quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Anne, que não tem medo de dizer que é 'ok ser mulher, negra e nerd'


Anne Quiangala, que não tem medo de dizer que é 'ok ser mulher, negra e nerd'

"Se você coloca ‘nerd’ no Google a imagem não vai ser de qualquer mulher negra nerd."

By RYOT Studio e CUBOCC

Preta, Nerd & Burning Hell. Este é o nome. Anne Quiangala, 28 anos, gosta disso. Cria vocabulário. E conteúdo, discussões, críticas, análises, referências. “Eu acho que o vocabulário é o que define o que a gente é capaz de fazer e ser. Por isso preta e nerd. Se você coloca ‘nerd’ no Google a imagem não vai ser de qualquer mulher negra nerd. Então quer dizer que não existe. E quando crio ‘preta e nerd’ existe um nome para isso, eu existo. Porque senão parece que não é o seu lugar”. Foi como ela se sentiu por muito tempo, na verdade.

Nascida no Espírito Santo em uma família de meninos, conta que sempre foi nerd e que gostava desde cedo das ditas “coisas de menino”. No entanto, sentia um estranhamento e falta de encaixe nos lugares. “Me identificava com isso e era meio esquisito. Cultura nerd tem muito a ver com consumo e eu nunca me dizia nerd. É um desconforto, como se ser nerd fosse uma coisa para brancos”. Porque, como explicou, não existia esse vocabulário para ela: negra e nerd. Mas é algo que ela sempre foi.

Após anos de estranhamento em diversos ambientes, ela criou um local em que pudesse se afirmar: o blog.

Desde pequena, é fã de quadrinhos, cultura pop, vídeo game, o pacote todo. Começou a jogar aos cinco e somente aos nove anos conheceu a primeira menina que também jogava. Pode, assim, migrar dos ambientes hostis de fliperama para jogar em casa. Uma grande conquista. E essa foi somente uma das situações que viveu para poder ser quem ela é. “Entrar em uma loja de quadrinhos é um constrangimento, acham que você não tem dinheiro para comprar. Você é negra, então você não pode ser nerd. Você vai comprar um quadrinho e vai aparece um cara branco te explicando o que é esse quadrinho que você compra toda mês. É um ambiente muito hostil”.

Após anos desse sentimento de estranhamento em diversos ambientes, ela criou um local em que pudesse se afirmar. Antes, quando estava em grupos de pessoas negras, por exemplo, ela era “nerd demais” para estar ali. “E me feria, como se para estar em alguns grupos eu tivesse que tirar um pedaço do corpo. Porque é quem você é. Identidade é uma coisa complicada, porque não necessariamente as pessoas veem, então era muito desconfortável ser negras em todas as situações, para além do racismo. Eu ficava pensando se era ok isso. Eu era diferente de quem parecia comigo e isso não parecia ok. A pessoa compra, assiste os filmes e não se sente confortável para dizer que é nerd?”

Entrar em uma loja de quadrinhos é um constrangimento, acham que você não tem dinheiro para comprar. Você é negra, então você não pode ser nerd.

Assim surgiu o blog. Ela viu uma oportunidade de discutir assuntos ligados a sua experiência pessoal como nerd e às informações de seus trabalhos de pesquisa que desenvolveu na faculdade de Literatura e que se preparava para estudar em seu mestrado – sempre com questões ligadas à cultura nerd e cultura pop. “No dia que eu fiz o blog falei: é isso. Vesti a manta e era isso mesmo. O blog veio dessa junção de uma questão acadêmica de fazer circular essa lógica e uma decisão muito pessoal também de fincar minha identidade de que eu sou negra e nerd e de que isso existe. Para mim foi um marco”.

Assim, quando entrou no mestrado, em 2014, viu a oportunidade de levar suas questões de pesquisa para um espaço fora da academia e, ao mesmo tempo, expor também suas experiências de desconforto inclusive no ambiente da universidade. “Eu gosto de cultura pop e tudo mais, mas eu era a pessoa que chegava no primeiro dia de aula e tinha lido os textos. E é desconfortável lidar com alunos que são muito interessados”.

O blog veio dessa junção de uma questão acadêmica e uma decisão muito pessoal de fincar minha identidade de que eu sou negra e nerd e de que isso existe.

E isso ela sempre foi. Na graduação, realizou vários Pibic (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica) porque tinha gosto por estudar e pesquisar. Além disso, sabe que sempre fez um esforço maior do que a maioria das pessoas. “Não era a única jovem [no mestrado], mas era negra, mulher e nova. Nem me achava tão jovem, eu tinha 24 anos, mas nesse contexto eu era. Sempre fui boa aluna porque, óbvio, tinha que fazer 30 vezes mais que todo mundo. Não é senso de superioridade, mas é um esforço além que você faz durante uma vida inteira. E isso não necessariamente vai gerar frutos, mas no fim das contas eu consegui chegar aonde eu cheguei muito por causa disso”.

Aos poucos, foi vendo que realmente gerou frutos e que o alcance de seu trabalho era grande. Deu aula no Ensino Médio e pode ser referência de outras garotas nerds e outras garotas negras, e outras garotas negras e nerds. Hoje, o blog, que começou como um projeto individual, cresceu e tem uma equipe de produção. O vocabulário chegou a muita gente. “Achei que o blog ia ser uma forma de mostrar para pessoas iguais a mim que não tiveram os mesmos acessos e vantagens que eu tive, de que é possível, é acessível. Acho bom fincar o pé no chão de que existe, porque aí, a medida que existe, várias pessoas se sentem confortáveis para se identificar”.

Achei que o blog ia ser uma forma de mostrar para pessoas iguais a mim que não tiveram os mesmos acessos e vantagens que eu tive, de que é possível, é acessível.

Várias pessoas se sentem confortáveis para ser. E parte do objetivo é ter uma abordagem diversificada sobre a questão e os pontos que envolvem a cultura nerd. “Acham que cultura nerd é para criança e o adulto que gosta é infantilizado e acho que podemos desconstruir isso... não é para rico, não é só para jovem e adolescente”. Toda a atuação de Anne leva em consideração esse olhar simultâneo para recortes de raça, gênero e classe. “Acho que hoje em dia a gente tem essa concepção que a interseccionalidade é muito necessária e precisamos disso, então com esse vocabulário real a gente consegue concretizar”.

Ela faz a sua parte. E comemora os avanços e os resultados. “Consegui com o tempo ter retornos muito legais de pessoas negras falando que agora se identificaram com o termo. Acho que cada vez mais tenho estudado e tenho vislumbrado um futuro de abranger e mostrar que é ok ser uma mulher, negra e nerd”.

É mais do que ok. É algo que existe. Com vocabulário, cor cara e significado.

Texto e imagem reproduzidos do site: huffpostbrasil.com

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

A culpa, o instrumento de controle das religiões

O cristianismo recorreu à ideia de pecado para impor um código de conduta.

Publicado originalmente no site Brasil El País, em 14 JAN 2019 

A culpa, o instrumento de controle das religiões

Com o fim da cultura religiosa aprendemos a pensar que os erros não são nossos, que são dos grupos, das sociedades ou das estruturas. O inferno são os outros

Por Martín Caparrós 

FOI UM dos inventos mais extraordinários que os manuais não registram: isso costuma acontecer com os inventos mais extraordinários. Antes dele, aqueles homens e mulheres viviam mais ou menos felizes. Ou preocupados, irritados, apavorados, mas sem o peso da culpa. Naqueles dias as coisas aconteciam e ninguém sabia por quê: a vida era assim ou, no máximo, eram assim caprichosos esses deusinhos que pululavam na árvore, na água, na lua distante ou no poderoso sol.

E então aconteceu. Não se sabe quando, quem, como, mas em algum momento, há quatro ou cinco mil anos, alguns homens e mulheres no Iraque, no Irã ou na Síria começaram a acreditar que a culpa era deles. Que se a sua colheita estava ferrada ou o quinto filho morresse ou o jumento estivesse mancando, não era por causa desses acasos da vida, mas porque tinham feito algo para merecer isso. E tudo, então, começou a mudar: tinha surgido, escreveu Bottéro, a ideia do pecado.

(Jean Bottéro nasceu pobre e provençal em 1914, estudou com os padres, foi ordenado dominicano, se dedicou a ensinar e foi demitido por não querer dizer que o Gênesis era um fato histórico. Então, dedicou-se à Mesopotâmia, aprendeu seus idiomas, casou-se, traduziu o Código de Hamurabi, foi sábio e, ainda assim, publicou vários livros).

Quando apareceu, disse Bottéro, o pecado não era uma transgressão que o pecador cometia em sua vida cotidiana. Não era um conceito moral, era administrativo. Um sacerdote errava a invocação a um deusinho e o deusinho se zangava. Uma família sacrificava a cabra errada para uma pequena deusa, e a deusa se vingava. O sacerdote e a família talvez não soubessem: acreditavam que haviam feito tudo certo e, de repente, aquela seca ou aquela tempestade ou aquela guerra lhes provavam que não. As desgraças chegavam como castigos a erros que seu autor ignorava. Assim, a vida se tornou uma contínua ansiedade por não saberem se tinham agido bem ou mal. E a prova de que se tinha feito algo errado —não algo ruim, algo errado— era que algo ruim estava acontecendo com você.

A culpa era sua, claro. A invenção mesopotâmica do pecado foi a forma de transferir a culpa do poder para o impotente: eram os homens —cada homem— que estavam enganados, eram eles que causavam as desgraças e deviam saber como e por quê. Os deuses eram como aqueles pais que batem no filho enquanto dizem que ele já sabe por quê.

O cristianismo foi um avanço: quando recorreu à ideia de pecado para impor um código de conduta, devolveu a seus fiéis uma certa autonomia. Pelo menos poderiam escolher quando e como quebrar as regras, pelo menos te castigavam por algo que você sabia que não deveria ter feito, mesmo que você não soubesse por que não deveria ter feito. Ou se você soubesse: não deveria porque o padre dizia que o deus era quem dizia —e isso bastava.

E a culpa continuava sendo sua. A culpa foi inventada para que fosse sua: de uma forma ou de outra, sua, e que você batesse no peito e grite minha culpa, minha máxima culpa e todas essas asneiras. Funcionava: tudo de ruim acontecia por causa dos seus erros, pelos sues desvios, porque o poder —o deus ou o que fosse— era justo, infinitamente justo.

Até que, com o fim da cultura verdadeiramente religiosa, esse grande truque de poder foi desarmado. Aprendemos a pensar o contrário: que a culpa não é nossa, que é dos grupos, das sociedades, das estruturas. Que o inferno são sempre os outros. É curioso: para se livrar da forma mais brutal de opressão, daqueles escritas ou não escritas que nos mantinham no terror, tivemos que começar a assumir que não somos responsáveis por aquilo que nos acontece. Mas agora o mal sempre é culpa deles: os políticos, os economistas, os ricos, os imigrantes, os infiéis, os outros.

Agora somos tão pobres que nem sequer temos a culpa.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

“O primeiro conselho que ouvi foi ‘nunca coloque isso no seu currículo"


Publicado originalmente no site Huffpost Brasil, em 14 de janeiro de 2019

Mayume 'Maldita', a dona do poder de escolha no sexo e na pornografia

"Sexualidade feminina nunca cai no prazer. Fala-se disso, mas sempre de saúde, maternidade."

RYOT Studio & CUBOCC

“O primeiro conselho que ouvi foi ‘nunca coloque isso no seu currículo’”. Acatou. Hoje, possui duas versões, cada uma para um tipo de setor. Diz que os dois não conversam, apesar de não ocultar sua dupla atuação. “Minha cara estar aí e eu não escondo de ninguém o que eu faço”. Thais Mayume – ou Mayume Maldita, dependendo do currículo recebido –, 32 anos, trabalha como coordenadora de edição de vídeo na área de transmídia para internet de uma emissora, além ser editora – e já ter sido diretora também – em uma produtora de pornô alternativo e atuar na PopPorn, um festival de filmes e arte ligado à pornografia. Há quase dez anos, essas são suas atividades.

E nesse período, acostumou-se com alguns olhares. E alguns comentários. “A primeira coisa que falam é ‘mas você é tão inteligente’ ... como se trabalhar em uma área ligada a sexo fosse menor, como se não fosse uma escolha. Se um cara conta isso ele é um gênio que conseguiu unir duas coisas que pensam que só homens gostam: dinheiro e sexo”. Nessa quase uma década na área, nunca chegou a sofrer preconceito, mas sabe que escolher trabalhar com sexo sendo uma mulher pode gerar um certo estranhamento. Para ela, isso tem relação com questões culturais ligadas ao tema e alguns tabus. “Quando a gente fala de pornografia e sexo as pessoas acham que é só meteção, mas existe um ato político de ser dona do seu corpo e poder transar... estamos em 2018 e ainda é um ato político gozar e não aceitar gente meia bomba”.

Mayume enxerga dessa forma e defende essa postura em relação ao poder de escolha relacionado ao sexo. “Sei que sou muito privilegiada porque sou uma mina gorda, totalmente fora do padrão e consigo falar não para qualquer cara que eu estiver saindo e não gostar do que está acontecendo, mas sei que muita mina não consegue fazer isso por causa de criação, autoestima destruída pelos meios e mídias”.

Quando a gente fala de pornografia e sexo as pessoas acham que é só 'meteção'.

Sua aproximação com o tema ocorreu de forma natural. Mayume conta que sempre teve interesse por fotos de nudez e pornografia, mas que não se identificava muito com a produção mainstream e, nessa época, o acesso à internet não era como hoje. O consumo desse tipo de produção era quase clandestina, digamos assim. “Se você queria ver pornografia tinha que ir a locadora, entrar naquela salinha, levar a fita até o cara e um monte de coisa que você não quer fazer, ainda mais quando você é mulher”. Assim, começou a ter contato com produções alternativas, como espectadora, até que participou de um workshop da produtora e não deixou mais de trabalhar com isso, sempre com esse olhar um pouco mais abrangente sobre o produto audiovisual. “O alternativo é esse lugar de outros corpos. Óbvio que caímos em coisas semelhantes ao mainstream, nem sempre você foge porque ainda falamos de um sistema capitalista e a demanda é o que faz o produto final. Mas basicamente é tentar fugir daquele lance tão hétero, para homens, fazer hiper close. Óbvio que tem, mas não é a prioridade, inverte um pouco a ótica. Tem a ver com quem está na frente da câmera e com quem conduz, quem conta a história”.

Com o tempo, esse tipo de produção e olhar começou a ganhar mais espaço. Tanto que neste ano o festival PorPorn, do qual Mayume fez a curadoria, foi só com filmes dirigidos por mulheres. Além disso, o festival busca trazer trabalhos que ajudem a debater sexualidade na terceira idade, falar de sexualidade de pessoas deficientes, entre outras questões e cada passo dado nessa área é algo a ser reconhecido. “Há bastante mudança e temos que ter esse olhar. Sexualidade feminina nunca cai no prazer. Fala-se disso, mas sempre de saúde, espiritualidade, maternidade e pode ter o seu papel educativo, sem tirar o peso do estado e da família da dar educação sexual, mas pornografia é entretenimento”.

Sexualidade feminina nunca cai no prazer.

Mayume vê também um desenvolvimento no setor como um todo, o que ajuda a incentivar outros artistas e profissionais da área. “Não estamos no lugar ideal, mas tivemos mudanças significativas, mais mulheres fazendo, mais gente discutindo. Temos filmes sobre assédio e para falar de sexualidade temos que falar de assédio, são mudanças importantes”. Fora isso, ela destaca que a produção de pornografia sempre foi um ambiente natural para experimentações. “Pornografia no mundo todo é onde as pessoas testam coisas. Primeiro teste com drone foi num filme pornô. Realidade virtual também ouvi falar pela primeira vez para gravar pornô”.

Isso tudo apenas para mostrar que o setor tem os seus diferenciais e inovações, como qualquer outro. Pode parecer óbvio, mas nem sempre é simples sair dos estereótipos que são criados. ”É fora dos lugares engraçados. As pessoas acham que pornografia é engraçado de trabalhar e é cansativo como em qualquer outro lugar, com a diferença de que as pessoas estão nuas e você depende da ereção de alguém”.

E sobre romper com essas ideias padronizadas Mayume já está muito acostumada. Lida com isso há muito tempo. Acostumou-se com os olhares. Não se prende a isso, é verdade, mas percebe que acontece. Quando chegou na natação para aprender a nadar com mais de 25 anos, por exemplo, foi assim; nos dias que faz aula de pole dance com algum turma nova também; na experiência de imersão de surf sem nunca ter ficado em pé em uma prancha antes ou quando tira fotos pelada em qualquer lugar que tiver vontade – e posta na internet – também repara nisso. “Não acho ruim, acho que tem um pouco a ideia de que se ‘essa mina está fazendo eu posso fazer também’”. E ela gosta de fazer o que tem vontade, sem essa coisa de achar que não é para ela. Como o que aconteceu com a algo que virou um ritual para ela: expor seu corpo.

Me incomodava muito esse lugar de não poder olhar para uma foto e ver uma mina gorda e falar que ela é bonita.

Para Mayume, tirar fotos nua e ficar pelada nunca foi um problema. Mas passou pelo seu processo de autoestima e aceitação também. Ela lembra que levou um tempo para se sentir completamente bem e bonita. “Cresci no Brasil sendo japonesa, mas não sendo amarela como as japonesas, não tendo cabelo liso, não tendo cinturinha. Eu não parecia com ninguém da minha sala de aula, nem com o japonês da sala de aula. É aquele lugar de minha beleza não existe, então ela não é beleza.

“Depois de engordar piorou, minha beleza já não existia e todo mundo fala que ser gordo é errado. Tive muitas sorte ao longo da vida”. Essa sorte se deve aos relacionamentos amorosos que teve – nenhum com pessoas que destruíram sua autoestima – e a sua família. Criada pelos avós japoneses, pode desenvolver seus gostos e sua identidade desde pequena. “Meu avô é o cara que me mimou. A minha família, apesar de ser japonesa, é pouco machista no sentido de construção social no geral, que foi uma sorte. Então cresci com meu avô cortando minha unha, meu cabelo, me ensinando português e matemática, brincando de boneca, me ajudando a fazer roupa de boneca”.

É aquele lugar de minha beleza não existe, então ela não é beleza.

E todo esse carinho que recebeu de seu avô a ajudou a moldar sua personalidade e teve espaço para experimentar o que queria. “Sempre fomos muito próximos, ele é a pessoa que mais apostou em mim. Não é normal ser filha de pobre e querer fazer fotografia e ele me deu a câmera dele que ele trouxe do Japão. Fui fazer faculdade de Rádio e TV quando todos achavam que eu ia fazer direito e ele falou que ia dar tudo certo, ele sempre foi essa pessoa”. Aliado a isso, na adolescência já começou a se aproximar de debates feministas e logo estava envolvida com militância. “O que eu acho incrível da militância é que nunca me faz deixar de aprender coisas, eu nunca mais estagnei e nos últimos anos tenho visto que mais mulheres têm saído desse lugar de dormência para questionar. O que acho muito importante. O melhor lugar do ativismo que estou é o agora, mas estou ansiosa pelo futuro”.

Hoje, entre as questões principais que abraça, está o Sex Positive e o Fat Pride. Trabalha com isso, escreve sobre isso, vive isso. E foi assim que criou uma de suas tradições. “Me incomodava muito esse lugar de não poder olhar para uma foto e ver uma mina gorda e falar que ela é bonita. E está pelada e não está tentando se esconder ou parecer ser outra coisa. Sempre tirei foto pelada, mas não publicava. Aí um fotógrafo me chamou para fazer um ensaio, fiz e entrou em uma crescente. Coloquei como regra que sempre ia tirar uma foto pelada nos lugares que eu fosse. Mesmo porque é muito bom ficar pelado, as pessoas deviam experimentar mais, tomar sol no corpo todo. Estamos numa fase de falta de vitamina D, gente. Tomem sol”.

Não há motivo para ter vergonha. Aqui, é só orgulho.

Texto e imagem reproduzidos do site: huffpostbrasil.com

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Os tentáculos de Olavo de Carvalho...

Ilustração de Luis Grañena 

Publicado originalmente no site Brasil El País, em 12 de janeiro de 2019 

Os tentáculos de Olavo de Carvalho sobre 57 milhões de estudantes brasileiros

Três discípulos do filósofo ocupam cargos importantes no Ministério da Educação de Bolsonaro.

Ideias do pensador da ultradireita devem influenciar políticas da alfabetização às universidades

Por Beatriz Jucá

Considerado uma espécie de guru intelectual da direita brasileira, o filósofo Olavo de Carvalho emplacou três discípulos em cargos estratégicos do Ministério da Educação sob o presidente Jair Bolsonaro. Além do próprio titular da pasta, Ricardo Vélez, os seguidores Carlos Nadalim e Murilo Resende ocupam, respectivamente, a Secretaria Especial da Alfabetização e a direção da Avaliação da Educação Básica do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). Tratados pelo mentor como "olavistas" ou "olavetes", Vélez, Nadalim e Resende chegam ao poder afinados com as ideias que aprenderam principalmente nos cursos online oferecidos pelo filósofo direitista, e pelos quais já passaram cerca de 12.000 pessoas.

As ideias de Carvalho — centradas principalmente no fim da "doutrinação ideológica marxista" que diz existir no ensino público do país — devem influenciar as políticas dos próximos quatro anos nas duas pontas da educação brasileira: da alfabetização ao ensino superior, cujo impacto deve recair sobre os cerca de 48,6 milhões de estudantes matriculados nas escolas da educação básica e sobre os pouco mais de 8,3 milhões de alunos do ensino superior (segundo o último Censo Escolar, de 2017).

No centro do discurso de Olavo de Carvalho, estão críticas ferrenhas a Paulo Freire (1921-1997), o educador e filósofo brasileiro mais referenciado em universidades do mundo, nomeado patrono da educação brasileira em 2012, laureado dezenas de vezes com o título doutor honoris causa fora do Brasil. O pedagogo pernambucano, criticado pelo Governo Bolsonaro, defendia a educação como um ato político, mantendo os alunos em contato constante com os problemas contemporâneos no processo educacional. Ainda que não seja o único teórico no qual se apoiam os professores brasileiros, Paulo Freire é um dos principais alvos de crítica de Olavo e também dos seguidores que agora ocupam secretarias complexas no Governo Federal.

Distante dos espaços acadêmicos, Carvalho se construiu como um filósofo outsider. Não tem título universitário, mas é autor de 19 livros e dissemina suas ideias por cursos online e pelas redes sociais, onde expõe posições fortes e que costumam causar controvérsia entre educadores. Defende, por exemplo, que o Governo perca o papel de educador. A Constituição brasileira estabelece que municípios são responsáveis prioritários pela oferta pública de educação infantil e pelo ensino fundamental. Já os Estados são responsáveis pelo ensino médio. Para o filósofo, é preciso desregulamentar a educação e resumir o papel do Governo ao de selecionador, pelo qual seria responsável apenas por testes de aprovação baseados na avaliação de três aptidões básicas: ler, escrever e fazer contas. Nesta perspectiva mais ampla, Olavo de Carvalho — que fez o ensino básico em uma escola mantida pela Igreja Católica — defende um sistema de fundações privadas que subsidiem essas escolas. "Por que tem que ser tudo subsidiado pelo Governo central ou mesmo pelos governos estaduais?", questionou em um vídeo publicado em agosto do ano passado, intitulado Como salvar a educação no Brasil?.

Neste vídeo, Olavo de Carvalho chega a questionar a necessidade de existência do Ministério da Educação e chama de "mágica" uma proposta apresentada por Bolsonaro na campanha, de ampliar as escolas militares, que segundo o presidente teriam melhor qualidade no ensino que as escolas tradicionais. "Isso é uma bobagem. O erro essencial é a ideia de que o Governo central tem que educar a nação. É uma ideia comunofascista que Getúlio Vargas pôs na cabeça do brasileiro", diz.

As críticas feitas à proposta de Bolsonaro durante a pré-campanha eleitoral não impediram que o presidente desse a ele um amplo poder de influência nas políticas educacionais dos próximos quatro anos. Dos Estados Unidos — onde vive desde 2005, o filósofo indicou três nomes para o MEC, inclusive o chefe da pasta, Ricardo Vélez, que segundo ele, "a pessoa que mais entende de pensamento político-social brasileiro" no mundo. No discurso de posse, o ministro destacou sua relação com o olavismo e a "inspiração liberal e conservadora" que deverá representar nas políticas educativas.

Carlos Nadalim assume a recém criada Secretaria de Alfabetização com a função de enfrentar o problema do analfabetismo em todos os níveis de escolaridade —segundo dados do IBGE de 2017, o Brasil ainda possuía quase 12 milhões de analfabetos. Nadalim já foi apresentado por Olavo de Carvalho em vídeos como um dos poucos que de fato educam no Brasil. Coordenador de uma escola em Londrina chamada Balão Mágico, implantou o método fônico de alfabetização — baseado na relação entre as sílabas e os sons para só depois ler frases completas — a pouco mais de uma centena de alunos e apresentou resultados que lhe renderam o prêmio Darcy Ribeiro, da Câmara dos Deputados. Mantém o blog Como educar seus filhos, onde oferece cursos online. Nele, escreveu que seu projeto é "apenas uma nota de rodapé do imenso trabalho" desenvolvido por Olavo de Carvalho. Agora no Governo, tem defendido a ideia de banir métodos globais de ensinar a ler e escrever (associados à teoria construtivista e a Paulo Freire)  para promover o método fônico. Atualmente, não há um único método de alfabetização nas escolas brasileiras, embora a maioria delas utilize o método construtivista.

Na outra ponta do ensino, está o professor de economia Murilo Resende, 36 anos, novo diretor do Inep. É ele o novo responsável pelo Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a principal porta de entrada nas universidades federais brasileiras. Assim como Nadalim, Resende atribui a Olavo de Carvalho seu "amadurecimento intelectual" e oferece cursos online sobre economia e filosofia política a partir da perspectiva conservadora. Ao ser anunciado ao cargo, foi criticado pela falta de experiência na Educação. O próprio presidente saiu em sua defesa, pelo Twitter. "Murilo Resende, o novo coordenador do Enem, é doutor em economia pela FGV e seus estudos deixam claro a priorização do ensino ignorando a atual promoção da 'lacração', ou seja, enfoque na medição da formação acadêmica e não somente o quanto ele foi doutrinado em salas de aula", afirmou. Depois que assumiu o cargo no Governo, Resende desativou o site onde oferecia seus cursos.

Olavo de Carvalho diz que a esquerda exerce o controle do ensino brasileiro, no qual imporia ideias marxistas, especialmente pela predominância das ideias de Paulo Freire, que defende o poder de assimilação maior do aluno pela relação os problemas sociais em vez de valorizar apenas a técnica. Carvalho vai na contramão. Critica, por exemplo, os métodos de alfabetização "introduzidos por essa mesma turma esquerdista nos anos 1970 e 1980, como o socioconstrutivismo, que cria deficiências estruturais de leitura que não se curam nunca mais". Leva anos insistindo que 50% dos formandos das nossas universidades são analfabetos funcionais. De acordo com o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) da Ação Educativa, 4% dos que chegam ao ensino superior são de fato considerados analfabetos funcionais, mas apenas 34% alcançam o nível proficiente.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

sábado, 12 de janeiro de 2019

Por que nossos jovens se automutilam?

HIGHWAYSTARZ-PHOTOGRAPHY VIA GETTY IMAGES

Publicado originalmente no site Huffpost Brasil, em 11/01/2019

Por que nossos jovens se automutilam?

Prática assusta pais e educadores e aponta para um sofrimento não veiculado pela palavra. 
Especialistas falam da importância de se ensinar a lidar com frustrações.

By Amanda Mont'Alvão Veloso

Especialistas falam da importância de se ensinar os jovens a lidar com frustrações.
“Por fora eu estou em chamas e por dentro sou apenas um vazio. Não posso me cortar, mas preciso que alguma coisa seja tirada de mim, preciso de alívio.”

As palavras são de Charlotte Davis, 17 anos, protagonista do livro Garota em Pedaços (Editora Planeta, 2017), escrito pela norte-americana Kathleen Glasgow. Mas bem poderiam pertencer aos muitos jovens que se cortam, se queimam e se furam para dar vazão a uma dor sem nome e sem endereço. Ficam as cicatrizes onde antes transbordava a angústia.

A prática da automutilação, também conhecida como cutting, preocupa pais, familiares, amigos e educadores. A maior prevalência ocorre entre a pré-adolescência e a idade do adulto jovem, ou seja, dos 12 aos 30 anos, informa o psicólogo e especialista em tanatologia Carlos Henrique de Aragão Neto ao CVV (Centro de Valorização da Vida). Nos EUA, estima-se que uma a cada 200 garotas entre 13 e 19 anos se automutile, conforme dados trazidos pela autora Kathleen Glasgow. Ainda assim, o mapeamento do cutting não inclui os casos que não são notificados aos sistemas de saúde, o que pode indicar uma incidência ainda maior. É um assunto tão marginal nos relatórios e nas informações disponíveis quanto nas conversas.

De fato o tema é árido e a palavra, automutilação, carregada de peso. Sua existência evidencia o esgotamento das explicações racionais - afinal, por que alguém iria provocar dor física em si mesmo como maneira de lidar com outra dor? - e aponta para uma série de complexidades e ambivalências, tipicamente encontradas no período de transição do mundo infantil para o adulto.

“A automutilação está vinculada a angústias incontornáveis, onde o corte cristaliza, dá uma realidade a algo que é um sofrimento abstrato. O corte faz uma inscrição de algo sem registro. Há uma falha discursiva que apela ao real do corpo”, explicam ao HuffPost Brasil os psicanalistas Diana e Mário Corso, autores do livro Adolescência em Cartaz: Filmes e Psicanálise para Entendê-la (Artmed, 2018).

As mudanças corporais trazidas pela adolescência e o luto do corpo que se conhecia antes também podem se relacionar com o cutting, explicam os psicanalistas. “Digamos que pode também ser uma agressão a um corpo que lhe é uma novidade e que ele não sabe ainda lidar.”

A automutilação pode veicular diferentes mensagens e, portanto, ser desdobrada em vários significados, sempre conectados às particularidades de quem provoca as lesões. Pode ser a expressão de alívio de uma dor emocional; de uma punição dirigida a uma outra pessoa ou a si mesmo; de um cuidado consigo, já que a ferida vai ser tratada; um escape para a raiva, um canal de euforia, um ato que acalma ou mesmo uma maneira de sair de um estado de entorpecimento. No total, o psicólogo canadense E. David Klonsky, da Universidade de British Columbia, identificou 13 funções na prática do cutting, lembra Aragão Neto na entrevista ao CVV. “Dizem: eu não tolero, é insuportável para mim naquele momento e eu me mutilo para o alívio dessa dor emocional. É um discurso paradoxal para as pessoas leigas imaginar como alguém precisa se machucar para tentar se livrar de uma dor emocional, mas é exatamente essa a principal função que os jovens alegam.”

Justamente por não trazerem uma motivação única ou lógica, os cortes, ferimentos e queimaduras precisam ser “escutados”, mais do que vistos. São pedidos de socorro trazidos no corpo, mas estigmatizados por uma sociedade que rejeita a vivência do sofrimento e que demanda sucesso a todo custo.

Aragão Neto adverte: “Nós não podemos dar uma resposta simples ou simplista para algo tão complexo, que gera uma angústia dessa natureza. Não estamos falando de uma angústia comum, corriqueira. Não é algo como ‘eu tirei uma nota baixa na minha escola’ ou ‘eu tive uma discussão com meu melhor amigo e de repente fiquei triste um dia ou dois’. Estamos falando de uma dor profunda, emocional, que chamamos de angústia.”

Segundo o psicólogo, a escuta desses jovens na clínica revela a relação da automutilação com situações que ocorrem dentro da família, como pais ausentes, negligentes ou violentos, além da presença de violência, psicológica, física ou sexual no lar. Fontes de preocupação nas escolas, o bullying e o cyberbulling, disseminado nas redes sociais, também acentuam a vulnerabilidade dos jovens para práticas como o cutting. ”É algo muito cruel e um grande fator de risco para comportamentos autodestrutivos. Quando você tem o bullying presencial, juntamente com o cyberbullying, essa potência fica ainda maior.” Pais em sofrimento e crises econômicas são outros fatores que podem contribuir para o sentimento de desespero dos adolescentes. “Todos esses fenômenos ocorrem em função de uma interação muito complexa de vários fatores.”
 
VICHAI PHUBUBPHAPAN VIA GETTY IMAGES

 Automutilação e relação com suicídio

Assustadora para os adultos e para a sociedade como um todo, a automutilação não necessariamente configura um flerte com o suicídio, mas requer cuidado porque pode levar à morte por conta da intensidade dos ferimentos.

“Os cortes e pequenas sangrias constituem problemática diferente, pois costumam ser assuntos íntimos, em geral segredos ligados à angústia. Podem ser comportamentos contínuos e por vezes sistemáticos de automutilação, os quais ajudam a expressar e até a suportar as dores da vida.”

Diana e Mário explicam que a prática de se machucar e a enunciação das fantasias de suicídio podem se associar, mas não têm uma óbvia linha de continuidade. ”É importante esclarecer e discernir, pois a colagem na compreensão desses fenômenos tende a alarmar os pais de uma forma desmedida quanto a adolescentes que às vezes só copiam comportamentos.”

O ato de copiar pode ser percebido por meio do fenômeno de contágio, em que os membros de um grupo se mutilam, como um ritual de entrada ou pertencimento. “Tem uma estatística internacional que mostra que em torno de 18% das pessoas que se mutilaram o fizeram em grupo, na presença de outros, e relataram que começaram o comportamento autolesivo por causa do efeito de contágio. Na adolescência, nós sabemos que existe uma necessidade muito grande de se formar uma identidade própria e de pertencer a grupos”, esclarece o psicólogo Aragão Neto.

Seja por pertencimento, por solidão ou por quaisquer outros motivos, a automutilação cria marcas ainda mais profundas em uma ferida já vulnerável. Tais pedidos visíveis de ajuda têm a possibilidade de vir pela palavra, não pelo corpo; porém, além de um tratamento psíquico, é necessário que algumas mudanças sejam feitas, especialmente no que concerne às frustrações.

Aragão Neto afirma que é preciso estimular o desenvolvimento de habilidades emocionais para que os jovens possam lidar com as dificuldades do mundo, já que é impossível poupá-los dos problemas e dores. “Uma opção pode ser trabalhar com elas em casa e na escola para que desenvolvam resiliência e habilidades sociais e emocionais para lidar com bullying e cyberbullying, com perdas, com frustrações, para aprender a resolver conflitos sem se machucar e sem machucar o outro.”

Diana e Mário acrescentam que é preciso falar sobre o mal-estar inerente e incontornável que faz parte da condição humana:

“O essencial é estar aberto a entender a dor de existir. Vivemos em um tempo competitivo, agressivo, somos mais um produto à venda, temos um auto-marketing a fazer. Portanto, não podemos mostrar-nos frágeis, falíveis, inseguros, deprimidos, com dúvidas. No dia em que entendermos que os perdedores somos todos, talvez isso crie um mundo em que as pessoas não se sintam peças falhadas.”

Texto e imagens reproduzidos do site: huffpostbrasil.com

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

A Conciliadora - Nilima Bhat


Publicado originalmente no site Revista TRIP, em 08.01.2019

A Conciliadora 

Depois de chegar ao topo da carreira corporativa e enfrentar o câncer do marido, a indiana Nilima Bhat encontrou seu propósito: ajudar homens e mulheres a fazerem as pazes com seu feminino

Por Julia Furrer  

A presença de Nilima Bhat, 52 anos, é daquelas que acalma. A fala pausada, as mãos em prece antes de a entrevista começar e o gole de água quente para preparar as cordas vocais parecem confirmar os estereótipos da indiana iogue. É difícil imaginar que, 20 anos atrás, ela era uma alta executiva em uma grande empresa, que nunca tinha explorado sua espiritualidade, até passar por uma crise existencial.

“Eu ganhava muito dinheiro, estava no auge da minha carreira e senti que a vida precisava ser mais”, conta à Tpm. Nilima tinha 32 anos, morava em Singapura – depois de passar uma temporada em Londres e outra em Hong Kong – e trabalhava em uma multinacional, quando se percebeu absolutamente infeliz.

Na época, ela não imaginava que a experiência no mundo corporativo se revelaria fundamental para que encontrasse o verdadeiro propósito de sua vida: promover um modelo de liderança mais feminino, pautado por valores como empatia, colaboração e gentileza. “A maioria das crises que enfrentamos na política, na economia, no meio ambiente e até na saúde são consequências de um sistema hipermasculinizado, que é fundamentalmente hierárquico, individualista e militar. Nós já sofremos demais por essas consequências desastrosas e não é mais aceitável continuarmos sofrendo por elas”, afirma.

À esq., o pai de Nilima com sua irmã no colo, seu avô paterno e ela 
com seis meses de idade, nos braços da mãe, em Lonavala, 
na Índia (1967), onde nasceu. À dir., a cerimônia de casamento com Vijay Bhat. 
Crédito: Arquivo pessoal

E não se trata de uma questão excludente de gênero – pelo contrário: “O que defendo são valores tradicionalmente associados ao feminino e negligenciados. São características humanas, que homens e mulheres precisam resgatar”, diz. Sua teoria é descrita no livro Liderança Shakti – O equilíbrio do poder feminino e masculino nos negócios (2016), que escreveu em parceria com Raj Sisodia, Ph.D. em marketing e um dos fundadores do movimento Capitalismo Consciente, que se propõe a encontrar uma forma mais humanizada de conduzir as empresas. Os dois se conheceram em uma palestra e logo perceberam que o tema proposto por Nilima (Shakti é o princípio feminino da energia divina) trazia a continuação dessa filosofia de Raj. Atualmente, viajam o mundo ajudando a formar líderes e organizações mais conscientes. “Costumo perguntar aos CEOs: ‘Se não houvesse esse cargo no seu cartão de visitas, você seria capaz de entrar em uma sala e ser respeitado da mesma maneira?’”, diz. Ela ainda cria, em parceria com a Universidade de San Diego, a Shakti Fellowship, um programa de liderança para mulheres com duração de nove meses.

Feminista, mas com ressalvas

Nilima não titubeia ao se definir feminista, mas tem críticas ao movimento, que acredita apostar em estratégias equivocadas. “Excluir os homens da conversa faz com que uma luta justa e legítima seja percebida como uma guerra entre os sexos.”

Seu discurso é empoderador: ela coloca sobre as mulheres a responsabilidade de livrar a sociedade de suas tendências negativas e elaborar um sistema mais inclusivo, com resultados positivos para todos. “Não é inteligente ficar brigando pelo que já existe e não funciona; o que nos trouxe até aqui não nos levará adiante.”

Nesta entrevista, feita na sua segunda visita ao Brasil, a autora e coach, que mora em Mumbai, fala sobre a infância na Índia, o câncer que o marido enfrentou e a evolução pessoal que a doença provocou nos dois, o mundo corporativo e, claro, sobre a liderança Shakti.

Nilima (ao centro), recebendo tintura de henna, entre sua prima 
e uma amiga, no dia do casamento com Vijay Bhat, 
em Mumbai (Índia), em 1988.
Crédito: Arquivo pessoal

Tpm. Como é ser mulher na Índia?
Nilima Bhat. Em grande parte do país, principalmente no norte, as mulheres são rejeitadas antes mesmo de nascer. Elas representam uma despesa para a família, que precisa pagar um dote para garantir seu casamento. Muitas são agredidas e impedidas de estudar. Mas existem várias Índias. Para ter ideia do tamanho do contraste, alguns dos cargos políticos mais importantes do país são ocupados por mulheres. E isso nem é novidade: tivemos uma primeira-ministra em 1966.

Qual dessas Índias é a sua? Minha irmã e eu crescemos com liberdade. Vivemos grande parte da nossa infância em uma base naval perto de Mumbai, onde existia um centro de treinamento para engenheiros. Meu pai era da Marinha e desde cedo convivemos com muitas mulheres das Forças Armadas, o que me ajudou a entender que eu poderia ser o que quisesse. Mais tarde, meu pai passou a ser transferido a cada quatro anos para diferentes bases militares. Moramos até na Alemanha Ocidental [entre 1974 e 1975]. Já minha mãe era dona de casa, vivia para servir os filhos e o marido – o estereótipo da mulher no século passado. Mas foi ela quem me ensinou a dançar e a gostar de ser livre.

A dança e a ioga sempre estiveram presentes na sua vida? Eu danço desde criança, é algo que faz parte de quem sou, que ajuda a definir minha personalidade. Já a ioga conheci adulta, quando comecei minha busca por autoconhecimento e espiritualidade. Passei a maior parte da vida sendo bem cética, acredita? As pessoas têm essa impressão de que todo indiano é iogue, mas não é bem assim. A gente só parece zen [risos].

Por que você sentiu a necessidade de iniciar essa busca? Ela veio de uma sensação imensa de vazio. Eu tinha 32 anos, morava em Singapura com meu marido e meus dois filhos e trabalhava na ESPN, liderando o departamento de relações públicas da empresa em 25 países entre a Ásia e a Oceania. Foi quando comecei a sentir que as coisas que tinha conquistado não me preenchiam. Lembro de ver o comunicado da assessoria de imprensa do Bill Clinton sobre o escândalo sexual entre ele e a Monica Lewinsky [em 1998], e pensar: “É isso o que eu faço. Ensino as pessoas a se saírem bem publicamente, a contornarem crises. Mas é só?”. Ganhava muito dinheiro, estava no auge da minha carreira e senti que a vida precisava ser mais.

À esq., Nilima entre o marido Vijay e os filhos, Shambhavi e Shravan,
em 2008. À dir., na Disneylândia, Califórnia, em 1997. 
Crédito: Arquivo pessoal

Tenho a impressão de que essa necessidade de encontrar um propósito maior para o que fazemos tem se tornado cada vez mais comum. Por quê? Acho que essa busca ainda é privilégio de poucas pessoas. Primeiro precisamos suprir a necessidade de sobreviver. É o primeiro estágio, em que a maioria das pessoas na Índia e no Brasil ainda se encontra. Quando isso está coberto, buscamos desafios profissionais, queremos ter bons relacionamentos no trabalho e receber reconhecimento. E aí existe um terceiro estágio, que é buscar sentido para o que fazemos.

Mas você não vê um aumento dessa terceira preocupação, principalmente entre as gerações mais novas? Com certeza. Eu tenho 52 anos e acho que minha geração ficou um pouco perdida. A gente só queria acumular, consumir, ganhar mais dinheiro. Esse questionamento sobre o “algo mais” não fazia parte de nós. E olha no que deu: o mundo está do avesso, o planeta não dá conta de suprir nossa necessidade de consumo. Sobrou para as novas gerações resolverem essa conta. Vejo que meus dois filhos estão sempre questionando as próprias atitudes. Shravan tem 28 anos, fez relações internacionais em Yale (EUA) e trabalha com energia renovável. Shambhavi tem 25 e trabalha no mercado de arte. Os dois amam o que fazem, mas é maior do que isso: eles entendem que é parte de suas missões tornar o mundo um lugar melhor.

Me conta mais sobre a sua jornada em busca de autoconhecimento. O que aconteceu depois do pedido de demissão? Bom, depois de morar em Hong Kong, Londres e Singapura trabalhando em multinacionais e de me tornar uma refugiada do mundo corporativo, comecei a praticar ioga e a considerar a possibilidade de voltar para a Índia, que, convenhamos, é o lugar ideal para quem vive uma crise existencial [risos]. Na mesma época, acabei ganhando um empurrãozinho do destino para mergulhar ainda mais nessa busca.

Empurrãozinho? Meu marido recebeu o diagnóstico de câncer no intestino, em 2001. Como sempre acontece, fomos pegos totalmente de surpresa. Ele tinha 40 anos, trabalhava em uma grande agência de publicidade e interrompeu tudo para iniciar o tratamento. Foi quando nos mudamos [de Singapura] para a Índia e passamos a estudar medicina chinesa e ayurvédica, psicologia transpessoal e todo o tipo de terapia alternativa. Passei quase nove anos vivendo como uma monja: ensinava e aprendia ioga e todos os outros conhecimentos que estava adquirindo. Minha jornada se intensificou tanto a partir da jornada dele, que é quase como se nós dois tivéssemos tido câncer. A doença estava no corpo dele, mas a evolução pessoal que isso promoveu ocorreu em nós dois. Foi o acontecimento mais importante da minha vida.

À esq., em um banho-ritual no rio Ganga, em Dev Prayag (Índia) , no Himalaia, em 2016. 
À dir., com sua mãe, na Muralha da China, em 2003. 
Crédito: Arquivo pessoal

Ele se curou? Sim. Tivemos muita sorte porque ele tinha dois tumores, mas o câncer não se espalhou para nenhuma outra parte do corpo. A cirurgia que retirou parte do seu intestino também foi um sucesso e, contrariando todas as expectativas, atualmente ele tem uma vida normal.

Seu primeiro livro, My cancer is me (2013), é sobre esse processo. Por que decidiu escrevê-lo? Escrevemos juntos porque sentimos que era preciso compartilhar nossas descobertas com pes-soas que estão enfrentando a mesma situação. A principal delas foi entender que um câncer não é causado por um vírus, mas uma doença que o próprio corpo desenvolve quando algo está em desequilíbrio. As pessoas ficam doentes porque estão mentalmente, emocionalmente ou fisicamente estressadas e é surpreendente ver como a medicina não questiona nada disso. Quando meu marido iniciou o tratamento, percebemos que os médicos olham apenas a doença, como se o paciente não pudesse participar ativamente de seu processo de cura.

Compartilhar esse e outros aprendizados deve ter ajudado muita gente. Você encontrou o propósito de vida que estava faltando? Em partes. Passei muito tempo dedicada à doença dele e à criação dos nossos filhos, que na época tinham 8 e 11 anos. Depois que escrevemos o primeiro livro e que meu marido já estava curado, senti que tinha encerrado essa missão e que precisava me reconectar comigo mesma, principalmente com o meu feminino, que andava um pouco abandonado. Essa busca pessoal me fez perceber que eu poderia ajudar as mulheres a se empoderarem, quer dizer: se sentirem completas consigo mesmas, imbuídas dessa força Shakti, que é o tema do segundo livro. Acredito que meu casamento tenha sido meu maior campo de aprendizado para o material que se tornou o livro.

O que é Shakti? Na tradição iogue, Shakti é o princípio feminino da energia divina. Uma fonte infinita de criatividade e inteligência amorosa, que gerou tudo à nossa volta. Trata-se de um poder que vem de dentro, que é intrínseco ao ser humano e que ninguém pode tirar de nós. Apesar de o nome fazer esse conceito soar como algo da Índia antiga, ele está até no Star Wars. Lembra aquela cena em que o Obi-Wan Kenobi diz: “Use a força, Luke”? Então: era sobre Shakti que ele estava falando [risos].

Por que atribuímos essa força ao feminino? Shakti é considerada uma força feminina porque é responsável pela criação, está relacionada à capaci-dade de gerar uma vida. Mas ela faz parte da essência humana e está presente em todo mundo, assim como Shiva, que é a energia atribuída ao masculino. Uma não existiria sem a outra.

Dançando entre duas amigas, também filhas de oficiais das Forças Armadas, 
em Mumbai (1984). "Eu era uma dançarina, coreógrafa e produtora 
ativa nos eventos culturais da Marinha indiana". 
Crédito: Arquivo pessoal

Se as duas são importantes, por que nos acostumamos a valorizar apenas características associadas ao masculino? Tem a ver com o que entendemos por liderança em sociedades patriarcais. O modelo que prevalece exagera demais nos valores masculinos. É fundamentalmente hierárquico, individualista e acredita no mecanismo de punição e recompensa. Mas isso está mudando. A humanidade já sofreu demais as consequências dessas características e, aos poucos, está começando a entender que o futuro precisa ser mais feminino, estruturado a partir do cuidar e nutrir.

Falando assim, parece que todos os valores associados ao masculino são ruins… De jeito nenhum. Características como lógica, foco, estabilidade e racionalidade costumam ser atribuídas ao masculino e são fundamentais para todos nós. O problema é o desequilíbrio. Desconsiderar o feminino ao longo da história fez com que o mundo se tornasse hipermasculino, mas se o extremo oposto tivesse acontecido, provavelmente estaríamos discutindo os problemas de uma sociedade hiperfeminina, pautada em características como carência, dependência, dispersão e irracionalidade.

Mas classificar essas características como masculinas ou femininas não ajuda a reforçar estereótipos de gênero? Feminino e masculino são apenas palavras que usamos para designar campos opostos, assim como o yin-yang da filosofia chinesa, ou a noção de racionalidade e emoção. O problema não está nessa polaridade primária, mas no juízo de valor que se faz sobre ela. Não existe melhor ou pior. Existem seres completos e incompletos. Equilíbrio e desequilíbrio.

O mesmo desequilíbrio que observamos na sociedade acontece no indivíduo? Sim. Homens e mulheres estão desconectados de um aspecto vital de sua humanidade: suas qualidades inatas femininas. É como escolher entre inspirar e expirar. Não parece possível, certo? Isso quer dizer que estamos exercendo apenas metade do nosso ser e que praticamente não funcionamos, já que a energia só flui quando as duas metades são alavancadas. Precisamos desenvolver o feminino negligenciado e invisibilizado e trazê-lo para o equilíbrio.

Você já se sentiu invisibilizada por ser mulher? Sinto isso constantemente e é engraçado como ter dividido a autoria do livro com o Raj me proporcionou viver inúmeras situações em que essa invisibilidade ficou ainda mais evidente. Nós viajamos o mundo para dar palestras sobre o livro e, apesar de ser a pessoa que mais fala nessas ocasiões, perdi a conta das vezes em que escutei, meio por acaso, pessoas dizerem que tinham acabado de ver um homem dar uma palestra ótima. Sim, muitas vezes as pessoas simplesmente não se atentam para a minha presença no palco, ao lado dele. Outra situação clássica, que a maioria das mulheres já deve ter experimentado, é dar uma ideia durante uma reunião e ser completamente ignorada, ao passo que, minutos depois, um homem repete a mesma coisa e não só é ouvido, como leva o crédito.

Com Raj Sisodia, com quem Nilima escreveu Liderança Shakti, 
em evento da Tpm em agosto passado.

Você se considera feminista? O feminismo nada mais é que a luta por equidade entre os gêneros, então sim: sou com certeza feminista. Mas tenho críticas ao movimento feminista. Acho que a abordagem escolhida é muitas vezes equivocada, pois exclui os homens da conversa e faz com que uma luta justa e legítima seja percebida como uma guerra entre os sexos. Entendo que certos momentos inspiram certa agressividade, mas não é uma boa estratégia. Cabe às mulheres transformar a ordem vigente do mundo: eliminar o poder sobre o outro e construir o poder com o outro.

Qual é a diferença entre esses dois tipos de poder? O poder sobre o outro tem uma relação direta com o ego, depende de uma classificação externa sobre quem é maior, melhor, mais forte ou mais rico. É um recurso finito e não passa de uma ilusão. Nos acostumamos a pensar que, para ter poder, precisamos tirá-lo de alguém ou de algum lugar. É como se existisse um rio dentro de cada um de nós e a gente insistisse em morrer de sede. Quando o poder verdadeiro é exercido, ninguém tem que perder para alguém ganhar. Pelo contrário: as capacidades de todos são alavancadas para um bem comum. O poder surge quando entendemos que não faz sentido se defender, nem se promover, nem se sentir ameaçado, porque a força que precisamos está dentro de nós.

Faz todo sentido perseguir esse estado de presença e autoconhecimento, mas não parece utópico falar sobre isso quando as mulheres ainda estão lutando por direitos básicos, como andar na rua sem ser assediada ou ter equidade salarial? Não existe outra alternativa. O mundo não suporta mais disputas de poder. Entenda que não se trata de deixar de lutar, mas de investir energia na luta certa: propor um novo modelo de sociedade, que nos livre das nossas tendências destrutivas. Precisamos mostrar a todos – e lembrar a nós mesmas – que o que trazemos com a gente é poderoso, forte, diferente. Não é inteligente ficar brigando pelo que já existe e não funciona; o que nos trouxe até aqui não nos levará adiante. Tenho certeza de que somos plenamente capazes de elaborar algo mais inclusivo, com resultados positivos para todo mundo.

Seu trabalho como coach é uma forma de incluir o mundo corporativo nesse processo de elaboração? Meu objetivo é ajudar a formar líderes e organizações mais conscientes. Essa reflexão sobre o poder autêntico, que acabamos de discutir, é algo que trabalho bastante. Costumo perguntar aos CEOs: “Se não houvesse esse cargo no seu cartão de visitas, você seria capaz de entrar em uma sala e ser respeitado da mesma maneira? Teria o mesmo tipo de resposta?”. Normalmente concluímos que não. E aí começamos a desenvolver o que está faltando, que é essa liderança feminina que precisa emergir no mundo do trabalho.

A liderança feminina é necessariamente exercida por mulheres? Não, porque não adianta nada ter uma mulher no comando com os mesmos princípios hierárquicos, centralizadores e individualistas que costumamos associar ao masculino. Todos nós conhecemos mulheres que agem assim e os resultados nunca são positivos para elas ou para os que estão ao seu redor. O que precisamos exercitar, em pessoas de ambos os sexos, é uma gestão mais horizontal e humana, com empatia, ética, propósito e compaixão.

Entre John Mackey (um dos criadores da rede de mercados de produtos 
orgânicos Whole Foods), a escritora Saly Kempton e Raj. 
O indiano e John criaram o movimento Capitalismo Consciente,  em 2009.
Crédito: Arquivo pessoal

Estamos evoluindo? O que mudou desde que você deixou seu último emprego no mundo corporativo? Essa conversa sobre repensar o capitalismo e criar um sistema mais humano e consciente não existia há dez anos, quando pedi demissão. Ninguém se preocupava com a felicidade dos profissionais, não se falava em engajamento, nem em propósito. Hoje isso é um tema recorrente, então penso que sim, evoluímos bastante. É um movimento muito relacionado a esse mo-mento da era digital, que tem levado a economia para uma nova fase. O crescimento do empreendedorismo entre os jovens é um bom sinal. Eles não carregam a carga ultrapassada dos negócios antigos, que se baseavam em uma visão que agora consideramos egoísta e mesquinha. Pelo contrário: prosperam com o poder de novas ideias e funcionam como criadores que estão reimaginando o mundo, em vez de mudar as instituições que já são cheias de bagagem e menos capazes de se adaptar aos novos tempos. Claro que cada país está em um estágio diferente. Alguns avançaram mais nesse sentido, outros, menos. Mas acho que é uma tendência mundial abandonar estruturas cristalizadas, reavaliar nossas métricas de sucesso e repensar os modelos de trabalho, apostando em relações pautadas por esses valores tradicionalmente atribuídos ao feminino.

Por que essa mudança não chegou na política? O Brasil acabou de eleger Jair Bolsonaro como presidente, um ex-capitão do exército que opera em uma lógica absolutamente masculina: é agressivo e acredita no poder das armas, não do diálogo. Trump, como presidente dos Estados Unidos, tem um estilo bem parecido. Por que continuamos apostando nesse modelo de liderança? Porque, apesar de tudo que evoluímos como espécie humana, continuamos acredi-tando na lei da selva, que estabelece um cenário de escassez de recursos no qual somente o mais forte será capaz de sobreviver. É um conjunto de crenças extremamente desatualizado, que nos impede de superar convicções como “não somos o suficiente”, “não temos o suficiente” e “não há o suficiente para todos”. Isso aparece especialmente na política, pois ainda há a ilusão de que os políticos precisam nos proteger e garantir que a gente ganhe a disputa. Bobagem. Uma investigação mais profunda revelará que não há vitórias sustentáveis enquanto houver perdedores, porque somos todos interligados e interdependentes.

Que recado você deixaria para as brasileiras que estão apreensivas com esse novo governo e sua ameaça de retrocesso? Não tenham medo. Não há tempo para se comportarem como vítimas indefesas. Se fortaleçam para lutar contra as injustiças e concentrem-se em encontrar soluções que funcionem para todos. Sejam agentes de transformação em suas comunidades e encorajem as pessoas que estão a sua volta. É preciso evoluir e ser a mudança que queremos ver no mundo, como disse Mahatma Gandhi. As crises trazem perigos, mas também oportunidades. Encarem essa eleição como um chamado para enfrentar medos profundos e reivindicar o verdadeiro poder. O caminho a ser percorrido é difícil, mas tenho certeza de que todos sairão desse processo fortalecidos.

Texto e imagens reproduzidos do site: revistatrip.uol.com.br

Como ler mais em 2019? Selecionamos 8 dicas para você

LEONORA HAMILL VIA GETTY IMAGES

Publicado originalmente no site Huffpost Brasil, em 8 de janeiro de 2019

Como ler mais em 2019? Selecionamos 8 dicas para você

A leitura não precisa ser solitária.

By Ana Beatriz Rosa *

A leitura é vista, na maioria das vezes, como uma atividade individual. Mas isso não quer dizer que ela precise ser solitária. Os clubes de leitura têm raízes no século 18 e remontam à ideia dos grandes salões franceses, bem como às reuniões de mulheres que marcaram a história política dos Estados Unidos.

Mas, atualmente, eles ganharam uma nova roupagem - e recebem cada vez mais adeptos reunidos com a ajuda das redes sociais. O advogado Pedro Pacífico, por exemplo, coordena o clube de leitura Book.ster no Instagram e já conta com mais de 70 mil seguidores ávidos pelas dicas de leituras e suas experiências com os textos.

Ele conta que, antes de iniciar o perfil, usava como referência a lista de livros mais populares das livrarias para escolher as suas leituras. Porém, ao começar a interagir com perfis sobre literatura no Instagram, passou a conhecer obras diferentes que nunca teria acesso sozinho.

"Com esses perfis, também aprendi a perder o medo dos clássicos e de autores considerados difíceis. Foi até por isso que criei o @book.ster. Se eu fui influenciado por perfis literários, também queria influenciar os outros. O objetivo é mostrar que um leitor comum consegue ir além dos best sellers e que tem muita recomendação boa de leituras que nem sempre chega ao grande público."

Na rede social, ele compartilha posts praticamente diários com resenhas e dicas de leitura. Além disso, promove leituras conjuntas com seus seguidores e faz transmissões ao vivo para comentar as obras.

A interação do clube de livro virtual deu tão certo que Pacífico resolveu extrapolar as redes e criou encontros presenciais com leitores de São Paulo. Os encontros acontecem mensalmente no hub de criatividade Tucupi, localizado em uma casinha aconchegante no bairro de Vila Nova Conceição, na capital.

Lá, um grupo de cerca de 20 pessoas se reuniu em dezembro para discutir a leitura de As Meninas, um romance clássico brasileiro da autora paulistana Lygia Fagundes Telles.

O enredo é trabalhado sob a perspectiva de múltiplas protagonistas, com uma forte dose de fluxos de consciência e com uma estrutura de tempo não linear, o que torna a leitura um tanto confusa para aqueles que enfrentavam o primeiro contato com a escrita da autora.

A compreensão, então, foi facilitada por meio da mediação do advogado Pedro Pacífico, que começou antes mesmo do grupo se encontrar por meios de mensagens no WhatsApp do clube.

Chegado o dia do encontro, o que antes pareciam dúvidas sobre a narrativa, acabaram por se tornar interpretações sobre a obra.

Na roda de conversa, surpreendia a capacidade de atenção dos leitores que se lembravam de vários detalhes do enredo e não poupavam ao contribuir com referências de suas vidas pessoais para dar novos sentidos à obra.

"Gostaria que fosse mais comum esse tipo de leitura conjunta como acontece nos clubes de livro. Assim, temos acesso a várias perspectivas de uma mesma história. Acho que, hoje em dia, a leitura ainda é vista como uma atividade muito individual, mas não deveria. Inclusive, precisamos de mais políticas públicas para que essas discussões cheguem às pessoas que ainda não tiveram a oportunidade de participar de um clube do livro", compartilha Isabelle Freitas, uma das participantes.

Além de retomarem um costume por vezes esquecido, os clubes de leitura são ótimas oportunidades de criar um compromisso e alimentar o hábito da leitura. O espaço é aberto ao leitor comum, que não necessariamente tem conhecimento técnico sobre o gênero literário, mas tem vontade de compartilhar suas impressões sobre as personagens e as emoções despertadas pela obra.

10'000 HOURS VIA GETTY IMAGES

Dicas para quem que ler mais em 2019

A seguir, o clube de leitura Book.Ster listou 8 dicas para quem quer retomar o hábito da leitura ou simplesmente se arriscar em novas histórias em 2019.

1. Tenha uma rotina

"Eu amadureci como leitor quando comecei a criar uma rotina de leituras. O primeiro passo foi tornar a leitura um hábito do meu dia. Ler um pouco todos os dias. No começo pode parecer difícil, mas em pouco tempo você já começa a se acostumar e a leitura se torna parte do cotidiano. É um tempo que você foca só em você." - Pedro Pacífico

2. Separe um cantinho de sua casa dedicado a leitura

"Eu tenho um 'lugar' só para a leitura. É uma poltroninha confortável na varanda, deixo o meu celular longe, levo meu livro e um lápis para rabiscar as partes importantes e só. Me ajuda bastante a concentrar no meu momento." - Isabelle Freitas

3. Aproveite o deslocamento nos transportes públicos

"Eu sempre leio no ônibus e metrô. Ajuda bastante porque seria um 'tempo perdido'." - Samuely

4. Tenha sempre um livro em mãos

"Eu leio enquanto tomo café da manhã, pelo menos 1 página, antes de começar de fato o dia. Antes de dormir também. E carrego para todo lado o Kindle (ou o próprio livro, se for pequeno)." - Raissa Barbosa

5. Esconda o celular

"Eu preciso esconder o celular e deixar o livro bem acessível." - Thomas

6. Intercale os gêneros literários

"O que eu acho importante é escolher temas e gêneros bem diferentes para não se confundir com a leitura. A melhor maneira para começar é pegar um livro de ficção e outro de não ficção. Com isso, você dificilmente cansará de uma obra e você irá perceber que o ritmo de leitura melhora muito." - Pedro Pacífico

7. Compartilhe as suas leituras

"Tenho mania de querer ler trechos que me tocam para as pessoas que estão a meu lado, contextualizo e leio. Normalmente elas não dão muita bola, acho que é por não estarem envolvidas na leitura como eu. Mas mesmo assim continuo com essa mania, me faz bem reler ou compartilhar o que estou lendo." - Tipiti

8. Participe de um clube do livro (virtual ou não)

"Gostaria que fosse mais comum esse tipo de leitura conjunta como acontece nos clubes de livro. Assim temos acesso a várias perspectivas de uma mesma história. Acho que hoje em dia a leitura ainda é vista como uma atividade muito individual." - Isabelle Freitas

* Ana Beatriz Rosa Editora de Comportamento, HuffPost Brasil

Texto e imagens reproduzidos do site: huffpostbrasil.com