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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
Homens perfeitos são artigo raro
domingo, 1 de fevereiro de 2026
Pensando em Nelson Rodrigues...
Pensando em Nelson Rodrigues: apenas os imorais e neuróticos verão a Deus.
Ele notou a devastação do lugar da família na imaginação moral. Luiz Felipe Pondé para a FSP:
O Nelson Rodrigues deveria ser lido em cada lar, nas escolas, em cada enfermaria de hospital, nos cemitérios, em cada cama de casal, nas igrejas, na porta dos bares, nas confrarias de bêbados, nas escolas de freiras e nas casas das "meninas", ditas filhas da desgraça.
Mas não. Tentam apagá-lo das casas editoriais, chamam-no de reacionário e machista, veem nele um inimigo supremo do progresso moral, quando ele foi, na verdade, o profeta da morte dos gestos. E, ao contrário do que pensam os idiotas da objetividade, a moral é feita de gestos, não de ideias. Não existe moral sem gestos, enquanto ideias confundem a alma. Mesmo a imoralidade é feita de gestos e também é parte da moral. Se não existisse aquela, esta seria inútil e oca. Só os imorais, assim como os neuróticos, verão a Deus.
O patife, a vagabunda, a adúltera são seres morais, enquanto o idiota da objetividade é um sujeito, em termos morais, tão estéril quanto três desertos. Como Nelson mesmo dizia, o profeta é aquele que vê o óbvio. E o ululante. Nosso mundo moral se transformou em três desertos. O bem moral jamais pode ser objeto de promoção como é hoje em dia. No limite, o marketing torna as pessoas estéreis.
A obra do Nelson tem conceitos filosóficos. Em relação a conceitos filosóficos, a atitude dele é o gesto tímido, não a propaganda da posse desta inteligência filosófica. Um pouco como ele dizia a respeito do bem —o bem se envergonha de ser chamado pelo seu nome, esconde-se da plateia, prefere o anonimato. Se alguém o confrontar, morrerá de vergonha. Se puder, mentirá acerca de si mesmo, e esta mentira será o mais profundo ato de misericórdia. Qualquer um que olhar o bem nos olhos, cairá de joelhos, —ou, se não cair de joelhos, é porque já estará no inferno.
Mas a visão aguda da alma moral humana, no Nelson, toca o sublime. Sua crítica à educação sexual nas escolas, principalmente nas escolas "para frente" de freiras paulistas, deve-se à afirmação delas, segundo o Nelson, de que mesmo crianças de cinco anos podem e devem ter aulas de educação sexual. E aí vem o centro da argumentação delas —"não há mistério algum no sexo". Será?
Toda forma de sexo carrega em si algum nível de mistério, mesmo que seja sexo pago às meninas que tornam a vida de alguns homens menos solitárias. Sexo e felicidade não estão necessariamente relacionados. E isso já é, em si, um mistério, uma vez que, em grande parte das vezes, ele nos leva à infelicidade, mesmo que tenha sido por amor.
Nada há de "saúde" no sexo, portanto, não existe sexo saudável. Não é natural como "ter sede e beber água", como outras freiras diziam, segundo Nelson. Alguém pode imaginar mistério maior do que o sexo em meio ao voto do celibato? Quanto mais reprimido, mais poderoso. Dele, potencialmente, sai um outro ser humano.
O luto do sexo, principalmente se foi elemento constitutivo de um relacionamento romântico, nunca repousará.
Para os homens, o lugar do mistério está entre as pernas das mulheres. Quando não há mais interesse nesse mistério, parte do que é ser uma mulher se esvai como um animal que sangra por horas, ainda estando vivo. Agoniza, enquanto grita contra a injustiça do mundo.
Há no Nelson uma compreensão precisa do conceito filosófico de "imaginação moral". Tal conceito foi cunhado a partir de um famoso trecho da obra "Considerações sobre a Revolução na França", do autor britânico Edmund Burke, ao final do século 18, em que ele descreve o que viria a acontecer com os aposentos da rainha Maria Antonieta da França durante a Revolução Francesa.
Esta cena descreve a invasão do povo aos aposentos dela e, consequente, a vandalização de tudo aquilo que ela tinha ali. Roupas, acessórios, maquiagem, sapatos, cama, lençóis, espelhos. Burke, muito precisamente, percebe que uma vez tendo descoberto que a rainha era apenas uma mulher, logo descobririam que uma mulher é apenas um animal.
Aqui está o núcleo do conceito de imaginação moral. A moral não é um conjunto de ideias, mas hábitos, símbolos, cheiros, gostos, costumes, objetos estéticos, narrativas, medos, interdições, —enfim, fruto da imaginação e não da lógica ou do encadeamento de argumentos. Pois bem, o Nelson sabia disso, coisa que pouca gente importante sabe.
Nelson relata o que um jovem —a figura boçal criada pela contracultura, "a grande impostura"— disse certa vez. "O lar nada mais é do que cadeiras, mesas, louças". Nelson percebeu a devastação do lugar da família na imaginação moral. Hoje, essa devastação virou ciência, artefato de uso comum por parte dos inteligentinhos.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com
sábado, 10 de janeiro de 2026
Fiilme O Agente Secreto concorre ao Globo de Ouro
Publicação compartilhada do site BBC NEWS BRASIL, de 10 de janeiro de 2026
O Agente Secreto chega mais forte que Ainda Estou Aqui ao Globo de Ouro?
Por Rute Pina (Da BBC News Brasil em São Paulo)
O filme brasileiro O Agente Secreto concorre ao Globo de Ouro neste domingo (11/1) já tendo mais de 50 prêmios nacionais e internacionais no currículo.
Até agora, o longa-metragem já conquistou 54 troféus em 35 premiações, incluindo Melhor Diretor e Melhor Ator no Festival de Cannes, e chega à premiação americana com uma campanha numericamente mais robusta do que a de Ainda Estou Aqui no ano passado.
Em 4 de janeiro de 2025, véspera do Globo de Ouro, o filme de Walter Salles havia vencido 17 prêmios em 12 festivais e premiações, no Brasil e no exterior.
O desempenho quantitativo ajuda a entender uma parte da força da campanha atual. Ainda Estou Aqui ganhou fôlego após a vitória de Fernanda Torres no Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz - Drama. O filme encerrou a temporada com 70 prêmios em 42 festivais.
Mas, àquela altura, o filme tinha apenas quatro meses de carreira: havia estreado no Festival de Veneza, em setembro de 2024, onde venceu o prêmio de Melhor Roteiro. A partir dali, construiu forte reconhecimento principalmente em festivais ibero-americanos.
Já O Agente Secreto estreou mundialmente em maio de 2025, no Festival de Cannes, e chega ao Globo de Ouro com oito meses de circulação internacional, o que amplia sua presença em festivais, premiações e campanhas de divulgação.
Desde que estreou em Cannes, o filme de Kleber Mendonça Filho vem acumulando reconhecimento de importantes associações de críticos norte-americanos, como o New York Film Critics Circle, a Los Angeles Film Critics Association e o National Board of Review.
As indicações deste ano no Globo de Ouro já são históricas. É a primeira vez que um filme brasileiro concorre em três categorias no Globo de Ouro: Melhor Filme – Drama, Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme – Drama.
Também é a primeira indicação do país na principal categoria da premiação. Em edições anteriores, produções brasileiras haviam sido lembradas apenas na disputa de Melhor Filme em Língua Não Inglesa.
Wagner Moura também se tornou o primeiro brasileiro indicado a Melhor Ator em Filme – Drama.
No ano passado, Ainda Estou Aqui concorreu ao Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, mas perdeu para Emilia Pérez. A vitória de Fernanda Torres, no entanto, impulsionou a campanha internacional do longa, que meses depois conquistaria o inédito Oscar de Melhor Filme Internacional para o Brasil.
Além dos prêmios tradicionais, O Agente Secreto também tem acumulado honrarias e menções divertidas e inusitadas.
Na quinta-feira (8/1), a gata Carminha recebeu o troféu Golden Beast ("Bicho de Ouro", em tradução livre), em reconhecimento às atuações das personagens Liza e Elis. O prêmio foi concedido pelo New York Film Festival, criado em 1963 e dedicado à celebração de filmes de destaque mundial.
Já o jornal americano The New York Times destacou a atuação da atriz Tânia Maria como uma das melhores de 2025, descrevendo-a como provavelmente a "melhor atuação com cigarro" do ano.
Embora as comparações entre os dois filmes brasileiros sejam inevitáveis, Dora Amorim, produtora executiva de O Agente Secreto, ressalta que cada obra percorre um caminho próprio.
"Cada filme tem a sua trajetória, o seu DNA. Mas é impossível não pensar nos dois juntos, porque no ano passado Ainda Estou Aqui fez uma trajetória histórica, e agora estamos vivendo algo semelhante com outro filme", afirmou.
Segundo ela, o fato de O Agente Secreto ser uma produção nordestina, realizada no Recife por uma produtora de pequeno porte, amplia o simbolismo do momento.
"Esse lugar é muito significativo para os técnicos do audiovisual brasileiro e também para os brasileiros, por causa da representatividade cultural", disse.
Amorim destaca ainda o impacto simbólico de ver um filme falado em português disputar espaço em premiações tradicionalmente dominadas por Hollywood.
"A gente cresceu assistindo a esses prêmios pela televisão. Ver um filme brasileiro ocupar esse espaço e as pessoas comentarem a atuação do Wagner é algo incrível para o reconhecimento da nossa cultura e do cinema como indústria."
Forte campanha nos Estados Unidos
A produtora explica que o desempenho internacional do filme também está ligado à estratégia de distribuição nos Estados Unidos. No país, o filme foi lançado pela Neon, distribuidora independente responsável por títulos como Parasita e Anora, vencedores do Oscar.
"O filme estreou em novembro, ao mesmo tempo no Brasil e nos Estados Unidos, e está indo muito bem lá fora. Hoje temos três pessoas da equipe em Los Angeles participando de encontros e sabatinas com membros da Academia", diz.
Para Amorim, as próximas semanas são decisivas para o futuro do filme, principalmente em relação ao Oscar, considerada a principal premiação do cinema.
"Esse é um momento de convencimento. Para votar, as pessoas precisam assistir ao filme. A indicação ao Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama foi algo incrível, que a gente não esperava, porque é a primeira vez que o Brasil chega a essa categoria."
O Agente Secreto também chega com a vantagem de Wagner Moura já ser conhecido internacionalmente. Ele já concorreu ao Globo de Ouro, em 2016, como Melhor Ator em Série – Drama por Narcos. Ele perdeu o prêmio para Jon Hamm, de Mad Men.
Além disso, o ator também tem uma carreira com participação em grandes produções internacionais, como Elysium e Guerra Civil.
Redes sociais, memes e engajamento
No ano passado, Ainda Estou Aqui contou com um "exército de likes", com brasileiros determinados a fazer bombar toda e qualquer postagem nas redes sociais sobre o filme.
Na madrugada de 6 de janeiro, por exemplo, logo após Fernanda Torres vencer o Globo de Ouro de Melhor Atriz – Drama, brasileiros comentaram e curtiram em massa as publicações do perfil da premiação.
Já uma foto de Torres publicada no perfil oficial do Oscar alcançou 1 milhão de curtidas e dezenas de milhares de comentários em menos de 24 horas.
Amorim avalia que, embora a campanha de O Agente Secreto não seja centrada nas redes sociais, o engajamento digital tem desempenhado um papel importante. "É a primeira vez que participo de uma campanha tão estruturada de divulgação também nas redes", afirmou.
Ela citou a repercussão de memes e postagens virais, como uma montagem de Wagner Moura caracterizado como personagem de Wicked, além da fala do ator durante a cerimônia em que apresentou o prêmio de Melhor Filme.
"Quando ele anunciou o vencedor e disse 'melhor filme estrangeiro' para os brasileiros, isso viralizou. Eles distinguem muito bem o que é estrangeiro, e acho que nós estamos começando a fazer essa distinção agora", disse. "Essas coisas surgem espontaneamente e acabam virando munição para a equipe trabalhar."
Já a atriz Tânia Maria, que cativou o público com a personagem Sebastiana, também tem sido objeto de memes e vídeos virais. "Esse burburinho só acontece quando as pessoas assistem. Para a gente, o boca a boca é essencial", afirmou.
Apesar das comparações com Ainda Estou Aqui, Amorim reforçou que se trata de trajetórias paralelas. "São diretores, histórias e pontos de partida muito diferentes. Acho que, no futuro, a lembrança vai ser positiva."
Embora distintos, os dois filmes são de época e dialogam com períodos históricos próximos, ainda que com abordagens diferentes.
O Agente Secreto já ultrapassou dez semanas em cartaz no Brasil e foi visto por mais de 1 milhão de pessoas. Já o filme de Walter Salles levou 6 milhões de pessoas ao cinema. "Que bom que, em dois anos, tivemos uma safra tão forte do cinema brasileiro", diz a produtora.
Texto e imagem reproduzidos do site: www bbc com/portuguese
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
Encontro desmarcado com Fernando Sabino
domingo, 4 de janeiro de 2026
B.B.: a transgressora.
Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 4 de janeiro de 2026
B.B.: a transgressora.
Ainda no auge do seu tempo de ícone de um novo feminismo, já estragara tudo, entregando-se ao vício da dissidência: “Le féminisme ce n’est pas mon truc, moi, j’aime bien les mecs…”. Jaime Nogueira Pinto para o Observador:
Quando Brigitte Bardot irrompeu nos écrans com Et Dieu créa la femme nada ficou como dantes. “Um corpo selvagem, animal e livre irrompe no écran. Subverte e revoluciona os costumes sociais em França e em todo o mundo.” – escrevia o realizador e crítico Jean Douchet, um dos fundadores dos Cahiers du Cinéma –, enquanto um jornal inglês dizia que BB era “o maior choque europeu desde 1789”. Exagero, talvez. Mas o impacto da sensualidade e da reversão de papéis que Brigitte Bardot trazia atirava-a para a ribalta das grandes estrelas.
A estreia do filme de Roger Vadim na América de Eisenhower, do cardeal Spellman, de John Foster Dulles e do Código Hays também não prometia ser pacífica. O Código Hayes era o regulamento censório, prévio ou póstumo, que entre 1930 e 1968 vigorava em Hollywood, ditando inclusões, exclusões e cancelamentos. Em matéria de moral e bons costumes, pesava-se a nudez feminina, cronometrava-se a duração dos beijos e cancelavam-se indícios de “sexual perversity”. No resto, monitorizava-se a correcta definição e distribuição de bons e maus.
Ora, em Et Dieu créa la femme, Bardot oscilava entre a perversa invenção do Diabo para tentar os americanos de bem e a assombrosa criação do Bom Deus. Talvez por isso em Dallas, no Texas, a polícia local – precocemente preocupada com a especial sensibilidade de certas minorias ou num outro assomo racista mais compatível com a época – tenha proibido os afro-americanos de ver a fita, considerada demasiadamente excitante para a natureza (intrinsecamente “vitalista”?) do homem negro.
Não se pode dizer que os brancos (supostamente mais fortes, ou mais fracos) lhe tivessem ficado indiferentes. De resto, veja-se a história: Juliette tem 18 anos, é órfã, e vive em Saint Tropez; os homens que a seguem e perseguem são Eric (Curd Jürgens), Antoine (Christian Marquand) e o seu irmão mais novo, Michel, (Jean-Louis Trintignant). Juliette ama Antoine, assedia Eric, e acaba por casar com Michel, que a ama, mas que não é correspondido. Isto entre cenas, ao tempo, escandalosas e com um final ambíguo.
Marlene Dietrich, a Lola de Der Blaue Engel (1930), de Joseph von Sternberg, ou Ava Gardner, a Southern belle de The Killers (1946), um filme de Robert Siodmak a partir de um conto de Hemingway, eram mulheres fatais; BB, algures entre a femme fatale e a pin-up, era outra coisa, encarnava todo um outro tempo e toda uma outra liberdade.
A má menina de boas famílias
Bardot vinha de uma família católica, abastada, conservadora. Era uma “menina bem”, cujo nascimento, em 28 de Setembro de 1934, saíra na muito pouco inclusiva secção “Vida Social” de Le Figaro. Os avós estavam ligados à Indústria e aos Seguros.
“Fui educada de um modo muito burguês, muito severo. Frequentei um colégio católico. Era vigiada por uma governanta. Nunca saía sozinha. Fui muito bem-comportada até aos 15 anos”.
Brigitte faz estas confidências, mais tarde, a Jean Cau, acrescentando que tinha sido então, precisamente aos 15 anos, que começara a sair da linha: “Bruscamente, tive vontade de me libertar”.
Andou no Conservatório em cursos de dança e começou a aparecer como modelo de fotografia. Em 1950, com 16 anos, foi capa da revista Elle.
Foi aí que a viu Roger Vadim, nascido Roger Vladimir Plemiannikov, filho de um aristocrata fugido da Rússia dos bolcheviques. Dois anos depois, cumpridas as exigências do pai Bardot – que o russo abraçasse o catolicismo e arranjasse emprego – casava-se com ela.
A grande mudança
Quando saiu Et Dieu créa la femme, no Outono de 1956, dois episódios marcaram a França e a Europa: em Budapeste, depois de manifestações estudantis contra o governo comunista de Mathias Rakosi, reprimidas a tiro pela polícia secreta, estalava um levantamento popular; no Egipto, na crise que sucedera à nacionalização por Nasser do Canal do Suez, tropas anglo-francesas ocupavam a zona do Canal para marcharem sobre o Cairo.
Na Hungria revoltada, o comunista moderado Imre Nagy, um ex-primeiro-ministro patriota, era chamado ao poder. Kruschev denunciara Estaline e os seus crimes no 20º Congresso do Partido Comunista e esperava-se que Moscovo, em fase pós-estalinista, se abrisse a um acordo com os insurrectos.
Nada disso aconteceria: os húngaros pagariam cara a revolta; afinal, a brutalidade e o desprezo pelas fronteiras e pelos direitos humanos não eram um “desvio estalinista” ao “humanitarismo marxista-leninista”, mas um atributo fundacional e funcional do modelo comunista. Quanto ao Suez, quando os paraquedistas franceses e ingleses pareciam prontos a tomar o Cairo, Eisenhower condenou a operação: os Estados Unidos queriam o fim dos impérios coloniais do Velho Mundo.
E se a revolta húngara e a sua repressão levaram muitos intelectuais e militantes comunistas europeus à dissidência e Suez marcou o princípio do fim dos impérios europeus, o filme de Vadim e Bardot foi sinal de uma mudança na cultura e nos costumes, ao apresentar como protagonista uma mulher que fazia com os homens o que tradicionalmente os homens faziam com as mulheres É verdade que, na História – de Messalina a Catarina da Rússia – as mulheres poderosas sempre tinham usado o seu poder (e, em suplemento, os seus dotes físicos e agudeza mental) para dominarem o “mundo dos homens”; mas BB fazia-o agora despreocupadamente, frivolamente, frente às câmaras.
Em 1959 protagonizava La femme et le Pantin, com o nosso António Vilar, e em 1960 aterrava em Lisboa para promover o filme entre “um dilúvio de chuva e de admiradores”. Vieram, entretanto, os filmes mais sérios da Nouvelle Vague, como La Verité e Le Mépris, a partir dum romance de Alberto Moravia.
Mais tarde, em 1967, estoirava o escândalo do sussurrado Je t’aime, moi non plus, com Serge Gainsbourg.
Houve ainda comédias épicas, como Viva Maria, com Jeanne Moreau e George Hamilton, e, em 1973, Les Pétroleuses, também com a Moreau.
Antes de fazer 40 anos, BB retira-se do cinema e volta-se para novos amores, lançando uma campanha contra os maus-tratos e a matança das focas bebés, prelúdio do seu grande empenho na defesa dos animais.
Paralelamente à vida artística, fica uma vida privada agitada, com quatro casamentos e muitas aventuras, levando Raymond Cartier a escrever no Paris Match com uma severidade moral inusitada: “Brigitte Bardot é imoral da cabeça aos pés”
Divorciada de Vadim em 1957, casa com Jacques Charrier, em Junho de 1959. Depois, em 1966, desposa o milionário alemão Gunter Sachs, separando-se três anos depois. Só voltará a casar em 1992, com Bernard d‘Ormale. Entretanto, foi tendo casos, muitos casos, com homens mais ou menos conhecidos.
Porém, as indulgências progressistas que toda esta transgressão de linhas vermelhas da moral convencional, do papel tradicional da mulher e do tratamento dado aos animais lhe deveria garantir ficariam em quase nada perante a sua imperdoável transgressão de outras linhas vermelhas. É que, aparentemente, a nova moralidade não se mostra particularmente compassiva com a liberdade desregrada, ou com os prevaricadores da sua intocável cartilha.
Entre “Le P.A.N.” e Le Pen
Assim, na Comédia da grande comunicação, parece não haver nada, nem mesmo o voto de pesar do P.A.N. pela morte de uma grande defensora dos animais, que possa redimir BB do inferno a que a condenaram as suas simpatias pela direita radical. O Le Monde lembra os seus “Trente ans de simpathie pour l’extrême droite” e o The Guardian denuncia, como pecado capital, o que Brigitte escreveu no seu livro Mon BBcédaire, publicado pouco antes de morrer: que o Rassemblement National era o “único remédio para a agonia da França”, um país que, por causa das políticas no poder e da imigração descontrolada, estava a ficar “chato, triste, submisso, doente, arruinado, devastado, ordinário e vulgar”.
Se a sua liberdade não tivesse teimado em ensombrar um percurso libertário que tinha tudo para ser imaculado, Brigitte Bardot podia agora ascender calmamente ao céu laico do progressismo de referência. Mas não. O desviacionismo era nela uma coisa endémica. Tanto que, ainda antes de incorrer no pecado capital de pensar abertamente à direita, ainda no auge do seu tempo de ícone de um novo feminismo, já estragara tudo, entregando-se ao vício da dissidência:
“Le féminisme ce n’est pas mon truc, moi, j’aime bien les mecs…”.
Enfim, fica a fé na consoladora distância entre a Justiça Divina e os nossos pensamentos e julgamentos carnais.
Que o supremo Criador de toda a beleza, de toda a alegria e de toda a liberdade a receba na sua infinita Misericórdia.
Texto reproduzido do blog: otambosi blogspot com
terça-feira, 23 de dezembro de 2025
Jesus não é só um objeto de fé, ...também ...campo acadêmico de estudos
Jesus não é só um objeto de fé, mas também um campo acadêmico de estudos.
Aquele mais tarde chamado de "O Cristo" —o ungido—, ao contrário do que muita gente pensou e pensa por aí, era um judeu "liberal" que nunca pensou em inventar nenhuma religião nova. Luiz Felipe Pondé para a FSP:
Jesus existiu? Essa pergunta, hoje, não é só ultrapassada, ela é cafona. Até o século 19, existiam autores que tentaram pôr em dúvida a existência histórica de Jesus Cristo, mas, hoje, ninguém sério mais faz isso.
Claro que uma coisa é você saber que houve um judeu chamado Jesus no período do segundo templo de Jerusalém, no qual a Israel antiga estava sob o domínio romano. Outra é você crer que ele ressuscitou. Este relato já não faz parte do conjunto de evidências que sustentam a existência histórica de Jesus de Nazaré.
Por outro lado, narrativas como aquela em que o discípulo cético Tomé pede a Jesus que mostre a ele suas chagas para que ele as toque, a fim de provar que Jesus havia voltado da morte com seu próprio corpo, é orgânica com o conjunto de crenças judaicas da época.
Para os judeus, vencer a morte era voltar dela com o corpo —e não apenas vagar por aí como uma alma penada. Espíritos de mortos vagando no mundo tinham em toda esquina. Quem criou essa narrativa conhecia esse conjunto de crenças da época.
A fortuna crítica sobre Jesus é vastíssima e de alto nível. Para quem estuda religiões, é sabido que o substantivo "religião" tem vários sentidos. Por exemplo, religião é uma coisa para uma senhorinha católica que reza o terço e vai à missa. É outra coisa para o rabino estudioso e responsável pela vida espiritual de uma comunidade judaica. E ainda outra para um estudioso do fenômeno histórico que costumamos chamar de religião para facilitar o entendimento entre nós.
Em português, temos alguns volumes excelentes sobre o personagem histórico e o seu contexto social, político e espiritual.
O livro "Jesus Fora do Novo Testamento: Uma Introdução às Evidências Primitivas" de Robert R. Van Voorst, da editora Biblioteca Teológica, é rico no tratamento do personagem histórico Jesus a partir de fontes clássicas, judaicas, canônicas e pós-canônicas.
O livro "Jesus", do historiador israelense David Flusser, pela editora Perspectiva, é indispensável. Entre outras características, um dos eixos argumentativos centrais é a constatação de que o que está descrito nos evangelhos sinóticos —Marcos, Mateus e Lucas— é historicamente consistente com a época, seja em suas estruturas de poder dentro da sociedade israelita de então, seja no tocante ao ensino de um judeu típico da sua época, como era Jesus.
Aquele mais tarde chamado de "O Cristo" —o ungido—, ao contrário do que muita gente pensou e pensa por aí, era um judeu "liberal" que nunca pensou em inventar nenhuma religião nova.
Vale lembrar que, naquele tempo, o judaísmo era uma religião como qualquer outra. Isto é, qualquer um poderia se tornar judeu sem toda a questão da linhagem matrilinear tão conhecida atualmente. A rigor, a ideia de partida era trazer novos convertidos para o messias judeu recém-chegado.
Outro fator importante é que o termo "o Cristo", ou "o ungido", era uma categoria política. Por isso, os romanos olhavam com desconfiança —ungido era o rei de Israel, visto naquele momento como um possível inimigo do imperador. Não foi à toa que colocaram na cruz, em forma de deboche, que Jesus era o rei dos judeus.
Outro título, esse escrito por especialistas do Brasil na área, é o volume "Jesus de Nazaré: Uma Outra História", da editora Anna Blume, com apoio da Fapesp, organizado por André Leonardo Chevitarese, Gabrielle Cornelli e Mônica Selvatici. Distante de qualquer tratamento teológico ou movido pela fé, a coletânea traz um olhar "outro", ou mesmo "estranho", para o personagem histórico antigo, o "homem divino da Galileia".
Um volume essencial que temos traduzido no Brasil é "O Jesus Histórico: Um Manual", organizado por Gerd Theissen e Annette Merz, pela editora Loyola. Este volume enfrenta todos os campos de estudos acadêmicos sobre a figura histórica de Jesus: as fontes cristãs e não cristãs, a avaliação dessas fontes, o contexto da época, as relações políticas, as diversas figuras do Cristo, o messias judeu para alguns, herege para outros, o curador de doenças e milagreiro, o profeta, o líder político, o rebelde, o mestre de sabedoria, o Jesus histórico como fonte da cristologia nos primórdios do cristianismo.
Há estudos também da igreja primitiva em tradução no Brasil, como os três volumes magistrais de James D. G. Dunn, "O Cristianismo em seus Começos", pela editora Paulus.
Enfim, Jesus não é só um objeto de fé, ele é um campo acadêmico de estudos de peso, que exige uma vasta erudição e muito folego. Um campo atravessado por polêmicas ricas, estimulantes e intermináveis.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com
sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
Doença da fama: “encolhimento” de Ariana Grande, morte de Rob Reiner
Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 18 de dezembro de 2025
Doença da fama: “encolhimento” de Ariana Grande, morte de Rob Reiner.
A interminável lista de celebridades com graves problemas ou levadas pela droga agora tem um duplo homicídio chocante e as vítimas do "efeito Ozempic”. Vilma Gryzinski:
Marilyn Monroe e Kurt Cobain se suicidaram; John Lennon e Selena foram assassinados; James Dean morreu num acidente de carro com apenas 24 anos; a droga levou Janis Joplin, Jim Morrison, Jimi Hendrix e River Phoenix, e o álcool envenenou Amy Winehouse aos 27 anos. É impossível não pensar nessa lista vendo dois casos chocantes do momento: a quantidade de mulheres famosas que simplesmente “desaparecem”, como a cada vez mais frágil Ariana Grande, e o duplo assassinato do ator e diretor Rob Reiner e sua mulher, Michelle Singer, degolados pelo próprio filho
Mesmo pelos padrões de Hollywood, o violento homicídio é um fato estarrecedor, ao qual nem sequer se aplica o clichê da frase “daria um filme”. Nem nas piores produções de terror o tabu profundamente arraigado do matricídio e do patricídio é quebrado.
Mas, como nos filmes, a impressão de que alguma coisa ia muito mal foi testemunhada por figuras conhecidas do show business, convidadas para uma festa de fim de ano pelo humorista e ex-apresentador de um conhecido programa de entrevistas, Conan O’Brien.
A festa foi no sábado e Nick Reiner, que não estava na lista, mas acabou sendo incluído a pedido do pai, preocupado em deixá-lo sozinho em meio a surtos de fúria. Circulou entre os convidados, incomodando muita gente, incluindo a atriz Jane Fonda, com três perguntas inconvenientes: “Qual é seu nome? Qual é seu sobrenome? Você é famoso?”.
O dono da casa, que ironicamente estava dando a festa para deixar para trás um ano ruim, incluindo o grande incêndio de Los Angeles que o obrigou a ser evacuado de casa, tal como outros nomes do mundo do show business, acabou pedindo que se retirasse. Pai e filho brigaram feio.
SEQUESTRADO ENTRE HIPPIES
Em lugar de mais um episódio em que o filho, drogado a ponto de ter ido morar na rua a certa altura de seus 32 anos, constrangia os pais, o caso terminou no esfaqueamento de Rob e Michelle, alvos de múltiplos golpes e de degolamento. Antes de morrer, a mãe apontou Nick como o culpado. Em lugar de irem jantar com Barack e Michelle Obama no domingo, como estava combinado, o casal assassinado foi para o necrotério.
O caso, obviamente, tem aspectos específicos, mas se enquadra na categoria geral da “maldição da fama”, uma espécie de síndrome de distúrbios emocionais que afeta não apenas celebridades, mas também seus filhos, colocados na posição de cavar um lugar à sombra dos pais famosos e conviver eternamente com a ideia de que são “nepobabies”, uma expressão nova para um fato antigo, o favorecimento aos descendentes de figuras de destaque.
Um dos casos mais famosos aconteceu quando um dos filhos de Marlon Brando, Christian, matou o namorado da irmã por parte de pai, Cheyenne. Christian até tentou ser ator, mas como encarar a profissão quando se é filho de Marlon Brando? E ainda por cima com uma infância infernal, em que o pai e a mãe divorciados se enfrentaram numa das piores disputas por guarda de menor da história do cinema (a mãe sequestrou o menino e tentou escondê-lo com um grupo de hippies da Califórnia, mas um detetive contratado por Marlon Brando o encontrou).
Depois de um casamento que durou duas semanas com Deborah Presley, suposta filha natural de Elvis Presley, Christian Brando acabou morrendo de pneumonia aos 49 anos.
TEMPORADA CANCELADA
São histórias que parecem tornar irrelevante o caso de Ariana Grande, cuja magreza evoca uma reação unânime: está sofrendo de algum distúrbio alimentar. Ariana é naturalmente esguia, com ossatura delicada e tipo frágil como uma bonequinha de porcelana, mas a magreza atual não tem nada de natural.
Ela também está no centro de ondas de boatos, inclusive sobre um relacionamento com Cynthia Erivo, alimentado pela linguagem corporal durante a temporada de divulgação de Wicked: Parte 2. Quando Cynthia pulou como uma feroz pantera negra sobre o fã idiota que havia agarrado Ariana, a reação rápida e a atitude protetora aumentaram ainda mais a boataria. A temporada de divulgação acabou cancelada.
É errado fazer diagnósticos à distância, sobre pessoas cuja ficha médica não é conhecida, mas são de domínio público os efeitos da pressão pelo emagrecimento das mulheres do mundo do show business, inclusive as que começaram a carreira precocemente, ainda crianças ou adolescentes, como Ariana, com sua garganta angelical, capaz de atingir o registro vocal mais agudo da voz humana.
Distúrbios alimentares são uma doença mental e devem ser tratados com extrema seriedade, inclusive porque têm um componente social muito forte e hoje são incentivados pelos casos espantosos de mulheres famosas que perdem dezenas de quilos e desfilam seus novos corpos com orgulho. Inclusive quando não parecem nada saudáveis, como Kelly Osborne, apresentadora de programas de televisão e filha do metaleiro Ozzy Osborne, morto em julho passado.
Kelly exibe o corpo típico do emagrecimento não saudável: cabeça desproporcional ao corpo, ossos que parecem furar a pele dos ombros e peito encovado. Ela emagreceu 38 quilos com cirurgia de redução do estômago e outros tratamentos, incluindo medicação. A mãe dela, Sharon Osborne, praticamente virou outra pessoa com o Ozempic.
Outra transformação impressionante é da comediante Amy Schumer, com um histórico de luta de uma vida inteira contra a balança. Ela apagou das redes sociais todas as “fotos de gorda”. É como se um pedaço de sua vida desaparecesse. Com o emagrecimento, anunciou também o fim do casamento.
Os remédios para emagrecer que explodiram no mundo são um espetacular avanço no combate à diabetes e aos males do excesso de peso, mas é óbvio que podem induzir a um culto nada saudável à magreza excessiva, sem nenhuma relação com as pessoas que são naturalmente magras.
Em 1983, a cantora Karen Carpenter morreu aos 32 anos. Pesava 35 quilos. A integrante do grupo The Carpenters foi um dos primeiros casos de ampla divulgação de anorexia, até então um distúrbio pouco conhecido.
FORÇAS INCONTROLÁVEIS
Distúrbios alimentares são diferentes de quem tem “mania de regime” e agora se vê com um medicamento que parece milagroso, incomparável com tudo o que existiu antes para cortar os quilos a mais que praticamente todas as mulheres enxergam nos próprios corpos. É bom e saudável se cuidar, é doentio se tornar obcecado com isso. Difícil é estabelecer as fronteiras.
As pressões sociais pelo emagrecimento são forças praticamente incontroláveis, só contrabalançadas por uma vida interior sólida e uma autoimagem capaz de se sustentar em pé sem o julgamento dos outros.
Imaginem como essas forças se concentram em quem vive na frente das câmeras e tem cada punhado de gramas extras controlado tanto por críticos quanto por fãs. Até mulheres lindas e naturalmente magras que entraram para a realeza desencadeiam suspeitas de anorexia, como Kate, a princesa de Gales, e Letizia, a rainha consorte da Espanha.
A “doença da fama” se manifesta em regimes brutais para emagrecer, uso descontrolado de drogas, comportamentos autodestrutivos. Num caso extremo, sem antecedentes, contribui para os distúrbios mentais graves que levaram um filho a assassinar a mãe e o pai. Nem em Hollywood parece possível.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com








