sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Robôs x empregos: a automação vai fechar mais vagas do que criar?

Alguns especialistas acreditam que robôs podem substituir 
humanos em determinadas tarefas.
Imagem: Reuters. 

O robô Baxter foi criado para trabalhar na linha de produção.
Imagem: Rethink Robotics. 

A empresa japonesa Kokoro criou um robô-recepcionista para escritórios.
Imagem - Getty.

Publicado originalmente no site da BBC, em 30 junho 2014.

Robôs x empregos: a automação vai fechar mais vagas do que criar?

Rob Crossley.
Especialista em Tecnologia.

Carros que dirigem sozinhos, serviços de entregas feitos por robôs, softwares cuidadores de idosos e "serpentes" cirurgiãs. A automação promete ganhos milionários para as empresas do setor, mas o que acontece com as pessoas que executam as mesmas tarefas que esses robôs? A nova tecnologia vai ajudá-los a trabalhar de forma mais eficiente ou vai colocar seus empregos em risco?

A discussão ainda é polêmica entre acadêmicos, com alguns convictos de que passar o trabalho para as máquinas aumentará o desemprego, enquanto outros acreditam que a automação vai trazer prosperidade.

Bob, por exemplo, é um guarda de segurança robô que patrulha o local de trabalho, monitorando as salas em 3D e relatando anomalias.

Ele é fruto da imaginação de cientistas da Universidade de Birmingham, que insistem que a máquina irá "apoiar os seres humanos e aumentar as suas capacidades", apesar das preocupações de que a tecnologia poderia, eventualmente, substituir os agentes de segurança humanos.

O Exército dos Estados Unidos, por sua vez, está analisando a substituição de milhares de soldados por veículos de controle remoto para tentar evitar cortes radicais de tropas.

Ascensão dos robôs

Carl Frey, pesquisador da Universidade de Oxford que estudou a ascensão de trabalho computadorizado, ganhou as manchetes quando previu que a automação colocaria até 47% de empregos americanos em "alto risco".

Sua previsão foi atacada como sendo exagerada por Robert Atkinson, presidente da Fundação Tecnologia da Informação e Inovação, com sede nos Estados Unidos.

Mas Frey mantém sua previsão, insistindo que o número não é tão chocante quando se considera que o processo pode levar duas décadas.

Os dois discordam sobre os números, mas concordam que mais máquinas estão chegando ao local de trabalho.

No ano passado, o número de robôs industriais vendidos no mundo atingiu um recorde de 179 mil, de acordo com a Federação Internacional de Robótica.

Alemanha, Japão e Estados Unidos tornaram-se grandes investidores em tecnologia automatizada, mas há sinais claros de intensificação do uso de máquinas mesmo em países onde o trabalho fabril, que costuma ter salários baixos, é comum.

A China, por exemplo, se tornou no ano passado o maior comprador mundial de robôs industriais. E, de acordo com Frey, as máquinas estão entrando na Índia também.

"A Nissan usa robôs industriais para a produção de seus carros no Japão", diz ele, "mas nós já estamos vendo exemplos do mesmo tipo de empresas tornando-se automatizadas na Índia."

Empresas em todo o mundo estão investindo em tecnologias que podem automatizar uma nova gama de postos de trabalho.

Na Alemanha, por exemplo, a empresa de robótica Kuka está testando uma câmera de TV sem cinegrafista para transmissão ao vivo que promete oferecer uma imagem livre de trepidação. A BBC já usa um sistema de câmera robótica diferente em seus estúdios.

Enquanto isso, no Japão, a fabricante de robótica Yaskawa produziu uma robô de dois braços que pode montar produtos em linhas de produção com destreza semelhante à humana.

A Foxconn, uma montadora de iPhones com base na China que emprega mais de um milhão de pessoas, disse à BBC que está investindo em tecnologias de automação para ajudar a absorver sua intensa carga de trabalho.

Mas não são apenas as máquinas físicas que estão em ascensão - software "bots", que simulam ações humanas repetidas vezes, também estão remodelando o local de trabalho.

Em março, o Los Angeles Times publicou automaticamente uma notícia de última hora, graças a um algoritmo que gera uma pequena reportagem quando ocorre um terremoto.

E o aplicativo de chamada de taxi Uber, tem a vantagem sobre os concorrentes de combinar automaticamente carros vazios com passageiros sem a necessidade de operadores humanos.
Travis Kalanick, fundador do Uber, já afirmou que poderá reduzir os custos ainda mais quando substituir a frota por veículos sem condutor.

Empregos 'em risco'

Frey diz que o desenvolvimento tecnológico só vai acelerar nos próximos anos.

Seu estudo de 2013 descobriu que, de uma amostra de 702 ocupações, quase metade corria o risco de ser informatizada.

Alguns trabalhos, como dentista, dependem de capacidade de diagnóstico avançada e, assim, são menos suscetíveis de substituição por uma máquina. Também são seguras profissões como treinadores esportivos, atores, trabalhadores da área social, bombeiros e, mais obviamente, padres.
Mas datilógrafos, agentes imobiliários e vendedores estão entre as ocupações consideradas com alta probabilidade de automatização no futuro, afirma.

"Fiquei um pouco surpreso quando chegamos ao número de 47%", ele disse à BBC.

"Mas a linha entre o homem e a máquina está se tornando cada vez mais tênue. Estamos vendo alguns trabalhos que já foram automatizados, mas ainda não na dimensão em que acreditamos que eles estarão nas próximas décadas."

Anos de expansão

O professor Atkinson observa que há "um verdadeiro temor de que nós estejamos rumando para a automatização de tanto trabalho que não haverá mais nada para as pessoas fazerem". Ele diz acreditar, no entanto, que essas preocupações sejam exageradas.

"Nossas estimativas internas são de que, na melhor das hipóteses, um terço dos empregos atuais poderia ser automatizada com a tecnologia existente hoje."

"Mas um dos erros que as pessoas fazem nesta teoria é que não fazem qualquer distinção entre as funções e os empregos."

"Uma máquina pode fazer uma determinada função, mas os trabalhos da maioria das pessoas envolvem várias funções diferentes. Você não pode automatizar todas as tarefas com uma única máquina."

Ele acrescenta que a automação só irá melhorar a vida das pessoas: "Meu argumento é que quando uma empresa reduz os custos, a receita extra irá inevitavelmente voltar para os acionistas e empregados. Isso aumenta os gastos do consumidor e cria mais empregos."

Frey concorda que tal cenário utópico é possível, mas argumenta que as empresas devem se planejar com antecedência para alcançá-lo.

"Os últimos 20 anos nos ensinaram que alguns locais se adaptaram bem à revolução do computador e alguns não."

"Muitos estudos têm mostrado como os computadores substituíram o trabalho em muitas das antigas cidades industriais, mas, ao mesmo tempo, esses computadores têm criado uma série de ocupações em outros lugares."

"Alguns prosperam com as mudanças, e outros não. Tudo depende de como você se adapta."

Texto e imagens reproduzidos do site: bbc.com

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Infelicidades contemporâneas

Mag Magrela/Reprodução.

Publicado originalmente no site da revista CULT, em 31 de maio de 2017.

Infelicidades contemporâneas.
Por Marcia Tiburi.

Falar da felicidade se torna um desafio quando muita gente tenta transformá-la em uma bobagem, uma caretice, um assunto do passado

Faz tempo que ando pensando na felicidade como categoria ética. Longe da felicidade publicitária, da felicidade das mercadorias, me parece necessário manter esse conceito em cena devolvendo-lhe ao campo da análise crítica contra a ordem da ingenuidade onde ele foi lançado. Justamente porque o tema da felicidade foi capturado na ordem das produções discursivas, falar da felicidade se torna um desafio quando muita gente tenta transformá-la em uma bobagem, uma caretice, um assunto do passado.

A felicidade é assunto do campo da ética. Em Aristóteles ela representa o máximo da virtude. Feliz acima de tudo é quem pratica a filosofia, mas na vida em geral, aquele que vive uma vida justa já pode ser feliz. Uma vida justa é uma vida boa, vivida com dignidade. Aquele que alcança um meio termo entre extremos e faltas sempre falsos, sempre destrutivos, sempre irreais, é alguém que pode se dizer feliz. A felicidade não é inalcançável, ela é busca bem prática que conduz a vida.

Hoje, depois de uma aula sobre o tema, uma aula crítica e analítica, daquelas que revoltam os ressentidos e fortalecem os corajosos, uma pessoa que se anunciou tendo mais de 80 anos, me abraçou e me disse, “sua aula me deixou feliz”. Eu também fiquei feliz.

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Fico pensando no que o termo felicidade pode ainda nos dizer, quando, por meio de uma deturpação conceitual, localizamos a felicidade nas mercadorias, quando a confundimos com fantasias e propagandas.

A felicidade sempre foi uma ideia e uma prática complexas. Sua complexidade remete a uma instabilidade inevitável. Em nossos dias, as pessoas falam muito da felicidade porque a desejam. E se a desejam é porque, de algum modo, podemos dizer que sonham com ela. Mas não podem pegá-la, comprá-la, obtê-la simplesmente e justamente porque ela não é uma coisa. Por isso, a ideia de felicidade não combina com a ideia de mercadoria. Como ideia, a felicidade é aberta e produz aberturas. Ela não cabe nas coisas, nem nas mais ricas, nem nas mais bonitas. Porque quando a felicidade está, ela é como a morte, as coisas, assim como a vida, já não estão.

Há, no entanto, coisas que nos lembram ou nos iludem da ideia de felicidade, mas sempre o fazem como um ideal ou um simulacro. Ninguém pode ser feliz plenamente, mas sempre pode buscar ser feliz em uma medida muito abstrata que, no entanto, nos conecta à outras utopias. Não é sem sabedoria que, em vez de pensarmos em uma única felicidade, começamos há muito tempo a pensar em felicidades no plural. Se não se pode ser feliz no todo, que se seja em lugares, em setores da vida. Que se realize a felicidade relativa, contra uma felicidade absoluta. Abaixo os absolutos, diz todo pensamento razoável.

Felicidades mil é o que desejamos àqueles que amamos. É um voto, apenas, um voto de fé que em tudo se confunde com a postura ética de quem deseja o bem ao outro. Felicidade, lembremos os filósofos antigos, era o sumo bem, o bem maior, o Bem com letra maiúscula. Uma coisa para inspirar, para fazer suportar as dores e sofrimentos da vida comum.

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A felicidade também se tornou complicada porque ela se apresenta como algo cada vez mais distante de nós. Inventamos uma felicidade idealizada demais. Não conseguimos saber muito bem porque ela some do nosso alcance, e esse distanciamento nos parece cada vez mais assustador. Ao mesmo tempo, ele torna a felicidade sempre mais misteriosa. Nesse contexto, a felicidade parece ser apenas uma questão de sorte, uma dádiva (não que isso deva ser jogado fora) e não uma construção social que depende de muitos jogos de linguagem, de saber e de poder.

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A felicidade sempre ficou no meio do caminho entre o desejo que temos dela e a impossibilidade de realizá-la na prática. A idealização da felicidade – culpa da própria má elaboração da ideia – levou a neuroses: viver coisas prazerosas, que trazem alguma felicidade, como se fossem desprazeres que geram infelicidades. Verdade que não podemos separar as felicidades dos prazeres e simplificar de tal forma que felicidade e prazer se tornem sinônimos. O prazer é tão complexo com a felicidade e não merece ser reduzido a ela, ainda que sempre possamos buscar analogias entre eles.

Na prática, na vida cotidiana, os menos neuróticos, digamos assim – aqueles que conseguem perceber a diferença entre felicidade idealizada e prazer material – tentam apegar-se aos  chamados pequenos prazeres sempre ligados ao bem-estar doméstico,  à modesta vida cotidiana. Vivemos uma época em que as utopias estão mesmo abaladas, talvez tenhamos de fato perdido o nexo com os idealismos, mas as idealizações e as fantasias estão, paradoxalmente em alta. É como se a nossa incapacidade de sonhar nos tivesse lançado em estados delirantes. A fantasia do cotidiano feliz por meio de casas bem decoradas, dos corpos esteticamente tratados, das roupas esteticamente corretas, que são também politicamente corretas tem se tornado uma espécie de verdade que atinge o cotidiano real e o virtual. Uma selfie felizinha tornou-se uma imagem da vida…

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Vivemos uma felicidade fantasiosa em tempos de desespero. Parece a única que restou. No entanto, o desespero é o contrário da felicidade que exige a nossa extrema capacidade de esperar por ela e de construir seu caminho (em termos cognitivos, a felicidade do conhecimento é o método). Se esperamos sentados não encontramos a felicidade, porque ela não nos busca. É por demais cultural para para sobreviver sozinha na natureza. Para encontrá-la é preciso projetá-la na imaginação, mas a imaginação sofre de colonização na era da publicidade e precisa ser liberada de amarras discursivas e teóricas. Portanto, o desafio é poder imaginar para além do do que está estabelecido.

De fato, a felicidade implica capacidade de sonhar com uma vida melhor – a ideia de prosperidade, não pode ser descartada do desejo do ser humano que vive e trabalha – e de agir em nome dessa potencialidade. Quando perdemos a capacidade de sonhar – de imaginar o melhor – podemos, com facilidade, passar a delirar. Mas o que é um delírio? É uma narrativa explicativa do mundo que nasce da deturpação do sonho. Há no delírio algo de ficção: poderia ser uma obra de arte, mas é apenas uma doença.

A hipótese que podemos levantar tendo isso em vista é que estamos nos realizando em delírios que caracterizam uma época infeliz, justamente pela impossibilidade de lutar pelo sonho e pela utopia.

Enquanto esquecemos a felicidade filosófica, ou a deixamos pra depois em nome da felicidade falsa das mercadorias transmitidas publicitariamente, nos relacionamos com muitas infelicidades que vem se ajustar no sistema delirante explicativo do mundo.

A infelicidade do nosso tempo é feita de todo tipo de desespero: preconceitos baseados em afetos tais como ódio, medo e inveja tomam conta. Nexos entre o autoritarismo e o fascismo de nossos dias se tornam visíveis nas fobias que proliferam e deixam em pânico os mais sensíveis.

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Preconceitos fazem parte de uma vida infeliz. É verdade que eles fazem parte da vida na qual há preconceitos de todo tipo, sempre desproporcionais em relação às diferenças, à singularidade. Uma vida que se autoquestiona eticamente, é aquela que tenta entender e superar preconceitos. Em geral, nessa superação, encontramos com a novidade da singularidade. É ela, essa condição diferente e única própria de cada pessoa, que devemos respeitar universalmente.

Em um aspecto profundo é o autoquestionamento ético que, ao nos ajudar a superar preconceitos, nos leva à felicidade.

Gostaria de propor, portanto, que pensássemos se não é a falta de questionamento sobre o que fazemos e sentimos, e sobre o que pensamos, sobre o que acreditamos, que nos leva à infelicidade. A infelicidade não seria, nesse sentido, um estado de irreflexão?

Ora, a felicidade é um estado da alma consquistado em diálogo com o mundo ao nosso redor. Diálogo é o que há de mais complexo, porque implica a presença da diferença. A presença das singularidades que respeitam e promovem singularidades. Ora, não há diálogo com o mesmo. Diálogo é um termo que implica sempre o outro. Diálogo, portanto, não é apenas uma prática isolada da linguagem. É uma postura ética que necessita do convívio, do ato de viver junto.

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Toda época tem os seus delírios e as suas infelicidades, e eu me atrevo a sugerir que pensemos sobre os principais delírios de nossa época: o delírio sexual do qual fazem parte a misoginia (da qual a transfobia é parte) e a homofobia,  o delírio racial que encontra sua expressão no racismo, o delírio de classe que encontra sua expressão no dogma capitalista. Mas sobre eles falarei em um próximo post.

Texto e imagem reproduzidos do site: revistacult.uol.com.br

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A importância de saber dizer ‘não’ aos filhos

Criação permissiva alimenta a 'síndrome do pequeno imperador' (Foto: Pixabay).

Publicado originalmente no site Opinião e Notícia, em 13 de agosto de 2017.

Filhos Mimados.

A importância de saber dizer ‘não’ aos filhos.

Psicóloga aponta que dificuldade em dizer 'não' aos filhos faz com que eles fiquem dependentes e os torna menos preparados para a vida adulta.

Pais de classe média que não conseguem dizer “não” aos seus filhos estão prejudicando a formação deles. É o que indica a psicóloga britânica especializada em desenvolvimento infantil Amanda Gummer. Para ela, esse tipo de comportamento permissivo faz com que os filhos estejam menos preparados para a vida adulta.

“Crianças desobedientes são cada vez mais propensas a serem filhas dos chamados ‘pais helicóptero’”, disse a psicóloga ao jornal britânico Daily Mail. “São aqueles pais que dão atenção intensiva e individualizada para seus filhos e paciência para todos os seus caprichos, alimentando a ‘síndrome do pequeno imperador’”, explica Gummer.

Com base em sua experiência trabalhando com professores de escola primária, a psicóloga afirma que muitos professores consideram que o mal comportamento em sala de aula não decorre dos próprios alunos, mas de seus pais. Além disso, destaca que a atitude e o comportamento de pais de classe média é mais espantoso que dessas crianças.

Para alguns pais, a dificuldade em dizer ‘não’ aos seus filhos é tão grande que chega provocar situações inusitadas. Recentemente, o colunista do jornal Globo Ancelmo Gois publicou um caso no Rio de Janeiro de uma mãe que pediu para que um tradicional colégio no bairro da Tijuca, Zona Norte, proibisse a presença de pipoqueiros na porta durante a entrada dos alunos, para que seu filho não pedisse mais que ela comprasse pipoca. Tudo isso porque a mãe simplesmente não conseguia dizer não. Esse é um típico exemplo de “pai helicóptero”.

“Eles são implacavelmente ambiciosos em relação ao futuro dos seus filhos – sem imaginar o quão ruim o mimo é na preparação deles para os compromissos da vida”, afirmou Gummer.

Ela ainda alerta que esse estilo de criação pode gerar crianças incapazes de tomar decisões ou de mostrar independência, mas destaca também que é pouco discutido o quão agressivos e difíceis de lidar os filhos de pais helicóptero podem ser na escola. “Essas crianças têm dificuldades em sala de aula porque não aceitam a possibilidade de não serem a ‘número 1’”, diz a psicóloga.

Um estudo recente do Departamento de Educação da Inglaterra revelou que pelo menos 35 crianças por dia são expulsas da escola por mau comportamento, sendo quase um quinto delas de alunos da escola primária. Para Gummer, esses números podem ser resultado de má educação dos pais. “Muitas dessas crianças nunca ouviram a palavra ‘não’ direcionadas a elas em casa”, diz Gummer.

Além disso, outros estudos sugerem que pais que exercem muito controle sobre a vida das crianças podem causar-lhes sérios danos psicológicos mais tarde.”Crianças precisam de regras, limites e oportunidades de sentir frio, fome, cair e se machucar, para assim aprender com seus próprios erros”, conclui a psicóloga.

Texto e imagem reproduzidos do site: opiniaoenoticia.com.br

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

“Escrever é a minha cachaça”

Na redação do Jornal da Tarde. São Paulo, 1968. (Foto: Arquivo Pessoal).

 Aos 13 anos, na fazenda de seu pai. (Foto: Arquivo Pessoal).

Luiz Vilela hoje. Aos 74 anos, está há mais de seis décadas escrevendo.
 Foto: Arquivo Pessoal.

Publicado originalmente no site da revista Brasileiros, em 20/04/2017 

“Escrever é a minha cachaça”

O hoje clássico “Tremor de Terra”, primeiro livro, de contos, de Luiz Vilela, um de nossos melhores escritores, completa 50 anos e tem nova edição lançada, depois de tempos fora de catálogo. Para comemorar, fizemos 50 perguntas ao autor

Por Daniel de Mesquita Benevides 

Luiz Vilela é o mineiro arquetípico: escreve quieto, mas o que escreve fala alto. E diz muito, ainda que sempre em poucas palavras. A depuração é uma marca evidente. Antonio Candido chegou a falar na “absoluta pureza de sua linguagem”. Por isso, seu estilo é enganosamente simples. Além do rigor formal, trai nas entrelinhas a formação em filosofia. Há uma aura existencialista nos personagens, sejam eles homens do povo, sejam intelectuais. O banal em suas histórias tem um vago sabor metafísico. Já a solidão é uma presença constante e a morte surge como motivo de angústia, descaso ou riso. Por outro lado, a falta de assunto pode ser matéria de diálogo, assim como o excesso dele parece levar ao silêncio ensimesmado – ou à conversa com um cachorro abandonado. Diálogo, aliás, é, por unanimidade, o ponto forte de Vilela. Suas conversas soam reais a ponto de colocarem o leitor em cena, como ouvinte.

Nascido em Ituiutaba, no último dia de 1942, Vilela começou a escrever aos 13 anos, depois de ver um meteoro atravessar o céu. A casa sempre cheia de livros também foi um grande estímulo. Aos 14 já era publicado no jornal da cidade. Foi morar em Belo Horizonte e depois mudou-se para São Paulo, onde trabalhou como redator e repórter no Jornal da Tarde. Tremor de Terra foi publicado em 1967, à sua custa, depois de  Vilela ser recusado por várias editoras. O escritor tinha 24 anos. Graficamente modesto, mas literariamente ambicioso, o livro começou ganhando o maior concurso literário brasileiro da época, o Prêmio Nacional de Ficção, desbancando nomes consagrados como Osman Lins e Mário Palmério, o que provocou controvérsia e o tornou conhecido. Tremor foi sempre elogiado, de Stanislaw Ponte Preta a Clarice Lispector, assim como praticamente todos os demais livros do autor, que incluem romances, contos e novelas. Há inúmeras dissertações e teses sobre sua obra, que tem várias traduções no exterior. O Fim de Tudo, quarta de suas antologias de narrativas curtas, ganhou o Jabuti em 1974. A Cabeça, de 2002, foi finalista do Portugal Telecom e aparece em pelo menos duas listas de melhores livros brasileiros na imprensa especializada. O romance Perdição venceu o Pen Clube do Brasil em 2012 e Você Verá, outra seleção de contos, foi agraciada pela Academia Brasileira de Letras, dois anos depois. Algumas de suas histórias foram adaptadas para cinema e também TV, na Rede Minas, Cultura e Globo.

Na conversa a seguir, realizada por e-mail, Vilela se dispôs a responder a  50 questões, para rimar com os 50 anos de Tremor, que agora ganha nova edição, assim como boa parte de sua obra, que vem sendo relançada pela Record. Generoso e bem-humorado, ele fala de quando tropeçou em García Márquez, aborda os temas principais de seus livros, cita trechos elucidadores, conta causos, fala de sua rotina em Ituiutaba, para onde voltou depois de um período nos EUA e na Europa, tenta explicar a arte do diálogo, lembra da amizade com Murilo Rubião e João Antonio e comenta o momento atual da literatura.

CULTURA!Brasileiros – No dia 20 deste mês seu livro de estreia,Tremor de Terra, completa 50 anos. O que isso significa para você?

Luiz Vilela – Significa muito, é claro. Sou naturalmente suspeito para falar, mas acho que o Tremor chega aos 50 anos sem uma ruga, sem um fio de cabelo branco. Ou seja, acho que ele não envelheceu nada, que ele conserva o mesmo frescor e o mesmo vigor de quando foi publicado.

E como foi a carreira do livro, que chega agora à décima edição?

Não posso me queixar. Muita coisa boa aconteceu com ele ao longo desse tempo: reedições, contos traduzidos, participação em antologias, inclusão em livros didáticos e listas de vestibular, tema de dissertações de mestrado e de teses de doutorado, adaptações para o cinema e o teatro, quadrinhos, etc. Ultimamente ele foi descoberto por jovens na Internet. Um deles, uma moça, leu-o por indicação de um escritor e fez no seu blog uma resenha a que deu o título de “Tremor de Terra de Luiz Vilela deveria sacudir o País”. Não ambiciono a tanto, mas me daria por satisfeito se ele, como fez até hoje, continuasse a sacudir alguns corações e algumas mentes…     

Você escreve com prazer ou escrever é para você um processo penoso?

Escrever é muito difícil, sempre foi e continua sendo, mas é o que eu mais gosto de fazer na vida. Comecei a escrever aos 13 anos e estou com 74. Já são, portanto, mais de 60 anos escrevendo, sem falhar um ano. E não tenho nenhuma intenção de parar. Às vezes conhecidos meus me perguntam na rua se eu continuo escrevendo. Eu respondo que sim e acrescento: “Escrever é a minha cachaça…”

Como você chegou a esse estilo enxuto?

À custa de muito trabalho, de escrever e reescrever o texto infinitas vezes. Eu não tenho pressa. Não se pode ter pressa. A pressa, diz o provérbio, é inimiga da perfeição, e perfeição é o que eu busco nos meus escritos.

E esse ouvido apurado para o diálogo?

“Qual é a receita para se escrever um bom diálogo?”, me perguntou uma moça com pretensões a escritora. “Olha”, eu respondi, “eu, que sou mineiro, não sei nem a receita para se fazer um bom pão de queijo, quanto mais a receita para se escrever um bom diálogo.” “Não, mas diga pelo menos alguma coisa”, ela insistiu. “Bem”, eu então disse:“Para se escrever um bom diálogo é preciso, antes de mais nada, entrar na alma dos personagens; sem isso, não é possível escrever um bom diálogo”. “E como eu faço para entrar na alma dos personagens?”, ela perguntou. Eu pensei um pouco, olhei para ela e disse: “Sabe? Eu estou achando que é melhor você procurar a receita do pão de queijo…” Ela riu e mudou de assunto. 

Você já tentou a poesia?

Na adolescência, e depois também, eu escrevi alguns poemas, mas nunca pensei em me dedicar à poesia. Num dos poemas, dos 15 anos, eu, que havia passado por alguns problemas de saúde, pergunto à morte: “Até quando serei a caça perseguida, / e nunca pega, / e nunca abandonada?” Em outro poema, da mesma época, quando eu ainda tinha fé religiosa, eu me dirijo a Jesus: “Essas mãos, que todos os dias prego na cruz, / são as mesmas que todos os dias me abençoam.”

E teatro?

Nos meus começos, eu escrevi de tudo. O teatro não poderia faltar, como de fato não faltou. Aos 14 anos escrevi uma peça de duas páginas datilografadas, intitulada Diálogos, com dois personagens, Plácido e Simplício, nomes, penso eu hoje, remanescentes de alguma coisa que li sobre a comédia latina. Plácido é candidato a prefeito e explica a Simplício: “Basta fazer um pouco de marmelada, inventar umas mentiras, conseguir alguns capangas e já se está no poder.” Três meses depois publiquei num  jornal da cidade um pequeno artigo intitulado “Reformar e revigorar a nossa política”. Nele eu dizia: “Suja (a política) porque os políticos, na maioria indivíduos corruptos e corruptores, desvirtuam-na, fazendo dela um palco onde se representam as mais torpes canalhices.” Alguma semelhança, por acaso, com os dias atuais?…

E as crônicas que, aos 15 anos, você mandava semanalmente de Belo Horizonte para o jornal de sua cidade?

Eu gostava muito de escrevê-las e, é claro, de vê-las publicadas. Eram crônicas com qualidade literária, como qualquer um poderá comprovar. Eu lera na época, em jornais, revistas e livros, todos os nossos grandes cronistas: Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Drummond, Bandeira, Rachel de Queiroz… Fora o prazer da leitura, aprendi muito com eles.

Além da extensão, quais as diferenças entre conto, novela e romance? Você tem preferência por algum deles?

Existem, sim, diferenças entre os três gêneros, mas explicá-las aqui seria demorado e tedioso. Quanto à preferência, eu não tenho. Gosto igualmente dos três e sempre escrevi os três. Para ficar só nos últimos tempos, em 2011 publiquei o romance Perdição, em 2013 a coletânea de contos Você Verá e em 2016 a novela O Filho de Machado de Assis. E a quem interessar possa, informo que o meu próximo livro, já escrito, é um romance.

Eu soube que em sua casa, na infância, havia sempre muitos livros…

É. Todos em casa, meus pais e meus cinco irmãos, gostavam muito de ler, e, assim, havia, como costumo dizer, livros por toda parte. Havia livros até no galinheiro, como já contei uma vez, e não era brincadeira, pois havia mesmo lá, na casinha das galinhas, um velho armário de madeira onde estavam alguns livros. Como foram parar lá, eu não sei, nem, como também já disse, se as galinhas os liam…

Seus pais escreviam?

Não. Eles não tinham pretensões literárias. Mas tinham, isto sim, a preocupação de escrever bem, e escreviam. Os dois tiveram muito boa formação escolar. Meu pai estudou com os padres salesianos em Cachoeiro do Campo e Lorena, formando-se em Agronomia, em Niterói, pela Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária. Minha mãe estudou com as freiras dominicanas em Uberaba, no Colégio Nossa Senhora das Dores, formando-se no curso Normal.

E o curso de Filosofia, como foi?

Eu aprendi muito pouco no curso de Filosofia, e o que aprendi poderia ter aprendido sem fazer o curso, apenas com a leitura dos livros, já que a maior parte dos professores se limitava a repetir o que estava neles. O que mais aprendi de filosofia foi o que eu, desde a adolescência, li por conta própria. Alguns dos filósofos e pensadores que eu então e depois li, como Kierkegaard, Nietzsche e Unamuno, tiveram profunda influência em minha vida e em minha obra.

Como foi o tempo da revista Estória?

Os anos 1960 foram, em Belo Horizonte, um tempo de grande efervescência literária. Além da Estória, que em 2015 completou 50 anos de criação e mereceu uma edição especial do Suplemento Literário de Minas Gerais, que, aliás, surgiu um ano depois da revista, houve também o Texto, outra publicação que eu também criei, com mais dois companheiros, e que no ano passado completou também 50 anos de criação. Texto teve muita repercussão. Na Revista Civilização Brasileira, então a melhor revista de cultura do País e politicamente a mais corajosa, o historiador e crítico Nelson Werneck Sodré dedicou a ele um longo e elogioso comentário.

E o período que você passou nos Estados Unidos?

Eu fui para os Estados Unidos convidado a participar do International Writing Program, um programa que reunia em Iowa City, Iowa, por nove meses, escritores de várias partes do mundo. Eu estava com 25 anos. O programa foi ótimo. Além de conhecer um país estrangeiro e de conviver com escritores de várias nacionalidades, eu dispunha lá de todo o tempo, e pude, assim, terminar o meu primeiro romance, Os Novos, que eu havia começado três anos antes em Belo Horizonte e interrompido quando fui para São Paulo trabalhar no Jornal da Tarde.

Dos Estados Unidos você foi para Dublin, por causa de James Joyce…

Joyce era, e continua a ser, uma de minhas grandes admirações na literatura. No Brasil eu já havia lido quase toda a obra dele, e então, nos Estados Unidos, com o fim do Programa e alguns dólares no bolso,  resolvi conhecer a Europa, e o primeiro lugar que me veio à mente foi Dublin.

Você passou, depois, uma temporada em Barcelona.

Sim, e foi uma temporada muito agradável. Em Barcelona eu comi muita paella a la valenciana, vi o Museu Picasso, as obras do Gaudí e uma corrida de toros com o Antonio Ordóñez. E num fim de tarde em que eu ia passando pelo centro, vi, na porta de uma livraria, um sujeito muito parecido com o García Márquez, que eu sabia estar residindo na cidade. Parei, aproximei-me dele e perguntei: “Éres García Márquez?”. “Sí”, ele respondeu. Aí me apresentei como um escritor brasileiro e batemos um bom papo.

Seus contos, e mesmo as novelas e os romances, parecem às vezes não ter propriamente um final, mas apenas uma interrupção, como se você quisesse eliminar da trama qualquer resquício de artificialidade.

É isso mesmo. Eu fujo do artificial, na literatura e na vida.

Aliás, a trama parece ter menos importância do que os diálogos e as divagações.

Não, a trama não tem menos importância. Trama, diálogos, divagações, tudo tem a mesma importância.

Nas suas histórias o banal ganha dimensões metafísicas.

Dimensões metafísicas talvez seja um pouco exagerado, mas o banal está de fato presente em algumas de minhas histórias. No Perdição, o narrador, a certa altura, diz: “Mas o que não é banal? Tudo é banal: as coisas, as pessoas, a vida… Tudo é banal…”

Há também a dificuldade de comunicação entre os personagens, por mais que eles conversem.

Há, há isso. Sobretudo nos meus três primeiros livros, de contos, o Tremor de Terra, o No Bar e o Tarde da Noite. No conto No Bar, que dá título ao livro, o personagem diz a outro: “Você sabia que a gente só ouve a própria voz? E que eu já chorei por causa disso? E que eu também já ri por causa disso?”

A solidão também é um tema recorrente.

Sim. “Há solidão até nas coisas”, diz Nicolau, o personagem de minha novela O Choro no Travesseiro. Não sem motivo, é Edward Hopper um de meus pintores preferidos. Antes de conhecer as pinturas dele, eu, quando jovem, gostava muito do nosso Pancetti. Gostava e continuo gostando.

A morte…

Com a palavra, mais uma vez, um personagem meu, agora o Walter, do conto Os Mortos que Não Morreram, do Tarde da Noite: “A morte? A morte não interessa. A morte não tem importância. A morte é apenas o fim.”         

E os bichos?

Ah, os bichos… Que triste seria a vida sem os bichos, eu disse uma vez e digo novamente aqui. Eu sempre os tive em casa, desde menino: cães, gatos, passarinhos. Mais tarde, quando adquiri um sítio, passei a ter vacas, porcos e cavalos. Eu não poderia, pois, ficar sem escrever sobre os bichos, e lá estão, nas páginas de meus livros, os cachorros Corisco, Bebé e Chicão, o galo Filomeno, o cágado Adalberto, o morcego Jonathan, o urubu Valdivino, a lagartixa Zoiuda… A fauna é variada… E vem mais bicho por aí, no meu próximo livro…

E a religião? No Perdição e em outros livros seus há uma crítica às religiões.Você atualmente tem alguma religião?

Não, não tenho. Meus pais eram católicos e eu fui educado no catolicismo. Fiz a primeira comunhão, estudei em colégio de padres e tudo o mais. No começo da juventude, eu perdi a fé, como então se dizia. Hoje não tenho mais religião nenhuma. Nem religião, nem qualquer espécie de crença em alguma divindade ou na sobrevivência de algo depois da morte.

Por último, o humor…

“Rir é o melhor remédio”, diziam, no título, as páginas de anedotas dos velhos almanaques de farmácia. Ou então Rabelais: “Rions, rions, que le rire est propre de l’homme”.       

Seu primeiro romance, Os Novos, foi lançado em 1971 por uma pequena editora, porque outros editores temiam represálias da ditadura. Foi também um livro que dividiu opiniões, já que muita gente de sua geração se viu retratada e não gostou. O que você sentiu quando foi atacado por Os Novos?

Senti o que qualquer autor sentiria quando atacado por um livro seu. Eu não gostei, evidentemente. Mas o que na ocasião me deixou mais chateado foi que os ataques partiram sobretudo das pessoas de quem eu mais esperava compreensão, ou seja, os meus companheiros de turma literária. Anos mais tarde, Wilson Martins, numa de suas colunas de crítica no Jornal doBrasil, lembrou, com razão, que o livro, “segundo se diz, deixou de mau humor não poucos de seus modelos, se não todos.”

E em relação a O Inferno É Aqui Mesmo, que foi taxado de “vingança pessoal” por um colega do Jornal da Tarde?

Eu já disse, e aqui repito pela enésima vez, que meu romance não é uma vingança contra ninguém nem contra nada e que eu guardo de meus tempos no Jornal da Tarde as melhores lembranças. Em 1993, em um número especial sobre escritores e jornalistas mineiros, lançado por ocasião de um evento em Belo Horizonte, a revista IstoÉ, falando a meu respeito, disse que o Inferno “até hoje costuma atormentar seus companheiros da época”. Isso quando já haviam se passado quase 15 anos da publicação do livro. E agora, que já se passaram quase 40, será que há ainda alguém atormentado com ele? Espero que não…

Como você vê a crítica em geral?

A crítica é necessária. Ela faz parte do jogo. Dela já recebi, ao longo de minha trajetória, confetes e pedradas. Mais confetes do que pedradas, mas já recebi os dois e acho que nenhum escritor até hoje recebeu somente um deles.

E os trabalhos acadêmicos sobre a sua obra?
 
Dos que eu consegui ler até o fim, alguns são razoáveis. Poucos, bem poucos eu chamaria de bons. O que neles particularmente me irrita, quando não me faz rir, é o excesso de interpretações. Eu até já criei uma palavra para isso: interpretose. Interpretam tudo, cada detalhe do texto, e aí, é claro, acabam vendo chifre na cabeça de cavalo. A menos que seja um unicórnio, né?

Vilela em seu sítio, 1984. Foto: Arquivo Pessoal

Por que os brasileiros, e especialmente os mineiros, são tão bons no gênero conto?

Bem, falando apenas dos mineiros, o que  eu posso dizer é que o mineiro gosta muito de contar histórias. Eu até já escrevi sobre isso para um guia de viagens, o Guia Brasil. Meu texto se intitula exatamente “Contar histórias”. Nele eu menciono uma palestra que fiz em São Paulo, na qual eu disse que, se o mineiro não contar histórias, ele fica doente, e lembro que depois, na Flip de 2004, da qual participei, entrevistado por um repórter da revista de domingo do Financial  Times, fui mais incisivo e disse que, se o mineiro não contar histórias, ele fica doido. Lá está, na revista: “’Mineiros who don’t recount casos go crazy’, he says. ‘Telling stories is our way of exorcising madness.’”

Ainda sobre conto, no ano passado foi comemorado o centenário de nascimento de Murilo Rubião…

Sim. Embora com uma diferença de idade de mais de 20 anos entre nós, Murilo e eu fomos muito amigos. Por causa do Suplemento Literário, de que foi ele o criador, nos encontramos muitas vezes em Belo Horizonte, quando eu ainda estava lá ou quando eu, depois, lá ia. Sempre atencioso, Murilo foi praticamente a todos os meus lançamentos. Tenho várias fotos em que estamos juntos e algumas cartas dele. De vez em quando ele me mandava também algum bilhete, como este, de 1968, num cartãozinho, cobrando um conto que eu havia prometido para o jornal: “Vilela, velho de guerra, os leitores não podem esperar muito. Muito menos este seu amigo e colega. Fogo na canjica e apareça logo. Abraços. Murilo.” Em 1979, numa edição especial da Manchete, dedicada a Minas, Joel Silveira, escrevendo sobre as “novas gerações culturais” do estado, disse: “Quando, por exemplo, um Roberto Drummond, um Wander Piroli ou um Luiz  Vilela chama Rubião de mestre, o qualificativo é expresso com bom humor, jamais com ironia. Pois mestre Rubião é.”

E os escritores, também mineiros, Roberto Drummond, Oswaldo França Júnior e Wander Piroli? O que você teria a dizer sobre eles?

Principalmente que foram três grandes amigos meus, três grandes amigos que eu perdi e dos quais sinto muito a falta. Os três tinham personalidades bem diferentes, mas eu me dava bem com todos. Temo que, como tantos outros escritores dessa geração que também já morreram, eles hoje quase não sejam mais lidos. É triste, o escritor morre e vem logo o esquecimento…

Outra data lembrada no ano passado foi a dos 20 anos da morte de João Antônio. Vocês se conheceram?

Sim, nos conhecemos e fomos amigos. Nos encontramos a primeira vez em 1968, em São Paulo, quando eu trabalhava no Jornal da Tarde. Depois disso, tivemos vários outros encontros: em São Paulo de novo, no Rio, em Belo Horizonte e até em Ituiutaba, quando, por indicação minha, ele foi convidado para uma feira de livros. Ele veio, almoçou um dia lá em casa (“louvor e gratidão ao tutu e à linguiça de dona Aurora”, disse depois, gentilmente, numa carta) e, como não podia deixar de ser, passamos um fim de tarde jogando sinuca, esporte de que éramos fãs incondicionais e que entrou para os nossos livros. Voltando à tal carta, no final ele escreveu: “Eu continuo na minha romançaria braba e sem jeito. Pretendo morrer assim, companheiro. Depois, naturalmente, de viver uma velhice irresponsável”.  Ele não chegou à velhice, morrendo poucos meses antes de completar 60 anos. “Abraços os mais anarquistas”, terminava a carta, bem ao seu estilo.

E os autores de hoje, você acompanha?

Acompanho as notícias, mas ler os livros é quase impossível. Se eu fosse ler só os que os autores me enviam, já não sobraria tempo para eu fazer mais nada.

Qual é a sua opinião sobre as oficinas de criação literária?

Em resumo, uma oficina não faz um escritor, mas pode, sim, ajudar um escritor a se fazer.

Você já deu muitas palestras ao longo de sua carreira…

Sim, mas palestras no sentido genérico em que se usa hoje essa palavra no meio literário. Só uma vez levei por escrito um texto meu, que li para a plateia. Foi em 1978, no XII Encontro Nacional de Escritores, em Brasília. O texto, “Por que escrevo ficção”, foi mais tarde publicado no Suplemento Literário do Minas Gerais. Meu mediador na palestra foi o Paulo Rónai. Paulo Rónai, veja só, Paulo Rónai, em cujo livro didático de francês, dele e de Pierre Hawelka, Mon Second Livre, eu, aos 12 anos, na segunda série do curso ginasial, em minha cidade, estudara. E agora ali estava ele ao meu lado, em carne e osso, mediando uma palestra minha… Quanto aos debatedores, um de cada lado da mesa, foram o Antonio Carlos Villaça e o Cyro dos Anjos. O encontro foi gravado e eu conservo em meus arquivos essa preciosa fita. Iniciando sua fala, Villaça, em tom descontraído, diz: “Na última fila, estão lá, conversando baixinho, Murilo Rubião e Samuel Rawet, dois grandes criadores, dois grandes ficcionistas”.  Ouvindo isso hoje, é como se eu estivesse vendo de novo os dois escritores, lá no fundo do auditório. Pois é… Murilo, Rawet, Villaça, Cyro, Rónai, todos já se foram…

Qual é o seu livro preferido?

Não gosto muito desse tipo de pergunta. Mas vá lá… Meu livro preferido é a Bíblia. Isso daria até manchete, hem? “Escritor ateu declara que seu livro preferido é a Bíblia”… Por causa de minha educação católica, eu tive desde muito cedo contato com a Bíblia.  Aos 13 anos, na ânsia de tudo conhecer, eu não só a quis ler, como também ter uma. Juntei então meu dinheirinho e fui ao salão paroquial. Um padre, que já me conhecia do ginásio, me atendeu. Eu disse que queria comprar uma Bíblia. “É para quem?”, ele perguntou. “Para mim”, eu respondi. Ele arregalou os olhos e ficou ali parado, sem saber o que fazer. Então, sem dizer mais nada, foi lá dentro e buscou uma Bíblia. Eu paguei e fui embora, levando comigo a Bíblia, que até hoje tenho.

Você disse numa entrevista que pretendia ler os Sermõescompletos do Padre Antonio Vieira.

Pretendia e pretendo ainda, mas, a essa altura do campeonato, não sei se conseguirei realizar tal intento. Vieira é uma de minhas maiores admirações literárias. Eu o li a primeira vez no ginásio, numa antologia de português. Foi o célebre trecho sobre Santo Inácio de Loyola.  Depois li no Diário, jornal de Belo Horizonte, que meu pai assinava, o sermão do “Bom Ladrão”. Gostei muito e até anotei num caderno algumas frases. Nessa época a Editora das Américas lançou, em vários volumes, a coleção completa dos Sermões. No entusiasmo dos meus 14 anos, pedi a papai que a comprasse.  Ele, sempre comedido nos gastos, e com razão, pois não era rico e tinha seis filhos por educar, não titubeou e, para a minha grande alegria, comprou a coleção. É a coleção que eu tenho e da qual já li alguns volumes.

Antonio Candido disse que a sua força está no diálogo e também na “absoluta pureza de sua linguagem”. Como vai a nossa linguagem escrita?

Mal, muito mal. É um massacre diário. Nos jornais, nas revistas, na publicidade, nos comunicados, nos contratos, nos anúncios, nos avisos, na Internet, em tudo. Um massacre. São erros de concordância, de regência, de vocabulário, fora os cacófatos, os pleonasmos e tudo o mais. Um massacre.

Você ficou incomodado com alguma das várias adaptações feitas de seus contos para o cinema e a televisão? Por outro lado, gostou em particular de alguma?

As adaptações já somam, a essa altura, mais de uma dúzia. As autorizadas, pois há as não autorizadas, que circulam pela Internet. Destas, só de um conto, o Fazendo a Barba, eu já vi três. Quanto às adaptações autorizadas, eu gosto especialmente de duas: Françoise, com a Débora Falabella, e A Cabeça, com a Giulia Gam. Uma adaptação com bons momentos, e as ótimas interpretações de Daniel Dantas, Lília Cabral e Maitê Proença, é Tarde da Noite, dirigida pelo Roberto Farias e levada ao ar pela Globo na série “Brava Gente”.

E adaptações para o teatro?

Houve também algumas. Ainda no ano passado, um grupo de teatro do Rio, o Tábula Rasa, apresentou lá o espetáculo Chuva, uma montagem de cinco contos meus.

O que você achou do Prêmio Nobel de Literatura dado a Bob Dylan?

Eu nunca pensei em ganhar o Prêmio Nobel, mas, depois de vê-lo concedido ao Dylan, fiquei mais animado e já estou até pensando em contratar um professor para me ensinar a tocar guitarra. O que vocês acham?

Outra notícia que ocupou a mídia no fim do ano passado foi a morte de Fidel Castro. Em 1991 você esteve em Cuba como jurado do Premio Casa de las Américas. Você conheceu lá o Fidel?

Sim, conheci. Ao término de nossos trabalhos com o prêmio, fomos convidados para um jantar no Palácio de la Revolución. Fidel, em seu habitual traje militar, nos recebeu na entrada, apertando a mão de cada um, a quem era apresentado por um escritor cubano. Ele não participou do jantar, mas no final, vindo de dentro e acompanhado de guarda-costas, apareceu de novo. De pé, cercado pelas pessoas, ficou mais de uma hora no salão respondendo a todo tipo de pergunta. Então se despediu e voltou, com os guardas-costas, para os seus aposentos. Nós, os escritores e demais convidados, continuamos ainda por algum tempo no salão, batendo papo, bebendo vinho e fumando charuto…

Depois de viver em Belo Horizonte, São Paulo, Iowa City e Barcelona, por que você decidiu voltar para Ituiutaba?

Há sobre isso várias versões: que eu vim no encalço de uma bela mulher, que eu vim por desilusão com o mundo lá fora, que eu vim para me tornar fazendeiro… Antes de me decidir por alguma delas, eu gostaria de ouvir a versão da Bissa, a minha personagem de O Filho de Machado de Assis, para quem o escritor teve uma filha e esta se chamava Carolina…

Como é hoje a sua cidade?

Carros. Carros e mais carros. E motos. Motos e mais motos. Assim é hoje a minha cidade.

E como é o seu cotidiano?

Eu moro atualmente sozinho e passo a maior parte do tempo em casa, escrevendo, lendo, ou cuidando de alguma coisa.

Você participa das redes sociais?
Não, não participo, nem tenho nenhuma intenção de participar. Estar o tempo todo conectado? Que horror…

Ituiutaba o prestigia como escritor?

Digamos, mineiramente, que, de um modo geral, mais ou menos, e até certo ponto sim…

Nas informações biográficas de seus livros há uma menção a um meteoro que em 1956 cruzou os céus de sua cidade…

Na verdade foi um meteorito, como vim a saber há pouco tempo, e não um meteoro. Ele foi batizado de Migomaspa, por ter atravessado, num percurso de 800 quilômetros, quatro estados: Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e São Paulo. Num diário meu, dos 13 anos, em 3 de junho de 1956, às 18h25, eu anotei: “Estava penteando o cabelo para ir ao Cine Capitólio, quando minha mãe disse: ‘Luiz, muitas pessoas estão olhando para o céu, que será?’ Saímos eu e ela para vermos o que havia acontecido. Olhamos para o céu e vimos um rolo de fumaça que se ia alongando e afinando, até perder-se de vista. Perguntamos a algumas pessoas que estavam na calçada o que viram. Disseram-nos que tinham visto uma bola de fogo e logo depois o rolo de fumaça. Segundo a opinião do povo e de professores, o fenômeno não passava de um meteoro.”

Qual é o lugar da literatura no século XXI, numa sociedade dominada pela cultura de massa, pelas novas mídias e pela economia de mercado?

Não sei qual é o lugar, mas qualquer que ele seja, grande ou pequeno, ou até mesmo lugar nenhum, eu acho que enquanto existir o homem existirá a literatura. Bem, eu talvez não ache tanto assim, mas não custa, em tempos tão sombrios como os nossos, terminar a entrevista com uma nota de otimismo, não é?…

Texto e imagens reproduzidos do site: brasileiros.com.br

Larissa Erthal Bate um Bolão

Foto: André Nicolau.

Publicado originalmente no site da revista Status, em 15/09/2015.

Larissa Erthal Bate um Bolão.

Muito além do que só entender das misteriosas leis do impedimento, a atriz e jornalista invadiu a área machista do futebol para se tornar a mais interessante das apresentadoras de programas esportivos do País.

Por Ronaldo Bressane 

Torcedora da Portuguesinha da Ilha do Governador (RJ), descendente de alemães, a carioquérrima Larissa Erthal é a bola da vez entre as musas do futebol do Brasil. Apresentadora de dois programas na Band, a bela trata com intimidade a bola – e não deixa de dar suas “botinadas” nos panacas que abusam de seu jeitinho ao tratar o machismo anacrônico ainda impávido no mundo do futebol brasuca. Com delicadeza e humor, a atriz e jornalista conta: “Sou carne de pescoço. Precisou, dou patada mesmo!”. Mas o futebol apareceu em sua vida quase que por acaso – o pai mal a levou ao Maracanã quando criança. Desiludida com as artes cênicas, depois de morar nos EUA, Larissa terminou a faculdade de comunicação e teve a sorte de pegar um estágio na TV já como apresentadora; apaixonou-se pelo jornalismo esportivo e foi convidada a substituir a musa boleira Renata Fan. Hoje vive na ponte aérea: durante a semana no Rio para o Jogo Aberto, aos findes em SP para o Terceiro Tempo – ela aproveita a estada paulistana para conferir as peças em cartaz. Na vida pessoal, porém, Larissa mantém distância do futebol. Moradora do mesmo prédio que o atacante Emerson Sheik, do Flamengo, brinca que “teve a sorte” de nunca encontrá-lo no elevador. Defensora do poder da gentileza, da levada e da simpatia, Larissa pede atenção ao ensino do futebol na infância para combater a corrupção na CBF e “ensinar o povo a respeitar a amarelinha” – e também condena a sisudez e a violência nas discussões esportivas. “É só um jogo, gente!”

Como é aturar as gracinhas de Milton Neves e companhia?
– Na TV ele é um personagem, o tiozinho sem noção. Fora das câmeras, nunca faltou ao respeito. É a pessoa mais generosa com quem trabalhei. Mesmo quando faz uma piada sem graça ou uma brincadeira fora do tom, a gente leva ele como aquele vovozinho que conta dez vezes a mesma história (risos), tem que ter paciência com o tempo das pessoas mais velhas (risos).

E lidar com o machismo futebolesco?
– Sou carne de pescoço, fora do ar eu pego pesado, chego até a ser baixo nível. Faz parte dessa brincadeira. E gostam de mim porque não me intimido. Mas no meu interior às vezes fica: ‘Eu não falaria isso’. Já respondi tipo ‘É mesmo? Quer me comer? Mas sem Viagra você não é de nada, vai fazer o quê comigo?’. Brincadeiras que nem têm a ver comigo, não faria com meus amigos.

Rola assédio?
– Não. Falam bobagem mais para testar meu limite.

Nem de boleiros?
– Nunca encontro esses caras, não vou a externas, não vou a festas. Engraçado é que moro no mesmo prédio do Sheik (risos), mas nunca nem peguei elevador com ele. Sorte a minha (risos). Nenhum jogador de futebol nunca me faltou com o respeito.

Já foi cobrada por feministas por ser legal demais com seus colegas de trabalho?
– Me encheram muito o saco na época em que jurei que ia tirar a roupa no ar se o Brasil não ganhasse a Copa [ela só tirou um casaco].
Mas é claro que era uma brincadeira em que eu estava superconsciente. Não consigo ver as coisas de modo tão pesado; eu estava fazendo uma brincadeira ingênua, leve. Feminismo às vezes passa um pouco do ponto.

Ser bonita incomoda?
– Seria um desrespeito à minha mãe e ao meu pai não usar minha beleza (risos) a favor. Faço TV, não rádio, então tenho que usar todos os elementos que a TV me permite, como a beleza.

As meninas do futebol ganharam o ouro no Pan e não foram manchete em jornal nenhum. O que falta para que as mulheres tenham o espaço que merecem?
– É uma coisa cultural. Nos EUA, o soccer é muito mais difundido e praticado pelas mulheres desde a infância. No Brasil, as escolas ainda ensinam as meninas a jogar queimada! Isso tem que mudar. É triste, mas não dá para competir com décadas de divulgação do futebol masculino.

 Se fosse presidente da CBF, o que faria?
– Vamos parar de roubar, né, pelamordedeus? Fico assustada com os valores, não são um ou dois milhõezinhos, são 20, 30, 50! Parece doença! Varreria todo mundo que está na CBF e pediria para voltar a olhar com amor para a amarelinha. Acho que precisamos resgatar o amor genuíno pelo futebol lá na várzea, tratar melhor o futebol infantil. Senão daqui a pouco nenhum garoto vai usar a camisa da Seleção, vai ficar só fantasiado de torcedor do Manchester ou do Barcelona.

Pensa em ser comentarista?
– Ainda não estou pronta para isso. Gosto de apresentar. Quero cobrir esta Olimpíada e uma fora do Brasil, além de uma Copa. Depois talvez eu pense em outro foco para minha carreira, algo entre gastronomia ou entretenimento. No futuro eu me vejo apresentando um programa feminino. Sou muito mulherzinha (risos).

Joga bola?
– Não faço esporte nenhum. E detesto academia. Isso aqui é só genética mesmo, só como porcaria. Comecei faz pouco tempo uma atividade chamada terapia ativa, que reúne pilates, circuito, circo e slack line. Estou curtindo, cada dia é diferente.

Ídolo? Muso?
– Zico é a pessoa que mais me emociona. Acho lindo o Beckham e detesto o jeito muito metrossexual do Cristiano Ronaldo.

Namorado?
– Há quase três anos. E ele ainda não me pediu em casamento… (risos) O Leonardo é advogado. Superseguro, zero ciumento. Ciumenta sou eu! Afinal, venho para SP todo fim de semana e ele fica lá sozinho no Rio de Janeiro… Nosso combinado é que ele pode ir a barzinhos, mas nada de festas (risos). Mas ele nunca se estressa com o assédio dos fãs. Nos conhecemos num carnaval, mas éramos amigos desde a infância e nem sabíamos – nascemos no mesmo bairro, na Ilha do Governador.

É do samba?
– Minha escola é a União da Ilha. Adoraria ser convidada para desfilar, mas não sei se ficaria à vontade usando um biquininho daqueles sacudindo tudo (risos).

O que mais te irrita no futebol?

– O exagero como as pessoas tratam o esporte. Afinal, é só um lado da vida, não o único. Às vezes tenho vontade de dizer no ar: gente, calma, é só futebol! As pessoas perdem a noção. Vamos desestressar! Uma das causas que explicam por que as pessoas estão gordas é o estresse, porque a tensão libera cortisol, que deixa a gente inchada. Precisamos ter mais leveza. É só um jogo, gente!

Texto e imagem reproduzidos do site: revistastatus.com.br

Gabeira O Repórter


Publicado originalmente no site da Revista Status, em 30/10/2015.

Gabeira o repórter.

Além de sua atuação na política, Fernando Gabeira notabilizou-se como repórter, mergulhando num mundo desafiante e perigoso. Infiltrou-se em presídios, desmascarou policiais desonestos e ficou cara a cara com traficantes e assassinos. Conheça os bastidores de suas bombásticas experiências.

Por Michael Koellreutter | Foto Joaquim Nabuco 

A menina começou a morrer assim. Ela viu as notícias na TV e gritou:

– Apareceu minha casa.

– Não é sua casa. Você se enganou.

– Mas eu vi também meu pai. Aquele era o meu pai.

– Não chore que ele vem. Vai levar você para a sua mãe.

Depois da notícia, a menina ainda assistiu uma novela e um programa chamado “Leandro & Leonardo na Disneylândia”. Minnie e Mickey apareciam na tela. Seria a última vez que ela viria a TV.

O relato de Fernando Gabeira aconteceu após encontrar, face to face, o chamado “Monstro de Minas”. William Ferreira, o criador de galos de briga que sequestrou, matou e queimou a menina Miriam Brandão, de 5 anos, no Natal de 1992. Um crime tão bárbaro que fez o então presidente Itamar Franco reativar o debate sobre a pena de morte no Brasil. Primeiro, William asfixiou a pequena Miriam com éter. Após constatar que ela não respirava, ele levou o corpo para o quintal, depositou num latão de zinco, juntou alguns troncos de lenha e despejou gasolina. A chama subiu junto e ele diz ter sentido logo o cheiro de carne queimada. Jogou rapidamente alguns pedaços de pneu sobre o corpo para que o cheiro de borracha queimada se misturasse ao da carne. Uma parte do corpo da menina resistia. Mais lenha e mais fogo. William saiu e foi para a rua passear. Ao retornar, enterrou as cinzas debaixo de uma mangueira e continuou a cobrar o resgate da família.

“Desembarcar em Belo Horizonte para buscar a causa daquilo não foi tarefa fácil”, lembra Gabeira. “O delegado Minelli, responsável pelo caso, não queria que ninguém conversasse com William, pois acreditava que qualquer publicidade em caso de sequestro era negativa. Dizia que o assassino era frio, que tinha uma inteligência acima do normal e se comportava como um líder. Visitei a cena do crime, a advogada e obviamente o próprio William, preso depois de ter uma chamada localizada pela polícia. Ele parecia viver num clima de pesadelo e dizia que os amigos não acreditavam que ele tivesse matado a menina. Dizia que ele mesmo não acreditava e que, depois disso, voltou a aceitar Jesus Cristo”.

William dizia ter asfixiado a menina por não conseguir fazê-la parar de chorar.  Mas o repórter sempre ficou intrigado: “Por que não usou uma mordaça? Um brinco de mulher foi encontrado junto ao corpo da criança. Teria William matado a menina para que ela não reconhecesse uma pessoa que viu na casa? Nunca ninguém soube explicar.”

Nossa história com Fernando Gabeira repórter começa nos fervilhantes encontros noturnos no Bar Florentino, no Rio de Janeiro, sempre frequentado por Tarso de Castro, João Ubaldo Ribeiro, Fernando Sabino, Chico Caruso, Palmerio Doria, Ezequiel Neves….   Eram as famosas reuniões de pauta da extinta Interview, revista que eu dirigia. Um verdadeiro clube intelectual batizado de “Rio on the Rocks”, já que, além de talentosos e ferinos, todos se afogavam no uísque. Todos, menos um… Fernando Gabeira!  Tomava apenas uma taça de vinho tinto, era o primeiro a chegar e o primeiro a sair, nunca varando a madrugada. Gabeira tinha ali uma posição muito especial. Não discutia apenas sobre as histórias que farejava. Funcionava também como uma espécie de antena para toda a revista, trazendo temas incríveis para os outros jornalistas. Aliás, fazendo jus à fama de ter sido o melhor pauteiro nos tempos de glória  do Jornal do Brasil.

Um dos motivos que nos levara a convidar Gabeira para cobrir este universo foi a desenvoltura com que ele atuara no Jornal de Vanguarda, na TV Bandeirantes, na época editado pela jornalista Belisa Ribeiro, única mulher jornalista no clube “Rio on the Rocks”. Numa das matérias de mais impacto, Gabeira foi até um presídio em Belo Horizonte para denunciar a superlotação. Ali, ante as câmeras, Gabeira revelava a roleta russa: uma vez por mês os presidiários escolhiam um colega que era morto pelos demais e o corpo jogado para fora da cela, com o objetivo de deixá-la mais vazia. Urrando e espremido atrás das grades, um dos prisioneiros chamava atenção entre os muitos. O assassino Severino, condenado a passar o resto da vida na prisão: “Nem adianta me soltar, porque eu não vou conseguir me controlar: aqui ou lá, vou sempre matar! … Adoro matar!”.

Zé Bundão.

Foi graças a episódios como esse que Fernando Gabeira requisitava, sempre que necessário, um parceiro: o celebrado psicanalista Luiz Alberto Py, com intimidade do metier. Foi Py quem orientou Gabeira no caso do Monstro de Minas e, juntos, fizeram uma reportagem que sacudiu o Brasil. Eles foram os primeiros a entrevistar o ator Guilherme de Pádua, aquele que, com a namorada Paula Thomas, assassinou a tesouradas a atriz Daniela Perez. Gabeira foi ao encontro do prisioneiro acompanhado do fotógrafo Luiz Garrido e, ao analisar o depoimento, Py deu seu parecer: Guilherme de Pádua era um psicopata e, portanto, deveria estar num hospital psiquiátrico e não na cadeia. A opinião despertou a ira da mãe, a autora Glória Perez. Detalhe: a condição do assassino para ser fotografado era ser também maquiado! Queria ficar bem na foto…

Mesmo as mais contundentes matérias de Gabeira sempre foram regadas a irresistíveis doses de humor. Uma delas, sem dúvida, foi sobre o então governador de São Paulo, Luiz Antônio Fleury, cuja reputação fora abalada pelo famoso massacre no presídio do Carandiru. Mostrava a trajetória de Fleury, começando como policial militar, depois austero promotor público, mas revelou que o governador, nos tempos de escola, era chamado pelos colegas de…  Zé Bundão. Foi o suficiente para que Fleury movesse um processo contra Gabeira, sendo imediatamente defendido pelo advogado criminalista Marcio Thomaz Bastos, que anos depois se tornaria ministro da Justiça no governo Lula. A ação, entretanto, não durou muito tempo. Gabeira foi eleito deputado, beneficiou-se da lei da imunidade parlamentar e o processo prescreveu.

Sempre preocupado em investigar os crimes de conteúdo político, Fernando Gabeira chegou a um caso de amor no sequestro do empresário Abilio Diniz, na época dono do Grupo Pão de Açúcar. O foco foi o casal de canadenses David Spencer e Christiane Lamont, condenados a 28 anos de prisão por sua participação no sequestro do empresário. “Eles tinham ideias políticas e estavam especialmente preocupados com a América Latina. Queriam libertar El Salvador”, diz Gabeira. “Acabaram, em busca de dinheiro para a causa, envolvendo-se no crime”. Presos em São Paulo, David e Christine estavam há cinco anos sem se ver quando Gabeira foi visitá-los. Eles reivindicavam que deveriam ser tratados como presos políticos e diziam que, na condição de estrangeiros e por contarem com a fiscalização do consulado do Canadá, “felizmente não foram torturados”. O que fez com que o jornalista voltasse os olhos para a tortura que acontecia paralelamente. A primeira vítima foi Raimundo, o porteiro cearense que cuidava da casa em que Abílio Diniz ficou escondido. “Este é um gringo enrustido que fala bem português”, notou um dos policiais. “Olhem a cabeça dele”, dizia o outro. “É cearense. Não há dúvida!”  No auge da pancadaria, Raimundo hesitou ao gritar: “Chamem já cônsul do Ceará!”

O Fernando Gabeira repórter nasce em 1950 quando, aos 17 anos, ingressa no Binomio, o mais crítico e combativo jornal fundado em Minas Gerais, sua terra natal. Suas reportagens de estilo inconfundível (mesmo quando enviadas por meio de bilhetes ou guardanapos) valeram um convite para ingressar no Jornal do Brasil, durante seu apogeu. Passou pelo Última Hora, Zero Hora, Correio de Minas… Ao se envolver com a política, participou do célebre sequestro do embaixador americano Charles Elbrick durante a ditadura, foi preso, torturado e, mesmo no exílio, não largou o jornalismo: começou a trabalhar na rádio da Suécia produzindo programas frenéticos!  Ao retornar, fez seu debute na TV Bandeirantes, nunca se desligou do jornalismo escrito e hoje, na Globonews, tem um programa com seu nome, com temas ecléticos, abrangendo do crime à ecologia.

Bangu I.

Impossível não notar seu charme e o look, sempre festejado pelos fãs: as cores das roupas, as echarpes, a variedades de óculos e coletes. Mas nada disso (nunca!) causou tanto impacto quanto a famosa sunga de crochê lilás, mostrada em Ipanema, quando Gabeira voltou do exílio. Ele comenta: “Trabalhava na rádio na Suécia e passava os verões na Grécia, onde, como todos, ficava na praia nu!  Em Ipanema, com aquela tanga, me senti de gravata!”, conta Gabeira, às gargalhadas. Quando veio a primeira candidatura a deputado, surgiu a famosa frase no Rio: “Quem senta, fuma e cheira… vota no Gabeira!”.  Acharia mais adequado se a frase fosse: “Quem pensa, fuma e cheira… vota no Gabeira!”, acrescenta ele, ainda rindo.

Quando retornou do exílio, passou a investir ainda mais em reportagens de grande impacto. Uma das mais importantes foi, sem dúvida, sua entrada na penitenciária de Bangu I para um convívio com os traficantes “Gordo”, “Professor” e “Japonês”. Ali, já mostrava a intenção de “Gordo” em regenerar-se. Ao ser libertado, “Gordo” entrou para a política e foi assassinado por queima de arquivo. “O que me impressionou foi a facilidade com que, na época, eles já operavam com celulares nos presídios. Acho que fui um dos primeiros a falar sobre o assunto”, diz o repórter. Gabeira infiltrou-se na Yakusa, a máfia japonesa; encarou “Uê”, na época o bandido mais procurado do País; desmascarou os “Cavalos Corredores”, facção assassina da PM carioca; denunciou a ligação de policiais federais com o tráfico de drogas.

Mesmo eleito deputado federal, Fernando Gabeira nunca deixou de escrever. De cara, perfilou José Carlos Alves dos Santos, o homem que denunciou o esquema de corrupção dos “Anões do Orçamento”. Numa outra matéria, apresentou a visão séria e lúcida, baseada nos países mais desenvolvidos, defendendo os usuários de drogas, contra a prisão. Manchete: “Deputado Gabeira defende liberdade para quem cheira!”. Em outra vez na revista Interview, onde, por coincidência, o pintor Ivald Granato, na mesma edição, dava uma polêmica declaração: “Se me derem cocaína, não vou agir como um monge”. Claro que o fato despertou uma reação violenta dos mais conservadores acusando a revista de fazer apologia à droga. Foi o suficiente para que, no número seguinte, o repórter Ezequiel Neves, leal amigo de Gabeira, revoltado com o preconceito, estampasse na capa da publicação: “Cherei cocaína na bunda de Elizabeth Taylor!”

Texto e imagem reproduzidos do site: revistastatus.com.br