domingo, 15 de julho de 2018

Oráculos de Papel



Oráculos de Papel 

Como a autoajuda se transformou no gênero que alavanca os números do mercado editorial no Brasil e no mundo

Por Livia Deodato | Ilustrações Lucas Levitan

De problemas de saúde a questões políticas, o Oráculo de Delfos, mais importante centro religioso da Grécia Antiga, atendia de cidadãos comuns a governantes e filósofos que estavam em busca de conselhos assertivos. Logo na entrada, a inscrição “conhece-te a ti mesmo” se tornou a base da filosofia que conhecemos hoje, difundida inicialmente por Sócrates. Sem dúvida, era o primeiro movimento de que se tem notícia em direção ao autoconhecimento – em outras palavras, ao que hoje também podemos denominar como autoajuda.

O gênero, assim como o Oráculo de Delfos, abrange diversas questões e temas no Brasil. E é atualmente o responsável por alavancar as vendas de livros em todo o mundo e especialmente neste país, que sempre foi conhecido como um lugar de não leitores. De 2017 para cá, houve um aumento de mais de 11%, segundo painel das vendas de livros no Brasil de maio levantado pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e a Nielsen Bookscan Brasil. Isso porque a autoajuda, hoje, deixou de ser apenas o nicho comum entre autores que escrevem e leitores que buscam dicas rápidas, fáceis e duvidosamente eficazes, geralmente organizadas em listas.

“O termo autoajuda é um grande guarda-chuva. Nos anos 80, tínhamos uma autoajuda mais inspiradora ou mística e agora ela é mais prática e acompanha o mundo em que estamos”, diz a editora e agente literária Alessandra Ruiz, que já trabalhou em grandes editoras e acaba de fundar sua própria agência, Authoria. “Dentro do gênero, você encontra livros de negócios, ciência, espiritualidade, desenvolvimento humano, que servem para aplicação tanto em sua vida pessoal quanto profissional. A grande mudança que observo atualmente é que há um número cada vez maior de livros mais sérios, baseados em pesquisas acadêmicas, inclusive, traduzidas de maneira mais popular e abrangente”, completa ela, que trabalha no mercado editorial há 25 anos.

Autoajuda, na opinião de Tomás da Veiga Pereira, sócio-diretor da Sextante, é uma maneira de tornar acessível ao grande público conhecimentos, experiências e pesquisas sobre os mais diversos temas, com o objetivo de alcançar aquilo que se propõe. Ele conta que já seguiu a dieta chamada South Beach, recomendada por um médico seu para tratar sua insônia recorrente. “Aquilo me ajudou muito e, pouco tempo depois, publicamos a tradução deste livro homônimo escrito pelo cardiologista norte-americano Arthur Agatston, que estudou a fundo as causas das dores e doenças trazidas por seus pacientes e apresentou uma maneira de curá-los.”

Seja por pura retórica ou abrangência do conceito, o fato é que, se analisarmos o sentido estrito da palavra, todo livro pode ser considerado autoajuda. “Um manual de redação e estilo para aprimorar a escrita, um livro para organizar a vida financeira, outro para meditar, outro para aprofundar uma discussão filosófica, um conto ou poesia... Todas essas variedades são escolhas, consideradas importantes por seus leitores, que tornam os livros mestres para quem os lê. Afinal, o que buscam é um meio de aprimorar algo em si, ampliar conhecimento, diálogo. Para mim, são todos autoajuda”, diz o jornalista e professor de literatura Pedro Almeida, proprietário da Faro Editorial.

O filósofo e professor universitário Mario Sergio Cortella é uma das personalidades que ultrapassaram a barreira da academia e transitam livremente pelos corredores populares de TVs, rádios, revistas, jornais, eventos corporativos e estantes de livros. Ao falar de temas caros a todos os seres humanos, sem rodeios e com irreverência, Cortella deixa os que lhe assistem hipnotizados. Alguns de seus livros mais recentes, como A Sorte Segue a Coragem (Planeta, 2018) e Por que Fazemos o que Fazemos? (Planeta, 2016), estão classificados em algumas livrarias como autoajuda. Erra quem pensa que isso o incomoda. O autor já repetiu mais de uma vez que “toda filosofia é autoajuda” e que, como em todo gênero, há obras de boa e de má qualidade.

Os primeiros 20 livros da lista de mais vendidos da Livraria Cultura atualmente são de autoajuda. Nela aparecem títulos como A Sutil Arte de Ligar o F*da-se (Intrínseca, 2017), de Mark Manson, texano de 34 anos, e também Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas (Simon & Schuster), de Dale Carnegie (1888-1955), considerado a “bíblia” da autoajuda, publicado pela primeira vez em 1936 e que já vendeu mais de 50 milhões de exemplares.
“A Sutil Arte... é o avesso da autoajuda tradicional: o livro diz que o leitor não é tão especial assim e que vai ser mais fácil viver se ele parar de se torturar para pensar positivo”, diz Raquel Cozer, editora da Intrínseca. “Acho natural que, em tempos de crise como a que vivemos hoje, essa busca aumente. É muito simbólico que esse livro tenha vendido mais que qualquer outro de qualquer gênero no Brasil neste ano.” A Sutil Arte... já vendeu, até o fechamento desta revista, mais de 183 mil exemplares no país, mantendo-se em primeira posição no ranking geral dos mais vendidos, de acordo com a PublishNews (Sapiens, de Yuval Noah Harari, personagem da capa, aparece em quarto lugar, com mais de 79 mil exemplares vendidos).

Outro livro que ficou nas paradas de sucesso por bastante tempo é Casais Inteligentes Enriquecem Juntos (Sextante, 2004), de Gustavo Cerbasi. O livro trata de finanças pessoais de modo acessível, mas também teve outro propósito segundo seu editor à época do lançamento: diminuir o índice de separação entre casais. “Eu havia lido uma pesquisa inglesa que dizia que o segundo maior motivo de separação no mundo era dinheiro – a falta ou o excesso dele. Daí pensei: ‘Imagina um livro que possa diminuir esse índice?’”, relembra o editor Anderson Cavalcante, hoje à frente da Buzz Editora. A obra escrita por Cerbasi vendeu mais de 1,3 milhão de exemplares – e tem feito escola.

A especialista em finanças pessoais e youtuber Nathalia Arcuri (leia mais nas páginas a seguir) vendeu 2.672 exemplares de seu livro Me Poupe! só no mês de lançamento, marcando um recorde para a Sextante. Isso o levou a ocupar a quarta posição no ranking geral de vendas da PublishNews. O lançamento, ocorrido em maio na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, causou frisson e fez com que seu livro esgotasse em três horas. As resenhas breves feitas por leitores no canal da autora levam a crer na eficácia do conteúdo: “Li seu livro em dois dias e aprendi bastante coisa” ou ainda “acompanho seu canal há um ano, li o seu livro em quatro dias e é maravilhoso, já fiz várias mudanças e bora ser rica!”

A editora Raíssa Castro, da BestSeller e Verus, que integram o Grupo Editorial Record, afirma que um dos critérios estabelecidos para seleção das obras do gênero está ligado ao momento atual da sociedade e suas respectivas buscas. “O que importa é como o conteúdo de determinado livro é processado internamente pelo leitor. De que adianta ler um clássico da literatura universal ou um texto filosófico altamente elaborado se o leitor não é transformado por essa leitura?”  

Texto e imagens reproduzidos do site: livrariacultura.com.br

sábado, 14 de julho de 2018

Ser 'queer' não cabe numa caixa: Um bate-papo com Pri Bertucci

Com o [SSEX BBOX] Pri Bertucci produz séries para internet com a intenção
 de educar pessoas e instituições sobre o "ser queer".

Ser 'queer' não cabe numa caixa: Um bate-papo sobre identidade com Pri Bertucci

"Temos que lembrar a importância do pronome de gênero. As pessoas não vêem a importância disso porque não sofrem por causa disso."

By Leda Antunes

"Como é que a gente quer colocar 7,6 bilhões de pessoas em apenas duas possibilidades de existência: ou na caixinha azul ou na caixinha rosa?", questiona o artista visual e ativista Priscilla Bertucci. Foi com essa pergunta que Pri, como prefere ser chamado, iniciou seu processo de investigação pessoal para enfim se identificar com o gênero queer, que é uma identidade transgênero.

O paulistano passou dez anos em São Francisco, nos Estados Unidos. Lá, em 2011, fundou o [SSEX BBOX], um projeto de documentários que investiga as possibilidades da sexualidade humana, fora das "caixinhas azul e rosa". Para fazer a série de filmes, Pri conversou com educadores sexuais, estudiosos, ativistas e artistas que quebravam os padrões heteronormativos de gênero e sexualidade. "Trabalhar com essas pessoas incríveis abriu muito o meu espectro do que é gênero e do que é sexualidade e das possibilidades de existência no mundo", lembra.

Estranho, peculiar, excêntrico. A palavra queer era usada de forma pejorativa contra a comunidade LGBTQI+, mas nos anos 90, movimentos sociais e ativistas passam a ressignificá-la, usando-a como forma de denominar as pessoas dispostas a romper com ordem sexual padrão. A chamada teoria queer é consolidada no livro "Problemas de Gênero", da filósofa Judith Butler, e pressupõe que a orientação sexual e a identidade de gênero são construções sociais e que não é possível classificar as pessoas nos binarismos homem x mulher e heterossexual x homossexual.

Com a volta ao Brasil, há três anos, Pri expandiu a atuação do [SSEX BBOX] que, para além dos filmes, virou um projeto de promoção de justiça social. Hoje fazem consultoria de inclusão e diversidade para empresas e realizam diversos eventos. Em 1º de junho deste ano, colocaram na rua a primeira Marcha do Orgulho Trans de São Paulo e, mais recentemente, foram parceiros da Organização das Nações Unidas (ONU) no lançamento em São Paulo dos Padrões de Conduta para Empresas combaterem a LGBTfobia.

Durante evento, Pri revelou que havia tomado a primeira dose de testosterona, dando início a sua transição hormonal. Ao HuffPost Brasil, ele falou sobre o que é ser queer, a celebração do Orgulho LGBT, o machismo dentro do próprio movimento, a primeira Marcha do Orgulho Trans e ainda deu dicas para pessoas cisgêneras heterossexuais não errarem quando estiverem na dúvida sobre a identidade de gênero de uma pessoa.

Leia a entrevista completa:

O que é ser "queer"

"A palavra queer representa tantas coisas, é um conceito muito complexo. Ela é uma identidade de gênero, é uma orientação sexual, é um adjetivo, um substantivo e pode ser um verbo. O conceito queer é tão disruptivo do sistema, que causa essa estranheza. É muito difícil de compreender, tem um aspecto muito budista do queer, que é fora desse binarismo de pensamento. E eu me identifico dessa forma. Há muitos questionamentos se o queer pode ser uma identidade de gênero, porque ela é uma identidade não identidade, é o lugar do não lugar. No Brasil, o queer está sendo representado pelo não binário, são coisas parecidas. Como o agênero, two spirit, genderless, gênero fluido, tudo isso está dentro desse espectro queer não binário. Muita gente ao invés de usar queer usa o não binário para explicar. Mas acontece que eu, particularmente, não gosto de me afirmar pela negação. Não quero ser não alguma coisa. Não binário, não branco. Prefiro ser queer, pardo."

Um aprendizado cultural e linguístico

"Há 15 anos eu milito nesta causa, há 10 anos surgiu o projeto nesse meu processo de mudar para São Francisco (EUA).Trabalhei com pessoas muito importantes que fazem parte desse movimento queer. Muito antes de Judith Butler escrever sobre teoria queer, o queer veio da rua, do movimento social, das ruas de São Francisco. E eu pude conviver com essas pessoas que estavam ali naquele momento crucial e histórico. Muito do SSEX BBOX vem dessa convivência, com Carol Queen, por exemplo, que foi responsável por colocar a letra B, de bissexuais, na sigla LGBT. Trabalhar com essas pessoas incríveis abriu muito meu espectro do que é gênero e do que é sexualidade e das possibilidades de existência. Somos 7,6 bilhões de pessoas nesse planeta, como é que a gente quer colocar 7,6 bilhões de pessoas em apenas duas possibilidades de existência: ou na caixinha azul ou na caixinha rosa? Meu processo pessoal vem disso, dessa investigação pessoal, eu fui investigando, aprendendo e filmando tudo isso e isso virou a primeira websérie sobre o tema, em 2011. Não existiam pessoas trans no Brasil dispostas a dar entrevista sobre o tema na época. Foram meses de pesquisa pra achar uma pessoa trans que quisesse dar uma entrevista. [...] Eu estava fazendo um documentário e aprendendo muito com todos esses educadores sexuais, que viveram essa questão do movimento queer. Como filmamos em quatro cidades diferentes em quatro países (São Francisco, São Paulo, Berlim e Barcelona), esse aprendizado foi cultural e também linguístico. Fui aprendendo nesse processo como a língua é limitante, se não tem uma palavra que representa certas coisas é como se ela não existisse."

A identidade queer no Brasil

"Enquanto eu estava lá na Bay Area da Califórnia, que é uma bolha de consciência, a realidade é que "everybody is queer" [todo mundo é queer]. É até estranho não ser queer lá. Mas quando eu volto ao Brasil e começo a explicar para as pessoas que eu não quero que elas me chamem de 'ela' é muito difícil. Não tem espaço para isso aqui. Faz três anos que voltei para cá, três anos de uma luta de tentar existir, não só para pessoas cis que são desconectadas, mas dentro do próprio movimento. Tem pessoas que acham que pessoas não binárias ou queer vão apagar a questão trans. Existem resistências, questionam 'mas é queer de verdade?' e eu digo o que é queer de verdade? Quem é a polícia queer? Eu percebo muita dificuldade de aceitação por pessoas da militância mesmo, querendo dizer que eu sou menos importante com essa identidade. E passamos de novo por uma questão de muita disputa interna dentro do movimento e sem esse espaço de compreensão de todas as vidas precisam ser respeitadas, todas as existências e todas identidades precisam ser respeitadas."

O lugar do "orgulho" LGBT

"Eu diria que essa não é a melhor palavra para se celebrar a possibilidade de existência das nossas identidades e dos nosso desejos. Se eu pudesse escolher, eu escolheria outra. Mas eu não sei se eu tenho essa palavra ainda. Talvez no futuro a gente escolha outra. Mas vou dizer porque o orgulho tem questões. Pride é o oposto de shame. Você tem vergonha e orgulho. A comunidade LGBT vive, sempre viveu essa vergonha, só nos últimos anos tem um pouco mais de aceitação. Mas na minha época -- eu nasci e 1978, e quem nasceu antes de mim era pior ainda --, existia uma vergonha de você ser quem você é, uma vergonha que não é só sua, mas mas também dos outros: sua família, seu amigos, tinham vergonha. Dá para entender porque a gente está trabalhando com esse binarismo hoje. Se é tanta vergonha e culpa colocada em cima dessa identidades, o orgulho se torna totalmente oposto. Mas não acho que orgulho seja uma coisa muito saudável, pois vejo que estamos dentro de uma questão muito egocêntrica. As pessoas precisam mostrar a sua aparência, lutam pelos seus likes. Acaba virando uma obsessão com a imagem. De qualquer forma, eu acho que ainda não achamos um lugar intermediário para substituir essa palavra. Isso vai acontecer quando derrubarmos esse combo de culpa e vergonha, quando conseguirmos ter um lugar de muito mais aceitação - e eu não acho que isso seja na minha geração ou na sua geração, algumas gerações ainda precisam vir para a gente começar a achar um equilíbrio. Essa coisa é tão forte. E por isso a gente fez a Marcha do Orgulho Trans, porque quer ter orgulho de ser trans, porque é uma resposta nessa mesma força a essa vergonha que nos é imposta."

O falocentrismo LGBT

"A Parada não é LGBT, é uma parada que deveria ser LGBT, mas é uma parada gay. [...] Existe um viés racial, de gênero, nesse combo do viés inconsciente, das pessoas que organizam a parada, que detém o poder. E quem tem poder? É o homem branco cisgênero heterossexual. Mas mesmo que ele seja gay ele continua no poder. E ele não tá afim de abrir mão ou dividir esse poder com pessoas que têm vagina. O falocentrismo reina nesse movimento LGBT. Quem tem vagina é cidadão de segunda classe. Isso é o planeta e dentro do movimento LGBT não é diferente. Lésbicas e homens trans são super invisibilizados. Pessoas queer e não binárias, então, nem se fala, isso nem existe, é um unicórnio. A vontade de fazer a marcha veio do meu processo de viver em São Francisco por dez anos e ver quão forte e organizado é o movimento trans e quanto mais respeito eles conseguiram dentro das letrinhas LGBTQIA+ com processos de diálogo, escuta, comunicação não violenta, de justiça restaurativa entre esses grupos. A Dyke March [caminhada lésbica] existe no sábado há muitos anos, na véspera da Parada Gay, e a Trans March na sexta-feira. Essa sequência acontece em outros lugares do mundo, não só em São Francisco onde eu morava. Eu via a potência que tem ter uma Marcha do Orgulho Trans, mas no Brasil ainda não tinha acontecido. No ano passado eu comecei esse projeto, escrevi, comecei a articular com o movimento, mas infelizmente não foi pra frente, acho que muito por falta de engajamento de pessoas que não acreditaram que era possível fazer. Começamos a fazer um círculo pequeno, bem tímido, de homens trans e não binários, para falar desses apagamentos que vivemos. Como é ter vivido num corpo que é reconhecido como feminino, com vagina, e todos os abusos que passamos. A gente trabalhou alguns meses com esse grupo e muitos deles eram líderes de outros projetos. A ideia era mesmo fortalecer esse lado emocional e criar esse grupo de afinidade e com uma comunicação mais coesa. Aí eu faço o convite para esse grupo de meninos trans a produzirem comigo essa marcha, que era um sonho. Eu já tinha o projeto pronto, o site tava pronto, faltava mesmo botar na rua. Fiz a parte da captação, consegui os patrocinadores. E aí os meninos trans entraram, eles representam o Ibrat (Instituto Brasileiro de Transmasculinidades) e o Tiely Queen, do Hip Hop Mulher, para fazer esse evento acontecer. A marcha foi incrível."

Na dúvida, pergunte

"Podemos pensar em duas coisas que uma pessoa cisgênero e heterossexual pode fazer para não desrespeitar uma pessoa que ela não sabe a identidade de gênero. A primeira é perguntar 'como você gostaria de ser chamado?' E a segunda 'qual é o seu pronome de gênero preferido (PGP)?' Não adianta eu só falar, eu gosto que você me chame de Pri, porque Pri você vai assumir que é Priscilla, então é feminino e, no caso não é, eu quero que seja o Pri ou só Pri. Em qualquer reunião, ou qualquer lugar que tenha muitas pessoas cis e poucas pessoas trans, temos que lembrar a importância de falar do pronome de gênero, as pessoas não vêem a importância disso porque não sofrem por causa disso, para uma pessoa no padrão cis heteronormativo isso não importa. Muita gente fala que é frescura, que é mimimi, mas não é mimimi, é realmente uma questão de respeito."

Texto e imagem reproduzidos do site: huffpostbrasil.com

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Ler ou não ler, eis a questão: uma crônica sobre livros e leitura

'La Liseuse', pintura a óleo de Jean-Honor Fragonard
Reprodução/National Gallery of Art, Washington

Publicado originalmente no site da revista CULT, em 4 de julho de 2018

Ler ou não ler, eis a questão: uma crônica sobre livros e leitura

Por Marcia Tiburi

Há cerca de quatro anos, uma pessoa, ao ouvir uma fala minha em um evento literário no interior de Santa Catarina, interpelou-me, chateada: “Marcia, eu gostava de você quando você não era política”.

Perguntei a ela por que me dizia essa frase: ela não quis responder. Perguntei, então, se ela costumava ler o que eu escrevia, tentando entender o seu “gosto” por mim. Eu perguntei se havia lido algum artigo, algum texto na internet. Ela apenas tinha me visto na televisão e, de certo modo, isso lhe bastava.

Comentei que, a meu ver, estamos sempre mergulhados em política, mesmo quando não queremos saber dela. Mesmo quando aparecemos ou vemos televisão, isso é político, pois que a televisão é um meio de poder; não apenas um meio de comunicação, mas um meio de comunicação do poder. Que nossos atos, aparentemente “des-políticos” ou “anti-políticos”, servem a algum tipo de política. Que se nós não sabemos, todavia alguém sempre sabe o que fazer com o nosso desgosto ou falta de interesse em política. A política abandonada serviu e serve aos poderosos de sempre, sugeri para que ela pensasse. Ela não ficou muito interessada, mas prometeu, de um modo muito simpático, ler um livro meu.

Não foram poucos os momentos em que estive com pessoas particulares ou grupos diversos nos quais tive que tratar da mesma questão. E não foi incomum descobrir que muitas pessoas que “gostavam” ou “não gostavam” de mim nunca tivessem lido um livro meu. Pensar na força da televisão e na impotência do livro nessas horas ainda me deixa triste.

O desinteresse ou desatenção pelo que escrevo não é um problema, evidentemente. Ler é um direito e não ler também. Preferências de cada um devem ser respeitadas, embora possam significar algo mais. Há tempos atrás, eu soube de um professor de uma grande universidade que ia às livrarias e escondia meus livros para que ninguém os comprasse. Não sei se os lia ou não, mas certamente os odiava a ponto de precisar escondê-los. Do mesmo modo, há pessoas que conheço que leram todos os meus livros, ou vários deles, e até presentearam seus amigos e amores com eles. Eu fico feliz, mas isso é uma questão maior do que eu mesma, do que meus desleitores ou leitores.

O que me faz contar isso? Sou escritora e penso ser este um lugar de fala legítimo. Mas a meu ver há um problema imenso na cultura brasileira, um problema que diz respeito ao que o sociólogo francês Pierre Bourdieu, por exemplo, chamou de habitus aquele modo de viver que é introjetado e resulta em um modo de sentir, de pensar e ser.

Ora, há um nexo a ser compreendido entre a “despolitização” ou “antipolitização” da vida e a falta de interesse pelo que há de mais complexo e mais difícil e que, de um modo geral, faz parte do mundo dos livros e da leitura. Ler e não ler também são atos políticos. E políticas da leitura e da escrita não podem ser deixadas de lado quando se trata de pensar um mundo melhor para se viver com pessoas melhor preparadas subjetivamente.

Entre a política e a leitura há uma analogia que nos ajuda a entender a nossa época. São dois hábitos que exigem esforço e que, depois de transpostas as dificuldade do hábito, se não definem um novo prazer, pelo menos nos ajudam na expansão de nossas visões de mundo.

Eu fico triste de ver que telas (sejam de televisão, sejam de computador), suplantem os livros em nossa época. Que tipo de subjetividade surge desse habitus da não-leitura, em uma época em que a escrita é instrumentalizada de tantas formas, inclusive na internet, é uma questão para pensar.


Texto e imagem reproduzidos do site: revistacult.uol.com.br

terça-feira, 26 de junho de 2018

A famosa foto de Evandro Teixeira, na Passeata dos Cem Mil


Publicado originalmente no site da Revista FORUM, em 26 de junho de 2018

A famosa foto de Evandro Teixeira, na Passeata dos Cem Mil

A ‘Passeata dos Cem Mil’ e seus heróis, nas fotos de Evandro e em um poema de Drummond

A passeata completa 50 anos nesta terça-feira, com vários personagens que permanecem na luta até hoje

Por Julinho Bittencourt  

A ditadura atingia o seu auge. Em março de 1968, a PM invadiu o restaurante universitário 

Calabouço, onde estudantes protestavam contra o preço das refeições. No confronto, o comandante da PM, Aloísio Raposo, matou o estudante Edson Luís, com um tiro no peito. Durante o velório e, sobretudo, na missa do estudante, o Rio de Janeiro pegou fogo. A polícia avançou contra estudantes, padres, jornalistas e populares.

Em 21 de junho, aconteceu a ‘Sexta-feira Sangrenta’. Durante nova manifestação, desta vez na porta do Jornal do Brasil, três pessoas foram mortas, dezenas ficaram feridas e mais de mil foram presas. O gosto de sangue na boca da ditadura ruiu diante da opinião pública. Como forma de recuo, o exército acabou permitindo uma nova manifestação, para o dia 26. Aquele dia, há 50 anos, entrou para a história e ficou conhecido como ‘A Passeara dos Cem Mil’.

O AI-5

As consequências daquela manifestação ampla e sem precedentes contra o regime dos militares foram desastrosas. Até o final do ano, vários outros estudantes foram presos no Rio de Janeiro e em São Paulo, o Congresso rejeitou projeto que concedia anistia aos estudantes, o Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Ibiúna (SP), foi invadido e mais de 400 estudantes foram presos. No final do ano, no dia 13 de dezembro, foi promulgado o Ato Institucional Nº 5 (AI-5), dando início à página mais sangrenta e obscura da nossa história recente.

A ‘Passeata dos Cem Mil’ contou com a participação de um sem fim de personalidades da vida brasileira, entre eles artistas como Chico Buarque de Holanda, Edu Lobo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tônia Carreiro, Grande Otelo, Paulo Autran, José Dirceu, Tancredo Neves, Marieta Severo, Nara Leão, Clarice Lispector, Fernando Gabeira, entre muitos e muitos outros.

O fotógrafo e o poeta

O fotógrafo Evandro Teixeira, então funcionário do Jornal do Brasil, fez, entre muitas outras, aquela que foi considerada a imagem definitiva da passeata. Nela, a multidão preenchia toda a imagem, cortada harmônica e suavemente por uma faixa resoluta bem no canto superior esquerdo, no exato local da regra dos terços, que dizia: “Abaixo a Ditadura. Povo no Poder”.

Sob o impacto das imagens de Evandro, o poeta Carlos Drummond de Andrade, escreveu um lindo poema:

Diante das fotos de Evandro Teixeira

A pessoa, o lugar, o objeto
estão expostos e escondidos
ao mesmo tempo, sob a luz,
e dois olhos não são bastantes
para captar o que se oculta
no rápido florir de um gesto.

É preciso que a lente mágica
enriqueça a visão humana
e do real de cada coisa
um mais seco real extraia
para que penetremos fundo
no puro enigma das imagens.

Fotografia-é o codinome
da mais aguda percepção
que a nós mesmos nos vai mostrando,
e da evanescência de tudo
edifica uma permanência,
cristal do tempo no papel.

Das lutas de rua no Rio
em 68, que nos resta,
mais positivo, mais queimante
do que as fotos acusadoras,
tão vivas hoje como então,
a lembrar como exorcizar?

Marcas de enchente e de despejo,
o cadáver insepultável,
o colchão atirado ao vento,
a lodosa, podre favela,
o mendigo de Nova York,
a moça em flor no Jóquei Clube,

Garrincha e Nureyev, dança
de dois destinos, mães-de-santo
na praia-templo de Ipanema,
a dama estranha de Ouro Preto,
a dor da América Latina,
mitos não são, pois que são fotos.

Fotografia: arma de amor,
de justiça e conhecimento,
pelas sete partes do mundo,
viajas, surpreendes, testemunhas
a tormentosa vida do homem
e a esperança de brotar das cinzas.

Texto e imagem reproduzidos do site: revistaforum.com.br

Tertuliana: A ‘sertransneja’ que ocupa a sala de aula como um ato político



Hoje, os trabalhos de Tertuliana podem ser vistos principalmente em cordéis
 e xilogravuras, arte comum à região Nordeste.

Tertuliana Lustosa: A ‘sertransneja’ que ocupa a sala de aula como um ato político

Piauiense é transgênero e acredita que a arte pode ultrapassar o controle dos corpos. “É o momento de dizer que a tradição não se resume no controle do corpo e na catequese."

By Ryot Studio e CUBOCC

Uma jovem de 18 anos, nascida no interior do Piauí, chega ao Rio de Janeiro para começar os estudos. Esta é uma história comum, que provavelmente acontece todos os dias, e é também a história de Tertuliana Lustosa, hoje com 21 anos. Nascida em Corrente mas tendo passado boa parte da vida em Salvador, na Bahia, a moça aterrissou no Rio para cursar História da Arte na UERJ, movida pelo amor que sempre teve pela literatura. Mas paralelamente à mudança, também aconteceu o que Tertuliana define como "diáspora territorial de gênero". Poucos meses após chegar na universidade, ela iniciou seu processo de transição.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Tertuliana explica que o início não foi fácil. Todo o acompanhamento médico e psicológico fundamental para o procedimento não aconteceu, e por medo. Ela conta que é comum, em pessoas transgênero, o receio de sofrer tratamento transfóbico por parte dos profissionais de saúde. Assim, ela começou o processo de transição hormonal por conta própria, recém saída da adolescência.

Tertuliana começou o processo de transição hormonal por conta própria, recém saída da adolescência.

"Não é recomendado, nunca! Mas as pessoas trans fazem porque os médicos são transfóbicos. Se você chega lá com passabilidade cis, eles dão o remédio e até te tratam no pronome correto. Mas se chegar lá antes de tudo, eles vão questionar se temos certeza. E é um momento super delicado, porque você não quer ouvir esse tipo de coisa, e às vezes é só uma pessoa trans que vai te tratar bem", explica.

Pouco tempo depois, ela buscou ajuda em um hospital que, sim, conseguiu acolhê-la e orientá-la da melhor forma. Com acompanhamento da assistência social e psicológica, Tertuliana iniciou o processo de mudança do nome e conseguiu se aproximar cada vez mais de quem ela realmente é. "Eu tive sorte, porque esse apoio é muito importante", define.

Estar no Rio também é uma forma de se redescobrir o tempo todo. No período anterior à transição, se sentia muito "fechada" em expressões culturais que sempre reconheceu como bonitas, mas que exigiam uma performance: aquelas em que tocavam ritmos como pagode baiano e forró. "Eu não queria estar ali com aquele corpo que eu tinha. Só que na verdade não era com aquele corpo, mas com uma performatividade de uma masculinidade que não era minha", conta.

Atualmente, Tertuliana ministra oficinas de literatura Escritos Trans, na UERJ. Um dos formatos usados por ela é o cordel.

Hoje, a música atravessou sua vida de vez e ficou. Tertuliana também trabalha como DJ e estuda formas de incluir mais MCs LGBT nas festas da cidade. "O funk foi meu momento de liberdade, por mais que eu não seja 'cria' do Rio", conta ela.

A primeira experiência como DJ aconteceu quase sem querer, na Casa Nem. O local fica no centro do Rio e abriga pessoas transgênero em situação de vulnerabilidade. Ali, também, foi a primeira sede do curso pré-vestibular, Prepara Nem, direcionado ao mesmo público. Depois de observar uma DJ transgênero, quase por instinto Tertuliana tentou, também. E deu certo: aos poucos dominou as carrapetas e encontrou parte de sua liberdade.

A Casa Nem também marca a vida de Tertuliana por outros motivos. Foi lá, em 2015, que ela começou a dar aulas de artes e literatura no pré-vestibular, quando "ainda estava aprendendo a ser professora".

Depois, ela começou a dar aulas como convidada também em outras instituições. Até chegar ao momento atual, em que ministra a oficina de literatura "Escritos Trans", na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Na oficina, que está em seu primeiro semestre, a professora trabalha termos relacionados à causa transgênero, e também lança mão da criatividade para demarcar seus espaços.

"Os termos relacionados [a transexualidade] vêm de um estudo de gênero contemporâneo da Europa, como transgênero ou transexual. Eu senti a falta de ter os termos da militância, um dos termos é tranvestigenere, então também tem o termo que eu criei, sertransneja. É um termo para complexificar a existência trans, uma existência trans de uma diáspora territorial de gênero. Saio do território da masculinidade e vou pra outro que pode não ser nem um, nem outro [da feminilidade]", explica.

Sertransneja é um termo que complexifica a existência trans, de uma diáspora territorial de gênero.

O termo sertransneja, aliás, está marcado na pele. A tatuagem foi feita pela estudante Matheusa Passarelli, assassinada em maio deste ano no Rio. Theusa, como conhecida pelos amigos, também era uma artista. Cabe a Tertuliana, durante a entrevista, relembrar a grandeza da amiga, ainda que em poucas e emocionada palavras. "Ela era incrível", define.

A criação artística de Tertuliana a levou a lecionar como convidada em escolas públicas, também. Ela conta que já houve casos dos alunos desistirem de participar das oficinas ao saberem que a professora não é cisgênero e/ou sobre a temática de algumas peças artísticas. Mas o saldo final foi positivo. "Alguns levaram com naturalidade e produziram a xilogravura. Eu acho que é super potente e importante ter pessoas trans lecionando porque aí não precisa trazer a temática, só a presença mostra que tem uma potencialidade", acredita ela, que pretende mergulhar também em outras linguagens artísticas.

Ser professora, para Tertuliana, é um ato político. "As pessoas trans são infantilizadas e colocadas num lugar de impotência, num lugar de pessoas que ocupam sempre lugares marginalizados no mercado de trabalho e na sociedade. Ter pessoas trans fora disso, principalmente na educação, é fundamental", observa. E completa: "Ter uma professora trans na infância pode ser uma experiência importante para o resto da vida [de uma criança]."

Mas ela explica que seu trabalho pode, e vai, muito além do que o senso comum acredita. "Incomoda ser convidada para expor ou falar somente sobre a temática trans. Meu trabalho não é sobre isso, ele passa por uma série de questões e não necessariamente precisa passar pela questão trans."

Recentemente, ela também tem reencontrado textos que escreveu ainda na infância, época em que também ganhou um concurso literário. As características do que era feito naquela época se contrapõem à liberdade artística que Tertuliana alcançou. "As personagens eram mulheres assustadoras, um pouco sombrias. Na época eu tinha uma paixão muito grande pelas mulheres, mas uma dificuldade muito grande de lidar, porque a sociedade me colocava nesse lugar, dessa imposição heterossexual", explica ela, que ressalta que sempre encontra uma história de transformação na literatura produzida naquela época.

Hoje, os trabalhos de Tertuliana podem ser vistos principalmente em cordéis e xilogravuras, arte comum à região Nordeste. "Depois da transição, não fiquei mais tão presa. Não é o cabra macho, mas é a trava da peste. A reinvenção desses termos também é importante", conta.

A ideia do "cabra macho, viril e com muitos filhos", inclusive, é combatida pela professora. Estes e outros termos, segundo ela, são usados como ferramentas para controle dos corpos. "Essa tradição nordestina muito fechada, que os grandes centros até têm preconceito com ela, surgiu com uma catequese. Esses corpos que foram introduzidos aqui dessa forma, por essa trama colonial, podem virar o jogo. A gente pode virar o jogo quando desobedece o controle dos nossos corpos", afirma Tertuliana.

A estudante ainda sonha em voltar a viver em Salvador, e deixa nítido que o objetivo do seu trabalho e de outros artistas contemporâneos é "repensar a cultura nordestina" e ampliar os conceitos acerca dela. "É o momento de dizer que a tradição não se resume no controle do corpo e na catequese, nossa tradição está muito mais além disso", define a sertransneja.

Texto e imagens reproduzidos do site: huffpostbrasil.com

Entrevista com Luiz Carlos Barreto - Produtor de Cinema

Foto: Felipe Varanda

Publicado originalmente no site da revista ISTOÉ, nº 2531, em 22/06/2018 

Entrevista LUIZ CARLOS BARRETO - PRODUTOR DE CINEMA

O Brasil daria um filme de terror ou uma chanchada

Por Eliane Lobato

Luiz Carlos Barreto é uma das raras pessoas que inserem, no meio de uma conversa, um episódio vivido em 1942 como se fosse normal voltar 76 anos no tempo sem surpreender o interlocutor. Mas ele tem números que justificam a ousadia: acaba de completar 90 anos de vida, tem 73 de carreira cinematográfica, um casamento de 65 anos (sua mulher, Lucy, é, também, parceira profissional), além de uma memória espetacular. Barretão, o maior produtor de cinema do Brasil, é um retirante nordestino que escolheu o Rio de Janeiro para morar e o Brasil para amar, embora seja um crítico impiedoso. Além dos três filhos, sete netos e cinco bisnetos, considera-se pai dos filmes nos quais trabalhou, alguns deles clássicos como “Dona Flor e seus dois maridos”, “Bye bye, Brasil”, “A dama do lotação” e “Memórias do cárcere”. Nesta entrevista à ISTOÉ, ele diz que o Brasil está recuando tanto que chegará à Monarquia.

Mais de cinco décadas de sua vida são dedicadas ao cinema. Que filme o Brasil daria hoje?

O Brasil comporta todos os gêneros. Daria bom argumento cinematográfico para um filme de terror e também para uma comédia. Na verdade, uma chanchada. Há lances da política brasileira que dariam uma tragédia também. O Brasil daria um filme de terror, uma chanchada ou uma tragédia.

Nenhuma drama histórico?

Gosto do ser humano que este país produziu. Não é o mito do brasileiro cordial; sou fascinado é pela capacidade de relacionamento humano. O problema do brasileiro é o espírito escravagista que ficou instalado. Acabamos de fazer um documentário de cinco capítulos sobre trabalho escravo no Brasil, o título é “Escravidão — Século 21”. Hoje, há mais escravidão aqui do que na época do Império. Tem trabalho escravo na rua Barata Ribeiro, no Rio, na Avenida Paulista, em São Paulo, nas confecções de moda de tudo o quanto é lugar.

O problema do brasileiro é o espírito escravagista que ficou instalado. Hoje, há mais escravidão aqui do que na época do Império

Sua produtora está fazendo um documentário sobre a Marielle Franco, a vereadora assassinada há três meses no Rio de Janeiro. O que o público deve esperar?

Está em fase de preparação. Não queremos fazer um registro apenas. Estamos acompanhando toda a história, mas a polícia não descobre quem matou! Aliás, se as Forças Armadas e a polícia não conseguem descobrir quem roubou, em 2006, dois milhões de cartuchos de dentro do quartel, terá capacidade de descobrir que matou a Marielle com algumas das balas roubadas? Não tem controle da própria munição, que sai das dependências deles e vai para as mãos de bandidos. De uma hora para outra, podem inventar um assassino para se livrar da cobrança mundial sobre este crime. Estamos procurando fazer algo que não seja a exploração sensacionalista do assassinato. A trajetória de militante da Marielle tem várias facetas: diversidade sexual, miséria, preconceito de cor, raça, gênero, contra a favela. Ela tinha uma visão múltipla.

Por que a operação Lava Jato está investigando os patrocínios do filme “Lula, o filho do Brasil”, dirigido por seu filho Fábio Barreto?

Não é a primeira vez da Lava Jato comigo. Há uns três anos, às 7h, eu estava em casa me preparando para dar uma caminhada, quando toca o telefone. Atendi: “Dr. Barreto?”. Respondi: “Não sou eu, só fiz o ginásio até o terceiro ano, nunca frequentei universidade.” Não adiantou: “Entendi, doutor. Aqui é o delegado da Polícia Federal de Curitiba.” Para contrapor, perguntei: “Qual é o problema, ‘companheiro?’” Ele me disse que eu receberia uma intimação porque tinham encontrado nos arquivos do José Dirceu um contrato firmado entre a empresa dele e a minha, e queriam esclarecimentos sobre as cifras do filme que eu ia fazer. Era um longa sobre a história da clandestinidade do José Dirceu e se chamava “O Homem Invisível”. Eu rompi com o meu sigilo bancário, anexei todos os cheques, juntei o argumento da história, papelada e mandei. Dias depois, o delegado me liga de novo, disse que estava tudo ok e comentou: “Mas uma coisa me impressionou, que história bonita a deste homem, não é?”. Isso é o Brasil (risos).

E o filme sobre o ex-presidente Lula?

Mesma coisa, recebi uma intimação, dei as explicações, enviei os documentos e também deixaram o assunto de lado. Nada há de errado ou oculto.

Qual o estado de saúde de seu filho Fábio, que tinha acabado de dirigir o filme quando sofreu um grave acidente de carro, há nove anos?

Ele está em um estágio estabilizado. Não está em coma total, mas é consciência mínima. O cerebelo está bem, o problema é o trono cerebral, que atrofiou com o trauma do acidente. Foram feitos alguns testes modernos e constatou-se que ele ouve e entende. O teste é, em resumo, assim: ele fica dentro de um tubo e o médico, numa cabine. É dito para ele mexer a mão, por exemplo. Ele entende e aparelhos mostram que mentalmente faz o movimento, mas não executa fisicamente. Se faz um barulho, ele ouve e olha na direção. O estado orgânico dele é impecável, os exames são ótimos. Levamos o Fábio para o hospital para fazer alguns procedimentos experimentais, eletromagnéticos, com um dos médicos que cuida do piloto Michael Schumacher, que vive caso idêntico. Está se fazendo o possível para que ele mantenha um bom estado clínico até que apareça uma solução, a esperança está nas células-tronco. Vamos ver se dá para chegar lá. Nós o visitamos três vezes por semana. O Fábio sempre disse uma frase que gosto de repetir: há o cinema útil e o fútil. Ele não queria fazer um filme que seria jogado no lixo junto com o saco de pipoca após a sessão.

O senhor também encara o cinema dessa forma?

Sim. A indústria do entretenimento já é a primeira do mundo em negócios: US$ 1,2 trilhão de receita anual no mundo inteiro. No Brasil, essa cifra é de US$ 60 bilhões. Das 24 horas da vida de uma pessoa, ela consome, em média, oito com sono, oito no trabalho e sobram oito que são divididas: quatro em ocupação doméstica e quatro são ociosas. Somando, são quase 1.500 horas por ano de ociosidade. Como é preenchido? Com o entretenimento. Quem inventou o esquema para explorar o ativo deste mercado? Os americanos, claro. Montou uma indústria de música, editorial, de cinema etc, que não só preenche a necessidade do cidadão americano como ainda exporta para preencher a de pessoas de outros países. No Brasil, o Ministério da Cultura não tem essa preocupação, mas deveria. Não pode deixar 1.500 horas de um cidadão para consumo do que é importado. Daí, a perda da identidade. A pessoa pensa que está se globalizando, quando está se alienando de seu país.

Bye bye Brasil, literalmente?

Eu, se tivesse 30 anos, iria para o Canadá. Mas, na verdade, eu não me mudei no tempo da ditadura militar, acho que não seria agora. Não troco o Brasil por nada. Fiquei dois anos como correspondente da revista O Cruzeiro, na Europa, e não quis ficar lá, embora tenha recebido convites. Nunca quis morar fora do Brasil, sou um ser brasileiro, me orgulho muito disso.

Como ex-jogador futebol e apaixonado pelo esporte, o senhor está no clima da Copa?

Tenho três paixões na vida. A Lucy, o futebol e o cinema. Sobre a Copa, estou absolutamente frio com a Seleção Brasileira porque o futebol que eu admiro não é mais jogado, o futebol arte que tinha o Brasil como sede mundial. Nosso país, agora, adota o futebol força. Passamos a copiar sistemas táticos e de jogo de times europeus. Hoje temos o Neymar, o único que sabe brincar com a bola. Perdemos a nossa identidade do futebol. Já perdemos em várias outras coisas também.

O que explica o Brasil ter interrompido sua busca de identidade?

O segundo mandato da Dilma (Rousseff/PT) foi o começo do recuo. Ela queria agradar ao mercado e nomeou um “ultra pré neoliberal”, o Joaquim Levy, que nunca foi formulador de políticas. Era um ex-funcionário do FMI. E chegamos ao estágio que estamos, com o governo atual recuando décadas no tempo. Daqui a pouco, vamos voltar à Monarquia.

Quais as outras identidades que o Brasil perdeu?

Cultural. O povo brasileiro mantém porque ele é a própria identidade. Mas a elite vive com o olho fora do País, quer morar fora, venera os hábitos e costumes europeus e americanos. Perdemos identidade gastronômica também. Raramente come-se comida brasileira em restaurantes. Os cardápios são todos copiados da gastronomia italiana, francesa, japonesa, árabe… O povo ainda come, em casa, o feijão com arroz e carne assada; a elite prefere gastronomia importada.

O Donald Trump, na santa ignorância dele, fez uma única coisa certa, o slogan ‘América primeiro’, um retorno ao nacionalismo

Esse não seria um fenômeno global?

Globalização é a palavra que entrou na moda, mas só nos países do Terceiro Mundo. No chamado Primeiro Mundo, é o contrário: a onda é de nacionalismo. De novo, aqui, o povo continua nacionalista, acreditando no país. Essa herança colonialista é das elites, porque foram eles que se associaram aos colonizadores e foram se perpetuando no poder. Depois da democratização do País é que começamos a ir em busca de nossa própria identidade. No governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e no de Lula (PT) é que começamos a pensar em um projeto de País que valorizasse a produção cultural brasileira. O Donald Trump, na santa ignorância dele, fez uma única coisa certa, o slogan “América primeiro”, um retorno ao nacionalismo. Os Estados Unidos se tornaram a potência que são porque adotaram esse viés. Mas aqui no Brasil há um perigo, que é o movimento nacionalista radical de extrema direita do Jair Bolsonaro (PSL), um verdadeiro terror.

Como é chegar aos 90 anos?

O Jorge Amado (1912-2001) dizia que até os 80 você comemora, depois começa a contagem regressiva. Mas eu acho que a diferença está em você mesmo. Pode aos 50 estar com 100 ou estar com 100 e ter 18. No meu caso, sinto que estou integrado aos meus 90 anos, e procurando pensar como se eu tivesse 30. O que faz você continuar vivendo é o trabalho, a vida normal. A aposentadoria é uma primeira morte. A receita é se manter em atividade.

Texto e imagem reproduzidos do site: istoe.com.br

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Steven Pinker: “Os populistas estão do lado sombrio da história”


Publicado originalmente no site Brasil El País, em 16 JUN 2018 

Steven Pinker: “Os populistas estão do lado sombrio da história”

Por Jan Martínez Ahrens

Ele é uma das grandes figuras da psicologia cognitiva e especialista no binômio mente-linguagem. Dialético incansável e inegociável, em seu novo livro, “Enlightnment now”, volta a atacar os profissionais do apocalipse. Contra os irredutíveis que defendem que “o mundo está cada dia pior e só nós podemos salvá-lo”. Homem da ciência e do pensamento, o catedrático de Harvard ajusta contas com os populistas e com os inimigos do progresso.

Há muito tempo Steven Pinker (Montreal, 1954) matou Deus. Foi no Canadá, ao entrar na adolescência e descobrir que não precisava dele para nada. “Quando comecei a pensar no mundo, não encontrei um lugar e me dei conta de que não funcionava para mim sequer como hipótese”, explica. Teve início então um idílio com a ciência que 50 anos depois não parou de crescer. Considerado um dos psicólogos cognitivos mais brilhantes do planeta, seus trabalhos acadêmicos, focados no binômio linguagem-mente, e suas obras de divulgação, como Tábula rasa (2002) e Os anjos bons da nossa natureza (2011), quebraram tantos moldes que muitos o veem como um visionário da filosofia do futuro.

Não é uma descrição que agrade Pinker, mas é impossível fugir dela ao repassar sua obra. Cada um de seus livros gerou ondas sísmicas de longo alcance. Debates globais nos quais este catedrático de Harvard, firme defensor das bases genéticas da conduta, nunca fugiu do corpo a corpo, o que lhe valeu a fama de dialético invencível. Desse lugar, volta agora à carga com uma obra maior. Um trabalho que ganhou o aplauso internacional e que Bill Gates definiu como seu “livro favorito de todos os tempos”.

Enlightenment now (ainda sem tradução no Brasil) é acima de tudo um ajuste de contas com os inimigos do progresso. Aqueles que pensam que o mundo não para de retroceder e que só eles podem salvá-lo. São adversários bem conhecidos e temíveis. Donald Trump, o Brexit, o populismo e os nacionalismos tribais fazem parte dessa corte sombria, adversária dos valores do Iluminismo.

“Os populistas se sentem inquietos diante dessa corrente gradual e inexorável que leva ao cosmopolitismo e à liberalização dos costumes”

“Os ideais da razão, da ciência e do humanismo precisam ser defendidos agora mais do que nunca, porque suas conquistas podem vir abaixo. O progresso não é uma questão subjetiva. E isso é simples de entender. A maioria das pessoas prefere viver a morrer. A abundância à pobreza. A saúde à doença. A segurança ao perigo. O conhecimento à ignorância. A liberdade à tirania... Tudo isso pode ser medido e seu aumento ao longo do tempo é o que chamamos de progresso. Isso é o que precisa ser defendido”, explica Pinker.

Ele está sentado em seu escritório na Universidade de Harvard. À sua volta se respira silêncio. O nono andar do William James Hall, projetado em 1963 pelo arquiteto Minoru Yamasaki, é um lago de luz líquida de onde se contempla Cambridge (Massachusetts) e sua chuva de maio. Dentro, no departamento de Psicologia Cognitiva, alguns poucos alunos rodeiam o escritório do professor. Há livros especializados, moldes de cérebros e um ou outro computador. Duas poltronas roxas convidam a sentar. Pinker faz isso sem parar de olhar para seu interlocutor. Com sua aparência de roqueiro sobrevivente dos anos setenta, parece tranquilo, em casa. Durante mais de uma hora, responderá perguntas com facilidade. Curtido em mil debates, sabe que sua própria calma reflete melhor do que qualquer coisa a força de suas convicções.

O Iluminismo, em sua definição, está associado ao capitalismo. Um conceito que está em crise, não? Iluminismo e capitalismo andam juntos, mas há uma confusão muito grande. Muitos intelectuais entendem o mercado como o livre mercado, identificam-no com o anarcocapitalismo e o liberalismo extremo. E não são a mesma coisa. O próprio Adam Smith foi claro a respeito.

Mas com a Grande Recessão, parte importante da população, sobretudo a mais jovem, chegou à conclusão de que o capitalismo e as instituições que deveriam apoiá-la a deixaram na mão. Esses jovens pararam de confiar, sentem-se os perdedores da globalização. O que o sr. diria a eles? Em primeiro lugar, que olhem os dados. Nem a globalização nem os mercados os empobreceram. A realidade é bem diferente. A pobreza extrema caiu 75% em 30 anos. Em segundo, não há incompatibilidade entre mercados e regulamentações. Pelo contrário, a experiência da Grande Recessão nos mostrou que se deve evitar o caos dos mercados desregulados. Em terceiro, é preciso lembrar o poder dos mercados para melhorar a vida. A maior queda da pobreza da história da humanidade ocorreu provavelmente na China e foi conseguida não com a redistribuição em massa da riqueza dos países ocidentais, mas com o desenvolvimento de instituições de mercado.

“Os jornais poderiam ter publicado ontem que 137.000 escaparam da pobreza. Isso acontece todo dia há 25 anos, mas nunca merece uma manchete”

Isso trouxe melhoria econômica, mas não mais liberdade. A liberdade econômica costuma ser acompanhada de outras formas de liberdade. A Coreia do Sul, além de gozar de uma economia de mercado, é um lugar muito mais livre e prazenteiro que seu vizinho do norte. Quando os países abandonam o mercado, como a Venezuela, se afundam na miséria. Aconteceu com a União Soviética, a China de Mao, a Alemanha Oriental, esta antes da queda do Muro...

Certo, o mundo é um lugar melhor e os mercados ajudam nesse sentido. Mas então por que assistimos a um aumento do populismo? Ninguém sabe com certeza. Seguramente a Grande Recessão contribuiu para isso. Na Europa houve um outro fator também. Ao mesmo tempo em que havia uma forte corrente migratória dos países muçulmanos, aumentava o terrorismo jihadista e se exagerava seu risco. O resultado foi que o medo e o preconceito abateram muitos cidadãos e isso gerou uma reação. Não é algo novo. Os populistas estão do lado sombrio da história. Sentem-se inquietos e marginalizados diante dessa corrente gradual e inexorável que conduz ao cosmopolitismo, à liberalização dos costumes, aos direitos das mulheres, dos gays, das minorias... Isso assusta esses homens brancos mais velhos que formam o núcleo dessa reação, que apoiam Trump, Brexit, partidos xenófobos europeus.

Qual é a ideologia de fundo desse movimento? Têm em comum uma mentalidade tribal, a mesma que conduz ao nacionalismo e ao autoritarismo. Sentem a hostilidade em relação às instituições, procuram um líder natural que expresse a pureza e a verdade da tribo. Custa aceitar a ideia democrática e ilustrada de que o governante é um guardião temporário do poder submetido a deveres e limitações.

Ou seja, rechaçam o controle das instituições democráticas. Sem dúvida. A ênfase do Iluminismo nas instituições parte da ideia de que, deixados à sua própria natureza, os humanos acabarão fazendo mal, agredindo-se, lutando pelo poder... Diante disso, não procede tentar mudar a natureza humana, como sempre tentaram os totalitarismos, mas utilizar a própria natureza humana para detê-la. Como disse James Madison [presidente dos EUA de 1809 a 1817], a ambição contrabalança a ambição. Daí o sistema de contrapoderes. Sem dúvida que os líderes pretendem maximizar seu poder, mas se os tribunais e os legisladores, ainda que não sejam anjos, enfrentam e neutralizam essas forças, nos prevenimos contra a ditadura.

O sr. os vê ganhando força? Não sei se o populismo vencerá as forças do Iluminismo, mas há motivos para pensar que não. Apesar de Trump se empenhar nisso, os avanços são muito difíceis de reverter. O populismo tem uma forte base rural e se estende por camadas menos cultas da sociedade. Mas o mundo é cada vez mais urbano e educado. A geração de Trump, de fato, desaparecerá e os millennials, pouco amigos do populismo, tomarão o poder.

E enquanto isso não acontece, o mundo não está em perigo com Trump? Sim. Sua personalidade é impulsiva, vingativa e punitiva. E tem o poder de declarar uma guerra nuclear. São motivos suficientes. Mas além disso se opõe às instituições que permitiram o progresso. Rejeita o comércio global, a cooperação internacional, a ONU... Se nestas últimas décadas não sofremos uma guerra mundial é porque temos uma série de compromissos mútuos que partem da premissa de que somos uma comunidade de nações e tomamos decisões em função disso. Trump ameaça tudo isso. Abandonou a aspiração de Obama de um mundo sem armas atômicas, rejeitou o pacto com o Irã e modernizou o arsenal nuclear... Seus instintos autoritários estão submetendo o mundo a um teste histórico da democracia norte-americana.

E qual é seu prognóstico? Acredito que as instituições vencerão. Há muitas forças opostas ao que diz Trump e que o impedem de materializá-lo. Inclusive surgiram líderes carismáticos que se alinham com os valores do Iluminismo, como Justin Trudeau e Emmanuel Macron...

Não parecem fortes o suficiente. Para vencer o populismo é preciso também reconhecer o valor do progresso. Há um hábito muito disseminado entre intelectuais e jornalistas que consiste em destacar apenas o negativo, em descrever o mundo como se estivesse sempre à beira da catástrofe. É a mentalidade do default. Trump explorou essa forma de pensar e não encontrou resistência suficiente na esquerda, porque uma parte estava de acordo. Mas a verdade é que muitas instituições, ainda que imperfeitas, resolvem problemas. Podem evitar guerras e reduzir a pobreza extrema. E isso deve fazer parte do entendimento básico de cada um.

O sr. é um otimista. Gosto mais de me definir como um possibilista sério.

Diante desse possibilismo, depois de duas guerras mundiais, da bomba atômica, da proliferação de armas e do terrorismo, muita gente não acredita que o mundo seja um lugar melhor. Estão totalmente enganados? Não é necessário um certo pessimismo para não cair na complacência? É preciso ser realista. As coisas sempre podem ser piores e é verdade que a complacência impede de ver os perigos. Um risco é o fatalismo, a ideia de por que se incomodar em melhorar o mundo se o mundo não faz nada além de piorar; são aqueles que pensam: se não houver mudança climática, serão os robôs que acabarão conosco. O outro é o radicalismo. Muita gente jovem vê acertadamente erros no sistema. E isso é bom, mas se acabarmos pensando que as instituições são tão disfuncionais que não vale a pena melhorá-las, então entramos no terreno das soluções radicais: tudo pode ser destruído porque nada tem valor. Melhor construir sobre as cinzas. Esse é um erro terrível, porque as coisas se tornam muito piores.

O nacionalismo é um dos fatores de destruição? Cresci em Quebec e as tensões existentes na Espanha não me são desconhecidas. O nacionalismo corre sempre o risco de tornar-se maligno, mas pode ser benéfico, se funcionar como um contrato social e se basear na residência, não nas crenças religiosas, ou de clãs e tribos. A mente humana, de fato, entende a ideia de tribo de forma flexível: pode se referir à raça, mas também a uma equipe esportiva, a Windows contra Mac, a Nikon versus Canon. E além disso pode ser exibida de vários níveis: uma pessoa pode estar orgulhosa de ser de Harvard, de Boston, de Massachusetts e do mundo. Se nossa noção de nação coexiste com nosso senso de ser europeus e, mais importante, de ser humanos e cidadãos do mundo, pode ser benigno. O nacionalismo é pernicioso quando parte de uma imposição tribal e se entende como uma soma de resultado zero: nossa nação só pode prosperar se as outras forem mal.

As redes sociais ajudam o populismo? O populismo as usou. Mas veja bem, não quero colocar a culpa de tudo nas redes sociais. Isso hoje virou moda: há um problema e atribuem a culpa a elas. As redes podem ser usadas positivamente, como fez Obama.

Lendo seu livro é quase impossível não ser otimista quanto ao futuro do mundo. Mas quando fechamos o livro e olhamos as notícias, o pessimismo volta. O problema está na mídia? O jornalismo tem um problema inerente: se concentra em acontecimentos particulares mais do que nas tendências. E é mais fácil para ele abordar um fato catastrófico do que um positivo. Isso acaba gerando uma visão distorcida do mundo. O economista Max Roser explicou isso. Os jornais nunca poderiam ter divulgado ontem a notícia de que 137.000 pessoas escaparam da pobreza. É algo que tem ocorrido diariamente há 25 anos, mas que nunca mereceu uma manchete. O resultado é que 1 bilhão de pessoas escaparam da pobreza extrema e ninguém sabe.

Voltando ao início. O Iluminismo se apoia no progresso. Mas não é irracional ser tão otimista? Afinal, a crença de que as coisas sempre serão melhores não é mais racional do que a crença de que tudo sempre será pior. Ser incondicionalmente otimista é irracional. Há uma falsa crença, vinda do século XIX, de que evolução equivale a progresso. Mas a evolução, em um sentido técnico e biológico, trabalha contra a felicidade humana. A biosfera está cheia de patógenos que estão em constante evolução para nos adoecer. Os organismos dos quais dependemos para nos alimentar não querem ser nosso alimento. A vida é uma luta. E o curso natural dos acontecimentos é terrível. Mas a ingenuidade humana fecha os olhos para esses problemas. Há uma falácia muito comum que conceitua o progresso como uma força mística do universo que destina aos humanos sempre melhorar. Sempre melhorar. E isso simplesmente não é assim. Temos uma esperança razoável de progresso se as instituições humanas extraem o melhor de nós, se nos permitem adquirir novos conhecimentos e resolver problemas. Mas isso nem sempre acontece. Há muitas forças que naturalmente pioram as coisas.

Pinker, com um sorriso, dá a entrevista por encerrada. Educadamente, se levanta e se encaminha à sessão de fotos. De lado e de frente, se deixa levar pelo departamento de Psicologia Cognitiva e até posa junto a uma sinuosa massa amarronzada guardada em formol. Ao terminar, a observa e comenta: “Este cérebro é real”. Os alunos olham de esguelha para seu mestre e continuam trabalhando em silêncio. Lá fora, chove sobre Cambridge.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Um incompetente para a vida, um sábio, um profeta

Uma das cadeiras protagonistas de 'Últimas Conversas'. Se digo que ficou vazia pela morte do realizador não é um spoiler. Não se espante

Publicado originalmente no site Brasil El País, em 19 de junho de 2018

Um incompetente para a vida, um sábio, um profeta

Um quarto vazio com duas cadeiras e uma câmera bastavam ao saudoso Eduardo Coutinho para criar um cinema memorável

Por Elsa Fernández Santos 

Eduardo Coutinho foi assassinado em 2014 por seu filho antes de terminar Últimas Conversas, filme póstumo que dois de seus colaboradores mais próximos concluíram, a montadora Jordana Berg e o cineasta (e produtor) João Moreira Salles. Na fita, que está em cartaz no momento na Espanha, Coutinho, então com 80 anos, se limita a falar com uma série de garotos e garotas que vão passando de um em um por um mesmo cenário, um quarto vazio com duas cadeiras e uma câmera. Falam um pouco de tudo: família, estudos, sonhos... O velho cineasta se apresenta assim diante de uma de suas primeiras interlocutoras, Bruna: “Vou te fazer várias perguntas normais sobre a vida, e você pode responder com verdades ou mentira, dá na mesma. Eu já não sei se a verdade existe... Vocês, jovens, são complicados porque estão vivendo, mas no entanto não têm recordações. Não perderam ninguém, não amaram ninguém. Então, só perguntarei coisas idiotas, como se fosse um marciano ou uma criança de quatro anos”.

Em 'Últimas Conversas', Coutinho, então com 80 anos, se limita a falar com uma série de garotos e garotas que vão passando de um em um pelo mesmo cenário, um quarto vazio com duas cadeiras e uma câmera.

Para este marciano não havia nada mais cinematográfico que a palavra de seus personagens, pessoas comuns e anônimas com as quais estabelecia, segundo ele mesmo explicava, a relação erótica que toda conversa esconde. De um jeito incansável, sua filmografia tardia buscou o milagre da oralidade. Em sua aula magistral Fazer Cinema com Quase Nada, Moreira Salles explicou em Madri os pontos-chaves de quem foi uma figura essencial não só para sua vida e formação, como também para o cinema de seu país, o Brasil. Coutinho apostou na austeridade. Gramática visual e equipe de filmagem mínimos em contraponto a sólidas convicções. Também o respeito a personagens aos quais olhava de igual para igual e o rigor de uma obra condizente com a economia da maioria em um país “injusto, não pobre”, ponderou Salles. Coutinho detestava o cinema de esquerda, de denúncia, porque com suas ideias preconcebidas apresenta os pobres como vítimas, e também o profundo, o pedagógico ou o jornalístico, porque se considera útil e importante enquanto a vida está no superficial, “no lixo”, dizia. E porque gostava de zombar das grandes figuras, da alta cultura, para se apresentar como um provocador, popular, de rua, divertido e carnal. Definia seu cinema como “antropologia selvagem”.

Falei com Coutinho uma vez a propósito de uma viagem à Espanha a convite do Festival Ponto de Vista e coincidindo com um ciclo no Rainha Sofía. As entrevistas telefônicas costumam ser desajeitadas e aos atropelos, mas Coutinho era infalível também por telefone. Tinha sido ator e sabia modular seu timbre, tão histriônico que rompia qualquer barreira. Expressava suas ideias como uma torrente, com a voz alquebrada e rouca pelo fumo, algo que no meu caso assusta e reconforta na mesma medida, imagino que como a qualquer um que tenha visto uma pessoa querida se suicidar por um cigarro.

“Eram muitos os que adoravam Coutinho”, recorda Moreira Salles em Madri. “Era uma pessoa essencial para nós. De alguma forma o protegíamos porque era um sábio, um profeta, mas também um homem muito frágil. Um incompetente para a vida, para qualquer questão prática.” Com os pulmões destruídos por um enfisema, seu filho Daniel, psicótico, acelerou a punhaladas seu final anunciado. Em Últimas Conversas a morte entra descarada pela porta, e em uma misteriosa sequência deixa mudo o cineasta sempre tagarela: “O silêncio é mais estranho que a vida”, diz. “Mas é maravilhoso, você começa a pensar.”

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

segunda-feira, 18 de junho de 2018

50 anos de maio de 1968

Estudantes nas ruas do bairro Quartier Latin nos protestos de 68, em Paris. 
Foto: Reprodução/Facebook

Publicado originalmente no site Pagina B, em 17 de maio de 2018

50 anos de maio de 1968

Décadas se passaram desde o mês que parou as ruas de Paris e mexeu com a cabeça de milhões mundo afora. Leia entrevistas com alguns dos que participaram do movimento, feita em 2008

*Por Helena Wolfenson

1968 foi o ano das revoltas estudantis estrondosas. Uma onda de gritos por liberdade varreu todo o planeta, com a mesma sincronia que o espantou. Sua maneira de ser, de existir e de se desmanchar no ar foi única; porém, como diz Caetano Veloso em depoimento ao jornalista Zuenir Ventura: “Para acontecer de novo, teria de ser muito diferente”. Em Paris, o movimento eclodiu porque a burocracia moralizante da Universidade de Nanterre proibiu a entrada de rapazes no alojamento feminino. Mas as razões de fundo que levaram às explosões juvenis em todo o mundo são até hoje estudadas e explicadas sob diversos pontos de vista.

No período pós-guerra, triplicou a densidade demográfica da Europa Ocidental e dos Estados Unidos. O fenômeno dessa explosão populacional chamado baby boom criou, na virada da década de 1960 para 1970, uma juventude cuja profunda insatisfação moral e cultural veio à tona através de sua participação massiva nos movimentos revoltosos recém-nascidos. A impressão de que o status quo, hipocritamente, parecia estar evoluindo de vento em popa começou a se diluir. O PIB crescia, o poder aquisitivo também, e essa geração, dos chamados baby boomers, estava nas universidades, uma juventude três vezes maior do que a anterior, mais rica, contudo mais insatisfeita, descontente e inquieta.

Em 67 morreu Guevara, em 68 Luther King e Bobby Kennedy

Eram tempos de guerra no Vietnã, o primeiro conflito televisionado e que gerou uma profunda angústia entre os civis, principalmente os jovens e artistas. Ativistas políticos se propagavam pelo mundo, havia uma conscientização planetária da injustiça da guerra e de seus campos de batalha. Paralelamente, o conservadorismo de direita lutava contra as ações sociais e coletivas. No fim de 1967 houve o assassinato de Che Guevara, logo em abril de 1968 Martin Luther King, o líder carismático da causa negra, foi morto. Meses passados, e o então candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos, Robert Kennedy, teve o mesmo destino de seu irmão mais velho, o ex-presidente John Kennedy, assassinado alguns anos antes, e o republicano Nixon foi reeleito. No fim do ano, o homem chegou à Lua.

Nos esportes, foi o ano das Olimpíadas do México, boicotadas em junho e que só ocorreram em outubro. As bandeiras feministas eram levantadas em todos os cantos. Na França, a imaginação juvenil buscava a tomada do poder. Jimi Hendrix, Beatles, Bob Dylan, pop art, tropicália… as artes se renovavam, se engajavam politicamente. Esse foi o chamado ano zero da globalização, a primeira vez em que se vislumbrou um cordão que interligaria Sul e Norte, Leste e Oeste, não por questões geográficas ou físicas, mas humanas e, acima de tudo, jovens.

Oriundos de todos os cantos do planeta, países com governos e culturas distintos se encontravam sob um denominador comum. Eram tempos de Guerra Fria, o moralismo, as estritas e burocráticas normas do mundo dividido causavam efeitos agonizantes na juventude daquele ciclo de prosperidade econômica. O mês de maio de 1968 estabeleceu-se como símbolo de uma época, uma luta essencialmente contra a autoridade, a paterna, em particular, e o modelo de família vigente até então. Seu legado permitiu o nascimento de milhares de novos canais de expressão nas artes, de novas formas de contestação social e de novos tipos de relações humanas.

Como nos grandes centros, alguns países da América Latina foram tomados pela efervescência inebriante de 1968, também fatídico para nós, brasileiros. Em dezembro foi promulgado o AI-5, que enterrou de vez o pouco que ainda restava de atividade democrática no País, jogando-nos num período de trevas, perseguições e censura durante quase duas décadas. Um pouco antes disso, sentindo os ventos libertadores da Europa, o Rio de Janeiro começou a demonstrar grandes articulações de massa, através de manifestações de rua.

A cidade chegou a parar por alguns dias, como na lendária Passeata dos 100 Mil. A impressão que se tinha era a de uma coletividade envolvida em uma só causa, que escapava do estereótipo do futebol e do Carnaval. No entanto, os que estavam realmente por dentro dessa movimentação eram uma minoria – atuante, barulhenta, que fazia estardalhaço e criava sem parar. Alguns de seus representantes, os que resistiram às prisões, às torturas, ao exílio e ao tempo, são hoje, em sua maioria, grandes nomes da cultura nacional, da política e da academia.

De emos a neo-hippies é o mesmo: falta ideologia

As ditaduras militares na América Latina se erguiam em nome da liberdade e contra o comunismo. Tinham como primeiro pretexto manter a segurança. Para proteger as sociedades do temido comunismo, impedia-se qualquer forma de oposição, das mais ingênuas às mais contundentes. Uma indignação latente e reprimida alastrava-se em vários campos da sociedade.

A juventude não tinha espaço para a expressão política, a cultura encontrava os seus canais fechados pelo sistema burocrático e corporativista da esquerda e da direita. Há quem diga que o mundo se libertou de normas rígidas e que a juventude passou a ser reconhecida e ouvida. Outros crêem que seu legado gerou uma despolitização nas gerações seguintes. As tão sonhadas e inovadoras formas de expressão já foram absorvidas pelo sistema. A sociedade não se libertou da angústia e do mal-estar de então. Houve uma sucatização do ensino. Os milhares de grupos adolescentes de hoje, que buscam sua identidade na mercadoria, de emos a neo-hippies, todos padecem do mesmo vazio: a falta de ideologia.

Enxergar esse momento através de pessoas e não de documentos foi uma escolha. Os jovens de então, que não acreditavam em ninguém com mais de 30 anos, hoje ultrapassam os 60. Se esse foi o período da história da humanidade em que a juventude encontrou seu lugar, participou e absorveu mudanças que ainda desabrochavam, como será que aqueles que contribuíram com a história estão hoje? O que pensam? Como enxergam a juventude atual? Como construíram suas vidas a partir desse rompante?

Mexer com a memória, penetrar nessa história foi a nossa busca ao fazer esta reportagem. Entrevistamos cinco personagens que, de formas diferentes, em locais diversos, absorveram a força dessa energia no ano de 1968. Pessoas que hoje estão entre os 60 e os 70 anos e na época se indignavam com uma sociedade que consideravam injusta e hipócrita, e que, vista sob aquela ótica, assim permanece. A memória e a história se confundem nas mentes desses vividos adultos. Enxergar a história partindo de olhares subjetivos, tentar ver o mundo da forma como foi visto por eles e, finalmente, o que ficou daquele mês, ano ou década foi o que encontramos nos relatos feitos por nossos protagonistas.

Paris, maio, ano de 1968, o estudante de economia da Escola de Lausanne, na Suíça, Ladislau Dowbor, aos 27 anos de idade, passava uns dias na “Cidade Luz” para visitar amigos. Dias que acabaram virando meses, tamanha a efervescência das ruas parisienses. Seu relato é um olhar de quem teve o privilégio de presenciar a força do movimento ali, no seu momento histórico. A abrangência e as conseqüências desse movimento foram inesperadas, e a França em particular foi um estopim importante em todo o processo. “Alguém precisa pôr o fogo no estopim e isso se dá em Paris na forma de manifestações estudantis”, como testemunhou Dowbor.

Estavam em andamento alguns movimentos de contestação em relação à educação, outros em relação à Guerra do Vietnã. O processo de descolonização de algumas regiões da África também estava em curso. A compreensão da injusta e profunda interligação das economias do Primeiro e do Terceiro Mundo, uma como causa da outra, se iniciara. A esquerda também buscava uma renovação nos seus canais de expressão e uma alternativa que fugisse aos moldes antigos da política partidária burocrática e sindical. Esse era o pano de fundo do quadro vivido pela juventude universitária, não só na França, mas também na Itália e na Alemanha. Já a juventude norte-americana vivia às voltas com a Guerra do Vietnã. “Foi como jogar uma pedra em um lago e ver suas ondas se espalharem.”

Seu carro era um dos únicos que andavam no Quartier Latin

Um jovem alemão residente na França, Daniel Cohn-Bendit, era o líder do movimento francês. “Daniel, o vermelho”, como era chamado por seus seguidores e por toda a mídia (por conta de seus cabelos ruivos), guardava em si duas características marcantes da geração de 1968 e também o seu legado: a língua afiada e um forte destemor frente às autoridades.

As primeiras manifestações nas universidades parisienses eram muito focalizadas em reivindicações da esfera estudantil, mas a resposta do governo francês foi de extrema violência. Conduta que se revelou de uma burrice tática, pois fez o movimento crescer e tomar todas as universidades da capital. Foi uma reação em cadeia, que causou também a união de outros setores da sociedade contra a repressão. O tiro saiu pela culatra. “Todas as universidades fecharam. A polícia tomou as ruas, a repressão se instalou. Pela primeira vez houve uma coalizão entre líderes estudantis e de sindicatos. Houve uma paralisação geral da cidade, os transportes públicos não funcionaram, os distribuidores de gasolina pararam, as escolas fecharam suas portas. Criou-se um movimento de férias nacionais e foi se instaurando um medo generalizado nas camadas não-organizadas da população.”

Como Ladislau estudava na Suíça e havia ido a Paris de carro, um Citroën Deux Chevaux, com o tanque cheio, ao final de três dias de paralisação o seu era um dos poucos carros que andavam pelas ruas do Quartier Latin. O clima era inebriante, Ladislau não conseguia ir embora, começou a participar das muitas reuniões que se organizavam por quarteirões. Todos, por não irem ao trabalho ou à universidade, estavam nas ruas, nas casas, nas esquinas, se encontrando, discutindo, criando frases, pensando em propostas sonhadoras para um mundo diferente. Colocavam- se papéis e frases nas paredes, todos participavam escrevendo: “Era como se descobríssemos que era legítimo ter sentimentos que iam além da busca organizada e disciplinada de alguns porcentuais de aumento do PIB. O movimento tornou-se extremamente amplo e o vento de liberdade que soprava era enorme, as pessoas estavam felizes e criando nas ruas”.

O povo ocupou as ruas e praças. Os dizeres das paredes tornaram-se símbolos mundiais, saíram das universidades, atravessaram oceanos, conclamando o poder do amor, da juventude, escancarando a hipocrisia do sistema e das autoridades repressoras. “De Paris a Woodstock – chegou até a abrir algumas frestas de luz na ditadura então vigente no Brasil”, conclui o economista. O movimento perdurou por algumas semanas, até que, como era de se esperar, a polícia e o Exército o sufocaram.

O presidente francês Charles De Gaulle se uniu ao então primeiro-ministro alemão e voltaram a colocar a polícia para reprimir, mas agora em uma ação muito mais organizada e sistemática do que a primeira. Dissolveram o movimento através de prisões seletivas dos líderes estudantis; Daniel Cohn-Bendit foi expulso do país e voltou para a Alemanha; criou-se uma campanha televisiva massiva, chamando os trabalhadores de volta ao batente, ameaçando-os de demissão.

O sentimento que ficou cravado na mente de muitos daqueles jovens que viveram o Maio de 68 francês, e na memória do economista Dowbor particularmente, foi extremamente poderoso, pois, por um instante, foi possível perceber o que era gozar a vida sem portas, sem barreiras burocráticas, sem horários nem fórmulas. Foi um pulso criativo para uma geração desorientada. A herança desse tempo é muito mais de ordem comportamental do que da esfera política. Para aquela geração, o que estava na mesa eram as contundentes transformações do ponto de vista moral e cultural, que remodelaram as relações humanas – entre professores e alunos, autoridades e população, homens e mulheres, pais e filhos, vizinhos.

Todos os movimentos libertários, como o da liberdade sexual, feminista, gay, ecológico, o fortalecimento do movimento negro e a expansão de correntes artísticas como a pop art e o tropicalismo, entre outros, seguramente se alimentaram dessa ruptura. “Foi um basta para toda aquela geração que nos dizia: calem as bocas, vocês têm televisão, carro e geladeira, querem mais o quê?”, afirma Ladislau.

Depois de dois meses no Brasil, foi preso como comunista

A geração 68 buscava coerência nas ações, procurava entender o mundo a partir de outro viés. As autoridades impunham à população um leque de ordens a ser seguidas para evitar o caos, mas, quando tais ordens foram descumpridas, o que se viu foi a criação livre, a harmonia, não o caos. Como diz Dowbor: “Sabíamos onde estava o mal, mas não onde estava o bem. Por polarização natural, apoiávamos o comunismo, mas era por um nivelamento artificial do antiamericanismo”.

Em Paris, Ladislau, um polonês nascido na França, começou a ter contato com algumas organizações da esquerda brasileira, país onde cresceu e se radicou, e decidiu voltar ao Brasil e partir para a luta. “Eu, que financiava os meus estudos trabalhando nos trens noturnos internacionais, aproveitava as escalas em Paris para participar das reuniões. A opção da luta armada não me parecia apresentar mistérios, estava no ar, todos conheciam bem a resistência vietnamita, a Revolução Cubana, a guerrilha de Angola, de Moçambique, de Bissau… Fazia parte das opções. Pessoalmente, não me julgava capaz de definir grande coisa, pela própria idade e insuficiência de cultura política, e, quando as pessoas com quem convivia em Paris, com outro nível de experiência, me chamaram, fiz as malas e fui.”

Depois de dois meses no Brasil ele foi preso, tido como terrorista e comunista. Depois de uma semana estava solto, era antes do AI-5. “De certa forma, as próprias torturas justificavam a nossa luta armada, como os policiais e os militares justificariam a tortura com o fato de estarmos armados. Nos processos de polarização, o culpado é sempre o outro”, argumenta o ex-guerrilheiro.

Depois de 1968, Ladislau entrou nas organizações clandestinas de esquerda Vanguarda Popular Revoluconária (VPR) e Vanguarda Armada Revolucionária (VAR-Palmares). Foi preso, torturado e exilado. Hoje é professor titular no departamento de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), nas áreas de economia e administração.

Primeiro chegam os cães, depois os gatos, todos dando as boas-vindas no “Lar Dulce Lar”, como ela mesma gosta de chamar a sua casa em Cunha, na Serra do Mar, entre a praia e o campo, entre São Paulo e Rio de Janeiro, entre Ubatuba e Parati. Com cheiro de madeira, livros, revistas, discos, cerâmicas e muita vida espalhada por todos os cantos. A espaçosa e aconchegante casa foi construída por Dulce Maia de Souza há três anos, depois que ela se mudou de um sítio na mesma região. Basta um passeio no jardim e já se pode notar que a senhora de olhar profundo e cabeleira toda branca tem um vício: as árvores, plantas e flores.

Desde que se mudou para essa casa em Cunha, já plantou mais de 6 mil pés de árvore dentro e fora de seu terreno. “Quando voltei ao Brasil, depois dos anos de exílio, me mudei para Floripa, porque queria viver perto da praia.” Lá conseguiu refazer sua vida pós-exílio, ganhou algum dinheiro vendendo por 300 mil dólares os terrenos que comprara por apenas poucos mil. “Alguma coisa está muito errada neste país, não?”, indaga Dulce, que procurou outro rumo depois que a especulação imobiliária se instalou na Lagoa da Conceição, em Florianópolis, capital de Santa Catarina.

Ela chegou a Cunha há exatos 15 anos, e nunca mais saiu. Conhecida por todos na cidade, hoje a ex-guerrilheira da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) é diretora de uma ONG para projetos de proteção da flora e da fauna brasileira na Serra da Bocaina, a Econsenso, e fundadora de outra na cidadezinha onde vive.

Atéia por convicção, ela diz que sua religião é a solidariedade

Aos 70 anos, ela não pára, sobe e desce escadas, vai e volta da cidade com o seu conservado jipe preto, está sempre viajando a trabalho, recebe amigos e cuida da casa em que vive com um de seus dois filhos adotivos, o mais novo, Isaías, de 20 anos. Dulce diz que a tortura a deixou com a cabeça meio ruim e, por isso, prefere se cercar de gente, de vida, “para não pensar muito nas suas cicatrizes”. A política está presente até em suas veias, raízes e fios brancos de cabelo.

Atéia por convicção, Dulce Maia diz que sua religião é a solidariedade. Seus santos são Che Guevara, Ho Chi Minh (líder e herói da luta antiamericana no ex-Vietnã do Norte) e Amílcar Cabral (líder do movimento que derrubou o colonialismo português na Guiné-Bissau e em Cabo Verde). Em 1966, Judith – codinome pelo qual ela se identificava entre os companheiros de luta clandestina – entrou para o grupo de guerrilha urbana VPR, uma organização da ultra-esquerda brasileira que, como muitas outras na época da ditadura, acreditava na mudança com base na luta armada. Formada por estudantes, operários e ex-militares que compunham o recém-deposto governo João Goulart, a organização tinha em sua liderança Carlos Lamarca, o ex-capitão do Exército morto anos depois pela repressão.

Nessa mesma época, ainda como Dulce, ela perambulava entre São Paulo e Rio de Janeiro enquanto produzia shows e encontros culturais, principalmente no Teatro Maria Della Costa. “Trabalhávamos em forma de cooperativa, cada um ajudava com o que sabia e podia, o Ricardo Ohtake (hoje diretor do Instituto Tomie Ohtake) fazia os cartazes, Gil, Vandré e Chico Buarque tocavam e cantavam para fazer com que a venda de ingressos dos shows fosse revertida para mantermos muitos companheiros na clandestinidade.”

Muito amiga do artista plástico Zé Roberto Aguilar e do cantor e compositor Jorge Mautner, era chamada pelos amigos de “sacerdotisa do kaos”, uma espécie de brincadeira com o livro e pseudomovimento que Mautner inaugurara na época. “Éramos de uma confraria, digamos assim.” A guerrilha foi um caminho natural para ela, talvez por conta de sua formação, vinda de uma família politizada, humanista e libertária, pais socialistas – sua mãe havia sido presa durante a ditadura de Vargas -, ou pela situação em si, pelo meio em que vivia, como ela mesma aponta. “Eu nunca tive medo de pegar em armas, porque havia muita confiança, amor e crença na autenticidade dessa luta. Acho que se não tivéssemos feito isso haveria um vazio na história de nosso país em relação ao resto do mundo.”

Fez ponta em O Bandido da Luz Vermelha como uma marchadeira

No ano de 1968 ela se dividia entre Rio e São Paulo. Sempre atuante, envolvida com o trabalho do dramaturgo Zé Celso Martinez Corrêa e toda a turma do Teatro Oficina, Dulce ainda era guerrilheira da VPR, mas esse fato não era uma informação pública, pois seguia as estritas normas de segurança das organizações militantes.

Nem todos conheciam Judith. Para a maioria, ela era apenas Dulce. Uma mulher de 30 anos, bonita e elegante. Ninguém suspeitaria que andava com uma arma na bolsa. “Esse foi um ano cheio de ações de luta armada. Mas foi também o ano de Roda Viva (peça escrita por Chico Buarque e produzida por ela, com direção de Zé Celso e cenário e figurino realizados pelo artista plástico e cenógrafo Flávio Império). Foi o ano da inauguração da sede do Masp na Avenida Paulista, das reuniões com os companheiros de luta na Casa de Vidro da Lina ( a arquiteta que projetou o Masp, Lina Bo Bardi), no Morumbi. Foi a estréia do filme inaugural do cinema marginal, O Bandido da Luz Vermelha, do cineasta Rogério Sganzerla, em que fiz até uma ponta como uma marchadeira (como ficaram conhecidas as mulheres que participaram da Marcha da Família com Deus pela Liberdade). Teve o Caetano com o show Opinião, as montagens teatrais como Arena Conta Zumbi e Liberdade, Liberdade, e finalmente o cinema revolucionário de Glauber Rocha, com Terra em Transe, que foi um marco revolucionário para a época.”

Foi o ano em que a peça O Rei da Vela, também montada pelo Oficina, foi apresentada em Florença, na Itália, e convidada para o Festival de Nancy, na França: era a exportação do movimento tropicalista para terras estrangeiras. Exatamente no mês de maio de 1968, Dulce estava no Rio de Janeiro e recebeu um telefonema de Zé Celso, seu grande amigo, pedindo para que ela fosse buscá-lo no Aeroporto de Viracopos. “Eu havia ficado no Brasil porque tinha de cuidar do Teatro Oficina.”

Zé Celso estava em Paris e assistiu da sacada do prédio à cena de o cineasta Jean-Luc Godard, com quem estava filmando, ser espancado pela polícia. Sua solidariedade espontânea fez com que, do primeiro andar, arremessasse objetos na polícia, que respondeu com uma bomba de gás lacrimogêneo. Zé Celso voltou para o Brasil com um tampão nos olhos, assustado e ao mesmo tempo maravilhado com o movimento francês.

Logo após sua chegada, militantes brasileiros que estavam em Paris, organizados pelos movimentos daqui, vinham desembarcando e importando os sopros de liberdade e de contestação que envolviam a França de então. As ações de rua no Brasil tomaram forma semelhante à das parisienses, mas com a enorme diferença de que aqui havia uma ditadura militar.

Dulce foi presa em janeiro de 1969, época em que guardava (escondia) muita gente em aparelhos (esconderijos, na linguagem das organizações clandestinas) espalhados pela cidade, transportava pessoas com cortina nos carros e vendas nos olhos. Conta que no dia de sua prisão havia desmontado alguns desses aparelhos e voltava para a casa dos pais, no Brooklin, bairro da capital paulista. Já era meia-noite quando invadiram a casa. “Minha mãe ficou em pânico, contou-me que foi como ver o meu caixão saindo, avançou e agrediu um policial para tentar impedir que me levassem.”

Foi durante o tempo em que ficou presa, de janeiro de 1969 a junho de 1970, que Dulce Maia perdeu a mãe. Madre Assunção, diretora da prisão, telefonou ao juiz auditor pedindo autorização para que ela fosse ao enterro. Mas o pedido foi negado. “Não fugiria em uma situação dessas, pois esses gestos humanos devem ser reconhecidos.” Dulce tinha certeza de que não morreria na Penitenciária Feminina, no Carandiru. “Eu não vou morrer aqui, vocês são todos parte de uma engrenagem podre, eu, ao menos, tenho uma causa”, dizia aos seus torturadores. Resistiu como ela mesma nunca imaginara ser capaz. Foi torturada constantemente por cinco meses. “Os militares já não me agüentavam mais, tinham raiva de mim pela minha situação ali, por resistir, por ser mulher”, revela Dulce. Acabou sendo libertada em troca do embaixador alemão seqüestrado no Rio de Janeiro.

As seqüelas dificultaram seu retorno à vida normal

Em junho de 1970, junto com outras presas, saiu da cela diretamente para um avião militar, ainda algemada, e voou para a Argélia, país recém-libertado do colonialismo francês. Seus cabelos ficaram brancos repentinamente, após algumas sessões de tortura. Passou por coisas horríveis, desaprendeu a falar e a escrever, teve de recomeçar sua vida em lugares distantes e muito debilitada.

Depois da Argélia seguiu para Cuba, em busca de tratamento médico. Em 1973, estava no Chile, quando Pinochet derrubou Allende. Foi, então, para o México e depois para a Bélgica. Lá ficou até abril de 1975, quando aterrissou em Lisboa, onde a ditadura cinqüentenária de Salazar havia caído. O último destino de Dulce antes da volta ao Brasil foi a Guiné-Bissau, país que conseguiu a independência do colonialismo português após a queda de Salazar. Em 1979, com a Lei da Anistia, foi a primeira exilada a retornar ao País.

Após nove anos de exílio, Dulce chegou ainda trêmula e frágil. As seqüelas da tortura dificultaram seu retorno à vida cotidiana. Apesar de no exílio ter criado vínculos fortíssimos com pessoas que conheceu, amigos queridos com os quais mantém relações até hoje, também passou por maus bocados. Ainda tem seqüelas, mas assume se cuidar muito. “Sou uma articuladora, mas não sou uma pessoa articulada.”

Dulce se vê como uma humanista que lutou contra um regime de exceção, e diz: “Contribuímos muito para a volta da democracia, mas hoje um movimento assim não teria sentido. A luta deve continuar, mas talvez a fórmula atual seja cada um no seu setor, podendo contribuir para que haja mudança, em seu exercício cotidiano.”

Hoje, além de cuidar das duas ONGs de preservação e educação socioambiental, ainda colhe frutos do difícil mas precioso período que viveu intensamente. A boa relação que mantém com algumas entidades internacionais e amigos que fez durante o exílio, por exemplo, abriram as portas para que conseguisse enviar mais de dez jovens de Cunha para estudar medicina em Cuba, reconhecida pela excelência de seus cursos. Em alguns momentos, como qualquer pessoa, questiona a vida que viveu. E lembra da conversa que teve com um amigo e companheiro de luta, em Paris, quando desejou ter sido uma dona Maria lá da Mooca, que passa a manhã lavando a calçada e depois prepara a macarronada para sua enorme família. O amigo pensou em como teria sido a vida se fosse um bancário. Mas, ao final, ela admite: “Nossas vidas são emocionantes até hoje”.

Aos 70 anos, se orgulha de seu passado. Não é, e nunca seria, uma matrona acomodada. Irmã de Carlito e Hugo Maia, dois importantes nomes do jornalismo e da publicidade brasileiros, Dulce sempre teve a comunicação no sangue e, apesar de não ser uma comunicóloga por profissão, vive de se comunicar. Dona de uma memória impecável, ela carrega na cabeça um emaranhado de fios capaz de ligar todos a qualquer um. E qualquer um a todos.

Ao relembrar aqueles tempos de tortura, mas também de muitas realizações, criações e laços fortes, ela, que se encaixaria nos grandes perfis de heroínas do século XX, que como mulher independente e lutadora sofria preconceitos e repressões, diz não sentir um peso na memória, pois esse é um passado ainda presente em suas lembranças, relações e conversas diárias. Dulce se diz excessivamente otimista em relação ao mundo e ao ser humano. Ainda sonha com a transformação social. Sobre a atual conjuntura política não se sente comprometida com nenhuma bandeira, movimento ou partido. “Não é só porque sou de esquerda que irei apoiar cegamente qualquer um.”

Para ela, a esquerda ainda resiste maniqueísta, sectária e moralista, e o povo brasileiro ainda se mostra covarde, acomodado e estranho. “A política hoje é promíscua”, afirma, ao mesmo tempo em que não avança em seu radicalismo, sempre ponderando que houve evoluções em termos da democracia tanto no governo FHC quanto está havendo no de Lula. “Não somos vítimas nem heróis de uma época. De nada me arrependo.” A luta de Dulce e de muitos outros pode ter sido feita com exageros e com excessos, muitas vezes inevitáveis frente às circunstâncias, mas foi uma luta carregada de paixão e de compromisso.

Arquiteto e designer, Luciano Devià é daquelas figuras que durante a juventude abriram a cabeça e descobriram um mundo mais real do que o transmitido nas antigas salas de madeira – semicirculares e inclinadas – das sisudas universidades renascentistas da Itália, sua terra natal. Desiludiu-se com as estruturas da sociedade, lutou, levantou bandeiras, foi barbudo e cabeludo, descobriu que como arquiteto ele só conseguiria produzir com algum engajamento político. Frustrou-se com as poucas mudanças atingidas e partiu para bem longe. Saiu de Torino, na Itália, aos 33 anos, em 1975, em busca de outra vida, de renascer em terras completamente desconhecidas.

A não ser pelas canções de João Gilberto, pelo piano de Tom Jobim, pelos traços de Oscar Niemeyer e pelas ousadias cinematográficas de Glauber Rocha, o Brasil, para ele, era um ilustre desconhecido. Eram terras distantes, quentes, tidas como promissoras e completamente desligadas de sua vida italiana. “No Brasil morri e nasci de novo e me encontrei completamente perdido como Dante Alighieri quando encontrou o inferno.” Ao chegar, não tinha dinheiro no bolso e passou a ganhar a vida com o que era, na Itália, o seu hobby: virou pianista na noite de São Paulo.

Era natural a aliança entre operários e estudantes

Para ele, o ano de 1968 foi o marco simbólico daquela busca por mudança e de desapego às raízes. Foi o ápice da crise de insatisfação contra a antiquada estrutura de educação universitária italiana – Luciano estava no quarto ano da Faculdade de Arquitetura do Politécnico di Torino, uma das primeiras escolas de arquitetura construídas durante o fascismo.

Para os jovens estudantes aquele foi o ano em que começaram a enfrentar as rígidas estruturas estabelecidas. Eram tempos de contestação pelo mundo todo, de uma nova forma de expressão. Tempos de Bob Dylan, de Woodstock e dos Beatles. Mas para Luciano Devià tudo isso estava bem mais distante do que o que acontecia ali ao lado: os operários com excesso de carga horária, explorados ali mesmo em sua cidade, na Fabbrica Italiana di Automobili Torino, a Fiat.

A fusão da indignação estudantil com o movimento operário era a ordem natural das coisas naquela cidade industrial. Tentava-se preencher o vazio que havia entre esses dois mundos tão próximos e, ao mesmo tempo, tão incomunicáveis. Enquanto Devià e seus colegas começavam a questionar o sentido que havia em produzir uma arquitetura que não se relacionava com o social, com o político, com o real, os migrantes do sul da Itália instalados nas cidades do norte trabalhavam como robôs nas fábricas e ainda eram vítimas de preconceitos regionais.

Esses fatos não eram discutidos dentro do ambiente acadêmico. “Os programas universitários eram cuidadosamente elaborados para que não houvesse tempo de pensar em questões como essas”, explica Devià. “Até os 24 anos eu era um alienado, nunca havia me questionado sobre a importância da política.” As contestações chegaram alfinetando a ele e a toda a sua geração. Torino não é uma Roma, muito menos uma Paris. Até 1968 a universidade continuava sendo uma ilha intocada diante das mudanças que estavam em curso nos outros centros. “Ainda íamos de gravata-borboleta para a faculdade”, o que era um símbolo da profunda austeridade e da hierarquia, até aquele momento, inquestionável.

Depois de tanto tempo ele se mantém fiel àquelas premissas

Em 1968, começava então o movimento de ocupação das universidades italianas, e passou-se um ano inteiro praticamente sem aulas, um ano de discussões, encontros, reuniões, assembléias, nos quais os estudantes, professores e operários de Torino se mobilizaram. O poder do dinheiro, algo conclamado pelos pais dessa geração, estava sendo questionado em nome de coisas mais importantes, como as relações humanas e o amor. “Descobríamos ali o mal que o dinheiro poderia causar, como diria Caetano Veloso, ‘era a força da grana que ergue e destrói coisas belas’.”

Mais tarde, em 1969, um grupo de estudos do qual Luciano fazia parte passou por um concurso público para a construção de um novo hospital psiquiátrico, na cidade de Bérgamo. Começava a se questionar na Itália o papel dos hospitais psiquiátricos e Luciano entrou de cabeça nessa questão. “Chegamos a abrir as portas de hospitais psiquiátricos e a fazer passeatas pela cidade, junto com os ‘loucos’, reivindicando tratamentos mais humanos.”

Foi o estopim que desencadeou a consciência nos estudantes de arquitetura de que nunca teriam resolvido o real problema dos doentes mentais propondo um belíssimo e novo hospital. Era necessário levá-lo como um problema político. “Nesse período, do ponto de vista da nossa formação humana, houve uma revolução. Abrimos as nossas cabeças ali no provincianismo de Torino.” Passeatas, salas de aula fechadas e cabeças abertas. Mudanças eram necessárias para seguir. As gravatas-borboletas foram substituídas pelas golas rulês, moda no movimento estudantil europeu, e o questionamento do mundo virou parte do ambiente acadêmico.

“Vivi aos 24 anos a magia de descobrir um mundo diferente e possível. Aprendi que só se podia resolver as coisas a partir de um pressuposto político.” No entanto, passado o fervor desse rompante, a vida começou a tomar os seus velhos trilhos, embora algumas partes tenham descarrilado das antiquadas linhas.

A efervescência estudantil se abrandou, alguns professores tidos antes como “imortais” deixaram suas cátedras, a grade curricular se adaptou em partes às reivindicações estudantis, a política psiquiátrica foi repensada e reformulada. Alguns preconceitos foram rompidos, e percebeu-se principalmente o poder e a ingenuidade dessa juventude. “Tudo era muito bonito e ingênuo, tinha-se a impressão de que realmente podíamos mudar o mundo. Existia uma ingenuidade ao pensar que todo rico na Itália era filho-da-puta, e que todo cara de esquerda era bom caráter.

Muitas vezes não se contratava um marceneiro ‘bravissimo’ (muito bom) por ele acreditar em Mussolini – esses extremismos e sectarismo que hoje não existem mais.” Hoje Luciano se decepciona com o rumo que muitos dos seus colegas de faculdade em 1968 tomaram. “Muitos dos líderes estudantis de então acabaram ligados a partidos mafiosos, à corrupção. Foi uma desilusão.” O ciclo continua.

Devià tem hoje 64 anos, trabalha como designer e arquiteto, se instalou em São Paulo e, depois de 40 anos passados, se mantém fiel às premissas daqueles anos rebeldes. Enxerga a força que teve essa geração na vida dele e no mundo, mas também percebe que algumas daquelas reivindicações se deturparam. A pseudoliberdade que se instaurou no mundo moderno tem suas mazelas.

Luciano, hoje como ontem, não economiza munição. Para ele, eventos como a Casa Cor servem como exemplo de deformação absurda. “Dá nojo pela ostentação diante da realidade brasileira. É uma elite econômica que não tem nada a ver com a realidade social do País.”

Liberdade sexual, divórcio, filhos, estudos, teatro, alimentação vegetariana, independência. Essas são algumas das mudanças ocorridas na vida da terapeuta paulista Tai Castilho, em um período em que reviu todos os seus ideais. Para ela os caminhos indicados vieram na forma de mudanças comportamentais e na absorção de novos costumes radicais para a época.

Moça vinda do interior de São Paulo para viver na cidade grande, buscava uma vida certinha, em que as coisas caminhassem nos eixos, já que dentro de sua própria casa não era bem assim. Em 1964, se casou, para sair da casa dos pais e tentar construir sua vida ideal. Sua casa era esconderijo dos livros proibidos pela ditadura Vivia um casamento tradicional e resolveu estudar. Entrou para um cursinho pré-vestibular no centro de São Paulo, quando passou a ter um contato mais direto com os movimentos estudantis.

Com uma filha de 2 anos e um filho recém-nascido, marido médico, Tai começou a perceber um mundo diferente do seu. Emocionante e, ao mesmo tempo, aterrorizador. “Era muito comum pessoas próximas sumirem da noite pro dia. Anos depois de estudar com uma menina, vejo papéis com o rosto dela estampado em todos os cantos, com os dizeres: ‘Procura-se!’. Professores do cursinho desapareciam para nunca mais voltar”, conta ela sobre o seu primeiro contato com o mundo da clandestinidade e da luta armada.

Entrou para um grupo vindo do Teatro Oficina, passou a freqüentar os ambientes juvenis e da classe teatral, os bares da Rua Maria Antônia, mas revela: “Ao mesmo tempo em que eu estava querendo constituir família, ter um lar agradável e certinho, havia em mim um desembaraço juvenil”. Sua vida de aprendiz de atriz durou pouco, já que era uma realidade escondida da família e seus colegas do teatro não imaginavam como ela vivia ao atravessar a porta da rua. “As pessoas que faziam teatro eram malvistas pelas famílias tradicionais” e, nas coxias e nos palcos, era considerado caretice ser casada da forma que ela era. “Eu era simpatizante da causa, mas, por ter filhos, guardava em mim um medo silencioso. Em 1970, nasceu o terceiro, ainda do mesmo casamento.”

Por tudo isso, a aparência insuspeita de sua casa acabou transformando-a em esconderijo dos livros proibidos pela ditadura. “Não podíamos ter obras de Marx, Engels, Lenin, Che ou qualquer outro autor comunista.” Após 1968, ela entrou para a faculdade de fonoaudiologia e participou de movimentos estudantis. Era amiga de Vladimir Herzog, um dos mártires daqueles tempos negros, morto nos porões da ditadura. Depois disso, virou vegetariana, passou a usar saias longas, cabelos muito compridos e os filhos foram estudar na antroposófica escola Rudolph Steiner, de pedagogia Waldorf.

Tai Castilho é de uma geração em que se escolhia entrar de cabeça no radicalismo da política ou no desbunde comportamental. O desapego às normas do sistema urdiu uma geração criadora e ativa. Acabou indo viver a contracultura e a militância com uma geração seis anos mais nova do que a sua.

Acabou indo viver a contracultura e a militância com uma geração seis anos mais nova do que a dela. “Eu queria ser uma intelectual de esquerda, uma desbundada, uma sem-lenço e sem-documento, mas em 1971 me vi acabando a faculdade com três filhos pequenos e separada. Ao mesmo tempo em que queria dar conta da maternidade, uma coisa fascinante para mim, existia a liberdade sexual que tanto me dava prazer.”

Tai nunca foi muito bem aceita em nenhuma das tribos que freqüentava, por conta da sua dicotomia, sua contradição vital. E foi se distanciando do partidarismo do movimento: “A esquerda partidária lidava bem mal com a questão da sexualidade e das drogas”. Com um olhar iluminado pelos 40 anos passados, a terapeuta que se especializou, não por acaso, em famílias e casais, conclui: “As nossas reivindicações foram se realizando por entre as brechas do sistema e dando outras cores para o mundo tão sectário e segmentado da esquerda versus direita. A minha geração foi muito reprimida sexualmente, a de minha mãe nem se fala. Usufruíamos dessas mudanças ainda com muito medo – o que mudou muito para as gerações seguintes. Foi o nosso legado”.

Depois da separação, enquanto cursava a faculdade, Tai mudou-se para uma casinha na Vila Beatriz, então um bairro popular de São Paulo, com os filhos e muitas coisas novas na cabeça. Começou a se libertar de sua permanente dicotomia e passou a viver a liberdade com as crianças. “Nesse momento, os fantasmas da moral eram um pouco exorcizados, as crianças viviam peladas pelo jardim, os vizinhos se aproximavam, era uma delícia.” Desvencilhou-se dos seus ideais de família tradicional e, com isso, começou a se especializar nas relações da família moderna.

Sou um homem sem raiz. Me vi sempre como um retirante nortista classe média, de família pequeno-burguesa: mãe professora, pai funcionário público, duas irmãs, todos nascidos no Maranhão. A certa altura me vi no Rio e depois, durante 13 anos, vivendo em várias cidades do sul de Minas. As raízes soltas ao vento. Não sei dizer se isso foi bom ou ruim para a minha formação humanística.

Medir as palavras me fez deixar de ser nortista e virar mineiro

Às vezes, o descompromisso com tribos ou comunidades pode provocar uma espécie de frieza nas relações. Ou carência e dependência. Não entrava em conversa sem antes saber muito bem o que estavam dizendo, quem estava falando. Medir palavras e gestos me fez deixar de ser nortista e virar um típico mineiro. Isso favoreceu a amizade que, apesar do tempo e da distância, sei que ainda cultivamos – os amigos e eu – na nossa memória afetiva.

De Barbacena assisti ao golpe de 1964. Com As Palavras, de Sartre, numa das mãos e O Púcaro Búlgaro, de Campos de Carvalho, na outra, tentava antever o que aconteceria depois daquilo. O vestibular para a Faculdade de Direito da Universidade do Estado da Guanabara, em 1965, foi o passaporte para a minha iniciação prática na política, no materialismo histórico e dialético, procurando entender o que era a mais-valia, a luta dos contrários e a inexorável vitória do proletariado sobre a burguesia.

Os dias passavam cheios de sonhos, utopias, revoluções, imperialismo ianque, sovietes, ouro de Moscou, Guerra Fria, teorias políticas, confrontos armados, policiais nas ruas, torturas, prisões, medo, gritos de ordem e desordem, sirenes cruzando as avenidas do centro da cidade. Quero crer que 1968 foi o ano mais violento de todos. Quebra-quebra, cadáveres aparecendo nos jornais, estudantes atropelados pela cavalaria, o Calabouço, modesto restaurante de estudantes, se transformando em símbolo da repressão, da ditadura, da intolerância e do terror. O Estado se transformara em terrorista. Os terroristas em vítimas. No meio disso, jovens gritando por melhores escolas, abaixo a ditadura, viva o povo brasileiro, o povo no poder e outras palavras que surgiam aqui e no mundo inteiro.

Aqui, 1968 não proporcionou um bom encontro entre estudantes e operários. Trabalhadores brasileiros rejeitavam os cabelos grandes, os óculos redondos, as barbas por fazer. Éramos comunistas, agitadores, ateus. Nas portas das fábricas nos atiravam palavrões na cara. Se para o País e para os brasileiros revoltados, 1968 foi o ano terrível, para mim, janeiro de 1971 foi o ano do horror. Preso em Santa Teresa, em companhia de um amigo, dentro de casa, desapareci por dez dias. Literalmente eu sumi nos porões da ditadura.

Choques elétricos e espadas zunindo sobre minha cabeça

Quando consegui ser libertado, tomei o rumo do auto-exílio e durante dois anos perambulei por uma Europa tomada de hippies, drogas, sexo e rock-and-roll. Meus sonhos não morreram, mudaram apenas. Tornaram-se, de alguma maneira, mais frágeis e mais solitários. Em Londres, em Paris, em Estocolmo, em Lisboa, em Bruxelas, vi passar diante de meus olhos belíssimos seres humanos, imundos e com barbas sujas, em busca de um banho, de uma cama para descansar os ossos, de um bálsamo para as feridas que não eram apenas suas, eram de tempos imemoriais.

Depois, percebi que as pessoas passaram a se isolar. A arte se individualizou. A constatação era a de que o mundo se tornara para sempre capitalista. Perdemos a guerra, nós, que acreditávamos na revolução, na sociedade justa e igualitária. A ditadura política e ideológica deu lugar à ditadura do dinheiro. Uma ditadura sem cara, sem rosto, sem grupos contra os quais pudéssemos lutar. A luta pela sobrevivência me fez crer que eu era mais capaz de viver bem do que eu mesmo pensava que era.

Durante alguns anos me dediquei a uma vida alternativa, simples, morando no campo, escrevendo para meu próprio deleite e umbigo. Virei um outsider, um marginal do bem, à margem de qualquer coisa que o sistema pudesse oferecer. Aguardei ansiosamente a passagem dos cometas que iriam mudar o rumo das coisas. Qual o quê! As coisas só pioraram.

De artesão, escritor inédito, me transformei em publicitário e poeta medianamente conhecido em Minas. Fui diretor de redação da Revista Palavra, juntamente com Ziraldo e uma turma de jovens e nem tão jovens assim, talentosos e de almas gigantescas. Naquele período em que convivi com o terror atrás das paredes, os choques elétricos e as espadas zunindo sobre minha cabeça em passeatas pelo centro do Rio, senti a presença permanente de Jean-Paul Sartre, um anjo a proteger minha consciência para que eu não sucumbisse ao comodismo. Sartre foi e tem sido a minha maior influência.

De lá pra cá, minha cabeça mudou pouco. Procurei me desvencilhar das inutilidades do pensamento, amei meus filhos mais do que a mim mesmo, da minha mulher de então guardo lembranças amorosas e rancorosas – como todos os casais do mundo – e hoje, aos 60 anos, voltei a me apaixonar. Com isso, acho que rejuvenesci alguns anos, o suficiente para assistir, talvez, ao nascimento de uma nova geração, de um novo homem, como queria Guevara.

Difícil? Sim, é dificílimo, se levarmos em conta a tendência do mundo e do Brasil. Mas nada é em vão e nada do que aconteceu no mundo nos primeiros anos dos últimos 40 foi em vão. Porque 40 anos depois ainda consigo respirar a liberdade daquela época, o burburinho de uma juventude e de uma geração inquieta, irrequieta, rebelde com causa. Desse tempo ficou a cicatriz que acaricio toda vez que o vento do comodismo busca me fazer ficar de joelhos diante de um mundo injusto e cruel.

Sei que faço pouco para mudar o mundo, mas sei que me recuso a aceitar um mundo que se tornou imune às mudanças. Um mundo que se tornou medíocre, mesquinho, violentamente covarde. Um mundo onde os heróis são aqueles que saem do nada e se dão bem na vida: jogadores de futebol, campeões de Fórmula 1, campeões de tênis. Ou então aqueles que se exibem nas TVs e viram celebridades. E atiram palavras ocas para a multidão embevecida. Este é o mundo que venceu. Eu era do mundo que perdeu.

Texto e imagem reproduzidos do site: paginab.com.br