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Publicado originalmente do site do BRASIL EL PAÍS, em 10 de setembro de 2019
Quando os medíocres tomam o poder
A divisão e a industrialização do trabalho manual e
intelectual contribuíram para o advento de uma 'mediocracia', argumenta o
filósofo Alain Deneault em seu último livro
Por Alain Deneault
Deixe de lado aqueles volumes complicados: os manuais de
contabilidade serão mais úteis. Não se mostre orgulhoso, não seja inventivo nem
dê sinais de desenvoltura: pode parecer arrogante. Não seja tão apaixonado: as pessoas
ficam assustadas. E, o mais importante, evite as "boas ideias":
muitas delas acabam no triturador. Esse seu olhar penetrante dá medo: abra mais
os olhos e relaxe os lábios. Não basta que as suas reflexões sejam pouco
consistentes, têm de parecer pouco consistentes. Quando você falar sobre si
mesmo, certifique-se de que entendamos que você não é grande coisa. Isso
facilitará enquadrá-lo numa gaveta apropriada. Os tempos mudaram. Ninguém tomou
a Bastilha, nem pôs fogo no Reichstag [Parlamento alemão], o Aurora não fez um
único disparo. E, no entanto, o ataque foi lançado e teve êxito: os medíocres
tomaram o poder.
O que faz de melhor uma pessoa medíocre? Reconhecer outra
pessoa medíocre. Juntas se organizarão para puxarem o saco uma da outra, vão se
assegurar de devolverem favores uma à outra e irão cimentar o poder de um clã
que continuará a crescer, já que em seguida encontrarão uma maneira de atrair
seus semelhantes. O que realmente importa não é evitar a estupidez, mas
adorná-la com a aparência de poder. "Se a estupidez [...] não se
assemelhasse perfeitamente ao progresso, à habilidade, à esperança e à
melhoria, ninguém iria querer ser estúpido", disse Robert Musil.
Sinta-se à vontade para ocultar seus defeitos atrás de uma
atitude de normalidade. Sempre afirme ser pragmático e esteja sempre disposto a
melhorar, pois a mediocridade não admite a incapacidade nem a incompetência.
Você deve saber como usar os programas, como preencher o formulário sem
protestar, como se expressar espontaneamente e repetir como um papagaio
expressões como "altos padrões de governança corporativa e valores de
excelência", e como cumprimentar quem for necessário no momento oportuno.
No entanto, e isso é fundamental, não deve ir além disso.
O termo mediocridade designa o que está na média, assim como
superioridade e inferioridade designam o que está acima e por baixo. Não existe
a medidade. A mediocridade não faz referência à média como abstração, mas é o
estado médio real, e a mediocracia, portanto, é o estado médio quando a
autoridade está garantida. A mediocracia estabelece uma ordem na qual a média
deixa de ser uma síntese abstrata que nos permite entender o estado das coisas
e se torna o padrão imposto que somos obrigados a acatar. E se reivindicarmos
nossa liberdade, isso servirá apenas para demonstrar quão eficiente é o
sistema.
A divisão e a industrialização do trabalho —tanto manual
como intelectual— contribuíram em grande medida para o advento do poder
medíocre. O perfeccionismo de cada tarefa, para que seja útil a um conjunto
inatingível, converteu charlatães em "especialistas" que enunciam
frases oportunas com porções mínimas de verdade, enquanto os trabalhadores são
rebaixados ao nível de ferramentas para quem a “atividade vital [ …] não passa
de um meio de garantir a própria existência”.
[…] Laurence J. Peter e Raymond Hull foram os primeiros a
testemunhar a proliferação da mediocridade por toda a parte de todo um sistema.
Sua tese, O Princípio de Peter, que desenvolveram nos anos posteriores à
Segunda Guerra Mundial, é implacável em sua clareza: os processos sistêmicos
propiciam àqueles com níveis médios de competência subirem para posições de
poder, afastando em seu caminho tanto os supercompetentes como os totalmente
incompetentes. Exemplos impressionantes desse fenômeno são vistos nas escolas,
onde será demitido um professor que não for capaz de seguir um cronograma nem
saiba nada sobre sua matéria, mas também será dispensado um rebelde que adote
mudanças importantes nos protocolos de ensino para conseguir que uma sala de
alunos com dificuldades obtenha melhores qualificações —tanto em compreensão de
leitura, como em aritmética— do que os alunos de salas normais.
O “analfabeto secundário”
se vangloria de possuir um grande acervo de conhecimentos úteis que, no
entanto, não o leva a questionar seus fundamentos intelectuais
E também vão se livrar de um professor não convencional
cujos alunos completam o trabalho de dois ou três anos em apenas um. Segundo os
autores de O Princípio de Peter, neste último caso, o professor é punido por
ter alterado o sistema oficial de qualificação e, sobretudo, por ter causado
“um estado de extrema ansiedade ao professor que deveria ser o responsável no
ano seguinte pelo grupo que já realizou todo o trabalho”. Este é o processo que
vai dando origem aos "analfabetos secundários", para usar a expressão
cunhada por Hans Magnus Enzensberger. Este novo sujeito, produzido em massa por
instituições de ensino e centros de pesquisa, se vangloria de possuir uma
riqueza de conhecimentos úteis que, no entanto, não o leva a questionar seus
fundamentos intelectuais […]
A norma da mediocridade leva ao desenvolvimento de uma
imitação do trabalho que estimula a simulação de um resultado. Fingir se torna
um valor em si mesmo. A mediocracia leva todos a subordinarem qualquer tipo de
deliberação a modelos arbitrários promovidos por instâncias de autoridade. Hoje
figuram entre seus exemplos o político que explica aos eleitores que eles têm
que se submeter aos desígnios dos acionistas de Wall Street; ou o professor
universitário que considera que o trabalho de um aluno é "teórico demais e
científico demais" quando excede as premissas que haviam sido expostas
anteriormente em um PowerPoint; ou o produtor cinematográfico que insiste em
dar a uma pessoa famosa um papel de liderança em um documentário sobre um
assunto com o qual ela não tem nenhuma ligação; ou o especialista que demonstra
sua "racionalidade" argumentando amplamente em favor do crescimento
econômico (irracional). Zinoviev já estava ciente das possibilidades do
trabalho simulado como uma força psicológica para alterar as mentes:
"A imitação do trabalho parece exigir apenas um
resultado, ou melhor, a mera possibilidade de justificar o tempo investido: a
comprovação e a avaliação dos resultados são realizadas por pessoas que
participaram da simulação, que guardam relação com ela e têm interesse em
perpetuá-la.”
Caberia pensar que uma característica comum entre aqueles
que compartilham esse poder seria a de um sorriso cúmplice. Acreditando serem
mais espertos do que todos os outros, ficam satisfeitos com frases carregadas
de sabedoria, como:
"É preciso entrar no jogo". O jogo —uma expressão
cuja absoluta imprecisão se encaixa perfeitamente no pensamento medíocre— exige
que, de acordo com o momento, a pessoa acate servilmente as regras
estabelecidas com o único propósito de ocupar uma posição relevante no quadro
social, ou que contorne com ufanismo tais regras —sem nunca deixar de manter as
aparências—, graças a vários atos de conluio que pervertem a integridade do
processo.
Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

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