Ilustração: Eva Vázquez
Publicado originalmente no site do jornal EL PAÍS BRASIL, em
07 de setembro de 2019
‘Dor e glória’, o primeiro desejo
Não é autoficção, mas o filme parte de mim mesmo. Tudo em
meu cinema é representação, fujo do naturalismo, não pretendo que meus filmes
pareçam reais, e sim que o espectador se reconheça neles
Por Pedro Almodóvar *
Dor e Glória é um filme baseado na minha vida? Não, e sim,
absolutamente. Todos os meus filmes me representam. É verdade que este me
representa mais, mas a partir do momento em que começo a escrever sobre uma
base conhecida —procedente da realidade, de algo que li no jornal, que me
contaram, que testemunhei ou simplesmente um episódio da minha própria
vivência— a história começa a encontrar seu verdadeiro caminho
(cinematográfico, neste caso) para se transformar em ficção. O resto do
trabalho eu faço guiado e impulsionado pela imaginação. E a imaginação não se
preocupa tanto com a verdade quanto com a verossimilhança, e com que o
resultado seja divertido e emocionante.
A história de Dor e Glória mostra um homem com seus 60 anos,
encalhado no sofá de sua casa por uma depressão provocada por diversas causas:
a idade (formado nos anos oitenta, costuma viver sempre de forma juvenil e
explosiva), uma grave operação nas costas, que lhe provoca múltiplas dores e o
impede de se movimentar como antes, a sensação de que sua péssima forma física
o impedirá de voltar a rodar um filme e o isolamento ao qual ele mesmo se
condenou (se você para de atender ao telefone e de ligar, em dois anos se
esquecem de você).
Nesta solidão sem horizontes, sobra tempo ao personagem. E o
tempo livre é como um deserto em que se desorienta. De modo natural, a solidão
e o silêncio lhe trazem, como um vento fresco, retalhos de sua infância. Nunca
tinha tido tempo para recordar. Não é um personagem que goste de olhar para
trás, sempre viveu no futuro, nas histórias que escrevia e rodava, e toda a sua
vida pendia entre a excitação da escrita e a grande aventura das rodagens.
Salvador Mallo, assim se chama, recorda sua infância e os
últimos meses de vida da sua mãe, de quem cuidou e que lhe deixou uma lembrança
amarga. Nas relações entre mãe e filho, sempre há silêncios, é um modo de se
respeitar mutuamente e evitar problemas.
Não é que me incomode que o filme seja visto como uma autoficção,
e me parece um elogio quando dizem que num dado momento Antonio Banderas, que
encarna Mallo, desaparece e veem a mim. Impressiona-me, porque Antonio em
nenhum momento tentou me imitar, embora tenha meu cabelo, minha casa, minhas
cores...
A autoficção na literatura é um gênero respeitado, com
verdadeiros marcos: Outras Vidas que Não a Minha, de Emmanuel Carrère; O Ano do
Pensamento Mágico, de Joan Didion ou o livro do filho de Juan Giralt sobre seu
pai (Tiempo de Vida, de Marcos Giralt Torrente). Todos são grandes crônicas
sobre a dor e a perda. A literatura que vem da realidade, do eu, é um gênero
que já tem muitos anos, se eu pensar em A Sangue Frio, de Capote, e em Tom
Wolfe. Em cinema tem uma tradição mais reduzida, e temo que esteja pior visto, ou
que se preste a uma apreciação ambígua.
Dor e Glória não é autoficção, mas é verdade que o filme
parte de mim mesmo. Não haveria roteiro se não tivesse sido operado das costas,
vivido o longo pós-operatório e a imobilidade que veio depois, assim como a mudança
radical que experimentam os músculos para compensar a “fixação” da metade
lombar. Mas não quero falar disso, não sou uma vítima nem quero que me vejam
assim. Há doentes reais que estão imensamente pior que eu; por respeito a eles
não sou ninguém para falar da dor. Salvador está pior que eu, mas tampouco
quero que se queixe, os problemas do personagem vão por outro lado.
Quanto às minhas relações com os outros, Dor e Glória não é
um filme no qual se procura quem se esconde por detrás dos personagens. Claro
que parti de sentimentos próprios reais, mas me serviram para escrever a
primeira linha. O resto é inventado, imaginado, impulsionado pela força da
ficção.
Tudo no meu cinema é representação, sempre fugi do
naturalismo, não pretendo que meus filmes pareçam reais. Mas pretendo que o
espectador se reconheça neles. Não quero que nas cenas com Julieta Serrano você
pense se eu tive problemas com minha mãe, mas sim que veja a si mesmo diante da
sua própria mãe, que admire a execução delicada e intensa da atriz, e se
emocione com a interpretação de Antonio Banderas quando a olha e escuta. Que
quando falar de meus amores truncados pense em si mesmo, em sua relação com o
desejo, correspondido ou não, e na importância de ter amado, não importa como
tenha sido, porque o importante é amar.
Sou muito pudico na vida real, mas meu pudor desaparece
quando escrevo e dirijo, nesses momentos estou nu e me sinto totalmente livre.
Claro que o filme fala do cinema e da importância do cinema na minha vida.
Poderia dizer que o cinema é minha vida, ou que minha vida é o cinema. A
autêntica droga do filme é o cinema, não a heroína. A verdadeira dependência de
Salvador é a de continuar fazendo filmes, o cinema o vampirizou por completo.
Há uma vaga similitude, da qual não estava consciente quando
rodava, entre Dor e Glória e Arrebato, do meu amigo Iván Zulueta. Os
protagonistas de ambos são diretores, bastante isolados e com uma precária
relação com a realidade. Ambos consomem heroína, mas de modo muito diferente:
José Sirgado é, em Arrebato, um junkie inveterado de 35 anos; Salvador Mallo
começa a usá-la aos 60 como analgésico para suas dores nas costas.
Sirgado descobre que quando se filma a si mesmo em super8,
sempre sob os efeitos da heroína, a câmera arrebata sua imagem durante alguns
fotogramas (sua imagem desaparece e o fotograma se torna vermelho escuro). Essa
ausência de sua imagem o intriga, o atrai e o obceca. Nas filmagens
posteriores, a câmera o fagocita durante mais fotogramas, o vermelho dura cada
vez mais, assim como sua ausência. O vermelho da imagem arrebatada é um obscuro
mistério, provavelmente a advertência de um final ou a transição para outro
estado de natureza desconhecida. Fuga, entrega e imolação. Sirgado decide
deixar-se arrebatar para nunca mais voltar à sua vida material. A câmera e a
droga o absorvem até engoli-lo para sempre.
Em Dor e Glória, a heroína tem a função oposta; quando
Salvador a consome, abre a porta a um lugar luminoso, onde sua mãe canta
enquanto lava roupa, quando chega com sua família a um povoado pintado de
branco, com chaminés ao mesmo nível chão e um torreão legendário, um lugar
mítico.
O grande problema de Mallo é que, por causa de suas
moléstias, acredita que não voltará a rodar, trabalho muito físico, para o qual
não se vê em condições. E sem uma rodagem à vista sua vida carece de sentido.
Mas há algo mais: em seu estado depressivo, não dispõe de nenhuma história para
contar. Só poderia falar de si mesmo, e em suas circunstâncias isso o repele
(não a mim, por isso sou eu quem conta sua história).
Quando Salvador encontra numa galeria de segunda uma
aquarela —o retrato que um jovem pedreiro fez dele na caverna da sua infância—,
recorda vividamente, 50 anos depois, a pulsão do primeiro desejo. E volta a
sentir que essa história deveria ser narrada. (Esta é a história que Salvador
conta, não eu, a que leva por nome O Primeiro Desejo.) É um sentimento
apaixonado e vertiginoso, o mesmo que senti antes de cada um de meus 21 filmes.
E essa necessidade imperiosa de narrar O Primeiro Desejo salva a sua vida.
* Pedro Almodóvar é cineasta.
Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

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