Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 19 de fevereiro de 2026
Nossos ancestrais tinham quatro olhos? Para que eles serviam?
Relógio biológico humano é calibrado pelo sol, mas opera de forma independente. Fernando Reinach para o Estadão:
No nosso corpo a luz tem duas funções. A primeira é permitir a visão. A segunda é controlar os processos que seguem a alternância entre o claro e o escuro. É o que chamamos de ciclo circadiano. Até alguns séculos atras acordávamos com o sol e nos recolhíamos ao anoitecer. Ao nascer demoramos três meses para adequar o sono ao ciclo claro/escuro. Acordamos à noite, dormimos de dia e deixamos os pais loucos e exaustos. Já adultos basta mudarmos abruptamente de fuso horário para nosso sono ficar biruta. É nosso relógio biológico em ação. Ele é calibrado pelo sol, mas opera de forma independente.
Faz muito sabemos que a glândula pineal, uma pequena pirâmide, do tamanho de um grão de arroz, localizada bem no centro de nosso cérebro, é onde reside o relógio biológico. Nos mamíferos ela recebe impulsos nervosos que chegam dos olhos. São esses impulsos que regulam a liberação de hormônios. O principal é a melatonina. Aquele mesmo que, em cápsulas, nos ajuda a regular o sono e a combater o jet lag.
Em alguns peixes e répteis existem orifícios na parte superior do crânio por onde os cientistas acreditam que a luz solar atinge diretamente o cérebro. Esses orifícios não são olhos propriamente ditos pois são recobertos por uma camada fina de osso e pele e não são capazes de formar imagens. Nesses animais existem extensões de vias nervosas que ligam esses locais à glândula pineal. Através desses sensores funções relacionadas ao ciclo circadiano são reguladas. Nesses animais a visão fica a cabo dos olhos e esse “quase olho” serve para regular o ciclo claro/escuro.
São essas descobertas que levaram muitos cientistas e filósofos a acreditar que nossa glândula pineal estaria relacionada a um terceiro olho. A maioria dessas teorias não tem base científica, mas a curiosidade sobre a existência de outros olhos persiste.
A novidade vem da análise dos mais antigos animais com uma coluna vertebral. Seus fósseis foram encontrados na China. São os animais que deram origem aos peixes, anfíbios e répteis, de onde surgiram as aves e os mamíferos. Eles viveram durante o Cambriano, 518 milhões de anos atrás. Esse pequeno animal, chamado Myllokunmingia, tinha 28 milímetros de comprimento e 6 milímetros de altura e parecia um minúsculo peixe. Fósseis desses animais são relativamente abundantes, mas em geral preservam poucos detalhes.
Agora, examinando alguns exemplares de duas espécies bem preservados, os cientistas localizaram, entre os dois olhos, mais duas estruturas circulares contendo evidências da presença de pigmentos semelhantes aos presentes nos olhos e duas estruturas semelhantes às lentes que existem nos olhos dos vertebrados. Isso indica que esses animais possuíam quatro olhos na cabeça e não somente os dois presentes em todos os vertebrados que conhecemos hoje.
O que os cientistas sugerem é que ao longo da evolução, os dois olhos presentes no dorso do animal desapareceram, e que o pequeno buraco no crânio de alguns peixes que deixam passar a luz e têm conexão com a glândula pineal, são as estruturas que sobraram desse par extra de olhos. Ao longo da evolução essas estruturas acabaram se especializando, juntamente com a glândula pineal, em regular nosso relógio interno. Num passo seguinte, nos mamíferos, esses buracos sumiram e sua conexão com a glândula pineal desapareceu.
Se essa descoberta for confirmada podemos dizer que os vertebrados surgiram com quatro olhos capazes de formar imagens e que ao longo de sua evolução dois desses olhos se tornaram capazes de detectar somente a presença de luz e regular nosso ciclo circadiano. Já os dois olhos laterais se especializaram na captura de imagens.
Mais informações: Four camera-type eyes in the earliest vertebrates from the Cambrian Period. Nature
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com
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