sábado, 25 de maio de 2019

Almodóvar: “Trump despertou o pior de cada país e os loucos de cada casa”

 Penélope Cruz, Pedro Almodóvar e Antonio Banderas, na chegada 
à apresentação de 'Dor e Glória'. (Eric Gaillard/REUTERS)

Publicado originalmente no site do jornal El País Brasil, em 18 de maio de 2019

Almodóvar: “Trump despertou o pior de cada país e os loucos de cada casa”

Diretor apresenta no festival 'Dor e Glória', diz estar ‘impressionado’ com o carinho do público espanhol por este filme e ‘aliviado’ com o resultado das eleições na Espanha

Por Gregorio Belinchón

No terraço do hotel Marriott, no meio do dia em Cannes, geralmente quente, começa a esfriar. Em um dos sofás, Penélope Cruz se abriga em um cardigã. Em outra sala fechada, o restante da equipe artística e da produtora El Deseo começa a comer. Antonio Banderas se despede até a tarde. E Pedro Almodóvar (Calzada de Calatrava, Ciudad Real, 69 anos) encara a última entrevista de sua sessão matinal nesta sexta-feira. A exibição em Cannes coincide com as estreias francesa e italiana de Dor e Glória. "Não vou te dar o meu melhor, estou um tanto sem cabeça", diz o diretor, que retorna ao festival francês, onde já chegou a presidir o júri, para competir pela sexta vez. Penélope Cruz deixa escapar um "ele nunca está sem cabeça", o que se confirma à medida que a conversa avança.

Pergunta. Há poucos dias, um diretor francês garantiu que, para um criador europeu, a Palma de Ouro é mais importante que o Oscar, pelo que o cinema de autor significa. E para você?

Resposta. Provavelmente essa é a impressão do público e da indústria europeia. Obviamente, não ganhei a Palma de Ouro e tenho dois Oscars, o que é muito difícil. Acima de tudo, o de melhor roteiro, que em 90 anos foi conquistado apenas por três filmes que não eram de língua inglesa. Ali as corporações, como as dos escritores, se empenham muito para que seus membros ganhem.

P. Mas você é um europeu que faz cinema de autor. Esse prêmio não lhe atrai?

R. Não tenho ansiedade pela Palma porque, de outro modo, não poderia vir para competir. Estive duas vezes no júri e sei como funciona a mecânica dos prêmios, a difícil negociação. Nunca estarei mais perto do que em 1999, com Tudo Sobre Minha Mãe. David Cronenberg, presidente desse júri, vai ser perseguido a vida toda por aquela pergunta [por que o filme de Almodóvar não recebeu o prêmio]. Não acho que esta edição seja parecida. Quando você vai a uma competição, tem que mentalizar que a lista de prêmios é imprevisível, vai além da qualidade dos filmes, a qual eu pressuponho. Li que estou obcecado pela Palma. Nunca estive, e agora menos ainda.

P. Quando veio apresentar Julieta no festival de 2016, falou muito sobre o legado. Agora apresenta um filme que é puro legado.

R. Sim, lembro bem dessa conversa. Dão como certo que Dor e Glória é um filme de despedida, e não é. Na verdade, estou escrevendo dois roteiros e um será do meu próximo filme. Mas Dor e Glória, é verdade, reflete sobre mim mesmo como diretor e como pessoa, eu paro para me observar. Não sei por que isto se passou. Evidentemente, eu tinha a necessidade de fazer isso, senão não teria escrito esse roteiro. Talvez um psiquiatra me explicasse a razão, mas não vou perguntar. Embora o personagem do Antonio esteja em uma situação mais crítica do que a minha, eu sofria um medo parecido de não poder filmar por doença, de que não houvesse nenhum outro filme. Tenho uma grande dependência do cinema, é total. Este é, para mim, o tema mais pessoal de Dor e Glória. Foi ... terapêutico, apesar de eu odiar essa palavra, porque ninguém dirige como terapia. Você faz filmes porque quer contar uma história. Por que escolhi me expor assim? Não sei. Mas senti um efeito balsâmico quando concluí, que eu não esperava.

P. Sentiu que recuperou o carinho do público?

R. Sim, é muito impressionante. E imprevisível. Pensei, enquanto escrevia, que o efeito seria o oposto. Porque o público espanhol vê outros filmes, comédias produzidas pelas redes de televisão ou de super-heróis. O espectador atual na Espanha é menos interessante do que há dez anos. E se voltarmos mais... Lembro de como ficavam lotados os primeiros cinemas de arte e ensaio. Enfim, esperava o contrário. E parece que o fato de me mostrar fez com que as pessoas sintam que estou mais próximo. À parte minha firme vontade de fazer esse filme, a incerteza rodeou quase todas as decisões. Recebi muito carinho, sentimento que sempre é bem-vindo.

P. Está apoiando a campanha de Manuela Carmena para ser reeleita prefeita de Madri.

R. Depois das eleições gerais, senti um enorme alívio, como voltar a respirar. Votei pelo correio porque tinha que estar em Nova York e de lá acompanhei a contagem grudado no computador. Não tinha nenhuma segurança sobre o resultado. Li a imprensa nos dias anteriores, em que diziam que o Vox subia como espuma, e eu estava com muito medo. Respirei, sobretudo porque durante a campanha não reconhecia o país em que estava vivendo. Nunca houve tamanha degradação da classe política como nos últimos meses. Em nenhuma outra profissão as pessoas se permitem esse nível de insultos, de irritação, de crispação, de mau humor, como acontecia na Câmara dos Deputados. Isso me escandalizou. Felizmente, o país tomou consciência e foi em massa às urnas. E a fumaça da extrema direita vai se acalmar. Dá-se muito ouvido a eles, são muito vocais, mas representam menos gente do que parece. Na realidade, Trump despertou o pior de cada país e os loucos de cada casa. Há um plano da extrema direita para desestabilizar a Europa. E sim, minha opção é Carmena.

P. O próximo vai ser filme ou série?

R. O que estou preparando é um filme. Estou escrevendo dois roteiros que adaptam romances anglo-saxões. E quero fazer os dois. Para uma série, há um livro de histórias de que gosto muito e esse seria o seu formato. Mas eu imporia a duração natural de cada história, os capítulos durariam de acordo com cada conto. O que os uniria é que procedem da mesma autora. Bem, estamos falando de um futuro daqui a quatro anos.

P. É uma grande mudança como roteirista. Sente-se confortável como adaptador?

R. Reduzi tanto a minha vida que, embora esteja a par da realidade espanhola, não conheço os pequenos detalhes da vida dos espanhóis, especialmente das gerações que não são a minha. Eu deveria me documentar porque não sei como são, por exemplo, nos salões de cabeleireiros. Por isso passei a adaptar obras literárias [reflete]. Algum dia gostaria de filmar um romance espanhol como A Tia Tula. Sinto grande atração por filmes que se passam nas cidadezinhas.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

quarta-feira, 22 de maio de 2019

ENTREVISTA > Chico Buarque de Hollanda

Chico Buarque, "um sujeito magro e tímido, simples e sorridente". 

Publicado originalmente no site do jornal El País Brasil, em 26 de maio de 2015 

Chico Buarque: “A música brasileira não exclui, assimila”

No Rio de Janeiro, revela a história de sua família e sua oposição à ditadura

Por Antonio Jiménez Barca 

Há apenas uma coisa mais difícil de encontrar do que alguém que fale mal de Chico Buarque no Brasil: uma mulher que não seja apaixonada por ele. Olhos fascinantes de uma cor estranha entre verde, azul e cinza são uma lenda nacional. Suas canções, por si só, já fazem parte da história, da herança e da identidade diária de um povo. Por isso, é um pouco intimidante se aproximar do edifício de um bairro nobre do Rio de Janeiro, onde o cantor mora, e subir no elevador imaginando o que te espera atrás da porta. O que se encontra é um sujeito magro e tímido, simples e sorridente, que esperava sentado sozinho em uma cadeira e assim que vê o recém-chegado o convida para um café que acabou de fazer. A sala de estar de Chico, aberta em três paredes de vidro com vista para várias praias do Rio, goza de uma paisagem deslumbrante nesta bela tarde ensolarada e iluminada de fim de verão. Ao fundo, em um canto, há um violão e um piano, ao lado de uma enorme foto na qual Chico aparece ao lado de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, dois dos lendários criadores da bossa nova.

Sobre uma mesa repousa o novo romance do artista, O Irmão Alemão (Companhia das Letras). Nele, Chico (1944) narra seu choque ao saber, já adulto e de forma inesperada, que seu pai, o famoso historiador Sérgio Buarque de Hollanda, teve um filho na Alemanha, em 1930, quando era correspondente em Berlim para um jornal brasileiro. Nem Chico sabia até então que tinha um irmão na Alemanha, nem esse irmão alemão jamais soube que era parente de um dos cantores mais famosos do Brasil já que morreu, em 1981, ignorando quase tudo sobre seu pai biológico. O escritor disfarça um pouco os fatos, mas nas páginas do romance desfila a São Paulo dos anos sessenta e setenta, menos gigante e desumana do que a atual, e sua própria juventude um pouco desregrada. Também emerge a ditadura sinistra, à qual Chico se opôs desde o início e que o levou a buscar o exílio, em 1969. Mas, acima de tudo, revela a casa da família, repleta de cima a baixo com livros de seu progenitor. Era um pai amável, mas distante, carinhoso, mas distraído, e um pouco ausente, sempre imerso em leituras intermináveis e envolto em uma nuvem de fumaça de um cigarro continuamente aceso. No romance, o protagonista, um sósia do próprio Chico, enquanto folheia um dos livros da imensa biblioteca do pai, nota um envelope perdido entre as páginas que guarda uma velha carta em alemão, que lhe dá pistas sobre aquele irmão que nunca conheceu. Na verdade, a descoberta não foi tão literária.

Pergunta. Quando soube que tinha um irmão?

Resposta. Soube exatamente em 1967, quando tinha 23 anos. Lembro-me muito bem, inclusive há uma foto desse dia. Vinicius de Moraes, Tom Jobim e eu fomos visitar o poeta Manuel Bandeira, que já estava muito velhinho, em sua casa no Rio. E, então, falando disso e daquilo, Bandeira perguntou por meu pai, de quem era muito amigo: "Como o Sérgio está? Ah, quanto tempo não o vejo, vivemos tantas coisas juntos... Foi para a Alemanha, teve aquele filho...”. E aí soltou isso.

P. O que você fez?

R. Então lhe disse: "Mas que filho?". E aí o Vinicius respondeu: "Mas você não sabia disso, do filho?". E eu: "Não". Eu não sabia nada. Era um segredo de família. Depois daquele dia, falei com meus irmãos e com meu pai. Falei com o meu pai, sim, mas sempre havia uma barreira na hora de perguntar a ele. Escrevendo este novo livro me questionei por que não perguntei mais. Mas havia um receio, um impedimento. Não é que meu pai tenha me proibido de perguntar sobre a questão do filho, mas me sentia um pouco desconfortável sobre o assunto. Em relação à minha mãe e ao meu pai.

 O cantor e escritor Chico Buarque

P. E isso se tornou uma obsessão ao longo dos anos? Porque você continuou investigando, principalmente após a morte de seu pai, em 1982. Até mesmo a editora que iria publicar o livro, a Companhia das Letras, contratou dois detetives para ajudá-lo na investigação.

R. Não, não, não eram detetives [risos]. Eram historiadores. Um deles era um brasileiro que, por acaso, estava na Alemanha quando comecei a escrever o livro, há três anos. É verdade que foi contratado pela editora. Ele conhecia um documentalista alemão especializado em imigração alemã no estado de Santa Catarina. Eles descobriram que meu irmão, na verdade, se chamava Sérgio Günther e havia sido adotado por uma família quando pequeno. A verdade é que, quando comecei a escrever o livro, tinha muito pouca informação. Mas nem precisava. Nem sequer pretendia encontrá-lo. A história não ia por aí. Mas aconteceu que, enquanto escrevia, um dos meus irmãos, que vive no apartamento da minha mãe, que morreu há cinco anos, encontrou em uma gaveta alguns documentos que tinham dados para puxar o fio. Eu tinha 50 páginas do livro, que deixei como estavam. Mas a realidade se intrometeu na redação para sempre.

P. A história que o senhor narra no romance é boa, mas a realidade na qual se apoia também.

R. Sim, deveria escrever outro livro, porque, no final, o romance acaba competindo com a história real, que é muito impressionante.

É verdade. Através desses documentos, Chico tomou conhecimento de duas coisas: que seu pai havia solicitado às autoridades alemãs que enviassem seu filho fornecendo a documentação necessária ou, pelo menos, conseguir que ele recebesse uma pensão que prometia enviar. A segunda é que a mãe biológica tinha decidido, em meio à convulsão enfrentada pela Alemanha da época, entregar o menino ao Estado para que fosse adotado. Uma carta enviada a seu pai, em 1934, pela Secretaria da Infância e Juventude de Berlim (e que terminava com um rigoroso "Heil Hitler!") pedia a Sérgio Buarque de Hollanda que, para que seu filho fosse adotado pela família alemã Günther, que estava interessada na criança, deveria encaminhar o mais rapidamente possível certificados que comprovassem a religião católica do pai. Chico, ao ler a carta, imaginou, com assombro e espanto, que as autoridades alemãs exigiam isso para que ficasse evidente que o pequeno Sérgio não tinha sangue judeu nas veias. Caso contrário, em vez de uma família qualquer, ele poderia ter sido transferido para um campo de concentração. Os historiadores finalmente conseguiram, em 2013, identificar o irmão, Sérgio Günther, que morreu em 1981, e localizar sua ex-esposa, filha e neta. Poucos meses depois, Chico viajava a Berlim para conhecer a outra parte de sua família e saber mais sobre seu meio-irmão.

P. E soube que seu irmão tinha sido um cantor...

R. Sim, ficou bem conhecido na Alemanha Oriental como cantor e apresentador de televisão. Quando soube que tinha sido cantor, senti uma emoção forte. E sabe, quando ouvi um de seus álbuns percebi que tinha a voz grave do meu pai. Porque meu pai gostava muito de cantar. E soava igual.

P. Tinham mais coisas em comum?

R. Ambos morreram de câncer de pulmão. Meu pai fumava muito. Quando conheci a família do meu irmão, sua viúva (uma de suas viúvas, porque ele se casou mais de uma vez) me disse que Sérgio Günther arrancava o filtro dos cigarros que fumava. Exatamente como meu pai. Coisas assim que arrepiam. Todo mundo lá me disse que minha música A Banda havia sido traduzida ao alemão e era bem conhecida na Alemanha Oriental, com uma letra muito diferente e um pouco absurda, na verdade. Portanto, não é estranho que meu irmão tenha realmente me ouvido cantar. É uma maneira de ter me conhecido um pouco, certo?

P. Alguma vez teve curiosidade de saber quem era seu pai biológico?

R. Sua viúva me disse que, em um determinado momento, sim, que perguntou na Embaixada brasileira, mas na época a Alemanha Oriental era um país muito fechado, com poucas possibilidades de conseguir informação.

P. No livro, o protagonista, parecido com o senhor, rouba carros para se divertir. O senhor fazia a mesma coisa?

R. Sim. Ia com um grupo de adolescentes do bairro, eram os tempos de James Dean, rock and roll, de uma juventude um pouco rebelde. Por isso que nosso esporte era roubar carros, circular com eles pela cidade e depois deixá-los no fim do mundo. Fui para a cadeia por isso uma vez. A polícia me deu uma surra. Bom, mas isso já havia contado. Eu mesmo disse antes que descobrissem. Tive sorte porque no dia que me prenderam meus pais não estavam em casa, estavam viajando, e foi minha irmã que me buscou. Eu então era bastante..., enfim, dei muito trabalho para minha família.

P. Ao mesmo tempo, era muito bom leitor, certo?

R. Sim, é verdade. Foi também uma maneira de me aproximar de meu pai, que passou a vida entre livros. Eu diria que, antes de ser músico, queria ser escritor. Até que a música apareceu na minha vida e embarquei nela. Mas não abandonei a ideia de me dedicar à literatura. Nos anos setenta, publiquei meu primeiro romance, nos oitenta, o segundo. Desde então alterno as duas coisas. Quando faço uma, não faço a outra, porque me consomem muito. Quando estou escrevendo nem sequer ouço música.

P. Mas são atividades assim tão diferentes?

R. Para mim, sim. Muito. E ainda assim minha escrita é muito influenciada por minha música. Talvez algo se perca nas traduções, mas meus textos tentam carregar algum ritmo musical. Além disso, tenho que alternar as duas coisas porque, pelo menos no Brasil, é muito difícil para um escritor viver apenas de literatura. Os escritores trabalham como funcionários públicos, professores, jornalistas... E tudo isso está tão longe da literatura quanto da música. O fato de ser jornalista, por exemplo, não lhe dá a habilidade de escrever literatura, acredito.

P. Comenta-se que cada vez escreve mais e compõe menos.

R. Componho menos do que aos 20. É normal. A música popular é mais uma arte da juventude, com o tempo você vai perdendo, não sei, não o interesse, mas ela já não flui com a abundância daqueles primeiros anos. Tenho que me esforçar mais, procurar mais, é mais difícil. No começo você tem um milhão de ideias, tudo em torno serve para fazer uma canção. Depois vai ficando mais insípido, menos inspirador.

P. Ainda acredita que o melhor de um show é quando acaba?

R. [Risos] Eu realmente não gosto muito de fazer shows não, mas tenho de fazer. Quando lanço um novo disco, me dá vontade de sair por aí e cantar em público. Além disso, com isso depois posso passar dois anos escrevendo. Caso contrário, iria à falência.

P. Por que a música popular brasileira é tão conhecida e a literatura não?

R. Pode ser porque seja pior, mas acho que não. É verdade, por exemplo, que a Argentina é um povo mais literário do que o brasileiro. E os escritores brasileiros também jogam com uma desvantagem, porque o português é mais desconhecido. E a riqueza musical brasileira é facilmente exportável, não precisa de tradução.

P. Por outro lado, por que a música brasileira é tão aceita, tão apreciada?

R. Porque, principalmente depois da bossa nova, tem a influência negra, é filha do samba, mas com um toque de jazz, um toque harmônico. E também tem influência dos grandes compositores da música clássica. Veja: Tom Jobim, nosso grande mestre, era um conhecedor profundo de Chopin e Debussy, dos impressionistas, entre muitos outros. E tudo isso está em nossa música, misturado, junto com os boleros cubanos e os ritmos mexicanos. O Brasil não exclui, assimila. O resultado foi complexo, rico e único.

P. Como era esse mundo? Como era conviver com Jobim, Vinicius?

R. Ah! Eles... eram acima de tudo grandes amigos. Olhe aquela foto, estou com os dois. Eu realmente comecei a me emocionar de verdade com a música, a decidir fazer canções a sério depois da canção Chega de Saudade, composta por Tom Jobim e Vinicius e interpretada por João Gilberto. Eu os tinha em um altar. Já conhecia Vinicius porque era amigo do meu pai, mas, para mim, era como falar com um monumento. Por isso, a primeira vez que vim ao Rio para conversar com Tom Jobim, imagine, era um sonho. Com o tempo se tornaram meus amigos, meus parceiros, fiz muitas canções com eles, fui aceito nesse seleto grupo da música popular brasileira.

P. Foi Tom Jobim que disse que o Brasil não era um país para amadores, correto?

R. Sim, e assino embaixo. É um país único, fruto da colonização portuguesa, com emigrantes de todo o mundo, italianos, alemães, árabes, japoneses, com a marca dos escravos trazidos à força... E com origens indígenas antes disso tudo. Tudo isso está presente agora. Em São Paulo, sem ir muito longe, você pode procurar nomes indígenas em muitas ruas. Essas circunstâncias criam um país único.

P. O senhor sempre teve uma posição política clara e explícita. Se opôs à ditadura e apoiou Lula e Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores.

R. Sempre me perguntam quando há eleições. Eu tomo partido e não tenho qualquer problema em declarar isso. Sempre apoiei o PT, agora a Dilma Rousseff e antes o Lula. Apesar de não ser membro do partido, de ter minhas desavenças e de votar em outros candidatos e outros partidos em eleições locais. Mas sempre soube que o problema deste país é a miséria, a desigualdade. O PT não resolveu tudo, mas conseguiu atenuar. Isso é inegável. O PT tem melhorado as condições de vida da população mais pobre.

P. E como o senhor vê a situação atual?

R. Muito confusa, não há nenhuma maneira de saber o que vai acontecer nos próximos anos. A crise econômica é forte. É preciso tomar certas medidas impopulares. Ao mesmo tempo, a oposição é muito dura. E depois há uma onda de manifestações nas ruas que, na minha opinião, não têm um objetivo concreto ou claro. Entre aqueles que saem às ruas há de tudo, incluindo loucos pedindo um golpe militar. Outros querem acabar com o Partido dos Trabalhadores, querem enfraquecer o Governo para que, em 2018, o PT chegue desgastado nas eleições. O alvo não é a Dilma, mas o Lula; têm medo que Lula volte a se candidatar.

P. E, para terminar: como se vive sabendo que é o homem mais desejado do país?

R. Isso já faz muito tempo.

P. E continuam dizendo.

R. Não sei nada sobre isso. Sou tímido, um cidadão sério, um homem de família. Inventam histórias, criam lendas que não têm muito a ver com a realidade. Não sou o sedutor que comentam.

A entrevista termina e o cantor tenta chamar um táxi para o jornalista através de um aplicativo do celular. Mas não consegue. "Minha neta sabe, mas eu não aprendo", explica. Observa o bonito entardecer e diz: "Eu o acompanho." Coloca shorts, um boné que esconde o rosto e caminha, junto ao jornalista, rua abaixo pelo Rio de Janeiro, falando dos pais, dos livros, das famílias e da música.

Chico Buarque: “A música brasileira não exclui, assimila” 
Fotos: Luiz Maximiano

Rio de Janeiro, 1944. Ele é filho do conhecido historiador Sérgio Buarque de Hollanda e da pintora e pianista Maria Amélia Cesário Alvim. Começou a estudar arquitetura, mas abandonou o curso depois de dois anos, quando sua carreira como compositor e intérprete começou a deslanchar. Em 1966, conseguiu seu primeiro grande sucesso com a canção A Banda. Desde então, não parou de compor obras-primas como Apesar de Você, Construção, O Que Será (À Flor da Pele) e Cálice. É considerado um dos grandes nomes da música popular brasileira, ao lado de Tom Jobim e João Gilberto, entre outros. Em paralelo, desenvolveu sua carreira como escritor e dramaturgo. O Irmão Alemão, publicado pela Companhia das Letras, é seu quinto romance.

Texto e imagens reproduzidos do site: brasil.elpais.com

CINEMA > Festival de Cannes 2019

Margot Robbie, Quentin Tarantino, Leonardo DiCaprio e Brad Pitt 
na projeção de gala de “Era Uma Vez... Em Hollywood”. 

Publicado originalmente no site do jornal El País Brasil, em 22 de maio de 2019 

Tarantino e sua carta de amor a um cinema desaparecido

‘Era Uma Vez... em Hollywood’ é demonstração da enciclopédica cultura audiovisual de seu criador, que pela primeira vez na carreira homenageia a televisão

Por Gregorio Belinchón 

Esta é uma carta de amor. A uma época em que a televisão não se levava a sério. A uma indústria que definhava enquanto os “malditos hippies” (como são qualificados na tela em várias ocasiões) tomavam as rédeas do cinema. Ao cinema europeu que servia de refúgio a estrelas de Hollywood em queda livre, ao western spaghetti, a Roman Polanski. E principalmente a Sharon Tate. Tudo isso e muito mais é Era Uma Vez... em Hollywood, o filme mais esperado desta edição de Cannes. Há 25 anos Pulp Fiction levou a Palma de Ouro e Quentin Tarantino acelerou –embora diga que ainda lhe faltam detalhes a polir– para que seu nono filme chegasse ao festival francês.

Tarantino foi muito cuidadoso com a projeção. Rodou no sistema analógico –em respeito à época que retrata, 1969– e assim foi projetado em sua estreia mundial. Também pediu –pelas redes sociais e na própria projeção (a organização leu a mesma mensagem)– que ninguém revelasse a trama em consideração ao futuro espectador. Também pode ser porque, pela primeira vez na carreira, o norte-americano repete o mesmo truque, o mesmo recurso narrativo, de um filme anterior seu. E mencioná-lo seria desmontar todo o seu castelo de cartas, um jogo de malabarismo que poderá ser visto no Brasil a partir de 15 de agosto.

Não parece que Era uma vez em... Hollywood renderá a Palma de Ouro ou muitos Oscars a Tarantino. Mas chegará aos corações de muitíssimos espectadores. O diretor de Jackie Brown e Bastardos Inglórios é uma enciclopédia cinematográfica ambulante. A dupla de personagens principais, Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) –um caubói de televisão em decadência, personagem que lembra Clint Eastwood– e seu dublê, Cliff Booth (Brad Pitt, soberbo), viaja para trabalhar na Europa e aí o cineasta se orgulha de alguns filmes e criadores que amadureceram seu gosto eclético: o western spaghetti de Sergio Corbucci (é chamado de segundo melhor diretor deste gênero para destacar a homenagem a Sergio Leone, que vem desde o título) e Joaquín Romero Marchent, Gringo Selvagem, os paparazzi de Roma, as filmagens em Almeria... Quando sua Tate-Robbie vai ao cinema para ver um de seus filmes, Tarantino não recorre a truques e mostra sequências reais de Arma Secreta contra Matt Helm e O Vale das Bonecas. Também semeia inúmeras homenagens musicais: a Los Bravos, já ouvidos no trailer, se junta, por exemplo, José Feliciano com sua versão de California Dreamin’.

Mas é com a televisão do final dos anos cinquenta e início dos sessenta que ele realmente se deleita. Nos filmes de Tarantino, os personagens assistiam à televisão e falavam dela. Em Era Uma Vez... em Hollywood pela primeira vez fazem televisão. Seu arremedo de Rawhide, a série que lançou Eastwood à fama, se intitula Bounty Law e mimetiza suas histórias. O cineasta pisa no acelerador para as homenagens, mistura realidade e ficção, faz cruzar em uma série autêntica, Lancer, seu protagonista, o ator James Stacy –que interpretava um pistoleiro chamado Johnny Madrid–, com o Dalton de DiCaprio. Para o representante interpretado por Al Pacino, chamado Martin Schwarzs, inspira-se no lendário publicitário Martin Schwartz. Na tela aparecem Steve McQueen, Bruce Lee, Charles Manson, Sam Wanamaker, a série The F.B.I., Roman Polanski e os amigos do casal Polanski-Tate... Dá para perceber que Tarantino se delicia com a reconstituição de uma Los Angeles já desaparecida, da qual viu na infância seus últimos resquícios, um mundo mais livre e ao mesmo tempo mais conservador, no qual cruzavam seus passos a América surgida depois da Segunda Guerra Mundial, com a Nova Hollywood, os hippies, em que havia álcool, drogas e sexo sem muita contemplação. Foi uma época de inocência que morreu no dia em que mataram Tate. Com ela, e com o rosto de Robbie, foram rodados os planos mais bonitos, espelhos de seu olhar limpo, de todo o filme.

Finalmente, La Familia, o grupo liderado por Charles Manson, que em 9 de agosto de 1969, faz agora meio século, realizou o massacre na casa de Polanski-Tate. O filme transcorre em um fim de semana de fevereiro de 1969 e durante o dia do massacre. Havia dúvidas sobre como o cineasta encararia esses assassinatos, que encontrou no roteiro que escreveu durante cinco anos uma maquinação para se livrar do problema e tornou Era uma vez em... Hollywood o filme com menos violência de sua carreira. O retrato de La Família é adequado, não procura desculpas e espalha em suas aparições um terror palpitante. Aí Tarantino explora novos caminhos. Aí Tarantino é Tarantino, o cara que fareja o risco e usa a palavra e os silêncios como ferramentas criativas, o homem que entendeu que a pior coisa que pode acontecer a um filme é entediar.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

terça-feira, 21 de maio de 2019

Onde as meninas são bonitas e malvadas


ONDE AS MENINAS SÃO BONITAS E MALVADAS

Publicado originalmente no site da revista STATUS, em 05/05/2011 

Nossa reportagem passou uma noite no KitKatClub, a balada mais liberal de Berlim, onde o dress code é usar roupas de baixo, o sexo é liberado e a música tem fama de boa, se é que alguém vai lá para dançar

Por Carolina Guerra, de Berlim

Em uma madrugada de sábado, no rigoroso inverno de Berlim no qual os termômetros marcam cinco graus negativos, uma tenda vermelha, levemente ofuscada pela neblina, passa despercebida por quem não sabe para onde vai. Eu e meu companheiro alemão, que topou ver de perto uma das discotecas mais famosas e liberais da cidade, cruzamos a tenda e encontramos uma porta fechada. Um homem aparece após a primeira batida.

– “Estamos no lugar certo?”, pergunta meu amigo.
–“Depende do que vocês estão procurando”, responde o homem postado na porta.
–“Procuramos pelo KitKatClub”.
–“Sim, é aqui. Mas o que vocês têm para mostrar? Algum traje em couro? Látex? Uma fantasia ou algo criativo? Não aceitamos jeans nem tênis”, diz o homem olhando nossas roupas de inverno.
–“É… bom, a minha companheira pretende ficar de top e calcinha e eu, de cueca boxer”.
–“Hum… Não sei. Vou checar se vocês podem entrar”.

Uma mulher sai à porta, nos observa da cabeça aos pés e finalmente libera a nossa entrada. São 10 euros por cabeça. Logo na recepção, um quadro de arte erótica de uma Virgem Maria com os seios à mostra nos dá o tom do que vamos encontrar. No salão mais à frente, vemos uma Santa Ceia em forma de suruba generalizada. O local, definitivamente, não é para religiosos. Na chapelaria, um vaivém de gente tirando roupa para entrar e se vestindo para sair. Há uma multidão de mulheres com lingeries a la dominatrix. Outras usam fantasias com tiras de couro cobrindo todo o corpo do alto de sandálias com salto agulha. O fetiche está por todos os lados: enfermeiras, bailarinas, homens sem camisa, de cueca, e até pessoas completamente nuas. As idades variam. Há garotas com cara de universitárias, jovens na casa dos 30 anos e até os com mais de 50 anos. Chega a minha hora de tirar a roupa. Para tentar me sentir à vontade, planejei algo um pouco mais conservador do que os trajes que eu usaria em uma praia no Brasil. Mesmo assim, nos primeiros minutos, fui acometida por um leve desconforto por estar exposta. Sentamos no bar. O barman, que usa dois chifres no lugar onde deveriam estar seus mamilos (um aparato descartável, segundo ele), nos serve uma taça de vinho. Logo me senti apenas mais uma na multidão.

O clima é tranquilo, tudo muito à vontade e, apesar de algumas fantasias curiosas, ninguém ri de ninguém. As pessoas que estão lá, em sua maioria, procuram dançar e se divertir. Poucos parecem marinheiros de primeira viagem. Uma garota jovem, dona de uma voz suave, nos aborda. Pergunta se queremos comprar chicotes. “Tenho de vários tipos e causam diferentes reações. Eu mesma os faço com borracha reciclada de pneus de bicicleta. Além de divertidos, também apoiam a sustentabilidade.” Não estamos interessados. Mas a moça deixa seu e-mail, caso mudemos de ideia.

Resolvemos então olhar a pista de dança. O trance psicodélico rola solto em dois ambientes. No primeiro, maior, há duas barras para pole dance, sempre ocupadas por tipos que gostam de fazer um show improvisado. Ali, de um lado, duas morenas de calcinha e sutiã dançam de um jeito lascivo, rodopiam, se esfregam na barra e por vezes se beijam. Já do outro lado, um travesti com seus 50 anos, de cabelos loiros e longos, e um biquíni minúsculo também faz a sua exibição. O nome da festa, é bom lembrar, é CarneBall Bizarre. Já a segunda pista, metade do tamanho da primeira, concentra um grande número de homens. Provavelmente porque é lá que está a entrada para uma sala não tão escura, onde os gays se aglomeram e se permitem fazer o que bem entendem. Apesar da rigidez do homem da porta, havia também algumas pessoas de tênis e calça jeans, outras de terno (teve um que arriscou um smoking e passou) e garotas de vestidos bem normais. É possível que sejam conhecidas do dono, o austríaco Simon Thaur.


O idealizador do KitKatClub é um excêntrico por excelência. Nascido em um pequeno vilarejo na região do Tirol, deixou a Áustria aos 17 anos para conhecer o mundo. Seu sonho era ser músico, mas virou pornógrafo, astrólogo, diretor de filmes pornô e eventualmente dono de boate. Conheceu muitos países da Europa, Ásia e África. Nos tempos difíceis, chegou a tocar guitarra nas ruas para sobreviver – como fez em suas passagens pela Grécia e pelo Japão. “Nunca trabalhei em minha vida. Sempre tenho alguma ideia e a coloco em prática”, conta ele, em um inglês carregado de sotaque alemão. Não é difícil encontrá-lo no KitKat. Trata-se de um tipo entre 40 e 50 anos, magro, cabelo raspado. Na noite em que o vi, estava sem camisa, fumando um cigarro enquanto conversava com conhecidos. Thaur foi à Índia mais de cinco vezes e, entre uma visita e outra, desenvolveu um método próprio de mapa astral. “O problema de muitas pessoas acontece quando Urano está em Áries. É uma energia muito forte que pede por transformação”, diz Thaur. Ele diz ter cinco livros escritos, mas não publicados, sobre o tema. Como diretor de cinema, afirma ter feito mais de 80 filmes em dez anos, entre 1997 e 2007, todos eles um tanto artísticos, por assim dizer.

Outra de suas aventuras inclui uma estadia de dois anos em um apartamento em Zurique, na Suíça, que era uma espécie de comunidade hippie, onde o sexo em grupo era rotina. “Foi uma época em que testei muitos valores, como o ciúme”, conta. Em 1994, foi para Berlim com a então namorada e abriu o KitKatClub, um clube de fetiche e música eletrônica. Antes disso, promoveu festas como as que acontecem hoje no KitKat e realizou pequenos testes de reação de público com sua namorada. Eles iam a bares e restaurantes comuns e ficavam nus para ver o que as pessoas diriam ou fariam. “Na maioria das vezes foi muito positivo. Nunca tive muitos problemas com isso.”

Logo no começo, o KitKat teve de mudar de local, já que seu primeiro endereço era no distrito de Tempelhof, onde os moradores estranharam o novo vizinho – moderno demais para os padrões do lugar. Depois de algumas mudanças, o KitKat hoje está pousado no distrito de Mitte, na região central e perto de outras discotecas como Tresor, que ajudaram a compor a história da cena techno que se desenvolveu em Berlim nos anos 1990. “Acredito que, se a polícia quisesse, eles poderiam fechar o meu clube. Mas acho que eles estão ocupados demais para se importar com o que fazemos.”
  

A única regra oficial do KitKatClub é “Faça o que quiser, mas mantenha a comunicação”. A margem de interpretações para a frase é grande. A discoteca acaba sendo um lugar no qual as pessoas se permitem realizar suas fantasias. Lá, elas querem se mostrar e ver os outros. O exibicionismo é parte importante do jogo. Não há prostitutas e tampouco é um clube de swing. Claro, tudo isso pode acontecer, dependendo do que e de quem se encontra por lá. As palavras-chave, porém, estão mais para liberdade e ausência de julgamento. Apesar de o sexo ser liberado, não vi ninguém chegando nos finalmentes por ali. Dizem que as orgias do passado eram mais pesadas que as de hoje, assim como dizem que sábado é o melhor dia para ir ao KitKat e depois da duas da manhã é quando a noite começa a esquentar. Eu, como repórter, vi um mundo que não era o meu. Entrei, olhei, dancei e até me diverti. Mas quando achei que deu a hora, discretamente, peguei meus casacos na chapelaria e saí.

O KitKat é um lugar onde as pessoas gostam de se mostrar e ver os outros.
 Há desde pessoas que vão fantasiadas até as que ficam nuas

Texto e imagens reproduzidos do site: revistastatus.com.br

Roberto Carlos: “Me custa assumir minha idade..."

O cantor Roberto Carlos, nesta segunda-feira em Madri

Publicado originalmente no site do jornal El País Brasil, em 21 de maio de 2019

Roberto Carlos: “Me custa assumir minha idade. Sou muito mais jovem que os anos que eu tenho”

Cantor volta à Espanha após 35 anos e faz parcerias com Jennifer López e Alejandro Sanz.

Ele se empenha em falar de amor e otimismo apesar das tragédias que açoitaram sua vida

Por Maite Nieto 

As pessoas que coordenam as entrevistas com Roberto Carlos pedem que os repórteres preferivelmente vistam roupa azul e/ou branca, e que, por favor, evitem a todo custo o marrom na indumentária, porque incomoda o cantor. Um pedido tão insólito que causa preocupação antes do encontro com o cantor e compositor mais famoso da história do Brasil, um dos intérpretes latino-americanos com mais discos vendidos, 140 milhões ao longo de 55 anos de carreira. O vaivém na suíte do hotel madrilenho onde ele se hospeda tampouco leva a pensar que a entrevista será fácil. Mas quando Roberto Carlos aparece, vestido com camisa azul-claro, calça branca e botas brancas, nada é como se podia imaginar.

Seu rosto de 78 anos não perde o sorriso em nenhum momento, e ele demonstra com sua atitude que seu entusiasmo em cantar na Espanha – atuará nesta quinta, 23, no Wizink Center, em Madri, 35 anos depois de sua última visita – é maior que qualquer mania que possa ter devido ao transtorno obsessivo-compulsivo que revelou há anos. Nada denota as tragédias que sacudiram sua vida, nem a depressão que em algum momento o fez pensar em parar de atuar. “Tenho minha forma de viver, minha maneira de ver as coisas, minha experiência, minha idade… mas me custa assumi-la, porque eu gosto de pensar de uma forma muito jovem. Eu sempre digo que aqui [aponta enfaticamente a própria cabeça] sou muito mais jovem que os anos que eu tenho.”

O novo disco, que fará parte da turnê Amor Sin Límite, é o primeiro que ele grava em espanhol em 25 anos. Inclui 10 canções, sendo 4 inéditas e outras 6 que o artista nunca havia gravado. Em duas delas, faz dueto com dois artistas de porte internacional, Jennifer López e Alejandro Sanz. “Dois grandes”, como os define Roberto Carlos, mas sobretudo “duas pessoas incríveis”. Um detalhe que reflete algo que vai repetindo ao longo da conversa: a importância que Roberto Carlos dá às pessoas, à vida desfrutada e sofrida, e sua contínua necessidade de recorrer ao otimismo como terapia. “A energia positiva é importante porque nos ajuda. Às vezes estou fazendo uma canção triste e quando chego ao final me digo: ‘Isto não pode acabar assim, tenho que pôr uma frase de esperança’”, diz o capixaba.

Assim ele já demonstrou em momentos nos quais outros teriam jogado a toalha. Aos seis anos, foi atropelado por uma locomotiva enquanto brincava perto de uma ferrovia, e parte da sua perna direita teve que ser amputada. Primeiro usou muletas, e depois uma perna mecânica cuja existência o faz mancar ligeiramente ao caminhar. Depois, o cantor de Lady Laura, Detalhes e Eu Quero Apenas viu como o amor lhe era esquivo, apesar de ser o motor de suas canções. Aos 25 anos, teve um romance com a mãe de seu primeiro filho, Rafael Carlos, a quem só reconheceria em 1991, pouco antes de essa mulher morrer de câncer. Em 1990, a mesma doença havia matado sua primeira esposa, Cleonice Rossi, que era a mãe de seus outros dois filhos, Roberto Carlos e Luciana, e também de Ana Paula, a quem o cantor trata como filha, embora seja fruto de um casamento anterior dela. Em 1999, a história se repetia e ele perdeu sua terceira esposa, Rita Simões, aos 38 anos, após apenas quatro anos de casamento.

De tudo isto ele não gosta de falar, mas paira no ar quando é questionado sobre o motivo de tantos anos de ausência: “Aconteceram muitas coisas neste tempo, e na verdade não saí do Brasil durante muitos anos. Agora estou muito contente de receber todo este carinho de novo”, afirma sobre sua volta a Madri. Suas composições continuam falando de amor, porque “ele está sempre presente na minha vida e porque transforma qualquer idade em adolescência”. A tarde desta segunda-feira ainda lhe proporcionaria uma surpresa: encontrar-se com seu compatriota e xará Roberto Carlos, ex-jogador de futebol, que tem esse nome justamente por ser filho de fãs do Rei. "É bonita a história, mas a primeira vez que escutei que Roberto Carlos era um craque da bola eu pensei: ‘Caramba, isto vai ser uma confusão’. Então quando começou a acontecer, antes que me perguntassem eu me pus um apelido: Roberto Carlos, o cantor", conta com humor.

Há anos compõe menos, mas continua atuando. Inclusive num cruzeiro anual em que sua presença é o grande atrativo. Um peculiar barco do amor no qual centenas de casais embarcam para ver um show do ídolo e ter uma relação próxima com ele durante alguns dias. "Começou como um projeto para cinco anos e já estamos há quinze. Faço três shows, uma entrevista coletiva e também participo da entrega de um prêmio que dão por um concurso de karaokê. Eu gosto muito de ver que querem falar comigo e me ter perto."

Utilizando o recurso da letra de uma de suas canções mais conhecidas do público internacional, Un Gatto nel Blu (literalmente “um gato no azul”, que ele cantou em 1972 no Festival de San Remo, na Itália), perguntamos a ele sobre a cor da sua vida. Embora continue gostando do azul, que em certos países é relacionado à nostalgia e à angústia, Roberto Carlos responde sorridente: “O gato ainda não está totalmente bem, mas vai melhorando. Eu estou mais esperançoso e otimista”. A ponto de afirmar que não tem medo nenhum de ter sido esquecido pelos espanhóis: “Acho que há uma boa conexão. Eu só tenho que cantar bem e deixá-los felizes”.

Foto e texto reproduzidos do site: brasil.elpais.com

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Uma lista, começos e fins

A modificação do olhar desde sempre se dá, também, através de como muitos
redigem aquilo que lemos. (Milkoví/Unsplash)

Publicado originalmente no site Dom Total, em 20/05/2019

Uma lista, começos e fins

Minha lista tem jornalistas e escritores e lhes devo a gratidão por tornarem ainda tão prazeroso ler em um país onde cada vez se redige e se interpreta pior os textos.

A modificação do olhar desde sempre se dá, também, através de como muitos redigem aquilo que lemos.

Por Ricardo Soares*

Sentimental demais, de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, clássico do cancioneiro popular imortalizado na voz de Altemar Dutra, define bem meu estado de espírito faltando poucos dias para que eu complete os apavorantes 60 anos. Diante disso me perdoem o derramamento pseudo-poético. É que frases, situações, conceitos e emoções baratas andam esbarrando em mim de forma que hoje cometerei uma lista que já explico do que se trata.

Primeiro que, em tempos tão áridos em que a inteligência, conhecimento e a cultura são pouco valorizadas, uma frase do sofisticado e excelente poeta José Paulo Paes tem pipocado ao meu lado e por sorte tem se espalhado internet afora. Diz: "Cultura é tudo aquilo de que a gente se lembra após ter esquecido o que leu. Revela-se no modo de falar, de sentar-se, de comer, de ler um texto, de olhar o mundo. É uma atitude que se aperfeiçoa no contato com a arte. Cultura não é aquilo que entra pelos olhos, é o que modifica seu olhar".

A modificação do olhar desde sempre se dá, também, através de como muitos redigem aquilo que lemos. Provavelmente, muitos de nós que gostamos de ler não seríamos o que somos não tivéssemos lido o que lemos. Posso dizer inclusive que devo minha opção profissional e de  vida, minhas escolhas, por conta de escribas que desde sempre me fizeram olhar as coisas de "outra maneira". E quando falo escribas é para ampliar o conceito mesmo. Quero me referir a quem vive de escrever seja jornalista, romancista, contista, poeta, roteirista. A soma de todos eles, o que li, me fizeram o que sou.

Chego pois à lista prometida no começo da crônica e que é resultado de uma velha percepção. Sempre achei que escritores e jornalistas em geral (falo do Brasil) são muito pouco generosos com os colegas de ofício e me incluo nisso. Mesmo sem nominar publicamente, somos capazes de esculhambar muito mais aqueles que escrevem mal ou não sabem escrever, ou se confundem, ou são venais do que elogiar, aplaudir, reconhecer o talento que nos faz olhar as "coisas da vida" de outro modo.

Meio nocauteado, cheio de rinite, divido essas pueris reflexões e minha lista com os leitores por conta do lançamento recente de um livro do jornalista Nirlando Beirão chamado Meus começos e meu fim. O livro, grosso modo, meio romance, meio memória, é resultado de uma reflexão de seu autor por conta da descoberta, há três anos, de uma doença "degenerativa". A palavra entre aspas é inclusive destrinchada no livro por Nirlando: "Degenerativa é uma palavra que tira você para dançar - uma dança do medo. Degenerativa, a palavra me pinçou a alma quando o médico a pronunciou".

O livro de Nirlando torna-se pois mote para eu abrir minha lista dos craques vivos do texto brasileiro não como uma forma de homenagem e sim de agradecimento pois- voltando a José Paulo Paes - textos como o de Nirlando mudam nossa forma de olhar as coisas. Não falarei aqui do livro dele pois ainda não o conclui e evidentemente tem gente mais qualificada para escrever a respeito. Mas abro a lista com ele ainda atônito com o fato da "degenerativa" o  ter escolhido. Ou seja, tudo isso me fez querer clamar a minha lista no ano em que completo 41 anos de profissão e 60 de idade.

Assim  seguem os outros nomes dos meus "craques vivos". Muitos deles amigos próximos, outros colegas cordiais mas distantes e um deles que não tive a chance de conhecer pessoalmente. São todos veteranos o que talvez denuncie minha ignorância sobre os novos talentos do texto brasileiro se é que existem. Minha lista tem jornalistas e escritores jornalistas e  lhes devo a gratidão, um abraço e meu reconhecimento por tornarem ainda tão prazeroso ler em um país onde cada vez se redige e se interpreta pior os textos. É uma lista de 10 e poderia ser facilmente aumentada para 20 nomes. Além disso começa a ficar difícil.   

Muitos tiveram presença sob holofotes, são reconhecidos pelo talento. Outros, nem tanto. Mas  me regozijo em poder tê-los acompanhado por tanto tempo. Evoé então Humberto Werneck, Fernando Morais, Ruy Castro, Fernando Barros e Silva, Sérgio Augusto, Marco Lacerda, Walterson Sardenberg Sobrinho, Gabriel Priolli e Celso Arnaldo Araújo, que, com o Nirlando, formam a minha "seleção", que poderia ter o emblemático e futebolístico 11 em campo com o nome de Mino Carta como goleiro ou técnico, sei lá.

Sim, sei que é "sentimental demais", pessoal em demasia o que acabei de redigir. Mas é a minha lista, meu exercício de tolerância e generosidade para admirar sem restrições de ordem alguma. Essa gente fez e faz minha vida melhor. Se não concordam com a escalação façam as vossas listas. Precisamos de reforços para entender tudo o que está acontecendo.

*Ricardo Soares é diretor de tv, roteirista, escritor e jornalista. Dirigiu 12 documentários, publicou 8 livros.

Texto e imagem reproduzidos do site: domtotal.com

sábado, 18 de maio de 2019

“A crise da escola é a crise da democracia”

O professor Henry Giroux no pátio do Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona

Publicado originalmente no site do jornal El País Brasil, em 14 de maio de 2019 

“A crise da escola é a crise da democracia”

O pedagogo norte-americano Henry Giroux defende que todas as disciplinas incorporem o pensamento crítico para promover o combate a ideologias extremistas: "A direita não quer que as pessoas pensem"

Por Ana Torres Menárguez

Henry Giroux (Providence, EUA, 1943), um dos acadêmicos mais reconhecidos no Canadá e um dos impulsionadores da chamada pedagogia crítica, tem um discurso radical sobre as falhas do sistema educacional. Ele não fala dos resultados dos exames PISA, que medem o conhecimento em ciências, matemática e compreensão leitora dos alunos de 15 anos de idade nos países da OCDE. Aliás, considera que provas padronizadas são uma estratégia da direita para desviar a atenção do "verdadeiro" problema da educação: não fomentar o pensamento crítico, de modo a criar cidadãos "conformistas" que não exijam nada das autoridades.

Radicado em Toronto, Giroux é conhecido por suas publicações conjuntas com Paulo Freire, um dos pedagogos de referência do século XX por sua teoria da Pedagogia do Oprimido, em que propõe a rebelião dos mais desfavorecidos através do acesso à educação. Giroux, pesquisador da Universidade McMaster de Ontário, foi incluído na obra Fifty Modern Thinkers on Education: From Piaget to the Present (editora Routledge, 2002), que seleciona os 50 pensadores que mais contribuíram para o debate educacional no século XX.

Giroux, autor de Neoliberalism’s War on Higher Education (“a guerra do neoliberalismo contra o ensino superior”, sem edição no Brasil), critica que as universidades estejam sendo atacadas com cortes contínuos em seu financiamento, especialmente os departamentos de humanas, para que deixem de ser centros de pensamento. E cita o caso brasileiro. Na semana passada, depois de dar uma palestra no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona, conversou com o EL PAÍS.

Pergunta. O que é a pedagogia crítica?

Resposta. Não é um método que possa ser aplicado nos colégios. É uma revisão do tipo de escola que queremos. É uma tentativa de reconhecer que a educação é sempre política, e o tipo de pedagogia que se usa tem muito a ver com a cultura, a autoridade e o poder. A história que contamos ou o futuro que imaginamos se reflete nos conteúdos que ensinamos. A pedagogia tal e como está exposta ataca em vez de educar. É um sistema opressivo, baseado no castigo e na memorização, que persegue o conformismo. É preciso desenvolver outros métodos que formem alunos capazes de desafiar as práticas antidemocráticas no futuro.

P. Há alguns anos, houve uma onda de inovação educacional que transformou muitos colégios. Não acha que estão cumprindo essa função?

R. As escolas estão sendo atacadas, especialmente por Governos fascistas e de direita. No Brasil, Bolsonaro incentivou os alunos a denunciarem os professores de esquerda por uma suposta doutrinação, e quer eliminar todas as referências a Paulo Freire dos currículos. Acaba de anunciar um corte nas graduações de humanas, como filosofia e sociologia, para priorizar profissões que "gerem um retorno ao contribuinte". A crise da escola é a crise da democracia. Os governos de direita não querem que as pessoas pensem, e a educação tem um papel central na luta contra as narrativas tóxicas e o surgimento de ideologias ligadas à supremacia branca.

As provas são parte de um discurso de opressão, são uma forma de disciplinar os alunos

P. Como se pode implantar a mudança que você propõe? Acha que os partidos de esquerda estão à altura?

R. Primeiro o interesse tem que vir da rua, da comunidade de moradores e dos próprios professores. O poder tem que levar a educação a sério. A esquerda é muito estúpida no que se refere à educação. Não percebe a importância que ela tem. Nos Estados Unidos, Obama reproduziu o programa dos republicanos, o teaching for the test (“ensinar para a prova”). As provas são parte de um discurso de opressão, são uma forma de disciplinar alunos e professores, e privam os alunos de terem imaginação. É preciso potencializar o diálogo, a construção de identidades e como encaixar os outros, como as minorias, por exemplo.

P. Qual é o perigo das provas?

R. São uma estratégia para fazer cidadãos menos críticos. Disseram aos professores que eles não são intelectuais, que são tecnocratas e que estão lá para medir o conhecimento dos alunos, que o que importa são os exames. Parece que a avaliação é o centro do sistema educacional. Mas a função da escola deveria ser conseguir criar cidadãos tolerantes, com capacidade de diálogo. O colégio é o lugar onde se criam as identidades. Quem você quer ser? Quando o professor e os conteúdos são incontestáveis, estão inculcando uma forma autoritária de entender a sociedade. Silenciar as dúvidas sobre o que vem dado de cima. A direita sabe tirar partido disso.

P. O Canadá é um exemplo de inclusão nas salas de aula. Acha que é uma referência?

R. O Canadá tem um sistema muito progressista, mas tampouco se salva. Em Ontário, o novo primeiro-ministro [provincial], Doug Ford, do Partido Conservador, suprimiu as classes de educação sexual e obrigou a retomar o currículo de 1990. Quer centrar o sistema em educar para o trabalho. Os Governos transformam a educação em algo que não deveria ser.

As universidades cada vez mais funcionam como empresas. Os estudantes viraram clientes

P. Não acha que as escolas devem preparar os alunos para as habilidades que o mercado de trabalho exige? Vão encontrar um terreno muito competitivo.

R. Não têm que preparar para o trabalho que os alunos terão no futuro, e sim para o tipo de sociedade em que eles querem viver. Eu te ofereço as habilidades digitais para que você trabalhe no Google ou no Facebook, mas você viverá numa sociedade fascista e intolerante. Isso não vale. É preciso priorizar que eles aprendam a serem cidadãos informados, quando há partidos de extrema direita que estão ascendendo ao poder.

P. Poderiam acusá-lo de ter uma visão utópica demais.

R. Sobreviver não é só encontrar o trabalho adequado, é exigir um bom sistema público de saúde ou o direito a uma moradia digna. O sistema escolar, baseado na competitividade entre iguais e na ideia de ganhadores e perdedores, ensina a acreditar que quando você tem um problema a culpa é sua. Que os problemas são individuais. As pessoas não podem transferir os problemas pessoais para as carências do sistema. Então surgem indivíduos alienados que se culpam a si mesmos por sua situação infeliz. "Não fiz o suficiente no colégio, por isso vou mal", pensam, em vez de olhar para o Estado do bem-estar, e ver se ele está sendo desmantelado. É preciso ensinar a lutar e a exigir da administração que cumpra suas obrigações.

P. Em seu último livro você faz uma crítica muito dura ao trato dispensado pelos Governos às universidades.

R. Trump ameaçou retirar recursos federais de universidades que considera serem monopolizadas por liberais e esquerdistas, e propôs reduzir o orçamento educacional em sete bilhões de dólares em 2020. Cerca de 70% dos professores do ensino superior nos Estados Unidos têm contratos de meia jornada. Isso afeta sua liberdade de expressão, pois acham que podem ser demitidos se falarem. Têm medo de se mobilizarem contra a administração. A universidade deveria ser um espaço para o diálogo. As universidades cada vez mais funcionam como empresas, não contratam intelectuais para liderá-las, e sim CEOs. Os alunos viraram clientes. Os jovens são um valor no qual vale a pena investir, um investimento longo. Mas os políticos, tanto de esquerda como de direita, só procuram resultados de curto prazo.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

'No Brasil, não se aprende a pensar', critica Nélida Piñon


Publicado originalmente no site Huff Post Brasil, em 16/05/2019

'No Brasil, não se aprende a pensar', critica Nélida Piñon

Escritora e imortal da Academia Brasileira de Letras enumera desafios de criar um país com mais leitores e da presença das mulheres na literatura nacional.

A escritora e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) Nélida Piñon afirma que a sociedade não tem apreço pela cultura em sua forma oficial, como a literatura, e acrescenta que falta formação educacional para compreender a leitura. “Aprendemos tudo pela metade no Brasil. E não aprendemos o que é mais essencial do projeto educacional: pensar”, ressalta.

Em entrevista ao UM BRASIL, a escritora destaca que a escola é uma via condutora de educação que enfrenta uma série de dificuldades para cumprir o seu papel. “Como você pode fortalecer o sistema educacional para uma criança que não tem casa? A criança brasileira não tem onde ler. Só isso já é um drama”, justifica.

A aproximação com a leitura também deve ser estimulada em casa, com a família. “Os pais deveriam ter a literatura como um bem almejado para os filhos”, defende.

“Ser jogador de futebol não deve ser o único objetivo de vida de um brasileiro. Teria de haver uma revolução social, no sentido de infundir ânimo por conhecimento nas pessoas – saber torna uma pessoa fascinante.”

Apesar de reconhecer que a mulher chegou tardiamente ao mundo clássico da cultura, pois não podia ler nem escrever, ela diz que o País tem importantes escritoras.

Entre os 40 membros efetivos da ABL, apenas 5 são mulheres. Nélida foi a primeira mulher a presidir a instituição e exerceu seu mandato no ano do centenário da ABL. “A comunidade masculina ainda não se deu conta de que está faltando uma figura invisível, que é a mulher. Esse fato, no entanto, vem sendo cada vez mais percebido pelas pessoas.”

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.


Texto, imagem e vídeo reproduzidos dos sites: huffpostbrasil.com e youtube.com

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Como passar da queixa ao sucesso


Publicado originalmente no site do jornal El País Brasil, em 13 de maio de 2019

Como passar da queixa ao sucesso

Todos temos uma mentalidade fixa que nos impede avançar e uma mentalidade de crescimento que nos impulsiona na vida e nos leva à felicidade

Por Pilar Jericó

Todos erramos. Mas nem todo mundo vive o erro da mesma forma. É possível que você veja em seu trabalho, ou na sua família, pessoas que, diante de um fracasso, se acabem em justificativas ou culpem o mundo pelo que aconteceu. Outras, por outro lado, encaram a situação como um caminho para aprender e se superar. Carol Dweck, professora da Universidade de Stanford e autora do livro Mindset - a nova psicologia do sucesso, observou a reação de crianças e adultos diante dos erros. E comprovou algo interessantíssimo: a maneira como vivemos o erro define nosso mundo interno de crenças, nossa maneira de ver a nós mesmos e, portanto, nossa capacidade de ser feliz. Segundo esta reconhecida pesquisadora existem duas mentalidades: o mindset (mentalidade) fixo e o mindset de crescimento, que não depende nem da inteligência nem de variáveis sociais.

O mindset fixo considera que o talento e as habilidades são inatos e que existe pouca margem de manobra para mudar. São as pessoas que se queixam, que evitam projetos de transformação e que justificam seu erro usando qualquer desculpa. “O relatório não ficou bom porque meu colega não parou de me atormentar”, por exemplo. Paradoxalmente, estes indivíduos podem ser terrivelmente exigentes consigo mesmos. Para evitar sua própria “destruição interior” evitam os desafios. Precisam impedir que se pareçam pouco espertos diante de uma dificuldade! Conhece a alguém assim? Podem ser pessoas muito inteligentes, mas esta maneira de pensar as paralisam.

As pessoas com mindset de crescimento, por outro lado, consideram que o sucesso depende fundamentalmente do esforço. Não consideram apenas o resultado final, mas também se importam com o processo de aprendizagem. Para estas pessoas os erros não significam uma “catástrofe interior”, pois fazem parte da evolução. Buscam as críticas dos outros para continuar avançando.

Uma vez que descrevemos as duas mentalidades, façamos um exercício. Se você pensa nos problemas que te pressionam, que tipo de reação tem? A resposta é dada pela própria professora Dweck. Todos temos os dois tipos de mindset. Dependendo de nossa forma de ser, há aspectos em nossa vida ou certos problemas que vão parar no terreno das justificativas. Outros, por sua vez, nos levarão a arregaçar as mangas para seguir em frente. Por isso, se queremos enfrentar uma dificuldade com sucesso, a solução está em nós mesmos. Ela passa por um processo composto por quatro fases, que se estão sendo aplicadas com sucesso na educação de crianças e na formação de adultos.

Na primeira fase temos de ser honestos e identificar aquelas situações que nos ativa o mindset fixo. Todos, absolutamente todos, nos entregamos alguma vez a um mar de desculpas, de culpa ou de negação de nós mesmos. “Não faço a a apresentação em inglês porque não vou bem”; “alguém conseguiu tal coisa porque tem costas quentes” ou “não sou capaz de fazer o que meu colega faz”. O mundo das justificativas é muito criativo.

Em segundo lugar, precisamos tomar consciência de como atua nossa mentalidade fixa. Para isso, se nos paralisamos diante de um problema, é recomendável descrever o nosso mindset fixo para afastá-lo (“quando ele entra em ação, faz com que eu pense...”). Também podemos ter frases internas que resistam a essa sensação: “hoje não, Pilar”, por exemplo. Outra técnica é a que Dweck e seu marido colocam em prática diante de um problema ou discussão. Quando aparece entre eles o mundo das justificativas, para evitar que se prejudiquem, jogam a culpa em uma terceira pessoa imaginária. Ambos sabem que essa pessoa não existe, claro, mas assim conseguem descarregar a energia da frustração para se reconstruir depois.

Terceiro passo: quando um problema nos paralisa devemos aplicar a mentalidade de crescimento que costumamos usar em outro momento de nossa vida ou em outra área. Precisamos lembrar o que dizemos a nós mesmos quando estamos neste mindset, como aprendemos e como poderíamos usá-lo para esta situação que nos preocupa. Para isso se sugere criar uma frase que sirva de slogan e tê-la presente: “quando você se esforça, você consegue”, por exemplo. Deve ser uma fórmula capaz de nos fazer reagir, por isso nos deve tocar no pessoal.

Por último, como aconselha Dweck em sua conferência TED, temos que incluir o poder do ainda. Ao invés de dizer “não sei falar chinês”, é preciso substituir por “não sei falar chinês ainda”. Este conceito abre as portas à possibilidade. Por último, se pudéssemos tomar consciência de nossas duas mentalidades, do dano que nos produz mentalidade fixa e da capacidade que temos para nos transformar com a de crescimento, viveríamos os problemas com mais recursos e nos sentiríamos melhor com a gente mesmo.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

domingo, 12 de maio de 2019

Revista Istoé ENTREVISTA Christiane Torloni


Publicado originalmente no site da revista ISTOÉ, em 10/05/2019 

Entrevista Christiane Torloni - "FHC foi o último estadista que o Brasil teve"

Por Luisa Purchio

Na quinta-feira 9 chegou aos cinemas o primeiro trabalho da atriz Christiane Torloni, 62 anos, como diretora. O documentário “Amazônia — o despertar da Florestania”, feito em parceria com o diretor Miguel Przewodowski, é resultado de sua história de amor com a floresta, um namoro que começou a ficar sério em 2007, durante as gravações da série “Amazônia — de Galvez a Chico Mendes”. Foi aí que ela se deparou com uma densa fumaça vinda das queimadas da mata. “Eu tive um chamamento no meu coração, igual à época em que tinha 20 e poucos anos e fui envolvida pelas Diretas Já”, diz a atriz. Em 2009, com Juca de Oliveira e Victor Fasano, Christiane organizou um manifesto pelo desmatamento zero chamado “Amazônia para Sempre”, com dez medidas para preservar a floresta e um milhão de assinaturas. O documentário é uma resposta aos signatários do abaixo-assinado. Apesar da emoção, é um retrato da lucidez da artista diante dos atuais desafios políticos e ambientais, temas que analisa em entrevista à ISTOÉ.

A senhora usa a expressão florestania. O que ela significa?

É próximo ao que chamamos de ecologia. É um “fazimento” indígena, rituais de cura da terra feitos com as ferramentas que os índios têm e baseados em um conhecimento ancestral. O índio não precisa vir para a civilização e se tornar alguma coisa que ele não é, porque ele já é um cidadão da floresta, sabe fazer manejo, o quanto pode pescar, onde deve plantar, como proteger todo o ecossistema que está à sua volta e atender aos deveres e direitos que a floresta pede. Se não for assim, ela não fica em pé. Enquanto tem índio em pé, tem floresta em pé. Talvez o que falta para nós, “homens brancos”, é uma etiqueta explicativa. A palavra lembra cidadania, que é um conjunto de normas de bem viver que de alguma maneira têm de ser impostas.

A Força Nacional deve ser a guardiã do Estado democrático, até porque a soberania do Brasil é ameaçada constantemente pelo tráfico de drogas
Qual o critério para a abrangente escolha de personagens?

Tenho muito medo dos maniqueísmos e escolhi pessoas que fizeram algo importante para a Amazônia. Não podemos reescrever a história. Quando fizemos o abaixo-assinado, não foi só preencher uma folha, passamos um ano viajando e ouvindo ONGs, instituições, pensadores. Ao falar comigo, essa pessoa está falando com todos nós.

Como foi a sua experiência trabalhando como diretora?

O cinema é muito fragmentado. Você tem uma ideia, mas para ela se tornar uma obra depende não só de execução, mas também de convencimento. Cada um quer fazer o seu filme, mas ele não é um conjunto de olhares, ele é a síntese de um olhar de alguém que disse “esse é o filme que eu quero fazer”. Entre os filmes possíveis, eu motivei as pessoas a fazerem o filme que eu sonhei. Entre isso e montar o filme todo, aí sim foi um encontro de discussões. Aparecem humanistas, economistas, jornalistas, antropólogos. O filme começa com a voz de Antonio Abujamra porque quero mostrar que ele vai ser visto através dos olhos de um artista. Se tiver que atirar um tomate, que seja no artista. Meus pais são da turma inaugural da primeira escola de arte no Brasil, eu nasci nesse meio.

O brasileiro em geral é desconectado com as raízes e as riquezas do País?

É, e porque a educação é pífia. Só por isso. Se a nossa educação fosse boa, estudaríamos Darcy Ribeiro no colégio desde pequenos, com edição ilustrada para crianças. Podemos jogar uns trinta livros no lixo e deixar esse lá. Darcy é cada vez mais contemporâneo, mas vivemos em um País que o exilou e matou-o em vida. Encontro esse espírito “darcyniano” em 60% das pessoas com as quais eu converso, mas elas se sentem um pouco sonhadoras, maluquetes, quando na verdade essa essência é magnífica. Precisamos que isso ecoe nas nossas crianças, porque assim vamos voltar a amar o Brasil, ou a redescobrir o Brasil. Ou a votar melhor nas eleições no Brasil.

Por que não se posicionou politicamente nas últimas eleições e também no documentário?

Interessa-me a casa comum. É o que me interessava nos anos 1980. Não mudei de lá para cá, apenas saí de uma questão político-partidária porque ela infelizmente diminuiu. A Amazônia é maior que um partido. Não tem nada mais importante para a gente que a nossa casa, o nosso ninho, ele que agasalha. Só que a Amazônia é o ninho comum, como disse o papa Francisco. Por que o papa está no filme? Porque esse cara teve a grande “sacação” do século XXI. Ele escreveu uma encíclica na qual convida as pessoas para a conversão ecológica. Fui ler a “Laudato Si” e pensei: esse cara está fazendo o mesmo filme que eu.

O Sínodo da Amazônia foi criticado pelo governo. Como vê essa questão?

O trabalho das Igrejas é grande e não pertence a um segmento só. Precisamos ter luz, é muito difícil seguir o caminho sozinho. A fé é maior que um partido político, Jesus não pertence ao PT e a nenhuma agremiação. O importante na palavra dele é o amor. O trabalho das Igrejas na Amazônia é importante, como também é o da Força Nacional, que chega a lugares onde ninguém consegue chegar. Vi na Amazônia distribuição de enxoval pelas Forças Armadas. Nós pagamos impostos altíssimos para que todos os segmentos da sociedade possam funcionar e acho bom quando vejo lá longe um serviço que o meu dinheiro ajuda a pagar.

Como vê a preservação da floresta Amazônica nos dias de hoje?

O que falta para a Amazônia é uma política de Estado, não de governo. O último estadista que vimos no Brasil foi Fernando Henrique Cardoso. Nem tudo que ele fez foi bom ou ruim, mas se não fosse por sua iniciativa firme, hoje a Amazônia estaria mais desprotegida. E agora essa questão está sendo discutida de novo, para o mal de todos os nossos pecados ecológicos.

O filme mostra que o regime militar contribuiu para o desmatamento. É uma preocupação atual?

Tenho certeza que não estamos em 1964. Estamos em outra conjuntura política, inclusive mundial. Tivemos avanços nos últimos trinta anos, principalmente porque voltamos à democracia. Mas quem mata, desmata. Há um desenvolvimentismo louco, sem nenhum tipo de escrúpulo, como foi com a usina de Belo Monte. Não há estudo real de impacto ambiental, vamos simplesmente fazendo.

O que quer dizer com a frase no documentário: “a democracia está sendo golpeada pela democracia”?

A ação silenciosa e sinistra da corrupção no Brasil desestabiliza a instituição democrática como um todo. É como um câncer silencioso criando metástase em órgãos vitais do nosso sistema democrático. Nesse momento é importante que estejamos em uma grande campanha para não permitir o desmonte de iniciativas como a Lava Jato, a lei da Ficha Limpa, o trabalho da Transparência Internacional. Quando viajamos para a Amazônia, estávamos em um ambiente ligado ao Exército, à Marinha, à Aeronáutica, em uma época em que o general Augusto Heleno era a cabeça do Exército lá. As frases eram no sentido contrário, de que o Exército não tinha interesse em voltar a ocupar esse lugar. Muito bem, dez anos depois, qual é o lugar que o exército está ocupando agora?

E a soberania nacional?

Eu acho que a Força Nacional deve ocupar o lugar dela, de guardiã do Estado democrático. A soberania do País nos afeta como? Ela é ameaçada pelo tráfico de drogas. Na Amazônia é a Força Nacional que tem poder de evitar que um barco passe de um lugar para o outro. As instituições devem fazer aquilo que elas devem fazer. É claro que está todo mundo assustado com o que está acontecendo agora, principalmente porque as pessoas indicadas para ocupar cargos importantíssimos no governo não têm formação para estarem ali.

Pode dar um exemplo?

Nesses cem primeiros dias, vemos escolhas instáveis, quando a própria sociedade civil fez indicações, principalmente para o Ministério da Educação e para o Meio Ambiente. São postos importantíssimos e as pessoas não têm noção do que estão falando. No século XXI, dizer que temos mais ou menos aquecimento global? Uma coisa é dar uma declaração num bar, outra na liturgia do seu cargo. Não importa se é general, almirante, marechal, desde que se tenha qualificação. Qual é o critério de escolha daquelas pessoas para aqueles postos?

Como analisa as críticas aos artistas que se posicionam politicamente nas redes sociais?

Estranha democracia essa. O meu mantra é: só o trabalho responde. Quando fico muito angustiada, quando entro no palco, repito o mantra para mim. Entrei nas redes sociais para divulgar o filme, não para outras coisas. Não tenho vontade e sou muito ocupada para isso. Mas se tiver de escolher um lugar, não estou do lado dos haters, estou do lado dos lovers.

Há um desenvolvimentismo louco, sem nenhum tipo de escrúpulo, como foi com a usina de Belo Monte. Não há estudo real de impacto ambiental, vamos simplesmente fazendo
Como vê a luta atual dos movimentos feministas?

Volto a dizer, não estamos nos anos 1960. Hoje a luta possui outras armas e ferramentas. O que me assusta é o índice de assassinatos que estamos vivendo principalmente nas grandes cidades. O feminicídio é como a palavra florestania, eu não me lembro de tê-la ouvido no passado e agora ouço toda hora. Por que estão matando tanto a mulher? Talvez seja toda essa questão de desemprego e desespero social, e uma perda cultural de espaço masculino, porque culturalmente eles tinham certeza de que aquele espaço jamais seria ocupado. Quando começa a mudar, algo fica ameaçado. Os homens são ótimos educadores, sei porque fui casada quatro vezes. Eles precisariam ter uma assistência psíquica para enfrentar esses novos tempos. Sua masculinidade não está sendo discutida, pelo contrário, esses novos papéis deveriam potenciar a virilidade.

A senhora tem um neto de um ano e oito meses. Como é a Christiane Torloni avó?

Estamos vivendo uma época parecida com a das “Diretas Já”, passo muito tempo fora. Me lembro que com meus filhos era uma dor miserável, isso não vi, isso não vi. Lamentavelmente estou perdendo um tempo muito bonito do meu neto. Com esse “fazimento” inteiro, não consigo ficar muito tempo com ele, mas são as missões das pessoas. Pelo menos ele vai ter certeza, como meu filho tem, de que eu estava fazendo uma coisa pelos filhos do Brasil, pelos netos do Brasil. De algum jeito ele está dando um pedaço dele também. Não deixa de ser uma contribuição.

Texto e imagem reproduzidos do site: istoe.com.br