quinta-feira, 17 de maio de 2018

Duas páginas inéditas do diário de Anne Frank...

  Ana Frank, em uma fotografia de dezembro de 1941.

As duas páginas que Anne Frank cobriu com papel kraft agora reveladas.

Publicado originalmente no site El País Brasil, em 15 MAI 2018 

Duas páginas inéditas do diário de Anne Frank mostram sua curiosidade pelo sexo

Processo fotográfico digital permite descobrir suas referências às relações e à prostituição

Por Isabel Ferrer 

As páginas 78 e 79 de Kitty, o nome dado por Anne Frank ao seu  primeiro diário, com capa xadrez vermelha, que ganhou em 12 de junho de 1942 como presente de aniversário, eram um enigma. Com riscos e papel kraft colado era impossível lê-las. Até agora. Graças a um processo fotográfico digital, a fundação que leva seu nome em Amsterdã apresentou na terça-feira algumas passagens em que a adolescente de 13 anos pergunta o que faria se alguém lhe pedisse que o instruísse “sobre questões de sexo”. “Como faria isso? Esta é a resposta”, escreve. São reflexões próprias de sua idade que lançam nova luz sobre sua personalidade.

Ambas as páginas foram descobertas em 2001, quando todos os manuscritos de Anne Frank foram escaneados. Estão datadas de 28 de setembro de 1942, quando estava escondida dos nazistas havia dois meses junto com a família e três amigos de seus pais. Todos viviam nos fundos de uma casa na região dos canais da capital holandesa e em novembro chegaria outro conhecido.

Apesar da situação, “Anne não perdeu a curiosidade dos adolescentes sobre a sexualidade”, segundo Ronald Leopold, diretor da fundação. E como a garota tinha habilidade para escrever, mistura piadas sobre o que imagina que poderia acontecer do lado de fora com seus desejos mais íntimos. Na primeira página, anuncia que pretende “fazer piadas obscenas”. Como esta: “Você sabe por que há garotas nas Forças Armadas alemãs na Holanda? Para servir de colchão para os soldados”. A zombaria produz algum desconforto, tendo em vista a ocupação nazista do país, mas mostra que Anne era uma garota como as outras. “Esse tipo de piadas sujas são típicas da idade e é impossível evitar um sorriso ao lê-las”, diz Frank van Vree, diretor do Instituto para o Estudo da Guerra, do Holocausto e do Genocídio (NIOD, na sigla em holandês), que colaborou no trabalho.

Em relação à sexualidade, Anne fica séria. Na segunda página faz a pergunta do princípio. Como ela poderia responder a uma pergunta sobre sexo? Em seguida, analisa a chegada das regras, em torno dos 14 anos, e suas consequências, um assunto que aparece em outro momento do texto. “É sinal de que uma menina está pronta para ter relações com um homem. Mas isso não se faz antes do casamento. Depois, sim. Também se pode decidir [a partir de então] se se deseja ter filhos ou não. Se a resposta for sim, o homem se deita sobre a mulher e deixa sua semente na vagina dela. Tudo acontece com movimentos ritmados”. Quando o casal decide evitar filhos, “a mulher toma medidas internas e isso ajuda”. “Pode falhar, é claro, mas se você realmente quer filhos, às vezes não é possível. O homem gosta dessas relações e as deseja; a mulher um pouco menos, mas também”.

A prostituição e a homossexualidade também aparecem nessas páginas, com ingenuidade. “Se os homens são normais, vão com mulheres. Na rua, há mulheres que falam com eles e então vão embora juntos. Em Paris, existem casas muito grandes para isso.  Papai esteve lá. O tio Walter não é normal. Existem garotas que vendem essa relação.”

O Instituto Huygens de História da Holanda também participou desse esforço e seus porta-vozes apontam que “o mais provável é que a própria Anne tenha colado as páginas”. Otto Frank, o pai, foi o único da família a sobreviver ao Holocausto. A mãe e a irmã morreram, como Anne, nos campos de concentração. Em 1947, antes da publicação do Diário, ele censurou cinco páginas em que a menina falava das brigas dos pais e da relação difícil com a mãe. Em 1998, foram acrescentadas a uma edição considerada completa. O Diário de Anne Frank foi traduzido em 70 idiomas e publicado em 60 países, de acordo com a fundação.

Texto e imagens reproduzidos do site: brasil.elpais.com/brasil

terça-feira, 15 de maio de 2018

Fernanda Paes Leme, gata todo dia


Fotos: André Nicolau/Revista VIP

Publicado originalmente no site da revista VIP, em 11 maio 2018

Fernanda Paes Leme, gata todo dia

Uma das mulheres mais desejadas do país, exatamente do jeito que é: linda, leve, sexy e sem frescura nenhuma!

Por Da Redação  

E lá se foram 11 anos. Quando Fernanda Paes Leme posou pela primeira vez para a VIP, em 2003.

Havia uma guerra no Iraque, Lula tinha acabado de assumir a Presidência e todo mundo só falava no beijo triplo e ao vivo pela TV entre Madonna, Britney Spears e Christina Aguilera.

Sabe-se lá se vivemos num mundo melhor desde então, mas uma coisa é certa – está aí o ensaio para confirmar: Fernandinha (é difícil resistir ao diminutivo carinhoso, né?) nunca esteve tão gata e tão bem.

“Tô mais leve, saca?” Sacamos. Boa parte dis­­­­­­­­so, diz ela, veio do fato de ter aceitado os 30 anos de boa, sem drama.

“A gente fica mais dona de si, sem tanta expectativa. Passou aquela Síndrome de Peter Pan dos 20 e poucos anos. Se bem que fiquei mais seletiva e isso é chato”, diz, rindo, ela que está solteira há um ano e divide o apartamento à beira-mar na Barra da Tijuca com Google, uma border collie impossível.

Isso quer dizer que ferrou geral para os caras e está cada vez mais difícil chegar junto da inigualável Fernanda Paes Leme? Que nada.

“Comigo não tem essa de ficha técnica para cumprir, tem que rolar um encontro de gente querendo a mesma coisa, que seja divertido. Se o cara tiver tanquinho é lucro [risos], mas isso não me importa.”

Eles é que costumam se importar, ficam cheios de dedos. Difícil aguentar o rojão. Pudera: uma mulher linda, famosa, com grana, independente e que não precisa de homem para nada.

Mas, se ro­­­­­­lar impasse, não é ela quem vai empacar: os caras não vêm? “Vou até eles.”

No flerte, Fernanda parte para o ataque, mas diz que num esquema mais “soft power”. “Sutilmente”, entrega.

O que é ser sutil nesse caso?

“Não vem com essa pergunta, não vou entregar minhas armas”, ela repele. Insisto.

“É fazer de um jeito que só o cara perceba.” Mas só ele – e, conta, já viu muito marmanjo assustado.

Mas pense bem, olhe direito, como diabos é que se reage naturalmente a uma mulher dessas te dando mole?

Nesse jogo de mostra e esconde ajuda bastante dominar um ofício que tem muito de dissimulação, coisa que ela vem afinando desde os 15 anos, quando ainda era só a filha de um narrador esportivo famoso (Álvaro José), começando a carreira no seriado Sandy & Junior.

A adolescente linda e meio desengonçada daquela época conta hoje 15 novelas no currículo, quatro filmes (está filmando o quinto) e desde o mês passado uma nova empreitada, como apresentadora do Superstar, uma das apostas da Globo neste ano.

Chegou longe.

Fernanda virou celebridade – tem quase 3 milhões de seguidores no Twitter –, mas sem os cacoetes dessa fauna de egos e micos gigantescos.

Não tem botox, não fez plástica nem lipo, não pôs peito, é tudo dela e cuidado com moderação. “Malhar não é minha prioridade. Imagina, não quero dar dica de nada, nem ser exemplo para ninguém por causa disso. Tô de boa!”

Se for exemplo, deseja ela, que seja pelo futebol que curte (é são-paulina doente), pelo monte de palavrão que fala enquanto assiste aos jogos, pelo jeito despachado que vai à praia, sem se preocupar com paparazzo nenhum, e pela carreira que construiu com muito trabalho.

“O lance é ser normal, não tem nada mais caído do que fazer tipo, né?” É mesmo? “Sim, e os caras percebem. Eles até se submetem a isso, mas logo vazam.”

Por normal, leia-se ser assim exatamente como neste ensaio, sem nenhuma frescura, à vontade, sem muita ma­­­­­quiagem, com os cabelos soltos, se esparramando preguiçosa e sexy numa cama macia, como se esperasse alguém chegar com o café da manhã.

Esse alguém pode ser você, caro leitor, porque Fernanda é quem diz: “Não quero ser a sarada, a gostosa, eu quero ser acessível”.

Calhou de ela ser tudo de uma vez só.

Estilo: Juliano Pessoa e Zuel Ferreira
Fotos: André Nicolau
Texto: Rodrigo Levino

*Ensaio originalmente publicado na edição 350 da revista VIP.

Texto e imagens reproduzidos do site: vip.abril.com.br

quinta-feira, 10 de maio de 2018

De viúva endividada a chef de cozinha...



Odete entrega uma pombinha feita de massa de pão a cada um dos 
clientes que vai embora de seu restaurante.

Publicado originalmente no site Huff Post Brasil, em 10 de maio de 2018

De viúva endividada a chef de cozinha: A persistência de Odete Bettú Lazzari

Ela é dona da cozinha do Osteria della Colombina, na Serra Gaúcha; um restaurante criado com obstinação e comandado apenas por mulheres. "Fiz esse lugar com as minhas mãos", conta.

By Ryot Studio e Cubocc 

Quando se despede e entrega a cada dos clientes de seu restaurante uma pequena pomba feita de pão, a cozinheira Odete Bettú Lazzari, de 68 anos, os presenteia com um pouco de sua história. Cada colombina fala de trabalho, persistência, carinho e orgulho. Como tudo que é servido na Osteria, a receita é de família: dona Maria de Lourdes, mãe de Odete, as moldava à mão cada vez que preparava uma fornada de pão, e dava às crianças. Ganham olhos de semente de uva, e depois de assadas recebem embalagens individuais que remetem às caixas de fósforo que o pai de Odete colecionava.

É assim em cada canto da Osteria della Colombina, no município de Garibaldi, na serra gaúcha, a 120 km de Porto Alegre. Tudo ali, seja de comer ou de olhar, remete à história da família de agricultores descendente de imigrantes italianos. Uma narrativa plena de orgulho, mas também de sofrimento: o restaurante só existe porque Odete ficou viúva de forma repentina, aos 47 anos. Perdeu o marido, Danilo, 21 anos atrás, para um infarto fulminante, e ficou com as quatro filhas, 13 hectares de terra e algumas dívidas. "Faltou chão, faltou tudo, mas tive de respirar fundo. Me obriguei a não ficar lamentando", lembra em entrevista ao HuffPost Brasil.

Você é uma visita no restaurante. Fica quanto tempo quiser, e só vai embora quando cansa.

Odete foi compelida a arrendar parte da propriedade e vender as vacas de leite que possuía. As duas filhas mais velhas trancaram a faculdade. "As pessoas sabiam da minha situação, vinham e botavam preço nas minhas coisas. Depois de dois anos de arrendamento das parreiras, ainda não conseguia me manter", conta. Mas foi quando no Natal de 1998 que Odete escutou no rádio um chamado que mudou sua vida: um anúncio para famílias da região aderirem a um projeto de turismo rural. "Me interessei na hora. Era minha chance", lembra.

Engajou-se então em uma série de cursos nas áreas de gastronomia, hospitalidade e gestão (era o início do projeto que transformaria a região do Vale dos Vinhedos em roteiro famoso em todo o Brasil). Junto com as filhas Rosângela, Roselaine, Raquel e Raísa, participou de todas as feiras e eventos que pôde, oferecendo os produtos feitos em casa.

"Ela era uma das mais engajadas desde o começo. Era uma mulher sozinha com as quatro filhas, e precisava que aquilo desse certo para poder continuar na terra", conta Ivane Fávero, então assessora da Secretaria de Turismo local, que acompanhou desde o começo a trajetória das Bettú Lazzari. "Passei muitos dias em pé, falando sem parar", lembra Odete, hoje com 68 anos. Durante dois anos, ela investiu muita energia e o pouco dinheiro que tinha, sem ter lucro nenhum. No final de 2001, recebeu seu primeiro pagamento por um almoço - servido com toalha e louça emprestados. Lembra até hoje: "Era um professor universitário alemão, que veio aqui com a esposa. Voltou várias vezes".

Poderia ter vendido a propriedade e ter tido uma vida medíocre. Mas eu fiz esse lugar lindo com as minhas mãos. Não me passou pela cabeça vender.

Mas o negócio ainda carecia de capital de giro. Odete percorreu todos os bancos da cidade em busca de financiamento, em vão. "Fiquei uns cinco anos comendo prego, sem conseguir dinheiro. Quem pagava a luz era a Raquel". Ivane acompanhou essas visitas e foi testemunha das dificuldades: "exigiam sempre mais algum documento, mais alguma garantia". Para Odete, a explicação é simples: "não emprestavam porque eu sou mulher". Além disso, quase 20 anos atrás, o turismo era uma atividade incipiente na região, e portanto, um negócio de risco. O remédio foi obstinação. "Eu segui trabalhando, fazendo sempre melhor, sempre aprendendo. Eu sabia que estava no caminho certo pela reação das pessoas, mas não podia vacilar."

Apesar do sucesso da comida desde a primeira refeição, a situação financeira só se tornou confortável cerca de quatro anos depois. E somente em 2010 a família adquiriu o primeiro carro - até então, as compras eram transportadas de ônibus, e carregadas 300 metros lomba acima entre o ponto e a casa. "Às vezes tinha que deixar as sacolas escondidas e fazer duas viagens para trazer tudo", lembra a caçula Raisa.

Eu me pergunto hoje como é que eu fui acreditar, com tanto não na minha frente.

Hoje, o endereço disputado por turistas, que só atende mediante reserva, é uma referência na gastronomia da serra gaúcha. Raísa faz a administração do negócio, Rosângela cuida do cultivo orgânico de alimentos, e Roselaine e Raquel, que trabalham na cidade, ajudam no serviço dos finais de semana - junto com os maridos, que fazem as vezes de garçons. O restaurante funciona no porão da casa da família, com chão batido, paredes de pedra e repleto de retratos e antiguidades do acervo da família.

A comida que Odete serve na Osteria della Colombina é autêntica dos colonos italianos. São receitas que, na casa dos Bettú, só eram preparadas em datas especiais: a sopa de capeletti "que só se comia duas vezes por ano, no Natal e na Páscoa"; a carne assada com legumes e especiarias "dos dias de festa"; a abobrinha recheada que "só quando chegava visita de longe ou autoridade"; o nhoque com molho de tomate e salaminho "que me fazia lamber o prato". De novidade, só o sorvete caseiro à base de ovos, leite condensado e limão siciliano que é a estrela entre as sobremesas. Além de salame, queijos, pães e compotas caseiras - 75% da matéria-prima na cozinha da Osteria é colhida na propriedade da família.

Todo dia alguém acaba se emocionando a valer aqui dentro. Não é só comida, é uma experiência.

Em abril, Rosângela precisou ir ao banco tratar de uma linha de crédito, e faltou um documento. O tratamento foi bem diferente de 15 anos atrás: "Não te preocupa, a gente conhece vocês da televisão". A ida da filha ao banco foi necessária porque Odete estava fora do País. Foi a primeira visita à Itália, terra de seus avós, em uma viagem de intercâmbio do movimento slow food. E as colombinas voaram junto. Odete moldou, assou, embalou e presenteou 30 pombinhas, iguaizinhas às da dona Maria de Lourdes.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas
Texto: Isabel Marchezan
Imagem: Caroline Bicocchi
Edição: Andréa Martinelli
Figurino: C&A
Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

Texto e imagens reproduzidos do site: huffpostbrasil.com

segunda-feira, 7 de maio de 2018

“Já tive que me disfarçar para conseguir trabalho” (Laura Zanotti)

Foto: Rafael Sandim

“Já tive que me disfarçar para conseguir trabalho”, diz administradora trans Laura Zanotti

Publicado originalmente no site NLUCON, em 25 de abril de 2018 

Por Neto Lucon

Uma criança trans que veste escondida as roupas da mãe. A transfobia marcada pela expulsão de casa. A reconciliação na vida adulta nas bodas de casamento dos pais. Esse foi o enredo da campanha do Governo do Estado de Minas Gerais contra a LGBTfobia estrelada pela administradora, maquiadora e ativista Laura Zanotti em 2016.

A campanha emocionou muita gente e sensibilizou acerca do acolhimento familiar e o indicativo de quem o “Amor Transforma Preconceitos”. Também fez Laura ganhar os noticiários e ser conhecida pela atuação. Foi seu primeiro trabalho como atriz – um grande sonho.

Diferente da campanha, Laura não sofreu com o preconceito na família. Seu maior desafio foi no mercado formal de trabalho – espaço que grande parte da população trans e travesti também encontra dificuldades de se inserir. Nas entrevistas de emprego, o “não” era certo. Tanto que durante alguns anos teve que se disfarçar, ou seja, fingir que é homem cis, para conseguir trabalho. Hoje, trabalha como administradora na ThoughtWorks e é reconhecida em sua identidade de gênero.

Em entrevista exclusiva ao NLUCON, Laura fala sobre a experiência dentro das empresas e as estratégias que teve para conseguir driblar a transfobia. Ela também comenta sobre os frutos da campanha estrelada, desafios e família. Você também tem a opção de conferir a entrevista em vídeo (ao final do texto).

- Conheci você por meio da campanha “O Amor Transforma Preconceitos”. Como foi estrelar ela há dois anos?

Recebi bastante mensagens na época. Pessoas falando que se sensibilizaram, fazendo várias perguntas. Acho que o carinho das pessoas foi muito legal, não só de pessoas trans, mas de pessoas cis. Foi incrível. O vídeo conseguiu tocar muita gente que precisava ser tocada.

- Muita gente pergunta se aquela história é a sua história. É?

Não, não conheço ninguém (risos). Não é a minha história completa, mas as pessoas sempre se identificam com alguma parte.

- O que tem da sua história ali?

A parte em que o menininho abre o guarda-roupa e começa a pegar brinco, batom, vestido (da mãe). Essa parte foi marcante, inclusive quando estava acompanhando as filmagens eu me emocionei muito, porque aquela cena refletiu muito a minha infância. Eu sempre pegava coisas da minha mãe. Lembro que teve uma vez que passei batom e o meu pai me chamou e eu não sabia onde tirava. Acabei passando na manga da blusa. Depois não sabia o que fazer com a blusa, e taquei fogo na blusa (risos). Isso com seis anos.

- Na campanha, há uma expulsão de casa. Como para você dizer para a família que é uma mulher trans?

Isso não aconteceu comigo. Também não cheguei a ter um momento de contar para a minha família. Eu acho que foi tão mágica a minha transição, que ela foi acontecendo aos poucos e a minha família foi absorvendo aquilo. O pessoal foi acompanhando junto, com o tempo. É lógico que esse acolhimento não reflete a realidade de todo mundo, mas é o que deveria acontecer: a família dar apoio. No meu caso, eu tive a sorte de ter uma família que me compreendeu e que o amor superou isso tudo.

- Você lembra de alguma referência trans que você teve e que ajudou naquele momento de se perceber mulher trans?

Eu lembro muito da Roberta Close. Ela estava no Gugu, ela estava nos programas, estava até na caixinha do leite (risos). Mas eu tive uma fase que eu relutei muito isso dentro de mim. Tanto que quando comecei a ir nas baladas eu falava que não queria ficar perto das travestis. Mas, com o tempo, conforme eu fui conhecendo pessoas trans e travestis na época, eu fui começando a me abrir mais. É aquela fase de não aceitação, de você não querer aquilo para você. E também por não ter muitas referências. Hoje, você vê que 90% das pessoas trans está na prostituição e você acaba atrelando que ser uma pessoa trans é aquilo. Mas com o tempo você vai se conhecendo e estou aqui hoje.

- A trasfobia também atravessa a sua vida? De que forma?

O Brasil está na nessa faixa de país mais transfóbico e também na faixa do país que mais consome pornografia de pessoas trans e travestis. Essas duas informações não batem muito, mas traçam um perfil das pessoas que fazem transfobia, principalmente na internet. Eu só sofri transfobia indiretamente e é muito difícil você reconhecer essa transfobia velada. Ou é procurando emprego, ou em locais que as pessoas estão te olhando ou te tratando diferente pela transfobia. E uma vez aconteceu de eu sair de casa e um senhor passar perto de mim e cuspir na minha direção. Você fica sem entender. Eu não abri a boca, não falei nada, só o fato de estar ali houve uma agressão. Ele teve a atitude de cuspir em mim, mas e se ele estivesse armado e tivesse que algo para tacar em mim? É muito do que pode acontecer e o que acontece nos dias de hoje.

- O que a gente pode pensar e refletir desse dado que você trouxe: o Brasil é o país que mais mata travestis ao mesmo tempo em que é o país que mais consome pornografia dessa população?

Tem uma série de leituras dentro desses dois dados, mas o mais importante é a hipocrisia. A sociedade é transfóbica, mas ao mesmo tempo ela sente atração, sente vontade por aquilo, tem o fetiche por trás e ao mesmo tempo não tem coragem de assumir aquilo, por medo, por fobia, por transfobia.

- Você é administradora. Como foi se inserir no mercado de trabalho?

Foi bem difícil no início. Eu saí de São Paulo em 2006 e fui para Belo Horizonte e a cultura de lá é muito diferente. Você sente que as pessoas são mais conservadoras. Eu consegui trabalhar na empresa disfarçada. Prendi o cabelo, coloquei roupas mais largas e consegui entrar na empresa. Fiquei oito anos, mas com quatro anos eu não estava aguentando mais ficar disfarçada. E já não tinha nem como mais, pois você faz amizade, as pessoas saem com você fora da empresa, estão nas redes sociais e elas sabem que aquilo que você vive dentro da empresa não é a sua realidade. Então quer saber de uma coisa? Vou pegar minhas férias, vou colocar silicone e acabar com isso tudo. Coloquei silicone e fui trabalhar como Laura normalmente. Foi libertador. Foi quando comecei a me empoderar mesmo.

- Como era para você passar por esse disfarce?

Era constrangedor. No início até funcionava, porque as pessoas começam a fazer parte da sua vida. A gente saía e eu não ia (ficar me disfarçando). Não gente, (disfarce) é só no trabalho, aqui fora é essa daqui a realidade. Então algumas pessoas próximas já iam acostumando com aquilo. Algumas pessoas sabiam, outras não sabiam, outras ficam sabendo e teve uma hora que eu cansei. Pois já estava me fazendo mal.

- Você chegou a fazer algum comunicado?

Eu só mandei uma mensagem para o meu coordenador: eu estou colocando silicone. E na época eu acho que ele não prestou atenção, porque estava trocando de coordenador. Só passou a entender no finalzinho, quando eu não voltei de férias imediatamente, pois estava de atestado. Eu tive sorte porque ele foi muito bacana comigo. Ele entendeu, se colocou no meu lugar. Mas era uma empresa toda, mais de mil funcionários. Para mim foi ótimo, libertador. Cheguei batendo cabelo (risos).

- O pessoal respeitou você, sua identidade de gênero, o seu nome social?

Não, isso não teve. As pessoas mais próximas já estavam acostumavam, as pessoas mais próximas eu pedia. Já as que eram mais distantes, chegavam e falavam: "Ó, fulano". Eu só olhava torto. Mas eu acho que esse momento foi muito bom. Eu cheguei num ambiente em que eles não tinham uma pessoa trans na supervisão, eles foram bem. Foi um momento em que eu mudei a cabeça das pessoas que estavam perto de mim e eu levantei o debate dentro da empresa, que eles nunca tiveram. Só o fato de eu checar e chocar, criei mudanças lá. Hoje eu não estou mais lá, estou em outra empresa, e acabei encontrando com os gestores daquela empresa que queriam saber mais sobre diversidade. Daí chegando lá, com quem eles encontram: comigo. Foi bem legal, eu fiquei toda à disposição para ajudar, pois sei que a minha ajuda vai ajudar outras pessoas trans também.

- Depois que você saiu de lá foi fácil se recolocar no mercado de trabalho?

Primeiro eu fui saída da empresa. Mas eu já tinha criado um plano B e tinha a consciência de que o mercado trabalho não era receptivo às pessoas trans, e não é ainda, infelizmente. O plano B era fazer um curso de maquiagem e, se acontecer de eu sair, eu vou viver de maquiagem, até conseguir alguma recolocação no mercado de trabalho. E foi quando vim para São Paulo e estava conseguindo segurar a minha renda com maquiagem.

- O que a gente pode falar para a nova geração de pessoas trans e travestis sobre mercado de trabalho?

Eu acho que as pessoas mais antigas abriram muito caminho para a gente agora, como algumas pessoas agora estão abrindo para a próxima geração. Acho que essa geração pode tentar se introduzir no mercado de trabalho. A gente sabe que não estão em perfeitas condições, mas que tem muita gente tentando abrir caminho. Eu mesma, sempre tento abrir caminho.

- Na empresa que você trabalha hoje, a ThoughtWorks, há outras pessoas trans trabalhando? Qual é o trabalho que as empresas também precisam ter para essa inclusão?

Na empresa que eu estou trabalhando tem outras pessoas trans trabalhando. E mais que isso: ela diretamente quer contratar pessoas trans, pessoas negras, a diversidade. Ela tem consciência de que o trabalho que é feito lá dentro tem que ter essa diversidade, pois é o reflexo do produto que vai sair de lá. Não adianta um produto ser feito por pessoas cisgêneras de classe média alta que não vai refletir para uma pessoa na periferia usar. Ela entende que precisa trazer a diversidade. E ao trazer a diversidade precisam trazer um ambiente em que essas pessoas consigam se desenvolver, trabalhar, alcançar os seus objetivos e consigam ajuda. Entender a condição de uma pessoa trans, a condição de vida de uma pessoa que sai da periferia, você tem que entender esses contextos para conseguir introduzir dentro de uma empresa. Não adianta colocar uma pessoa trans lá e ela sofrer transfobia, pois ela não vai querer ficar. Esses ambientes precisam exercitar a desconstrução. Ela não é fácil, a gente se desconstrói diariamente. Eu me desconstruo diariamente, pois todo dia a gente tem algo a refletir e pensar sobre a sociedade.

- Percebo que pela transfobia as empresas perdem pessoas com muito talento e que poderiam contribuir muito...

Pois é... A gente não sabe qual é a trajetória da vida da pessoa que vai entrevistar a pessoa trans. Dependendo do que ela acha e do conhecimento que ela tem, ela vai reprovar a pessoa sem saber quem é aquela pessoa. Então a transfobia está impregnada muito antes do que naquele momento na entrevista de trabalho. É algo enraizado.

- Você tem carreira de atriz também?

Muita gente pergunta se sou atriz. Eu participei de um teste em uma agência, mas por sorte eu passei. Eu gosto muito de atuar, de música, de dança, bater cabelo... Inclusive eu já fiz show aqui em São Paulo aflorado, quando você começa a ter contato com a performance feminina. É um dos caminhos que segui, mas nem todo mundo segue esse caminho. Participei da Drag Tunnel, e competi com a Striperella, e uma vez cheguei a ir para a semifinal.

- Qual é o seu sonho hoje em dia?

Eu tenho o sonho de conhecer outras culturas, viajar pelo mundo, conhecer outras pessoas, lugares. É o sonho do momento, mas talvez amanhã pode ser que não queria mais isso.

Texto e foto reproduzidos do site: nlucon.com

A ex-senadora Marina Silva, pré-candidata à Presidência da República

'Infantilização da política' está em curso no mundo todo, diz Marina

Publicado originalmente no site BBC Portuguese, em 7 maio 2018

Brasil não vai mudar com ‘grande pai, grande mãe, ou salvador da pátria’, diz Marina Silva

Nathalia Passarinho, Fernanda Odilla e Luís Barrucho
Da BBC Brasil em Londres

A ex-senadora Marina Silva, pré-candidata à Presidência da República pela Rede, afirmou neste domingo (6), na Universidade de Oxford, que há um movimento de "infantilização" da política em diversos países do mundo, pelo qual os eleitores buscam "salvadores da pátria" para solucionar crises políticas e econômicas. Para ela, a busca por este tipo de liderança não trará renovação e mudanças ao Brasil.

"O mundo em crise vai precisar do trabalho de sujeitos capazes de se responsabilizar pelas próprias vidas. O problema é tentar regredir para um processo infantil", criticou, durante palestra no Brazil Forum UK, evento anual organizado por brasileiros que estudam no Reino Unido.

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"Em vários lugares do mundo estamos regredindo. As pessoas querendo o grande pai, a grande mãe, o grande salvador da pátria. O mundo não vai mudar com uma politica que infantiliza".

Em uma fala de 45 minutos, Marina Silva elencou as principais conquistas dos partidos tradicionais ao dizer que o que deu certo deve ser transformado em "direito", enquanto é preciso corrigir erros.

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Ela lembrou que o MDB foi um partido importante na luta pela democracia, destacou que o PSDB estabilizou a economia com o Plano Real, e que o PT reduziu a desigualdade social e a pobreza com o Bolsa Família.

"Temos que pensar de uma forma não niilista. Com certeza queremos preservar a democracia, não queremos ter crise econômica, nem iniquidade social", afirmou ela, ao defender menos radicalidade e polarização nos posicionamentos políticos.

Ela disse ter saudade da eleição presidencial de 2010, quando os oponentes eram capazes de se cumprimentar com respeito.

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Marqueteiro 'do mal'

Durante a participação na conferência, Marina Silva foi perguntada sobre que lições ela tira de duas derrotas como candidata à Presidência (em 2010 e em 2014). Ela afirmou que um erro foi "subestimar as estruturas que dominam o poder".

A ex-senadora disse que a eleição de 2014 foi uma "fraude". Para ela, a campanha eleitoral da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) daquele ano manipulou informações para desconstruir sua candidatura.

"Em 2010, eu participei do processo e foi uma eleição razoavelmente civilizada. Mas em 2014 ultrapassamos o limite da ética. Se você ganha mentindo, vai governar mentindo; se ganha com violência vai governar com violência", afirmou.

Marina Silva lembrou que tinha em sua equipe de campanha a socióloga Neca Setubal, herdeira do banco Itaú, e que isso foi usado contra ela pela campanha de Dilma.

Na ocasião, Marina Silva foi acusada de defender os interesses de "banqueiros".

"Isso graças a um marqueteiro, o João Santana, muito competente para o mal, com R$ 30 milhões de caixa dois", criticou.

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"Não pode uma pessoa ganhar com o discurso do marqueteiro e não fazer nada daquilo (que prometeu)."

Questionada sobre como iria governar sem alianças partidárias que garantam votos no Congresso Nacional, ela respondeu alfinetando Dilma Rousseff.

"Quando você pergunta como vou governar com três deputados e um senador, você tem que perguntar para quem tinha mais de 300 e não governou."

Nas duas eleições presidenciais que disputou, Marina terminou em 3º lugar
Mudanças estruturais

Marina Silva também defendeu mudanças estruturais no sistema eleitoral como necessárias para uma renovação real da política. Uma das prioridades, segundo ela, deveria ser o barateamento das campanhas.

"Não tem como ser politicamente democrático quando a gente substitui projeto de país por projeto de poder, onde compromissos são pragmáticos e não programáticos, e o que vale é tempo de televisão e dinheiro."

Ela também defendeu a diversificação da economia e investimentos em logística e infraestrutura.

"Não tem como o Brasil ser economicamente próspero com uma indústria que representa 11% do PIB quando já foi 25%. Quando a gente perde 30% da produção agrícola por falta de logística e armazenamento."

Chapa com Joaquim Barbosa

Depois do evento, a pré-candidata disse a jornalistas que vai usar os 10 segundos que terá na TV e no rádio para remeter aos programas e propostas, que estarão disponíveis na internet.

Ela negou ter conversado com o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal e recém filiado ao PSB, Joaquim Barbosa, sobre uma potencial chapa com os dois.

"Eu respeito a decisão dele de querer ser candidato, do PSB querer ter uma candidatura; é legítimo. Isso não impede que a gente tenha pontos de contato, de diálogo, partidariamente falando", afirmou, dizendo que com Barbosa falou apenas duas vezes na vida.

Marina disse que está se coligando com vários movimentos como o Agora, Acredito, Brasil 21, Frente Favela. "Eu antecipei a tendência quando disse, em 2010, que a aliança era com os núcleos vivos da sociedade. Sempre defendi a quebra do monopólio dos partidos, com candidaturas avulsas."

Alianças pragmáticas e sem compromisso ideológico levaram o país para o buraco, diz Marina
Quem vai vencer as eleições

Questionada sobre as conversas sobre uma possível união política do presidente Michel Temer com o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, ela diz que foi esse tipo de aliança que levou o Brasil ao fundo do poço.

"Agora as pessoas sabem a verdade e a lei deve ser para todos. A preocupação é o que as pessoas vão fazer com a verdade. Essa é uma questão que está posta: se o que vai vencer é a postura do cidadão ou as estruturas do dinheiro, do marqueteiro, do tempo de televisão".

Para Marina Silva, as alianças feitas pelos partidos tradicionais não são capazes de resolver os problemas do Brasil.

"Não acredito que a visão e as práticas que criaram o problema vão resolver o problema, pelo contrário. Principalmente os grandes partidos que estão aliançados para acabar com a Lava Jato. PT, PMDB, PSDB, DEM divergem em quem vai pegar o poder, mas não divergem (em relação) ao combate à Lava Jato", disse, em Oxford.

Texto e imagem reproduzidos do site: bbc.com/portuguese

Lygia Fagundes Telles


Lygia Fagundes Telles celebra 95 anos... 
Fotos: Getty Images 

Publicado originalmente no site Huff Post Brasil, em 19/04/2018


Lygia Fagundes Telles, protagonista na literatura brasileira: Escritora usou palavra como ponte entre as dores de todos nós

A autora celebra 95 anos...

By Ana Beatriz Rosa

"O escritor escreve, tentando recompor, quem sabe, um mundo perdido, os amores perdidos, a casa perdida, o paraíso perdido. Nesse paraíso perdido está a infância."

A fala é da autora paulistana Lygia Fagundes Telles, que comemora 95 anos nesta quinta-feira (19). Conhecida como a "1ª dama da literatura brasileira", a escritora teve grande influência na produção cultural do País. Seus livros se tornaram filmes, novelas e até peças de teatro.

Talvez a sua maior contribuição seja a incansável defesa da cultura nacional. Essa defesa foi celebrada quando Lygia tomou posse da 16ª cadeira da Academia Brasileira de Letras, em 1987.

A trajetória de Lygia como escritora começou em 1944, quando ela publicou o seu 1º livro. Praia viva era composto por contos escritos por uma jovem autora até então estudante de Direito do Largo São Francisco da USP.

Rodeada de colegas homens em um curso conhecido por seu conservadorismo, Lygia foi alertada por sua mãe: "você já entrou para uma escola de homens, vai publicar um livro, agora você não casa mais".

Mas o destino da paulistana não foi esse. A escritora casou-se duas vezes, teve 1 filho e continuou produzindo seus textos, agregados em mais de 20 livros e traduzidos para o inglês, o francês, o espanhol, o russo e outras línguas.

Escrever é revolucionário, ainda mais quando se é mulher em um contexto machista.

E Lygia não ignorou essas referências. Considerada feminista muito antes de aceitar esse rótulo, a autora se define como uma eterna "romântica": "o homem deve estar feliz vendo a mulher livre, os dois, lado a lado, nivelados, nem superior, nem inferior, nivelados", defende.

Amiga de Clarice Lispector, a dupla foi elogiada ao tratar do universo feminino de forma moderna em seus textos, superando os tabus e estereótipos que deixavam a mulher sempre à margem da figura masculina.

Além de dar vida a grandes protagonistas, Lygia tratou de temas como a vida em grandes cidades, problemas sociais, o medo, as drogas e o amor. Os seus personagens são conhecidos por serem representações irônicas da sociedade.

Para conhecer um pouco mais de Lygia Fagundes Telles, listamos 5 frases da autora que transbordam a sua paixão pelas palavras - e pelas pessoas. Os trechos foram retirados da participação da autora no programa Roda Viva, da TV Cultura:

Acontece que sem paixão, mesmo com competência, sem amor, mesmo com competência, você não consegue dar conta do seu ofício.

Essa luta com a palavra que exige também a luta com as pessoas. Eu prefiro ultimamente lutar mais com as palavras do que com as pessoas. As pessoas estão mais difíceis.

O nosso planeta, o nosso país principalmente, é um planeta enfermo. Está dificílimo lidar com as pessoas. Há um medo para começar, um medo que se espalhou no mundo, um medo, um medo físico, um medo universal. Esse medo faz com que as pessoas fiquem mais complicadas, embrulhadas. Esse embrulhamento das pessoas faz com que para desembrulhá-las seja mais complicado. Eu também teria de me desembrulhar, me dar a elas. Essa doação e essa recepção humana entre os seres eu estou achando mais difícil.

Eu procuro fazer com que a palavra seja como uma espécie de ponte que se estende para o próximo. E eu, através dessa ponte, eu digo: vem até onde eu estou. Se eu puder ajudar o meu próximo, veja bem, no seu sofrimento, no seu medo, na sua luta que é a minha luta também, que é o meu medo, que também é o meu sofrimento, se eu puder ajudar o outro com essa palavra, missão cumprida. Quando a morte olhar nos meus olhos e disser: vamos?, eu direi: estou pronta, eu fiz o que pude.

O escritor pensa em ambigüidade, o escritor contorna, ele também não abre muito o jogo, ele joga, o leitor fica um cúmplice, fica um conivente, como um criminoso que vai cometer o seu crime e que precisa então de toda aquela circunstância que vai ajudá-lo a fazer a coisa o mais perfeitamente possível.

Biografia

Nascida no interior de São Paulo, em Sertãozinho, Lygia Fagundes Telles é filha de pai advogado e mãe pianista. Ainda jovem, ela manifestou sua paixão pela literatura incentivada por grandes autores-amigos como Carlos Drummond de Andrade e Erico Verissimo.

Ela já recebeu diversos prêmios literários, como o Grande Prêmio Internacional Feminino para Contos estrangeiros, França (1969) por Antes do Baile Verde e o Prêmio Jabuti por A Noite Escura e Mais Eu (1995).

Texto e imagens reproduzidos do site: huffpostbrasil.com

sábado, 5 de maio de 2018

Entrevista com Paulo Coelho, escritor

Foto: Niels Ackermann

Publicado originalmente no site da revista ISTOÉ nº 2524, em 04/05/2018

Entrevista com Paulo Coelho, escritor

"Não vejo candidato que coloque o Brasil nos eixos"

Por Luís Antônio Giron 

Paulo Coelho mantém há décadas a regra de lançar livros em anos pares. Esta semana, chega ao Brasil o romance “Hippie”, lançado pelo selo Paralela. É seu vigésimo título desde 1974. Segundo ele, o ritual dos anos pares lhe traz sorte. Talvez essa seja a causa do seu sucesso mundial, na falta de explicação mais objetiva. Aos 70 anos, ele é há mais de 20 o escritor brasileiro de maior fama internacional: traduzido para 81 idiomas, vendeu 225 milhões de exemplares. Em “Hippie”, Paulo Coelho narra em terceira pessoa a aventura que ele fez em 1970, uma viagem de ônibus (o Magic Bus) de Amsterdã a Katmandu, passando por Istambul, Teerã e lugares que hoje, segundo ele, saíram do mapa. O volume conta com uma ilustração da mulher de Paulo, a artista plástica Christina Oiticica, mostrando a jornada do hippie Paulo. As muitas entrevistas que costuma conceder quando lança livros também fazem parte da rotina mística. Nesta, concedida a ISTOÉ por telefone, de seu apartamento em Genebra, Suíça, ele faz previsões sobre a Copa do Mundo, fala da decepção com a política e os políticos brasileiros e analisa a cultura hippie à luz da ausência de utopias do mundo atual.

Seu novo romance, “Hippie”, trata da utopia dos anos 1960. Você é saudoso daqueles tempos?

Eu fui hippie, mas não tenho nenhuma saudade desse fato. Volta ao passado não está com nada. Eu nem volto aos lugares onde eu já andei. O livro é sobre valores atemporais. Há valores éticos que não têm nada ver com a época. O que nos vimos hoje em dia é que o fundamentalismo, que não se restringe à religião, em que você não pode falar nada, se você disser isso é um crime. Todo mundo fica sem falar. Se você diz qualquer coisa, as pessoas se escondem atrás do anonimato. No livro, procuro explicar que existiu uma época em que alguns valores foram inculcados e que continuam. É um livro sobre a importância de certas coisas que eu vivi e entrei de cabeça. Por isso foi fácil escrever.

A aventura que você narra é real?

Cada pedaço dela. Alguns momentos eu tive de sintetizar, porque não podia contar tudo. Até por uma questão de espaço e de dramatização no sentido da narrativa. Eu me lembro de cada segundo. Eu me lembro de muitos rostos e até do endereço do abrigo onde pernoitei em Amsterdã.

O Magic Bus existiu?

Sim, descobri que ele existe até hoje. Mas agora deve ter ar condicionado, e ele não passa pelos lugares estranhos de antes porque tudo mudou. O sentido de aventura se perdeu.

Por que você se lembrou da jornada rumo ao Oriente?

Ela voltou com força quando eu comecei a ver o fundamentalismo, a intolerância, o politicamente correto. O fato de obrigarem as pessoas a serem isso e aquilo. Quando comecei a ver o renascer de uma coisa que não é boa, que era espontânea na minha geração sem que ninguém precisasse elogiar nada, eu disse: “Tô fora e vou escrever sobre isso”. Isso foi um ano atrás. De repente, em janeiro deste ano, a coisa veio. Vou escrever sobre um mês e meio da experiência a bordo do Magic Bus.

Que balanço você faz dessa época? O que ficou?

Tudo ficou da cultura hippie, menos a droga. A droga acabou enchendo o saco. Eu não conheço as drogas novas. Com a cocaína parei em Nova York quando vi que meus amigos estavam ficando viciados. Heroína eu nunca experimentei. LSD depois de cinco viagens eu já sabia tudo. Depois fica uma coisa meio repetitiva. Maconha também, parei na manhã do primeiro dia da primavera da 1982. Estava revisitando Amsterdã, já casado com Chris. De repente, acordei com alguém cantando “Chegou a primavera”. Aquilo ficou repetindo na minha cabeça e não tinha mais a conexão que a maconha provocava.

Foi de propósito o lançamento de “Hippie” no mês em que maio de 1968 completa 50 anos? Que balanço você faz daquele momento?

Não, são sincronicidades. Quando aconteceu o maio de 1968, eu estava em Macho Picchu. Mas todo mundo sabia que aquilo estava acontecendo. O balanço que eu faria é que houve uma explosão mal explicada até hoje, e logo, no final de maio, o general De Gaulle (presidente da França) conseguiu mobilizar a opinião pública a seu favor. Promoveu marchas e muitos pegaram carona naquilo, feito o Jean-Paul Sartre. De repente, uma grande passeata deu a volta na coisa. De Gaulle botou a maioria silenciosa nas ruas de todas as cidades da França. É mais ou menos o que acontece hoje em dia: a maioria silenciosa, conservadora, reacionária, correta, com aqueles valores antigos, foi para as ruas, o De Gaulle sufocou os movimentos, que já tinham se transferido da juventude, da Sorbonne, do instituto de Sciences Po, para as centrais operárias e sindicatos. Ele fechou com mão de ferro ali. E acabou.

Os blackblocs tomaram as ruas de Paris neste 1º de maio e depredaram prédios, lojas e bancos. Você não teme que seu apartamento parisiense seja vandalizado?

Ih, não, cara, não tem nada a ver. Eu temo muito mais a intolerância que ocorre lá por causa de movimentos religiosos. Meu patrimônio fica no quinto andar de um prédio no 16º Distrito de Paris, numa posição logística bastante segura. É um bairro que tem embaixadas, área superpoliciada. Não estou temendo. Você não pode passar a vida pensando em coisas materiais. Não vou a Paris há muito tempo. Mas quando eu vou, meu apartamento está lá.

A cultura hippie legou ao mundo uma série de valores que ainda são válidos. Menos a droga
As novas modalidades de protesto não mostram o colapso da das utopias?

A única coisa que ficou quando Pandora abriu a famosa caixinha foi uma coisa chamada esperança. Você não pode perder a esperança no ser humano, nos valores e na bondade intrínseca que neste momento não está visível por causa da internet, da qual já fui fã e hoje já não sou tanto. As pessoas estão mostrando o que de pior elas têm, os trolls, o anonimato… Sou uma pessoa não idiotamente otimista, mas tenho certeza de que em algum tempo tudo isso vai melhorar.

A política deixou de ter importância?

Não. A política vive um momento de desencanto.

Você conviveu com Sérgio Cabral, Lula, José Dirceu. Hoje os vê assim, com desencanto?

Total, né? Total! Eu era muito bom para certas coisas para outra era muito ingênuo. Tenho um defeito e uma qualidade: acredito em todo mundo, mas quando desacredito, perco o encanto e nunca mais. Em janeiro de 2010, fui com o Sérgio Cabral a Copenhague para fazer a campanha pela Olimpíada do Rio. Quando depois eu li que o Sérgio Cabral estava dando uma camisa da Seleção Brasileira para o Tony Blair, na mesma hora escrevi no Twitter: “Criminoso de guerra não pisa na minha perna. Nem que eu vá até lá jogar um sapato nele”. Ele não vai pisar porque eu tenho mais poder e consciência do meu poder do que essas politicagens.

Você costuma acertar previsões. Já tem seu candidato a presidente do Brasil?

Vou votar no candidato que está em primeiro lugar na última pesquisa da “Folha de S. Paulo”. Sabe quem é? É o chamado Nulo/Não Sei/Branco. Ele atingiu 31%. Está em primeiro lugar. Vou votar em Nulo/Não Sei/Branco.

Foi por causa da política que você não compareceu à Olimpíada de 2016?

O Carlos Arthur Nuzman (então presidente do Comitê Olímpico Internacional) me convidou para ir à Olimpíada de 2016 e carregar a bandeira. Eu disse que não ia carregar. Aquilo já não me representava. Não a carreguei. Fui meio visionário. Pensei: “Isso tudo vai matar o Rio” — como efetivamente ocorreu.

Faz uma década que você não volta ao País para lançar livro e dar autógrafos. Você desistiu do Brasil?

Não posso desistir do meu país. Posso contar tudo o que está acontecendo aí, passo a passo. O Brasil é meu país, é meu sangue. Continuo com meu apartamento em Copacabana. Eu pretendo voltar. Quase voltei agora, por causa de um amigo que estava mal, mas ele sarou e não fui. Eu vejo e leio tudo o que posso sobre o Brasil, acompanho o STF e converso com brasileiros.

Você se sente superpoderoso morando na Suíça?

Genebra foi a cidade com que mais me adaptei. Posso tirar o passaporte suíço, mas não tiro. A única coisa que faço aqui é pagar o imposto de renda. Não pago imposto no Brasil desde 2006.

Você foi precursor do exílio de luxo que está acontecendo agora, com milhares de brasileiros trocando o Brasil por Miami e Lisboa e vivendo lá como expatriados.

Eu não estou no exílio. Recuso-me a aceitar a palavra “exilado”. Não foi meu caso. Exilados não podem voltar ao país. Não moro no Brasil porque não quero, desde que entrei para a Academia Brasileira de Letras, em 2002. Estou preocupado com minha vida. Quero que as pessoas façam o que bem entenderem. Nem penso nelas.

Como o mago prevê o futuro imediato do Brasil?

O visionário não consegue ver tudo. O Brasil neste momento é uma incógnita. Posso ter meus desejos pessoais. Não vejo neste momento um candidato que possa assumir uma série de responsabilidades, fazer as reformas necessárias e colocar o Brasil nos eixos. O império dos faraós do Egito durou 3 mil anos, Alexandre conquistou o mundo. Hoje o Egito é um país que nunca mais se recuperou. Eu espero que isso não aconteça com o Brasil. Mas o Brasil está em péssimas mãos com Temer na presidência e não ficaria melhor com Lula. Lula já passou a sua fase. Hoje mesmo Noam Chomsky disse que Lula tem que fazer a autocrítica. Eu deixei de ser Lula há muito tempo, embora as pessoas me associem a ele. Isso porque eu fiz campanha para ele — foi mais uma babaquice da minha história.

Fazer a campanha para Lula foi mais uma babaquice da minha história
Você tem esperança da Seleção Brasileira na Copa?

Tenho. Espero que o Brasil ganhe. Tudo depende de como as pessoas se comportarem. Se a Seleção Brasileira for com um ar muito blasé, já perdeu. A Espanha está com uma seleção fortíssima. A Alemanha está maravilhosa. De qualquer forma, eu acho o Tite um grande treinador, que inculca valores nos atletas. Ele mandou os jogadores lerem meus livros. Não é por isso que eu gosto dele. É que ele sabe o que faz. Tem senso de disciplina. É o oposto do Luiz Felipe Scolari, um horror.

O que você nunca fez e gostaria?

Pelo amor de Deus, se eu falar isso, eu morro amanhã. Falta muita coisa. Alguns sonhos que pretendo realizar: passar três meses num mosteiro, conhecer a Síria, visitar o Kilimanjaro. São coisas que vão me acrescentara muito. Falta eu conseguir distribuir meus livros na África. Toda vez que assino um contrato em francês ou inglês, exijo que no mínimo mil cópias sejam doadas a bibliotecas na África. Fiz tudo o que tinha que fazer, combati o bom combate, agora Deus pode me levar. Ele vai me levar quando quiser, é óbvio. Antes disso, falta eu fazer muita coisa.

Você foi um dos nomes importantes da contracultura hippie no Brasil, por causa de suas canções em parceria com Raul Seixas. O que ficou daquele tempo?

A jornada do livro acontece em 1970. O encontro com Raul Seixas foi em 1973.  Eu me encontrei com o Raul porque eu estava empolgado com o espírito hippie e criei uma revista underground chamada “2001”. Existia uma imprensa alternativa muito forte naquela época. Minha revista tratava de discos voadores, manifestos culturais, uma visão diferente da vida, o apocalipse. Tudo o que fazia parte da cultura hippie eu publicava. Obviamente, a revista entrou em falência em dois números. O Raul leu uma matéria sobre discos voadores e foi lá falar comigo, e surgiu a parceria.

Você sempre lutou para impor sua obra. Mas no Brasil você ainda conta com críticos que o odeiam. Essa falta de reconhecimento por parte da crítica brasileira magoa você?

Você tem uma luta com o adversário que é igual a você. É uma covardia você lutar com quem é mais fraco do que você e uma burrice lutar com quem é mais forte que você. Nunca tive uma luta com os críticos. Eu fiz a coisa que eu queria fazer e nunca respondi aos críticos. Reconhecimento de quem? De três pessoas que merecem que eu lute para ter o reconhecimento delas? Ninguém. Todas as pessoas que falaram mal de mim sumiram e eu continuei. Não mudei nada e continuei escrevendo como eu acho que tenho que escrever. Ignorei esse pessoal porque nunca foi representativo. E me surpreende que os jornalistas me perguntem isso, porque, quando se fala em críticos, você tem que travar uma luta com fulano de tal. Mas crítico é muito vago. Ele fala para o amigo do amigo do amigo. Por isso a Feira de Frankfurt de 2013 foi um desastre. Estavam ali todos os escritores incensados pelos críticos, e nenhum deles conseguiu nada. Porque o crítico que fala bem não quer dizer nada. Nem leio as críticas.

Em Frankfurt, você foi hostilizado pelos críticos e escritores seus bajuladores críticos.

Eu sabia que aquilo ia acontecer. Isso ocorre com qualquer pessoa que faça sucesso. Uma vez eu encontrei a Madonna e a gente estava batendo papo quando ela disse: “Eu sou a pessoa mais odiada do mundo.” Levei um susto, como isso era possível? O problema é que ela lia as críticas. Eu disse a ela que parasse de ler. Porque o simples fato de ler críticas já polui a mente. Eu não leio nada. Nunca respondi nada porque nunca li nada.

Com o Lula você esteve na campanha para a Copa do Mundo de 2014? Você disse que acha estranho o Lula preso?

O que eu acho estranho é esse negócio do triplex. Mas não quero me meter nessa história, não.

Texto e imagem reproduzidos do site: istoe.com.br

segunda-feira, 30 de abril de 2018

A técnica de Bill Gates para educar os filhos

Bill Gates (Foto: Spencer Platt/ Getty Images)

Publicado originalmente no site da revista Época Negócios, em 29/04/2018 

A técnica de Bill Gates para educar os filhos

Método "amor e lógica" se baseia no controle emocional para não cultivar reações explosivas e na atitude de amar as crianças independente daquilo que elas conquistam - ou não

Bill Gates não finge que a divisão de trabalho em sua casa é igualitária. Quando se trata de criar os três filhos, o bilionário admite que Melinda fez mais do que sua parte no trabalho de cuidar das crianças. “Minha mulher faz 80%”, disse Gates a estudantes de Harvard nesta semana.

“Meu filho mais velho se forma em Standford em junho, estão estou otimista de que ele não vai seguir meus passos”, afirmou. Fundador da Microsoft, Gates demorou dois anos para fazer três cursos de matemática e ciências da computação, mas nunca concluiu a graduação.

O bilionário afirmou, segundo a Business Insider, que ele e Melinda tiveram muitas conversas sobre o modelo que usariam para criar os filhos, que hoje têm 15, 18 e 22 anos.

Segundo Bill Gates, o casal escolheu um método dos anos 1970, chamado de “amor e lógica”. O sistema foi criado por três homens –um  psicólogo, um psiquiatra e um administrador de escola. A ideia central da técnica é exercer o controle emocional, minimizando reações mais explosivas como gritar e reprimir.

“Um dos maiores benefícios de aplicar a técnica é que ela nos ajuda a aprender como ter controle sobre as nossas emoções e sobre aquilo que falamos”, escreveu um dos idealizadores, Charles Fay, em seu blog.

Gates, porém, admite que ele e Melinda não conseguiram seguir essa linha perfeitamente. “Você pode se livrar de suas emoções? Não totalmente”, afirma.

Além de focar nos pais de temperamento curto, o modelo de "amor e lógica" enfatiza a importância de demonstrar amor incondicional e admirar as crianças por quem elas são, e não pelo que conseguem alcançar (ou deixar de alcançar) – como notas na escola.

“Muitas pessoas bem sucedidas sofreram com notas quando eram crianças”, afirma Fay. “O mais importante é que seu filho desenvolva um bom caráter, curiosidade e a habilidade de resolver problemas”. A ideia é fazer perguntas à crianças para que elas consigam encontrar sozinhas as soluções para seus problemas. Gates diz que este método é completamente diferente do qual seus pais usaram com ele.

Além de se pautar por esta técnica, o executivo impôs regras rígidas a seus filhos enquanto cresciam. Nenhum deles teve um celular até os 14 anos de idade. As crianças frequentaram a igreja católica com seus pais regularmente. E cada um deve receber cerca de US$ 10 milhões em herança de seus pais – bem menos do que os US$ 90 bilhões de patrimônio que a família Gates tem. “Queremos manter um equilíbrio entre eles terem a liberdade de fazer o que quiserem, mas sem jogar muito dinheiro em cima deles para que eles não façam nada”, disse Gates em uma palestra TED.

Texto e imagem reproduzidos do site: epocanegocios.globo.com

domingo, 29 de abril de 2018

Entrevista Richard Nisbett, psicólogo


Publicado originalmente no site da revista ISTOÉ, em 27/04/2018

Entrevista Richard Nisbett, psicólogo 

"A inteligência não depende só dos genes"

Por André Sollitto (Edição 27/04/2018 - nº 2523)

Diretor do departamento de Cultura e Cognição da Universidade de Michigan, nos EUA, o americano Richard Eugene Nisbett, de 76 anos, produziu ao longo das últimas quatro décadas alguns dos trabalhos mais influentes da psicologia social. Ele chamou a atenção do mundo acadêmico ainda em 1977, ao afirmar que muitos dos processos envolvendo escolhas, gostos e emoções são inacessíveis ao pensamento consciente. Depois de estudar as altas taxas de violência no sul dos Estados Unidos, ele lançou em 2003 o surpreendente livro “Geografia do Pensamento”, no qual afirma que a cognição humana não é a mesma em todos os lugares, o que é evidenciado por diferenças entre o pensamento dos ocidentais e dos orientais. Em seu livro mais recente, “Mindware — Ferramentas Para Um Pensamento Mais Eficaz” (Objetiva), Nisbett usa conceitos científicos para mostrar como podemos mudar a maneira de resolver dilemas do cotidiano. Na entrevista a seguir, o autor fala sobre o que é preciso para nos protegermos das fake news e afirma que o excesso de autoconfiança perpetua crenças equivocadas.

Temos ideias equivocadas sobre nossa inteligência?

A principal crença errada diz que nossa inteligência é determinada principalmente por nossos genes. Sua inteligência é determinada por aquilo que você aprende. Os genes de qualquer pessoa normal são suficientes para torná-la razoavelmente inteligente de todas as maneiras exigidas por sua cultura. Diferenças individuais em inteligência são, de fato, determinados pelos genes. Mas genes interagem com o ambiente em que aquela pessoa vive para produzir um nível específico de inteligência. Estamos descobrindo que pessoas com genes muito bons para a inteligência falharão em aproveitar ao máximo esse potencial se forem criadas em ambientes caóticos ou indiferentes.

É possível aprender a usar a mente de maneira mais eficaz?

Com certeza. Nós fazemos isso todos os dias. Bebês ficam deitados em seus berços analisando o mundo e tirando conclusões sobre ele. Seus familiares deixam você mais esperto todas as vezes em que falam sobre o mundo e mostram como fazer determinadas coisas. Da mesma forma, o convívio com seus vizinhos e colegas traz novas informações que o obrigam a refletir — e isso ajuda a desenvolver sua cognição. Você simplesmente não pode ser inteligente sem frequentar a escola. E quanto mais você frequenta a escola, mais pensante você se torna. Porém, os psicólogos descobriram como fazer com que as pessoas pensem de maneiras diferentes daquelas que a escola ensina. Por exemplo: de que forma podemos usar regras básicas de estatística e probabilidade em problemas cotidianos, ou como realizar pequenos experimentos e com eles maximizar a qualidade das escolhas do dia a dia.

Até que ponto ter mais informação ajuda a fazer as melhores escolhas?

Todo mundo concorda que é melhor ter mais informação do que menos informação. Mas as pessoas não têm ideia de quanto é necessário para cada tipo específico de problema. Elas conseguem dizer com facilidade se uma criança é uma boa jogadora de basquete ou se sabe soletrar bem. Mas não sabem como dizer se a criança é gentil, agressiva ou honesta. Isso também é importante para fazer um julgamento com maior confiança.

Alguns dos princípios discutidos em seu livro, mesmo quando ensinados em escolas, acabam não sendo aplicados pelas pessoas na vida cotidiana. Por quê?

Na escola, os princípios são ensinados em relação a dados abstratos, sejam resultados de testes de QI ou a taxa de produtividade de um determinado lote agrícola. Esses princípios podem até ser ensinados de maneira satisfatória, mas os professores não mostram como codificar os eventos cotidianos da vida de maneira a aplicar esses princípios. Muito do que escrevi em “Mindware” é sobre codificar eventos. Tenho esperança de que os professores possam usar mais problemas cotidianos para explicar conceitos estatísticos, lógicos e científicos nas salas de aula. Infelizmente, os professores tendem a considerar esses exemplos como material “adicional”. Minha experiência ensinando técnicas para pensar de maneira mais eficaz mostra que as pessoas aprendem melhor com exemplos cotidianos do que com abstrações. Esses exemplos deveriam fazer parte de todo currículo escolar.

Tenho esperança de que os professores possam usar mais problemas cotidianos para explicar conceitos estatísticos, lógicos e científicos nas salas de aula

Apesar de tantos avanços nas ciências, ainda pensamos como nossos ancestrais?

Esse é um ponto extremamente importante. Os caminhos do pensamento que evoluíram nos últimos 100 mil anos são perfeitamente adequados para a vida de caçadores e coletores, e são suficientes para a maior parte das inferências necessárias para o início dos tempos da agricultura. Mas a moderna sociedade industrial, e especialmente a nova Era da Informação, requer ferramentas de pensamento que vão muito além dessas tarefas básicas.

Quais são as principais falhas em nosso atual modelo de pensamento?

Algumas das principais falhas têm a ver com excesso de confiança. Temos muita confiança em coisas mesmo sem ter evidência suficiente para justificar esse comportamento. Por exemplo, se soubermos que uma pessoa foi honesta em uma ou duas ocasiões, tendemos a assumir que ela será honesta em outras ocasiões diferentes. Mas psicólogos sabem que isso não é verdade. Afirmar que uma pessoa é honesta, ou agressiva, ou extrovertida, requer muita informação. Empregadores acreditam que têm evidência suficiente sobre a competência de um candidato para uma determinada vaga após uma entrevista de meia hora com aquela pessoa. Na verdade, eles não têm nem remotamente evidência suficiente, e às vezes nem o tipo de evidência necessária, para julgar a competência daquele candidato. Relatórios de empregos anteriores, conquistas acadêmicas e cartas de recomendação são mais eficazes porque se baseiam em muito mais informação do que uma entrevista de emprego.

Por que é difícil perceber as relações entre eventos distintos? Isso não deveria ser algo intuitivo?

Nós superestimamos nossa capacidade de detectar correlações. Isso significa que temos ideias erradas sobre o que tem relação com o quê, e quais são as causas de certos eventos. Achamos que as pessoas ficam mais deprimidas às segundas-feiras, que as pessoas do signo de capricórnio são mais teimosas e que as ações na bolsa de valores tendem a subir mais no final da semana do que no começo. E podemos manter essas crenças incorretas com grande confiança.

Estatísticas podem ser muito importantes nas decisões que tomamos todos os dias. Mesmo assim, muitas pessoas têm dificuldade de lidar com números. É possível superar essa aversão?

Pensamento estatístico é fundamental na nossa Era da Informação. Felizmente, a estatística que precisamos no cotidiano não requer nenhum conhecimento matemático além da habilidade de multiplicar e dividir. A lei dos grandes números é um princípio estatístico que diz que quanto maior o número, mais perto das probabilidades reais estará uma determinada pesquisa. Mas quão grande um número precisa ser depende de quanta variação existe para o evento em questão. Uma única medida de altura é necessária para saber o tamanho exato de uma pessoa. Já a habilidade no basquete é variável em cada ocasião, então é preciso uma grande quantidade de informação, como a observação de um jogador em múltiplas partidas, para fazer um julgamento razoável. Para julgar a honestidade, a extroversão ou a agressividade de uma pessoa, uma quantidade enorme de informação é necessária, observada em ocasiões bastante diferentes, porque esses são atributos variáveis. O que eu faço é mostrar como analisar uma variedade de eventos para que as pessoas compreendam quanta evidência é necessária em cada um desses eventos.

Para se proteger das fake news é preciso saber julgar com discernimento as evidências e os argumentos que se encontram na mídia

Você diz que psicólogos e economistas aprendem muito uns com os outros. O que os economistas têm a ensinar às pessoas em geral?

A economia inventou regras sobre escolhas: como maximizar ganhos e minimizar perdas. Os psicólogos mostraram como aplicar essas regras nas escolhas que fazemos todos os dias. Dessa maneira, os psicólogos mostraram que as pessoas fazem escolhas de maneira diferente do que os economistas assumiram. O prêmio Nobel de economia foi oferecido a um psicólogo que mostrou que as pessoas não tomam decisões de acordo com a teoria do custo-benefício. Os economistas tomaram emprestado dos psicólogos o conceito de arquitetura da escolha (ou “nudge”), em que as escolhas são estruturadas de maneira a encorajar as pessoas a tomar decisões benéficas a elas e à sociedade. Países onde é necessário marcar um “x” em um papel dizendo que você não quer que seus órgãos sejam doados após sua morte têm uma taxa muito maior de doadores do que países em que você precisa marcar um “x” se quiser doar órgãos. Economistas são brilhantes em criar essas escolhas que nos tornam mais saudáveis, ricos e sábios, e psicólogos têm aprendido muito com eles.

Em uma era de notícias falsas, os princípios que você demonstra podem oferecer ferramentas para identificar o que é verdadeiro e o que é falso?

Grande parte de “Mindware” é direcionada a ajudar as pessoas a julgar com discernimento as evidências e argumentos que elas encontram na mídia. Portanto, acho que elas ajudarão as pessoas a se proteger das fake news – sejam essas notícias intencionalmente falsas, o que acho que é relativamente raro, ou acidentalmente falsas, o que é bastante comum.

Seu livro pode ser visto como uma história concisa da psicologia no século 21. Esse foi um dos seus objetivos ao escrevê-lo?

Na verdade, eu não sentei para escrever com essa missão de revisar a história da psicologia do século 21. Mas ele acabou oferecendo essa leitura, sim.

Texto e imagem reproduzidos do site: istoe.com.br