quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A química do vício


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 18 de fevereiro de 2026

A química do vício

A dependência provoca dramas destruidores, mas surgem novos caminhas para a cura. Dagomir Marquezi para a revista Oeste:

Todo prazer é químico. E pode viciar. Quando você toma a primeira cerveja, faz sexo pela primeira vez, ouve uma música que te faz feliz, toma uma droga que alivia uma dor, sai do shopping cheio de sacolas ou bate um recorde num game, você quer de novo e de novo. Se você controla a vontade de repetir, está apenas tendo um prazer. Se não controla, está viciado.

A ciência do vício ocupou uma edição inteira da revista Time. O tema é bastante complexo, pois os limites entre o desejo e a compulsão podem ser muito sutis. Existe uma conexão entre vícios e componentes emocionais, o que torna a questão ainda mais complicada.

O fenômeno não é novidade. “O uso de drogas está sendo registrado desde o início da civilização”, declarou Nora Volkow, diretora do Nida (National Institute on Drug Abuse, ou “Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas”), à revista Time. “Os humanos, no meu ponto de vista, sempre vão querer experimentar coisas que os façam se sentir bem.

Todos temos dois polos no cérebro que disputam nosso poder de decisão. Um é receptor do neurotransmissor dopamina, o mensageiro do prazer. Quando fazemos ou consumimos algo de que gostamos muito, nosso cérebro recebe uma carga de dopamina — e quer mais.

O D3 é um desses polos cerebrais especializados em receber dopamina. Quando uma pessoa consome substâncias como cocaína, metanfetamina ou nicotina, esses receptores se multiplicam querendo mais.

O polo oposto ao D3 é conhecido como Gaba (ácido gama-aminobutírico). Localizado na parte frontal do cérebro, é encarregado de nos dar racionalidade e gerar uma sensação de saciedade. O D3 quer sempre mais. O Gaba diz que já chega.

Macarronada com queijo

Vivemos entre esses dois polos. Pessoas com Gaba em falta tendem a se entregar aos vícios sem controle. Um remédio à base de vigabatrina, indicado normalmente contra epilepsia, aumenta o poder do Gaba e, portanto, da racionalidade.

Outro caso é o corpo estriado, uma região no meio do cérebro rica em receptores de dopamina. Quando comemos uma macarronada com queijo ralado, é o estriado que sinaliza que estamos tendo prazer. Quando a dopamina encontra um corpo estriado sem mecanismo de controle, passamos a querer mais e mais.

Além do equilíbrio corpo estriado/dopamina, existe um hormônio chamado leptina, liberado por células de gordura. É a leptina que nos dá a sensação de saciedade. É ela que diz “chega, pede a conta”. Quando não temos leptina em quantidade suficiente, a refeição não tem fim. No dia seguinte, pediremos outra macarronada, dessa vez com sobremesa. Estamos comendo por vício, não por necessidade.

Fotografando o prazer

Novas pesquisas e tecnologia possibilitam “fotografar” essas regiões de prazer no cérebro, como o D3, facilitando possíveis tratamentos. Um exemplo: tomografias revelaram que pessoas patologicamente obesas exibem hiperatividade nas regiões do cérebro que processam a comida, como a boca, a língua e os lábios.

O médico Martin Paulus, presidente do Instituto para Pesquisa Cerebral de Tulsa — no estado americano de Oklahoma —, declarou que pode predizer de 80% a 90% quem vai fraquejar num tratamento contra o vício só por examinar suas tomografias cerebrais. A compulsão se revela visualmente no exame.

Certos fatores agravam a dependência. Um deles é o estresse. Quando estamos estressados, a produção de Gaba, o fator racional que freia nossos impulsos, diminui. E os captadores de dopamina, como o D3, agem à vontade.

O que é um vício?

Mas, afinal, o que é um vício? A edição especial da revista Time procurou mostrar que esse terreno é cheio de sutilezas e zonas cinzentas. O uso compulsivo da internet e de videogames, por exemplo, não é considerado oficialmente um vício. O DSM — a “bíblia” psiquiátrica americana — classificou o jogo compulsivo como um “transtorno de dependência”.

Essas sutilezas se estendem também às consequências. Um opioide pode matar rapidamente. Compras compulsivas não matam — mas podem destruir uma vida financeira ou uma família. Games também não são letais como uma overdose de drogas, mas um jogador compulsivo pode parar de comer e dormir, arruinando sua saúde.

A rede Alcoólicos Anônimos sabe que ninguém quer um segundo copo de bebida, ou um terceiro, ou um quinto ou um décimo. Todos querem repetir a sensação de prazer do primeiro drinque, de novo e de novo. Não é uma questão de quantidade, mas de multiplicar o barato do primeiro gole.

Outro complicador é o fato de que certas compulsões estão ligadas a hábitos legais e até necessários. Comer, por exemplo. Quem come dois hambúrgueres duplos com fritas e um copão de milkshake pode ter uma indigestão, mas nada parecido com uma overdose. Se a pessoa fizer essa refeição todos os dias, aí vira vício e sua saúde vai se deteriorar rapidamente.

O vício não é, enfim, uma ciência exata. O melhor exemplo é a cannabis, conhecida popularmente como maconha. A cannabis transformou-se na década de 1930 na “erva do diabo”, capaz de provocar o enlouquecimento imediato do usuário, e seu uso se tornou punível com prisão. Neste século, a maior parte dos Estados americanos legalizou o uso recreativo. O presidente Donald Trump determinou que a substância seja transferida da categoria 1 — substâncias mais perigosas — para a categoria 3, com menos restrições e reconhecimento do uso medicinal. O vício passou a ser encarado como um hábito, mas que também pode se tornar compulsivo, com todas as consequências.

O fator adolescência

O que diferencia alguém propenso ao vício de outro que não se vicia? Existem dois fatores principais: a predisposição genética e o ambiente. Um filho de alcoólatra tem cerca de 50% de possibilidade de seguir seus passos. Quem não possui essa herança e trabalha em um bar, por exemplo, pode se tornar alcoólatra porque todos ao seu redor bebem. Existe um momento na vida, no entanto, em que todos correm esse risco, explicou à Time Danielle Dick, pesquisadora da Universidade Rutgers. “Na adolescência, as partes do cérebro que processam recompensa estão altamente desenvolvidas, o que significa que os adolescentes gostam de se engajar na busca de recompensa.”

Ao mesmo tempo, o córtex pré-frontal — a parte do cérebro que faz as pessoas pensarem em seus atos — ainda não se desenvolveu. É por isso que dizemos aos filhos adolescentes: “não se meta em encrencas”. E eles se metem. Essa é a fase que, neurologicamente, representa a porta de entrada para os vícios.

A epidemia de opioides

Alguns dos vícios são iniciados pelos próprios médicos. A edição da Time conta a história de Penny (nome fictício), que descobriu que o filho tinha câncer aos 13 anos de idade. Para aliviar as dores do tratamento, o médico receitou o opioide oxicodona. Sua função é interromper a mensagem da dor antes que chegue ao cérebro. O câncer cedeu, mas o cérebro do adolescente já estava condicionado à sensação de prazer do opioide. Aos 17 anos, o filho de Penny partiu para a heroína. Ela declarou dramaticamente que preferia o tempo em que ele estava com câncer. “Naquele tempo, ele tinha apoio e agora tem que procurar traficantes.”

Drogas para controlar a dor à base de opioides sintéticos, como a fentanila, se popularizaram a partir dos anos 1990. No começo, serviam para tratar doenças graves como o câncer. Depois foram receitados para situações banais, como uma simples dor lombar. O resultado foi que, em 2024, 150 pessoas morriam por dia nos EUA por abuso de opioides. O músico Prince foi uma dessas vítimas. A cantora brasileira Nana Caymmi foi outra. Pacientes passaram a mentir para os médicos, dizendo que sofriam dores terríveis, quando queriam apenas mais uma dose. Virou uma epidemia. Dos que tentaram se livrar do vício, entre 85% a 90% acabaram voltando.

Felizmente, para combater a dependência de opioides, existe outra droga chamada naltrexona, que bloqueia momentaneamente os receptores de prazer do cérebro. Em resumo, a pessoa não sente mais o barato. Em 2025, foi lançada como uma injeção que manteve esse efeito bloqueador por 28 dias, facilitando o tratamento. Uma versão subcutânea aplicada nas costas aumenta o efeito para três a seis meses.

Implantes dentro do cérebro

A edição da Time lembra que tão importante no combate aos vícios quanto os remédios é a chamada Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Ela ajuda a pessoa a focar o seu objetivo. Ioga, tai chi chuan, apoio emocional de animais, hipnoterapia e outras possibilidades desvinculadas de remédios também ajudam.

Existe mais um caminho — a neuroestimulação. Localizados os pontos onde estão os terminais de prazer, implantam-se terminais elétricos. O implante pode ser dentro do cérebro (estimulação cerebral profunda – ECP) ou do lado de fora (estimulação transcraniana – EMT). Esse método já é usado para tratar problemas como transtorno obsessivo-compulsivo, Parkinson, epilepsia e depressão.

Esse método parte do princípio de que o vício existe porque alguns circuitos cerebrais estão funcionando mal. O implante funciona para aliviar com impulsos elétricos a necessidade “anormal” de substâncias. É a “neuromodulação”. O método ainda é experimental, mas promissor. É o mais “pessoal” dos procedimentos, pois cada paciente tem um cérebro único que precisa ser mapeado em detalhes.

O difícil papel da família

O vício em drogas provoca um desastre não só na vida do usuário. As famílias dos viciados viram reféns de uma situação dramática. Quem tem um filho afundado na cocaína ou no crack fica entre o abandono ou o envolvimento doloroso. Muitos gastam suas economias em clínicas ou mesmo financiando as drogas por via indireta. Até por instinto, os melhores pais se compadecem de seus filhos e acabam se tornando seus cúmplices.

A Time conta a história de Diane, igual a tantas outras. O filho de Diane se machucou em um treino, começou a usar opioides para aliviar a dor e se viciou. Com o fim do tratamento, passou para a heroína. Seu peso caiu de 72 quilos para 59. Ele passava seus dias no sofá, com o braço cheio de marcas de picadas de agulha, tentando focar a atenção na TV. De vez em quando, voltava à clínica de reabilitação e aumentava a conta que já estava em US$ 70 mil (cerca de R$ 365 mil). Diane percebeu que estava literalmente “amando o filho até a morte”. E tomou uma decisão dura: “Entre numa clínica gratuita ou vai morar com um amigo. Aqui você não fica mais”. Resultado: o filho de Diane está num plano de recuperação de sete anos e hoje é proprietário de uma empresa em New Hampshire. A decisão de Diane foi fundamental.

Outro caso interessante ocorreu com Fred e Virginia Leamnson. O filho deles, Sean, estava também dependente de heroína. Fred e Virgínia começaram gastando US$ 6 mil (cerca de R$ 31 mil) só para cobrir o débito do filho com os traficantes. Depois vieram os tratamentos, as clínicas, os remédios — nada adiantava. Ironicamente, Fred é consultor financeiro e estava torrando o patrimônio da família com o vício do filho.

Fred e Virginia tomaram uma atitude passo a passo. Cortaram o plano de celular da família. Os filhos teriam que pagar por seu celular. Depois cortaram o seguro dos carros e os cartões de crédito. Mas o último e definitivo passo foi o mais surpreendente: apresentaram ao filho viciado um contrato definindo seus próximos passos. Sean estava numa situação crítica, caminhando para se tornar um sem-teto, com a saúde destruída. E todo Natal ele dava um jeito de piorar a situação e ser hospitalizado para atrair a piedade da família. Até que, num Natal, seus pais decidiram tirar férias, fechar a casa e sair da cidade. Foi quando Sean percebeu que não havia escolha e assinou o contrato. Internou-se e decidiu cuidar da própria vida.

O vício nosso de cada dia

Os casos acima são extremos, nos quais as pessoas se afundam na dependência e precisam de soluções radicais. Mas a possibilidade do vício está ao nosso redor, especialmente com substâncias legais que podem ser compradas no mercadinho da esquina.

Café

A cafeína em doses moderadas aumenta a longevidade, diminui o risco de diabetes e doenças cardíacas. Segundo a Clínica Mayo, um limite aceitável são 400 miligramas de cafeína por dia, o equivalente a quatro xícaras de café da bebida. Aí é preciso diferenciar — os americanos costumam tomar um café mais aguado que o espresso, que é super concentrado. Quatro espressos é a conta. A professora de neurociência Merideth Addicott pesquisou sobre a cafeína e declarou que a substância não vicia como, por exemplo, o álcool. A dependência é mais psicológica do que física. Se mede pelo quanto uma pessoa fica irritada em abstinência. De qualquer jeito, café em excesso pode trazer insônia, dores de cabeça, palpitações, irritabilidade e prejudicar o estômago. Merideth garante que o café não tem tanto impacto na nossa atividade cerebral como imaginamos, mas nessa parte é mais difícil de acreditar.

Tabagismo

Como um vício legalizado e amplamente difundido, o tabagismo já produziu sua cota de milhões de vítimas de câncer e enfisema. Essa situação parece estar mais controlada, através de campanhas educativas nos maços de cigarro e limitações de uso em ambientes públicos. Mas surgiu outro problema: o cigarro eletrônico, conhecido como vape. Que está atingindo os jovens com força. O pequeno aparelho esquenta uma combinação de nicotina, aromatizante e outros elementos químicos transformados em vapor. O vape ameaça viciar novas gerações com nicotina. Os fabricantes tiveram o cuidado de diminuir a mistura de carcinógenos encontrados no cigarro comum, mas outros perigos estão associados ao vape — doenças cardíacas e respiratórias e mutações genéticas na boca que podem levar ao câncer.

Alcoolismo

O álcool é outra “droga” legal. Existe uma condescendência social e cultural com a bebida alcoólica. Beber uma taça de vinho no jantar é uma coisa. “Tomar todas”, “encher a cara” é outra. Todos conhecem os Alcoólicos Anônimos, que reúnem usuários em grupos de apoio e estabelecem uma meta de abstinência, geralmente a partir de 90 dias. Mas, para casos graves e urgentes, existem tratamentos radicais. A substância dissulfiram, se misturada ao álcool, causa reações físicas como náuseas, vômitos e palpitações. Há a metadona (recomendada usualmente para viciados em heroína) e a naltrexona, que bloqueia os receptores cerebrais do prazer, tirando a vontade de beber.

Com os avanços da medicina e as mudanças de comportamento, o fato básico permanece o mesmo: temos um polo de prazer, outro de racionalidade. Quem souber equilibrar esses dois polos vai viver melhor.

Texto e imagens reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A Era do Tédio: lembranças de uma infância analógica.

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 16 de fevereiro de 20264

A Era do Tédio: lembranças de uma infância analógica.

Alarmistas dizem que as redes enlouquecerão as crianças; é a mesma coisa que diziam, quando eu era criança, sobre a televisão. É possível que 90% do conteúdo das redes seja lixo, mas os 10% que sobram têm valor inestimável. Roberto Motta para a Gazeta do Povo:

As décadas de 1970 e 1980 foram, para mim, a era do tédio. Quando eu era criança e adolescente, o mundo era analógico. Não existiam computadores, internet ou telefone celular.

Naquela época, no Brasil, não havia nem TV a cabo. Os aparelhos de videocassete ainda não estavam ao alcance da classe média. Se você era criança ou adolescente naqueles anos, suas opções de lazer eletrônico eram meia dúzia de canais da TV aberta, e só.

Ah, mas o mundo real era mais divertido naquele tempo, dirão alguns.

Não para mim.

Em 1973, minha família se mudou de uma casa em Salvador - onde jogávamos bola no quintal e vivíamos na rua, brincando e andando de bicicleta - para um apartamento, não muito grande, em Botafogo. Nosso principal lazer passou a ser a TV.

Meu pai amava ler. Herdei sua curiosidade; leio de tudo e me interesso por quase todos os assuntos (a exceção é o futebol). Isso me colocou em posição de vantagem em vários momentos da vida. Mas, naquele tempo, não havia como satisfazer de forma adequada minha curiosidade. Pertencíamos àquela parte da classe média que luta para não empobrecer; depois de pagar as contas e a escola das quatro crianças, sobrava pouco dinheiro. Não era possível comprar muitos livros.

Depois de voltar da escola e fazer o dever de casa, eu passava o tempo assistindo séries americanas, já antigas, na TV preto e branco do meu quarto.

Não era possível imaginar que um dia existiriam canais de streaming com um cardápio infinito. Filmes a gente via no cinema, exceto em ocasiões especiais, quando a TV aberta resolvia passar algum filme bom, geralmente nas noites de sexta ou sábado.

Muita gente deve ter vivido uma infância diferente. Mas a minha vida, a partir dos onze anos - e até que a adolescência acabasse, por volta dos dezessete - foi assim: horas infinitas de tédio e uma curiosidade sobre o mundo que nunca foi saciada.

Penso nisso todas as vezes em que vejo pessoas reclamando da internet e das redes sociais.

Acho curioso quando dizem que, por causa das redes, vivemos em uma bolha. Basta uma reflexão rápida para perceber que sempre vivemos em uma bolha. A bolha atual é resultado dos algoritmos das redes sociais. Antes, a bolha era criada pela grande mídia. Se agora vivemos nas bolhas do Facebook ou do X, antes vivíamos na bolha da Rede Globo. Nunca houve um tempo em que o cidadão médio vivesse fora da bolha porque, para sair da bolha, é preciso um esforço individual incomum em qualquer época.

Na verdade, se existe uma época na qual é possível sair da bolha, esse tempo é agora - basta a decisão de buscar o entendimento do mundo fora do discurso dominante. Basta usara internet e as redes de forma consciente. Essa é uma opção ao alcance de qualquer um. Quando eu era jovem, essa opção não existia. As fontes de informação eram os grandes jornais, um canal de TV e, talvez, uma ou duas revistas semanais.

Fim da história.

A segunda afirmação que me espanta é a de que vivemos com excesso de informações, e que isso tira o foco das crianças e adolescentes e impacta negativamente seu futuro. Não vou discutir esse prognóstico, mas ofereço uma consideração: a criança e o adolescente que fui um dia, se pudessem, escolheriam um milhão de vezes viver nos dias de hoje ao invés de viver na era do tédio das décadas de 1970 e 1980.

Imagine-se entrando em uma máquina do tempo, voltando a 1976 e dizendo àquele menino que eu fui - e que assistia, pela décima vez, o mesmo episódio de um seriado tolo sobre um golfinho amestrado - que ele poderia, com o apertar de um botão, aprender sobre qualquer assunto, sem custo, ou que poderia ler praticamente qualquer livro e ver qualquer filme que desejasse. O que você acha que o menino diria?

A curiosidade daquele menino permanece em mim. Escrevo esse artigo em uma das três telas do meu computador. Entre um texto e outro, vejo o vídeo de um coral cantando De Spiritu Sancto, música composta por uma abadessa no ano 1150; depois leio um artigo sobre o economista Eugen von Böhm-Bawerk e sua crítica à teoria marxista da exploração. Leio outro artigo sobre o segundo mandato de Trump. O autor cita um livro que me interessa; eu acho o PDF na rede e em segundos já o estou lendo. Entre uma tarefa e outra, assisto a excelentes produções de vídeo sobre o mercado imobiliário em Las Vegas, montanhismo de grandes altitudes, desenvolvimentos da física quântica e um trecho do debate entre o Arcebispo de Canterbury e o biólogo evolucionário e ateísta Richard Dawkins. Posso ler a qualquer momento textos de Gustavo Maultasch e Roberto Rachewsky, dois dos pensadores mais originais do país. Antes que o dia acabe, eu provavelmente terei explorado uma variedade de assuntos maior do que aquele garoto de 1976 teria visto em um ano inteiro.

Alarmistas dizem que as redes enlouquecerão as crianças; é a mesma coisa que diziam, quando eu era criança, sobre a televisão. É possível que 90% do conteúdo das redes seja lixo, mas os 10% que sobram têm valor inestimável.

A época em que vivemos é maravilhosa. A combinação de internet, telefone celular e redes sociais operou o milagre de colocar em nossas mãos, instantaneamente, o conhecimento e a arte da humanidade. A abundância de informações é uma bênção pela qual devemos agradecer todos os dias.

É assim que se sente o menino de 1976.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Do livro “O Sentido da Vida”

Coluna de Cláudio Nunes, do blog Infonet, de 13 de fevereiro de 2026

Sobre a obrigação da felicidade, o “morrer bem” e o sentido da vida

A vida de cada um de nós é a sua obra de arte. 

Para reflexão no Carnaval alguns parágrafos do livro “O Sentido da Vida”, de Contardo Calligaris.

“A experiência da vida é uma experiência criativa de uma obra de arte. A vida de cada um de nós é a sua obra de arte.”

O texto acima resume bem a reflexão passada pelo livro “O Sentido da Vida” entregue a editora pelo psicanalista, ensaísta e escritor Contardo Calligaris poucos dias antes de sua morte em março de 2021, na luta contra um câncer. Como bem escreveu um crítico literário, “o sentido da vida é um livro para aqueles que se atentam, se arriscam e se aventuram verdadeiramente pela vida. Entregue pelo autor poucos dias antes de sua morte, reúne três textos breves, e muito potentes, sobre a obrigação da felicidade, o “morrer bem” e o sentido da vida.

Algumas passagens do livro para reflexão:

“Uma morte bonita honra uma vida inteira”. Petrarca.

“…O que ficou para mim foi a mesma lição do verso de Petrarca da tia Rosalia: a vida não está acima de tudo, não é o valor absoluto. Tem uma série de coisas que estão acima da vida. Cuidado: isso não implica que a gente tenha que passar a vida se preparando para morrer “bem” ou para fazer “bonito”  na hora da morte.”

“O caráter efêmero da vida é uma coisa que encaramos sozinhos”

“Então, quando o indivíduo se torna realmente um valor maior do que a comunidade, é claro que a morte passa a ser uma experiência solitária e, sem dúvida alguma, aterradora e desesperadora. Por isso o indivíduo moderno – e moderno vale para os últimos duzentos anos – tem uma relação conturbada e atormentada com a transcendência, porque o caráter efêmero da vida é uma coisa que encaramos sozinhos.”

“Boçal é o cara que quer que o outro goze do jeito que ele pensa que é certo.”

“… se tem uma coisa que todos os psicoterapeutas têm comum, é que a especialidade do psicoterapeuta é buscar entender como valorizar a vida concreta sem precisar de uma transcendência. Ou seja, sem recorrer a valores externos à vida concreta do paciente. Sem esse princípio, você não tem psicoterapia; você tem uma forma ou outra de boçalidade. Boçal é o cara que quer que o outro goze do jeito que ele pensa que é certo. Todas as psicoterapias só têm esta ambição: buscar entender como, na vida concreta do paciente, é possível descobrir alguma coisa que a valorize, não fora da vida concreta do paciente, mas nela mesma. É por isso que a terapia acaba sendo um trabalho quase estético, um trabalho de recriação narrativa de uma vida, que dá atenção a vida de tal forma que ela se valoriza…”

 “A vida de cada um de nós é a sua obra de arte”

 “…Então essa época em que tantos ocidentais se debruçam sobre qual é a experiência da arte e do belo é também o momento em qu surge a ideia que eu acabo de vender: a de que a vida é a obra de arte de cada um, a mais importante, a mais valiosa e talvez também a única. A experiência da vida é uma experiência criativa de uma obra de arte. A vida de cada um de nós é a sua obra de arte.”

Texto reproduzido do site: infonet com br/blogs/claudio-nunes

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Jovens já começam a apresentar sinais de uma espécie em extinção


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 8 de fevereiro de 2026

Jovens já começam a apresentar sinais de uma espécie em extinção

A nova geração é incapaz de lidar com hostilidades. Luiz Felipe Pondé para a FSP:

A área de estudos do futuro, muitas vezes, é tomada por delírios. Ou por agentes que querem vender seu peixe tecnológico. Ou por gente que quer ninar as almas assustadas. Essa área não pode ser edificante porque se assim o for, perde o foco.

Pensar o futuro é olhar as condições materiais, sociais e econômicas que determinam o mundo e checar se elas deverão sofrer alguma mudança significativa. Se não houver indícios de tais mudanças, a tendência em questão deve permanecer e, possivelmente, se radicalizar. Vejamos.

As redes sociais estão causando transtornos nas democracias. Assim como a invenção da imprensa e a tradução da Bíblia para línguas vernáculas, por volta de 1500, foram algumas das causas das guerras religiosas na Europa, que, por sua vez, criaram condições materiais, sociais e políticas para o surgimento do Estado laico e da liberdade religiosa, depois de muito sangue derramado e destruição. O rádio catapultou o fascismo na primeira metade do século 20, e as redes estão estremecendo os mecanismos representativos nas democracias.

Esse processo vai mudar? Provavelmente não. O mundo digital está radicalmente monetizado e dificilmente deixará de existir. A tendência é que seus feitos sejam radicalizados e se frutifiquem em formas ainda desconhecidas.

Tentativas de regular implicam em perda de competitividade nas sociedades que reprimem os avanços na área. A Europa, em comparação com os Estados Unidos e a China, sabe bem disso. Esperemos, sim, mais transtornos, e a esperança de que alguma forma de acomodação ocorra.

É possível esperar que uma educação para esse impacto aconteça a curto prazo? Difícil crer. No Brasil, por exemplo, assim como na maior parte do mundo, a educação é um lixo em quase todas as áreas. Como esperar que crianças que mal sabem ler, escrever e contar possam enfrentar os transtornos sociais, econômicos e políticos que virão pela frente?

Com a entrada da inteligência artificial no mundo, em todas as suas esferas, inclusive na política, o processo tende a se agravar. Muito desemprego e muitas pessoas inutilizadas surgirão. O que fazer com elas? Ninguém sabe.

O mundo será dos idosos. Jovens serão raros. Os jovens já começam a apresentar sinais de uma espécie em extinção. Desordem cognitiva. Incapacidade de lidar com um meio ambiente hostil —vale salientar que o meio ambiente sempre foi hostil, do contrário, não existiria seleção natural.

Instabilidade emocional. Insegurança estrutural. Radicalização de comportamentos contrários ao convívio coletivo. Redução drástica na capacidade reprodutiva e na habilidade de garantir a própria sobrevivência. Enfim, todo o processo de adoecimento mental das gerações mais jovens deveria ser analisado desde o ponto de vista da seleção natural e da decorrente extinção de espécies não adaptadas.

Claro que jovens em risco de extinção implicam também na extinção da própria espécie, da qual eles são o futuro. A espécie sapiens nunca deveria ter sido compreendida como uma espécie racional, mas, sim, como passionalmente desequilibrada e tendendo à entropia. Entropia esta que vemos hoje em dia.

Por sua vez, essa redução do número de jovens é consequência das decisões individuais de mulheres e homens que chegaram à conclusão de que filhos são ônus e não bônus, o que, por sua vez, é desdobramento histórico necessário da emancipação feminina que tem, como um dos seus pilares, a redução do número de filhos a fim de facilitar a sobrevida das mulheres no mercado de trabalho.

Causa deste fenômeno é, também, a decisão de jovens, homens e mulheres, acerca do grande estresse que são os compromissos amorosos e sexuais excessivamente sólidos. O amor atrapalha os negócios. Os departamentos de compliance sabem bem disso.

Esse fenômeno vai mudar? A emancipação feminina vai acabar? Evidentemente que não. A menos que uma catástrofe leve a humanidade de volta ao neolítico e, assim, as mulheres voltem a ficar grávidas todo o tempo devido ao aumento de atividade sexual voluntária ou involuntária.

Por fim, o capitalismo é um sistema baseado em contratos de concupiscências. Concupiscência é um termo teológico usado pelo filósofo Agostinho para descrever a tendência do comportamento humano a buscar furiosamente seus objetos de desejo. Concupiscências são destrutivas porque fazem dos seres humanos crianças velhas loucas para atingir o que desejam. O capitalismo é a política da concupiscência. Você acha que isso vai mudar? Não.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Homens perfeitos são artigo raro

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 2 de fevereiro de 2026

Homens perfeitos são artigo raro

Serei o único que vê o salário da mulher como uma prova de amor? João Pereira Coutinho para a FSP:

Chega uma idade em que temos de ser honestos conosco mesmos. Cheguei a essa idade e sou obrigado a perguntar: serei um homem perfeito?

A resposta, temo bem, é "sim". Sou perfeito em matéria conjugal. Essa, pelo menos, é a teoria de Eve Simmons, uma autora inglesa que publicou recentemente o relato da sua triste experiência matrimonial. Para os interessados, o título é "What She Did Next" (Dialogue Books, 304 págs.). Não li, não tenciono, mas o resumo dos jornais é bibliografia suficiente.

Conta a autora que o ex-marido era um príncipe —apaixonado, solícito, companheiro, sensível. Seis meses depois, sumiu de casa sem aviso prévio. Queria o divórcio.

Eve Simmons sentiu-se enganada e perdida. Como era possível ter vivido nove anos de namoro com um estranho?

Mas depois, quando conversou com outras mulheres que passaram por traumas idênticos, rebobinou o filme da vida em conjunto e encontrou os cinco sinais problemáticos que toda mulher deve vigiar com ferocidade leonina. Que sinais são esses? Little Couto explica –e desmistifica:

1º "Ele ganha menos do que você —e isso o incomoda" – É uma praga entre os machos inseguros, afirma Eve Simmons: eles se sentem diminuídos com a carreira de sucesso da mulher.

Eu, pelo contrário, me sentiria aliviado. Sonho há vários anos viver às custas de uma. Ser, em poucas palavras, um elfo do lar: ficar em casa, com meus livros e filmes, acenando em roupão da janela para a patroa que sai cedo para trabalhar. Serei o único homem que vê o salário da mulher como uma prova de amor?

Se Eve me tivesse conhecido nos tempos de solteiro, eu jamais teria abandonado o casamento só porque a conta bancária dela era superior à minha. Abraçaria essa conta bancária com o amor e o carinho que ela merece.

2º "Ele nunca reclama" – O marido de Eve vivia sorrindo enquanto executava as tarefas domésticas mais variadas. Nunca reclamava. Um dia, por por uma questão banal, explodiu de raiva e disse à mulher o que Maomé não disse do toucinho.

Pobre Eve. Reclamar? É o meu nome do meio. Acordo reclamando do estado do corpo. Sigo reclamando do estado do mundo. Reclamo de coisas reais e irreais. E, se não tenho do que reclamar, até disso reclamo.

O ex-marido de Eve era um caso clássico de silêncio passivo-agressivo. Eu sou um caso raro de ruído ativo-agressivo. Só quando meu humor não está ao nível de Schopenhauer é que a família estranha e se preocupa. "Estará doente?", perguntam uns. "Ele me incluiu no testamento?", perguntam outros.
3º "Vocês tiveram um noivado longo… e um casamento grandioso" – Aconteceu com Eve. Nunca aconteceria comigo: casamentos grandiosos depois de noivados longos são cerimônias de encerramento.

Nessas matérias, sou um orientalista: o ideal era ter casamentos combinados em que noivo e noiva só se conhecem no altar. É um erro dar o nó quando a novidade já acabou há nove anos.

Pode haver surpresas desagradáveis com uma noiva que não escolhemos?

Pode. Mas prefiro o choque inicial à erosão lenta.

Casamentos grandiosos são uma contradição nos termos: a ideia da festa é receber dinheiro dos convidados, não é gastar dinheiro com eles. Além disso, nada é mais suspeito do que um amor que precisa de bufê, banda e drone para convencer os outros –e a si próprio.

4º "As mensagens de texto começam a mudar" – No início, as mensagens amorosas pingavam com frequência. Os enjoativos emojis também. Subitamente, tudo muda: a frequência, as palavras, o tom.
Não sofro desse mal. Minhas mensagens são sempre lacônicas, de preferência monossilábicas, para não alimentar expectativas. É melhor decepcionar cedo do que desaparecer tarde. O amor passa, mas um "ok" é para sempre.

5º "Vocês estão a tentar ter filhos (mas sem grande empenho)" – Eve queria ter filhos; ele se retraía; a intimidade se esvaziou.

Já eu adoro crianças. Sempre achei que o número certo fosse "mais uma". Por vontade própria, a minha casa seria uma creche: crianças por todo o lado, cuidando da logística, enquanto a minha senhora, munida de mais um cheque gordo, financiaria a experiência.

P.S.: Só mais uma coisa. Informo o leitor romântico que a vida de Eve teve um final feliz. Segundo o jornal "Daily Telegraph", encontrou um novo amor, casou e já foi mãe. Homens perfeitos são artigo raro, mas alguns de nós ainda andam por aí.

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domingo, 1 de fevereiro de 2026

Pensando em Nelson Rodrigues...


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 1 de fevereiro de 2026

Pensando em Nelson Rodrigues: apenas os imorais e neuróticos verão a Deus.

Ele notou a devastação do lugar da família na imaginação moral. Luiz Felipe Pondé para a FSP:

O Nelson Rodrigues deveria ser lido em cada lar, nas escolas, em cada enfermaria de hospital, nos cemitérios, em cada cama de casal, nas igrejas, na porta dos bares, nas confrarias de bêbados, nas escolas de freiras e nas casas das "meninas", ditas filhas da desgraça.

Mas não. Tentam apagá-lo das casas editoriais, chamam-no de reacionário e machista, veem nele um inimigo supremo do progresso moral, quando ele foi, na verdade, o profeta da morte dos gestos. E, ao contrário do que pensam os idiotas da objetividade, a moral é feita de gestos, não de ideias. Não existe moral sem gestos, enquanto ideias confundem a alma. Mesmo a imoralidade é feita de gestos e também é parte da moral. Se não existisse aquela, esta seria inútil e oca. Só os imorais, assim como os neuróticos, verão a Deus.

O patife, a vagabunda, a adúltera são seres morais, enquanto o idiota da objetividade é um sujeito, em termos morais, tão estéril quanto três desertos. Como Nelson mesmo dizia, o profeta é aquele que vê o óbvio. E o ululante. Nosso mundo moral se transformou em três desertos. O bem moral jamais pode ser objeto de promoção como é hoje em dia. No limite, o marketing torna as pessoas estéreis.

A obra do Nelson tem conceitos filosóficos. Em relação a conceitos filosóficos, a atitude dele é o gesto tímido, não a propaganda da posse desta inteligência filosófica. Um pouco como ele dizia a respeito do bem —o bem se envergonha de ser chamado pelo seu nome, esconde-se da plateia, prefere o anonimato. Se alguém o confrontar, morrerá de vergonha. Se puder, mentirá acerca de si mesmo, e esta mentira será o mais profundo ato de misericórdia. Qualquer um que olhar o bem nos olhos, cairá de joelhos, —ou, se não cair de joelhos, é porque já estará no inferno.

Mas a visão aguda da alma moral humana, no Nelson, toca o sublime. Sua crítica à educação sexual nas escolas, principalmente nas escolas "para frente" de freiras paulistas, deve-se à afirmação delas, segundo o Nelson, de que mesmo crianças de cinco anos podem e devem ter aulas de educação sexual. E aí vem o centro da argumentação delas —"não há mistério algum no sexo". Será?

Toda forma de sexo carrega em si algum nível de mistério, mesmo que seja sexo pago às meninas que tornam a vida de alguns homens menos solitárias. Sexo e felicidade não estão necessariamente relacionados. E isso já é, em si, um mistério, uma vez que, em grande parte das vezes, ele nos leva à infelicidade, mesmo que tenha sido por amor.

Nada há de "saúde" no sexo, portanto, não existe sexo saudável. Não é natural como "ter sede e beber água", como outras freiras diziam, segundo Nelson. Alguém pode imaginar mistério maior do que o sexo em meio ao voto do celibato? Quanto mais reprimido, mais poderoso. Dele, potencialmente, sai um outro ser humano.

O luto do sexo, principalmente se foi elemento constitutivo de um relacionamento romântico, nunca repousará.

Para os homens, o lugar do mistério está entre as pernas das mulheres. Quando não há mais interesse nesse mistério, parte do que é ser uma mulher se esvai como um animal que sangra por horas, ainda estando vivo. Agoniza, enquanto grita contra a injustiça do mundo.

Há no Nelson uma compreensão precisa do conceito filosófico de "imaginação moral". Tal conceito foi cunhado a partir de um famoso trecho da obra "Considerações sobre a Revolução na França", do autor britânico Edmund Burke, ao final do século 18, em que ele descreve o que viria a acontecer com os aposentos da rainha Maria Antonieta da França durante a Revolução Francesa.

Esta cena descreve a invasão do povo aos aposentos dela e, consequente, a vandalização de tudo aquilo que ela tinha ali. Roupas, acessórios, maquiagem, sapatos, cama, lençóis, espelhos. Burke, muito precisamente, percebe que uma vez tendo descoberto que a rainha era apenas uma mulher, logo descobririam que uma mulher é apenas um animal.

Aqui está o núcleo do conceito de imaginação moral. A moral não é um conjunto de ideias, mas hábitos, símbolos, cheiros, gostos, costumes, objetos estéticos, narrativas, medos, interdições, —enfim, fruto da imaginação e não da lógica ou do encadeamento de argumentos. Pois bem, o Nelson sabia disso, coisa que pouca gente importante sabe.

Nelson relata o que um jovem —a figura boçal criada pela contracultura, "a grande impostura"— disse certa vez. "O lar nada mais é do que cadeiras, mesas, louças". Nelson percebeu a devastação do lugar da família na imaginação moral. Hoje, essa devastação virou ciência, artefato de uso comum por parte dos inteligentinhos.

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sábado, 10 de janeiro de 2026

Fiilme O Agente Secreto concorre ao Globo de Ouro

Legenda da foto - O Agente Secreto chega ao Globo de Ouro
 com mais de 50 prêmios no currículo

Publicação compartilhada do site BBC NEWS BRASIL, de 10 de janeiro de 2026

O Agente Secreto chega mais forte que Ainda Estou Aqui ao Globo de Ouro?

Por Rute Pina (Da BBC News Brasil em São Paulo)

O filme brasileiro O Agente Secreto concorre ao Globo de Ouro neste domingo (11/1) já tendo mais de 50 prêmios nacionais e internacionais no currículo.

Até agora, o longa-metragem já conquistou 54 troféus em 35 premiações, incluindo Melhor Diretor e Melhor Ator no Festival de Cannes, e chega à premiação americana com uma campanha numericamente mais robusta do que a de Ainda Estou Aqui no ano passado.

Em 4 de janeiro de 2025, véspera do Globo de Ouro, o filme de Walter Salles havia vencido 17 prêmios em 12 festivais e premiações, no Brasil e no exterior.

O desempenho quantitativo ajuda a entender uma parte da força da campanha atual. Ainda Estou Aqui ganhou fôlego após a vitória de Fernanda Torres no Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz - Drama. O filme encerrou a temporada com 70 prêmios em 42 festivais.

Mas, àquela altura, o filme tinha apenas quatro meses de carreira: havia estreado no Festival de Veneza, em setembro de 2024, onde venceu o prêmio de Melhor Roteiro. A partir dali, construiu forte reconhecimento principalmente em festivais ibero-americanos.

Já O Agente Secreto estreou mundialmente em maio de 2025, no Festival de Cannes, e chega ao Globo de Ouro com oito meses de circulação internacional, o que amplia sua presença em festivais, premiações e campanhas de divulgação.

Desde que estreou em Cannes, o filme de Kleber Mendonça Filho vem acumulando reconhecimento de importantes associações de críticos norte-americanos, como o New York Film Critics Circle, a Los Angeles Film Critics Association e o National Board of Review.

As indicações deste ano no Globo de Ouro já são históricas. É a primeira vez que um filme brasileiro concorre em três categorias no Globo de Ouro: Melhor Filme – Drama, Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme – Drama.

Também é a primeira indicação do país na principal categoria da premiação. Em edições anteriores, produções brasileiras haviam sido lembradas apenas na disputa de Melhor Filme em Língua Não Inglesa.

Wagner Moura também se tornou o primeiro brasileiro indicado a Melhor Ator em Filme – Drama.

No ano passado, Ainda Estou Aqui concorreu ao Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, mas perdeu para Emilia Pérez. A vitória de Fernanda Torres, no entanto, impulsionou a campanha internacional do longa, que meses depois conquistaria o inédito Oscar de Melhor Filme Internacional para o Brasil.

Além dos prêmios tradicionais, O Agente Secreto também tem acumulado honrarias e menções divertidas e inusitadas.

Na quinta-feira (8/1), a gata Carminha recebeu o troféu Golden Beast ("Bicho de Ouro", em tradução livre), em reconhecimento às atuações das personagens Liza e Elis. O prêmio foi concedido pelo New York Film Festival, criado em 1963 e dedicado à celebração de filmes de destaque mundial.

Já o jornal americano The New York Times destacou a atuação da atriz Tânia Maria como uma das melhores de 2025, descrevendo-a como provavelmente a "melhor atuação com cigarro" do ano.

Embora as comparações entre os dois filmes brasileiros sejam inevitáveis, Dora Amorim, produtora executiva de O Agente Secreto, ressalta que cada obra percorre um caminho próprio.

"Cada filme tem a sua trajetória, o seu DNA. Mas é impossível não pensar nos dois juntos, porque no ano passado Ainda Estou Aqui fez uma trajetória histórica, e agora estamos vivendo algo semelhante com outro filme", afirmou.

Segundo ela, o fato de O Agente Secreto ser uma produção nordestina, realizada no Recife por uma produtora de pequeno porte, amplia o simbolismo do momento.

"Esse lugar é muito significativo para os técnicos do audiovisual brasileiro e também para os brasileiros, por causa da representatividade cultural", disse.

Amorim destaca ainda o impacto simbólico de ver um filme falado em português disputar espaço em premiações tradicionalmente dominadas por Hollywood.

"A gente cresceu assistindo a esses prêmios pela televisão. Ver um filme brasileiro ocupar esse espaço e as pessoas comentarem a atuação do Wagner é algo incrível para o reconhecimento da nossa cultura e do cinema como indústria."

Forte campanha nos Estados Unidos

A produtora explica que o desempenho internacional do filme também está ligado à estratégia de distribuição nos Estados Unidos. No país, o filme foi lançado pela Neon, distribuidora independente responsável por títulos como Parasita e Anora, vencedores do Oscar.

"O filme estreou em novembro, ao mesmo tempo no Brasil e nos Estados Unidos, e está indo muito bem lá fora. Hoje temos três pessoas da equipe em Los Angeles participando de encontros e sabatinas com membros da Academia", diz.

Para Amorim, as próximas semanas são decisivas para o futuro do filme, principalmente em relação ao Oscar, considerada a principal premiação do cinema.

"Esse é um momento de convencimento. Para votar, as pessoas precisam assistir ao filme. A indicação ao Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama foi algo incrível, que a gente não esperava, porque é a primeira vez que o Brasil chega a essa categoria."

O Agente Secreto também chega com a vantagem de Wagner Moura já ser conhecido internacionalmente. Ele já concorreu ao Globo de Ouro, em 2016, como Melhor Ator em Série – Drama por Narcos. Ele perdeu o prêmio para Jon Hamm, de Mad Men.

Além disso, o ator também tem uma carreira com participação em grandes produções internacionais, como Elysium e Guerra Civil.

Redes sociais, memes e engajamento

No ano passado, Ainda Estou Aqui contou com um "exército de likes", com brasileiros determinados a fazer bombar toda e qualquer postagem nas redes sociais sobre o filme.

Na madrugada de 6 de janeiro, por exemplo, logo após Fernanda Torres vencer o Globo de Ouro de Melhor Atriz – Drama, brasileiros comentaram e curtiram em massa as publicações do perfil da premiação.

Já uma foto de Torres publicada no perfil oficial do Oscar alcançou 1 milhão de curtidas e dezenas de milhares de comentários em menos de 24 horas.

Amorim avalia que, embora a campanha de O Agente Secreto não seja centrada nas redes sociais, o engajamento digital tem desempenhado um papel importante. "É a primeira vez que participo de uma campanha tão estruturada de divulgação também nas redes", afirmou.

Ela citou a repercussão de memes e postagens virais, como uma montagem de Wagner Moura caracterizado como personagem de Wicked, além da fala do ator durante a cerimônia em que apresentou o prêmio de Melhor Filme.

"Quando ele anunciou o vencedor e disse 'melhor filme estrangeiro' para os brasileiros, isso viralizou. Eles distinguem muito bem o que é estrangeiro, e acho que nós estamos começando a fazer essa distinção agora", disse. "Essas coisas surgem espontaneamente e acabam virando munição para a equipe trabalhar."

Já a atriz Tânia Maria, que cativou o público com a personagem Sebastiana, também tem sido objeto de memes e vídeos virais. "Esse burburinho só acontece quando as pessoas assistem. Para a gente, o boca a boca é essencial", afirmou.

Apesar das comparações com Ainda Estou Aqui, Amorim reforçou que se trata de trajetórias paralelas. "São diretores, histórias e pontos de partida muito diferentes. Acho que, no futuro, a lembrança vai ser positiva."

Embora distintos, os dois filmes são de época e dialogam com períodos históricos próximos, ainda que com abordagens diferentes.

O Agente Secreto já ultrapassou dez semanas em cartaz no Brasil e foi visto por mais de 1 milhão de pessoas. Já o filme de Walter Salles levou 6 milhões de pessoas ao cinema. "Que bom que, em dois anos, tivemos uma safra tão forte do cinema brasileiro", diz a produtora.

Texto e imagem reproduzidos do site: www bbc com/portuguese

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Encontro desmarcado com Fernando Sabino

Os textos de Fernando Sabino fazem um panorama da vida 
intelectual carioca e brasileira dos anos 1950/60

Editora Record lança edição especial de O encontro marcado para celebrar o centenário de Sabino. Imagem: Divulgação/Record

Fotos Acervo do autor/Cortesia

Artigo compartilhado do site da REVISTA CONTINENTE, de 11 de outubro de 2023

Encontro desmarcado com Fernando Sabino

Centenário de um dos grandes cronistas brasileiros é lembrado por um admirador de muitos anos

Por Marcelo Abreu*

No final dos anos 1970, o escritor Fernando Sabino assinava uma coluna dominical em vários jornais do país, entre eles o Diario de Pernambuco, intitulada Dito e feito. Eu lia e gostava tanto da coluna, que recortava o jornal e guardava os textos. Sabino era então um dos maiores vendedores de livros do Brasil. Era recomendado pelos professores de literatura do Ensino Médio como um dos ícones da crônica brasileira, junto com Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Rezende e Carlos Drummond de Andrade.

Em 1979, tornou-se best-seller com o romance O grande mentecapto. No início dos anos 1980, já na faculdade, comecei a ler seus livros. O primeiro foi A cidade vazia, coleção de crônicas que escreveu quando morou em Nova York nos anos 1940. E depois muitos outros: A inglesa deslumbrada, A companheira de viagens, Deixa o Alfredo falar etc. Por aquela época, Sabino esteve uma tarde no Centro de Artes da Universidade Federal de Pernambuco. Terminada a palestra, foi cercado por um grupo de estudantes e admiradores em busca de um autógrafo ou um contato mais próximo. Ao perceber o cerco, disse com seu usual bom humor: “Eu poderia ter sido apunhalado pelas costas, sem saber”.

Em 1989, ele esteve na então grande Livro Sete, lançando o livro de viagens De cabeça para baixo, numa noite memorável. A essa altura, eu já tinha lido o O grande mentecapto e o romance O encontro marcado, seu livro mais famoso, de 1956, e me deliciava com as histórias da Inglaterra, sobretudo. Alguns dos casos engraçados contados por Sabino, da época em que morou na ilha, fazem parte de um repertório que alegra o pensamento até hoje. É o caso de episódios impagáveis envolvendo as noites de chuva. Talvez a mais famosa seja a crônica intitulada A lua quadrada de Londres, reproduzida em várias coletâneas. Outro texto antológico é Basta saber Latim, sobre as confusões linguísticas em um congresso internacional do Pen Club.

Suas crônicas e histórias curtas representam também um belo panorama da vida intelectual carioca e brasileira dos anos 1950 e 1960, povoados por figuras como Jayme Ovalle, Vinícius de Moraes, Augusto Frederico Schmidt e o próprio companheiro de crônicas Rubem Braga.

Sabino nasceu em 1923, em Belo Horizonte, no dia 12 de outubro, apropriadamente no Dia da Criança. A infância, sempre esteve muito presente na obra dele, seja nas observações do cotidiano transformadas em crônicas, seja nas reminiscências processadas em textos como o romance O menino no espelho.

No inverno de 1991, eu estava morando em Nova York quando soube que Sabino se encontrava na cidade. Pensei imediatamente que seria uma pauta perfeita, o escritor já maduro revisitando a cidade onde morou na juventude e sobre a qual tanto escreveu. A informação chegou até mim através de Benito Romero, um pequeno empresário mineiro que vivia na cidade havia mais de 20 anos e “conhecia todo mundo”.

Vale a pena abrir um parêntese para explicar a figura. Benito se dizia amigo dos brasileiros famosos que circulavam em Nova York, a começar por ninguém menos do que Pelé, que na época mantinha um apartamento na cidade. A gente não acreditava muito nessas histórias. Mas algumas delas acabaram se confirmando: certa vez, deparei com ninguém menos do que Nelson Pereira dos Santos, ele mesmo, o grande pioneiro do Cinema Novo, na agência de viagens Benito, na Rua 45. Outra vez, lá chegou Cyro Baptista, renomado percussionista brasileiro, na época famoso por tocar na banda de Paul Simon, um dos maiores nomes do pop rock daquele momento, na turnê do disco The rhythm of the saints. Cauby Peixoto também apareceu por lá porque Benito promoveu shows dele em Miami e Nova York.

O próprio Pelé se casaria, em 1994, com uma cunhada de Benito. Portanto, nem tudo era conversa fiada. Então, quando Benito disse que era amigo do também mineiro Fernando Sabino e que o escritor estava na cidade, frequentando à noite uma casa noturna chamada Red Blazer, na Rua 45, tudo fazia sentido. Segundo se dizia, depois de alguns uísques, Sabino fazia questão de tocar bateria, acompanhando grupos de jazz (uma de suas paixões), sendo ele um admirador declarado do famoso baterista Gene Krupa.

Eu imediatamente pedi a Benito Romero que facilitasse um contato meu com o escritor, informando a ele que gostaria de fazer uma entrevista. Disperso entre os seus muitos negócios (uma pequena agência de viagens, uma pequena revista publicada em português, promoção de pequenos shows no próprio Red Blazer, comércio de produtos brasileiros etc.), Benito ia me levando com desculpas e não falava com Sabino. Umas duas semanas se passaram até que, temendo perder a oportunidade, saí cedo num domingo de manhã em direção a um hotel onde o escritor estava hospedado, pelo que me lembro também na área “brasileira” de Manhattan, talvez na Rua 50 (na época, tudo relacionado aos brasileiros se concentrava entre as ruas 45 e 50, no lado oeste). Apresentei-me na portaria e disse o nome de quem procurava. O recepcionista norte-americano o conhecia e disse: “Mister Sabino acabou de pegar um táxi para o aeroporto. Voltou para o Brasil com a mulher”. E assim, eu perdia a chance de fazer uma entrevista com Sabino num dos cenários mais sugestivos de sua trajetória como escritor.

Já nos anos 2000, como professor de um curso de Jornalismo, estimulava os alunos a lerem Fernando Sabino para observar as qualidades da prosa, clara, límpida, divertida, direta, grande inspiração para a modernização do texto jornalístico no Brasil, a partir dos anos 1950. O estímulo não despertava nenhum interesse aparente. Parecia que estava me referindo ao um nome obscuro do século XVIII. Teria a passagem de apenas algumas décadas levado o nome de Fernando Sabino ao caminho do esquecimento?

Seus livros não estão mais em destaque nas prateleiras, mas é verdade que isso não acontece somente com ele. De toda forma, uma nova edição de O encontro marcado, acaba de sair para comemorar o seu centenário de nascimento (o livro chegou à centésima edição em 2018). E as coletâneas das Melhores crônicas de Fernando Sabino, assim como os Melhores contos e Melhores histórias ainda estão disponíveis, excelentes introduções para quem quiser entrar no universo ao mesmo tempo divertido e poético do escritor mineiro.

Quando vou ao Rio de Janeiro, gosto de passar a pé pela pequena Rua Canning, que fica entre Copacabana e Ipanema. É lá que Fernando Sabino morava, num predinho estreito e antigo. Por algum motivo, o endereço saía em algumas edições de seus livros pela Record. Sempre fico pensando na injustiça de um dos maiores escritores brasileiros (em qualidade e em quantidade de vendas) passar décadas morando naquele prédio, enquanto milhares de profissionais liberais, sem o mesmo brilho, morarem em grandes apartamentos ali perto. Um testemunho da falta de valorização da vida intelectual no Brasil.

* MARCELO ABREU, jornalista e autor de livros de viagens.

Texto e imagens reproduzidos do site: revistacontinente com br

domingo, 4 de janeiro de 2026

B.B.: a transgressora.

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 4 de janeiro de 2026

B.B.: a transgressora.

Ainda no auge do seu tempo de ícone de um novo feminismo, já estragara tudo, entregando-se ao vício da dissidência: “Le féminisme ce n’est pas mon truc, moi, j’aime bien les mecs…”. Jaime Nogueira Pinto para o Observador:

Quando Brigitte Bardot irrompeu nos écrans com Et Dieu créa la femme nada ficou como dantes. “Um corpo selvagem, animal e livre irrompe no écran. Subverte e revoluciona os costumes sociais em França e em todo o mundo.” – escrevia o realizador e crítico Jean Douchet, um dos fundadores dos Cahiers du Cinéma –, enquanto um jornal inglês dizia que BB era “o maior choque europeu desde 1789”. Exagero, talvez. Mas o impacto da sensualidade e da reversão de papéis que Brigitte Bardot trazia atirava-a para a ribalta das grandes estrelas.

A estreia do filme de Roger Vadim na América de Eisenhower, do cardeal Spellman, de John Foster Dulles e do Código Hays também não prometia ser pacífica. O Código Hayes era o regulamento censório, prévio ou póstumo, que entre 1930 e 1968 vigorava em Hollywood, ditando inclusões, exclusões e cancelamentos. Em matéria de moral e bons costumes, pesava-se a nudez feminina, cronometrava-se a duração dos beijos e cancelavam-se indícios de “sexual perversity”. No resto, monitorizava-se a correcta definição e distribuição de bons e maus.

Ora, em Et Dieu créa la femme, Bardot oscilava entre a perversa invenção do Diabo para tentar os americanos de bem e a assombrosa criação do Bom Deus. Talvez por isso em Dallas, no Texas, a polícia local – precocemente preocupada com a especial sensibilidade de certas minorias ou num outro assomo racista mais compatível com a época – tenha proibido os afro-americanos de ver a fita, considerada demasiadamente excitante para a natureza (intrinsecamente “vitalista”?) do homem negro.

Não se pode dizer que os brancos (supostamente mais fortes, ou mais fracos) lhe tivessem ficado indiferentes. De resto, veja-se a história: Juliette tem 18 anos, é órfã, e vive em Saint Tropez; os homens que a seguem e perseguem são Eric (Curd Jürgens), Antoine (Christian Marquand) e o seu irmão mais novo, Michel, (Jean-Louis Trintignant). Juliette ama Antoine, assedia Eric, e acaba por casar com Michel, que a ama, mas que não é correspondido. Isto entre cenas, ao tempo, escandalosas e com um final ambíguo.

Marlene Dietrich, a Lola de Der Blaue Engel (1930), de Joseph von Sternberg, ou Ava Gardner, a Southern belle de The Killers (1946), um filme de Robert Siodmak a partir de um conto de Hemingway, eram mulheres fatais; BB, algures entre a femme fatale e a pin-up, era outra coisa, encarnava todo um outro tempo e toda uma outra liberdade.

A má menina de boas famílias

Bardot vinha de uma família católica, abastada, conservadora. Era uma “menina bem”, cujo nascimento, em 28 de Setembro de 1934, saíra na muito pouco inclusiva secção “Vida Social” de Le Figaro. Os avós estavam ligados à Indústria e aos Seguros.

“Fui educada de um modo muito burguês, muito severo. Frequentei um colégio católico. Era vigiada por uma governanta. Nunca saía sozinha. Fui muito bem-comportada até aos 15 anos”.

Brigitte faz estas confidências, mais tarde, a Jean Cau, acrescentando que tinha sido então, precisamente aos 15 anos, que começara a sair da linha: “Bruscamente, tive vontade de me libertar”.

Andou no Conservatório em cursos de dança e começou a aparecer como modelo de fotografia. Em 1950, com 16 anos, foi capa da revista Elle.

Foi aí que a viu Roger Vadim, nascido Roger Vladimir Plemiannikov, filho de um aristocrata fugido da Rússia dos bolcheviques. Dois anos depois, cumpridas as exigências do pai Bardot – que o russo abraçasse o catolicismo e arranjasse emprego – casava-se com ela.

A grande mudança

Quando saiu Et Dieu créa la femme, no Outono de 1956, dois episódios marcaram a França e a Europa: em Budapeste, depois de manifestações estudantis contra o governo comunista de Mathias Rakosi, reprimidas a tiro pela polícia secreta, estalava um levantamento popular; no Egipto, na crise que sucedera à nacionalização por Nasser do Canal do Suez, tropas anglo-francesas ocupavam a zona do Canal para marcharem sobre o Cairo.

Na Hungria revoltada, o comunista moderado Imre Nagy, um ex-primeiro-ministro patriota, era chamado ao poder. Kruschev denunciara Estaline e os seus crimes no 20º Congresso do Partido Comunista e esperava-se que Moscovo, em fase pós-estalinista, se abrisse a um acordo com os insurrectos.

Nada disso aconteceria: os húngaros pagariam cara a revolta; afinal, a brutalidade e o desprezo pelas fronteiras e pelos direitos humanos não eram um “desvio estalinista” ao “humanitarismo marxista-leninista”, mas um atributo fundacional e funcional do modelo comunista. Quanto ao Suez, quando os paraquedistas franceses e ingleses pareciam prontos a tomar o Cairo, Eisenhower condenou a operação: os Estados Unidos queriam o fim dos impérios coloniais do Velho Mundo.

E se a revolta húngara e a sua repressão levaram muitos intelectuais e militantes comunistas europeus à dissidência e Suez marcou o princípio do fim dos impérios europeus, o filme de Vadim e Bardot foi sinal de uma mudança na cultura e nos costumes, ao apresentar como protagonista uma mulher que fazia com os homens o que tradicionalmente os homens faziam com as mulheres É verdade que, na História – de Messalina a Catarina da Rússia – as mulheres poderosas sempre tinham usado o seu poder (e, em suplemento, os seus dotes físicos e agudeza mental) para dominarem o “mundo dos homens”; mas BB fazia-o agora despreocupadamente, frivolamente, frente às câmaras.

Em 1959 protagonizava La femme et le Pantin, com o nosso António Vilar, e em 1960 aterrava em Lisboa para promover o filme entre “um dilúvio de chuva e de admiradores”. Vieram, entretanto, os filmes mais sérios da Nouvelle Vague, como La Verité e Le Mépris, a partir dum romance de Alberto Moravia.

Mais tarde, em 1967, estoirava o escândalo do sussurrado Je t’aime, moi non plus, com Serge Gainsbourg.

Houve ainda comédias épicas, como Viva Maria, com Jeanne Moreau e George Hamilton, e, em 1973, Les Pétroleuses, também com a Moreau.

Antes de fazer 40 anos, BB retira-se do cinema e volta-se para novos amores, lançando uma campanha contra os maus-tratos e a matança das focas bebés, prelúdio do seu grande empenho na defesa dos animais.

Paralelamente à vida artística, fica uma vida privada agitada, com quatro casamentos e muitas aventuras, levando Raymond Cartier a escrever no Paris Match com uma severidade moral inusitada: “Brigitte Bardot é imoral da cabeça aos pés”

Divorciada de Vadim em 1957, casa com Jacques Charrier, em Junho de 1959. Depois, em 1966, desposa o milionário alemão Gunter Sachs, separando-se três anos depois. Só voltará a casar em 1992, com Bernard d‘Ormale. Entretanto, foi tendo casos, muitos casos, com homens mais ou menos conhecidos.

Porém, as indulgências progressistas que toda esta transgressão de linhas vermelhas da moral convencional, do papel tradicional da mulher e do tratamento dado aos animais lhe deveria garantir ficariam em quase nada perante a sua imperdoável transgressão de outras linhas vermelhas. É que, aparentemente, a nova moralidade não se mostra particularmente compassiva com a liberdade desregrada, ou com os prevaricadores da sua intocável cartilha.

Entre “Le P.A.N.” e Le Pen

Assim, na Comédia da grande comunicação, parece não haver nada, nem mesmo o voto de pesar do P.A.N. pela morte de uma grande defensora dos animais, que possa redimir BB do inferno a que a condenaram as suas simpatias pela direita radical. O Le Monde lembra os seus “Trente ans de simpathie pour l’extrême droite” e o The Guardian denuncia, como pecado capital, o que Brigitte escreveu no seu livro Mon BBcédaire, publicado pouco antes de morrer: que o Rassemblement National era o “único remédio para a agonia da França”, um país que, por causa das políticas no poder e da imigração descontrolada, estava a ficar “chato, triste, submisso, doente, arruinado, devastado, ordinário e vulgar”.

Se a sua liberdade não tivesse teimado em ensombrar um percurso libertário que tinha tudo para ser imaculado, Brigitte Bardot podia agora ascender calmamente ao céu laico do progressismo de referência. Mas não. O desviacionismo era nela uma coisa endémica. Tanto que, ainda antes de incorrer no pecado capital de pensar abertamente à direita, ainda no auge do seu tempo de ícone de um novo feminismo, já estragara tudo, entregando-se ao vício da dissidência:

“Le féminisme ce n’est pas mon truc, moi, j’aime bien les mecs…”.

Enfim, fica a fé na consoladora distância entre a Justiça Divina e os nossos pensamentos e julgamentos carnais.

Que o supremo Criador de toda a beleza, de toda a alegria e de toda a liberdade a receba na sua infinita Misericórdia.

Texto reproduzido do blog: otambosi blogspot com

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Jesus não é só um objeto de fé, ...também ...campo acadêmico de estudos


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 21 de dezembro de 2025

Jesus não é só um objeto de fé, mas também um campo acadêmico de estudos.

Aquele mais tarde chamado de "O Cristo" —o ungido—, ao contrário do que muita gente pensou e pensa por aí, era um judeu "liberal" que nunca pensou em inventar nenhuma religião nova. Luiz Felipe Pondé para a FSP:

Jesus existiu? Essa pergunta, hoje, não é só ultrapassada, ela é cafona. Até o século 19, existiam autores que tentaram pôr em dúvida a existência histórica de Jesus Cristo, mas, hoje, ninguém sério mais faz isso.

Claro que uma coisa é você saber que houve um judeu chamado Jesus no período do segundo templo de Jerusalém, no qual a Israel antiga estava sob o domínio romano. Outra é você crer que ele ressuscitou. Este relato já não faz parte do conjunto de evidências que sustentam a existência histórica de Jesus de Nazaré.

Por outro lado, narrativas como aquela em que o discípulo cético Tomé pede a Jesus que mostre a ele suas chagas para que ele as toque, a fim de provar que Jesus havia voltado da morte com seu próprio corpo, é orgânica com o conjunto de crenças judaicas da época.

Para os judeus, vencer a morte era voltar dela com o corpo —e não apenas vagar por aí como uma alma penada. Espíritos de mortos vagando no mundo tinham em toda esquina. Quem criou essa narrativa conhecia esse conjunto de crenças da época.

A fortuna crítica sobre Jesus é vastíssima e de alto nível. Para quem estuda religiões, é sabido que o substantivo "religião" tem vários sentidos. Por exemplo, religião é uma coisa para uma senhorinha católica que reza o terço e vai à missa. É outra coisa para o rabino estudioso e responsável pela vida espiritual de uma comunidade judaica. E ainda outra para um estudioso do fenômeno histórico que costumamos chamar de religião para facilitar o entendimento entre nós.

Em português, temos alguns volumes excelentes sobre o personagem histórico e o seu contexto social, político e espiritual.

O livro "Jesus Fora do Novo Testamento: Uma Introdução às Evidências Primitivas" de Robert R. Van Voorst, da editora Biblioteca Teológica, é rico no tratamento do personagem histórico Jesus a partir de fontes clássicas, judaicas, canônicas e pós-canônicas.

O livro "Jesus", do historiador israelense David Flusser, pela editora Perspectiva, é indispensável. Entre outras características, um dos eixos argumentativos centrais é a constatação de que o que está descrito nos evangelhos sinóticos —Marcos, Mateus e Lucas— é historicamente consistente com a época, seja em suas estruturas de poder dentro da sociedade israelita de então, seja no tocante ao ensino de um judeu típico da sua época, como era Jesus.

Aquele mais tarde chamado de "O Cristo" —o ungido—, ao contrário do que muita gente pensou e pensa por aí, era um judeu "liberal" que nunca pensou em inventar nenhuma religião nova.

Vale lembrar que, naquele tempo, o judaísmo era uma religião como qualquer outra. Isto é, qualquer um poderia se tornar judeu sem toda a questão da linhagem matrilinear tão conhecida atualmente. A rigor, a ideia de partida era trazer novos convertidos para o messias judeu recém-chegado.

Outro fator importante é que o termo "o Cristo", ou "o ungido", era uma categoria política. Por isso, os romanos olhavam com desconfiança —ungido era o rei de Israel, visto naquele momento como um possível inimigo do imperador. Não foi à toa que colocaram na cruz, em forma de deboche, que Jesus era o rei dos judeus.

Outro título, esse escrito por especialistas do Brasil na área, é o volume "Jesus de Nazaré: Uma Outra História", da editora Anna Blume, com apoio da Fapesp, organizado por André Leonardo Chevitarese, Gabrielle Cornelli e Mônica Selvatici. Distante de qualquer tratamento teológico ou movido pela fé, a coletânea traz um olhar "outro", ou mesmo "estranho", para o personagem histórico antigo, o "homem divino da Galileia".

Um volume essencial que temos traduzido no Brasil é "O Jesus Histórico: Um Manual", organizado por Gerd Theissen e Annette Merz, pela editora Loyola. Este volume enfrenta todos os campos de estudos acadêmicos sobre a figura histórica de Jesus: as fontes cristãs e não cristãs, a avaliação dessas fontes, o contexto da época, as relações políticas, as diversas figuras do Cristo, o messias judeu para alguns, herege para outros, o curador de doenças e milagreiro, o profeta, o líder político, o rebelde, o mestre de sabedoria, o Jesus histórico como fonte da cristologia nos primórdios do cristianismo.

Há estudos também da igreja primitiva em tradução no Brasil, como os três volumes magistrais de James D. G. Dunn, "O Cristianismo em seus Começos", pela editora Paulus.

Enfim, Jesus não é só um objeto de fé, ele é um campo acadêmico de estudos de peso, que exige uma vasta erudição e muito folego. Um campo atravessado por polêmicas ricas, estimulantes e intermináveis.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Doença da fama: “encolhimento” de Ariana Grande, morte de Rob Reiner

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 18 de dezembro de 2025

Doença da fama: “encolhimento” de Ariana Grande, morte de Rob Reiner.

A interminável lista de celebridades com graves problemas ou levadas pela droga agora tem um duplo homicídio chocante e as vítimas do "efeito Ozempic”. Vilma Gryzinski: 

Marilyn Monroe e Kurt Cobain se suicidaram; John Lennon e Selena foram assassinados; James Dean morreu num acidente de carro com apenas 24 anos; a droga levou Janis Joplin, Jim Morrison, Jimi Hendrix e River Phoenix, e o álcool envenenou Amy Winehouse aos 27 anos. É impossível não pensar nessa lista vendo dois casos chocantes do momento: a quantidade de mulheres famosas que simplesmente “desaparecem”, como a cada vez mais frágil Ariana Grande, e o duplo assassinato do ator e diretor Rob Reiner e sua mulher, Michelle Singer, degolados pelo próprio filho

Mesmo pelos padrões de Hollywood, o violento homicídio é um fato estarrecedor, ao qual nem sequer se aplica o clichê da frase “daria um filme”. Nem nas piores produções de terror o tabu profundamente arraigado do matricídio e do patricídio é quebrado.

Mas, como nos filmes, a impressão de que alguma coisa ia muito mal foi testemunhada por figuras conhecidas do show business, convidadas para uma festa de fim de ano pelo humorista e ex-apresentador de um conhecido programa de entrevistas, Conan O’Brien.

A festa foi no sábado e Nick Reiner, que não estava na lista, mas acabou sendo incluído a pedido do pai, preocupado em deixá-lo sozinho em meio a surtos de fúria. Circulou entre os convidados, incomodando muita gente, incluindo a atriz Jane Fonda, com três perguntas inconvenientes: “Qual é seu nome? Qual é seu sobrenome? Você é famoso?”.

O dono da casa, que ironicamente estava dando a festa para deixar para trás um ano ruim, incluindo o grande incêndio de Los Angeles que o obrigou a ser evacuado de casa, tal como outros nomes do mundo do show business, acabou pedindo que se retirasse. Pai e filho brigaram feio.

SEQUESTRADO ENTRE HIPPIES

Em lugar de mais um episódio em que o filho, drogado a ponto de ter ido morar na rua a certa altura de seus 32 anos, constrangia os pais, o caso terminou no esfaqueamento de Rob e Michelle, alvos de múltiplos golpes e de degolamento. Antes de morrer, a mãe apontou Nick como o culpado. Em lugar de irem jantar com Barack e Michelle Obama no domingo, como estava combinado, o casal assassinado foi para o necrotério.

O caso, obviamente, tem aspectos específicos, mas se enquadra na categoria geral da “maldição da fama”, uma espécie de síndrome de distúrbios emocionais que afeta não apenas celebridades, mas também seus filhos, colocados na posição de cavar um lugar à sombra dos pais famosos e conviver eternamente com a ideia de que são “nepobabies”, uma expressão nova para um fato antigo, o favorecimento aos descendentes de figuras de destaque.

Um dos casos mais famosos aconteceu quando um dos filhos de Marlon Brando, Christian, matou o namorado da irmã por parte de pai, Cheyenne. Christian até tentou ser ator, mas como encarar a profissão quando se é filho de Marlon Brando? E ainda por cima com uma infância infernal, em que o pai e a mãe divorciados se enfrentaram numa das piores disputas por guarda de menor da história do cinema (a mãe sequestrou o menino e tentou escondê-lo com um grupo de hippies da Califórnia, mas um detetive contratado por Marlon Brando o encontrou).

Depois de um casamento que durou duas semanas com Deborah Presley, suposta filha natural de Elvis Presley, Christian Brando acabou morrendo de pneumonia aos 49 anos.

TEMPORADA CANCELADA

São histórias que parecem tornar irrelevante o caso de Ariana Grande, cuja magreza evoca uma reação unânime: está sofrendo de algum distúrbio alimentar. Ariana é naturalmente esguia, com ossatura delicada e tipo frágil como uma bonequinha de porcelana, mas a magreza atual não tem nada de natural.

Ela também está no centro de ondas de boatos, inclusive sobre um relacionamento com Cynthia Erivo, alimentado pela linguagem corporal durante a temporada de divulgação de Wicked: Parte 2. Quando Cynthia pulou como uma feroz pantera negra sobre o fã idiota que havia agarrado Ariana, a reação rápida e a atitude protetora aumentaram ainda mais a boataria. A temporada de divulgação acabou cancelada.

É errado fazer diagnósticos à distância, sobre pessoas cuja ficha médica não é conhecida, mas são de domínio público os efeitos da pressão pelo emagrecimento das mulheres do mundo do show business, inclusive as que começaram a carreira precocemente, ainda crianças ou adolescentes, como Ariana, com sua garganta angelical, capaz de atingir o registro vocal mais agudo da voz humana.

Distúrbios alimentares são uma doença mental e devem ser tratados com extrema seriedade, inclusive porque têm um componente social muito forte e hoje são incentivados pelos casos espantosos de mulheres famosas que perdem dezenas de quilos e desfilam seus novos corpos com orgulho. Inclusive quando não parecem nada saudáveis, como Kelly Osborne, apresentadora de programas de televisão e filha do metaleiro Ozzy Osborne, morto em julho passado.

Kelly exibe o corpo típico do emagrecimento não saudável: cabeça desproporcional ao corpo, ossos que parecem furar a pele dos ombros e peito encovado. Ela emagreceu 38 quilos com cirurgia de redução do estômago e outros tratamentos, incluindo medicação. A mãe dela, Sharon Osborne, praticamente virou outra pessoa com o Ozempic.

Outra transformação impressionante é da comediante Amy Schumer, com um histórico de luta de uma vida inteira contra a balança. Ela apagou das redes sociais todas as “fotos de gorda”. É como se um pedaço de sua vida desaparecesse. Com o emagrecimento, anunciou também o fim do casamento.

Os remédios para emagrecer que explodiram no mundo são um espetacular avanço no combate à diabetes e aos males do excesso de peso, mas é óbvio que podem induzir a um culto nada saudável à magreza excessiva, sem nenhuma relação com as pessoas que são naturalmente magras.

Em 1983, a cantora Karen Carpenter morreu aos 32 anos. Pesava 35 quilos. A integrante do grupo The Carpenters foi um dos primeiros casos de ampla divulgação de anorexia, até então um distúrbio pouco conhecido.

FORÇAS INCONTROLÁVEIS

Distúrbios alimentares são diferentes de quem tem “mania de regime” e agora se vê com um medicamento que parece milagroso, incomparável com tudo o que existiu antes para cortar os quilos a mais que praticamente todas as mulheres enxergam nos próprios corpos. É bom e saudável se cuidar, é doentio se tornar obcecado com isso. Difícil é estabelecer as fronteiras.

As pressões sociais pelo emagrecimento são forças praticamente incontroláveis, só contrabalançadas por uma vida interior sólida e uma autoimagem capaz de se sustentar em pé sem o julgamento dos outros.

Imaginem como essas forças se concentram em quem vive na frente das câmeras e tem cada punhado de gramas extras controlado tanto por críticos quanto por fãs. Até mulheres lindas e naturalmente magras que entraram para a realeza desencadeiam suspeitas de anorexia, como Kate, a princesa de Gales, e Letizia, a rainha consorte da Espanha.

A “doença da fama” se manifesta em regimes brutais para emagrecer, uso descontrolado de drogas, comportamentos autodestrutivos. Num caso extremo, sem antecedentes, contribui para os distúrbios mentais graves que levaram um filho a assassinar a mãe e o pai. Nem em Hollywood parece possível.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com