quinta-feira, 19 de julho de 2018

Sonia Braga em visão panorâmica

Sonia Braga nas ruas do Chelsea, em Nova York, em ensaio exclusivo 
para CULTURA!Brasileiros. (Foto: Alcir N. da Silva)

Publicado originalmente no site Página B, em 16 de maio de 2018

Sonia Braga em visão panorâmica

Depois de 20 anos sem trabalhar no cinema brasileiro, a atriz volta ao cartaz com uma atuação sublime em "Aquarius", segundo longa-metragem de Kleber Mendonça Filho. Do “topo da montanha” de sua trajetória vitoriosa, Sonia diz enxergar com clareza a própria vida e os expedientes que levaram o Brasil ao que considera uma afronta à democracia

Por Marcelo Pinheiro

Sonia Braga vive momento feliz. Aos 66 anos, duas décadas depois de participar das filmagens de Tieta do Agreste, de Cacá Diegues, a atriz voltou a atuar no País em 2015. Protagonista de Aquarius, novo longa-metragem de Kleber Mendonça Filho, que estreou nos cinemas de todo País na última quinta-feira (1), ela diz que, ao constatar a dimensão heroica e altiva da personagem Clara, foi arrebatada pelo roteiro original do diretor pernambucano. Viúva, jornalista aposentada e escritora, Clara reside no edifício que dá nome ao filme, um charmoso prédio de três andares construído na década de 1940 na orla da praia de Boa Viagem, um dos metros quadrados mais caros do Recife.

Culta e serena, Clara vive sozinha no apartamento, onde desfruta de sua enorme paixão pela música. Da porta da sua sala para fora, no entanto, o Edifício Aquarius é um campo de batalha. Aguerrida, ela permanece isolada no prédio, depois de todos os vizinhos terem vendido seus imóveis para a construtora Bonfim, que pretende erguer ali um arranha-céu e faturar milhões. A luta contra a especulação imobiliária é, para Clara, um embate de preservação do espaço físico e de sua própria memória afetiva.

De Nova York, em longa entrevista à CULTURA!Brasileiros iniciada por Skype e, depois, por telefone, Sonia revela que recentemente enfrentou um imbróglio jurídico, semelhante ao de Clara, com a Rede Globo. O processo foi motivado pela reprise do folhetim Dancin’ Days. Depois de um ano lutando para ser remunerada pelos direitos sobre o uso diário de sua imagem como Julia, protagonista na novela de 1978, a atriz foi derrotada na Justiça. Ironicamente, ela presidiu a comissão de profissionais do meio que, em 1979, lutou para que fosse aprovada uma lei de proteção aos direitos de artistas do audiovisual.

Embora feliz, Sonia vive também momento de apreensão.  Amplificando o protesto feito no Festival de Cannes com a equipe de Aquarius, ela também demonstra indignação com o governo interino de Michel Temer (tornado efetivo dias depois, com o impeachment de Dilma Rousseff), para Sonia, “um golpe administrativo” que afronta a Constituição de 1988.

Na conversa a seguir, um recorte de quase três horas de prazeroso e bem-humorado bate-papo, a atriz também fala dos motivos que, desde o sucesso mundial de O Beijo da Mulher Aranha (1985), de Hector Babenco, fizeram com que ela trabalhasse cada vez menos no Brasil. Sonia também se diverte ao descobrir duas coincidências entre ela e dois colaboradores desta redação. Em 1983, quando filmava a versão cinematográfica de Bruno Barreto para Gabriela, Cravo e Canela, em Paraty (RJ, ela foi fotografada, em diversas situações, por Hélio Campos Mello, diretor de redação de Brasileiros (“diga a ele que quero cópias dessas fotos, caso contrário não autorizo publicar a entrevista”, brinca). Em 2011, este repórter esteve em Niterói e passou quatro dias na casa da atriz. O motivo? Nas páginas a seguir…

CULTURA!Brasileiros – Por que Aquarius convenceu você a voltar a filmar no Brasil, 20 anos depois de ter feito Tieta do Agreste?

Sonia Braga – Quando li o roteiro de Aquarius, havia nele tamanha força que não restaram questões em relação à personagem e ao filme. O convite de Kleber era irrecusável. Tive uma reação que jamais tive com qualquer outro roteiro que li. Compreendi as palavras de Clara e as situações que ela enfrentava, como se aquela mulher fosse eu.

Que características levaram à constatação de que você e Clara são parecidas?

Tive de criar uma imagem para poder explicar essa semelhança. Primeiro, porque ela e eu tivemos trajetórias muito diferentes, mas a idade que temos, emocionalmente e como cidadãs, nos levou a um mesmo lugar. Foi então que cheguei à seguinte imagem: somos mulheres que escalaram dois pontos diferentes de uma mesma montanha, mas que chegaram à mesma conclusão. Estamos no topo da montanha, temos agora uma visão mais ampla de nossas vidas e enxergamos muito mais longe. Essa imagem dá a dimensão do significado de Clara para mim. Deixei de fazer filmes no Brasil, mesmo amando meu País, porque não estava feliz com minha vida profissional por aí. Há uma questão muito grave, e mesmo distante sei disso, que é a situação dos nossos artistas.

Neste momento, a comunicação via Skype fica insustentável. Depois de muitas falhas nas transmissões de vídeo e áudio, Sonia decide telefonar para a redação de Brasileiros.

Alô, Sonia, está me ouvindo?

Agora sim. Sorte nossa que não somos astronautas…

Sim. Estaríamos orbitando dispersos um do outro… Você se lembra do que estávamos falando?
Claro que lembro. A pessoa que mente é que tem problemas de lembrar do que diz. Quem fala a verdade nunca se encrenca com a memória.

Você falava dos motivos que justificam o hiato de 20 anos sem trabalhar em cinema no País…
A verdade é que nunca quis me afastar do Brasil, mas não é fácil passar por duas gerações de cineastas que, simplesmente, ignoram quem eu sou. Enquanto isso, os convites para trabalhar fora só aumentavam, ao mesmo tempo que a televisão brasileira começou a ser um meio cada vez mais difícil para mim, algo irônico, porque ela foi muito importante para minha carreira.

Telenovelas demandam meses de gravação. Isso influenciou sua decisão de parar de fazê-las aqui?
Nunca tive problema com relação a isso. Passei a ter problemas com a TV brasileira a partir do momento em que percebi que, apesar de nós, artistas, termos uma lei que, bem ou mal, nos protege, há no País uma grande dificuldade de as pessoas entenderem que ser ator é também uma profissão. Dias atrás, escrevi em minha página pessoal do Facebook o absurdo que é alguém como Joana Fomm ter de se expor na internet para desabafar que está procurando emprego.  As pessoas deviam sentir constrangimento de saber que uma atriz como ela tem de passar por isso – felizmente, ela já recebeu convites. Então, a ideia de trabalhar no Brasil ficou bem complicada, porque sempre respeitei o ofício de ator, uma profissão que, como todas as outras, tem de ser tratada com dignidade. Mas veja, por exemplo, o que aconteceu quando a Rede Globo decidiu reprisar Dancin’ Days: mesmo com picos de audiência e retorno publicitário, ninguém veio tratar do direito de uso da minha imagem – e fui protagonista da novela! Foi então que decidi mover uma ação contra a Globo e o Canal  Viva, e saí em busca da palavra de um juiz para saber se é isso mesmo, se não tenho direitos conquistados. Quando acessei o Supremo Tribunal Federal o que ouvi foi: “Sonia, seus direitos são válidos. Existe uma lei que os assegura”. Mas quando fui ao Ministério do Trabalho, ouvi, pasma, algo como: “Sim, a lei existe, mas, infelizmente, não é executada”. Isso me deixa muito constrangida. Comecei a pensar na minha própria vida e, muito abalada, percebi novamente que meu problema com o Brasil é profissional e não pessoal. Só eu sei o quanto amo meu País.

Esse processo judicial durou quanto tempo?

Pouco mais de um ano…

Ou seja, um embate exaustivo, parecido com a batalha enfrentada por Clara em Aquarius…
Exatamente. Veio daí minha clareza sobre a dimensão da personagem e essa imagem: eu e ela estamos no topo da montanha. Dediquei anos e anos de minha vida ao Brasil. Por ser uma artista que representa o País, fui recebida na Casa Branca. Em 2011, quando o presidente Bill Clinton estava prestes a ir ao Brasil, ele fez questão de conversar comigo. Minha função naquele jantar era, como atriz, representar o Brasil. O fato de o próprio País não me reconhecer dessa forma é uma coisa bem estranha. Veja só o que aconteceu. Tudo parecia esgotado, mas o roteiro de Aquarius caiu nas minhas mãos e foi  emocionante descobrir cada cena do filme e ler cada palavra de Clara. Para mim, Aquarius é como uma plataforma de resistência. Tanto que, graças a ele, fizemos o que fizemos nas escadarias do Festival de Cannes.

Aliás, parte da imprensa daqui disse que você foi cooptada a participar do protesto…

Para quem me conhece, essa argumentação não faz o menor sentido. Na minha vida, sempre fiz e faço somente as coisas que quero. Desde namorar alguém que eu sei que vai estragar alguns dos meus dias, até participar de atos políticos. Ninguém nunca me convenceu a fazer nada. Quem me conhece nem tenta.

Quando o protesto começou, você subia a escadaria. E essa imagem foi usada para afirmar que você foi convencida a participar do ato…

É bom falarmos sobre isso, porque vou explicar direitinho o que aconteceu. Enquanto eles imprimiam os cartazes no escritório, eu estava me maquiando, me preparando para a cerimônia. Eles vieram perguntar se eu iria participar do protesto. Disse que sim, mas que eu não precisava de um cartaz, porque iria sem bolsa e não teria onde levar. Um pouco antes de a gente pisar na escadaria, perguntei para o Kleber quando tudo ia começar. Ele disse que era preciso esperar o melhor momento. Não vi quando eles abriram os cartazes, porque estava de costas, posando para os fotógrafos, e aquele homem, da organização do festival, ao ver que eu estava de salto alto, decidiu me ajudar a subir a escadaria. Percebi que o protesto havia começado e pedi  que ele, imediatamente, me levasse de volta.

E veja a narrativa que foi feita disso…

Um absurdo! Sabe o que penso sobre as pessoas que acreditam em manipulações como essa? Número um, elas não me conhecem; número dois, tenho pena delas; número três, elas têm de entender que, não só no Brasil, mas no mundo todo, vivemos um momento histórico perigoso. Minha posição sobre o que está acontecendo é afirmar que, mesmo não sendo um golpe como o de 1964, estamos diante de um golpe de estado administrativo. Não podemos aceitar um precedente desse. Quem não enxerga isso, que tente enxergar. Do topo da minha montanha, enxergo muito bem.

Sua vivência no País, nos anos 1970 e 80, influenciou a forma como você interpreta essa situação?

Não tenho dúvida. Tudo que sofremos para chegar onde chegamos faz com que eu entenda perfeitamente o que acontece agora. Tenho 66 anos, não sou ativista, não sou militante, mas sei da importância das minhas convicções e dos meus atos. Em Niterói, fui dia após dia à Secretaria do Meio Ambiente até conseguir a retirada de um lixão instalado em lugar indevido. Nunca estive nos holofotes da militância, não acordo militante, mas cidadã. Ninguém se lembra que presidi a comissão que foi ao Supremo Tribunal Federal lutar pela lei que defende os direitos de atores e atrizes. Recentemente, com muito esforço, consegui, por meio do arquivo digital de uma edição da Veja, de 1979, encontrar uma foto de minha luta contra Jece Valadão, que se opunha à criação da lei, por que era produtor e, claro, defendia o seu lado. Lamento não ter encontrado fotos da visita que eu, Betty Faria, Nelson Pereira dos Santos e Reginaldo Farias fizemos ao presidente Figueiredo. Fomos deixar bem claro para ele a importância de aquele artigo ser sancionado. Coisas como essa ninguém sabe, entende? E não estou aqui dizendo: “Ah, eu fiz isso, eu fiz aquilo”.

Você sempre agiu assim?

Desde sempre. Sei dos meus direitos e sempre irei defendê-los. Algo que me assusta e que faz parte da história do Brasil é que não temos um sistema judiciário que funcione. Sem ele o País não caminha. Quem coordena e faz a Justiça no Brasil não assegura ao cidadão que as leis sejam cumpridas. Esse é um quadro complicado de explicar, mas que me parece óbvio: em qualquer país que tem um poder judiciário que não garante os direitos de seus cidadãos, como acontece no Brasil, é previsível que tudo saia do controle.

Voltando ao protesto do Festival de Cannes, como foi a reação das pessoas com a sua participação?

Um horror! Voltei de Cannes e passei cinco dias consecutivos sentada diante do computador por dez, 11 horas, até conseguir limpar todos os ataques que recebi na minha página do Facebook. Claro, demorei tanto porque fiz questão de ir, de página em página, saber quem eram essas pessoas.

E quem eram elas, Sonia?

Gente infeliz, que me faz perceber o quanto o País vive um retrocesso horrível. Não lembro agora quem disse isso, mas, nesta semana, acompanhei quase todos os discursos das convenções do Partido Democrata, e lembro que, ao dizer que esse retrocesso é um fenômeno mundial, alguém questionou: “Até quando eles querem ir? Até derrubar os direitos civis? Até antes de as mulheres poderem votar?”. O mesmo vale para o Brasil. Até onde vamos retroceder? Até a volta da escravidão?! Vamos mesmo considerar normal um golpe que ofende e fere a Constituição brasileira?

Vivendo fora do País há mais de 20 anos, a evolução desse processo era perceptível para você?

Sempre procurei me informar sobre o que ocorre no Brasil. Quero deixar claro que a Rede Globo não é a única responsável por tudo que está acontecendo, mas, em um País com mais de 200 milhões de habitantes, o fato de uma emissora de TV ter mais de 70% de audiência é muito perigoso. Isso jamais deveria acontecer em uma nação onde as condições de trabalho são tão injustas que não permitem sequer que as pessoas criem diálogo com seus companheiros para que possam defender seus interesses.

O que acha da nova gestão do Ministério da Cultura?

Simplesmente que ela não tem credibilidade. Aliás, você viu o que eu falei para o ministro interino? Dias depois de ele assumir o MinC – com a pasta ressuscitada, graças à pressão dos artistas –, a imprensa perguntou o que ele achava sobre o protesto que fizemos. Ele teve o disparate de chamar o ato de “criancice”. Veja o nível do debate. Soube disso quando estava na rua. Voltei imediatamente para minha casa e escrevi um texto aberto, em meu Facebook, que começava assim: “Ministro Marcelo, você tem 33 anos de idade. Só de profissão e contribuição para a cultura do País, tenho mais de 50 anos. Desculpe dizer isso, mas é que acho que você não deve saber quem eu sou”. Se ele estivesse verdadeiramente preparado para ser um ministro da Cultura, teria defendido e não atacado todos nós de forma tão cínica.

Você diria o mesmo para quem pediu boicote ao filme?

O que disse ao ministro vale para eles da mesma forma. Não consigo entender de onde surgem pessoas tão desinformadas e raivosas. Não compreendo de onde vem tanto ódio. Como é que alguém que age assim pode dizer que é brasileiro? A bandeira do Brasil virou um símbolo para essa gente, mas não entendo como eles podem dizer que amam nosso País ao mesmo tempo que pedem o boicote de um filme que representou o Brasil, com grande sucesso, no Festival de Cannes, um dos mais respeitados do mundo. Que atitude esquizofrênica é essa?!

Kleber contou que Aquarius já foi vendido para mais de 60 países. Você acha que, no Brasil, existe um ambiente de alienação que transforma em algo coerente o pedido de boicote a um filme de tamanho interesse mundial?

Acho que sim. Essas pessoas não fazem a menor ideia de quantas críticas incríveis foram publicadas sobre o filme ao redor do mundo. Isso é o Brasil sendo visto aqui fora com grandiosidade. Isso é o mundo descobrindo que o Brasil também faz cinema lindo, que nossos filmes emocionam o mundo. Isso é saber que o Brasil tem um diretor tão talentoso, que, sobre ele, a imprensa mundial afirma: “Aguardamos com grande expectativa Aquarius, o novo filme de Kleber Mendonça Filho”. Uma pessoa como ele não ser reconhecida em seu próprio País, por total ignorância das pessoas, é um absurdo. Quando Kleber e a equipe voltaram do Festival de Cannes – sobretudo depois de ele também ter feito uma carreira brilhante com O Som ao Redor –, eles tinham de ser recebidos pela imprensa local, no desembarque do aeroporto, como se fossem um time de futebol que é recebido com festa. Defendo Kleber incondicionalmente. Amo o que ele faz, da mesma forma que amo meu País.

Com o sucesso internacional de Aquarius, não acha um desperdício você ter deixado de fazer filmes por aqui? O cinema brasileiro não perdeu com isso?

Concordo, e espero que isso mude, porque sou uma mulher de cinema, uma atriz que pertence ao audiovisual, minha essência é essa. Quando fazia telenovelas, gostava de pensar que a TV era a melhor maneira de levar meu trabalho às pessoas que não podiam pagar para ir ao cinema. Ficava muito feliz por saber que milhões de famílias estavam reunidas vendo Gabriela ou Dancin’ Days. E foi essa consciência que me deu a alegria de ser quem eu sou. Não sei se você sabe, mas deixei a escola quando tinha 14 anos de idade. Não tenho formação acadêmica alguma, nem mesmo de atuação, da mesma forma que nunca participei de grupos politicamente organizados. É por isso que insisto: as ideias que tenho são verdadeiras, elas vêm de mim. Em 1988, fiz um filme com Robert Redford (Rebelião em Milagro, dirigido pelo ator) e viemos, de Hollywood, lançar o longa no Brasil. Os jornalistas telefonavam para a casa da minha irmã e perguntavam: “Maria, onde podemos encontrar a Sonia? Em que festas ela e Robert estão indo?!”. Maria dizia: “Gente, a Sonia está na minha casa. Agora mesmo está dormindo no quarto de minha filha, Daniela”. Os jornalistas respondiam: “Ah, Maria, deixe de brincadeira e diga logo a verdade…”. Ela dizia: “Acreditem ou não, é essa a verdade”.

Sonia, você falou de Maria, e devo dizer que, em 2011, fiz, para Brasileiros, uma reportagem com Jards Macalé, que durou cinco dias, porque acompanhei as filmagens que seriam exibidas em um show dele no Teatro Oficina, em São Paulo. Como Maria é produtora do Jards, a conheci nessa ocasião. A convite dela, fiquei quatro dias na sua casa em Niterói…

Mas que bela coincidência! Não te falei que quem mente não consegue lembrar como quem fala a verdade? Pois essa sou eu, essa é minha família. Maria e Carlinhos (cunhado de Sonia) são gente como eu. Como você pôde ver, minha casa é grudada na deles. Adoro ir a Niterói (a atriz nasceu em Maringá, no Paraná). Quando estou lá, tem dias que acordo, pego uma caneca de café, saio na rua, encontro as pessoas e fico de bate-papo: “Oi, Fátima, tudo bem?! Como está sua mãe?”. Fátima é manicure, nossa vizinha. Gosto de gente assim.

Enquanto isso, a imprensa estava atrás de você e de Robert Redford no Copacabana Palace?
Exatamente. No Copa e na porta de outros hotéis. Veja só o que aconteceu:  Carlinhos é paisagista. Ele me levou para conhecer uma palmeira que só dá flores de 60 em 60 anos. Depois, fomos a um parque lindo, em frente ao aeroporto Santos Dumont, criado pelo Burle Marx. O lugar estava uma coisa horrível, caindo aos pedaços…

E vocês decidiram cuidar do parque?

Sempre digo que meu departamento é o sanitário (risos). E vendo o estado deplorável do parque, perguntei: “Carlinhos, você sabe se o ato de varrer uma rua ou uma praça pode fazer com que alguém seja preso”?. Ele respondeu: “Acho que não. Isso não faz o menor sentido, Sonia”. Então propus: “Vamos limpar esse parque?!”. Ele topou na hora, marcamos tudo para o dia seguinte. Saímos para comprar vassouras, luvas, chamamos amigos para ajudar e convidamos um grupo de músicos para tocar chorinho enquanto a gente trabalhava. Tive também a ideia de dizer: “Maria, a imprensa não quer saber onde estou? Avise a eles que a gente estará lá amanhã, varrendo o parque”. Ela achou a ideia boa, telefonou para algumas redações, mas as pessoas derrubavam a ligação, não acreditavam na história.

Ninguém teve a capacidade de checar se era mesmo trote?

Ninguém deu a menor bola para ela. Foi preciso que eu telefonasse para eles e dissesse algo como: “Alô, aqui é Sonia Braga. Por favor, acredite e não desligue o telefone. Amanhã, domingo, eu e amigos estaremos no parque em frente ao Santos Dumont varrendo o local”. Eles, enfim, acreditaram e foi aí que nasceu o movimento Loucos Varridos. Uma ideia tão bem aceita que o prefeito espalhou cartazes na cidade para incentivar pessoas a fazerem o mesmo.

Quem era o prefeito do Rio, nessa época?

Era o César Maia. Dias depois, ele veio me procurar. “Sonia, que história é essa de você e o povo estarem varrendo as ruas?!”. Provoquei: “Prefeito, desculpe, mas se as ruas estão sujas, nós vamos limpar”. Um amigo, publicitário, criou cartazes incríveis com a seguinte frase: “De longe o Rio de Janeiro é a cidade mais linda do mundo. De longe, bem de longe…”. Quando o prefeito me procurou, meio constrangido, disse: “Sonia, tem alguma coisa que eu possa fazer por vocês?”. Respondi: “Claro que tem! A prefeitura tem quantos outdoors na cidade?!”. Não lembro quantos eram, mas fizemos ele colocar o slogan do movimento em um por um e também em relógios. Conseguimos muitos voluntários, mas depois de um tempo o movimento foi esvaziado.

Falando em articulações sociais, alguns cientistas políticos defendem que, nos últimos anos, a direita brasileira se uniu de maneira mais objetiva do que a esquerda. Você concorda?

Concordo plenamente. E acho que as pessoas precisam perceber que o futuro do Brasil não é questão de direita ou de esquerda, mas sim de pensar que, como cidadãos, temos de defender a Constituição do nosso País. E fazer isso não transforma ninguém em comunista. Quem acredita nisso e sente orgulho de dizer que é de direita logo vai ter de explicar o que, afinal, quer do País. Não sou de direita nem de esquerda, mas sei bem o que quero. Quero que a ordem, a democracia e a Constituição sejam respeitadas. Quero que Temer saia imediatamente, que Dilma volte ao lugar em que o povo a colocou e que daqui a um ano e meio cada um resolva, nas urnas, o que quer para o País. Se essa tal direita quer dar fim a tudo que conquistamos, ela que reconheça que são eles os agitadores decididos a levar o Brasil ao buraco. Essa direita é feita daqueles que não querem a felicidade de todos, que não querem a alegria de um País inteiro. Uma minoria ridícula, egoísta.

No próximo domingo haverá passeatas em defesa da permanência ou da saída de Michel Temer do poder. Se estivesse aqui, também iria às ruas?

Provavelmente sim, mas, como sou uma figura pública penso que isso funciona de forma diferente. Sei bem que poderia acontecer comigo algo parecido com o que fizeram com o Chico.

Você se refere ao episódio em que Chico Buarque foi hostilizado por um grupo de jovens no Leblon?

Sim, e pergunto: faz algum sentido uma pessoa com a história do Chico ser tratada daquela forma?! Não conheço os caras que fizeram aquilo, mas conheço Chico muito bem. Se a pessoa diz que ama o Brasil e trata alguém como Chico com tamanha hostilidade, no meio da rua, essa pessoa vive um delírio. Chico é um dos artistas que mais defenderam e divulgaram o Brasil. Da mesma forma que eu, ele está preocupado com o pedreiro, com o padeiro, com o marceneiro, com as pessoas do bairro, com os mais desprotegidos.

Voltando ao filme, desde que vi Aquarius, frequentemente lembro de alguma cena, sobretudo pela força de sua atuação. Nos países onde o filme já foi exibido essa reação de empatia com Clara tem sido comum?

Sim, e espero que o mesmo aconteça no Brasil. E o que você disse é maravilhoso, porque também estou sempre lembrando do filme. Aliás, isso aconteceu comigo desde que Aquarius existia somente no papel. Tudo que estamos passando agora devia servir de aprendizado para a necessidade de encontros como esse que eu e Kleber tivemos. Juntos, seremos mais fortes.

Texto e imagem reproduzidos do site: paginab.com.br

quarta-feira, 18 de julho de 2018

“A Europa é mais triste que o Brasil”

Torcedores brasileiros na Rússia. EPSILON GETTY IMAGES

Publicado originalmente no site Brasil El País, em 27 JUN 2018

“A Europa é mais triste que o Brasil”

Xosé Hermida, que deixa a direção da edição do El País Brasil para assumir um cargo de responsabilidade na sede do jornal em Madri, despede-se do país

Por Juan Arias 

Xosé Hermida, que deixa a direção da edição do El País Brasil para assumir um cargo de responsabilidade na sede do jornal em Madri, passou por algo semelhante ao que aconteceu com seu antecessor, Antonio Jiménez. Ambos chegaram a este país com alguma preocupação com seus mil problemas sociais e políticos. “Não sabia, quando cheguei, se seria capaz de inserir-me em uma realidade tão diferente da Europa e, ao mesmo tempo, tão complexa”, confessou-me Jiménez ao despedir-se e acrescentou: “Hoje percebi, quase de repente, que o Brasil me ensinou a ser feliz".

No domingo, Hermida também veio a Saquarema para despedir-se de nós. Está ciente da responsabilidade que o aguarda na Espanha. No entanto, com uma expressão visivelmente mais alegre do que quando chegou mais de um ano atrás, como observou minha mulher, ele nos disse: “Não vou negar que estou triste com a partida. Aqui tomei consciência de que, com todos os problemas e dificuldades pelos quais os brasileiros passam, a Europa é mais triste que o Brasil.”

O que impressiona meu colega é que descobriu que os brasileiros sabem, entre suas raivas e dores, manter espaços de celebração e alegria, algo que defendem como parte de sua identidade. “Nem os mais pobres renunciam a essa dimensão”, diz ele, algo que também havia chocado, e até contagiado, Jiménez.

Hermida está ciente do momento de desencanto e até de raiva que vivem os brasileiros e de como é difícil interpretá-los sem cair nos clichês. “No entanto, para mim, é inegável que eles sabem manejar melhor do que nós, europeus, seus espaços lúdicos e sua capacidade de comunicação, o que os vacina contra a solidão.”

Ele me conta uma de suas primeiras experiências de vida em São Paulo. Estava fazendo uma viagem de ônibus para ir à praia. Um caminhão fechou-os e bloqueou o tráfego. Tiveram que descer e esperar mais de uma hora até que tudo se normalizasse para poderem continuar a viagem. “Vendo a atitude das pessoas esperando tranquilas, sem desespero, notei o comportamento dos brasileiros, tão diferente dos europeus, diante de uma situação de desconforto. Pensei como teria sido diferente aquele percalço, por exemplo, na Espanha, onde as irritações dos passageiros teriam se amontoado e cada um alegaria que aquela parada havia arruinado seus planos. Haveria um coro de protesto.”

Ele ressalta que sabe muito bem que alguns podem criticar a tranquilidade daqueles passageiros como resignação inútil. “No entanto, isso me fez pensar que, pelo contrário, os europeus vivemos as frustrações com menor capacidade de evitar que nos contaminem. Vi como mais sábia essa atitude dos brasileiros. Entendi que não era passividade, mas uma capacidade de não se amargar a vida inutilmente.”

Conversamos sobre a particularidade dos brasileiros de comunicação mesmo entre estranhos, algo tão raro, se não impossível na Europa, onde cada um prefere se fechar em seu castelo. Ele me contou que, na ida para o aeroporto naquela manhã em São Paulo, o taxista era tão expansivo, com vontade de continuar conversando com ele, que chegou a pedir seu telefone para manter contato. “Você pode imaginar isso na Europa?”, disse ele.

Sua surpresa com a capacidade dos brasileiros de deixar você entrar em sua vida e contar-lhe tudo me lembrou que, em uma das minhas primeiras viagens a Madri depois de minhas primeiras experiências brasileiras, quando contei a uma colega do jornal que, aqui, em uma loja ou esperando um ônibus ou na rua, alguém pode começar a te contar sua vida com a maior tranquilidade, ela reagiu assustada: “Que horror! Não quero que ninguém me conte sua vida. Já me basta a minha!” Hermida, ao contrário, não só não se incomodou com esse modo de vida expansivo dos brasileiros, como se impressionou com ele, e com sua filosofia de que o trabalho, embora importante, não é o eixo de suas vidas já que trabalham para viver mais do que viver para trabalhar. “Sempre deixam espaços livres para sonhar.”

Hermida é um bom analista político e pergunto-lhe o que ele acredita ser o problema central que aflige este país. Não hesitou em responder: “A chave de tudo é a imensa desigualdade da sociedade quase dividida em castas, onde uns poucos acumulam privilégios que ofendem a maioria que precisa lutar para sobreviver.” E acrescenta: “Eu sei que o problema que mais aflige os brasileiros hoje talvez seja a violência, a falta de segurança, o que pode explicar o fenômeno preocupante do ultradireitista Bolsonaro. Mas não. O drama do Brasil continua sendo principalmente a perpetuação dessa desigualdade social produzida pelo desinteresse dos Governos de oferecer uma educação de qualidade que seja capaz de dar a todos as mesmas oportunidades de progredir na vida.”

Como Antonio ao se despedir, Xosé também me garante: “Juan, eu volto. Prometo.” E observando a praia de Saquarema, um luxo no início deste inverno morno, observa: “Ah, a beleza, o clima e as pessoas deste país!” Talvez estivesse pensando que em Madri o espera um termômetro que pode marcar 45 graus à sombra e talvez menos pessoas do que aqui interessadas em conhecer sua vida.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

terça-feira, 17 de julho de 2018

Casagrande, o campeão moral da Copa do Mundo

Walter Casagrande, ex-jogador e comentarista da Globo. ALEXANDRE BATTIBUGLI

Publicado originalmente no site Brasil El País, em 15 JUL 2018

Casagrande, o campeão moral da Copa do Mundo

Orgulhoso de sua sobriedade durante a cobertura na Rússia, comentarista da Globo volta a emocionar com depoimento sobre drogas em rede nacional

Por Breiller Pires

Mais uma vez, Walter Casagrande não se envergonhou de compartilhar a luta diária contra a dependência química. O comentarista da Globo fez um breve e emocionante relato no fim da transmissão que exaltou o bicampeonato da França. “Essa foi a Copa do Mundo mais importante da minha vida. Eu tinha a proposta de ir sóbrio, permanecer sóbrio e voltar pra casa sóbrio. E eu consegui.” A fala levou às lágrimas o companheiro de jornada e transmissões. Afinal, ninguém melhor que Galvão Bueno para reconhecer a valentia do enorme ser humano que existe por trás dos atributos de comentarista e ex-jogador.

Entrevistei Casagrande há sete anos, para a Placar. Algum tempo antes, ele havia se chateado com a revista, que publicou uma matéria revelando a batalha que travava com as drogas. Nunca imaginei que uma pessoa pudesse falar com tanta lucidez e desprendimento sobre um drama que lhe rendeu várias feridas. Saí de seu apartamento dividido entre o choque e a admiração, ainda absorvido pelo teor de suas palavras em mais de duas horas de conversa: “Eu tinha um mecanismo de autodestruição. Queria acabar com a minha vida. Quando estava sozinho, me achava um bosta. Me afundei, quase morri.”

Na mesma entrevista, ele descreveu o papel determinante que Galvão Bueno desempenhou ao longo de sua reabilitação, entre avanços e recaídas. “Meus problemas emocionais eram tão graves que só as drogas me saciavam. Eu sempre queria mais. O Galvão brigou lá na Globo quando eles tinham dúvidas se eu poderia ir para a Copa [de 2010], se estaria bem. E ele dizia: ‘Tem que ir, vai ser bom para ele estar lá, do nosso lado’. Galvão foi uma das pessoas que mais me ajudaram após meu problema e pode contar comigo para o resto da vida.”

Casagrande tem plena consciência de que não está livre do vício nas drogas. É um enfrentamento constante, “para o resto da vida”, como ele costuma frisar nas palestras que ministra pelo país e sempre que aproveita oportunidades para contar sua história na televisão, a exemplo da série com médico Drauzio Varella exibida pelo Fantástico. Muito além do comentarista que não demonstra papas na língua tampouco corporativismo ao criticar jogadores, o ídolo da torcida corintiana descobriu um novo propósito de vida: quebrar o tabu sobre a dependência química e mostrar que não há mal algum em reconhecer as próprias fraquezas, já que o autoconhecimento é a única forma de confrontá-las.

Em um torneio de gratas surpresas, como Bélgica e Croácia, e de seleções que souberam sair de cabeça erguida mesmo na derrota, Walter Casagrande deixa a Rússia como o campeão moral da Copa do Mundo. Sua conquista pessoal é tão tocante quanto o exemplo que deixa para aqueles que lutam diariamente contra “seus demônios”, tal qual ele descreve em sua biografia. E também um soco no estômago dos que, desprovidos de sobriedade e caráter, tentam desqualificá-lo sob o estigma de dependente químico. Que a grandeza de Casão, em franco e ininterrupto estágio de reconstrução, seja sempre maior que o desvario dos abutres.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

domingo, 15 de julho de 2018

Oráculos de Papel



Oráculos de Papel 

Como a autoajuda se transformou no gênero que alavanca os números do mercado editorial no Brasil e no mundo

Por Livia Deodato | Ilustrações Lucas Levitan

De problemas de saúde a questões políticas, o Oráculo de Delfos, mais importante centro religioso da Grécia Antiga, atendia de cidadãos comuns a governantes e filósofos que estavam em busca de conselhos assertivos. Logo na entrada, a inscrição “conhece-te a ti mesmo” se tornou a base da filosofia que conhecemos hoje, difundida inicialmente por Sócrates. Sem dúvida, era o primeiro movimento de que se tem notícia em direção ao autoconhecimento – em outras palavras, ao que hoje também podemos denominar como autoajuda.

O gênero, assim como o Oráculo de Delfos, abrange diversas questões e temas no Brasil. E é atualmente o responsável por alavancar as vendas de livros em todo o mundo e especialmente neste país, que sempre foi conhecido como um lugar de não leitores. De 2017 para cá, houve um aumento de mais de 11%, segundo painel das vendas de livros no Brasil de maio levantado pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e a Nielsen Bookscan Brasil. Isso porque a autoajuda, hoje, deixou de ser apenas o nicho comum entre autores que escrevem e leitores que buscam dicas rápidas, fáceis e duvidosamente eficazes, geralmente organizadas em listas.

“O termo autoajuda é um grande guarda-chuva. Nos anos 80, tínhamos uma autoajuda mais inspiradora ou mística e agora ela é mais prática e acompanha o mundo em que estamos”, diz a editora e agente literária Alessandra Ruiz, que já trabalhou em grandes editoras e acaba de fundar sua própria agência, Authoria. “Dentro do gênero, você encontra livros de negócios, ciência, espiritualidade, desenvolvimento humano, que servem para aplicação tanto em sua vida pessoal quanto profissional. A grande mudança que observo atualmente é que há um número cada vez maior de livros mais sérios, baseados em pesquisas acadêmicas, inclusive, traduzidas de maneira mais popular e abrangente”, completa ela, que trabalha no mercado editorial há 25 anos.

Autoajuda, na opinião de Tomás da Veiga Pereira, sócio-diretor da Sextante, é uma maneira de tornar acessível ao grande público conhecimentos, experiências e pesquisas sobre os mais diversos temas, com o objetivo de alcançar aquilo que se propõe. Ele conta que já seguiu a dieta chamada South Beach, recomendada por um médico seu para tratar sua insônia recorrente. “Aquilo me ajudou muito e, pouco tempo depois, publicamos a tradução deste livro homônimo escrito pelo cardiologista norte-americano Arthur Agatston, que estudou a fundo as causas das dores e doenças trazidas por seus pacientes e apresentou uma maneira de curá-los.”

Seja por pura retórica ou abrangência do conceito, o fato é que, se analisarmos o sentido estrito da palavra, todo livro pode ser considerado autoajuda. “Um manual de redação e estilo para aprimorar a escrita, um livro para organizar a vida financeira, outro para meditar, outro para aprofundar uma discussão filosófica, um conto ou poesia... Todas essas variedades são escolhas, consideradas importantes por seus leitores, que tornam os livros mestres para quem os lê. Afinal, o que buscam é um meio de aprimorar algo em si, ampliar conhecimento, diálogo. Para mim, são todos autoajuda”, diz o jornalista e professor de literatura Pedro Almeida, proprietário da Faro Editorial.

O filósofo e professor universitário Mario Sergio Cortella é uma das personalidades que ultrapassaram a barreira da academia e transitam livremente pelos corredores populares de TVs, rádios, revistas, jornais, eventos corporativos e estantes de livros. Ao falar de temas caros a todos os seres humanos, sem rodeios e com irreverência, Cortella deixa os que lhe assistem hipnotizados. Alguns de seus livros mais recentes, como A Sorte Segue a Coragem (Planeta, 2018) e Por que Fazemos o que Fazemos? (Planeta, 2016), estão classificados em algumas livrarias como autoajuda. Erra quem pensa que isso o incomoda. O autor já repetiu mais de uma vez que “toda filosofia é autoajuda” e que, como em todo gênero, há obras de boa e de má qualidade.

Os primeiros 20 livros da lista de mais vendidos da Livraria Cultura atualmente são de autoajuda. Nela aparecem títulos como A Sutil Arte de Ligar o F*da-se (Intrínseca, 2017), de Mark Manson, texano de 34 anos, e também Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas (Simon & Schuster), de Dale Carnegie (1888-1955), considerado a “bíblia” da autoajuda, publicado pela primeira vez em 1936 e que já vendeu mais de 50 milhões de exemplares.
“A Sutil Arte... é o avesso da autoajuda tradicional: o livro diz que o leitor não é tão especial assim e que vai ser mais fácil viver se ele parar de se torturar para pensar positivo”, diz Raquel Cozer, editora da Intrínseca. “Acho natural que, em tempos de crise como a que vivemos hoje, essa busca aumente. É muito simbólico que esse livro tenha vendido mais que qualquer outro de qualquer gênero no Brasil neste ano.” A Sutil Arte... já vendeu, até o fechamento desta revista, mais de 183 mil exemplares no país, mantendo-se em primeira posição no ranking geral dos mais vendidos, de acordo com a PublishNews (Sapiens, de Yuval Noah Harari, personagem da capa, aparece em quarto lugar, com mais de 79 mil exemplares vendidos).

Outro livro que ficou nas paradas de sucesso por bastante tempo é Casais Inteligentes Enriquecem Juntos (Sextante, 2004), de Gustavo Cerbasi. O livro trata de finanças pessoais de modo acessível, mas também teve outro propósito segundo seu editor à época do lançamento: diminuir o índice de separação entre casais. “Eu havia lido uma pesquisa inglesa que dizia que o segundo maior motivo de separação no mundo era dinheiro – a falta ou o excesso dele. Daí pensei: ‘Imagina um livro que possa diminuir esse índice?’”, relembra o editor Anderson Cavalcante, hoje à frente da Buzz Editora. A obra escrita por Cerbasi vendeu mais de 1,3 milhão de exemplares – e tem feito escola.

A especialista em finanças pessoais e youtuber Nathalia Arcuri (leia mais nas páginas a seguir) vendeu 2.672 exemplares de seu livro Me Poupe! só no mês de lançamento, marcando um recorde para a Sextante. Isso o levou a ocupar a quarta posição no ranking geral de vendas da PublishNews. O lançamento, ocorrido em maio na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, causou frisson e fez com que seu livro esgotasse em três horas. As resenhas breves feitas por leitores no canal da autora levam a crer na eficácia do conteúdo: “Li seu livro em dois dias e aprendi bastante coisa” ou ainda “acompanho seu canal há um ano, li o seu livro em quatro dias e é maravilhoso, já fiz várias mudanças e bora ser rica!”

A editora Raíssa Castro, da BestSeller e Verus, que integram o Grupo Editorial Record, afirma que um dos critérios estabelecidos para seleção das obras do gênero está ligado ao momento atual da sociedade e suas respectivas buscas. “O que importa é como o conteúdo de determinado livro é processado internamente pelo leitor. De que adianta ler um clássico da literatura universal ou um texto filosófico altamente elaborado se o leitor não é transformado por essa leitura?”  

Texto e imagens reproduzidos do site: livrariacultura.com.br

sábado, 14 de julho de 2018

Ser 'queer' não cabe numa caixa: Um bate-papo com Pri Bertucci

Com o [SSEX BBOX] Pri Bertucci produz séries para internet com a intenção
 de educar pessoas e instituições sobre o "ser queer".

Ser 'queer' não cabe numa caixa: Um bate-papo sobre identidade com Pri Bertucci

"Temos que lembrar a importância do pronome de gênero. As pessoas não vêem a importância disso porque não sofrem por causa disso."

By Leda Antunes

"Como é que a gente quer colocar 7,6 bilhões de pessoas em apenas duas possibilidades de existência: ou na caixinha azul ou na caixinha rosa?", questiona o artista visual e ativista Priscilla Bertucci. Foi com essa pergunta que Pri, como prefere ser chamado, iniciou seu processo de investigação pessoal para enfim se identificar com o gênero queer, que é uma identidade transgênero.

O paulistano passou dez anos em São Francisco, nos Estados Unidos. Lá, em 2011, fundou o [SSEX BBOX], um projeto de documentários que investiga as possibilidades da sexualidade humana, fora das "caixinhas azul e rosa". Para fazer a série de filmes, Pri conversou com educadores sexuais, estudiosos, ativistas e artistas que quebravam os padrões heteronormativos de gênero e sexualidade. "Trabalhar com essas pessoas incríveis abriu muito o meu espectro do que é gênero e do que é sexualidade e das possibilidades de existência no mundo", lembra.

Estranho, peculiar, excêntrico. A palavra queer era usada de forma pejorativa contra a comunidade LGBTQI+, mas nos anos 90, movimentos sociais e ativistas passam a ressignificá-la, usando-a como forma de denominar as pessoas dispostas a romper com ordem sexual padrão. A chamada teoria queer é consolidada no livro "Problemas de Gênero", da filósofa Judith Butler, e pressupõe que a orientação sexual e a identidade de gênero são construções sociais e que não é possível classificar as pessoas nos binarismos homem x mulher e heterossexual x homossexual.

Com a volta ao Brasil, há três anos, Pri expandiu a atuação do [SSEX BBOX] que, para além dos filmes, virou um projeto de promoção de justiça social. Hoje fazem consultoria de inclusão e diversidade para empresas e realizam diversos eventos. Em 1º de junho deste ano, colocaram na rua a primeira Marcha do Orgulho Trans de São Paulo e, mais recentemente, foram parceiros da Organização das Nações Unidas (ONU) no lançamento em São Paulo dos Padrões de Conduta para Empresas combaterem a LGBTfobia.

Durante evento, Pri revelou que havia tomado a primeira dose de testosterona, dando início a sua transição hormonal. Ao HuffPost Brasil, ele falou sobre o que é ser queer, a celebração do Orgulho LGBT, o machismo dentro do próprio movimento, a primeira Marcha do Orgulho Trans e ainda deu dicas para pessoas cisgêneras heterossexuais não errarem quando estiverem na dúvida sobre a identidade de gênero de uma pessoa.

Leia a entrevista completa:

O que é ser "queer"

"A palavra queer representa tantas coisas, é um conceito muito complexo. Ela é uma identidade de gênero, é uma orientação sexual, é um adjetivo, um substantivo e pode ser um verbo. O conceito queer é tão disruptivo do sistema, que causa essa estranheza. É muito difícil de compreender, tem um aspecto muito budista do queer, que é fora desse binarismo de pensamento. E eu me identifico dessa forma. Há muitos questionamentos se o queer pode ser uma identidade de gênero, porque ela é uma identidade não identidade, é o lugar do não lugar. No Brasil, o queer está sendo representado pelo não binário, são coisas parecidas. Como o agênero, two spirit, genderless, gênero fluido, tudo isso está dentro desse espectro queer não binário. Muita gente ao invés de usar queer usa o não binário para explicar. Mas acontece que eu, particularmente, não gosto de me afirmar pela negação. Não quero ser não alguma coisa. Não binário, não branco. Prefiro ser queer, pardo."

Um aprendizado cultural e linguístico

"Há 15 anos eu milito nesta causa, há 10 anos surgiu o projeto nesse meu processo de mudar para São Francisco (EUA).Trabalhei com pessoas muito importantes que fazem parte desse movimento queer. Muito antes de Judith Butler escrever sobre teoria queer, o queer veio da rua, do movimento social, das ruas de São Francisco. E eu pude conviver com essas pessoas que estavam ali naquele momento crucial e histórico. Muito do SSEX BBOX vem dessa convivência, com Carol Queen, por exemplo, que foi responsável por colocar a letra B, de bissexuais, na sigla LGBT. Trabalhar com essas pessoas incríveis abriu muito meu espectro do que é gênero e do que é sexualidade e das possibilidades de existência. Somos 7,6 bilhões de pessoas nesse planeta, como é que a gente quer colocar 7,6 bilhões de pessoas em apenas duas possibilidades de existência: ou na caixinha azul ou na caixinha rosa? Meu processo pessoal vem disso, dessa investigação pessoal, eu fui investigando, aprendendo e filmando tudo isso e isso virou a primeira websérie sobre o tema, em 2011. Não existiam pessoas trans no Brasil dispostas a dar entrevista sobre o tema na época. Foram meses de pesquisa pra achar uma pessoa trans que quisesse dar uma entrevista. [...] Eu estava fazendo um documentário e aprendendo muito com todos esses educadores sexuais, que viveram essa questão do movimento queer. Como filmamos em quatro cidades diferentes em quatro países (São Francisco, São Paulo, Berlim e Barcelona), esse aprendizado foi cultural e também linguístico. Fui aprendendo nesse processo como a língua é limitante, se não tem uma palavra que representa certas coisas é como se ela não existisse."

A identidade queer no Brasil

"Enquanto eu estava lá na Bay Area da Califórnia, que é uma bolha de consciência, a realidade é que "everybody is queer" [todo mundo é queer]. É até estranho não ser queer lá. Mas quando eu volto ao Brasil e começo a explicar para as pessoas que eu não quero que elas me chamem de 'ela' é muito difícil. Não tem espaço para isso aqui. Faz três anos que voltei para cá, três anos de uma luta de tentar existir, não só para pessoas cis que são desconectadas, mas dentro do próprio movimento. Tem pessoas que acham que pessoas não binárias ou queer vão apagar a questão trans. Existem resistências, questionam 'mas é queer de verdade?' e eu digo o que é queer de verdade? Quem é a polícia queer? Eu percebo muita dificuldade de aceitação por pessoas da militância mesmo, querendo dizer que eu sou menos importante com essa identidade. E passamos de novo por uma questão de muita disputa interna dentro do movimento e sem esse espaço de compreensão de todas as vidas precisam ser respeitadas, todas as existências e todas identidades precisam ser respeitadas."

O lugar do "orgulho" LGBT

"Eu diria que essa não é a melhor palavra para se celebrar a possibilidade de existência das nossas identidades e dos nosso desejos. Se eu pudesse escolher, eu escolheria outra. Mas eu não sei se eu tenho essa palavra ainda. Talvez no futuro a gente escolha outra. Mas vou dizer porque o orgulho tem questões. Pride é o oposto de shame. Você tem vergonha e orgulho. A comunidade LGBT vive, sempre viveu essa vergonha, só nos últimos anos tem um pouco mais de aceitação. Mas na minha época -- eu nasci e 1978, e quem nasceu antes de mim era pior ainda --, existia uma vergonha de você ser quem você é, uma vergonha que não é só sua, mas mas também dos outros: sua família, seu amigos, tinham vergonha. Dá para entender porque a gente está trabalhando com esse binarismo hoje. Se é tanta vergonha e culpa colocada em cima dessa identidades, o orgulho se torna totalmente oposto. Mas não acho que orgulho seja uma coisa muito saudável, pois vejo que estamos dentro de uma questão muito egocêntrica. As pessoas precisam mostrar a sua aparência, lutam pelos seus likes. Acaba virando uma obsessão com a imagem. De qualquer forma, eu acho que ainda não achamos um lugar intermediário para substituir essa palavra. Isso vai acontecer quando derrubarmos esse combo de culpa e vergonha, quando conseguirmos ter um lugar de muito mais aceitação - e eu não acho que isso seja na minha geração ou na sua geração, algumas gerações ainda precisam vir para a gente começar a achar um equilíbrio. Essa coisa é tão forte. E por isso a gente fez a Marcha do Orgulho Trans, porque quer ter orgulho de ser trans, porque é uma resposta nessa mesma força a essa vergonha que nos é imposta."

O falocentrismo LGBT

"A Parada não é LGBT, é uma parada que deveria ser LGBT, mas é uma parada gay. [...] Existe um viés racial, de gênero, nesse combo do viés inconsciente, das pessoas que organizam a parada, que detém o poder. E quem tem poder? É o homem branco cisgênero heterossexual. Mas mesmo que ele seja gay ele continua no poder. E ele não tá afim de abrir mão ou dividir esse poder com pessoas que têm vagina. O falocentrismo reina nesse movimento LGBT. Quem tem vagina é cidadão de segunda classe. Isso é o planeta e dentro do movimento LGBT não é diferente. Lésbicas e homens trans são super invisibilizados. Pessoas queer e não binárias, então, nem se fala, isso nem existe, é um unicórnio. A vontade de fazer a marcha veio do meu processo de viver em São Francisco por dez anos e ver quão forte e organizado é o movimento trans e quanto mais respeito eles conseguiram dentro das letrinhas LGBTQIA+ com processos de diálogo, escuta, comunicação não violenta, de justiça restaurativa entre esses grupos. A Dyke March [caminhada lésbica] existe no sábado há muitos anos, na véspera da Parada Gay, e a Trans March na sexta-feira. Essa sequência acontece em outros lugares do mundo, não só em São Francisco onde eu morava. Eu via a potência que tem ter uma Marcha do Orgulho Trans, mas no Brasil ainda não tinha acontecido. No ano passado eu comecei esse projeto, escrevi, comecei a articular com o movimento, mas infelizmente não foi pra frente, acho que muito por falta de engajamento de pessoas que não acreditaram que era possível fazer. Começamos a fazer um círculo pequeno, bem tímido, de homens trans e não binários, para falar desses apagamentos que vivemos. Como é ter vivido num corpo que é reconhecido como feminino, com vagina, e todos os abusos que passamos. A gente trabalhou alguns meses com esse grupo e muitos deles eram líderes de outros projetos. A ideia era mesmo fortalecer esse lado emocional e criar esse grupo de afinidade e com uma comunicação mais coesa. Aí eu faço o convite para esse grupo de meninos trans a produzirem comigo essa marcha, que era um sonho. Eu já tinha o projeto pronto, o site tava pronto, faltava mesmo botar na rua. Fiz a parte da captação, consegui os patrocinadores. E aí os meninos trans entraram, eles representam o Ibrat (Instituto Brasileiro de Transmasculinidades) e o Tiely Queen, do Hip Hop Mulher, para fazer esse evento acontecer. A marcha foi incrível."

Na dúvida, pergunte

"Podemos pensar em duas coisas que uma pessoa cisgênero e heterossexual pode fazer para não desrespeitar uma pessoa que ela não sabe a identidade de gênero. A primeira é perguntar 'como você gostaria de ser chamado?' E a segunda 'qual é o seu pronome de gênero preferido (PGP)?' Não adianta eu só falar, eu gosto que você me chame de Pri, porque Pri você vai assumir que é Priscilla, então é feminino e, no caso não é, eu quero que seja o Pri ou só Pri. Em qualquer reunião, ou qualquer lugar que tenha muitas pessoas cis e poucas pessoas trans, temos que lembrar a importância de falar do pronome de gênero, as pessoas não vêem a importância disso porque não sofrem por causa disso, para uma pessoa no padrão cis heteronormativo isso não importa. Muita gente fala que é frescura, que é mimimi, mas não é mimimi, é realmente uma questão de respeito."

Texto e imagem reproduzidos do site: huffpostbrasil.com

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Ler ou não ler, eis a questão: uma crônica sobre livros e leitura

'La Liseuse', pintura a óleo de Jean-Honor Fragonard
Reprodução/National Gallery of Art, Washington

Publicado originalmente no site da revista CULT, em 4 de julho de 2018

Ler ou não ler, eis a questão: uma crônica sobre livros e leitura

Por Marcia Tiburi

Há cerca de quatro anos, uma pessoa, ao ouvir uma fala minha em um evento literário no interior de Santa Catarina, interpelou-me, chateada: “Marcia, eu gostava de você quando você não era política”.

Perguntei a ela por que me dizia essa frase: ela não quis responder. Perguntei, então, se ela costumava ler o que eu escrevia, tentando entender o seu “gosto” por mim. Eu perguntei se havia lido algum artigo, algum texto na internet. Ela apenas tinha me visto na televisão e, de certo modo, isso lhe bastava.

Comentei que, a meu ver, estamos sempre mergulhados em política, mesmo quando não queremos saber dela. Mesmo quando aparecemos ou vemos televisão, isso é político, pois que a televisão é um meio de poder; não apenas um meio de comunicação, mas um meio de comunicação do poder. Que nossos atos, aparentemente “des-políticos” ou “anti-políticos”, servem a algum tipo de política. Que se nós não sabemos, todavia alguém sempre sabe o que fazer com o nosso desgosto ou falta de interesse em política. A política abandonada serviu e serve aos poderosos de sempre, sugeri para que ela pensasse. Ela não ficou muito interessada, mas prometeu, de um modo muito simpático, ler um livro meu.

Não foram poucos os momentos em que estive com pessoas particulares ou grupos diversos nos quais tive que tratar da mesma questão. E não foi incomum descobrir que muitas pessoas que “gostavam” ou “não gostavam” de mim nunca tivessem lido um livro meu. Pensar na força da televisão e na impotência do livro nessas horas ainda me deixa triste.

O desinteresse ou desatenção pelo que escrevo não é um problema, evidentemente. Ler é um direito e não ler também. Preferências de cada um devem ser respeitadas, embora possam significar algo mais. Há tempos atrás, eu soube de um professor de uma grande universidade que ia às livrarias e escondia meus livros para que ninguém os comprasse. Não sei se os lia ou não, mas certamente os odiava a ponto de precisar escondê-los. Do mesmo modo, há pessoas que conheço que leram todos os meus livros, ou vários deles, e até presentearam seus amigos e amores com eles. Eu fico feliz, mas isso é uma questão maior do que eu mesma, do que meus desleitores ou leitores.

O que me faz contar isso? Sou escritora e penso ser este um lugar de fala legítimo. Mas a meu ver há um problema imenso na cultura brasileira, um problema que diz respeito ao que o sociólogo francês Pierre Bourdieu, por exemplo, chamou de habitus aquele modo de viver que é introjetado e resulta em um modo de sentir, de pensar e ser.

Ora, há um nexo a ser compreendido entre a “despolitização” ou “antipolitização” da vida e a falta de interesse pelo que há de mais complexo e mais difícil e que, de um modo geral, faz parte do mundo dos livros e da leitura. Ler e não ler também são atos políticos. E políticas da leitura e da escrita não podem ser deixadas de lado quando se trata de pensar um mundo melhor para se viver com pessoas melhor preparadas subjetivamente.

Entre a política e a leitura há uma analogia que nos ajuda a entender a nossa época. São dois hábitos que exigem esforço e que, depois de transpostas as dificuldade do hábito, se não definem um novo prazer, pelo menos nos ajudam na expansão de nossas visões de mundo.

Eu fico triste de ver que telas (sejam de televisão, sejam de computador), suplantem os livros em nossa época. Que tipo de subjetividade surge desse habitus da não-leitura, em uma época em que a escrita é instrumentalizada de tantas formas, inclusive na internet, é uma questão para pensar.


Texto e imagem reproduzidos do site: revistacult.uol.com.br

terça-feira, 26 de junho de 2018

A famosa foto de Evandro Teixeira, na Passeata dos Cem Mil


Publicado originalmente no site da Revista FORUM, em 26 de junho de 2018

A famosa foto de Evandro Teixeira, na Passeata dos Cem Mil

A ‘Passeata dos Cem Mil’ e seus heróis, nas fotos de Evandro e em um poema de Drummond

A passeata completa 50 anos nesta terça-feira, com vários personagens que permanecem na luta até hoje

Por Julinho Bittencourt  

A ditadura atingia o seu auge. Em março de 1968, a PM invadiu o restaurante universitário 

Calabouço, onde estudantes protestavam contra o preço das refeições. No confronto, o comandante da PM, Aloísio Raposo, matou o estudante Edson Luís, com um tiro no peito. Durante o velório e, sobretudo, na missa do estudante, o Rio de Janeiro pegou fogo. A polícia avançou contra estudantes, padres, jornalistas e populares.

Em 21 de junho, aconteceu a ‘Sexta-feira Sangrenta’. Durante nova manifestação, desta vez na porta do Jornal do Brasil, três pessoas foram mortas, dezenas ficaram feridas e mais de mil foram presas. O gosto de sangue na boca da ditadura ruiu diante da opinião pública. Como forma de recuo, o exército acabou permitindo uma nova manifestação, para o dia 26. Aquele dia, há 50 anos, entrou para a história e ficou conhecido como ‘A Passeara dos Cem Mil’.

O AI-5

As consequências daquela manifestação ampla e sem precedentes contra o regime dos militares foram desastrosas. Até o final do ano, vários outros estudantes foram presos no Rio de Janeiro e em São Paulo, o Congresso rejeitou projeto que concedia anistia aos estudantes, o Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Ibiúna (SP), foi invadido e mais de 400 estudantes foram presos. No final do ano, no dia 13 de dezembro, foi promulgado o Ato Institucional Nº 5 (AI-5), dando início à página mais sangrenta e obscura da nossa história recente.

A ‘Passeata dos Cem Mil’ contou com a participação de um sem fim de personalidades da vida brasileira, entre eles artistas como Chico Buarque de Holanda, Edu Lobo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tônia Carreiro, Grande Otelo, Paulo Autran, José Dirceu, Tancredo Neves, Marieta Severo, Nara Leão, Clarice Lispector, Fernando Gabeira, entre muitos e muitos outros.

O fotógrafo e o poeta

O fotógrafo Evandro Teixeira, então funcionário do Jornal do Brasil, fez, entre muitas outras, aquela que foi considerada a imagem definitiva da passeata. Nela, a multidão preenchia toda a imagem, cortada harmônica e suavemente por uma faixa resoluta bem no canto superior esquerdo, no exato local da regra dos terços, que dizia: “Abaixo a Ditadura. Povo no Poder”.

Sob o impacto das imagens de Evandro, o poeta Carlos Drummond de Andrade, escreveu um lindo poema:

Diante das fotos de Evandro Teixeira

A pessoa, o lugar, o objeto
estão expostos e escondidos
ao mesmo tempo, sob a luz,
e dois olhos não são bastantes
para captar o que se oculta
no rápido florir de um gesto.

É preciso que a lente mágica
enriqueça a visão humana
e do real de cada coisa
um mais seco real extraia
para que penetremos fundo
no puro enigma das imagens.

Fotografia-é o codinome
da mais aguda percepção
que a nós mesmos nos vai mostrando,
e da evanescência de tudo
edifica uma permanência,
cristal do tempo no papel.

Das lutas de rua no Rio
em 68, que nos resta,
mais positivo, mais queimante
do que as fotos acusadoras,
tão vivas hoje como então,
a lembrar como exorcizar?

Marcas de enchente e de despejo,
o cadáver insepultável,
o colchão atirado ao vento,
a lodosa, podre favela,
o mendigo de Nova York,
a moça em flor no Jóquei Clube,

Garrincha e Nureyev, dança
de dois destinos, mães-de-santo
na praia-templo de Ipanema,
a dama estranha de Ouro Preto,
a dor da América Latina,
mitos não são, pois que são fotos.

Fotografia: arma de amor,
de justiça e conhecimento,
pelas sete partes do mundo,
viajas, surpreendes, testemunhas
a tormentosa vida do homem
e a esperança de brotar das cinzas.

Texto e imagem reproduzidos do site: revistaforum.com.br

Tertuliana: A ‘sertransneja’ que ocupa a sala de aula como um ato político



Hoje, os trabalhos de Tertuliana podem ser vistos principalmente em cordéis
 e xilogravuras, arte comum à região Nordeste.

Tertuliana Lustosa: A ‘sertransneja’ que ocupa a sala de aula como um ato político

Piauiense é transgênero e acredita que a arte pode ultrapassar o controle dos corpos. “É o momento de dizer que a tradição não se resume no controle do corpo e na catequese."

By Ryot Studio e CUBOCC

Uma jovem de 18 anos, nascida no interior do Piauí, chega ao Rio de Janeiro para começar os estudos. Esta é uma história comum, que provavelmente acontece todos os dias, e é também a história de Tertuliana Lustosa, hoje com 21 anos. Nascida em Corrente mas tendo passado boa parte da vida em Salvador, na Bahia, a moça aterrissou no Rio para cursar História da Arte na UERJ, movida pelo amor que sempre teve pela literatura. Mas paralelamente à mudança, também aconteceu o que Tertuliana define como "diáspora territorial de gênero". Poucos meses após chegar na universidade, ela iniciou seu processo de transição.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Tertuliana explica que o início não foi fácil. Todo o acompanhamento médico e psicológico fundamental para o procedimento não aconteceu, e por medo. Ela conta que é comum, em pessoas transgênero, o receio de sofrer tratamento transfóbico por parte dos profissionais de saúde. Assim, ela começou o processo de transição hormonal por conta própria, recém saída da adolescência.

Tertuliana começou o processo de transição hormonal por conta própria, recém saída da adolescência.

"Não é recomendado, nunca! Mas as pessoas trans fazem porque os médicos são transfóbicos. Se você chega lá com passabilidade cis, eles dão o remédio e até te tratam no pronome correto. Mas se chegar lá antes de tudo, eles vão questionar se temos certeza. E é um momento super delicado, porque você não quer ouvir esse tipo de coisa, e às vezes é só uma pessoa trans que vai te tratar bem", explica.

Pouco tempo depois, ela buscou ajuda em um hospital que, sim, conseguiu acolhê-la e orientá-la da melhor forma. Com acompanhamento da assistência social e psicológica, Tertuliana iniciou o processo de mudança do nome e conseguiu se aproximar cada vez mais de quem ela realmente é. "Eu tive sorte, porque esse apoio é muito importante", define.

Estar no Rio também é uma forma de se redescobrir o tempo todo. No período anterior à transição, se sentia muito "fechada" em expressões culturais que sempre reconheceu como bonitas, mas que exigiam uma performance: aquelas em que tocavam ritmos como pagode baiano e forró. "Eu não queria estar ali com aquele corpo que eu tinha. Só que na verdade não era com aquele corpo, mas com uma performatividade de uma masculinidade que não era minha", conta.

Atualmente, Tertuliana ministra oficinas de literatura Escritos Trans, na UERJ. Um dos formatos usados por ela é o cordel.

Hoje, a música atravessou sua vida de vez e ficou. Tertuliana também trabalha como DJ e estuda formas de incluir mais MCs LGBT nas festas da cidade. "O funk foi meu momento de liberdade, por mais que eu não seja 'cria' do Rio", conta ela.

A primeira experiência como DJ aconteceu quase sem querer, na Casa Nem. O local fica no centro do Rio e abriga pessoas transgênero em situação de vulnerabilidade. Ali, também, foi a primeira sede do curso pré-vestibular, Prepara Nem, direcionado ao mesmo público. Depois de observar uma DJ transgênero, quase por instinto Tertuliana tentou, também. E deu certo: aos poucos dominou as carrapetas e encontrou parte de sua liberdade.

A Casa Nem também marca a vida de Tertuliana por outros motivos. Foi lá, em 2015, que ela começou a dar aulas de artes e literatura no pré-vestibular, quando "ainda estava aprendendo a ser professora".

Depois, ela começou a dar aulas como convidada também em outras instituições. Até chegar ao momento atual, em que ministra a oficina de literatura "Escritos Trans", na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Na oficina, que está em seu primeiro semestre, a professora trabalha termos relacionados à causa transgênero, e também lança mão da criatividade para demarcar seus espaços.

"Os termos relacionados [a transexualidade] vêm de um estudo de gênero contemporâneo da Europa, como transgênero ou transexual. Eu senti a falta de ter os termos da militância, um dos termos é tranvestigenere, então também tem o termo que eu criei, sertransneja. É um termo para complexificar a existência trans, uma existência trans de uma diáspora territorial de gênero. Saio do território da masculinidade e vou pra outro que pode não ser nem um, nem outro [da feminilidade]", explica.

Sertransneja é um termo que complexifica a existência trans, de uma diáspora territorial de gênero.

O termo sertransneja, aliás, está marcado na pele. A tatuagem foi feita pela estudante Matheusa Passarelli, assassinada em maio deste ano no Rio. Theusa, como conhecida pelos amigos, também era uma artista. Cabe a Tertuliana, durante a entrevista, relembrar a grandeza da amiga, ainda que em poucas e emocionada palavras. "Ela era incrível", define.

A criação artística de Tertuliana a levou a lecionar como convidada em escolas públicas, também. Ela conta que já houve casos dos alunos desistirem de participar das oficinas ao saberem que a professora não é cisgênero e/ou sobre a temática de algumas peças artísticas. Mas o saldo final foi positivo. "Alguns levaram com naturalidade e produziram a xilogravura. Eu acho que é super potente e importante ter pessoas trans lecionando porque aí não precisa trazer a temática, só a presença mostra que tem uma potencialidade", acredita ela, que pretende mergulhar também em outras linguagens artísticas.

Ser professora, para Tertuliana, é um ato político. "As pessoas trans são infantilizadas e colocadas num lugar de impotência, num lugar de pessoas que ocupam sempre lugares marginalizados no mercado de trabalho e na sociedade. Ter pessoas trans fora disso, principalmente na educação, é fundamental", observa. E completa: "Ter uma professora trans na infância pode ser uma experiência importante para o resto da vida [de uma criança]."

Mas ela explica que seu trabalho pode, e vai, muito além do que o senso comum acredita. "Incomoda ser convidada para expor ou falar somente sobre a temática trans. Meu trabalho não é sobre isso, ele passa por uma série de questões e não necessariamente precisa passar pela questão trans."

Recentemente, ela também tem reencontrado textos que escreveu ainda na infância, época em que também ganhou um concurso literário. As características do que era feito naquela época se contrapõem à liberdade artística que Tertuliana alcançou. "As personagens eram mulheres assustadoras, um pouco sombrias. Na época eu tinha uma paixão muito grande pelas mulheres, mas uma dificuldade muito grande de lidar, porque a sociedade me colocava nesse lugar, dessa imposição heterossexual", explica ela, que ressalta que sempre encontra uma história de transformação na literatura produzida naquela época.

Hoje, os trabalhos de Tertuliana podem ser vistos principalmente em cordéis e xilogravuras, arte comum à região Nordeste. "Depois da transição, não fiquei mais tão presa. Não é o cabra macho, mas é a trava da peste. A reinvenção desses termos também é importante", conta.

A ideia do "cabra macho, viril e com muitos filhos", inclusive, é combatida pela professora. Estes e outros termos, segundo ela, são usados como ferramentas para controle dos corpos. "Essa tradição nordestina muito fechada, que os grandes centros até têm preconceito com ela, surgiu com uma catequese. Esses corpos que foram introduzidos aqui dessa forma, por essa trama colonial, podem virar o jogo. A gente pode virar o jogo quando desobedece o controle dos nossos corpos", afirma Tertuliana.

A estudante ainda sonha em voltar a viver em Salvador, e deixa nítido que o objetivo do seu trabalho e de outros artistas contemporâneos é "repensar a cultura nordestina" e ampliar os conceitos acerca dela. "É o momento de dizer que a tradição não se resume no controle do corpo e na catequese, nossa tradição está muito mais além disso", define a sertransneja.

Texto e imagens reproduzidos do site: huffpostbrasil.com