sábado, 10 de novembro de 2018

Condições e significado da revolução, por Hannah Arendt

Hannah Arendt em um retratao tomado em 1949. (FRED STEIN GETTY)

Publicado originalmente no site El País Brasil, 9 de novembro de 2018 

Condições e significado da revolução

Em um ensaio que permaneceu inédito durante meio século, Hannah Arendt investiga a relação entre liberdade e processos revolucionários

Por Hannah Arendt

A palavra revolução — como qualquer outro termo do nosso vocabulário político — pode ser usada em sentido genérico, sem levar em conta a origem da palavra nem o momento temporal em que o termo foi aplicado pela primeira vez a um fenômeno político concreto. O pressuposto básico de semelhante uso é que, independentemente de quando e por que o termo apareceu, o fenômeno a que alude tem a mesma idade da memória humana. A tentação de usar a palavra em sentido genérico é particularmente forte quando falamos de “guerras e revoluções” ao mesmo tempo, porque de fato as guerras são tão antigas quanto a história da humanidade desde que temos testemunho dela.

Talvez custe trabalho usar a palavra guerra em outro sentido além do genérico, mesmo que seja somente porque sua primeira aparição não pode ser datada no tempo e nem localizada no espaço, mas não existe uma desculpa semelhante para o uso indiscriminado do termo revolução. Antes das duas grandes revoluções que aconteceram no fim do século XVIII e do surgimento do sentido específico que adquiriu em seguida, a palavra ocupava um lugar de destaque apenas no vocabulário do pensamento e da prática política. Quando encontramos o termo no século XVII, por exemplo, está ligado estritamente ao seu significado astronômico original, que se refere ao movimento eterno, irresistível e recorrente dos corpos celestes; a utilização política era metafórica e descrevia o retorno a um ponto pré-estabelecido, por conseguinte, um movimento, um retorno a uma ordem predeterminada. A palavra não foi usada pela primeira vez quando estourou na Inglaterra o que podemos chamar efetivamente de revolução e Cromwell se erigiu como uma espécie de ditador, mas em 1660, durante a restauração da monarquia, depois da derrubada do Parlamento Remanescente (Rump Parliament). Mas mesmo a Revolução Gloriosa, o acontecimento graças ao qual o termo encontrou seu lugar, de forma muito paradoxal, na linguagem histórico-política, não foi concebida como uma revolução, mas como a restauração do poder monárquico à sua antiga retidão e glória.

O fato de a palavra revolução significar originalmente restauração é mais do que mera curiosidade semântica

O verdadeiro significado do termo revolução, antes dos acontecimentos do final do século XVIII, se manifesta talvez mais claramente na inscrição presente no Grande Selo da Inglaterra de 1651, segundo a qual a primeira transformação da monarquia em república significou: “Freedom by God’s blessing restored” [liberdade restaurada pela bênção de Deus]”.

O fato de a palavra revolução significar originalmente restauração é mais do que mera curiosidade semântica. Nem sequer as revoluções do século XVIII podem ser entendidas sem indicar que estouraram acima de tudo com a restauração como objetivo e que o conteúdo dessa restauração era a liberdade. Nos Estados Unidos, nas palavras de John Adams, os homens que participaram da revolução tinham sido “chamados [a ela] sem haver previsto e não tiveram outra escolha a não ser fazê-la sem ter uma inclinação prévia”; a mesma coisa se verifica em relação à França, onde, nas palavras de Tocqueville, “teria cabimento acreditar que o objetivo da iminente revolução seria a restauração do Antigo Regime, não sua derrocada”. E foi no curso das duas revoluções, quando seus atores adquiriam consciência de que tinham embarcado em uma empresa completamente nova e não no regresso a uma situação anterior, que a palavra revolução adquiriu, portanto, o seu novo significado. Foi Thomas Paine, nem mais nem menos, que ainda fiel ao espírito anterior propôs com toda a seriedade chamar de “contrarrevoluções” tanto a Revolução Norte-americana quanto a Francesa. Eu queria liberar esses acontecimentos tão extraordinários da suspeita de que com eles se tinha dado vida a começos completamente novos, assim como da rejeição motivada pela violência com a que tais acontecimentos se tornaram irremediavelmente ligados.

É muito provável que tenhamos esquecido a expressão de um horror quase instintivo na consciência daqueles primeiros revolucionários diante de algo completamente novo. Isso é possível em parte porque estamos perfeitamente familiarizados com o entusiasmo dos cientistas e filósofos da Idade Moderna por “coisas que nunca haviam sido vistas antes e ideias que nunca tinham ocorrido a ninguém até a data”.

O que aconteceu no fim do século XVIII foi, na verdade, uma tentativa de restauração e recuperação de antigos direitos e privilégios que acabou justamente no contrário

É também porque nada do que aconteceu no curso dessas revoluções é tão notável e tão surpreendente quanto o enfático destaque feito em relação à novidade, repetida várias vezes por atores e espectadores ao mesmo tempo, insistindo que nunca se havia produzido até então nada comparável por seu significado e grandeza. A questão crucial e complexa é que o enorme pathos da nova era, o Novus Ordo Seclorum, que ainda aparece escrito nas notas de um dólar, se impôs somente quando os atores da revolução, em boa parte contra sua vontade, chegaram a um ponto de não retorno.

Assim, o que aconteceu no fim do século XVIII foi, na verdade, uma tentativa de restauração e recuperação de antigos direitos e privilégios que acabou justamente no contrário: no desenvolvimento progressivo e na abertura de um futuro que desafiava qualquer tentativa posterior de agir ou pensar em termos de movimento circular ou rotativo. E enquanto a palavra revolução foi transformada radicalmente no processo revolucionário, algo semelhante aconteceu, mas infinitamente mais complexo, com a palavra liberdade. Embora com ela não se pretendesse indicar nada mais do que a liberdade “restaurada pela bênção de Deus”, continuaria se referindo aos direitos e liberdades que hoje associamos com o governo constitucional, o que é adequadamente chamado de direitos civis. Entre estes não se incluía o direito político de participar nos assuntos públicos. Nenhum dos outros direitos, incluindo o direito de ser representado para fins tributários, foi resultado da revolução, nem na teoria nem na prática. O revolucionário não era a proclamação de “vida, liberdade e propriedade”, mas a ideia de que eram direitos inalienáveis de todos os seres humanos, independentemente do local onde vivessem ou do tipo de governo que tivessem. E mesmo nessa nova e revolucionária extensão para toda a humanidade, a liberdade não significava mais que a autonomia diante de todo impedimento injustificável, isto é, algo essencialmente negativo. Os direitos civis são resultado da libertação, mas não constituem em absoluto a autêntica substância da liberdade, cuja essência é a admissão na esfera pública e a participação nos assuntos públicos.

Nenhuma revolução, independentemente da amplitude com que abre suas portas às massas e aos oprimidos, nunca foi iniciada por eles

Nenhuma revolução, independentemente da amplitude com que abre suas portas às massas e aos oprimidos — les malheureux, les misérables ou les damnés de la terre, como os chamamos em virtude da retórica grandiloquente da Revolução Francesa — nunca foi iniciada por eles. E nenhuma revolução jamais foi obra de conspirações, de sociedades secretas ou de partidos abertamente revolucionários. De modo geral, nenhuma revolução é possível onde a autoridade do Estado está intacta, o que, nas condições atuais, significa ali onde se pode confiar que as Forças Armadas obedecerão às autoridades civis. As revoluções não são respostas necessárias, mas respostas possíveis à delegação de poderes de um regime; não a causa, mas a consequência do desmoronamento da autoridade política. Em todos os lugares em que se permitiu o desenvolvimento descontrolado desses processos desintegradores, geralmente durante um período prolongado de tempo, podem acontecer revoluções, desde que exista um número suficiente de pessoas preparadas para o colapso do regime existente e para a tomada do poder.

Hannah Arendt (1906-1975) é uma das pensadoras mais influentes do século XX. Este texto é parte do ensaio La Libertad de Ser Libres, publicado recentemente na Espanha pela editora pela Taurus.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Redação do Enem aborda manipulação de usuários na internet

Estudantes chegaram cedo para realizar a prova em uma universidade de Brasília
Foto Valter Campanato/Agência Brasil

Publicado originalmente no site da revista CartaCapital, em 04/11/2018

Redação do Enem aborda manipulação de usuários na internet

Por Deutsche Welle

Entre os textos usados para reflexão, figurava o artigo "A silenciosa ditadura do algoritmo", de Pepe Escobar, publicado por CartaCapital

O tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2018 foi "Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet", informou o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pela prova.

Mais de 5,5 milhões de estudantes estão inscritos para a realização do exame em mais de 1,7 mil municípios. Este domingo 4 é o primeiro dia de provas, quando, além da redação, os candidatos respondem a 45 questões de linguagens e outras 45 de ciências humanas.

O texto da redação deve ser dissertativo-argumentativo, com opinião fundamentada com explicações e argumentos em até 30 linhas. Os candidatos desenvolvem o texto a partir de uma situação-problema, bem como subsídios oferecidos por textos motivadores.

Segundo o portal G1, entre os quatro textos motivadores apresentados neste ano, dois abordam diretamente a questão de algoritmos: "A silenciosa ditadura do algoritmo", de Pepe Escobar e publicado por CartaCapital, e "O gosto na era do algoritmo", escrito pelo jornalista Daniel Verdú, do jornal El País.

Segundo professores de redação consultados pela Agência Brasil, o tema da redação neste ano é complexo, mas atual, tendo sido trabalhado em muitas escolas.

O assunto veio à tona principalmente depois da eleição do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em 2016, quando dados de milhões de usuários do Facebook foram usados pela consultoria britânica Cambridge Analytica para desenvolver técnicas de direcionamento de informações que teriam beneficiado a campanha do republicano.

A professora de redação Carol Achutti, do curso online Descomplica, lembra que o tema foi intensamente observado também nas últimas eleições no Brasil. "É uma inovação. Colocaram um dedinho na ferida. Por isso achei importante levantar essa discussão."

Segundo Achutti, a escolha tem um caráter diferente dos anos anteriores. "O recorte escolhido é quase político. Não é social como estamos acostumados", afirma. Em edições passadas, a redação abordou temas como imigração, Lei Seca, violência contra a mulher, intolerância religiosa, racismo e, no ano passado, formação educacional de surdos no país.

A professora alerta, porém, para o risco de os estudantes confundirem manipulação de dados na internet com propagação de notícias falsas, as chamadas fake news – que podem ser mencionadas na argumentação, mas não entendidas como tema central da redação.

Achutti afirma que o texto dos candidatos poderá argumentar sobre questões mundiais, como as eleições americanas, bem como sobre marketing dirigido nas redes sociais. "Quem for muito partidário e se inflamar pode ser parcial e tangenciar o tema", adverte.

Por sua vez, Tatiana Nunes, professora de redação e língua portuguesa do Colégio Mopi, no Rio de Janeiro, diz que o tema era "mais do que aguardado" neste ano. Para ela, a abordagem escolhida foi "muito bem feita, mas bastante delicada". "O estudante terá de estar bem preparado para fazer essa leitura crítica do que está sendo pedido no tema."

Coordenador pedagógico do Vetor Vestibulares, Rubens César Carnevale alerta que, ao escrever sobre o assunto, o estudante precisa ter cautela para não fugir de discussões atuais e não usar informações falsas na hora de argumentar.

"Os candidatos precisam tomar cuidado com aquilo que chamamos de coerência externa. O aluno que citar alguns dados e fatos que não sejam pertinentes ao contexto e que não sejam verdadeiros poderá perder pontos", aponta ele, que foi corretor da redação do Enem por três anos consecutivos, de 2014 a 2016.

Enem 2018

A prova deste domingo começou a ser aplicada às 13h30 (no horário de Brasília), e a maioria dos participantes tem 5 horas e 30 minutos para terminá-la – com exceção de candidatos que têm direito a tempo adicional, como deficientes auditivos.

Os primeiros alunos a deixarem o local de prova relataram ao jornal O Globo que as 90 questões de ciências humanas e linguagens abordaram temas como feminismo, nazismo, escravidão, o golpe de 1964 e a crise de refugiados.

O exame segue no próximo domingo, dia 11 de novembro, quando os estudantes terão de responder a questões de ciências da natureza e matemática.

A nota do Enem poderá ser usada para concorrer a vagas no ensino superior público pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e a bolsas em instituições privadas pelo Programa Universidade para Todos (ProUni), bem como para participar do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).

Texto e imagem reproduzidos do site: cartacapital.com.br

A silenciosa ditadura do algoritmo

Mark Zuckerberg em 2008: os algoritmos levam a uma direção bem clara 
Foto: Brian Solis/Flickr Mark Zuckerberg

Publicado originalmente no site da revista Carta Capital, em 20/10/2016 

A silenciosa ditadura do algoritmo

Por Pepe Escobar | Tradução: Inês Castilho

Em sociedades digitalizadas, decisões cruciais sobre a vida são tomadas por máquinas e códigos. Isso multiplica a desigualdade e ameaça a democracia

Vivemos todos na Era do Algoritmo. Aqui está uma história que não apenas resume a era, mas mostra como a obsessão pelo algoritmo pode dar terrivelmente errado.

Tudo começou no início de setembro, quando o Facebook censurou a foto ícone de Kim Phuch, a “menina do Napalm”, símbolo reconhecido em todo o mundo da Guerra do Vietnã. A foto figurava em post no Facebook do escritor norueguês Tom Egeland, que pretendia iniciar um debate sobre “sete fotos que mudaram a história da guerra”.

Não só o seu post foi apagado, como Egeland foi suspenso do Facebook. O Aftenposten, principal jornal diário da Noruega, propriedade do grupo de mídia escandinavo Schibsted, transmitiu devidamente a notícia, lado a lado com a foto. O Facebook pediu então que o jornal apagasse a foto – ou a tornasse irreconhecível em sua edição online. Antes mesmo de o jornal responder, artigo e foto já haviam sido censurados na página do Aftenposten do Facebook.

A primeira ministra norueguesa, Erna Solberg, protestou contra tudo isso em sua página do Facebook. Também foi censurada. O Aftenposten então sapecou a história inteira em sua primeira página, ao lado de carta aberta a Mark Zuckerberg, assinada pelo diretor do jornal, Espen Egil Hansen, acusando o Facebook de abuso do poder.

Passaram-se 24 longas horas até que o colosso de Palo Alto recuasse e “desbloqueasse” a publicação.

Uma opinião embrulhada em código

O Facebook empenhou-se ao máximo para controlar os danos depois do episódio. Isso não alterou o fato de que o imbróglio “menina da Napalm” é um clássico drama do algoritmo, como ocorre na aplicação de inteligência artificial para avaliar conteúdo.

Como outros gigantes da Economia de Dados, o Facebook deslocaliza a filtragem de dados para um exército de moderadores em empresas localizadas do Oriente Médio ao Sul da Ásia. Isso foi confirmado por Monika Bickert, do Facebook.

Esses moderadores têm um papel no controle daquilo que deve ser eliminado da rede social, a partir de sinalizações dos usuários. Mas a informação é então comparada a um algoritmo, que tem a decisão final.

Não é necessário ter PhD para perceber que esses moderadores não têm, necessariamente, vasta competência cultural, ou capacidade de analisar contextos. Isso para não mencionar que os algoritmos são incapazes de “entender” contexto cultural e certamente não são programados para interpretar ironia, sarcasmo ou metáforas culturais.

Os algoritmos são literais. Em poucas palavras, são uma opinião embrulhada em código. E no entanto, estejamos atingindo um estágio em que a máquina decide o que é notícia. O Facebook, por exemplo, conta agora apenas com o algoritmo para definir quais histórias coloca em destaque.

Pode haver um lado positivo nessa tendência – como o Facebook, o Google e o YouTube usarem sistemas para bloquear rapidamente vídeos do ISIS e propaganda jihadista semelhante. Logo estará em operação eGLYPH – um sistema que censura vídeos violam supostos direitos autorais por meio  “hashing”, ou codificação para busca rápida. Uma única marca será atribuída a vídeos e áudios considerados “extremistas”, possibilitando assim sua remoção automática em qualquer nova versão e bloqueando novos uploads.

E isso nos traz para um território ainda mais turvo; o próprio conceito de “extremista”. E os efeitos, sobre todos nós, de sistemas de censura baseados em lógica algorítmica.

Como as "Armas de Destruição Matemática" controlam nossa vida

É neste cenário que um livro como Weapons of Math Destruction [ou “Armas de Destruição Matemática”] de Cathy O’Neil (Crown Publishing), torna-se tão essencial quanto o ar que respiramos.

O’Neil lida com a coisa real; é PHD em Matemática em Harvard, ex-professora do Barnard College, ex-analista quantitativa num fundo de hedge antes de reconverter-se a pesquisadora e blogueira no mathbabe.org.

Modelos matemáticos são o motor de nossa economia digital. Isso leva O’Neil a formular seus dois insights decisivos – que podem surpreender legiões de pessoas que veem as máquinas como simplesmente “neutras”.

1) “Aplicações baseadas em matemática e que empoderam a Economia de Dados são baseadas em escolhas feitas por seres humanos falíveis”.

2) “Esses modelos matemáticos são opacos, e seu trabalho é invisível para todos, exceto os cardeais em suas áreas: matemáticos e cientistas computacionais. Seus vereditos são imunes a disputas ou apelos, mesmo quando errados ou nocivos. E tendem a punir pobres e oprimidos, enquanto tornam os ricos mais ricos em nossa sociedade”.

Daí o conceito de Armas de Destruição Matemática (WMDs), de O’Neil; ou de o quanto modelos matemáticos destrutivos estão acelerando um terremoto social.

O’Neil detalha extensivamente como modelos matemáticos destrutivos microgerenciam vastas faixas da economia real, da publicidade ao sistema prisional, sem falar do sistema financeiro (e dos efeitos posteriores à interminável crise de 2008).

Esses modelos matemáticos são essencialmente opacos; não responsáveis; e miram acima de toda “otimização” das massas (consumidoras).

A regra de ouro é – o que mais seria? – seguir o dinheiro. Como diz O’Neil, para “as pessoas que executam os WMDs”, o “feedback é a grana”; “os sistemas são construídos para devorar mais e mais dados, e afinar suas análises de modo a despejar nele mais e mais dinheiro”.

As vítimas – como nos ataques de drone na administração Obama – são mero “dano colateral”.

Paralelos entre o cassino financeiro e os Big Data são inevitáveis – e é útil o fato de que O’Neil tenha trabalhado nos dois setores.

O Vale do Silício segue o dinheiro. Vemos nele os mesmos bancos de talentos das universidades de elite norte-americanas (MIT, Stanford, Princeton), a mesma obsessão por fazer o necessário para juntar mais e mais dinheiro para a empresa empregadora.

As Armas de Destruição Matemática favorecem a eficiência. “Justiça” não passa de um conceito. Computadores não entendem conceitos. Programadores não sabem codificar um conceito – como vimos na história da “menina do Napalm”. E também não sabem como ajustar algoritmos para refletir equidade.

O que temos é o conceito de “amizade” sendo medido por likes e conexões no Facebook. O’Neil soma tudo; “Se você pensa no WMD como indústria, injustiça é o que está sendo expelido pela fumaça da chaminé. É uma emissão tóxica.”

Mande um fluxo de caixa, já

No fim, é a Deusa do Mercado que regula tudo – premiando eficiência, crescimento e fluxo de caixa sem fim.

Mesmo antes do fiasco da “menina do Napalm”, O’Neil já apontara o fato crucial de que o Facebook determina, na realidade, e segundo seus próprios interesses, o que todos veem – e aprendem – na rede social. Nada menos que dois terços dos norte-americanos adultos têm perfil no Facebook. Quase a metade, afirma relatório do Centro de Pesquisa Pew, conta com o Facebook para parte, ao menos, das notícias que leem.

A maioria dos norte-americanos – para não falar da maioria dos 1,7 bilhão de usuários do Facebook espalhados pelo mundo – ignora que o Facebook canaliza o feed de notícias. As pessoas de fato acreditam que o sistema compartilha instantaneamente, com sua comunidade de amigos, qualquer coisa que é postada.

O que nos traz, mais uma vez, à questão chave no front das notícias. Ao ajustar seus algoritmos para modelar as notícias que as pessoas veem, o Facebook tem agora tudo o que é necessário para jogar com todo o sistema político. Como observa O’Neil, “Facebook, Google, Apple, Microsoft, Amazon têm todos uma vasta quantidade de informação sobre grande parte da humanidade – e os meios para nos dirigir para onde queiram”.

Estrategicamente, seus algoritmos não têm preço, é claro; segredo comercial supremo, não transparente.; “Eles fazem seus negócios nas sombras”.

Em sua recente e propagandeada viagem a Roma, Mark Zuckerberg disse que o Facebook é “uma empresa high-tech, não uma empresa jornalística”. Não é bem isso. O aspecto mais intrigante do fiasco da “menina do Napalm” pode ser o fato de que Shibsted, o grupo de mídia escandinavo, está planejando investir um dinheiro enorme na criação de um novo fórum social para derrotar – quem? – o Facebook. Prepare-se para uma guerra novinha em folha no fronte do WMD.

Texto e imagem reproduzidos do site: cartacapital.com.br

Ney Matogrosso e seu livro de memórias

Aos 77 anos, Ney Matogrosso lança suas memórias, mas preservando sua intimidade
e sem querer escandalizar metade da MPB Foto: Leo Aversa / Agência O Globo

Publicado originalmente no site da revista ÉPOCA, em 04/11/2018

Em livro de memórias, Ney Matogrosso narra sua relação com o divino, o sexo, a liberdade e o autoritarismo

Vira-lata de raça – com pesquisa, interlocução e organização do poeta e escritor Ramon Nunes Mello – traça o caminho do artista: uma história de recusa de limites

Por Leonardo Lichote

As primeiras palavras de Vira-lata de raça (Tordesilhas), livro de memórias de Ney Matogrosso, são “sempre reagi ao autoritarismo”. As últimas, uma projeção do epitáfio futuro: “Viveu livre!”. Na linha que liga passado e futuro, infância e maturidade, o volume — com pesquisa, interlocução e organização do poeta e escritor Ramon Nunes Mello — traça exatamente um caminho que se mostra em suas duas pontas: uma história de recusa de limites. O uso de drogas servia a isso, bem como a relação de Ney com o divino, sua vida sexual e, evidentemente, sua persona no palco e sua trajetória artística. Na página 99: “Na recepção dos hotéis preencho a ficha de hóspede assim: ‘artista’. Não escrevo ‘cantor’, pois não quero me limitar”.

“Liberdade é a única coisa na qual acredito. É minha maneira de estar na Terra, encarnado aqui”, afirmou o cantor, ou melhor, o artista de 77 anos, que olha para o relato exposto em Vira-lata de raça e reconhece ali essa jornada pela liberdade. “A vida é uma jornada, o ponto final é a evolução espiritual. É o que eu sempre idealizei em todos os momentos. As drogas eu usei com essa função, principalmente o lisérgico. O que se abria para mim com o ácido era a compreensão de Deus. A primeira vez que tomei um, estava em Búzios, na praia. Olhei para a areia na minha mão e entendi Deus, a criação, que tudo é importante e tem o mesmo valor.”

Ney Matogrosso aos 3 anos, quando morava na Bahia 
Foto: Arquivo pessoal

A revelação de Deus nos grãos de areia, o infinito no minúsculo — é disso também que trata o livro. Os pedaços de couro descartados que o jovem hippie Ney usava para fazer as joias artesanais nas quais exercitava o olhar plástico presente ao longo de sua carreira — e que já se mostrava nos desenhos da infância. A troca do verso de “Pro dia nascer feliz” por “f... pra ser feliz”, brincadeira que fazia nos shows sempre que na plateia estava o autor da canção (o amigo Cazuza, com quem teve um relacionamento amoroso de três meses, “uma paixão que se consumiu nas labaredas dela própria”). A resposta aos colegas de Secos & Molhados, que no início da banda o enquadraram por seus “exageros” no palco — estavam gerando boatos de que eles seriam “um grupo de bichas”: “Digam que vocês não são”. Detalhes que pintam o retrato de Ney, harmonizando tons de transgressão e sensibilidade.

Estreia do mítico grupo Secos & Molhados
 Foto: Ary Brand

Vira-lata de raça foi feito sobretudo a partir de depoimentos dados por Ney ao longo de sua vida e compilados agora por Nunes Mello — o organizador também tirou material de três longas conversas com o artista. Por isso, o livro — que será lançado no dia 8 em São Paulo, na Saraiva do Shopping Pátio Paulista, e no dia 13 no Rio de Janeiro, na Travessa do Shopping Leblon — mira menos em revelar fatos e nomes e mais em expor um panorama extenso da vida, da personalidade e do pensamento de Ney. Até porque o artista sempre se expôs com muita clareza:

“Só existe uma verdade, não é? Não tenho versões da minha vida. Então quase tudo que está no livro eu já tinha falado. Afinal, na primeira entrevista que dei na vida, quando o jornalista se aproximou de mim, pensei: ‘O que eu vou falar?’. E entendi que eu tinha de falar a verdade. Porque assim você vive em paz com você mesmo, tranquilo com sua consciência, não vai ter ninguém atrás de você levantando escândalos sobre sua maneira de ser, de viver”, defendeu Ney, lembrando que há uma biografia sua sendo produzida pelo jornalista Julio Maria.

O limite da exposição, Ney diz, é sua intimidade. Um conceito que, para ele, é mais flexível do que para a maioria das pessoas. Ele associa intimidade a relacionamentos amorosos — já que não impõe barreiras quando o assunto recai sobre drogas, sexo ou política. “As coisas que eu preservo e são da minha intimidade jamais saberão, porque não tem como fazer levantamento disso. Intimidade é falar em nomes. Não quero escandalizar a sociedade, não quero fazer estremecer a MPB.”

No livro, porém, ele se permitiu deter-se sobre dois desses relacionamentos. Há um capítulo centrado em Cazuza. E também palavras dedicadas a Marco de Maria, seu companheiro por 13 anos. “Nunca tinha falado sobre o Marco”, contou Ney, referindo-se ao homem que recentemente foi chamado de seu “ex-marido” num jornal. “Isso é uma loucura. Nunca olhei para ele como marido, nem ele. Nunca passou pela minha cabeça chamar alguém de marido ou que alguém me chamasse de marido.”

Com Cazuza, um de seus amores, em 1986 
Foto: Cristina Granato

Cazuza é lembrado num encontro na praia, quando Ney tinha 39 anos e viu “o moleque de 17 anos, cabelo comprido de cachos, parecia um anjo que havia despencado do céu, aquele pivetezinho da praia, um tremendo vagabundo”, “lindo” e “apaixonante”. E também como o amigo, já debilitado, que ele visitava para massagear-lhe os pés. Ou para quem havia dirigido o show Ideologia, todo pensado para tratar com elegância a fragilidade física que a aids já impunha ao compositor.

“Depois, vi numa entrevista Cazuza dizer que aprendeu comigo a respeitar o palco”, disse Ney. “Eu respeito o palco. Tentei transmitir isso para ele. Não é só subir e fazer loucura, mesmo sendo rock’n’roll. É um lugar onde você está tendo uma manifestação, está manifestando algo. Eu não cuspo no palco. Nunca cuspi. Jamais cuspiria. Pode ser uma bobagem para muita gente. Para mim não é.”

Ney lembrou que foi ele quem sugeriu que Cazuza incluísse naquele show a então inédita “O tempo não para” (“Essa música tem de encerrar o show, escuta o que ela diz”, falou na época). “Cazuza foi um dos grandes amores da minha vida, mas não foi o único. Talvez sua grande importância tenha sido me abrir uma possibilidade. Porque até ali eu não tinha nenhum interesse de namorar, de morar. Com ele tive a percepção de que era um amor e de que portanto poderia ser uma coisa mais próxima durante mais tempo.”

No livro, Ney relata outros trabalhos que fez como diretor, como quando sugeriu que os garotos da iniciante RPM explorassem a sensualidade, tirando os agasalhos e ficando sem camisa. Com Chico Buarque, ele não foi tão ousado, mas mesmo assim encontrou resistência, disse, ao lembrar um episódio que não está no livro: “Como a imagem dele ia ser projetada no telão durante o show, sugeri: ‘Chico, bota um colírio nesse teu olho que ele vai faiscar no telão’. Ele disse que não queria. Aquele olho lindo ia enlouquecer a multidão”.

O domínio de palco que Ney aprendeu a ter ao longo da vida — e a força que manifesta nele — vem do exercício de domar uma energia interna que sempre sentiu. Uma energia que, de tão intensa — ele contou —, acreditou que fosse levá-lo à loucura. “Tinha medo na adolescência, porque percebia dentro de mim uma violência que me assustava. Temia que, no dia em que eu liberasse isso, não voltaria mais. Viraria um assassino, um psicopata.”

“Durante certo tempo, olhava para as fotos dos Secos & Molhados e não me reconhecia, achava aquilo muito diferente de mim. Pensei ter dupla personalidade, achei que era esquizofrênico. Mas entendi que aquilo era uma manifestação que era necessário que fosse agressiva, senão eu teria sucumbido. Porque alguns públicos foram muito agressivos.”

Vira-lata de raça traça, portanto, essa jornada de delicadeza e agressividade. Seu ponto de partida é o menino reprimido pelo pai militar, descrito no livro como “a maior autoridade que enfrentei na minha vida”. Seus passos mais recentes mostram o artista que não se permite capturar nem pela patrulha identitária — a polêmica com o cantor pernambucano Johnny Hooker, que atacou Ney por sua declaração “gay o caralho, eu sou um ser humano”, está no livro — nem pela desonestidade do MBL — um membro do grupo tirou uma foto com ele sem se identificar e divulgou a imagem afirmando que Ney apoiava o impeachment de Dilma Rousseff.

“Você não pode mais estar relaxado no mundo”, afirmou Ney. Para ele, hoje somos mais caretas do que éramos nos anos 60, 70 e 80. “Acabamos de eleger o Bolsonaro, isso é um sintoma dessa mentalidade mais conservadora. Não estou com medo, não vou plasmar medo. Mas estou atento a ele, observando”, disse. “Por outro lado, vivi num mundo em que todo mundo era igual, havia o universal. Hoje é cada um na sua caixa. Quem é gay é gay, quem é feminista é feminista. Começamos a nos desprender uns dos outros, quando na minha cabeça tudo era uma coisa só. Tem um lado meu que entende isso. Essas pessoas talvez necessitem se desprender do todo para conseguir mais visibilidade, mais respeito. Mas não deixo de pensar que estamos perdendo o encanto de sermos todos uma coisa só, numa panela só.”

 Beijo no palco com Caetano Veloso  (Foto: Ary Brand)

Texto e imagens reproduzidos do site: epoca.globo.com

A beleza é um prodígio do cérebro

Uma turista posa nos jardins do Museu Rodin, em Paris, em setembro de 2015.

Publicado originalmente no site Brasil El País, em 29 de outubro de 2018  

A beleza é um prodígio do cérebro

O belo não existe no mundo em que vivemos, ouvimos ou tocamos. Não reside em nada do que nos cerca. Só está na mente dos seres humanos

Por Francisco Mora 

Quando escuto em um grande auditório o último movimento da Nona Sinfonia de Beethoven, tocada por uma grande orquestra, e com um grande coral, experimento "algo" que me transporta. É algo sublime, algo que me domina, me subjuga, me torna pequeno. Também não posso evitar esse outro sentimento diferente, que deixa meus olhos colados àqueles sóis flamejantes, àqueles céus azuis retorcidos pela tempestade pintados por Van Gogh. Olhar para aquelas pinturas me subjuga. Sem dúvida, todo mundo sabe que estou falando de beleza. Ao falar dessa maneira, parece evidente que contemplamos uma beleza que é inerente ao que se ouve ou se vê, mas não é assim. A beleza não existe no mundo que vemos, ouvimos ou tocamos. Não existe em nada que nos rodeia. O mundo não possui nenhuma beleza; não é, em nada, uma propriedade inerente a ele. A beleza é criada pelo cérebro humano. Só existe na mente dos seres humanos. É um prodígio do cérebro.

Antes, é verdade, pensava-se que a beleza era um atributo imanente às coisas do mundo ou constitutivo da obra artística criada. A beleza tinha sua existência em si mesma, no objeto ou nos estímulos sensoriais externos, e a pessoa era apenas um sujeito passivo, contemplativo. Em outras palavras, a beleza era objetiva, com uma presença externa e eterna no mundo. Hoje sabemos, pelo contrário, que a beleza é algo subjetivo, criado pelo ser humano e que não está fora, no mundo sensorial. Hoje entendemos que a beleza é criada pelo ser humano depois de observar e perceber certas características do objeto que ele contempla. A beleza é, na verdade, uma construção mental composta de percepções, emoções, sentimentos e conhecimento.

No centro da nossa experiência de beleza está esse algo mais emocional que nasce daquilo que percebemos. Um algo mais emocional evocado, como um fio invisível, pelas palavras ao se ler um poema, ou a visão de uma pintura ou escultura, ou o sublime som de uma sinfonia, de uma paisagem de verdes com múltiplos tons, de um alvorecer de cores sem formas ou um rosto de proporções perfeitas. Mas, precisamente por ser uma emoção produzida naquele cérebro profundo, onde se depositam as memórias mais íntimas e pessoais em cada ser humano, nem todos percebem a beleza da mesma maneira ou nas mesmas coisas. Além disso, é aquela emoção —que quando banhada de consciência se torna sentimento— que faz com que cada um, cada ser humano, experimente sua própria beleza, única e diferente de qualquer outra.

O que faz com que as esculturas de Chillida sejam “pedras sem arte” para alguns que admiram as esculturas de Rodin?

De fato, a apreciação da beleza é, em grande parte, produto da experiência pessoal e da própria educação recebida. Tudo isso faz com que alguns percebam, de um modo especial, a beleza na pintura, mas não na música (Sigmund Freud seria um bom exemplo), ou que na pintura alguns valorizem as cores, mas não tanto as formas ou os traços borrados do movimento ou o figurativo estático. Ou, claro, que a música (de apreciação estética tão multifacetada — sustenidos harmônicos, contrapontos, acordes, ritmos e as infinitas combinações de graves, agudos e silêncios) seja percebida de modo tão diverso por tantas pessoas diferentes. (...)

Por que O Nome da Rosa, romance de Umberto Eco, cativou centenas de milhares de pessoas do começo ao fim e fez com que tantas outras perdessem o interesse antes de terminar a leitura? O que afasta tantas pessoas de Stravinski e, no entanto, as aproxima de Mozart ou Beethoven? O que tantas pessoas que admiram tão profundamente a arte de Velázquez rejeitam nas pinturas de Picasso? O que faz as esculturas de Chillida serem, para muitos, "pedras sem arte", mas que torna as esculturas de Rodin tão evocadoras de beleza? O que provoca o entusiasmo e a admiração ao Duomo de Milão, mas que não produz o mesmo efeito para muitos em relação ao Guggenheim de Bilbao?

Essa emoção que subjaz à apreciação da beleza é aquela que se expressa no prazer diante do que se vê ou se ouve. O prazer, como expressão emocional inconsciente, é o componente básico na apreciação da beleza. Mas não o prazer relacionado a esses prazeres básicos, aqueles que sustentam a sobrevivência do indivíduo, tais como os obtidos a partir da comida, da bebida, da sexualidade, do jogo ou do sono, quando estamos privados deles. O prazer associado com a beleza não é o prazer do desejo e do orgasmo, que consumado pontualmente nos empurra "sem razão, e como isca engolida, a manter-se vivo" (William Shakespeare). O prazer, o deleite referido à beleza é conseguido pelos ingredientes neuronais adicionados no cérebro àqueles outros mais básicos. (...) São prazeres gerados em parte pela cultura em que se vive e além do cérebro emocional e de sua atividade primitiva. São prazeres que surgem de uma interação muito próxima entre o córtex cerebral humano e o cérebro emocional, por isso nenhum animal os possui. Dessa interação nasce a consciência, a compreensão, o entendimento, a razão humana.

Precisamente este último, a interação com as coisas do mundo (percepção), produz o conhecimento, o outro ingrediente básico para a percepção da beleza. Porque a beleza é isso em sua essência, prazer e conhecimento e, neste último, a capacidade cognitiva de perceber a ordem, a proporcionalidade, a simetria, a clara delimitação do que é percebido. E tudo isso tem muito a ver com a educação recebida e com a cultura em que nascemos e vivemos. (...) Basta pensar que poucos cidadãos da Idade Média ou até do Renascimento poderiam ter encontrado beleza na figuras humanas torcidas, nos vermelhos policromados e flamejantes das árvores, nos amarelos vivos dos campos de trigo ou nos azuis giratórios e atormentados das pinturas de Van Gogh, ou na obra de Antonio Gaudí (...) A arte, portanto, e com ela a beleza, é uma verdade subjetiva para cada um. Verdade para a qual muitas pessoas tiveram expressões como "valeu a pena viver para experimentá-la". Sem dúvida, a beleza é um fenômeno cerebral que mudou o mundo dos seres humanos e as mitologias e verdades vivas de cada sociedade, cultura ou nação. A beleza, que não existe no mundo, é talvez um dos grandes prodígios criados pelo cérebro humano.

Francisco Mora é doutor pelas universidades de Granada (Espanha) e Oxford (Inglaterra) e professor universitário. Publicou livros de ensaios, como El Reloj de la Sabiduría (2005) e Neurocultura (2007). Este trecho forma parte de Mitos y Verdades del Cerebro (Paidós), lançado em 23 de outubro de 2018.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

sábado, 3 de novembro de 2018

Morre João W. Nery, ativista e 1º homem trans a ser operado no Brasil

 "Continuem a nossa luta por nossos direitos", disse Nery 
em postagem recente nas redes sociais.

'Viagem Solitária' e 'Vidas Trans', os dois livros publicados por João Nery em 2017.

Texto publicado no site HuffPost Brasil, em 26/10/2018

Morre João W. Nery, ativista e 1º homem trans a ser operado no Brasil

Ativista e escritor, aos 68 anos, era referência na garantia de direitos das pessoas transexuais no Brasil e lutava contra câncer.

By Andréa Martinelli

João W. Nery, psicólogo, escritor, ativista e considerado o 1º homem trans a ser operado no Brasil, morreu nesta sexta-feira (26), aos 68 anos. Internado desde setembro, ele lutava contra um câncer de pulmão. A notícia foi confirmada pelo IBRAT (Instituto Brasileiro de Transmasculinidade).

"Mesmo que estejamos tristes, pois sabemos do tamanho do amor que temos por João, sabemos agora que o sofrimento dele se findou. A nós, fica o compromisso e a responsabilidade de não deixarmos que as lembranças se percam e que mantenhamos João vivo em nós e nas nossas histórias", diz nota divulgada pelo instituto. "Continuaremos o que ele começou", finaliza.

O ativista já havia passado por problemas de saúde decorrentes de um infarto devido ao qual precisou colocar três stents nas artérias. Em setembro, Nery foi informado de que o câncer no pulmão havia atingido o cérebro. Naquele momento, o ativista divulgou um texto em suas redes sociais pedindo para que seus admiradores "seguissem com a defesa da causa transexual".

"Continuem a nossa luta por nossos direitos, se unam, não oprimam os nosso irmãos oprimidos já por tanta transfobia e sofrimento. Basta saber quem é e que se sente do gênero masculino. Vamos nos respeitar, nos unir, nos fortalecer e, sobretudo, ensinar aos homens cis o que é ser homem sem medo do feminino", escreveu.

Na mesma postagem, ele afirmou que, enquanto estava sob cuidados, também estava escrevendo um livro chamado Velhice Transviada e que pretendia terminá-lo e lançá-lo até o final deste ano. Em entrevista recente à Agência Brasil, ele falou sobre o projeto do novo livro.

"A velhice na nossa cultura é a partir dos 60, mas se uma mulher trans, por exemplo, fez 50, ela já é uma sobrevivente. Já pode se considerar uma mulher velha. E não tem asilo para os trans velhos, não tem saúde específica para atendê-los. Eles muitas vezes não têm estudo e não têm casa para morar", disse. Ainda não há informações sobre a publicação da obra.

Intelectual reconhecido, ele era fonte para jornalistas e pesquisadores. Sua militância o fez receber o título de "doutor honoris causa" pela UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul). Em 2017, a autora Gloria Perez consultou o ativista para criar o personagem Ivana (Carol Duarte), a jovem que se descobria trans e assumia a identidade sexual masculina com o nome Ivan na novela A Força do Querer.

Continuamos, para a população em geral, como seres pervertidos, doentes, invisíveis, capazes de contaminar a juventude.

"É claro que, da minha época para cá, houve um avanço muito grande, em função das passeatas, dos movimentos [sociais] e tal, e agora na mídia, por causa da novela [A Força do Querer]", disse à época ao HuffPost Brasil. "Mas continuamos, para a população em geral, como seres pervertidos, doentes, invisíveis, capazes de contaminar a juventude", concluiu.

Ano passado Nery também lançou o livro Viagem Solitária: Memórias de um Transexual, com o relato de sua vivência trans, e participou da coletânea Vidas Trans, ao lado de outros ativistas comoAmara Moira e Tereza Brant e Márcia Rocha. Ele também participou do documentário Laerte-se, da Netflix, que conta a história de ativismo da cartunista Laerte.

Por conta de sua história e de seu ativismo, Nery foi homenageado pelos deputados Jean Wyllys (PSOL-RJ) e Erika Kokay (PT-DF) ao ter seu nome usado para batizar o projeto de lei 5.002/13, que propõe o direito à identidade de gênero, seja no tratamento conforme a pessoa trans pede ou no registro de seu nome social em documentos.

Uma vida baseada no ativismo e na defesa de pessoas trans

Em 1964, o Brasil sofreu o golpe civil-militar que deu início a uma ditadura conhecida, entre outros fatores, pelas violações aos direitos humanos. Para João W. Nery, este golpe não foi o único que ele sofreu naquele ano. Aos 14 anos, começou a "monstruar", o que só fez aumentar a distância entre seu corpo feminino e seu gênero masculino.

Ele escreve sobre essa difícil fase no capítulo "A Viagem Solidária", presente no livro Vidas Trans, lançado em julho pela Astral Cultural. Ele divide espaço na publicação com outros três nomes de destaque do ativismo transgênero: Amara Moira, Tereza Brant e Márcia Rocha.

Nery, que também escreveu a bem-sucedida autobiografia Viagem Solitária (LeYa, 2011), atualmente tem 67 anos, mora no Rio de Janeiro e é conhecido por um ativismo que se estende há décadas. Ele é considerado o primeiro transgênero do Brasil a ser operado. Isso aconteceu em plena época da ditadura, quando a cirurgia era considerada lesão corporal grave pela lei.

O escritor fez a mamoplastia masculinizadora, que consiste na retirada das mamas e transformação do tórax em um de aspecto masculino. Ele também retirou o útero e iniciou um tratamento à base de testosterona. Era 1976 e, dois anos depois, o médico que lhe operou foi condenado a dois anos de prisão por ter feito cirurgia em uma mulher trans em 1971.

"A neofaloplastia continua experimental para os homens trans. No Brasil, isso significa que o trans, se quiser fazer um novo pênis, teria que procurar um hospital universitário", afirmou em entrevista ao HuffPost Brasil, em 2017. "Temos que evoluir em muitas coisas. Continuamos, para a população em geral, como seres pervertidos, doentes, invisíveis, capazes de contaminar a juventude."

O ativista teve que enfrentar burocracias desumanas ao buscar o processo transexualizador. Muitas vezes, para poder ser reconhecido como homem, teve que recorrer à ilegalidades, como quando teve dois CPFs. Isso acabou implicando em perder sua profissão de psicólogo.

"Eu sempre digo que é a maior patologia social hoje é o machismo, porque ele mata. E não está só no mundo dos homens, mas no das mulheres também, porque quem cria filhos machistas são mães machistas. Acho também que há uma grande misoginia, porque as mulheres são muito discriminadas, o feminino é algo altamente ameaçador para o mundo masculino, machista."

Texto e imagens reproduzidos do site: huffpostbrasil.com

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

A funerária que vela os mortos como se estivessem vivos


Publicado originalmente no site Brasil El País, em 17 de março de 2016

A funerária que vela os mortos como se estivessem vivos

Mortos boxeando ou em cima da moto. As fotos de uma funerária de Porto Rico viajam o mundo

Por María Sánchez Sánchez

“Os clientes nos pediram e tivemos de ser criativos”, afirma Damaris Marín, presidenta de um serviço funerário de Porto Rico especializada em um tipo de velório que mostra os mortos em poses que representam o que mais gostavam na vida. Embora venham fazendo isso desde 2009, as imagens de seu velório dão periodicamente a volta ao mundo, por isso quisemos remover as dúvidas do que bem poderia ser um capítulo da série Six Feet Under.

Do outro lado do telefone, em San Juan, Porto Rico, responde a gerente da Funerária Marín, um negócio familiar que emprega sete pessoas, e que esta semana voltou a ficar entre os tópicos em destaque nas sociais e nas manchetes da imprensa internacional. O motivo: Fernando de Jesús Díaz Beato, um rapaz de 26 anos que, no momento da despedida, a família pediu que fosse colocado sentado em uma cadeira com as pernas cruzadas, um cigarro na mão e os olhos abertos sob óculos. Um detalhe, o dos olhos, que chamou especialmente a atenção. “A ideia dos olhos abertos”, explica Damaris a Verne, “foi fruto da criatividade de minha irmã, que considerou que ficava muito bem com o que a família queria expressar. Quando viram tornar-se realidade, adoraram”. Segundo Damaris, é o primeiro morto a ser velado com essa expressão: “Somos pioneiros, mas nossa única intenção é agradar ao cliente. Começamos a fazer somente por isso, e assim continuamos.”

Tudo começou há oito anos, quando Pedrito Pantojas, um garoto do bairro, expressou a vontade de ser embalsamado de um modo não tradicional. “Vivia perto da primeira de nossas funerárias”, lembra Damaris, “e tínhamos muito contato com ele. Sempre nos dizia que quando morresse gostaria de ser embalsamado de pé. A princípio pensamos que fosse uma piada e ríamos, não lhe dávamos importância. Mas, quando morreu, sua mãe veio nos ver e disse que essa era a vontade dele, sempre a havia expressado, e ela queria que a tornássemos realidade”.

O trabalho mais complexo para a Funerária Marín: David Morales, 
em sua Honda 600. (VANESSA SERRA EFE)

Depois desse primeiro encargo chegaram outros, como o de Jomar Aguayo, um rapaz de 23 anos que em 2009 foi velado no bar de sua mãe jogando dominó; o de Christopher Rivera, um ex-boxeador cuja despedida foi em cima de um ringue, ou o de David Moraes, um amante de motores, velado sobre sua Honda. “Depois outras funerárias de Porto Rico começaram a imitar-nos”, recorda Damaris, “e me consta que também se exportou a outros países”. Um exemplo foi uma senhora de Nova Orleans que descansava no salão de sua casa tomando um copo de vinho. A Funerária Martín reconhece que, apesar da notoriedade internacional dos velórios não tradicionais, eles ainda representam um percentual muito pequeno de seus serviços e é preciso levar em conta que não estão isentos de polêmica.

Em 2010, a Junta de Examinadores de Embalsamadores de Porto Rico fez uma denúncia contra a funerária e foi aberta uma investigação para determinar se descumpria o regulamento, mas, segundo afirma a dona, não encontraram irregularidades. “A lei não é desrespeitada de nenhum modo. Nem em questões de salubridade nem de outro tipo. As pessoas são veladas num máximo de três dias e depois – tal como determina a legislação de Porto Rico – enterradas dentro de um caixão”. Ela acrescenta que o embalsamento é tão natural que depois do velório não há nenhum tipo de problema para modificar suas posições”.

Esse tipo de embalsamento em posições pouco comuns costuma absorver de dois a três dias de trabalho. “Depende de cada encomenda e da complexidade que requeira. Há alguns, como o da moto, que são mais complicados, mas sempre tentamos cumprir sua vontade”, explica Damaris. “A senhora que foi velada em uma cadeira de balanço, por exemplo, pouco antes de falecer nos explicou ela mesma tudo o que queria. Organizou todos os detalhes para que sua despedida transcorresse tal como desejava”. A técnica utilizada?: “Não posso revelá-la. É nosso segredo e o que nos permite obter um resultado tão natural, mas a chave está no embalsamado”.

Christopher Rivera com seu traje e luvas de boxeador sobre o ringue. 
JORGE MUÑIZ - EFE

As tarifas da Funerária Marín, que conta atualmente com duas sedes em San Juan, começam em 2.000 dólares (7.300 reais): “A partir daí o preço varia em função do caixão escolhido”, especifica Damaris, “mas não cobramos um extra por eles”.

Georgina Chervony quis uma despedida em uma cadeira de balanço 
e com seu livro favorito na mão. (RICARDO ARDUENGO AP)

As pessoas que se opõem a esses velórios incomuns costumam destacar que para elas são mórbidos ou antinaturais. Damaris afirma que entende os críticos, mas não os leva a mal nem considera que seja uma má publicidade para seu negócio: “Vivemos em uma democracia. Cada um pode expressar-se livremente e escolher como quer a sua despedida”.

Texto e imagens reproduzidos do site: brasil.elpais.com

Vá preparando a sua morte

Uma experiente japonesa em tanatopraxia em um congresso 
sobre a indústria funeraria em 2015 em Tóquio. 
Toshifumi Kitamura/AFP/Getty

Publicado originalmente no site Brasil El País, em 30 de outubro de 2018  

Vá preparando a sua morte

O final da vida continua sendo um grande tabu, e nos falta informação a respeito. Obtê-la ajudaria a confrontar melhor o inevitável

Por Carmen Pérez-Lanzac 

Todos sabemos o que acontece antes de um nascimento. Enjoos matutinos, ardor no estômago, contrações… As parteiras mostram vídeos aos pais para que fiquem tranquilos e preparados para o momento do parto. Entretanto, ninguém nunca nos conta nada sobre como será o instante da nossa morte. Chegamos ao fim sem informação real acerca dos nossos últimos momentos.

Há um século, quando alguém completava 30 anos, já tinha visto vários familiares morrerem em sua casa. Sua avó, talvez seu pai, muitas vezes um de seus irmãos. Essa experiência preparava as pessoas para confrontarem esse temido momento. Entretanto, nos últimos 40 anos, é muito raro que alguém tenha esse conhecimento, sobretudo nas cidades. À medida que a medicina avançou, passamos a morrer nos hospitais, procurando sempre uma possível solução para a doença.

A instabilidade dos tempos atuais tampouco nos ajuda a nos despedir em paz. Para Oriol Quintana, professor de Ética e Pensamento Cristão da Universidade Ramon Llul, de Barcelona, que aborda a morte em seu livro 100 Preguntes Filosòfiques (disponível apenas em catalão), antes, quando tudo era menos mutável, você podia morrer em paz com o mundo, pois tudo ia continuar mais ou menos como era até então. “Mas no momento em que entramos numa sociedade tecnológica, com uma infinidade de ideias e de mudanças, essa tranquilidade desaparece”, observa Quintana.

O medo da morte é a base do sentimento humano. Ninguém pensa que vai morrer. Não aceitamos, e por isso é um tabu bem assentado. “‘Nem o sol nem a morte podem ser olhados fixamente’, já disse François de La Rochefoucauld no século XVII”, afirma o filósofo espanhol Fernando Savater, para quem é impossível que os humanos sejam capazes de alcançar a ideia de uma boa morte. “Viver o falecimento de minha mulher acabou me convencendo disso”, admite.

Uma morte normal é amável e indolor. Se soubéssemos disso, escolheríamos com serenidade onde queremos morrer, e junto a quem

O resultado é que, quando chega a nossa hora, confrontamos o processo com muito desconhecimento e temor, porque pensamos que, além de algo terrível – que de fato é – será muito doloroso. Mas não costuma a ser. A intenção de acabar com esse desconhecimento levou Kathryn Mannix, uma especialista britânica em cuidados paliativos, a escrever With the End in Mind: Dying, Death and Wisdom in an Age of Denial (“Com o final em mente: morrer, a morte e a sabedoria na era da negação”, inédito no Brasil). “O que quero com meu livro é devolver às pessoas a sabedoria da morte”, disse a autora durante uma entrevista em Madri. “Para que entendamos que se pode viver bem dentro dos limites da perda de energia, e inclusive desenvolver certa familiaridade com as fases que ocorrem no leito de morte”, argumenta.

Ler os cerca de 30 casos relatados no livro causa desassossego e tristeza, mas sua narração dos momentos de humanidade compartilhada junto ao leito de morte é empática e transmite a paz da última verdade: a que viveremos todos. O relato começa com a primeira vez que a autora escutou seu então chefe contar detalhadamente a uma paciente de 80 anos como seria sua morte. Mannix, então aluna do quarto ano de Medicina, não podia acreditar. A paciente, que tinha câncer com metástase, estava aterrorizada diante da possibilidade de sofrer dor na agonia. Seu chefe a olhou nos olhos e lhe descreveu todo o processo: “Você irá dormindo cada vez mais. Às vezes esse sono será que você perdeu a consciência, mas não notará. Depois sua respiração começará a mudar. Irá se desacelerar até que se detenha suavemente de forma completa. Não sentirá uma dor repentina, nem medo. Só uma grande sensação de paz”. Sabine, a mulher, recebeu essa informação beijando as mãos do médico.

Embora haja exceções, esse é o padrão quando morremos. É um processo dócil, geralmente indolor e lento. Se todos contássemos com essa informação, poderíamos escolher com mais serenidade onde gostaríamos de morrer e junto a quem. Há quem defenda que seja em casa. E, entretanto, a tendência é o contrário: em 2015, 25% das mortes na Espanha (105.643 pessoas, segundo dados oficiais) ocorreram dentro de casa, cifra que caiu para 22,4% (99.149) em 2016, último ano disponível.

Mannix diz que não gostaria de ter uma morte repentina, pois quer se despedir em boas condições de seus filhos e netos. “Dizer-lhes adeus. Obrigada. É muito triste, mas não ter a oportunidade de fazer isso é muito mais duro para quem fica.” A britânica inclusive incorpora em seu livro um modelo de carta de despedida que nos estimula a redigir para as pessoas a quem amamos, caso não sejamos capazes de lhes dizer isso frente a frente. “Obrigada por ser uma parte tão importante de minha vida”, conclui a carta, que se despede com um “Te amo”.

"Pode-se viver bem dentro dos limites da perda de energia", diz uma especialista

Há na literatura casos de falecimentos bem narrados, mas nos filmes e séries é difícil que a ocorrência de uma morte real tenha protagonismo, porque é algo lento, nada divertido. Entre todos os filmes que viu, a autora só cai em um que aborda bem esse tema: Filadélfia (1993), com Tom Hanks e Antonio Bandeiras. “Retrata muito bem a doença (AIDS), embora o momento do falecimento não apareça”, diz, com uma careta.

Deveríamos propor alguma forma de informar sobre a morte? Seria correto fazê-lo nos colégios, ou deveria ser algo restrito aos hospitais? E se houvesse algo parecido com esses vídeos para pais de primeira viagem, só que sobre a morte? Certamente nos deixaria mais tranquilos e afugentaria medos. “Ajudaria a entendermos a realidade e a não nos vermos na tessitura de imaginar coisas que não são”, afirma Quintana.

Chegada a hora da morte, é normal que se passe do medo do moribundo aos sentimentos de seus familiares com relação ao corpo sem vida do ente querido. Assim é em boa parte do planeta. Mas não em todos os países. O livro From Here to Eternity (“daqui para a eternidade”, inédito no Brasil), da norte-americana Caitlin Doughty, repassa os rituais de despedida em lugares como Indonésia, Bolívia, Espanha e Japão. Doughty é uma firme defensora de não levar o corpo embora assim que o falecimento ocorre, como é praxe na Espanha. “A gente não deveria deixar que as funerárias nos apressem a retirar o cadáver”, diz ela por e-mail. “Não causa nenhum problema de saúde velar o corpo em casa, antigamente era assim.” Ela estranhou o fato de os espanhóis colocarem o corpo dentro de uma caixa de vidro durante o velório, mas gostou de saber que muitas famílias continuam preferindo que o defunto esteja presente durante o velório. Ela possui uma funerária inovadora e conhece bem nosso medo da morte, porque o viveu em primeira pessoa quando era criança. Foi testemunha próxima do falecimento de outro menino que caiu de um parapeito num shopping center. Em seguida, a afastaram do local e nunca mais lhe falaram sobre o fato, deixando-a sozinha, ruminando o que viveu e imaginando a sua morte e a de toda sua família.

“Só existem dois dias com menos de 24 horas em nossas vidas, que esperam como dois parênteses que abrem e fecham nossa existência: um deles o comemoramos a cada ano, embora seja o outro o que faz darmos valor à vida”, escreve Mannix em seu livro. A morte é inerente à vida. É inevitável. E essa certeza deveria abrir nossos ouvidos para que saibamos mais sobre ela, para nós fazermos o favor de nos livrarmos desse pavor e para que possamos nos despedir em boas condições.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Renata Dominguez







Publicado em: 26/05/2015 

Em busca de desafios como atriz, ela abriu mão do salário da Record. Para se entregar a um homem, é categórica: só com amor. Não tem como não amá-la nas próximas páginas

Fotos André Nicolau  Edição Ariani Carneiro Texto Pedro Henrique França  Styling Breno Votto Beleza Carla Biriba (bliss me makeup)

STATUS 46 - CAPA

Quando chegou ao hotel La Maison by Dussol, na Gávea, local do ensaio de capa, Renata Dominguez já tinha recebido o primeiro presente. Era Dia Internacional da Mulher, mas há 35 anos também é aniversário dessa mulher. Sua família, na virada da noite, apareceu com um bolo. Ao final do ensaio, após oito horas entre cliques, cinco trocas de (poucas) roupas e poses exercendo a sensualidade, mais um parabéns. Quando chegou em casa… Surpresa! Uma festa estava armada. Ela adorou tudo, mas não comeu nada de doce.

Numa dieta rigorosa de proteínas, além de personal trainer de domingo a domingo, ela tenta fixar o ponteiro da balança nos 55 quilos – bem distribuídos em 1,67 m de altura. “Tenho facilidade para ganhar e perder peso, mas sempre tive muita dificuldade para manter. Quando estou trabalhando, seco. Quando estou de férias, ganho uns quilinhos. Amo chocolate branco e queijos”, conta essa carioca mignon de perfil europeu herdado do pai, de traços espanhóis.

Difícil acreditar que, no auge de sua boa forma, ela sofra do efeito sanfona que revela, assim como em sua timidez. É que essa característica ela disfarça bem. “Preciso ser um personagem para encarar as lentes do fotógrafo. Quando estou muito tímida, rio e falo muito, me camuflo. Pareço extrovertida, mas não sou”, confidencia. Explorar seu lado sensual é algo que, diz ela, veio com a maturidade. “Como atriz preciso estar pronta para lidar com qualquer desafio. E preciso de desafio, é ele que me dá estímulo”.

Desafios – e estímulos – ela tem desde cedo. Filha de pai executivo de construtora, seguiu uma vida cigana conforme as transferências do trabalho. Saiu do Rio de Janeiro com 3 anos, teve infância em Goiás, aos 12 chegou no Equador. Com apenas dois meses na cidade, foi fazer um teste na Ecuavisa, maior emissora local, por indicação da dona da escola de dança que frequentava. Entre cerca de 300 equatorianas foi selecionada para ser apresentadora.

“Tudo na minha vida aconteceu assim. Achei que estava indo fazer um teste de dançarina e acabei sendo apresentadora. Quando voltei para o Brasil, foi a mesma coisa. Fui cursar arquitetura, acabei fazendo aula de teatro por hobby. Daí fui chamada para um teste de ‘Vale Todo’ (versão espanhola da Globo para Vale Tudo) e uma semana depois estava em Malhação”, comenta a atriz.

Depois de três anos na novela teen da Globo, ela se transferiu para a Record, onde fez cinco novelas e uma minissérie. Saiu da emissora de Edir Macedo no ano passado. Aos 35 anos, Renata Dominguez fez uma escolha radical em 2014, quando optou por ficar sem contrato para correr os riscos que buscava. Desde então, integrou o longa “Vestido pra Casar”, com Leandro Hassum, e estrelou a série “Na Mira do Crime”, da FOX. Atualmente está livre, leve e linda. Sedenta por desafios – afinal, ela precisa de estímulos.

Sem contrato, no auge da beleza. Que fase é esse da Renata e o que motivou tomar a decisão de sair da Record?

– Optei por correr o risco, sair da zona de conforto. É a primeira vez em 23 anos de carreira que não tenho um contrato fixo com uma emissora. Minha vida pode mudar a qualquer ligação e tenho de estar pronta. E isso não envolve só o meu físico, mas meu interior. Foi uma decisão muito consciente. Hoje me permito selecionar. Não vou aceitar qualquer coisa só pra dizer que estou no ar.

O fato de ser uma brasileira no Equador ajudou no começo de carreira?

– Muito. O país tem uma característica marcante de divergências entre duas regiões (Guayaquil e Quito). Sendo estrangeira, eu ficava fora de qualquer preconceito regional, tive aceitação nacional. Na época, a Xuxa era a Rainha dos Baixinhos e, por ela ser um mito, acabaram transferindo para mim um pouco do carinho que tinham por ela. Eu era a brasileira deles.

Você tão jovem já era apresentadora em emissora grande. O que levou da experiência para a carreira?

– Adquiri um senso de responsabilidade e disciplina muito nova, com as críticas, a vaidade que existe nesse meio. Amadureci muito rápido, quase não tive adolescência. Por outro lado, me ajudou a ter os dois pés cravados no chão. Não trabalho pra ser famosa.

O que espera do homem que estiver a seu lado?

– Tem de ser charmoso e apaixonado. Romantismo tem que existir, é o que quebra a rotina. Mas precisa ser dosado, senão satura. E também tem que ter senso de humor, porque a vida já é tão difícil que se não tiver leveza fica um fardo. Eu quero companheirismo, cumplicidade, tesão. Nunca tive paciência pra ficar, não saber se vai ligar ou não. Mas é necessário aprender a ficar sozinha um tempo. Quem não é um bom ímpar não pode ser um bom par.

A relação com o sexo mudou depois dos 30?

– Pra mim, sexo é com amor. Não é um prazer imediatista, tem que ter algo mais pra chegar a esse grau de envolvimento. Nunca fui de me entregar sem me sentir especial. Agora, a partir do momento que me sinto valorizada, a pessoa tem tudo de mim e, quando se ama, tudo é válido entre quatro paredes. Gosto de ser seduzida e gosto de surpreender

Texto e imagens reproduzidos do site: revistastatus.com.br