a questão difícil e filosoficamente mais interessante é saber como nos devemos sentir se a morte for o fim. Deixar de existir é uma coisa terrível?

As pessoas divergem quanto a isto. Algumas dizem que a inexistência, não sendo nada, não pode ser nem boa nem má para a pessoa morta. Outras dizem que ser aniquilado, ter o curso futuro possível da tua vida completamente interrompido, é o pior de todos os males, mesmo que todos tenhamos que o enfrentar. Há ainda outras pessoas que dizem que a morte é uma bênção — não se vier muito cedo, é claro —, porque seria insustentavelmente entediante viver para sempre.

Se a morte sem nada a seguir é algo bom ou mau para a pessoa que morre, tem de ser um bem ou um mal negativo. Uma vez que a morte nada é em si mesma, não pode ser agradável nem desagradável. Se a morte é boa, então tem de ser porque é a ausência de algo mau (como o tédio ou a dor); se é má, tem de ser porque é a ausência de algo bom (como experiências interessantes ou agradáveis).

Mas também pode parecer que a morte não pode ter qualquer valor, positivo ou negativo, porque alguém que não existe não pode ser nem beneficiado nem prejudicado: afinal de contas, mesmo um bem ou mal negativo tem de acontecer a alguém. Mas, reflectindo melhor, isto não é realmente um problema. Podemos dizer que a pessoa que existia foi beneficiada ou prejudicada pela morte. Por exemplo, supõe que ela fica presa num edifício em chamas, e que uma trave lhe cai na cabeça, matando-a imediatamente. Em resultado disso, ela não sofre a agonia de morrer queimada. Parece que neste caso podemos dizer que ela teve sorte por ter uma morte indolor, uma vez que se evitou uma coisa pior. Nestas circunstâncias, a morte foi um bem negativo, porque ela foi salva do mal positivo que teria sofrido nos cinco minutos seguintes. E o facto de a pessoa não estar viva para gozar o bem negativo não quer dizer que não seja de todo um bem para ela. «Ela» significa a pessoa que estava viva e que teria sofrido se não tivesse morrido.

O mesmo tipo de coisa se poderia dizer acerca da morte como um mal negativo. Quando morres, acabam todas as coisas boas na tua vida: não há mais refeições, nem filmes, viagens, conversas, amor, trabalho, livros, música, ou qualquer outra coisa. Se essas coisas tivessem sido boas, a sua ausência é má. É claro que não sentirás a sua falta: a morte não é como estar de castigo fechado sozinho num quarto. Mas o fim de todas as coisas boas na vida, devido ao fim da própria vida, parece claramente um mal negativo para a pessoa que estava viva e que agora está morta. Quando morre alguém que conhecemos, temos pena não só por nós próprios mas por ela, porque hoje não pode ver o brilho do Sol, ou sentir o aroma do pão na torradeira.

Quando pensas na tua própria morte, o facto de todas as coisas boas na vida irem acabar é certamente um motivo para sentires desgosto. Mas isto não é tudo, ao que parece. A maior parte das pessoas querem prolongar aquilo de que gostam na vida mas, para algumas, a perspectiva da inexistência é em si assustadora — assustadora de uma maneira que não se pode explicar adequadamente pelo que se disse até agora. A ideia de que o mundo continuará sem ti, que te tornarás nada, é muito difícil de aceitar.

A razão de ser disso não é claro. Todos aceitamos o facto de ter existido um tempo anterior ao nosso nascimento, no qual ainda não existíamos — portanto, por que razão haveria de perturbar-nos tanto a perspectiva da inexistência depois da nossa morte? Mas, de algum modo, o sentimento não é o mesmo nos dois casos. A perspectiva da inexistência é assustadora, pelo menos para muitas pessoas — assustadora de uma maneira que a inexistência no passado não pode ser.

O medo da morte é enigmático de uma maneira que o desgosto pelo fim da vida não é. É fácil compreender que podemos querer ter mais vida, podemos querer ter mais das coisas que a vida inclui, o que implica ver a morte como um mal negativo. Mas como pode a perspectiva da tua própria inexistência ser alarmante de uma maneira positiva? Se realmente deixamos de existir com a morte, então nada há que possamos esperar; mas então como pode haver algo de que possamos ter medo? Se pensarmos logicamente sobre isso, parece que só devemos ter medo da morte se viermos a sobreviver-lhe, sofrendo com isso talvez uma transformação terrível. Mas este argumento não impede muitas pessoas de pensar que a aniquilação é uma das piores coisas que lhes pode acontecer.

Thomas Nagel

Que Quer Dizer Tudo Isto? (Lisboa: Gradiva, 1995), Cap. 9.

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Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Luc Ferry, filósofo francês


Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 22 de fevereiro de 2026

Luc Ferry, filósofo: ‘Os pais devem absolutamente limitar o uso das redes sociais pelos seus filhos’.

O filósofo francês, que estará no Brasil em maio para o SP Innovation Week, critica o consumo acelerado e o vício nas plataformas digitais. Reportagem do Estadão:

Ele foi ministro da Educação da França, é um dos filósofos contemporâneos mais lidos da Europa e, desde a publicação do livro “Aprendendo a Viver”, tornou-se uma referência para quem busca na filosofia um guia para atravessar a existência de forma mais serena. Em maio, Luc Ferry desembarca presencialmente no Brasil como um dos palestrantes do SP Innovation Week (SPIW).

O evento de inovação, tecnologia e negócios será realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Mercado Livre Arena Pacaembu e na Faap, e a venda de ingressos começa nesta segunda-feira, 23.

Em um dos 32 palcos do festival, que acontece entre os dias 13 e 15 de maio, Ferry vai discutir justamente aquilo que mais inquieta o ser humano contemporâneo: como viver em meio ao excesso de informações e à obsessão pela felicidade vendida como produto nas mídias sociais?

Em entrevista à Coluna, Ferry começa por desfazer um equívoco que, segundo ele, compromete o próprio entendimento do pensamento filosófico: “Vivemos hoje numa confusão inquietante que impede a compreensão da filosofia: aquela que consiste em misturar permanentemente valores espirituais e valores morais”.

E esclarece: “A moral, em qualquer sentido que se entenda, é o respeito pelo outro, pelos direitos do homem, com, além disso, a benevolência, a generosidade. Conduzir-se moralmente é respeitar o outro e querer-lhe ativamente o bem”.

Mas, diz ele, ainda que vivêssemos numa sociedade perfeitamente justa, isso não nos livraria da angústia fundamental.

“Se nós aplicássemos perfeitamente os valores morais, não haveria mais massacres, nem violações, nem roubos, nem assassinatos, nem injustiças. Seria uma revolução. E, no entanto, isso não nos impediria nem de envelhecer, nem de morrer, nem de perder um ente querido, nem mesmo de, se for o caso, sermos infelizes no amor ou, simplesmente, de nos aborrecermos ao longo de uma vida cotidiana mergulhada na banalidade”.

É aí que entra o que ele chama de espiritualidade, não necessariamente religiosa. “Há espiritualidades com deuses, que são as religiões, e espiritualidades sem Deus, que são as grandes filosofias”.

Em um momento em que a saúde mental ocupa o centro das conversas, Ferry observa uma mudança profunda no Ocidente. “Na Europa, em 1950, 95% dos franceses eram católicos, crentes.

Já agora são 40% que dizem acreditar em Deus. Então, a psicologia toma o lugar da religião, e a preocupação com a saúde mental ocupa o lugar das preocupações metafísicas”. Para ele, no entanto, a questão decisiva continua a mesma: a morte.

Citando Schopenhauer: “A morte é, propriamente falando, o gênio inspirador; sem ela, provavelmente não haveria filosofia”. A reflexão filosófica, Ferry pontua, nasce da consciência da finitude. “Vivemos pequenas mortes, perdas cotidianas que são formas de finitude que experimentamos.

A perda da juventude, filhos que crescem, amigos que se distanciam”. Desde “A Epopeia de Gilgamesh”, lembra, os humanos enfrentam a angústia: “Nem os animais nem os deuses colocam as mesmas questões que nós, pequenos humanos mortais…”

Redes sociais

Sobre tentar se distrair da angústia por meio do uso excessivo das telas na era digital, Ferry não suaviza o tom. “As redes são uma armadilha que pode ser mortal. Encerram-nos nas nossas próprias certezas e são, além disso, viciantes”.

E faz um alerta direto: “Os pais devem absolutamente limitar o uso das redes sociais pelos seus filhos; é vital!”.

A crítica às plataformas digitais, porém, não é apenas moral ou pedagógica – insere-se numa reflexão mais ampla sobre as ilusões contemporâneas e a dificuldade de lidarmos conosco mesmos.

Desafios do dia a dia

Ao falar sobre “viver em harmonia consigo mesmo”, recusa qualquer idealização. “Sou um ser profundamente angustiado e muitas vezes estou em desacordo comigo mesmo. (risos) Parece-me que um ser totalmente desprovido de angústia seria ou um grande doente ou um perfeito imbecil, pois, como dizia Immanuel Kant, ‘se a providência tivesse querido que fôssemos felizes, nunca nos teria dado a inteligência’”.

Em seu último livro, “O Frenesi da Felicidade”, Ferry critica a lógica do prazer imediato e recorre a uma imagem simples para explicar o presente.

“O grande problema do mundo moderno é que, em comparação com os nossos avós, o capitalismo globalizado fez tudo para mergulhar os nossos filhos no princípio do prazer, segundo o qual queremos ‘tudo, tudo imediatamente’. É infantil e perigoso. É preciso ensinar aos nossos filhos a resistir, mas é mais fácil dizer do que fazer, tal a força da lógica do consumo”.

A chamada “ciência da felicidade”, a psicologia positiva, também não escapa ao seu ceticismo. “Um pouco de bom senso deveria ser suficiente para compreender que se trata novamente de uma miragem, sendo a felicidade algo tão subjetivo que nenhuma definição científica é possível”.

Para ele, a promessa de fórmulas prontas é ilusória. “No fundo, somos felizes quando a vida é simpática, quando nos oferece bons momentos”.

Mas adverte, evocando Rousseau e Kant, que “a felicidade é apenas um ‘ideal da imaginação’, não uma realidade acessível aqui na Terra, muito menos um objeto de ciência”. E conclui com uma constatação quase clássica: “Para nós, os mortais, nada pode ser estável ou duradouro aqui na Terra, de modo que as nossas alegrias são necessariamente efêmeras e frágeis”.

Mas Ferry não encerra a entrevista sem esperança. Para ele, existe um “novo sagrado”, um valor que fundamenta uma nova ética: “O amor é uma forma de encontrar sentido na vida, a base do humanismo moderno, focado nas relações humanas e que transforma a maneira como vivemos”, conclui.

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Sobre o SP Innovation Week

Em uma área de 50 mil m², o festival terá 32 palcos simultâneos com mais de 1,5 mil palestrantes nacionais e internacionais, debatendo temas de tecnologia, negócios, empreendedorismo, luxo, impacto social, cultura e economia criativa.

A expectativa é receber mais de 90 mil visitantes, com cerca de 1 mil startups e 100 expositores envolvidos. A programação do megaevento será criada a partir de 15 trilhas de conhecimento, seguindo a variedade inerente à cidade de São Paulo.

Alguns nomes do time de palestrantes já estão confirmados para o festival, incluindo Luc Ferry, Douglas Rushkoff, indicado pelo MIT como um dos dez intelectuais mais influentes do mundo, o psicólogo americano e criador do conceito da inteligência emocional Daniel Goleman, a filósofa americana Rebecca Goldstein, o jornalista russo Dmitry Muratov — laureado com o Nobel da Paz em 2021 por sua defesa da liberdade de expressão —, o psicólogo e linguista canadense Steven Pinker e o premiado astrofísico brasileiro Marcelo Gleiser.

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Serviço
São Paulo Innovation Week
Local: Mercado Livre Arena Pacaembu e na Faap
Dias: 13, 14 e 15 de maio.
Ingressos: R$ 594 (De 23 de fevereiro até 1º de março preço com desconto do passaporte para os três dias do evento. Após essa data, a venda será realizada em lotes regulares).
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Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Nossos ancestrais tinham quatro olhos? Para que eles serviam?

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 19 de fevereiro de 2026

Nossos ancestrais tinham quatro olhos? Para que eles serviam?

Relógio biológico humano é calibrado pelo sol, mas opera de forma independente. Fernando Reinach para o Estadão:

No nosso corpo a luz tem duas funções. A primeira é permitir a visão. A segunda é controlar os processos que seguem a alternância entre o claro e o escuro. É o que chamamos de ciclo circadiano. Até alguns séculos atras acordávamos com o sol e nos recolhíamos ao anoitecer. Ao nascer demoramos três meses para adequar o sono ao ciclo claro/escuro. Acordamos à noite, dormimos de dia e deixamos os pais loucos e exaustos. Já adultos basta mudarmos abruptamente de fuso horário para nosso sono ficar biruta. É nosso relógio biológico em ação. Ele é calibrado pelo sol, mas opera de forma independente.

Faz muito sabemos que a glândula pineal, uma pequena pirâmide, do tamanho de um grão de arroz, localizada bem no centro de nosso cérebro, é onde reside o relógio biológico. Nos mamíferos ela recebe impulsos nervosos que chegam dos olhos. São esses impulsos que regulam a liberação de hormônios. O principal é a melatonina. Aquele mesmo que, em cápsulas, nos ajuda a regular o sono e a combater o jet lag.

Em alguns peixes e répteis existem orifícios na parte superior do crânio por onde os cientistas acreditam que a luz solar atinge diretamente o cérebro. Esses orifícios não são olhos propriamente ditos pois são recobertos por uma camada fina de osso e pele e não são capazes de formar imagens. Nesses animais existem extensões de vias nervosas que ligam esses locais à glândula pineal. Através desses sensores funções relacionadas ao ciclo circadiano são reguladas. Nesses animais a visão fica a cabo dos olhos e esse “quase olho” serve para regular o ciclo claro/escuro.

São essas descobertas que levaram muitos cientistas e filósofos a acreditar que nossa glândula pineal estaria relacionada a um terceiro olho. A maioria dessas teorias não tem base científica, mas a curiosidade sobre a existência de outros olhos persiste.

A novidade vem da análise dos mais antigos animais com uma coluna vertebral. Seus fósseis foram encontrados na China. São os animais que deram origem aos peixes, anfíbios e répteis, de onde surgiram as aves e os mamíferos. Eles viveram durante o Cambriano, 518 milhões de anos atrás. Esse pequeno animal, chamado Myllokunmingia, tinha 28 milímetros de comprimento e 6 milímetros de altura e parecia um minúsculo peixe. Fósseis desses animais são relativamente abundantes, mas em geral preservam poucos detalhes.

Agora, examinando alguns exemplares de duas espécies bem preservados, os cientistas localizaram, entre os dois olhos, mais duas estruturas circulares contendo evidências da presença de pigmentos semelhantes aos presentes nos olhos e duas estruturas semelhantes às lentes que existem nos olhos dos vertebrados. Isso indica que esses animais possuíam quatro olhos na cabeça e não somente os dois presentes em todos os vertebrados que conhecemos hoje.

O que os cientistas sugerem é que ao longo da evolução, os dois olhos presentes no dorso do animal desapareceram, e que o pequeno buraco no crânio de alguns peixes que deixam passar a luz e têm conexão com a glândula pineal, são as estruturas que sobraram desse par extra de olhos. Ao longo da evolução essas estruturas acabaram se especializando, juntamente com a glândula pineal, em regular nosso relógio interno. Num passo seguinte, nos mamíferos, esses buracos sumiram e sua conexão com a glândula pineal desapareceu.

Se essa descoberta for confirmada podemos dizer que os vertebrados surgiram com quatro olhos capazes de formar imagens e que ao longo de sua evolução dois desses olhos se tornaram capazes de detectar somente a presença de luz e regular nosso ciclo circadiano. Já os dois olhos laterais se especializaram na captura de imagens.

Mais informações: Four camera-type eyes in the earliest vertebrates from the Cambrian Period. Nature

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A química do vício


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 18 de fevereiro de 2026

A química do vício

A dependência provoca dramas destruidores, mas surgem novos caminhas para a cura. Dagomir Marquezi para a revista Oeste:

Todo prazer é químico. E pode viciar. Quando você toma a primeira cerveja, faz sexo pela primeira vez, ouve uma música que te faz feliz, toma uma droga que alivia uma dor, sai do shopping cheio de sacolas ou bate um recorde num game, você quer de novo e de novo. Se você controla a vontade de repetir, está apenas tendo um prazer. Se não controla, está viciado.

A ciência do vício ocupou uma edição inteira da revista Time. O tema é bastante complexo, pois os limites entre o desejo e a compulsão podem ser muito sutis. Existe uma conexão entre vícios e componentes emocionais, o que torna a questão ainda mais complicada.

O fenômeno não é novidade. “O uso de drogas está sendo registrado desde o início da civilização”, declarou Nora Volkow, diretora do Nida (National Institute on Drug Abuse, ou “Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas”), à revista Time. “Os humanos, no meu ponto de vista, sempre vão querer experimentar coisas que os façam se sentir bem.

Todos temos dois polos no cérebro que disputam nosso poder de decisão. Um é receptor do neurotransmissor dopamina, o mensageiro do prazer. Quando fazemos ou consumimos algo de que gostamos muito, nosso cérebro recebe uma carga de dopamina — e quer mais.

O D3 é um desses polos cerebrais especializados em receber dopamina. Quando uma pessoa consome substâncias como cocaína, metanfetamina ou nicotina, esses receptores se multiplicam querendo mais.

O polo oposto ao D3 é conhecido como Gaba (ácido gama-aminobutírico). Localizado na parte frontal do cérebro, é encarregado de nos dar racionalidade e gerar uma sensação de saciedade. O D3 quer sempre mais. O Gaba diz que já chega.

Macarronada com queijo

Vivemos entre esses dois polos. Pessoas com Gaba em falta tendem a se entregar aos vícios sem controle. Um remédio à base de vigabatrina, indicado normalmente contra epilepsia, aumenta o poder do Gaba e, portanto, da racionalidade.

Outro caso é o corpo estriado, uma região no meio do cérebro rica em receptores de dopamina. Quando comemos uma macarronada com queijo ralado, é o estriado que sinaliza que estamos tendo prazer. Quando a dopamina encontra um corpo estriado sem mecanismo de controle, passamos a querer mais e mais.

Além do equilíbrio corpo estriado/dopamina, existe um hormônio chamado leptina, liberado por células de gordura. É a leptina que nos dá a sensação de saciedade. É ela que diz “chega, pede a conta”. Quando não temos leptina em quantidade suficiente, a refeição não tem fim. No dia seguinte, pediremos outra macarronada, dessa vez com sobremesa. Estamos comendo por vício, não por necessidade.

Fotografando o prazer

Novas pesquisas e tecnologia possibilitam “fotografar” essas regiões de prazer no cérebro, como o D3, facilitando possíveis tratamentos. Um exemplo: tomografias revelaram que pessoas patologicamente obesas exibem hiperatividade nas regiões do cérebro que processam a comida, como a boca, a língua e os lábios.

O médico Martin Paulus, presidente do Instituto para Pesquisa Cerebral de Tulsa — no estado americano de Oklahoma —, declarou que pode predizer de 80% a 90% quem vai fraquejar num tratamento contra o vício só por examinar suas tomografias cerebrais. A compulsão se revela visualmente no exame.

Certos fatores agravam a dependência. Um deles é o estresse. Quando estamos estressados, a produção de Gaba, o fator racional que freia nossos impulsos, diminui. E os captadores de dopamina, como o D3, agem à vontade.

O que é um vício?

Mas, afinal, o que é um vício? A edição especial da revista Time procurou mostrar que esse terreno é cheio de sutilezas e zonas cinzentas. O uso compulsivo da internet e de videogames, por exemplo, não é considerado oficialmente um vício. O DSM — a “bíblia” psiquiátrica americana — classificou o jogo compulsivo como um “transtorno de dependência”.

Essas sutilezas se estendem também às consequências. Um opioide pode matar rapidamente. Compras compulsivas não matam — mas podem destruir uma vida financeira ou uma família. Games também não são letais como uma overdose de drogas, mas um jogador compulsivo pode parar de comer e dormir, arruinando sua saúde.

A rede Alcoólicos Anônimos sabe que ninguém quer um segundo copo de bebida, ou um terceiro, ou um quinto ou um décimo. Todos querem repetir a sensação de prazer do primeiro drinque, de novo e de novo. Não é uma questão de quantidade, mas de multiplicar o barato do primeiro gole.

Outro complicador é o fato de que certas compulsões estão ligadas a hábitos legais e até necessários. Comer, por exemplo. Quem come dois hambúrgueres duplos com fritas e um copão de milkshake pode ter uma indigestão, mas nada parecido com uma overdose. Se a pessoa fizer essa refeição todos os dias, aí vira vício e sua saúde vai se deteriorar rapidamente.

O vício não é, enfim, uma ciência exata. O melhor exemplo é a cannabis, conhecida popularmente como maconha. A cannabis transformou-se na década de 1930 na “erva do diabo”, capaz de provocar o enlouquecimento imediato do usuário, e seu uso se tornou punível com prisão. Neste século, a maior parte dos Estados americanos legalizou o uso recreativo. O presidente Donald Trump determinou que a substância seja transferida da categoria 1 — substâncias mais perigosas — para a categoria 3, com menos restrições e reconhecimento do uso medicinal. O vício passou a ser encarado como um hábito, mas que também pode se tornar compulsivo, com todas as consequências.

O fator adolescência

O que diferencia alguém propenso ao vício de outro que não se vicia? Existem dois fatores principais: a predisposição genética e o ambiente. Um filho de alcoólatra tem cerca de 50% de possibilidade de seguir seus passos. Quem não possui essa herança e trabalha em um bar, por exemplo, pode se tornar alcoólatra porque todos ao seu redor bebem. Existe um momento na vida, no entanto, em que todos correm esse risco, explicou à Time Danielle Dick, pesquisadora da Universidade Rutgers. “Na adolescência, as partes do cérebro que processam recompensa estão altamente desenvolvidas, o que significa que os adolescentes gostam de se engajar na busca de recompensa.”

Ao mesmo tempo, o córtex pré-frontal — a parte do cérebro que faz as pessoas pensarem em seus atos — ainda não se desenvolveu. É por isso que dizemos aos filhos adolescentes: “não se meta em encrencas”. E eles se metem. Essa é a fase que, neurologicamente, representa a porta de entrada para os vícios.

A epidemia de opioides

Alguns dos vícios são iniciados pelos próprios médicos. A edição da Time conta a história de Penny (nome fictício), que descobriu que o filho tinha câncer aos 13 anos de idade. Para aliviar as dores do tratamento, o médico receitou o opioide oxicodona. Sua função é interromper a mensagem da dor antes que chegue ao cérebro. O câncer cedeu, mas o cérebro do adolescente já estava condicionado à sensação de prazer do opioide. Aos 17 anos, o filho de Penny partiu para a heroína. Ela declarou dramaticamente que preferia o tempo em que ele estava com câncer. “Naquele tempo, ele tinha apoio e agora tem que procurar traficantes.”

Drogas para controlar a dor à base de opioides sintéticos, como a fentanila, se popularizaram a partir dos anos 1990. No começo, serviam para tratar doenças graves como o câncer. Depois foram receitados para situações banais, como uma simples dor lombar. O resultado foi que, em 2024, 150 pessoas morriam por dia nos EUA por abuso de opioides. O músico Prince foi uma dessas vítimas. A cantora brasileira Nana Caymmi foi outra. Pacientes passaram a mentir para os médicos, dizendo que sofriam dores terríveis, quando queriam apenas mais uma dose. Virou uma epidemia. Dos que tentaram se livrar do vício, entre 85% a 90% acabaram voltando.

Felizmente, para combater a dependência de opioides, existe outra droga chamada naltrexona, que bloqueia momentaneamente os receptores de prazer do cérebro. Em resumo, a pessoa não sente mais o barato. Em 2025, foi lançada como uma injeção que manteve esse efeito bloqueador por 28 dias, facilitando o tratamento. Uma versão subcutânea aplicada nas costas aumenta o efeito para três a seis meses.

Implantes dentro do cérebro

A edição da Time lembra que tão importante no combate aos vícios quanto os remédios é a chamada Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Ela ajuda a pessoa a focar o seu objetivo. Ioga, tai chi chuan, apoio emocional de animais, hipnoterapia e outras possibilidades desvinculadas de remédios também ajudam.

Existe mais um caminho — a neuroestimulação. Localizados os pontos onde estão os terminais de prazer, implantam-se terminais elétricos. O implante pode ser dentro do cérebro (estimulação cerebral profunda – ECP) ou do lado de fora (estimulação transcraniana – EMT). Esse método já é usado para tratar problemas como transtorno obsessivo-compulsivo, Parkinson, epilepsia e depressão.

Esse método parte do princípio de que o vício existe porque alguns circuitos cerebrais estão funcionando mal. O implante funciona para aliviar com impulsos elétricos a necessidade “anormal” de substâncias. É a “neuromodulação”. O método ainda é experimental, mas promissor. É o mais “pessoal” dos procedimentos, pois cada paciente tem um cérebro único que precisa ser mapeado em detalhes.

O difícil papel da família

O vício em drogas provoca um desastre não só na vida do usuário. As famílias dos viciados viram reféns de uma situação dramática. Quem tem um filho afundado na cocaína ou no crack fica entre o abandono ou o envolvimento doloroso. Muitos gastam suas economias em clínicas ou mesmo financiando as drogas por via indireta. Até por instinto, os melhores pais se compadecem de seus filhos e acabam se tornando seus cúmplices.

A Time conta a história de Diane, igual a tantas outras. O filho de Diane se machucou em um treino, começou a usar opioides para aliviar a dor e se viciou. Com o fim do tratamento, passou para a heroína. Seu peso caiu de 72 quilos para 59. Ele passava seus dias no sofá, com o braço cheio de marcas de picadas de agulha, tentando focar a atenção na TV. De vez em quando, voltava à clínica de reabilitação e aumentava a conta que já estava em US$ 70 mil (cerca de R$ 365 mil). Diane percebeu que estava literalmente “amando o filho até a morte”. E tomou uma decisão dura: “Entre numa clínica gratuita ou vai morar com um amigo. Aqui você não fica mais”. Resultado: o filho de Diane está num plano de recuperação de sete anos e hoje é proprietário de uma empresa em New Hampshire. A decisão de Diane foi fundamental.

Outro caso interessante ocorreu com Fred e Virginia Leamnson. O filho deles, Sean, estava também dependente de heroína. Fred e Virgínia começaram gastando US$ 6 mil (cerca de R$ 31 mil) só para cobrir o débito do filho com os traficantes. Depois vieram os tratamentos, as clínicas, os remédios — nada adiantava. Ironicamente, Fred é consultor financeiro e estava torrando o patrimônio da família com o vício do filho.

Fred e Virginia tomaram uma atitude passo a passo. Cortaram o plano de celular da família. Os filhos teriam que pagar por seu celular. Depois cortaram o seguro dos carros e os cartões de crédito. Mas o último e definitivo passo foi o mais surpreendente: apresentaram ao filho viciado um contrato definindo seus próximos passos. Sean estava numa situação crítica, caminhando para se tornar um sem-teto, com a saúde destruída. E todo Natal ele dava um jeito de piorar a situação e ser hospitalizado para atrair a piedade da família. Até que, num Natal, seus pais decidiram tirar férias, fechar a casa e sair da cidade. Foi quando Sean percebeu que não havia escolha e assinou o contrato. Internou-se e decidiu cuidar da própria vida.

O vício nosso de cada dia

Os casos acima são extremos, nos quais as pessoas se afundam na dependência e precisam de soluções radicais. Mas a possibilidade do vício está ao nosso redor, especialmente com substâncias legais que podem ser compradas no mercadinho da esquina.

Café

A cafeína em doses moderadas aumenta a longevidade, diminui o risco de diabetes e doenças cardíacas. Segundo a Clínica Mayo, um limite aceitável são 400 miligramas de cafeína por dia, o equivalente a quatro xícaras de café da bebida. Aí é preciso diferenciar — os americanos costumam tomar um café mais aguado que o espresso, que é super concentrado. Quatro espressos é a conta. A professora de neurociência Merideth Addicott pesquisou sobre a cafeína e declarou que a substância não vicia como, por exemplo, o álcool. A dependência é mais psicológica do que física. Se mede pelo quanto uma pessoa fica irritada em abstinência. De qualquer jeito, café em excesso pode trazer insônia, dores de cabeça, palpitações, irritabilidade e prejudicar o estômago. Merideth garante que o café não tem tanto impacto na nossa atividade cerebral como imaginamos, mas nessa parte é mais difícil de acreditar.

Tabagismo

Como um vício legalizado e amplamente difundido, o tabagismo já produziu sua cota de milhões de vítimas de câncer e enfisema. Essa situação parece estar mais controlada, através de campanhas educativas nos maços de cigarro e limitações de uso em ambientes públicos. Mas surgiu outro problema: o cigarro eletrônico, conhecido como vape. Que está atingindo os jovens com força. O pequeno aparelho esquenta uma combinação de nicotina, aromatizante e outros elementos químicos transformados em vapor. O vape ameaça viciar novas gerações com nicotina. Os fabricantes tiveram o cuidado de diminuir a mistura de carcinógenos encontrados no cigarro comum, mas outros perigos estão associados ao vape — doenças cardíacas e respiratórias e mutações genéticas na boca que podem levar ao câncer.

Alcoolismo

O álcool é outra “droga” legal. Existe uma condescendência social e cultural com a bebida alcoólica. Beber uma taça de vinho no jantar é uma coisa. “Tomar todas”, “encher a cara” é outra. Todos conhecem os Alcoólicos Anônimos, que reúnem usuários em grupos de apoio e estabelecem uma meta de abstinência, geralmente a partir de 90 dias. Mas, para casos graves e urgentes, existem tratamentos radicais. A substância dissulfiram, se misturada ao álcool, causa reações físicas como náuseas, vômitos e palpitações. Há a metadona (recomendada usualmente para viciados em heroína) e a naltrexona, que bloqueia os receptores cerebrais do prazer, tirando a vontade de beber.

Com os avanços da medicina e as mudanças de comportamento, o fato básico permanece o mesmo: temos um polo de prazer, outro de racionalidade. Quem souber equilibrar esses dois polos vai viver melhor.

Texto e imagens reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A Era do Tédio: lembranças de uma infância analógica.

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 16 de fevereiro de 20264

A Era do Tédio: lembranças de uma infância analógica.

Alarmistas dizem que as redes enlouquecerão as crianças; é a mesma coisa que diziam, quando eu era criança, sobre a televisão. É possível que 90% do conteúdo das redes seja lixo, mas os 10% que sobram têm valor inestimável. Roberto Motta para a Gazeta do Povo:

As décadas de 1970 e 1980 foram, para mim, a era do tédio. Quando eu era criança e adolescente, o mundo era analógico. Não existiam computadores, internet ou telefone celular.

Naquela época, no Brasil, não havia nem TV a cabo. Os aparelhos de videocassete ainda não estavam ao alcance da classe média. Se você era criança ou adolescente naqueles anos, suas opções de lazer eletrônico eram meia dúzia de canais da TV aberta, e só.

Ah, mas o mundo real era mais divertido naquele tempo, dirão alguns.

Não para mim.

Em 1973, minha família se mudou de uma casa em Salvador - onde jogávamos bola no quintal e vivíamos na rua, brincando e andando de bicicleta - para um apartamento, não muito grande, em Botafogo. Nosso principal lazer passou a ser a TV.

Meu pai amava ler. Herdei sua curiosidade; leio de tudo e me interesso por quase todos os assuntos (a exceção é o futebol). Isso me colocou em posição de vantagem em vários momentos da vida. Mas, naquele tempo, não havia como satisfazer de forma adequada minha curiosidade. Pertencíamos àquela parte da classe média que luta para não empobrecer; depois de pagar as contas e a escola das quatro crianças, sobrava pouco dinheiro. Não era possível comprar muitos livros.

Depois de voltar da escola e fazer o dever de casa, eu passava o tempo assistindo séries americanas, já antigas, na TV preto e branco do meu quarto.

Não era possível imaginar que um dia existiriam canais de streaming com um cardápio infinito. Filmes a gente via no cinema, exceto em ocasiões especiais, quando a TV aberta resolvia passar algum filme bom, geralmente nas noites de sexta ou sábado.

Muita gente deve ter vivido uma infância diferente. Mas a minha vida, a partir dos onze anos - e até que a adolescência acabasse, por volta dos dezessete - foi assim: horas infinitas de tédio e uma curiosidade sobre o mundo que nunca foi saciada.

Penso nisso todas as vezes em que vejo pessoas reclamando da internet e das redes sociais.

Acho curioso quando dizem que, por causa das redes, vivemos em uma bolha. Basta uma reflexão rápida para perceber que sempre vivemos em uma bolha. A bolha atual é resultado dos algoritmos das redes sociais. Antes, a bolha era criada pela grande mídia. Se agora vivemos nas bolhas do Facebook ou do X, antes vivíamos na bolha da Rede Globo. Nunca houve um tempo em que o cidadão médio vivesse fora da bolha porque, para sair da bolha, é preciso um esforço individual incomum em qualquer época.

Na verdade, se existe uma época na qual é possível sair da bolha, esse tempo é agora - basta a decisão de buscar o entendimento do mundo fora do discurso dominante. Basta usara internet e as redes de forma consciente. Essa é uma opção ao alcance de qualquer um. Quando eu era jovem, essa opção não existia. As fontes de informação eram os grandes jornais, um canal de TV e, talvez, uma ou duas revistas semanais.

Fim da história.

A segunda afirmação que me espanta é a de que vivemos com excesso de informações, e que isso tira o foco das crianças e adolescentes e impacta negativamente seu futuro. Não vou discutir esse prognóstico, mas ofereço uma consideração: a criança e o adolescente que fui um dia, se pudessem, escolheriam um milhão de vezes viver nos dias de hoje ao invés de viver na era do tédio das décadas de 1970 e 1980.

Imagine-se entrando em uma máquina do tempo, voltando a 1976 e dizendo àquele menino que eu fui - e que assistia, pela décima vez, o mesmo episódio de um seriado tolo sobre um golfinho amestrado - que ele poderia, com o apertar de um botão, aprender sobre qualquer assunto, sem custo, ou que poderia ler praticamente qualquer livro e ver qualquer filme que desejasse. O que você acha que o menino diria?

A curiosidade daquele menino permanece em mim. Escrevo esse artigo em uma das três telas do meu computador. Entre um texto e outro, vejo o vídeo de um coral cantando De Spiritu Sancto, música composta por uma abadessa no ano 1150; depois leio um artigo sobre o economista Eugen von Böhm-Bawerk e sua crítica à teoria marxista da exploração. Leio outro artigo sobre o segundo mandato de Trump. O autor cita um livro que me interessa; eu acho o PDF na rede e em segundos já o estou lendo. Entre uma tarefa e outra, assisto a excelentes produções de vídeo sobre o mercado imobiliário em Las Vegas, montanhismo de grandes altitudes, desenvolvimentos da física quântica e um trecho do debate entre o Arcebispo de Canterbury e o biólogo evolucionário e ateísta Richard Dawkins. Posso ler a qualquer momento textos de Gustavo Maultasch e Roberto Rachewsky, dois dos pensadores mais originais do país. Antes que o dia acabe, eu provavelmente terei explorado uma variedade de assuntos maior do que aquele garoto de 1976 teria visto em um ano inteiro.

Alarmistas dizem que as redes enlouquecerão as crianças; é a mesma coisa que diziam, quando eu era criança, sobre a televisão. É possível que 90% do conteúdo das redes seja lixo, mas os 10% que sobram têm valor inestimável.

A época em que vivemos é maravilhosa. A combinação de internet, telefone celular e redes sociais operou o milagre de colocar em nossas mãos, instantaneamente, o conhecimento e a arte da humanidade. A abundância de informações é uma bênção pela qual devemos agradecer todos os dias.

É assim que se sente o menino de 1976.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Do livro “O Sentido da Vida”

Coluna de Cláudio Nunes, do blog Infonet, de 13 de fevereiro de 2026

Sobre a obrigação da felicidade, o “morrer bem” e o sentido da vida

A vida de cada um de nós é a sua obra de arte. 

Para reflexão no Carnaval alguns parágrafos do livro “O Sentido da Vida”, de Contardo Calligaris.

“A experiência da vida é uma experiência criativa de uma obra de arte. A vida de cada um de nós é a sua obra de arte.”

O texto acima resume bem a reflexão passada pelo livro “O Sentido da Vida” entregue a editora pelo psicanalista, ensaísta e escritor Contardo Calligaris poucos dias antes de sua morte em março de 2021, na luta contra um câncer. Como bem escreveu um crítico literário, “o sentido da vida é um livro para aqueles que se atentam, se arriscam e se aventuram verdadeiramente pela vida. Entregue pelo autor poucos dias antes de sua morte, reúne três textos breves, e muito potentes, sobre a obrigação da felicidade, o “morrer bem” e o sentido da vida.

Algumas passagens do livro para reflexão:

“Uma morte bonita honra uma vida inteira”. Petrarca.

“…O que ficou para mim foi a mesma lição do verso de Petrarca da tia Rosalia: a vida não está acima de tudo, não é o valor absoluto. Tem uma série de coisas que estão acima da vida. Cuidado: isso não implica que a gente tenha que passar a vida se preparando para morrer “bem” ou para fazer “bonito”  na hora da morte.”

“O caráter efêmero da vida é uma coisa que encaramos sozinhos”

“Então, quando o indivíduo se torna realmente um valor maior do que a comunidade, é claro que a morte passa a ser uma experiência solitária e, sem dúvida alguma, aterradora e desesperadora. Por isso o indivíduo moderno – e moderno vale para os últimos duzentos anos – tem uma relação conturbada e atormentada com a transcendência, porque o caráter efêmero da vida é uma coisa que encaramos sozinhos.”

“Boçal é o cara que quer que o outro goze do jeito que ele pensa que é certo.”

“… se tem uma coisa que todos os psicoterapeutas têm comum, é que a especialidade do psicoterapeuta é buscar entender como valorizar a vida concreta sem precisar de uma transcendência. Ou seja, sem recorrer a valores externos à vida concreta do paciente. Sem esse princípio, você não tem psicoterapia; você tem uma forma ou outra de boçalidade. Boçal é o cara que quer que o outro goze do jeito que ele pensa que é certo. Todas as psicoterapias só têm esta ambição: buscar entender como, na vida concreta do paciente, é possível descobrir alguma coisa que a valorize, não fora da vida concreta do paciente, mas nela mesma. É por isso que a terapia acaba sendo um trabalho quase estético, um trabalho de recriação narrativa de uma vida, que dá atenção a vida de tal forma que ela se valoriza…”

 “A vida de cada um de nós é a sua obra de arte”

 “…Então essa época em que tantos ocidentais se debruçam sobre qual é a experiência da arte e do belo é também o momento em qu surge a ideia que eu acabo de vender: a de que a vida é a obra de arte de cada um, a mais importante, a mais valiosa e talvez também a única. A experiência da vida é uma experiência criativa de uma obra de arte. A vida de cada um de nós é a sua obra de arte.”

Texto reproduzido do site: infonet com br/blogs/claudio-nunes

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Jovens já começam a apresentar sinais de uma espécie em extinção


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 8 de fevereiro de 2026

Jovens já começam a apresentar sinais de uma espécie em extinção

A nova geração é incapaz de lidar com hostilidades. Luiz Felipe Pondé para a FSP:

A área de estudos do futuro, muitas vezes, é tomada por delírios. Ou por agentes que querem vender seu peixe tecnológico. Ou por gente que quer ninar as almas assustadas. Essa área não pode ser edificante porque se assim o for, perde o foco.

Pensar o futuro é olhar as condições materiais, sociais e econômicas que determinam o mundo e checar se elas deverão sofrer alguma mudança significativa. Se não houver indícios de tais mudanças, a tendência em questão deve permanecer e, possivelmente, se radicalizar. Vejamos.

As redes sociais estão causando transtornos nas democracias. Assim como a invenção da imprensa e a tradução da Bíblia para línguas vernáculas, por volta de 1500, foram algumas das causas das guerras religiosas na Europa, que, por sua vez, criaram condições materiais, sociais e políticas para o surgimento do Estado laico e da liberdade religiosa, depois de muito sangue derramado e destruição. O rádio catapultou o fascismo na primeira metade do século 20, e as redes estão estremecendo os mecanismos representativos nas democracias.

Esse processo vai mudar? Provavelmente não. O mundo digital está radicalmente monetizado e dificilmente deixará de existir. A tendência é que seus feitos sejam radicalizados e se frutifiquem em formas ainda desconhecidas.

Tentativas de regular implicam em perda de competitividade nas sociedades que reprimem os avanços na área. A Europa, em comparação com os Estados Unidos e a China, sabe bem disso. Esperemos, sim, mais transtornos, e a esperança de que alguma forma de acomodação ocorra.

É possível esperar que uma educação para esse impacto aconteça a curto prazo? Difícil crer. No Brasil, por exemplo, assim como na maior parte do mundo, a educação é um lixo em quase todas as áreas. Como esperar que crianças que mal sabem ler, escrever e contar possam enfrentar os transtornos sociais, econômicos e políticos que virão pela frente?

Com a entrada da inteligência artificial no mundo, em todas as suas esferas, inclusive na política, o processo tende a se agravar. Muito desemprego e muitas pessoas inutilizadas surgirão. O que fazer com elas? Ninguém sabe.

O mundo será dos idosos. Jovens serão raros. Os jovens já começam a apresentar sinais de uma espécie em extinção. Desordem cognitiva. Incapacidade de lidar com um meio ambiente hostil —vale salientar que o meio ambiente sempre foi hostil, do contrário, não existiria seleção natural.

Instabilidade emocional. Insegurança estrutural. Radicalização de comportamentos contrários ao convívio coletivo. Redução drástica na capacidade reprodutiva e na habilidade de garantir a própria sobrevivência. Enfim, todo o processo de adoecimento mental das gerações mais jovens deveria ser analisado desde o ponto de vista da seleção natural e da decorrente extinção de espécies não adaptadas.

Claro que jovens em risco de extinção implicam também na extinção da própria espécie, da qual eles são o futuro. A espécie sapiens nunca deveria ter sido compreendida como uma espécie racional, mas, sim, como passionalmente desequilibrada e tendendo à entropia. Entropia esta que vemos hoje em dia.

Por sua vez, essa redução do número de jovens é consequência das decisões individuais de mulheres e homens que chegaram à conclusão de que filhos são ônus e não bônus, o que, por sua vez, é desdobramento histórico necessário da emancipação feminina que tem, como um dos seus pilares, a redução do número de filhos a fim de facilitar a sobrevida das mulheres no mercado de trabalho.

Causa deste fenômeno é, também, a decisão de jovens, homens e mulheres, acerca do grande estresse que são os compromissos amorosos e sexuais excessivamente sólidos. O amor atrapalha os negócios. Os departamentos de compliance sabem bem disso.

Esse fenômeno vai mudar? A emancipação feminina vai acabar? Evidentemente que não. A menos que uma catástrofe leve a humanidade de volta ao neolítico e, assim, as mulheres voltem a ficar grávidas todo o tempo devido ao aumento de atividade sexual voluntária ou involuntária.

Por fim, o capitalismo é um sistema baseado em contratos de concupiscências. Concupiscência é um termo teológico usado pelo filósofo Agostinho para descrever a tendência do comportamento humano a buscar furiosamente seus objetos de desejo. Concupiscências são destrutivas porque fazem dos seres humanos crianças velhas loucas para atingir o que desejam. O capitalismo é a política da concupiscência. Você acha que isso vai mudar? Não.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Homens perfeitos são artigo raro

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 2 de fevereiro de 2026

Homens perfeitos são artigo raro

Serei o único que vê o salário da mulher como uma prova de amor? João Pereira Coutinho para a FSP:

Chega uma idade em que temos de ser honestos conosco mesmos. Cheguei a essa idade e sou obrigado a perguntar: serei um homem perfeito?

A resposta, temo bem, é "sim". Sou perfeito em matéria conjugal. Essa, pelo menos, é a teoria de Eve Simmons, uma autora inglesa que publicou recentemente o relato da sua triste experiência matrimonial. Para os interessados, o título é "What She Did Next" (Dialogue Books, 304 págs.). Não li, não tenciono, mas o resumo dos jornais é bibliografia suficiente.

Conta a autora que o ex-marido era um príncipe —apaixonado, solícito, companheiro, sensível. Seis meses depois, sumiu de casa sem aviso prévio. Queria o divórcio.

Eve Simmons sentiu-se enganada e perdida. Como era possível ter vivido nove anos de namoro com um estranho?

Mas depois, quando conversou com outras mulheres que passaram por traumas idênticos, rebobinou o filme da vida em conjunto e encontrou os cinco sinais problemáticos que toda mulher deve vigiar com ferocidade leonina. Que sinais são esses? Little Couto explica –e desmistifica:

1º "Ele ganha menos do que você —e isso o incomoda" – É uma praga entre os machos inseguros, afirma Eve Simmons: eles se sentem diminuídos com a carreira de sucesso da mulher.

Eu, pelo contrário, me sentiria aliviado. Sonho há vários anos viver às custas de uma. Ser, em poucas palavras, um elfo do lar: ficar em casa, com meus livros e filmes, acenando em roupão da janela para a patroa que sai cedo para trabalhar. Serei o único homem que vê o salário da mulher como uma prova de amor?

Se Eve me tivesse conhecido nos tempos de solteiro, eu jamais teria abandonado o casamento só porque a conta bancária dela era superior à minha. Abraçaria essa conta bancária com o amor e o carinho que ela merece.

2º "Ele nunca reclama" – O marido de Eve vivia sorrindo enquanto executava as tarefas domésticas mais variadas. Nunca reclamava. Um dia, por por uma questão banal, explodiu de raiva e disse à mulher o que Maomé não disse do toucinho.

Pobre Eve. Reclamar? É o meu nome do meio. Acordo reclamando do estado do corpo. Sigo reclamando do estado do mundo. Reclamo de coisas reais e irreais. E, se não tenho do que reclamar, até disso reclamo.

O ex-marido de Eve era um caso clássico de silêncio passivo-agressivo. Eu sou um caso raro de ruído ativo-agressivo. Só quando meu humor não está ao nível de Schopenhauer é que a família estranha e se preocupa. "Estará doente?", perguntam uns. "Ele me incluiu no testamento?", perguntam outros.
3º "Vocês tiveram um noivado longo… e um casamento grandioso" – Aconteceu com Eve. Nunca aconteceria comigo: casamentos grandiosos depois de noivados longos são cerimônias de encerramento.

Nessas matérias, sou um orientalista: o ideal era ter casamentos combinados em que noivo e noiva só se conhecem no altar. É um erro dar o nó quando a novidade já acabou há nove anos.

Pode haver surpresas desagradáveis com uma noiva que não escolhemos?

Pode. Mas prefiro o choque inicial à erosão lenta.

Casamentos grandiosos são uma contradição nos termos: a ideia da festa é receber dinheiro dos convidados, não é gastar dinheiro com eles. Além disso, nada é mais suspeito do que um amor que precisa de bufê, banda e drone para convencer os outros –e a si próprio.

4º "As mensagens de texto começam a mudar" – No início, as mensagens amorosas pingavam com frequência. Os enjoativos emojis também. Subitamente, tudo muda: a frequência, as palavras, o tom.
Não sofro desse mal. Minhas mensagens são sempre lacônicas, de preferência monossilábicas, para não alimentar expectativas. É melhor decepcionar cedo do que desaparecer tarde. O amor passa, mas um "ok" é para sempre.

5º "Vocês estão a tentar ter filhos (mas sem grande empenho)" – Eve queria ter filhos; ele se retraía; a intimidade se esvaziou.

Já eu adoro crianças. Sempre achei que o número certo fosse "mais uma". Por vontade própria, a minha casa seria uma creche: crianças por todo o lado, cuidando da logística, enquanto a minha senhora, munida de mais um cheque gordo, financiaria a experiência.

P.S.: Só mais uma coisa. Informo o leitor romântico que a vida de Eve teve um final feliz. Segundo o jornal "Daily Telegraph", encontrou um novo amor, casou e já foi mãe. Homens perfeitos são artigo raro, mas alguns de nós ainda andam por aí.

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domingo, 1 de fevereiro de 2026

Pensando em Nelson Rodrigues...


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 1 de fevereiro de 2026

Pensando em Nelson Rodrigues: apenas os imorais e neuróticos verão a Deus.

Ele notou a devastação do lugar da família na imaginação moral. Luiz Felipe Pondé para a FSP:

O Nelson Rodrigues deveria ser lido em cada lar, nas escolas, em cada enfermaria de hospital, nos cemitérios, em cada cama de casal, nas igrejas, na porta dos bares, nas confrarias de bêbados, nas escolas de freiras e nas casas das "meninas", ditas filhas da desgraça.

Mas não. Tentam apagá-lo das casas editoriais, chamam-no de reacionário e machista, veem nele um inimigo supremo do progresso moral, quando ele foi, na verdade, o profeta da morte dos gestos. E, ao contrário do que pensam os idiotas da objetividade, a moral é feita de gestos, não de ideias. Não existe moral sem gestos, enquanto ideias confundem a alma. Mesmo a imoralidade é feita de gestos e também é parte da moral. Se não existisse aquela, esta seria inútil e oca. Só os imorais, assim como os neuróticos, verão a Deus.

O patife, a vagabunda, a adúltera são seres morais, enquanto o idiota da objetividade é um sujeito, em termos morais, tão estéril quanto três desertos. Como Nelson mesmo dizia, o profeta é aquele que vê o óbvio. E o ululante. Nosso mundo moral se transformou em três desertos. O bem moral jamais pode ser objeto de promoção como é hoje em dia. No limite, o marketing torna as pessoas estéreis.

A obra do Nelson tem conceitos filosóficos. Em relação a conceitos filosóficos, a atitude dele é o gesto tímido, não a propaganda da posse desta inteligência filosófica. Um pouco como ele dizia a respeito do bem —o bem se envergonha de ser chamado pelo seu nome, esconde-se da plateia, prefere o anonimato. Se alguém o confrontar, morrerá de vergonha. Se puder, mentirá acerca de si mesmo, e esta mentira será o mais profundo ato de misericórdia. Qualquer um que olhar o bem nos olhos, cairá de joelhos, —ou, se não cair de joelhos, é porque já estará no inferno.

Mas a visão aguda da alma moral humana, no Nelson, toca o sublime. Sua crítica à educação sexual nas escolas, principalmente nas escolas "para frente" de freiras paulistas, deve-se à afirmação delas, segundo o Nelson, de que mesmo crianças de cinco anos podem e devem ter aulas de educação sexual. E aí vem o centro da argumentação delas —"não há mistério algum no sexo". Será?

Toda forma de sexo carrega em si algum nível de mistério, mesmo que seja sexo pago às meninas que tornam a vida de alguns homens menos solitárias. Sexo e felicidade não estão necessariamente relacionados. E isso já é, em si, um mistério, uma vez que, em grande parte das vezes, ele nos leva à infelicidade, mesmo que tenha sido por amor.

Nada há de "saúde" no sexo, portanto, não existe sexo saudável. Não é natural como "ter sede e beber água", como outras freiras diziam, segundo Nelson. Alguém pode imaginar mistério maior do que o sexo em meio ao voto do celibato? Quanto mais reprimido, mais poderoso. Dele, potencialmente, sai um outro ser humano.

O luto do sexo, principalmente se foi elemento constitutivo de um relacionamento romântico, nunca repousará.

Para os homens, o lugar do mistério está entre as pernas das mulheres. Quando não há mais interesse nesse mistério, parte do que é ser uma mulher se esvai como um animal que sangra por horas, ainda estando vivo. Agoniza, enquanto grita contra a injustiça do mundo.

Há no Nelson uma compreensão precisa do conceito filosófico de "imaginação moral". Tal conceito foi cunhado a partir de um famoso trecho da obra "Considerações sobre a Revolução na França", do autor britânico Edmund Burke, ao final do século 18, em que ele descreve o que viria a acontecer com os aposentos da rainha Maria Antonieta da França durante a Revolução Francesa.

Esta cena descreve a invasão do povo aos aposentos dela e, consequente, a vandalização de tudo aquilo que ela tinha ali. Roupas, acessórios, maquiagem, sapatos, cama, lençóis, espelhos. Burke, muito precisamente, percebe que uma vez tendo descoberto que a rainha era apenas uma mulher, logo descobririam que uma mulher é apenas um animal.

Aqui está o núcleo do conceito de imaginação moral. A moral não é um conjunto de ideias, mas hábitos, símbolos, cheiros, gostos, costumes, objetos estéticos, narrativas, medos, interdições, —enfim, fruto da imaginação e não da lógica ou do encadeamento de argumentos. Pois bem, o Nelson sabia disso, coisa que pouca gente importante sabe.

Nelson relata o que um jovem —a figura boçal criada pela contracultura, "a grande impostura"— disse certa vez. "O lar nada mais é do que cadeiras, mesas, louças". Nelson percebeu a devastação do lugar da família na imaginação moral. Hoje, essa devastação virou ciência, artefato de uso comum por parte dos inteligentinhos.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sábado, 10 de janeiro de 2026

Fiilme O Agente Secreto concorre ao Globo de Ouro

Legenda da foto - O Agente Secreto chega ao Globo de Ouro
 com mais de 50 prêmios no currículo

Publicação compartilhada do site BBC NEWS BRASIL, de 10 de janeiro de 2026

O Agente Secreto chega mais forte que Ainda Estou Aqui ao Globo de Ouro?

Por Rute Pina (Da BBC News Brasil em São Paulo)

O filme brasileiro O Agente Secreto concorre ao Globo de Ouro neste domingo (11/1) já tendo mais de 50 prêmios nacionais e internacionais no currículo.

Até agora, o longa-metragem já conquistou 54 troféus em 35 premiações, incluindo Melhor Diretor e Melhor Ator no Festival de Cannes, e chega à premiação americana com uma campanha numericamente mais robusta do que a de Ainda Estou Aqui no ano passado.

Em 4 de janeiro de 2025, véspera do Globo de Ouro, o filme de Walter Salles havia vencido 17 prêmios em 12 festivais e premiações, no Brasil e no exterior.

O desempenho quantitativo ajuda a entender uma parte da força da campanha atual. Ainda Estou Aqui ganhou fôlego após a vitória de Fernanda Torres no Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz - Drama. O filme encerrou a temporada com 70 prêmios em 42 festivais.

Mas, àquela altura, o filme tinha apenas quatro meses de carreira: havia estreado no Festival de Veneza, em setembro de 2024, onde venceu o prêmio de Melhor Roteiro. A partir dali, construiu forte reconhecimento principalmente em festivais ibero-americanos.

Já O Agente Secreto estreou mundialmente em maio de 2025, no Festival de Cannes, e chega ao Globo de Ouro com oito meses de circulação internacional, o que amplia sua presença em festivais, premiações e campanhas de divulgação.

Desde que estreou em Cannes, o filme de Kleber Mendonça Filho vem acumulando reconhecimento de importantes associações de críticos norte-americanos, como o New York Film Critics Circle, a Los Angeles Film Critics Association e o National Board of Review.

As indicações deste ano no Globo de Ouro já são históricas. É a primeira vez que um filme brasileiro concorre em três categorias no Globo de Ouro: Melhor Filme – Drama, Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme – Drama.

Também é a primeira indicação do país na principal categoria da premiação. Em edições anteriores, produções brasileiras haviam sido lembradas apenas na disputa de Melhor Filme em Língua Não Inglesa.

Wagner Moura também se tornou o primeiro brasileiro indicado a Melhor Ator em Filme – Drama.

No ano passado, Ainda Estou Aqui concorreu ao Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, mas perdeu para Emilia Pérez. A vitória de Fernanda Torres, no entanto, impulsionou a campanha internacional do longa, que meses depois conquistaria o inédito Oscar de Melhor Filme Internacional para o Brasil.

Além dos prêmios tradicionais, O Agente Secreto também tem acumulado honrarias e menções divertidas e inusitadas.

Na quinta-feira (8/1), a gata Carminha recebeu o troféu Golden Beast ("Bicho de Ouro", em tradução livre), em reconhecimento às atuações das personagens Liza e Elis. O prêmio foi concedido pelo New York Film Festival, criado em 1963 e dedicado à celebração de filmes de destaque mundial.

Já o jornal americano The New York Times destacou a atuação da atriz Tânia Maria como uma das melhores de 2025, descrevendo-a como provavelmente a "melhor atuação com cigarro" do ano.

Embora as comparações entre os dois filmes brasileiros sejam inevitáveis, Dora Amorim, produtora executiva de O Agente Secreto, ressalta que cada obra percorre um caminho próprio.

"Cada filme tem a sua trajetória, o seu DNA. Mas é impossível não pensar nos dois juntos, porque no ano passado Ainda Estou Aqui fez uma trajetória histórica, e agora estamos vivendo algo semelhante com outro filme", afirmou.

Segundo ela, o fato de O Agente Secreto ser uma produção nordestina, realizada no Recife por uma produtora de pequeno porte, amplia o simbolismo do momento.

"Esse lugar é muito significativo para os técnicos do audiovisual brasileiro e também para os brasileiros, por causa da representatividade cultural", disse.

Amorim destaca ainda o impacto simbólico de ver um filme falado em português disputar espaço em premiações tradicionalmente dominadas por Hollywood.

"A gente cresceu assistindo a esses prêmios pela televisão. Ver um filme brasileiro ocupar esse espaço e as pessoas comentarem a atuação do Wagner é algo incrível para o reconhecimento da nossa cultura e do cinema como indústria."

Forte campanha nos Estados Unidos

A produtora explica que o desempenho internacional do filme também está ligado à estratégia de distribuição nos Estados Unidos. No país, o filme foi lançado pela Neon, distribuidora independente responsável por títulos como Parasita e Anora, vencedores do Oscar.

"O filme estreou em novembro, ao mesmo tempo no Brasil e nos Estados Unidos, e está indo muito bem lá fora. Hoje temos três pessoas da equipe em Los Angeles participando de encontros e sabatinas com membros da Academia", diz.

Para Amorim, as próximas semanas são decisivas para o futuro do filme, principalmente em relação ao Oscar, considerada a principal premiação do cinema.

"Esse é um momento de convencimento. Para votar, as pessoas precisam assistir ao filme. A indicação ao Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama foi algo incrível, que a gente não esperava, porque é a primeira vez que o Brasil chega a essa categoria."

O Agente Secreto também chega com a vantagem de Wagner Moura já ser conhecido internacionalmente. Ele já concorreu ao Globo de Ouro, em 2016, como Melhor Ator em Série – Drama por Narcos. Ele perdeu o prêmio para Jon Hamm, de Mad Men.

Além disso, o ator também tem uma carreira com participação em grandes produções internacionais, como Elysium e Guerra Civil.

Redes sociais, memes e engajamento

No ano passado, Ainda Estou Aqui contou com um "exército de likes", com brasileiros determinados a fazer bombar toda e qualquer postagem nas redes sociais sobre o filme.

Na madrugada de 6 de janeiro, por exemplo, logo após Fernanda Torres vencer o Globo de Ouro de Melhor Atriz – Drama, brasileiros comentaram e curtiram em massa as publicações do perfil da premiação.

Já uma foto de Torres publicada no perfil oficial do Oscar alcançou 1 milhão de curtidas e dezenas de milhares de comentários em menos de 24 horas.

Amorim avalia que, embora a campanha de O Agente Secreto não seja centrada nas redes sociais, o engajamento digital tem desempenhado um papel importante. "É a primeira vez que participo de uma campanha tão estruturada de divulgação também nas redes", afirmou.

Ela citou a repercussão de memes e postagens virais, como uma montagem de Wagner Moura caracterizado como personagem de Wicked, além da fala do ator durante a cerimônia em que apresentou o prêmio de Melhor Filme.

"Quando ele anunciou o vencedor e disse 'melhor filme estrangeiro' para os brasileiros, isso viralizou. Eles distinguem muito bem o que é estrangeiro, e acho que nós estamos começando a fazer essa distinção agora", disse. "Essas coisas surgem espontaneamente e acabam virando munição para a equipe trabalhar."

Já a atriz Tânia Maria, que cativou o público com a personagem Sebastiana, também tem sido objeto de memes e vídeos virais. "Esse burburinho só acontece quando as pessoas assistem. Para a gente, o boca a boca é essencial", afirmou.

Apesar das comparações com Ainda Estou Aqui, Amorim reforçou que se trata de trajetórias paralelas. "São diretores, histórias e pontos de partida muito diferentes. Acho que, no futuro, a lembrança vai ser positiva."

Embora distintos, os dois filmes são de época e dialogam com períodos históricos próximos, ainda que com abordagens diferentes.

O Agente Secreto já ultrapassou dez semanas em cartaz no Brasil e foi visto por mais de 1 milhão de pessoas. Já o filme de Walter Salles levou 6 milhões de pessoas ao cinema. "Que bom que, em dois anos, tivemos uma safra tão forte do cinema brasileiro", diz a produtora.

Texto e imagem reproduzidos do site: www bbc com/portuguese