sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Sthefany Brito, a irresistível





Fotos: Christian Gaul/Revista VIP

Publicado originalmente no site da revista VIP, em 18 jan 2018

Sthefany Brito, a irresistível

A carinha é de menina. A fala, de mulher. O corpo... ah, o corpo é de mulherão

Por Cláudia de Castro Lima

Sthefany Brito voltou a fazer novela após um breve hiato em que muita coisa aconteceu.

Ela casou com o jogador de futebol Alexandre Pato, foi morar na Itália, separou, decidiu se afastar de tudo para recompor-se.

Agora, fazendo o que mais ama na vida – atuar -, a morena diz viver sua melhor fase. E quer provar que não tem nada a provar para ninguém.

Quando começa a falar, a voz suave e o jeitinho manso a fazem aparentar ainda menos que seus 24 anos.

Mas, conforme conta sobre suas experiências, Sthefany Brito vai se revelando uma mulher.

Doce, sim, mas com atitude. “Hoje, eu sinto que não tenho que provar mais nada”, diz.

“Todo mundo já viu que cresci, casei, me separei, não sou mais uma menininha. E não devo nada a ninguém.”

As frases parecem não combinar com a moça que está sentada à minha frente, cabelos presos num rabo-de-cavalo, regatinha, calça jeans e sapatilhas.

Mas ela continua: “Quando vou dar minha opinião, as pessoas se espantam: ‘Nossa, você se impõe, né?’ Eu sou doce, meiga, mas tenho personalidade e opinião. E luto, do meu jeito, pelas coisas que acredito. É assim que vou conquistando tudo.”

E quem é maluco de duvidar que ela não consegue conquistar absolutamente tudo o que quer?

Você está no ar em Vida da Gente. Como foi voltar para uma novela depois de quatro anos longe?
Está sendo uma delícia. Parece que eu nunca parei.

Que dormi ontem, acordei e estou fazendo a novela hoje. Me sinto em casa. Meu trabalho é minha vida, a coisa que mais amo fazer.

Estava sentindo falta de decorar texto, gravar, dessa loucura de não ter mais tempo… Minha vida sempre foi assim, desde meus 7 anos.

Pois é, você cresceu tendo o Brasil como plateia. O que isso trouxe de bom e de ruim?
Mais coisas boas do que ruins. O carinho das pessoas, por exemplo.

Aparecer na casa das pessoas todo dia cria uma intimidade, um laço, é engraçado isso.

De ruim é mais na vida particular. Acontece alguma coisa e logo vira notícia. E tudo vira muito maior do que realmente é.

Em 2006, você fez um ensaio para a VIP em que a mensagem era clara: eu era uma criança e agora cresci. Foi um divisor. E com este novo ensaio, o que você quis mostrar?
Aquele ensaio era na época da minha primeira novela com papel mais adulto, Páginas da Vida.

Fiquei loira, fazia cenas de calcinha e sutiã, com beijos… Tudo o que eu não podia fazer antes porque era menor eles compensaram nessa novela [risos].

Topei fazer a VIP por isso, era uma coisa: “Alô? Cresci!” E adorei. Já este ensaio de agora tem outra mensagem: “Não tenho que provar mais nada”.

Todo mundo já viu que eu cresci, casei, me separei, não sou mais uma menininha. E hoje não devo mais nada a ninguém.

Então fiz por mim, por estar me sentindo bem. Estou num momento muito legal da minha vida, tudo está dando certo.

No meu trabalho, na minha vida pessoal, com meu corpo, estou muito bem resolvida. Então a VIP é a cerejinha do bolo. Para fechar o ano com chave de ouro.

Qual a diferença da menina que fez o primeiro ensaio da VIP para você hoje?
Naquela época, eu ainda me importava muito com o que iam pensar e falar de mim.

Hoje, independentemente do que vão falar ou pensar, porque é óbvio que vão falar e pensar muita coisa, é uma decisão minha, pessoal.

Minha essência, personalidade, valores, caráter, isso não muda. Mas o que mudou foi o amadurecimento. A gente aprende com a vida, fica mais safa, sabe?

Você é meiga e doce como aparenta?
Todo mundo diz isso… E, quando vou dar minha opinião, as pessoas se espantam: “Nossa, você se impõe, né? Tem opinião”.

Eu sou doce, meiga, mas tenho personalidade e opinião, sim, e vou lutar, do meu jeito, pelo que acredito. É assim que vou conquistando tudo.

Você falou de estar mais madura. O casamento e a separação trouxeram isso?
Acho que tudo o que acontece na nossa vida, tanto as experiências positivas quanto as que podem ser chamadas de negativas, só acrescenta, soma, vem para a gente amadurecer.

Tudo o que acontece é para mostrar alguma coisa que você vai levar para o resto da vida, nem que seja um sentimento, um novo valor, é sempre uma descoberta.

Tento ficar sempre com uma experiência positiva.

Ficou magoada com o tratamento da imprensa na época, das fofocas todas, de gente especulando os motivos do Pato, como traição?
Uma vez me falaram que fiquei muito arredia, mas não fiquei. Eu só não tinha o que falar. Como vou dar uma entrevista quando não tinha novidade nenhuma para contar? Separou?

Separei, pronto. Era só isso. Não tinha conteúdo. E nunca foi meu foco principal falar sobre meu relacionamento, meu casamento.

Meu foco em entrevistas é o meu trabalho.

Naquela época, lia umas coisas e pensava: “Nossa, estão falando de mim?” Nem parecia que eu estava no meio daquela história toda.

Fizeram algo muito maior do que realmente foi para mim. Hoje eu tenho conteúdo para falar: da novela, do carinho das pessoas nas ruas, das fotos para a VIP.

E isso vira só mais um assunto dentro de tantos outros.

Você sempre foi superdiscreta. Trabalho e vida pessoal impecáveis, nada de escândalos, até esse episódio todo. Você é assim reservada mesmo? Não gosta de sair, ir para a balada?
Olha, eu sou geminiana, então tem os momentos em que morro de vontade de sair, outros em que estou com muita preguiça e quero ficar em casa.

Mas tenho uma turma grande de amigos, animaaaados [diz, cantando, e ri]… E gosto de sair para dançar com eles, mas também adoro ficar em casa vendo um filme, jogando baralho…

Diria que sou mais caseira que baladeira, mas também gosto de curtir.

Você abriu mão de seu trabalho por amor. É romântica? Faria de novo?
Eu acredito no amor. Claro que cada relacionamento é diferente.

Faria o que o relacionamento exigisse. É aquela coisa de saber ceder para poder estar em uma relação saudável.

Mas do trabalho não abro mais mão, nunca.

Você se decepcionou com o mundo do futebol?
Assim como o futebol, cada profissão tem uma coisa boa e uma coisa ruim.

Mas não conheço tão bem o futebol. Se você quiser que eu fale da profissão de ator, que conheço, eu falo.

Mas do futebol realmente vou ficar te devendo… [Risos.]

O que quer num homem?
Acima de qualquer coisa, de beleza, de senso de humor, o cara tem que ter caráter, ser ético.

E isso inclui sinceridade, lealdade.

Quando você quer bancar a sexy, faz o quê?
Poso para a VIP [risos].

Mas e na vida?
Tem noite que falo: “Hoje vou me arrumar, mas me arrumar de verdade!” Acho supersexy uma saia mais curta, um salto alto.

Você sabe ser sexy, então?
Ah, todo mundo sabe, né? Ou pelo menos deveria saber!

Com certeza sei. Acho que, mesmo quando estamos namorando ou casados, tem que ter a eterna conquista.

Quando olha para o espelho pensa o quê?
Quando eu era mais novinha, minhas amigas tinham todas peitos, bunda, e eu lá, magrinha. Então fiz um tratamento e engordei 5 quilos.

Mas engordei errado, fiquei meio com barriga, desajeitada. Aí comecei a malhar e as coisas foram indo para o lugar.

Mas eu nunca vou ter coxão, peitão, bundão. Então a gente tem que se aceitar como é. Eu amo meu corpo hoje. Tenho perna fina, braço fino, mas adoro.

Não queria outra perna. Ela está sempre direitinha, bonitinha.

Quando você fotografa, imagina que é outra pessoa?
O cenário das fotos traz essa coisa de interpretar.

Adoro isso de viver uma história que não é minha.

Uma foto é uma atuação também. Hoje estou de sapatilha, tão menininha, meiguinha. Amanhã, de saltão, posso virar um mulherão.

Adoro ser um monte de gente misturada numa pessoa só. Assim ninguém enjoa de mim. Nem eu.

*Ensaio originalmente publicado na edição 321 da revista VIP.

Realização: Andrea Bueno
Produção: Juliana Hirschmann
Stylist: Helena Luko
Produção de moda: André Namitala
Beleza: Edilson Ferreira
Assistende de fotos: Anderson Santos
Tratamento de imagem: Fujocka Photodesign

Texto e imagens reproduzidos do site: vip.abril.com.br

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

'O empregado tem carro e anda de avião. E eu estudei pra quê?'

Professora universitária faz galhofa diante do rapaz que foi ao aeroporto sem roupa de gala. 
É o símbolo do país que vê a educação como fator de distinção, e não de transformação

Publicado originalmente no site da revista CartaCapital, em 07/02/2014

'O empregado tem carro e anda de avião. E eu estudei pra quê?'

Por Matheus Pichonelli

Se você, a exemplo dos professores que debocharam de passageiro "mal-vestido" no aeroporto, já se fez esta pergunta, parabéns: você não aprendeu nada

O condômino é, antes de tudo, um especialista no tempo. Quando se encontra com seus pares, desanda a falar do calor, da seca, da chuva, do ano que passou voando e da semana que parece não ter fim. À primeira vista, é um sujeito civilizado e cordato em sua batalha contra os segundos insuportáveis de uma viagem sem assunto no elevador. Mas tente levantar qualquer questão que não seja a temperatura e você entende o que moveu todas as guerras de todas as sociedades em todos os períodos históricos. Experimente. Reúna dois ou mais condôminos diante de uma mesma questão e faça o teste. Pode ser sobre um vazamento. Uma goteira. Uma reforma inesperada. Uma festa. E sua reunião de condomínio será a prova de que a humanidade não deu certo.

Dia desses, um amigo voltou desolado de uma reunião do gênero e resolveu desabafar no Facebook: “Ontem, na assembleia de condomínio, tinha gente 'revoltada' porque a lavadeira comprou um carro. ‘Ganha muito’ e ‘pra quê eu fiz faculdade’ foram alguns dos comentários. Um dos condôminos queria proibir que ela estacionasse o carro dentro do prédio, mesmo informado que a funcionária paga aluguel da vaga a um dos proprietários”.

A cena parecia saída do filme O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, no qual a demissão de um veterano porteiro é discutida em uma espécie de "paredão" organizado pelos condôminos. No caso do prédio do meu amigo, a moça havia se transformado na peça central de um esforço fiscal. Seu carro-ostentação era a prova de que havia margem para cortar custos pela folha de pagamento, a começar por seu emprego. A ideia era baratear a taxa de condomínio em 20 reais por apartamento.

Sem que se perceba, reuniões como esta dizem mais sobre nossa tragédia humana do que se imagina. A do Brasil é enraizada, incolor e ofuscada por um senso comum segundo o qual tudo o que acontece de ruim no mundo está em Brasília, em seus políticos, em seus acordos e seus arranjos. Sentados neste discurso, de que a fonte do mal é sempre a figura distante, quase desmaterializada, reproduzimos uma indigência humana e moral da qual fazemos parte e nem nos damos conta.

Dias atrás, outro amigo, nascido na Colômbia, me contava um fato que lhe chamava a atenção ao chegar ao Brasil. Aqui, dizia ele, as pessoas fazem festa pelo fato de entrarem em uma faculdade. O que seria o começo da caminhada, em condições normais de pressão e temperatura, é tratado muitas vezes como fim da linha pela cultura local da distinção. O ritual de passagem, da festa dos bixos aos carros presenteados como prêmios aos filhos campeões, há uma mensagem quase cifrada: “você conseguiu: venceu a corrida principal, o funil social chamado vestibular, e não tem mais nada a provar para ninguém. Pode morrer em paz”.

Não importa se, muitas e tantas vezes, o curso é ruim. Se o professor é picareta. Se não há critério pedagógico. Se não é preciso ler duas linhas de texto para passar na prova. Ou se a prova é mera formalidade.

O sujeito tem motivos para comemorar quando entra em uma faculdade no Brasil porque, com um diploma debaixo do braço, passará automaticamente a pertencer a uma casta superior. Uma casta com privilégios inclusive se for preso. Por isso comemora, mesmo que saia do curso com a mesma bagagem que entrou e com a mesma condição que nasceu, a de indigente intelectual, insensível socialmente, sem uma visão minimamente crítica ou sofisticada sobre a sua realidade e seus conflitos. É por isso que existe tanto babeta com ensino superior e especialização. Tanto médico que não sabe operar. Tanto advogado que não sabe escrever. Tanto psicólogo que não conhece Freud. Tanto jornalista que não lê jornal.

Função social? Vocação? Autoconhecimento? Extensão? Responsabilidade sobre o meio? Conta outra. Com raras e honrosas exceções, o ensino superior no Brasil cumpre uma função social invisível: garantir um selo de distinção.

Por isso comemora-se também ao sair da faculdade. Já vi, por exemplo, coordenador de curso gritar, em dia de formatura, como líder de torcida em dia de jogo: “vocês, formandos, são privilegiados. Venceram na vida. Fazem parte de uma parcela minoritária e privilegiada da população”; em tempo: a formatura era de um curso de odontologia, e ninguém ali sequer levantou a possibilidade de que a batalha só seria vencida quando deixássemos de ser um país em que ter dente era (e é), por si, um privilégio.

Por trás desse discurso está uma lógica perversa de dominação. Uma lógica que permite colocar os trabalhadores braçais em seu devido lugar. Por aqui, não nos satisfazemos em contratar serviços que não queremos fazer, como lavar, passar, enxugar o chão, lavar a privada, pintar as unhas ou trocar a fralda e dar banho em nossos filhos: aproveitamos até a última ponta o gosto de dizer “estou te pagando e enquanto estou pagando eu mando e você obedece”. Para que chamar a atenção do garçom com discrição se eu posso fazer um escarcéu se pedi batata-fria e ele me entregou mandioca? Ao lembrá-lo de que é ele quem serve, me lembro, e lembro a todos, que estudei e trabalhei para sentar em uma mesa de restaurante e, portanto, MEREÇO ser servido. Não é só uma prestação de serviço: é um teatro sobre posições de domínio. Pobre o país cujo diploma serve, na maioria dos casos, para corroborar estas posições.

Por isso o discurso ouvido por meu amigo em seu condomínio é ainda uma praga: a praga da ignorância instruída. Por isso as pessoas se incomodam quando a lavadeira, ou o porteiro, ou o garçom, “invade” espaços antes cativos. Como uma vaga na garagem de prédio. Ou a universidade. Ou os aeroportos.

Neste caldo cultural, nada pode ser mais sintomático da nossa falência do que o episódio da professora que postou fotos de um “popular” no saguão do aeroporto e lançou no Facebook: “Viramos uma rodoviária? Cadê o glamour?”. (Sim, porque voar, no Brasil, também é, ou era, mais do que o ato de se deslocar ao ar de um local a outro: é lembrar os que rastejam por rodovias quem pode e quem não pode pagar para andar de avião).

Esses exemplos mostram que, por aqui, pobre pode até ocupar espaços cativos da elite (não sem nossos protestos), mas nosso diploma e nosso senso de distinção nos autorizam a galhofa: “lembre-se, você não é um de nós”. Triste que este discurso tenha sido absorvido por quem deveria ter como missão a detonação, pela base e pela educação, dos resquícios de uma tragédia histórica construída com o caldo da ignorância, do privilégio e da exclusão.

Texto e imagem reproduzidos do site: cartacapital.com.br

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Marcella Maia, a modelo trans brasileira que participou de Mulher Maravilha




Marcella Maia, a modelo trans brasileira que participou de Mulher Maravilha

Depois de 5 anos morando entre os EUA, Europa e Ásia, a atriz e modelo Marcella Maia está de volta ao Brasil

Marcella Maia é natural de Juiz de Fora (MG), mas cresceu em Brasília. Ainda quando criança participava do grupo de teatro da igreja evangélica que frequentava com a família

"Fui escolhida por conta do meu porte físico, ninguém no estúdio sabia que era uma modelo trans. A participação também foi importante para me assumir", diz Marcella Maia sobre ter sido figurante como amazona em "Mulher Maravilha".

"Por medo de perder tudo que tinha conquistado, levei muito tempo para me assumir. Mas hoje vejo que esta decisão está me fazendo muito bem", diz Marcella

Marcella tem se dedicado a carreira de atriz e vem fazendo diversos cursos na área

Aos 19 anos, Marcella Maia viajou para Tailândia e fez a mudança de sexo definitiva

Mas somente em 2017, Marcella Maia conseguiu se assumir como uma mulher trans

Marcella Maia construiu uma carreira internacional como modelo e pretende investir na vida de atriz

"Quando comecei a trabalhar como modelo no exterior, tive medo de contar que era transexual e estragar o que estava conquistando. Me assumir publicamente foi um processo demorado, mas deveria ter feito isso", diz Marcella Maia

A jovem de 25 anos começou como 'olheira' de uma agência de moda

Marcella estreou editoriais das revistas "Vogue Itália", "Harper´s Bazaar", "Elegant Magazine", "Posh Magazine", além de trabalhos para as marcas Versace, Philipp Plein, Missoni e Kolchagov Barba

Texto reproduzidos do site: estilo.uol.com.br

domingo, 14 de janeiro de 2018

Vida de "cam girl"


Publicado originalmente no Portal UOL, em 10/01/2018

Vida de "cam girl": "Meu primeiro orgasmo foi na frente da câmera"

Gween Black tem 24 anos e há quatro trabalha exclusivamente como "cam girl"; o tédio da época da faculdade a levou até a atividade...

Por Natacha Cortêz
Do UOL

Exibir o corpo na internet para um espectador desconhecido em troca de dinheiro é profissão e alimenta uma indústria bilionária, que só em 2016 lucrou aproximadamente 3 bilhões de dólares.

"Cam girls" (mulheres câmera, em tradução livre do inglês) são as protagonistas desse mercado, que tem no sexo seu principal combustível. Na prática, uma "cam girl" tem a tarefa de instigar desejo e gozo, além de levar descontração e relaxamento para quem a assiste. “Nem sempre a audiência está atrás de orgasmos. Às vezes, a pessoa quer apenas esquecer do dia de merda que teve”, conta A.*, 23, que há dez meses reserva suas madrugadas para entreter voyeurs.

LiveJasmin, a maior plataforma para "cam girls" do mundo, recebe entre 35 e 40 milhões de visitantes por dia e tem cerca de 2.000 pessoas se exibindo. Ali não são apenas mulheres que estão atrás da câmera. Existem homens, casais, duplas, trios e até grupos. E há todo tipo de gente. Padrão não é necessariamente algo bom para os negócios quando o assunto é fetiche. “As pessoas gozam com as coisas mais doidas que você pode imaginar. Tem cliente que sente tesão sendo humilhado por ter pau pequeno”, conta Queen Lagertha, "cam girl" desde 2015.

Ouvimos cinco brasileiras que trabalham como "cam girls" em sites dedicados aos stripteases caseiros. Elas contam o que as levaram a despir o corpo na internet, entregam os pedidos mais inusitados da audiência e o que aprenderam sobre si mesmas depois que entraram para a atividade.

“Tinha cliente que sentia tesão sendo humilhado por ter pau pequeno”

“Sou fotógrafa e musicista. Moro no Canadá desde 2015 e no início, quando meu visto não me permitia trabalhar, era cam girl em tempo integral. Isso durou um ano e meio, pelo menos. Tinha mil bloqueios em relação à sexualidade por ter sido criada em uma sociedade machista e cheia de julgamento. Eu me libertei disso quando passei a exercer a atividade. Gosto de fetiche, mas foi só quando me livrei das minhas próprias barreiras que pude realmente usufruir, de forma natural. Comecei por dinheiro, com certeza. Poderia ter feito outras coisas para ganhar uma grana, mas escolhi sexo porque gosto de sexo. Quando você trabalha com isso, precisa entender das coisas. Fui estudar. Estava completamente fascinada. De repente, tinha de atender clientes que sentiam tesão sendo humilhados por terem pau pequeno. Teve ainda um moço que me pediu para colocar um episódio do Pato Donald no YouTube, enquanto eu fingia ser a bruxa má da história. Nos períodos que mais trabalhei, tirava uns 500 dólares a cada 15 dias.” (Queen Lagertha, 32 anos)

O universo dos strips caseiros que movimenta bilhões

“Meu primeiro orgasmo foi na frente de uma câmera”

“Tinha 20 anos quando decidi ser uma cam girl. Umas amigas já eram, e isso tornou minha entrada mais fácil. Não fui atrás de dinheiro, queria era experimentar algo novo. Minha sexualidade sempre foi muito reprimida, tinha problemas de autoimagem e fazia um tempo que enfrentava a bulimia. Minha ideia era estar ali para me sentir mais bonita. E foi o que aconteceu. Não sou nenhuma modelo, pelo contrário: sou mais gordinha, tenho estria, celulite e nenhuma bunda. Pode parecer loucura me jogar logo no mundo do sexo, tão cheio de preconceitos. Mas o que vi ali, sendo uma cam girl, é que só chega em você quem gosta de você. Isso tem me protegido. Tanto que meu primeiro orgasmo foi na frente de uma câmera, para uma audiência de 20 pessoas. Eu me masturbava em cima da minha cama quando rolou. Penso que ser uma cam girl é uma atividade que transcende a pornografia, é mais que vender o corpo, é se entender melhor.” (M., 22 anos)

Ser uma cam girl é uma atividade que transcende a pornografia, é mais que vender o corpo, é se entender melhor.

“Faço 300 dólares por final de semana”

“Tem dois anos que trabalho como cam girl. Na verdade, é meu segundo trabalho, que só faço às sextas, sábados e domingos. Durante a semana, sou fotógrafa. Comecei a ser cam girl para pagar um intercâmbio. O dinheiro veio relativamente fácil e me empolguei. Hoje, em um final de semana de muitas horas on-line, faço 300 dólares. De forma geral, os clientes que atendo procuram satisfazer seus fetiches. Existe homem hétero que gosta de se vestir de mulher e colocar a lingerie da parceira. Para mim, ser uma cam girl nunca foi só sobre satisfazer o prazer do outro, mas sobre entender mais do meu corpo, dos meus desejos. É uma experiência que julgo só minha e por isso ninguém da minha família sabe.” (G., 31 anos)

“Nunca soube que era criativa até entrar nesse mundo”

“Comecei a ser ou cam girl em 2013, aos 19 anos. Foi a depressão e o tédio da época da faculdade de direito que me levaram à atividade. Nunca soube que era uma pessoa criativa até entrar nesse mundo. Sou cam girl em tempo integral. Trabalho para várias plataformas, mas nenhuma com contrato exclusivo. Sou em quem decide minha rotina, assim como outras cam girls. Meus espectadores são americanos, mas a média de idade varia. Tem homens de 18 e de 80 anos. Tem gente que me assiste com a mulher, tem quem assiste para só beber junto e ouvir música. Não sou hipersexual na frente da câmera, sou mais uma amiga. Meus shows são muito divertidos e terminam em masturbação às vezes, mas não é esse o foco. Meus pais aceitam minha profissão. Mas não é a regra, muitos abandonam suas filhas por escolherem essa atividade. Ser cam girl me permitiu conhecer meu corpo, a sexualidade humana e quebrar tabus. Venci a depressão e ajudei outras pessoas com problemas parecidos com os meus. Não sou terapeuta e nenhuma cam girl é, mas conheço muitas que se interessaram pela psicologia no caminho.” (Gween Black, 24 anos)

 Ser cam girl me permitiu conhecer meu corpo, a sexualidade humana e quebrar tabus.

“Mostrar o corpo na internet reforçou minha autoestima”

“Ser cam girl e atriz pornô seria a mesma coisa? Particularmente, acho que não. No pornô, você está presa em um sistema exploratório. Como cam girl, tenho autonomia de fazer o que quiser com o meu corpo, a hora que quiser. Sou eu quem decide estar ali. É uma escolha e, no meu caso, muito consciente. Se me masturbo, é porque quero. Se não quero mostrar o rosto --o que é regra para mim--, não mostro. Faz uns seis meses que passei a tirar a roupa para desconhecidos. Meu motivo? Diria que é um misto de prazer e diversão. É um jeito de explorar minhas fantasias, brincar com a minha sexualidade. Por fim, acredito que mostrar o corpo na internet reforçou minha autoestima. Dinheiro não importa por enquanto, até porque passo poucas horas por semana na frente da câmera. A comissão que acabo ganhando é ínfima. No mês passado, deu um pouco mais de cem dólares.” (B., 27 anos).

Texto e imagem reproduzidos do site: estilo.uol.com.br

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Meu simples adeus ao fantástico Carlos Heitor Cony

Na Bienal do Livro de 2014

Publicado originalmente no site Resenhando, em 8 de janeiro 2018

Meu simples adeus ao fantástico Carlos Heitor Cony

Por Mary Ellen Farias dos Santos*

Tenho pensado muito no quanto a vida é cheia de perdas, sendo que por sorte, também há ganhos. Tal qual uma gangorra, ganhamos e perdemos de tudo. Certas coisas que deixamos de ter até conseguimos superar, refiro-me ao quesito material, mas quando há morte, tudo muda de rumo.

Decidimos já em São Paulo, que iríamos passar o final de semana por lá, mesmo sem ter levado carregador. Assim, poupar a bateria dos celulares era o mínimo que deveríamos fazer. Andando de um teatro para o outro, só nos demos o luxo de diminuir a porcentagem da bateria pouco antes de dormir e descansar para iniciar nova maratona cultural no domingo. Foi então que a notícia partiu de meu marido: Carlos Heitor Cony faleceu. Sem reação imediata, permaneci em silêncio até perguntar o motivo, para ajudar a fazer a ficha cair.

Ah! Quanto eu amei as crônicas dele! Sim! Para mim, o escritor representava a figura do jornalista inspirador. Nunca tive o prazer de entrevistá-lo. Contudo, um grande desejo foi realizado na Bienal do Livro de 2014, após um painel com a presença de Carlos Heitor Cony, Ruy Castro e Heloisa Seixas: tirei uma foto com ele. Após realizar esse meu desejo, de um jeitinho acanhado, o fantástico escritor me chamou de moça bonita. Pois é... Quase explodi de felicidade. Que fofo!

Em 7 de janeiro, perdi meu único guarda-chuva de alumínio de qualidade, deixei no cabide de parede do banheiro do Shopping Cidade São Paulo. Nos meus 35 anos de vida, nunca havia perdido uma sombrinha que fosse. Confesso que a sensação foi horrível.

Voltei ao banheiro, perguntei para um, para outro. Até enviei um e-mail para o SAC do Shopping que nem mesmo ousou dar uma resposta. Nas situações extremas, entendemos bem o conceito de perdas e ganhos. O bem material é substituível, superado. Basta escolher outro no comércio, diferentemente da vida.

Sem essa mente brilhante, resta aos admiradores uma grande tristeza pela partida do mestre da escrita. Por sorte, essa melancolia permite ser amenizada diante da alegria de termos sido presenteados por ricas produções do memorável Carlos Heitor Cony.

Vá com Deus, moço bonito!

*Editora do site cultural www.resenhando.com. É jornalista, professora e roteirista. 
Twitter: @maryellenfsm

Texto e imagem reproduzidos do site: resenhando.com

Análise da letra musical de "Alegria, Alegria", de Caetano Veloso


Publicado originalmente no site Resenhando, em  janeiro de 2015

Análise da letra musical de "Alegria, Alegria", de Caetano Veloso

Por: Mary Ellen Farias dos Santos*

Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro,
Eu vou.

O sol se reparte em crimes
Espaço naves, guerrilhas
Em Cardinales bonitas,
Eu vou.

Em caras de presidente,
Em grandes beijos de amor,
Em dentes, pernas, bandeiras,
Bomba e Brigitte Bardot.

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça.
Quem lê tanta notícia?
Eu vou

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos.
Eu vou
Por que não? E por que não?

Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento
Eu vou.

Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
Uma canção me consola
Eu vou.

Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone,
No coração do Brasil.

Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito

Eu vou
Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo amor.
Eu vou
Por que não? E por que não?

Memória discursiva: A música Alegria, Alegria, de autoria de Caetano Veloso, sobre liberdade, é um dos marcos iniciais do movimento tropicalista da década de 1960. Datada de 1967, Alegria, Alegria, a canção modernista foi apresentada no Festival da Record em disputa pelo “Berimbau de Ouro”.

Embora seja intitulada de Alegria, Alegria, sua letra nada tem de alegria, apenas reflete a repressão do período militar no Brasil, ou melhor, os “anos de chumbo”. De tão potente, a música de Caetano Veloso está incorporada na mente e na história do povo brasileiro, pois a marcha leve e alegre, com letra caleidoscópica e libertária, tem força nas palavras que a compõem.

Entretanto, ao apresentá-la ao público, Caetano Veloso recebeu vaias (até porque fez a apresentação com os argentinos, Beat Boys). A gritaria foi tão infernal que nacionalistas o chamaram de traidor e oportunista. O talento e a performao nce de Caetano Veloso, aos poucos, ganhou o público e transformou as vaias em aplausos, mas ficou somente com o quarto lugar do festival.

Alegria, alegria é uma obra famosa e muito lembrada, é, pelo menos a mais emblemática do período militar do Brasil. Por esta e outras canções revolucionárias que usaram da metáfora para burlar o regime militar, Caetano Veloso foi o grande divulgador deste período de grande revolução popular e de tanta inquietação cultural.

Estrutura do texto: Em sua estrutura textual, Alegria, Alegria é simples, principalmente se comparada a outras de Caetano Veloso, utiliza basicamente elementos do Modernismo Brasileiro, da contra-cultura, da ironia, rebeldia, anarquismo e humor ou terror anárquico. Para salientar que a cultura importada era alienante, Caetano usa palavras como Brigitte Bardot, Cardinales  (Claudia Cardinale) e Coca-Cola (maior símbolo do império norte-americano que financiava os exércitos em toda a América Latina).

Pelo fato de ser uma canção escrita no período tropicalista, Alegria, Alegria tem nas entrelinhas uma crítica à esquerda intelectualizada, a negação a qualquer forma de censura, uma denúncia da sedução dos meios de comunicação de massa e um retrato direto da realidade urbana e industrial.

De acordo com o poeta, ensaísta, professor e tradutor brasileiro Décio Pignatari, a letra possui uma estrutura cinematográfica, trata-se de uma "letra-câmera-na-mão", citando o mote do Cinema Novo. Nesta canção há intertextualidade com a canção Para não dizer que não falei das flores e com uma pequena citação (modificada) do livro As Palavras, de Jean-Paul Sartre: "nada nos bolsos e nada nas mãos", que ficou, "nada no bolso ou nas mãos".

Marcadores da narrativa e da oralidade: A presença de muitas vírgulas na canção segue o ritmo da marcha, ou seja, há uma ebulição de ideias e ações acontecendo concomitantemente, por tanto não há abertura para pontos finais (que fecham estas ideias), mas apenas para as vírgulas. As vírgulas passam a ideia de aglutinação, como se representassem a pólvora, tão presente nas ruas neste período.

Inicialmente, o verbo caminhar está no gerúndio, o que transmite a ideia de que este caminhar é contínuo e que nada será capaz de interrompê-lo, mesmo que lhe falte uma identidade e as impunidades dos crimes brasileiros permaneçam. Logo, o verbo está no presente: (eu) vou, (me) enche, (ela) pensa.

Da instância lexical: Os versos “Caminhando contra o vento” e “em Cardinales bonitas” têm o valor semântico da expressão popular “nadando contra a corrente”, com o significado de ser e manter-se contra. Ao considerar o período, este se refere ao lutar contra a Ditadura Militar.

Eixo paradigmático da canção: A luta pelos ideais ganham mais força ao colocar cada ação na primeira pessoa do singular: EU, estando este oculto, como em “Caminhando contra o vento”, ou quando este sujeito é simples, como nos últimos versos das estrofes: “Eu vou”. No contexto do momento histórico vivido pelo autor na época do Regime Militar, a expressão “caminhando contra o vento” vem reforçar a idéia central do texto: ser do contra, lutar contra as forças armadas pelo regime ditatorial, promover a união da população contra o governo imposto de forma indireta e arbitrária. Idéia corroborada pelo descumprimento das regras gramaticais da língua padrão, como no exemplo: “Me enche de alegria...”, em que a frase é iniciada pelo pronome oblíquo ME.

Métrica: Tomando como exemplo a primeira estrofe, é possível escandi-los e dar nomes aos metros da seguinte forma:

Ca/mi/nhan/do /con/tra o /ven/to - Verso Heptassílabo ou Redondilha Maior
Sem /len/ço e /sem /do/cu/men/to - Verso Heptassílabo ou Redondilha Maior
No /sol /de /qua/se /de/zem/bro, - Verso Heptassílabo ou Redondilha Maior
Eu /vou. – Verso Dissílabo

Metáforas: Toda a opressão sofrida pelo cidadão comum, nas ruas, nos meios de comunicação, em sua cultura nativa, no seu próprio país é relatada na letra desta canção. Desta forma, Alegria, Alegria, denuncia os exageros dos militares, porém utilizando-se de metáforas. “Caminhando contra o vento/sem lenço e sem documento” que se refere à violência praticada pelo regime. Ao dizer “sem livros e sem fuzil,/ sem fome, sem telefone, no coração do Brasil” revela a precariedade na educação brasileira proporcionada pela ditadura que queria pessoas alienadas, e complementa: “O sol nas bancas de revista /me enche de alegria e preguiça/quem lê tanta notícia?”.

Para evidenciar a alienação da massa, na letra há elementos externos à cultura nacional, como alguns símbolos impostos pelo cinema norte-americano da época, que são: Cardinales, Brigitte Bardot e a Coca-Cola, fortes representantes da imposição comercial da mídia na época.

Ao denunciar os desníveis sociais dos “anos de chumbo”, Caetano Veloso faz comparações metafóricas, com o intuito de destacar os contrastes regionais, sociais ou econômicos, o que fica evidente nos seguintes versos: “Eu tomo uma coca-cola,/Ela pensa em casamento”, “Em caras de presidente/em grandes beijos de amor/em dentes, pernas, bandeiras, bomba e Brigitte Bardot.”

Jogo das pressuposições: Alegria, Alegria, canção que ajudou a criar o estilo musical MPB, escrita, musicada e interpretada pelo cantor e compositor Caetano Veloso (em novembro de 1967) transformou a expressão artística musical brasileira em crítica social. Por esse motivo, Caetano Veloso teve grande parte de suas músicas censuradas pelo regime militar, sendo que algumas foram até banidas. Em 27 de dezembro de 1968, tanto Caetano Veloso quanto Gilberto Gil foram para a cadeia, acusados de terem desrespeitado o hino nacional e a bandeira brasileira. Os dois foram levados para o quartel do Exército de Marechal Deodoro, no Rio, e tiveram suas cabeças raspadas. Entretanto, ambos ficaram exilados em Londres até 1972.

É possível notar também que Alegria, Alegria faz intertextualidade com Para não dizer que não falei das flores, do cantor Geraldo Vandré. Ambas as músicas suscitam em sua letra os sentimentos daqueles tinham conhecimento (não eram alienados) do que de fato acontecia no Brasil e, assim convocam os brasileiros engajados a ir às ruas e lutar contra a ditadura vigente.

Ao convocar a todos para esta luta, fica evidente a crítica à alienação, pois o verso “Ela pensa em casamento” aparece duas vezes na canção, ou seja, evidencia que enquanto algumas brasileiros lutavam para dar fim à repressão militar outros estavam completamente desinformados e sob o domínio do governo.

Rima: Alegria, alegria é uma canção poética, considerando, inclusive, o título. A marcha compassada denuncia a presença do som do “O” precedido da letra “T” e “R”, ao mesmo tempo em que dá o ritmo a cada verso, também reflete a dureza da época e o disparar das armas, que pode ser notado na terminação dos três primeiros versos, da primeira estrofe, além da presença do fonema “K”: “Caminhando contra o vento/ Sem lenço e sem documento / No sol de quase dezembro”.

As figuras de som predominam, pois o ritmo é constante, quebrado por palavras e/ou expressões como “eu vou”, no final de cada estrofe. A aliteração pode ser notada na repetição de sons consonantais (consonância) quanto de sons vocálicos (assonâncias), como nos versos: “Entre fotos e nomes, sem livros e sem fuzil, sem fone, sem telefone, no coração do Brasil.”: repetição do som do fonema “F”. Nos versos “Caminhando contra o vento, sem lenço sem documento, no sol de quase dezembro”, percebe-se a presença do fonema /k/. Também nos versos “entre fotos e nomes, sem livros e sem fuzil, sem fone, sem telefone, no coração do Brasil”, percebe-se a presença dos sons vocálicos de /em/. O que se repete também nos versos “sem lenço sem documento, no sol de quase dezembro”.

Conclusão do ponto de vista estilístico: Alegria, Alegria é uma canção que pode ser definida como um poema. Sua história acontece no presente, sendo que o eu – lírico “desenha” a história por meio do pronome EU, 1ª pessoa do singular. No entanto, não tende ao egocentrismo ou narcisismo, apenas posiciona-se como um lutador contra a repressão militar.

Para provocar a ideia de uma marcha contra a ditadura utiliza-se de fonemas duros que remetem ao marchar dos militares (e até dos civis unidos em direção aos repressores) e fonemas frios que remetem ao som dos tiros e bombas, itens bastante presentes nas ruas, neste período.

Em contrapartida, há também a denúncia da alienação a partir de ídolos impostos e fabricados pela mídia “exterior” (Brigitte Bardot, francesa e Claudia Cardinale, atriz italiana), que infundiam um comportamento novo.

Texto originalmente escrito em 4 de maio de 2010

*Editora do site cultural www.resenhando.com. 
É jornalista, professora e roteirista. Twitter: @maryellenfsm

Texto, vídeo e imagem reproduzidos dos sites: YouTube.com e resenhando.com

sábado, 6 de janeiro de 2018

Entrevista: “Estou bem e estou feliz, é o que importa”, diz Fernanda Gentil

Leo Aversa, divulgação

Publicado originalmente no site Revista Donna, em 30/09/2016

Entrevista: “Estou bem e estou feliz, é o que importa”, diz Fernanda Gentil

Por Camila Saccomori 

– Estou bem quietinha, esperando passar. Mas está tudo bem. Eu estou bem e estou feliz, isso é o que importa – comentou Fernanda Gentil em entrevista a Donna no meio da tarde desta sexta-feira (30).

A apresentadora do Esporte Espetacular (TV Globo) referia-se à repercussão de uma notícia divulgada pela manhã na coluna Gente Boa do jornal O Globo, de que a jornalista Fernanda Gentil assumiu o namoro com a também jornalista Priscila Montandon. A publicação trazia uma declaração de Fernanda:

“Estou só exercendo meu direito de ser muito, muito feliz. Tenho apenas um recado, e é para os meus filhos, que mais cedo ou mais tarde podem ler ou ouvir tudo por aí: lembrem de não se importarem com tudo o que dizem sobre nossa vida, o que vale é a mamãe fala com vocês em casa, olhando nos seus olhos”, disse Fernanda a O Globo.

Fernanda falou com Donna enquanto estava dirigindo, em conversa sobre maternidade, separação, Olimpíadas, jornalismo e redes sociais. Desde o lançamento do livro Gentil como a gente (Editora Intrínseca), em junho, a entrevista estava pendente por conta da dedicação da autora às Olimpíadas e agenda atribulada.  A apresentadora havia se divorciado do marido, o empresário Matheus Braga, em abril. O livro conta, de forma divertida – e “sem firulas”, como destaca o subtítulo – experiências pessoais de Fernanda a partir do blog, Gentil Braga, que ela mantinha quando estava casada.

Na conversa, Fernanda destacou que não quer ser tratada como celebridade, apesar da curiosidade que as pessoas têm em sua vida pessoal. Confira:

Como surgiu a ideia de compartilhar sua história do seu casamento no blog e depois em livro?
Quando fui “me juntar” com meu ex-marido, comecei a reparar que existem muitas situações curiosas, engraçadas, quando um casal vai morar junto. A convivência é um grande desafio, na verdade. O assunto foi rendendo, eu comecei a escrever em um tom alto-astral, mais bem humorada, o pessoal foi gostando do blog. E aí a Intrínseca me chamou em 2014 para fazer do blog um livro.

Como era a sua rotina para escrever estes registros no blog?
Era semanalmente ou de 15 em 15 dias. Eu ficava até oito horas para escrever um único episódio, por conta das imagens e dos vídeos (intercalando com o texto). Tomava muito tempo. Foi de 2013 a 2015 que atualizei o blog. Fizemos algumas adaptações para o livro e escrevi uns novos. Nessa transição do virtual para o impresso, sempre há algumas mudanças. Mas a espinha dorsal está no livro. É uma versão mais completa, mais cuidadosa, muito melhor.

Os diálogos são superdivertidos, bem informais, e as imagens também são engraçadas. O quanto você se envolveu nesse processo para o livro?
Nossa, eu me envolvi muito, fiz questão de participar de tudo. Não queria perder a identidade do blog, é bem isso que você falou, uma linguagem mais informal, mais conversada, mais leve. O lance das imagens é diferente, para não ficar só texto, texto e texto. Pude dar pitaco, mudar o que queria, era 24 horas por dia em função do livro. Lembro eu lá de barrigão, de oito para nove meses, fazendo os últimos cortes para mandar para a editora.

Como foi compartilhar histórias tão íntimas e deixá-las registradas para sempre no papel?
Pois é, as histórias são todas baseadas em histórias reais, claro que em algumas dei alguma aumentada, mas são histórias que aconteceram. Foi uma ideia muito feliz da minha parte, o livro ficou superbonitinho, carinho, uma linguagem leve, suave e romântica. Fico muito feliz de ter isso registrado.

(No fim do livro, Fernanda escreve sobre a separação de Matheus Braga, com quem estava namorando desde os 15 anos, quando o conheceu em sua festa de aniversário: “Percebemos que talvez essa relação já não estivesse tão legal havia tempos… que, talvez, a realização do nosso sonho tenha aberto os nossos olhos… e, que, talvez, a gente estivesse passando por cima de um outro imenso sonho: o de ser feliz. Mocinha e Momô foram tão bom juntos que não vão deixar de existir. São tão bons que nada do que foi escrito antes desta página vai ser apagado. Tá feito. Tá registrado. Tá curtido. Tá vivido”.)

Você disse, em outra entrevista, comentando a separação, que as pessoas questionavam: “Ah, mas pareciam tão felizes nas redes sociais”. Mas não existe tristeza nas redes sociais, como você comentou…
É isso. Eu sempre prefiro ver o copo meio cheio, sabe? Assim a vida fica mais leve, os problemas ficam menos graves, os estresses menos fortes, então eu procuro levar a vida com leveza. Não foi diferente com o livro e falar tanto sobre este assunto, pois a minha vida virou literalmente um livro aberto, né? Você não vê tristeza em redes sociais, mas tudo que eu vivi, eu vivi com muita plenitude.

Você falou que conheceu o seu grande amor aos 15 anos e também que desde então queria ser jornalista de esporte. Como tudo começou?
Eu sempre fiz esporte, e o jornalismo foi a maneira que encontrei de não me distanciar disso. Com o jornalismo consegui me manter neste universo.

Muitas mulheres hoje em dia fazem esporte só para ficar em forma, não por saúde. Até publicamos em Donna uma reportagem sobre isso. Você, pelo jeito, fazia pelo bem-estar…
Sim, o exercício sempre foi meu jeito de me sentir disposta, saudável. Uma questão realmente de saúde. Com a correria da vida não consegui manter o esporte na mesma frequência. Correr, malhar, tudo faço para manter a saúde.

A boa forma, então acaba sendo só a consequência.
Exatamente, exatamente.

Como você lida quando comentam sobre você e esses temas de beleza e boa forma?
Vejo com muito carinho, acho muito bacana. Como naquela lista, por exemplo (Fernanda ficou entre as 100 mulheres mais sexy de 2014) e o de ser musa da Copa, acho isso OK. Tem o lado negativo também, como daquela vez que me chamaram de gorda na praia, acho que são ossos do ofício. A gente trabalha em televisão e com essa visibilidade não tem como fugir disso. Tem que saber como lidar com isso. Eu, por exemplo, tenho um filtro enorme. Pouquíssimas coisas chegam em mim de forma a me afetar, praticamente quase nada, principalmente em relação ao meu físico ou coisas assim. O dia que falarem do meu caráter, de mim assim como pessoa, aí sim começo a me preocupar, entende?

Os fãs comentam muito a tua naturalidade e espontaneidade em frente às câmeras, na condução das reportagens. É esse seu estilo que você acredita que cativa seus fãs?
Acho que sim. É que eu gosto de fazer televisão como eu gosto de ver televisão, e eu gosto de ver TV me sentindo próxima da pessoa, alguém é uma pessoa como a gente, e isso é a pura verdade. Não tem a menor diferença entre quem me vê na TV e o que sou. Essa naturalidade deixa o telespectador mais à vontade. No jogo do 7 x 1 (Brasil e Alemanha), foi uma coisa natural, foi o lado torcedora, me emocionei e chorei mesmo (ao vivo).

Você também se emociona bastante quando fala do seu projeto, a Associação Caslu, que ajuda crianças.
É uma homenagem ao Lucas (afilhado de oito anos que Fernanda cuida desde a morte da mãe do menino, tia de Fernanda, quando ele tinha um ano e meio). Acho que é um trabalho que todo mundo pode e deve fazer, basta ajudar alguém, alguma criança que você conheça, uma pessoa que seja, fazer a sua parte. A Caslu me mostrou que realmente a gente tem muito o que fazer, estou fazendo pelo menos a minha parte.

Lucas e Gabriel (filho de Fernanda, nascido em agosto de 2015) convivem como irmãos?
Sim. Para mim, família não é sangue, é sentimento. São dois filhos meus, sei que eles se amam como irmãos. Não é nenhuma ligação biológica que vai impedir isso.

Você é conhecida por essa dedicação à maternidade. Sei que é um grande clichê dizer que a vida muda totalmente depois de ter filhos, como você vê isso?
É um divisor de águas, né? Antes de ter crianças, depois de tê-las. Fiquei mais emotiva, mais sensível, muito mais cuidadosa comigo mesma, mais responsável, você não faz mais as coisas só por si mesma, todas suas atitudes vão respingar neles. É um fator muito enriquecedor, você tem um motivo muito maior para viver, para trabalhar, para acordar cedo, para batalhar, tira força de onde não tem, tira tempo de onde não pode e assim vai indo.

Pretende lançar outro livro?
Sim, gostei muito da experiência, nem sei quando nem sobre o quê.

Pretende fazer o lançamento aqui em Porto Alegre?
Eu, por mim, faria o Brasil inteiro, vamos ver com a editora. Fiz São Paulo e Rio. Porto Alegre e BH seria legal, Nordeste também, por mim faria o país todo.

Agora que passou a Olimpíada, você consegue ter mais tempo para divulgar o livro, né?
Sim, está menos loucura, nada se compara com aquilo, é outro fuso horário, outro ritmo. E depois de assumir o Esporte Espetacular também mudou tudo, nova rotina, tem que se adaptar tudo de novo. Mas sempre são desafios muito bem vindos.

Como você avalia a sua cobertura na Olimpíada?
Gostei bastante. Nem avalio a repercussão, e sim como eu fui. Sou muito crítica comigo mesmo, mas se eu gostar do que fiz, acho que o público vai gostar.

Você consegue ler tudo o que tem nas redes sociais, nos seus perfis? O que você filtra?
Eu consigo ler o que o meu tempo permite, não por filtro não. O filtro é a minha consciência, eu posso bater o olho em coisas boas ou ruins e vou absorver o que eu achar que vai me acrescentar. Não acho que sou melhor nem pior do que ninguém, não acredito nem em tudo de bom ou tudo de ruim que falam de mim. Se a pessoa se dá ao trabalho de ir lá na minha rede social, Instagram, Twitter, falar alguma coisa eu quero ver o que ela tem para falar. O que eu consigo eu leio.

Como foi o teu dia hoje? Sei que não queres comentar o assunto, mas deve ter tido muita repercussão.
Na verdade eu não sei, não estou lendo. Estou bem quietinha, esperando passar. Mas está tudo bem. Eu estou bem e estou feliz, isso é o que importa...

Texto e imagem reproduzidos do site: revistadonna.clicrbs.com.br

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Entrevista! Marcelo Tas fala sobre os tabus masculinos...



Publicado originalmente no site Revista Donna, em 29/07/2016 

Entrevista! Marcelo Tas fala sobre os tabus masculinos e a relação com o filho transgênero Luc

Por Thamires Tancredi 

Provocador por natureza, Marcelo Tas parece ter herdado de um de seus mais célebres personagens o dom de questionar. Desde 1983, quando estreou na pele do repórter Ernesto Varela, que colocava o dedo na cara de políticos com perguntas desconcertantes, o jornalista, ator e apresentador coleciona trabalhos em que a máxima é divertir sem deixar de fazer pensar. No currículo, inclua o Professor Tibúrcio, da série infantil Rá-Tim-Bum, um clássico da TV Cultura, o Telekid do Castelo Rá-Tim-Bum e, nos últimos anos, o comando da bancada do CQC, que deixou em 2014.

Depois de sete anos na Band, Tas agora é um dos quatro amigos com perfis completamente distintos do Papo de segunda, atração semanal do canal GNT voltada ao público masculino. De peito aberto, ele, o jornalista Xico Sá, o cantor e compositor Léo Jaime e o ator João Vicente de Castro debatem temas do universo masculino e não pensam duas vezes antes de expor experiências e vivências pessoais.

— É o programa mais difícil que já fiz, porque chegou a hora de eu mesmo me colocar. Em outros, como o CQC, onde existia mais uma persona falando do Brasil e dos problemas, era um papel muito mais fácil do que o que tenho que desempenhar no Papo de segunda — diz Tas. — Aqui o fogo está muito mais próximo de alguém que eu desconheço, que sou eu mesmo. Se colocar é um exercício, estou aprendendo.

Mas o diálogo de Tas com o público vai além da atração exibida toda segunda, às 22h. No Twitter, onde se define como “jornalista, comunicador e extraterrestre”, ele divaga, alfineta e polemiza com seus mais de 9,3 milhões de seguidores. E tem ainda o blog Tasômetro, em que debate temas como ocupação das escolas e impeachment e até dá dicas de livros. Na entrevista a seguir, Tas aponta quais são os temas que geram mais polêmica entre a ala masculina, o que ainda é tabu para eles e discute a participação dos pais na educação dos filhos – além de contar mais sobre a relação com Luc, seu filho mais velho, que é transgênero.

Entrevista!

Na TV, temos vários programas dedicados às mulheres, mas um espaço exclusivo para falar sobre o homem é novidade. Como é falar deles e para eles no Papo de Segunda?
É dificílimo! Nós somos muito básicos, não temos complexidade. Aquele estereótipo cerveja, mulher e futebol tem muita verdade. Não que necessariamente todo homem goste de cerveja, mulher e futebol, mas o homem se satisfaz com coisas muito simplórias. É mais ligado ao primitivo, ao caçador, e a mulher é a complexidade, a sensibilidade, o inesperado. Tem essa coisa lunar, essa relação diferente com a natureza. Elas são complexas como a natureza. Ali, nos colocamos como operários do amor. No fundo somos homens básicos tentando uma tarefa inglória que é abrir o coração e nos entregar, enquanto cutucamos nossos telespectadores para fazer o mesmo. Ou pelo menos para deixá-los constrangidos em casa ao lado das suas mulheres (risos). Procuramos fazer isso com humor porque é uma forma de haver diálogo. Tentamos não falar disso de uma maneira autoritária, cheia de certezas. A gente faz questão de colocar nossas próprias precariedades e dúvidas em cima da mesa.

Vocês recebem sugestões de pauta do público?
O público é nosso pé na terra, é muito legal. Por isso, faço tanta questão, desde o início, de colocar o máximo possível o público, durante o programa mesmo, na tela. Creio que temos conseguido mais participação do público nos últimos meses, até pelo fato de o programa ser ao vivo. Às vezes, ficamos em uma divagação e vem alguém nas redes sociais e joga na tela um fato ou uma vivência muito real, e aquilo ajuda o programa a pegar de novo no tranco, a olhar para a vida de uma maneira mais sincera. Esse é um DNA meu, de fazer televisão ouvindo o espectador.

No Saia Justa, causou polêmica quando as apresentadoras falaram de aborto. Qual foi o tema que mais gerou discussão no Papo?
O machismo é um tema recorrente do programa em vários recortes, e geralmente causa grande movimento em casa. Percebo que muita gente vê o programa junto com alguém, o que acho bárbaro. Isso para mim é um presente: perceber que algumas pessoas reservam a segunda à noite junto com alguém que amam e que querem trocar alguma ideia sobre o que estamos ali fazendo. Como lidar com o afeto, com a pessoa amada, é algo que sempre pega fogo na nossa tribuna. Creio que há um terceiro: me julgo muito privilegiado por a gente poder falar da política. Até por nós quatro sermos muito diferentes, o Papo de segunda permite abordarmos a barbaridade que se tornou a vida política do Brasil com pontos de vista diferentes e que ao mesmo tempo dialogam. Não é um programa de petismo versus coxismo, ou de mortadelas ou coxinhas. É um programa que, ao longo dessa crise, conseguiu debater o assunto com liberdade e jogar alguma luz e provocação nessa conversa polarizada. Esse também foi um dos temas quentes. Nós vamos completar um ano, e só caiu essa ficha ontem. É uma aventura que já tem uma memória, uma consistência.

E como você avalia esse período? Que relatos chegam dos espectadores?
Tem acontecido com muita frequência (de os espectadores relatarem experiências de mudanças a partir do Papo). “Eu estava aqui em casa e finalmente tive uma conversa com meu pai, com minha mãe ou parceira.” Muitas mulheres também, contam que, no outro dia, eles (os parceiros) vieram falar com elas e têm certeza de que foi por conta do programa. Isso é tão recompensador… No fundo, somos um programa de entretenimento, que passa na segunda-feira, quando as pessoas estão com sono, retomaram a rotina depois do fim de semana. Estamos lá para entreter e ao mesmo tempo levar um pouco de reflexão, e é tão legal saber que isso acontece.

O que você percebe que ainda é tabu para os homens?
Por onde começar? (risos) O que não é tabu, não é? O homem ainda tem muito problema com seu corpo. O homem tem muito problema com seus órgãos genitais, seja com a bunda ou com o pinto. Ele não olha muito para isso, tanto que é o cara que tem doenças, que morre de câncer na próstata porque tem problema em deixar outro homem introduzir o dedo e prefere morrer do que fazer isto. Somos uma coleção de tabus, uma espécie de cardápio, e isto começa pelo corpo. Somos muito mal resolvidos e, por incrível que pareça, somos obcecados com o corpo da mulher e não olhamos para o nosso, somos descuidados em relação a isso.

E quais são as bandeiras dos homens atualmente?
Agora é crucial a questão de nos colocarmos ao lado das mulheres, reconhecendo a cultura do macho, o desastre causado por ela. Não podemos temer nem fugir disso, porque é um espetáculo grotesco que estamos vendo e o resultado dele, que vem de muito tempo, já se provou desastroso. Ao mesmo tempo, a reconstrução desse equilíbrio, masculino e feminino, vai depender muito desse rearranjo. Não basta simplesmente dizer que as mulheres precisam ser CEOs e presidentes das empresas, não é isso. Precisamos reinventar qual é o papel desse novo homem. É claríssimo que precisa ser reparada essa injustiça criminosa contra a mulher, e creio que o homem tem um lugar que a gente ainda não sabe qual a posição ou a atitude. Vamos ter que descobrir juntos.

Como é seu envolvimento na educação de seus filhos? Acha que os pais ainda são pouco presentes?
A educação, até comparando a que eu tive com a dos meus filhos, é algo muito partido. A mulher responsável pela educação dos filhos em casa e o pai pelo provimento dos recursos. O que aprendi muito tendo três filhos é como é importante a educação ser algo compartilhado. Até porque estou no segundo casamento, tive a experiência da separação e de ter compartilhado a educação do meu primeiro filho com a minha primeira mulher, a Claudia Cope. Tive que aprender um pouco o que significa isso, olhar para mim mesmo e ver qual era a minha importância naquela conjuntura quando morávamos juntos e depois ver o que mudou depois que nos separamos. Quando vou para meu relacionamento atual, com a Bel Kowarick, vejo que já cheguei com aprendizados que me ajudaram a tornar real essa visão do compartilhamento. Significa que, mesmo dentro dos eventuais desequilíbrios, a mulher ou o homem que fica mais dentro de casa ou com os filhos, isso não tem nada a ver com você dividir a responsabilidade do olho no olho, de estar próximo. De participar do afeto que tem que ser regado diariamente, e que para mim é ou deveria ser o núcleo da educação familiar. Ser um provedor de afeto, um compartilhador de momentos de apoio, de ouvir, de estar presente no drama do dia a dia. A vida é conflito diário, e você não deve se ausentar deste conflito. O que percebo muito da educação antiga, do meu avô, que foi um cara muito importante para mim, é que o homem era alguém ausente desse drama diário, e isto não ajudou em nada. Para mim, está aí uma função do homem contemporâneo: participar de verdade do drama cotidiano com os filhos e as companheiras ou os companheiros.

Faz pouco mais de dois anos que você e seu filho Luc falaram sobre a transição de gênero dele para a revista Crescer. É um assunto tabu e difícil ainda para muitos pais. Como foi com você?
Foi uma grande responsabilidade, era um assunto que vivia internamente desde sempre, é bom que se diga. O Luc sempre teve questões iniciais relacionadas à sexualidade, e que para mim foi uma novidade. A questão do gênero foi e é muito nova para todos nós, não só no Brasil. O Luc é um presente, é um cara que trouxe para mim debate e informações que eu jamais tinha acessado. Novamente, a chave para me colocar foi o afeto. Geralmente, essa é a primeira reação que temos diante da sexualidade do filho, independentemente de ele ser homossexual. A resposta que temos que buscar é o afeto: como posso demonstrar o meu amor e apoio a essa angústia, a essa transição que essa alma está sofrendo. Foi assim que procurei reagir e aprendi um pouquinho com ele. Fiquei muito feliz com a entrevista da Crescer, e que depois se desdobrou em muitas outras. Percebi que esse assunto entrou na pauta nacional do jeito em que acredito que temos de olhar para ele, de maneira afetuosa e civilizada. Temos que procurar entender evitando que o nosso preconceito e ignorância nos impeçam de avançar, concordando ou não. Recebi muitos feedbacks de quem discorda ou fica inseguro com a maneira tão sincera com que abordamos tudo isso, e tento responder igualmente a todos eles: “Entendo o que você está vivendo, é difícil mesmo”. Mas recebi milhares de e-mails de filhos aliviados, que se sentiram encorajados para levar aquele assunto para dentro de casa, e de pais também, Espero que tenha sido um bom início desse debate, que, aliás, é muito antigo, veio por baixo dos panos por muito tempo e que agora, com essa revolução que a gente vive, possamos conseguir viver plenamente, cada um, as suas identidades e sua vida amorosa. E perceber que isso não é nada demais, é simplesmente cada um querendo e vivendo o amor que lhe cabe, que deseja. É muito simples, na verdade, e a gente complica muito.

Como você avalia a experiência no CQC e sua maneira de abordar a política? O programa deixou uma lacuna na TV?
Vejo esse cenário que temos no Brasil e sinto falta de um programa como o CQC, e tenho consciência da importância do programa. Estive lá por sete anos e foi um período em que o país mudou muito, de 2008 a 2014. Creio que isso indica o quanto a TV ainda está aquém do que o telespectador gostaria que ela fosse. É um desafio para todos nós que fazemos televisão, não estou me colocando fora disso. Principalmente a TV aberta tem um desafio gigantesco de responder a uma exigência do público, sobretudo por conta da revolução digital. O público que era calado e que agora tem um veículo de comunicação tão ou mais poderoso do que a televisão, que tem esse efeito manada, de mobilização instantânea que a gente vê nas redes. Respeito e procuro aprender muito com essa mudança.

Texto e imagens reproduduzidos do site: revistadonna.clicrbs.com.br