domingo, 23 de setembro de 2018

Jaime Lerner, o arquiteto que transformou o transporte público de Curitiba

Jaime Lerner, retratado em Pamplona durante o congresso 
‘Menos Arquitetura, Mais Cidade’ 
ALEX ITURRALDE

Publicado originalmente no site Brasil El País, em 22 de setembro de 2018 

Jaime Lerner, o arquiteto que transformou o transporte público de Curitiba

Por Anatxu Zabalbeascoa

Seu “metrô sobre rodas” foi imitado no mundo todo, de Bogotá a Seul, passando por Los Angeles e Istambul

O “metrô sobre rodas”, a escolarização em troca de uma cesta básica para a família e a expropriação de parte das zonas verdes foram algumas das propostas revolucionárias que sanearam Curitiba sem qualquer investimento. Pioneiro da sustentabilidade e especialista em conseguir grandes mudanças com poucos recursos, o arquiteto brasileiro Jaime Lerner, de 80 anos, diz que entrou na política por responsabilidade. “O prefeito estava destruindo a cidade”, recorda. E deixou escrito seu ideário no livro Acupuntura Urbana (Record, 2003). Ele chega ao salão do hotel mancando. Há seis meses operou da coluna. Mas veio até Pamplona para dialogar – no congresso Menos Arquitetura, Mais Cidade – com outro grande professor favorável a reorientar o espaço urbano para os pedestres: o dinamarquês Jan Gehl. Pede água, mas às 17h o bar do hotel Três Reyes está fechado. “Têm que esperar até 19h”, esclarece a recepção. A assistente do fotógrafo lhe oferece sua garrafa de água. “Eddie Murphy sempre pergunta: ‘Aonde vão carregando todo dia essas garrafas de água? Ao deserto?” Dá uma gargalhada e bebe a água.

Lerner entrou na política porque o prefeito de Curitiba havia estreitado as calçadas para que passassem mais carros. “Quando você alarga as ruas, estreita a mentalidade. E destrói a história”, diz ele.

“O carro é o cigarro do futuro. Vai praticamente desaparecer. Será só para viagens e lazer, não para a cidade”

Era 1964 e Lerner, ainda estudante, idealizou com vários colegas o Plano de Circulação da cidade. Em 1971, foi escolhido prefeito a dedo pela ditadura militar. Os militares o nomearam e ele se opôs à sua política? “O regime não queria protestos. Por isso canalizou as queixas nas cidades. Podiam me mandar embora a qualquer momento, do mesmo jeito que tinham me nomeado. Minha equipe era formada por jovens comunistas. Sabíamos que tínhamos pouco tempo. Por isso eu os adverti: “Temos que trabalhar rápido.”

Sua primeira ideia foi convencer as pessoas de que o carro não era importante. “É o cigarro do futuro. Vai desaparecer em quase todas as partes. Se é preciso continuar fabricando carros para gerar emprego, serão para viagens e lazer, não para a cidade. Não há futuro urbano se o transporte depende de veículos particulares”, sentencia.

O caderno que sempre leva consigo, onde anota o que chama sua atenção.
 ALEX ITURRALDE

Em 1971, Curitiba tinha 700.000 habitantes. Era a típica cidade estendida, “brasileira”, diz Lerner. A pessoa levava horas para ir do centro até o subúrbio. Na época, dizia-se que qualquer urbe com um milhão de habitantes tinha que ter um metrô. Mas eles não tinham dinheiro para construí-lo. Estudaram fazer um na superfície, “um trólebus, mas barato: um ônibus com poucas paradas e uma faixa exclusiva”. E criaram tubos nas paradas para permitir o embarque rápido por várias portas, como no metrô. “Funcionou. As pessoas não tinham que esperar mais do que um minuto”.

Os ônibus prepararam a expulsão dos carros de Curitiba. E, solucionada a mobilidade, a consequência imediata foi a melhoria das áreas verdes. A proporção desses espaços aumentou de meio metro quadrado por habitante para 50. “Hoje estamos na marca dos 60 metros quadrados, um dos índices mais altos do mundo”, afirma.

De novo sem dinheiro, em lugar de construir praças o que sua equipe fez foi cuidar melhor da vegetação existente. “Se uma família tinha uma área [verde] de 100.000 metros quadrados, expropriávamos 80.000. Os proprietários ficavam com 20.000 para sempre, livres de impostos, em troca de uma venda econômica para a Administração. E o sobrenome da família – Barigui, Tanguá – dava nome ao parque. Foi uma solução ganhadora. Partimos do nada e multiplicamos o espaço público. A criatividade começa quando você tira um zero do orçamento. O excesso de recursos leva ao desperdício.” Lerner é contundente ao não defender a participação cidadã. “É pouco eficaz. Para que as coisas funcionem, você tem que preparar um cenário que a grande maioria entenda como desejável: frequência de ônibus, água mais limpa, professores mais motivados, crianças escolarizadas... Aí você com certeza vai triunfar”, diz ele. Também afirma que “o smart é bobo. Se quiser resolver a mobilidade, tem que conseguir que as pessoas vivam e trabalhem em distâncias curtas. A vida de bairro salvará a cidade. O colégio, o esporte e as compras têm que estar perto. A cultura, o teatro e os museus podem estar no centro.”

Lerner idealizou o livro ‘Acupuntura Urbana’ fazendo 
anotações na rua sobre problemas reais. 
Ainda mantém esse costume.
 ALEX ITURRALDE

O modelo de Curitiba levou esse arquiteto a dar aula de urbanismo na Universidade Berkeley (Califórnia). Ao regressar, voltou a ser prefeito em 1979. E, uma década depois, venceu de novo nas urnas postulando-se apenas 12 dias antes das eleições. “Toda a minha família era contra. Mas ser prefeito foi a melhor época da minha vida. Você vê as coisas mudarem. Isso é maravilhoso.”

Seu metrô sobre rodas começou transportando 50.000 passageiros por dia. “Hoje transporta 2,6 milhões de pessoas, quase a mesma marca do metrô de Londres, que leva 3 milhões”, diz. Segundo ele, o sistema é hoje o mesmo que há meio século, embora esteja melhorando: a frequência é maior, e o combustível deverá ser substituído por eletricidade.

“A criatividade começa quando você tira um zero do orçamento. O excesso de recursos leva ao desperdício”

Além do transporte, o Unicef premiou seu projeto Da Rua Para A Escola. “Um mérito de minha esposa, que era professora.” Em sua etapa de governador do Paraná, entre 1995 e 2002, ele via que em todas as cidades havia crianças pela rua, então iniciou um programa com uma medida populista: cada família que levasse uma criança ao colégio receberia uma cesta básica semanal. “Foi outra maneira de conseguir muito com pouco.”

Lerner conta que falou uma vez com o ator Jeremy Irons porque queria fazer um filme sobre a poluição dos plásticos nos oceanos. “Expliquei a ele nosso acordo com os pescadores. Se pescassem peixes, podiam ficar com eles. Se pescassem lixo, nós o comprávamos. Quanto mais lixo conseguiam, mais dinheiro lhes dávamos. Foi outra situação em que você não pode perder. Por isso foi um sucesso.”


Sistema de transporte e calçadão no centro Curitiba. LINIA FARIA

Algo parecido aconteceu com a reciclagem. “Vimos que eram as crianças que tinham que educar os pais. Nós as formamos. Elas depois são duríssimas. Conseguimos ao mesmo tempo professores e policiais nas casas. E as pessoas se acostumaram a reciclar”, recorda.

Sendo governador, chegou à conclusão de que o problema essencial da educação era a formação dos professores. E decidiu se reunir com eles. Chegavam de todos os cantos do Paraná. E falavam. “Buscávamos abertura mental”, recorda. Sua equipe fazia os professores escutarem pessoas criativas: músicos, escritores... “Os artistas são pessoas com a pele mais fina, por isso veem as coisas antes. Se posso trabalhar com pessoas que antecipam o futuro, por que vou trabalhar com as que só veem o passado?”

Lerner insiste que Curitiba não é um modelo. “É uma referência de simplicidade, de imperfeição e de trabalho com poucos recursos. Minha intenção nunca foi salvar o mundo, e sim promover o desejo de mudar as coisas. Acho que isso é possível.”

Texto e imagens reproduzidos do site: brasil.elpais.com/brasil

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Do Quilombo à Universidade: As raízes da ativista Givânia Silva

TATIANA REIS/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL

Do Quilombo à Universidade: As raízes da ativista Givânia Silva

A ativista denunciou poderosos do agronegócio e até hoje luta pelo reconhecimento de seus territórios. “A educação é o que pode realmente transformar a nossa vida."

By RYOT Studio e CUBOCC

Ela nasceu num quilombo no sertão de Pernambuco, a 560 quilômetros de Recife. A história conta que seis mulheres escravas chegaram ali e formaram uma comunidade em busca de liberdade. Elas fizeram a promessa de que se um dia conseguissem se tornar donas do território, iriam construir uma capela em homenagem à santa de devoção. Assim nasceu Conceição das Crioulas em 1802. Assim também começa a história de Givânia da Silva, 52 anos, que se formou naquele povo, se tornou professora — a primeira da comunidade — e ativista que nunca se calou para as forças que a tentavam diminuir e que hoje é referência na luta de condições melhores para os povos quilombolas.

A terra daquelas mulheres que lutaram para conseguir seus papeis com a venda de algodão que plantavam e colhiam passou por mudanças ao longo dos anos. A comunidade cresceu, o agronegócio apareceu e os fazendeiros invadiram parte das terras. Ao lado do quilombo estava o povo indígena Atikum, onde o pai de Givânia também era descendente. "Sempre me vi, no entanto, como mulher negra, essa é minha história", aponta. Ela cresceu para tentar ir além. "Não tive tempo de viver a adolescência, por exemplo, como menina da roça eu precisava trabalhar e ajudar em casa".Grande parte da comunidade quilombola só estudava as séries iniciais, Givânia foi atrás, ainda que o acesso à escola fosse difícil. Fez supletivos e depois começou a ensinar dentro do quilombo. Foi a primeira a se formar como professora na comunidade.

Pra mim, tudo começa em torno da história dessas mulheres em busca de um território.

Quando começou a dar aulas que ela passou a tomar consciência da própria história. "Sentia a necessidade de conhecer melhor a história de Conceição. Na época, também tinha entrado na pastoral da juventude e campanha era 'nosso povo, nossa história' então, fui atrás. Comecei a me perguntar o que tinha acontecido ali, ir atrás dos mais velhos e entrevistar mesmo", conta. Nessa trajetória começou a tomar consciência de muita coisa. "Fui descobrindo que os fazendeiros que eram gente boa, que eram compadres de todo mundo, mas na verdade, tinham usurpado a terra do nosso povo", aponta.

Para reconstruir a história do seu quilombo, alguns espinhos apareceram. Por começar a educar seu povo sobre o que estava acontecendo e por fazer algumas denúncias, ela chegou a ser ameaçada de morte. "Eu ajudei a tirar algumas máscaras, o povo não tinha ideia do quanto tinham sido enganados. Sou uma sobrevivente. No dia que Marielle (Franco) morreu eu chorei muito, ela não conseguiu sobreviver e eu ainda estou aqui. E as forças com que eu lutava eram muito poderosas", relembra.

Tudo isso tem a ver com esse processo doido de luta, vivi minha juventude toda ameaçada de morte e sou uma sobrevivente. Só quem experimenta sabe.

O território sempre foi uma parte forte da trajetória de Conceição. "Há histórias extraordinárias como a da cabocla Agostinha que saiu a pé do quilombo pra uma audiência em Recife para conseguir os documentos". Mas como forma de dominação, a terra foi tomada dos quilombolas. "É uma luta que tem muitas frentes e você não pode perder a esperança. Não é fácil lutar contra o racismo, um capitalismo selvagem, para plantar soja e eucalipto que sequer é consumido no Brasil. E ao mesmo tempo lidar com um latifúndio, que além de territorial é político. Tem horas que se não tiver muita perseverança, a gente acorda e não levanta".

Givânia começou a se perceber neste meio social e se movimentar. A primeira escola, onde ela foi diretora, foi criada em Conceição em 1995. "Acredito que consegui testemunhar um dos grandes momentos de revolução daquela comunidade. Começamos a obter o nome dos nossos a contar essa história de outro jeito dentro de sala de aula. Era preciso revolucionar, educar o povo", conta. Conceição das Crioulas é o único movimento no Brasil onde no quilombo, o professor tem que ser quilombola. "Porque nós acreditamos que queremos conduzir nossa educação. Falo com Deus sempre: 'deixa eu ficar mais um tempo aqui pra ver outros quilombos experimentarem isso e ver o que acontece'."

Quando eu conto a minha história tenho certeza do meu lugar no mundo enquanto mulher.

Para tentar ir além, ela entrou na política e foi vereadora por dois mandatos em Salgueiro para tentar fortalecer a luta quilombola, a primeira pessoa do quilombo a ocupar um cargo legislativo. Além disso, foi uma dos fundadoras da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), que tem sede em Brasília, para colocar o tema em pauta. Estima-se que existam mais de 6 mil comunidades quilombolas no Brasil, mas apenas metade é reconhecida pelo Estado. Hoje ela faz doutorado na Universidade de Brasília.

Em 2014, ela conseguiu celebrar uma grande conquista. "Tive a oportunidade de estar no governo e devolver as terras que eu tanto lutamos para termos de volta. Isso não tem preço. Qualquer dor, qualquer renúncia nessa hora fica pequena porque eu estou vive e superei muitas barreiras. Ajudei outras pessoas da minha comunidade a se tornarem conscientes".

A educação é o que pode realmente transformar a nossa vida.

Apesar de ser uma comunidade criada por mulheres, Givânia aponta que para "lá também tem machismo, mas nem sei se no céu não tem também", brinca. "O que tem é uma história de protagonismo de mulheres que até hoje persiste e um grande pilar onde encontramos um caminho de resistência é a educação", aponta.

Givânia que é professora no município de Salgueiro e está afastada por conta de um doutorado na Universidade de Brasília, não para. Não deixa sua militância de lado e está sempre envolvida nos movimentos quilombolas e está coordenando um livro sobre o assunto. "Tenho usado esse poder da escrita que não é ainda de todos nós. Um lugar de poder militar também dentro da academia e mexer nessa estrutura. Eu brinco que eu acordei linda assim e vim pra cá, mas isso não é nem extraordinário, não basta só estar aqui. Este lugar precisa ser mexido e é por dentro dessa estrutura hierarquizada branca e racista que é a universidade pra ajudar a ser mais humanizado e com diálogo", reflete.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas
Texto: Tatiana Sabadini
Imagem: Tatiana Reis
Edição: Andréa Martinelli
Figurino: C&A
Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projetoTodo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC

Texto e imagem reproduzidos do site: huffpostbrasil.com

Trans em debate...


Publicado originalmente no site NLucon, em 19 de março de 2013

Trans em debate...

Por Neto Lucon 

Embora sejam abordadas por homens de todas as idades, classes sociais, belezas e níveis culturais, as travestis e transexuais enfrentam inúmeras pelejas em seus relacionamentos amorosos. Enquanto a massa masculina se sente fascinada (veladamente, diga-se) por suas figuras, pouquíssimos homens aceitam assumir de fato um romance. Preferem o anonimato, as traições, o tradicional momento escondidinho…

Muitos t-lovers [homens amantes de trans] temem sobretudo serem encarados como homossexuais ou sofrerem preconceito – fruto do machismo e homofobia- por tabela. Para os que se envolvem, há os que se tornam cafetões, há os que vivem à custa da parceira e há quem não as dê nada em troca (nem dinheiro, nem respeito), como ir para cama fosse um favor para satisfazerem-lhes o “vício”.

Antes de cometer suicídio em 2005, a musa Camilla de Castro (foto) – que fez sucesso no Superpop com o quadro Camila quer Casar – escreveu um depoimento, em que dizia sofrer por ser desejada entre quatro paredes, mas nunca em público. “Disseram que não existe amor para travestis e que os homens nos viam como privadas humanas, onde descarregavam seus desejos mais “loucos” sem sequer olhar para trás”.

Camila morreu sem vivenciar o amor.

Dentre várias razões, esta triste realidade – que está se transformando e tendo casos exemplares nos últimos anos – deve-se pela falta de esclarecimento e por conta de nossa gramática sexual, pobre, binária e sexista. Afinal, travestis e transexuais transcendem a lógica arcaica de “sexo biológico-gênero-sexualidade”, o que é ser homem, ser mulher, gay e hétero, logo são uma incógnita. Para os seus parceiros, as dúvidas se multiplicam e o que prevalece é o machismo.

A questão que mais faz parte das dúvidas dos nossos leitores é: “Homens que ficam com travestis são gays?”. E aí, meninas?

Fernanda Vermant

“Eu me atraio e me sinto feliz com homens héteros, porém namoro um modelo que gosta de travesti. É o que tem  para mim nesse Brasil e não vou dispensar… Penso que homens que gostam de travestis são gays, porque gostam na verdade do pênis delas. Mas, por outro lado, acredito que sejam héteros os homens que aceitam a sua amada e a observam como uma verdadeira mulher, sendo operada ou não. Há ainda um estudo que visa pesquisar o comportamento sexual e que encara os homens que gostam de trans como uma nova orientação sexual. É difícil definir o relacionamento das trans, porque muitas nós não nos aceitamos – o corpo, a identidade, a referência trans – logo ninguém nos aceitará…. Nos dias atuais, homens héteros ou gays enrustidos só saem com travestis para fantasias ou alívio para o seu homossexualismo [sic] reprimido. Os amigos do meu namorado, por exemplo, inclusive os gays, não apoiam o nosso relacionamento. Mas, acima de qualquer reprovação e medos, o mais importante é ser feliz, né gente? Love, Fernanda”

 Patricia Araújo

“Homens que se relacionam com travestis não são gays, são héteros. Digo isso porque a imagem que temos é feminina e o gay não se interessa por uma imagem feminina. O gay gosta é de outro homem, com corpo, trejeitos e maneira de ser masculina – o que obviamente não é o meu caso. Muitos homens se sentem atraídos por nós por conta da nossa feminilidade e mistério, querem saber como é, como funciona… Já fui casada com homens héteros, lindos, que respeitaram a minha identidade. Outros não foram tão legais, mas esses a gente deleta. Para aqueles que preferem ser passivos, não há nenhum problema, pois isso não faz dele gay. É sabido e comprovado que a próstata é um lugar que, se massageado, penetrado, proporciona um grande prazer. É por isso que muitos homens, casados com mulheres, saem com travestis: para ter mais esta forma de prazer em sua vida sexual. Hoje, consciente dessa realidade, muitas mulheres fazem inversão de papeis e penetram seus maridos. Nós – travesti, transexuais e mulheres – devemos parar de nos assustar com a questão da passividade, afinal a grande maioria dos homens adoram explorar todos os prazeres do corpo, sem neuras ou tabus, Que vivemos felizes, sem rótulos, sem culpas!”

Kimberly Luciana

“Tive apenas dois grandes amores na minha vida. No primeiro, tinha 17 anos, namorei durante um ano e fui casada durante nove. Ele nunca foi passivo comigo, mas não apoiava a possibilidade de um dia eu mudar de sexo. Fui feliz ao seu lado por cinco anos, os outros continuei porque fiz o que qualquer casal hétero faz: levei em conta que era dependente financeiramente, que ele não me agredia e que era trabalhador.

No meu ponto de vista, ele é heterossexual, pois sempre me viu como uma grande mulher e, tempos depois, se casou com uma mulher biológica. Não acho que ter ou não um pênis seja fundamental para um envolvimento amoroso,

O segundo relacionamento me deixou cicatrizes na alma. Nos conhecemos pelo Orkut e, após nos vermos pessoalmente, me apresentou para a família e amigos. O problema é que, com o tempo, descobri que ele era uma pessoa doente por sexo. Ele me proibia de ter uma vida social e queria vivesse absolutamente para ele. Abri mão do relacionamento. Não poderia viver apenas de sexo e amor.

Sou assumidamente travesti e, se existir de fato amor para uma trans, acredito que ele quebre qualquer barreira. O problema é que, da minha experiência e observação, posso concluir que a maioria dos homens que nos amam de fato são problemáticos, emocionalmente inseguros, tímidos, compulsivos sexuais, com baixa-estima, bandidos, policias e pobres. Se ele quiser um namoro às escondidas, não aceito, mesmo que ele seja um boy magia (risos). Isso é preconceito internalizado.” 

Luiza Gaúcha

“O homem pensa que, para não ser julgado ou discriminado, deve fazer o perfil de machão, jogador de futebol, o pegador de gatinhas. Mas os desejos sexuais e afetividades não deveriam ser julgados ou criticados por ninguém. Afinal, a observação sobre ela vai se modificando com o tempo. Na antiguidade, por exemplo, o ato de um homem deitar com outro era status de poder, pois para eles a mulher era um ser frio. Hoje, ele ganha apelido de viadinho, mariquinha, caso o faça. Além disso, nós trans representamos uma nova realidade.

Nossos desejos sexuais, afetivos e nossas identidades estão em constantes transformações. Assim como a transexual não decide “virar mulher” da noite para o dia, o desejo de um homem por um homem, o desejo de uma mulher por uma mulher e o desejo de um homem por uma travesti ou transexual também não acontecem da noite para o dia. Estamos sempre em busca de oportunidades, descobertas. E o sexo é apenas mais uma fantasia do nosso teatro, não deveria ser omitido.

Penso que o pênis seja apenas um detalhe que a transexual não operada tem a mais que uma mulher e tudo vai depender do desejo do seu parceiro. Para uns não faz diferença, para outros é o que te destaca em relações a outras. É muito relativo e se chama desejo. Não os classificam como gays ou héteros.

Vivo um caso amoroso a cada dia, mas não sou do tipo superficial. Gosto de me entregar de corpo e alma quando estou com alguém, nossos momentos são únicos e bem aproveitados. Acabo escutando um pouco de tudo dos homens. Muitos eu acredito que agrado, outros sou vista como um mero objeto. De certa forma, todos nós acabamos sendo objeto ou um fantoche, já que estamos sempre sendo manipuladas e também manipulando. Mas ainda sou sonhadora e não deixaria de viver um grande amor por nada”.

Alê Oliveira

“Antes de mais nada, adianto que não me interesso por homens. Mas penso que homens que ficam com travestis ou transexuais não são gays. O motivo é simples: elas se identificam com o feminino – veja que estou falando em GÊNERO, que nada tem relação com SEXO BIOLÓGICO. E um homem gay geralmente está a procura da imagem masculina (o gênero masculino), coisa que uma travesti não tem.

No relato de muitas amigas, elas dizem que muitos ficantes nem tocam no pênis, mas também há casos em que eles querem utilizar o seu “atributo a mais”, o que mostra que varia de pessoa para pessoa e que não dá para rotular esse ou aquele de gay só porque ele é ativo ou passivo.

Quando eu era um menino, já namorei uma travesti e isso não me fazia sentir gay. Sempre gostei de me relacionar com mulheres, figuras femininas. Portanto, para mim, falar que um homem que se relaciona com uma travesti é gay é o mesmo que anular a identidade de gênero da travesti, é chama-la de homem. E muitas travestis conseguem ser muito mais femininas que mulheres biológicas, mesmo com esse algo a mais. O pênis é só um detalhe na vida prática.

No meu casamento, minha mulher costuma dizer que não me vê como homem ou mulher, embora me trate no feminino. Ela simplesmente vê a pessoa que ama. É por isso que penso que no fundo, a definição não é o mais importante”.

Lirous

“Sou bissexual e isso é desde sempre, pois o que me move a gostar de uma pessoa é o que está por dentro dela e não a sua aparência física e sexo, que para mim sempre foi consequência. Sempre tive relações duradouras e que sou comprometida desde sempre. Hoje, sou casada pela segunda vez no cartório, tenho o consentimento de ambas as famílias

Nunca tive relacionamento as escondidas, pois não aceito esse tipo de situação. Se a pessoa não se sente segura, que vá buscar segurança em outro lugar. O que muito me preocupa é no discurso de muitos homens machistas que afirmam que não teriam interesse em namorar uma trans pelo fato de ela não gerar filho. Mas eu pergunto: “E se a mulher fosse estéril?”.

 Mas também existem muitos homens esclarecidos e os mais novos, de 18 e 19 anos, que já são mais decididos e mais corajosos. 

O órgão sexual é um tabu muito desejado, pois o homem que procura uma trans tem o interesse principal em torno dele. O fato de ser ou não passivo não vai mudar a condição dele, que naquele momento é de homossexual. E o fato  de um homem ter uma relação homossexual não faz dele um gay, pois as identidades de gênero não correspondem nunca com o sexo, pois existem gays que se relacionam com pessoas do sexo oposto.

Ser gay vai além de se relacionar sexualmente com pessoa do mesmo sexo. Sou contra o termo de serheterossexual, pois é uma condição e você pode simplesmente “estar hétero” ou “estar homo”. O estar é o momento em que você está vivendo ou se relacionando com outra pessoa, seja ela do mesmo sexo ou não.  Na área da saúde trabalhamos muito com um público denominado HsH, que são homens que fazem sexo com outros homens, mas não são considerados gays.

Mas, para que não me aprofundas muito nesse estudo, sugiro que assista ao vídeo chamado “homossexualidade e ponto final”.

Texto e imagem reproduzidos do site: nlucon.com 

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

"É o dinheiro quem controla o processo democrático, não as pessoas"

O geógrafo David-Harvey - Marcos Alves/Agência O Globo

Publicado originalmente no site da revista ÉPOCA, em 18/09/2018

David Harvey: "É o dinheiro quem controla o processo democrático, não as pessoas"

O geógrafo britânico, autor de "A loucura da razão econômica: Marx e a economia do século XXI" (Boitempo), defende reduzir drasticamente a influência do mercado na sociedade

Por Ruan de Sousa Gabrilel  

1. O que é a “loucura da razão econômica”?

Segundo a análise marxista, o capital é uma forma político-econômica contraditória: promete liberdade e entrega escravidão; promete crescimento e entrega crise e destruição. (Karl) Marx expôs essas contradições. A maioria dos economistas não gosta de contradições. Eles acreditam que a economia tende a um equilíbrio benéfico, embora forças externas possam perturbá-la. Marx afirma que a economia não tende ao equilíbrio, mas ao acirramento das contradições, o que produz as crises, que são momentos de reconfiguração do capitalismo. Marx fazia piada com os economistas: quando enfrentam uma crise, eles geralmente dizem que isso não aconteceria se a economia se comportasse de acordo com os manuais.

2. Como resolver essa “loucura racional” (ou “razão louca”) da economia dentro dos limites da democracia e do livre mercado?

Não há solução possível dentro do capitalismo, porque o capital é uma contradição. E de que tipo de democracia você fala? Os Estados Unidos são uma democracia controlada pelo dinheiro. A Suprema Corte diz que o financiamento privado de campanhas eleitorais é liberdade de expressão. Isso significa que milionários podem comprar eleições. (O escritor) Mark Twain (1835-1910) disse que os EUA têm o melhor Congresso que o dinheiro pode comprar. É o dinheiro quem controla o processo democrático, não as pessoas. É difícil ter uma democracia genuína se as eleições são tão caras. E, atualmente, vemos cada vez mais o dinheiro apoiando o autoritarismo, que esvazia as democracias parlamentares e concentra todo o poder no Executivo.

3. Qual a solução?

Agora não há um Palácio de Inverno para invadirmos, mas podemos pensar um sistema em que os recursos econômicos sejam geridos democraticamente. O neoliberalismo transformou tudo em mercadoria — até o conhecimento! Estendemos os limites do mercado mais e mais, e enormes segmentos da população, que não têm recursos, não podem comprar educação, moradia digna, crédito, nada. Precisamos “desmercadorizar” a saúde, a educação, a moradia popular e a cesta básica. Uma sociedade decente garantiria saúde gratuita para todos. Moradia popular não pode ser uma mercadoria. Estamos falando de uma plataforma anticapitalista, o que, obviamente, não significa que vamos romper com a economia capitalista amanhã. É um processo de “desmercadorização”.

4. Por que o senhor critica as propostas de renda básica defendidas, nos EUA, pelo Black Lives Matter (movimento social de combate à violência contra negros) e pelo senador socialista Bernie Sanders?

Há vários problemas com essas propostas. Alguns na direita querem a renda básica porque sabem que a automatização e a inteligência artificial reduziram as possibilidades de emprego e que, por isso, há um grande número de pessoas desempregadas que não participam do mercado consumidor. O pessoal do Vale do Silício sabe que a diminuição dos empregos vai encolher o mercado consumidor. A renda básica é a solução deles para preservar o mercado: dê dinheiro a todos para que eles possam ficar no sofá e assinar a Netflix. O problema com os progressistas que defendem a renda básica é que eles ignoram que as pessoas estão preocupadas em ter vidas significativas, trabalhos significativos. Não trabalhar pode ser extremamente negativo. Além do mais, se você dá dinheiro para as pessoas, os aluguéis vão subir. A renda extra vai ser imediatamente tomada pelos proprietários de apartamentos, pelo comércio e pelas empresas de cartão de crédito.

5. O senhor já defendeu o crescimento zero e que a prioridade deve ser a distribuição de renda, e não o crescimento da economia. Os candidatos à Presidência do Brasil defendem a retomada do crescimento econômico. Eles deveriam reavaliar suas prioridades?

Sempre disseram que não há como distribuir renda sem crescimento econômico. Mas quanto do crescimento econômico dos últimos 30 anos serviu para distribuir renda? Reformas tributárias como a de Trump, que cortou impostos dos mais ricos e das empresas, e os programas de ajuste fiscal do Fundo Monetário Internacional (FMI) redistribuem renda dos pobres para os ricos. A crise das hipotecas em 2008 redistribuiu a renda da população para os bancos. Não adianta falar de crescimento, é preciso falar do tipo de crescimento. A transição para uma economia de crescimento zero se dará no longo prazo, porque há países que dependem de crescimento econômico. Mas para quem? Não sou favorável a esse desenvolvimento econômico que vemos hoje, baseado na construção de condomínios para os ricos.

6. No Brasil, obras públicas e construção civil são usadas para alavancar o crescimento econômico.

Se construíssem pontes e ferrovias, seria ótimo, mas só constroem estádios de futebol, condomínios para os muito ricos e shoppings, em vez de investir em urbanismo. Discordo desse tipo de crescimento econômico. Nova York cresce muito graças ao mercado imobiliário voltado para consumidores de alta renda. Ao mesmo tempo, as moradias se tornaram inacessíveis, e a população em situação de rua cresceu. Infraestrutura é importante, mas não os elefantes brancos espetaculares que prefeitos adoram construir, embora não contribuam em nada para o bem-estar da população.

7. Seu trabalho atualiza conceitos marxistas. Ainda podemos falar em luta de classes num mundo onde o operariado fabril decresce e minorias raciais e sexuais lideram movimentos sociais?

Luta de classes sempre foi um conceito que precisou ser entendido em suas muitas nuances. É importante reconhecer que as lutas anticapitalistas se articulam de diversas maneiras. Nos EUA, o operariado desapareceu, e as lutas sociais ocorrem menos nos locais de trabalho e mais nas cidades. Na China, por outro lado, há luta de classes no sentido clássico, existe um proletariado em ação. É um momento que terá efeitos maciços e ramificações globais — inclusive para o Brasil. A desaceleração do crescimento chinês, por causa da dinâmica da luta de classes, vai afetar vocês. No que se refere às lutas identitárias, muitas estão ligadas a sensibilidades anticapitalistas. O Black Lives Matter, assim como Malcolm X (militante na luta contra o racismo nos EUA na década de 60) e Martin Luther King (maior líder do movimento dos direiros civis dos negros nos EUA), reconhece que luta racial também é luta de classes — o que, nos EUA, é perigoso. Outros movimentos identitários, como o #MeToo (contra o assédio e a violência sexual), não têm essa dimensão classista. Muitas feministas afirmam que também é preciso abordar e entender a situação da mulher na sociedade por uma perspectiva de classe. A maioria das lutas sociais pode ter um conteúdo anticapitalista. A perspectiva anticapitalista é mais ampla do que a perspectiva do proletariado fabril, que prevaleceu em algumas organizações políticas de esquerda.

Texto e imagem reproduzidos do site: epoca.globo.com

domingo, 9 de setembro de 2018

'Mulheres também gostam de sexo'

 A atriz Giovana Bombom, que se identifica como ativista e atua em
 filmes do segmento pornografia feminista 
Foto: Divulgação 

Publicado originalmente no site G1 Globo Pop Arte, em 24/05/2018 

Pornô feminista ganha espaço no mercado de filmes adultos do Brasil: 'Mulheres também gostam de sexo'

G1 falou com atrizes e profissionais do segmento que coloca a personagem feminina como protagonista das produções, evita estereótipos e serve de alternativa ao convencional.

Por Cauê Muraro, G1

É o clichê do filme pornográfico. Uma mulher – em geral, loira, curvilínea, com silicone e maquiagem muito visível – escuta a campainha de casa. Ao abrir a porta, ela dá de cara com um homem – em geral, musculoso, tipo galã e entregador (de pizza, por exemplo).

Eles iniciam um diálogo bastante aleatório que dura menos de 30 segundos. Motivo: é hora do sexo. Afinal, os dois estavam ali para isto mesmo: o ator, na figura do dominador que vai ser satisfeito; a atriz, como a submissa que mais geme do que fala (palavrão). Tudo para entreter um público majoritariamente masculino.

A pornografia feminista tem a proposta de ser justamente uma alternativa a este tipo de filme adulto hegemônimo, conhecido por "pornô mainstream" (ou "pornô tradicional"). A vertente ganhou força já a partir dos anos 1980, nos Estados Unidos. Mas, nos últimos tempos, vem ampliando cada vez mais seu espaço no mercado de filmes adultos.

No lugar de corpos necessariamente esculturais, físicos imperfeitos. No lugar do sexo sem propósito e do prazer encenado, o realismo. E, sobretudo, no lugar do homem controlador e da mulher obrigatoriamente servil, o protagonismo feminino.

Atrizes, profissionais do setor e pesquisadoras do tema ouvidas pelo G1 atribuem o crescimento do pornô feminista, em parte, aos recentes movimentos que lutam por igualdade entre gêneros e por respeito e reconhecimento do papel mulher na sociedade.

"Mulher gosta de sexo também", afirma a atriz Emme White, de 37 anos, que faz filmes pornôs há três. "O que mulher não gosta é de ver gemido fake, do sexo sem sentido e sempre visando só o prazer do homem. A mulher quer ver coisas que ela, de repente, se imagina fazendo."

Maurício Paletta, diretor da Playboy do Brasil, grupo que controla o canal a cabo Sexy Hot, principal exibidor do país no segmento, diz que o nicho do pornô feminista "é um negócio que está completamente em voga, e a gente acompanha essa tendência".

De acordo com ele, o selo Sexy Hot Produções, lançado neste ano, finalizou até agora 14 das 36 produções previstas para 2018. "Dessas 14, quatro já estão nesta linha [feminista]. Até o final do ano, queremos mais três, no mínimo", antecipa.

"É uma demanda que vimos, sim, nos nossos assinantes. Estamos buscando isso da melhor maneira possível, inclusive pautando esse tipo de filme."

Dentre as características do pornô feminista, estão:

A mulher é protagonista;

A equipe por trás das câmeras (diretora, produtoras etc.) também é formada por mulheres;

A mulher em cena não é obrigatoriamente submissa (a menos que seja esse o desejo dela);

Não há preconceito com corpos, mas, sim, variedade de tipos no elenco, que pode fugir do estereótipo (branca, loira e siliconada, no caso delas; musculosos, no caso deles);

Filmes com histórias: nada de ir de cara para o sexo sem contexto (isso não significa que seja uma versão romântica ou inocente do pornô convencional);

Sexo realista, sem tanta encenação;

Cuidado com a estética da produção (fotografia, figurino, maquiagem);

Sexo oral nas mulheres tem mais espaço e não precisa ser rápido;

Mostra a fragilidade do homem (ele pode aparecer como o submisso, se for o caso);

Filmes que se preocupam em agradar o público feminino, mas que não são voltados somente a mulheres nem são contra homens;

Os enredos não se limitam a sexo entre mulheres, pois há sexo variado: hétero, gay, lésbico, trans etc.

Além disso, entre 2006 e 2015 a sex shop canadense Good For Her promoveu um prêmio chamado The Feminist Porn Awards (espécie de Oscar do segmento, voltado a produções feministas e trans).

Dentre os critérios de avaliação, estavam: destaque para o prazer feminino, qualidade técnica, inclusão (de "sexualidades marginalizadas ou ignoradas"), desprezo por estereótipos e público variado.

O mote do Prêmio do Pornô Feminista era uma frase da famosa atriz e performer Annie Sprinkle: "A resposta para o pornô ruim não é acabar com o pornô... é tentar e fazer um pornô melhor!".

A partir de 2016, o evento mudou seu nome para Toronto International Porn Festival, que acontece anualmente.

Com a palavra, as atrizes pornôs

Alessandra Maia:

A atriz pornô Alessandra Maia 
Foto: Divulgação

Aos 40 anos e fazendo filmes há dez (apareceu em quase cem produções), Alessandra Maia diz que era "uma atriz extremamente hardcore".

Ganhadora do Prêmio Sexy Hot, tido como "o Oscar do pornô nacional", ela recentemente passou a atuar também em produções feministas.

"São histórias reais [nesses filmes], é o que acontece na vida: uma pessoa normal, com um biótipo normal, nada de mulher cavalona, fitness."

Alessandra comemora o fato de ter tido de decorar textos para uma recente produção desse novo nicho ao qual aderiu. Demorou um mês para gravar quatro cenas (no pornô convencional, diz que conclui o trabalho em dois dias):

"Foi uma preparação bem maior, ensaio com um ator profissional, bastante exercício de posição, nível de emoção. Tem um desgaste psicológico também".

Para a atriz, o filme pornô feminista "passa por não ficar só denegrindo a imagem da mulher".

"Nos filmes de antigamente, era só palavrão, baixo calão. Agora, deu uma melhorada. Porque era disso que o público gostava. Hoje, já existem outros tipos de público para assistir."

Giovana Bombom:

Giovana Bombom, de 27 anos, faz filmes pornôs há dois. Apareceu em cerca de 30 produções. "Ainda tem muito essa ideia de que o homem faz pornô, e a mulher é carne", lamenta.

A atriz, que diz não fazer somente filmes adultos, se descreve como militante:

"Para eu entrar [no mercado pornográfio] foi difícil. Falei: 'Não vou apagar minhas raízes para fazer meu nome'. Porque eu estaria sendo só mais uma de cabelo liso, e não vim para isso. Ainda mais que faço teatro e cinema negro – isso tem uma ligação com meu pessoal e meu trabalho. Sou ativista."

Bombom lembra ter ouvido elogios de espectadoras:

"Elas me falam: 'Eu não gostava de pornô. Mas, quando você começou a gravar, fui assistindo, porque seu cabelo é igual ao meu, o tamanho dos seus seios é igual ao dos meus'".
Ela arrisca uma explicação para o fato de o público feminino não consumir habitualmente o pornô convencional:

"Eu já ouvi muitas mulheres falarem: 'Ah, eu não vou assistir pornô, porque eles colocam uma mulher gostosona, siliconada. E a gente – que não tem silicone, que tem defeito – vai ficar como? Diminuída'".

Emme White:

Emme White nas gravações de 'Urbex fuckers' 
Foto: Divulgação/Sexy Hot

"O pornô feminista é aquele que, sobretudo, respeita a vontade da mulher e dá mais atenção ao prazer da mulher. Não é aquele filme em que a mulher vai chegar e focar só no prazer do homem", compara Emme White.

Também ganhadora do Prêmio Sexy Hot, a atriz faz filmes tradicionais e feministas. "Feminismo é a liberdade da mulher para fazer o que quiser e como quiser", opina.

"As feministas radicais que são contra o pornô, veem o pornô com maus olhos. Porque muitas vezes a mulher está ali [no filme] submissa e cedendo à vontade dos homens. Mas existem muitas mulheres que, mesmo sendo feministas, gostam de um sexo assim: mais submisso."

Emme conclui: "Eu me considero feminista. E quero ter essa liberdade de poder ser atriz pornô sem ser julgada nem condenada. Eu me sinto livre em frente às câmeras para fazer sexo. Gosto de sexo e não tenho vergonha de me mostrar fazendo sexo."

A diretora de filmes pornôs

Diretora de filmes pornográficos, Mayara Medeiros, a May, começou a trabalhar em 2006 na produtora XPlastic. Inicialmente, atuava como produtora, mas há três anos passou a dirigir.

"[No mercado pornô] Tem mais demanda e mais mulheres trabalhando. Antes, era muito difícil ter aceitação de meninas", lembra.

"Quando comecei, aos 18 anos, eu era a única menina atrás das câmeras que eu conhecia. Hoje, já tem outras. Poucas, mas tem mais, já não ando sozinha. Algumas se sentem mais à vontade. E quem está assistindo também."

A diretora diz que "o lugar da sexualidade sempre pertenceu aos homens e sempre foi negado às mulheres": "Qualquer mulher que quisesse ser dona da própria sexualidade era considerada bruxa e puta, no pior sentido da palavra".

Em seus filmes, May procura "colocar a fragilidade masculina, um tabu". "Do mesmo jeito que a gente quer descontruir a imagem da mulher subjugada durante o sexo o tempo todo, nenhum homem precisa ser o super-herói o tempo todo", afirma.

"Essa fragilidade masculina pode aparecer em vários takes: desde um personagem que está em dúvida se quer ou não fazer alguma coisa ou até mesmo mostrar um take do cara de pau mole. Num filme tradicional, isso nunca vai acontecer (risos)."

A diretora dá um exemplo prático da abordagem que propõe:

"Sabemos que um fetiche masculino é ver duas mulheres [fazendo sexo]. Mas não vamos colocar uma delas com a unha gigante. Porque não faz sentido, nunca vai acontecer, vai machucar a outra (risos). Numa produção mainstream, é isto que a gente vê: duas mulheres esculturais, com corpo tradicional, aquilo que se entende porr sexy – e elas se pegando com as unhas enormes. Gente, essa unha vai se perder lá (risos)."

Mas May faz uma ressalva:

"Não acredito que nenhum produto pode ser caracterizado como feminista. Lógico que fica fácil para o público entender quando a gente coloca nomenclatura nas coisas. Mas acho muito mais interessante colocar que é uma 'produção feita por mulheres'. Não acredito que exista uma caneta feminista, restaurante feminista, estúdio de tatuagem feminista... Colocar que a gente está fazendo pornô feminista – parece que é uma categoria numa gôndola. Isso deveria ser o comum, só que infelizmente não é".

Feminismo e pornografia: história

A psicóloga Maria Eduarda Ramos é autora da tese "Pornografia, resistências e feminismos: estratégias políticas feministas de produções audiovisuais pornográficas", defendida em 2015 na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

"A 'guerra dos sexos' ou 'sex war' teve como cenário os Estados Unidos e teve importância para a história da pornografia feminista. Não há um feminismo, mas feminismos. Nesses, há ideias diferentes sobre a questão de pornografia", lembra a pesquisadora.

"Nos anos 1970 e 1980 (nos EUA), feministas reivindicavam leis antipornografia, argumentando que a pornografia era a causa da violência contra mulheres. Por outra parte, algumas feministas contra- atacavam esses discursos e apoiavam alternativas sexuais que implicavam na defesa do prazer (sex positive). Essa discussões permanecem entre feministas atualmente, encontram-se grupos das duas vertentes nas redes sociais."

Maria Eduarda cita que "entre as que defendiam o prazer e a possibilidade de a pornografia ser utilizada e inventada de outra forma como luta de liberdade sexual estavam feministas militantes, estudiosas, lésbicas, pessoas do movimento sadomasoquista, prostitutas, atrizes pornôs".

Em 1984, estrelas do segmento, como Annie Sprinkle, Candida Royalle, Veronica Vera, Gloria Leonard e Veronica Hart, formaram o grupo Club 90 para discutir a seguinte questão, dentre outras: "Há uma pornografia feminista?".

Como definir 'pornografia feminista'?

A diretora sueca de filmes pornôs Erika Lust, em foto de perfil no Facebook
Foto: Divulgação

De acordo com Maria Eduarda Ramos, "não há critérios ou alguém que diga quando um filme é feminista ou não".

O termo "pornô feminista", portanto, se aplicaria a filmes definidos assim por seus seus diretores e diretoras. E "também filmes pornôs que podem nos fazer refletir questões a partir de ideias feministas".

Como exemplo de diretoras que se denominam femininas, a pesquisadora cita Petra Joy e Erika Lust, a sueca que talvez seja o nome mais conhecido do mundo neste nicho.

Autora de um livro sobre o tema, Lust deu em 2014 uma palestra no TED intitulada "É hora de o pornô mudar".

Do site oficial da diretora, consta a seguinte declaração de princípios:

"Eu prometo criar uma nova onda no cinema adulto. Quero mostrar toda a paixão, intimidade, amor e luxúria no sexo, onde o ponto de vista feminino é vital, a estética é um prazer para todos os sentidos, e aqueles que buscam uma alternativa ao pornô mainstream podem se sentir em casa".

Maria Eduarda observa que "o feminismo de Lust tem como sujeitos mulheres brancas, de camadas abastadas, que fantasiam com cenários luxuosos, etc.". "É válido? Claro, é feminismo com sujeitos específicos. Mas há outros feminismos que abarcam outros sujeitos, outras mulheres."

Erika Lust não é unanimidade: há quem não a considere uma autora feminista de fato e quem a critique justamente por não evitar tanto assim certos clichês estéticos, além de carecer de uma suposta falta de representatividade.

'Continuidade'

A jornalista chilena Oriana Valentina Miranda Navarrete é integrante do coletivo feminista Vaginas Ilustradas e autora da dissertação de mestrado "Muestra Marrana 2015: Corpos femininos no pós-pornô latino-americano", defendida em 2016 na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Ela não acredita que o pornô feminista ou o pós-pornô representem ruptura com relação ao pornô tradicional. "Mais do que isso, é uma continuação. Não é tipo: 'O pornô tem de terminar ou é errado'", afirma.

E continua: "O que pode estar acontecendo é um questionamento de parte da feministas sobre como a sexualidade está sendo transmitida às pessoas mais novas, incluindo as crianças".

"As primeiras imagens ou regras sobre o sexo que as crianças recebem provêm do pornô. O que o pornô está dizendo a essas mulheres e homens jovens? Como é a forma como vão se relacionar? O que o pornô mainstream está dizendo sobre a possibilidade de outras sexualidades e opções?".

Texto e imagens reproduzidos do site: g1.globo.com/pop-arte

sábado, 1 de setembro de 2018

Seis comportamentos que fazem as pessoas se afastarem de nós


Publicado originalmente no site Brasil El País, em 26 de agosto de 2018

Seis comportamentos que fazem as pessoas se afastarem de nós

Certos comportamentos podem acabar afastando os demais do nosso convívio. A atitude certa é crucial para termos sucesso em nossas relações pessoais

Por Alejandra Sánchez Mateos  

A maioria de nós gosta de ter sucesso em nossas relações pessoais. Mas ter a atitude certa é crucial para esse fim. Na verdade, existem certos comportamentos que, se reiterados, podem acabar afastando os demais do nosso convívio. O psicólogo José Elías Fernández González, membro do Colégio de Psicólogos de Madri, na Espanha, nos conta quais são os mais habituais desses comportamentos, e o que podemos fazer para melhorar essas características caso as tenhamos.

1. Levar as coisas a ferro e fogo

Podemos nos magoar, por exemplo, quando um chefe reconhece os resultados de um colega, mas não os nossos. É preciso, porém, aprender a relativizar essas pequenas punhaladas no ego e “não autoquestionar nosso valor nem se subvalorizar”, recomenda o especialista.

Para lidar com isso, é preciso ser capaz de pensar que não somos os melhores em tudo. Só assim conseguiremos tirar um grande peso de cima: “Seria exaustivo se todos sempre recorressem a nós”, diz o psicólogo. “Além disso, não podemos ser especialistas em todos os aspectos profissionais e pessoais. Há pessoas que têm ideias melhores que as nossas em determinados assuntos.”

Também devemos tentar não levar tudo para o terreno pessoal, porque não somos o umbigo do mundo. Devemos tentar manter o controle sobre nossas emoções e não reagir exageradamente aos acontecimentos cotidianos.

2. Ser ciumento por natureza

O monstro de olhos verdes tampouco ajuda a criar um círculo de amizades saudável. No âmbito social, muitas vezes o ciúme é entendido como uma amostra de que nos importamos com os outros, mas neles só encontramos frustração e mal-estar. “Geram sentimentos de inveja, obsessão ou controle que de maneira inconsciente e involuntária se manifestam e projetam nos outros, o que pode levá-los a fugir de nós”, esclarece Fernández González.

Para combater o ciúme, devemos aprender a valorizar nossos pontos fortes e virtudes, assim como as coisas boas que nos acontecem. “É preciso evitar comparações com os outros.”

3. Necessitar de constantes elogios

Todo mundo gosta de receber elogios ou afagos de quem nos cerca. Mas cuidado, porque, se nossa autoestima depender da validação constante por parte dos outros, ela se voltará contra nós. Ser viciado em elogios também pode turvar suas amizades.

Fernández González afirma que não cabe às pessoas que nos cercam nos manter motivados e com o ego alimentado. “Cada um é único e irrepetível, e não temos por que sempre contentar a todos, e sim a nós mesmos.”

O amor próprio é a chave. Isso tampouco significa que devamos nos tornar vaidosos ou egocêntricos, só que tenhamos consciência de que a forma como os outros nos veem é apenas uma amostra da realidade, que nem sempre é a correta.

4. Não aceitar críticas construtivas

Ninguém gosta de ter suas falhas ressaltadas, mas de vez em quando vai bem que nos chamem a atenção para elas. Entretanto, não devemos confundir isso com a atitude daquelas pessoas que só veem o que está ruim, já que isso pode acabar sendo negativo para o crescimento pessoal.

Como disse Joe E. Brown a Jack Lemmon em Quanto Mais Quente Melhor, “ninguém é perfeito”. “Reconhecer nossos defeitos é uma força que gera autoestima e nos ajuda a adotar mecanismos para superá-los”, observa Fernández González.

O psicólogo afirma que, se não aprendermos a aceitar os comentários negativos, nunca tentaremos superar e eliminar nossas desvantagens. Também insiste na necessidade de uma boa comunicação com os outros, já que são os bons amigos que nos ajudam a ter uma visão mais objetiva dos nossos comportamentos e nos motivam a melhorá-lo: “É fundamental para o sucesso nas relações, e também para ter uma visão saudável sobre nós mesmos”.

5. Fazer-se constantemente de vítima

Assumir esse papel para causar pena ou compaixão funcionará durante pouco tempo. Segundo o especialista, há uma realidade: “Todos queremos estar com pessoas alegres e felizes”. Isto não significa que você nunca possa compartilhar as fases ruins ou as coisas negativas com seus amigos. Porém, se abraçarmos a negatividade como filosofia e o vitimismo como atitude perante a vida, os outros fugirão de nós “como da peste”.

“Alguns só podem ver a parte negativa das coisas que lhes acontecem, ou sempre se antecipam ao que vai acontecer no futuro, e isso não lhes permite ser felizes. Se dependesse deles, o mundo já não existiria mais”, afirma o psicólogo.

Para evitar isso, não podemos atribuir ao exterior ou ao destino tudo o que nos acontece de ruim, pois determinadas variáveis estão ao nosso alcance e devemos ter consciência de que muitas das coisas que nos ocorrem são consequência de nossos pensamentos e ações. Só uma atitude positiva poderá nos ajudar e também fará os outros confiarem em nós.

6. Ser muito sincero, mesmo se ninguém tiver pedido a sua opinião.

Disseminar nossa opinião sobre qualquer tema sem que ninguém peça —por exemplo, como é horrorosa a calça do seu amigo ou o penteado da sua colega de trabalho— nos transforma em seres odiosos.

O que se conhece como “não ter filtro”, ou seja, emitir juízos gratuitos a torto e a direito, pode magoar os que nos cercam ou fazê-los se sentirem incômodos. Em geral, falar demais não é uma qualidade elogiada socialmente, segundo o especialista: “Não se pode dizer a primeira coisa que nos passa pela cabeça nem julgar as pessoas levianamente, sem pensar que podemos ofender”, afirma Fernández González.

É preciso aprender a ser mais prudente, respeitoso e empático, recomenda o especialista. Também é bom saber valorizar as qualidades e capacidades dos outros: “Melhor pecar por prudência que por excesso nos julgamentos que emitimos sobre os outros. Não temos só que estar atentos ao que dizemos, mas também ao jeito que empregamos”, esclarece.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Entrevista com Fernanda Montenegro

 Fernanda Montenegro, na Flip em julho deste ano. DIVULGAÇÃO

 Fernanda Montenegro na novela da TV Record 'A Morta Sem Espelho', em 1963.

 Fernando Torres e Fernanda Montenegro, em 1953, recém casados. ARQUIVO PESSOAL

Foto em família, em 2000. ARQUIVO PESSOAL

Publicado originalmente no site do El País Brasil, em 14 de agosto de 2018

“Temos uma nação onde cada setor, à espera de dias melhores, acorda e canta. O Brasil não vai se entregar”

Atriz brasileira, que está prestes a completar 89 anos, lança livro fotobiográfico sobre seus mais de 70 anos de carreira. Ao EL PAÍS, diz que o Brasil está "nas catacumbas", mas "não vai se entregar"

Por Felipe Betim (Jornalista | Periodista - El País)

Arlette Pinheiro Esteves da Silva tornou-se Fernanda Montenegro (Rio de Janeiro, 1929) quando ainda trabalhava na Rádio Ministério da Educação e Cultura, onde começara aos 15 anos após passar em um teste. “Fiquei lá durante 10 anos, mesmo já trabalhando em teatro. A partir do quinto ano, comecei a ter um programa literário para o qual eu adaptava contos, novelas e participava como rádio atriz. Inventei esse nome. Achei que era interessante para um programa literário”, conta ela ao EL PAÍS. “Soava como aqueles nomes franceses a la século XIX ligados a literatura de Balzac e Flaubert. Foi por curtição, mas esse nome acabou pegando. O que vou fazer?”

Era o início de uma longa e brilhante trajetória no teatro, no cinema e na televisão compartilhada na maior parte do tempo com seu parceiro, o ator, diretor e produtor Fernando Torres, com quem foi casada até a morte dele, em setembro de 2008. Prestes a completar 89 anos, Fernanda mantém uma rotina de trabalho intenso. Mais recentemente, abriu a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de julho deste ano com uma leitura de textos de Hilda Hilst, a homenageada do evento, e lançou pela editora SESC um livro, Itinerário Fotobiográfico, recheado de fotos, textos pessoais e memórias desses quase 75 anos de carreira. “Ele foi pensado há uns oito anos pelo professor Danilo Miranda [diretor do SESC São Paulo], que é um homem voltado para a cultura. Fui abrindo as gavetas e começou a vir o material”, conta.

Pergunta. Quando a senhora se deparou com todo esse material, teve uma outra dimensão de sua carreira?

Resposta. Não, a gente vai vivendo e vai trabalhando... São praticamente 75 anos. O que na verdade também está no livro, que tem 500 páginas, é o que sobrou do que não foi esquecido, do que não foi usado e desaparecido das gavetas. Fernando e eu tivemos uma companhia durante 30 ou 40 anos, então nessa dinâmica de divulgação do que se fazia, muito material não se guardou. De uma certa maneira, o que está no livro, que eu acho de boa qualidade, é o que sobrou dessa dinâmica de se propor diante da sociedade quando você tem um trabalho cultural e teatral. No Brasil, a cada dia você tem que matar um leão, ainda mais dentro da cultura. Então, se você tem algo a dizer no campo cultural, você tem que se propor. Não há acúmulo, compreende? No nosso país, a cultura é batalhada.

P. Muita gente jovem que trabalha com teatro fala da dificuldade de se pagar as contas. Também era assim quando a senhora começou?

R. Sempre foi difícil viver de cultura no Brasil, não só de teatro. Mas o teatro também, porque ele requer o outro... Um escritor pode se fechar numa sala e escrever um livro, que poderá ser sua glória ou não. Um pintor pode pintar um quadro e um dia, inclusive depois de sua morte, virar um gênio. O teatro requer o outro, requer o comunal. Para existir, ele precisa de um investimento, mesmo que mínimo. Como estamos numa crise, o teatro... Ele não vai acabar, mas está nas catacumbas. Está sendo feito conforme a situação permitir. No Brasil, penso que está se encerrando, depois de mais de 200 anos, uma dinâmica, uma estética teatral da potência da dramaturgia, do grande autor. Dada as circunstâncias econômicas e também um certo esgotamento de uma estética teatral no mundo, estamos todos em tempo de espera. Não tenho conhecimento absoluto, sou apenas uma observadora do nosso ponto de vista. Mas a cultura vive uma crise geral, não é só o teatro.

P. Por quê?

R. Porque é tida mais ou menos assim como um licor, um conhaque depois de um grande jantar. Ela é dispensável. E ainda há um movimento que diz que a cultura tira o prato de comida do pobre, porque é fundamental primeiro alimentar e depois virão os outros apoios diante da vida, como a cultura. Eu, na minha viagem, penso que deveria haver só um ministério, o Ministério da Cultura. E depois secretarias. Secretarias de Educação, Economia... É uma ideia maluca, mas na medida em que há desprestígio total em torno da cultura, o meu protesto vai para o campo da utopia. Não há educação que se fixe sem que esteja acoplada à cultura. Uma educação seca, sem o estímulo de uma visão carnificada da cultura, não se fixa.

A crise cultural é muito mais ligada ao artesanato. Quando eu digo artesanato, eu digo o seguinte: nem todo o dia você faz uma grande obra de arte, mas você toca o seu violino porque você não pode deixar de tocar o seu violino. Uma orquestra é feita de artistas, mas antes de serem artistas são artesãos. É como o palhaço no circo, é como um pintor. Há um fazer que não passa pela indústria. É isso que está sendo desprestigiado. Isso não quer dizer que lá nos recantos mais abandonados do Brasil a música daquela região não se faça, a dança não se faça, os movimentos de alguma visão cênica não se façam. A vocação [de um artista] é inarredável. É uma condenação, para o bem e para o mal. Essa vocação te leva a um ofício, então você não é só um trabalhador. É um oficiante, seja marceneiro, corneteiro, pedreiro, médico, advogado, jornalista... Entendeu? De alguma maneira, mesmo nas catacumbas, o ofício vai sendo realizado. Porque se você não estiver ali, fazendo aquilo, vai ser infeliz. Pode até comer melhor, pode até tomar seu conhaque, mas não vai ser feliz.

P. A senhora participou de greves durante os anos 60 contra a censura. Ainda existe hoje? E se existe, qual é a diferença entre antes e agora?

R. A censura que existe hoje é uma censura aparentemente sem face, porque é a censura do desprestígio cultural. É mais difícil de caminhar e até de protestar. Antes sabíamos contra quem protestar e por que censuravam. Hoje acho que temos um Congresso Nacional primário, sem dimensão cultural, e às vezes até mesmo educacional. Não há censura dentro da visão tradicional, que se define a partir de proibições catalogadas em um regime ditatorial. Quando eu falo em desatenção em relação à cultura, eu falo que isso faz parte de uma visão de Brasília em torno da cultura.

P. No mundo inteiro existem movimentos reivindicatórios que demandam mais espaço para, por exemplo, artistas negros e transexuais. No Brasil isso resultou, recentemente, na desistência de Fabiana Cozza de representar Dona Ivone Lara num musical sobre sua vida. Considera esses movimentos legítimos ou vê também alguma tentativa de censura por parte deles?

R. São movimentos legítimos que estão sendo violentamente detonados agora, mas que dentro de 10 ou 15 anos estarão absolutamente encaixados, aceitos. As coisas, a cada período, se acrescentam em suas propostas de reivindicação, de afirmação humana. Pela idade que eu tenho, eu sei que daqui a 15 anos isso não será mais discutido. Será uma representatividade respeitada, aceita e sequer pensada em ser triturada.

P. Por que acha que vêm sendo triturados?

R. Meu filho, isso faz parte das batalhas, das lutas de reivindicações, entendeu? Eu não tenho mais 15 anos, então eu sei que é assim mesmo, é batalhado mesmo, é sofrido mesmo. O momento do protesto é por uma questão de reconhecimento de uma raça ou carência social. Mas eu me lembro da grita pela liberdade de expressão nos anos 60 e o que foi a mulher se propor como criatura. A cada 10 anos há zonas que precisam ser esclarecidas e conquistadas, e geralmente isso vem com contundência. Mas aí chega-se a um acordo, a um ganho. Dentro de um tempo, haverá outra zona que precisa ser esclarecida, reivindicada e conquistada.

P. Qual fase da sua carreira a senhora mais se sente orgulhosa?

R. Dela toda. Sobrevivi. Eu tive um companheiro de vida que me ajudou a existir, e eu a ele. Houve um par. Os pares de qualquer sexo se ajudam, são amparos mútuos. Conheci Fernando Torres no teatro, que é um campo maravilhoso de convívio, de paciência, de generosidade, de contundência, porque isso não é conquistado com doses de ajuda química. É um lugar onde se tem que suportar. E o palco é o lugar mais livre que o homem criou em sua história. Não existe nada mais liberto nem mais libertário do que o palco.

P. Talvez por isso incomode tantas pessoas...

R. Eu acredito que sim, mas isso vale para a cultura em geral. A cultura é instigadora, não é conformada. Essa culturinha conformada... No Brasil estamos caminhando para uma visão de grupos evangélicos que têm um outro conceito sobre o que vem a ser a arte ou a liberdade de se dizer e de ser. Há uma contestação em torno disso. Então temos mais um problema, que é como a gente vai existir com esses contrários. E a gente vai ter que ter força o suficiente para contestar essa contestação (risos). É isso que faz a dinâmica da vida, não é? Quem vive de dramaturgia sabe o que é isso.

P. Tornou-se um clichê dizer que a senhora é a melhor atriz do Brasil. Concorda com esse título? Quem é, na sua visão, a melhor atriz do país?

R. No momento, embora com 97 anos, Bibi Ferreira é a grande mulher, a grande atriz, a grande produtora, a grande artistas dos palcos desse país. Não sou eu. É nela que eu me espelhei quando eu tinha 15 ou 20 anos. Além dela, Dulcina de Moraes. Mas Bibi trabalhou até 95 anos e é também uma cantora extraordinária, uma mulher de palco absoluta. Ela é minha raiz.

P. Alguma atriz ou ator da nova geração te chama a atenção?

R. É muito pobre, para não dizer porco, destacar um nome. Há uma geração de atrizes e atores que estão bem, são ótimos, estão se preparando a própria custa numa hora complicada de sobrevivência de palco, indo fazer seu teatro como pode, sobrevivendo economicamente do que puder fazer de cinema, de televisão... Então não vou destacar ninguém. O teatro do Brasil é mais rico do que ficar destacando um ou outro nome.

P. Seu livro possui imagens muito pessoais, de família, entre as quais destaca-se uma de Fernando Torres no dia de sua morte. Qual é a fronteira entre o que é público e o que é privado?

R. É um itinerário de uma vida. Eu sou resultado dos meus antepassados. São italianos e portugueses. Me criei envolvida por esse mundo que lutava para se adaptar a este país e, como toda leva de primeiros habitantes de um país depois de uma imigração, meus pais eram profundamente brasileiros. Eu sou profundamente brasileira. Assim como eu tive a minha família de sangue, eu tive a minha família de teatro. Amigos, colegas... A maioria já se foi. Eu não posso narrar minha vida sem meu companheiro, esse homem com quem vivi 60 anos. E meus filhos, que também vieram para a mesma área que nós. Tudo se mistura. Não existe divisão [entre a vida profissional e pessoal]. O verdadeiro bicho de teatro não tem divisão. Se tiver que amamentar nos bastidores, amamenta. Se estiver sem ninguém para dar conta, leva para o camarim e a camareira ajuda naquele momento a cuidar da criança. Isso no meu tempo, não sei como é hoje. Porque nós tínhamos uma vida intensa, dia e noite, de palco, de bastidor... E de profissão. Ou de vocação.

P. A senhora ainda trabalha muito. O que te estimula a manter esse mesmo vigor de antes?

R. Eu não sei como ainda trabalho. A minha geração que ainda está viva trabalha muito. Laura Cardoso, Eva Vilma, Lima Duarte, Francisco Cuoco... Nathalia Timberg trabalha sem parar em teatro. Estão todos de 81 para 93 anos. Porque o teatro te dá vida. O corpo pode estar ruim, mas na hora que você entra em cena... Saiu de cena, vem todas as dores das juntas. Mas em cena, não tem nada.

P. No seu caso, o que veio com a idade? Em que momento percebeu que estava envelhecendo?

R. As minhas juntas já foram melhores. Os olhos também já enxergaram melhor. Os sapatos já puderam ter salto oito ou nove, mas já não me arrisco mais. A coluna ainda está no lugar, só Deus sabe porquê. Eu fui sem perceber até a morte do Fernando, que faz 10 anos agora em setembro. A partir daí vi que a finitude estava chegando, entendeu? O humor mudou. A paciência aumentou. A resignação também aumentou, mas não muita. Principalmente em relação a existência mesma, mas não tanta em relação ao mundo principalmente da política. Infelizmente não existe a imortalidade. Quando eu vejo Bibi Ferreira parando, com 97 anos, é a minha era que está indo embora. Comecei a perceber  isso com a morte de Paulo Autran, que se foi há uns 12 anos. Pouco antes ele estava fazendo uma peça de Molière com 1.000 pessoas na plateia. E ele parou. Eu mandei uma carta pare ele, e isso está no livro, em que eu dizia, apavorada: “Paulo, se você para, acabou a nossa era”. E é verdade. Aos poucos, meus amigos inseparáveis foram embora. Foi o início do fim. Mas isso não tem morbidez, não tem angústias... Bate uma certa tristeza às vezes, mas a atividade te leva a ter uma terapia ocupacional boa. É vida pura, porque você está sempre lidando com seres humanos.

P. O Brasil ainda vale a pena? O que diria para alguém que desistiu do país?

R. O Brasil existe. Independentemente dessa Brasília maluca que está aí e desses governos que se sucedem. Temos um país do tamanho de um continente onde cada setor, na esperança de dias melhores, acorda e canta. E eu só quero dizer que este país não vai se entregar. Em todos os sentidos. Na sua sobrevivência, não vai desistir. Nós estamos todos nas catacumbas. Mas vai sair o brasileiro contemporâneo. E se é contemporâneo, está ligado ao seu tempo, então é um ganho (risos).

Texto e imagens reproduzidos do site: brasil.elpais.com