quarta-feira, 29 de março de 2017

Com as redes sociais o corpo passa a ser objeto de exposição

Imagem de Mathues Calafange.
Postado por MD, para ilustrar artigo.

Publicado originalmente no Portal Infonet, em 22/03/2017.

A era das redes e as novas visibilidades do corpo.
Com as redes sociais o corpo passa a ser objeto de exposição.

Anailza Guimarães Costa
E-mail: anailza@getempo.org
Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS/CNPq)
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGED/ UFS)
Orientador: Dr. Dilton Cândido Santos Maynard (DHI/UFS).

Hoje vivemos a era da quebra dos tabus e de uma maior tolerância em relação a sexualidade, maior inclusão e diversidades do que séculos atrás. Enquanto no passado, em 1504, Isabel de Castela morria de uma ferida que não queria mostrar aos médicos, recebendo a extrema-unção sob os cobertores para não mostrar nem os pés, hoje nas bancas de jornal e revistas exibem “mulheres frutas”, seminuas ou até mesmo nuas, sendo comum propaganda de lingeries, casais trocando carícias nas telas do cinema e televisão e homens e mulheres que conseguem assumir mais abertamente sua orientação sexual. A exibição de várias formas nunca foi tão bem recepcionada quanto no nosso século.

A internet abriu novos caminhos, trouxe universos de possibilidades à sexualidade e aos comportamentos sociais. Desde sites de relacionamentos, pornografia, tudo se encontra no mercado virtual. Pouco se fala ou se valoriza a privacidade. O que interessa é jogar nas redes o que esta fazendo, para onde vai e exibir o máximo possível sua vida pessoal. Na internet através de mensagens começam-se paqueras, namoros, faz-se sexo por vídeos. Se antes se pregava o pudor e recatamento por baixo de muitas vestes, hoje vivemos na era do narcisismo em que se exibir de todas as formas é um padrão social.

Nas redes sociais o que mais temos é a valorização do narcisismo, a exemplo das selfies, fotos tirado de si próprio, além da necessidade de expressarem opiniões sobre todos os assuntos e de ser precioso o rito de quanto mais curtidas melhor. A internet têm popularizado cada vez mais as ações de cada um através das redes sociais e também tem sido reflexo da nova educação do corpo que a sociedade atual criara.

Esta educação do corpo no passado foi modelada por processos civilizatórios, que deram sanções corporais, acentuando seu refinamento, desenrolando suas sutilezas e proibindo o que não parecia decente. Foram muito comuns em séculos anteriores, manuais que surgiram como um conjunto de regras e conselhos necessários para o bom desempenho da vida social por conta da necessidade de adesão as práticas civilizadas.

Não fazer necessidades nas ruas, andar bem asseado, saber se portar à mesa, ter cuidados com as vestimentas, ter cuidado com a intimidade sexual eram os ensinamentos para a educação do corpo.
Haviam normas/comportamentos próprios para se mostrar no público e os limites do que era reservado a esfera privada também eram claros. No entanto, as redes sociais vêm reconfigurando os modos de se portar, há uma nova “educação” para se sentir e perceber o corpo na relação público X privado.

Diante disso, em tempos de internet, podemos nos perguntar: quais os limites entre o público e o privado? Quais os limites dessa nova visibilidade do corpo? Em tempos de redes sociais, evoluímos ou retrocedemos? Nem um e nem outro. Na verdade, estas mudanças fazem parte de um longo processo de transformação social favorecidas por mudanças políticas, educacionais que moldaram o comportamento da sociedade e, também fazem parte da nova educação do corpo, reflexo da sociedade que valoriza mais as aparências.

Texto reproduzido do site: infonet.com.br/blogs/getempo

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Doze dicas para ser um pai educador

Internet e TV para os pequenos deve ter dosagens controladas.
Foto: Gilmar de Souza.

O X da Educação | 18/06/2010.

Doze dicas para ser um pai educador.

1 - Dê o exemplo

Se você quer que seu filho seja gentil, responsável e carinhoso, deve dar o exemplo. As crianças tomam os pais como modelo e tendem a imitar seus comportamentos. É muito mais importante não mentir, exercitar-se e comer adequadamente do que dizer para a criança que ela não deve mentir, que deve se exercitar e que precisa comer determinados alimentos. Se você deseja que ela se interesse por leitura, leia diante dela e leia para ela. “Faça o que eu digo, não faça o que eu faço” não funciona com crianças. Lembrese de rir com a criança, mas nunca ria dela, porque isso é desrespeitoso. Brincadeira é quando todos se divertem. Se apenas um ri, é agressão. Configura desrespeito. E a criança só constrói o respeito pelo outro se ela própria é respeitada.

2 - Não negocie o inegociável

As crianças tendem a pedir tudo o que veem. Mesmo que você tenha poder aquisitivo, aprenda a dizer não e a limitar os mimos. Isso dará a seu filho a noção de que as coisas não caem do céu e de que tudo vem com esforço. Deixe claro que o importante não é ter coisas, mas estar cercado de pessoas a quem se ama. Em algumas situações, é possível negociar com seu filho. Se ele não quer ir embora da praça e você pode esperar mais um pouco, não há problema em combinar uma prorrogação de 15 minutos ou de meia hora na brincadeira. Tenha cuidado com prometer presentes em troca de comportamentos desejados. A criança precisa saber que nem sempre vai ganhar um prêmio pelo que fizer. É preciso ensinar que as atitudes têm valor em si, para que elas não se transformem em uma mera relação de troca.

3 - Critique os atos, não a criança

Se a criança tem uma atitude condenável, diga que você não gostou do que ela fez. Mas não denigra seu filho. Se você atacá-lo e criticálo – chamando-o de burro, de malvado, de preguiçoso ou de qualquer outra coisa negativa –, ele poderá construir a personalidade em torno dessas características e se tornar inseguro. O certo é dizer que a ação dele é condenável e incompatível com a pessoa elogiável que ele é.

4 - Seja firme e coerente

Deixe as regras bem claras. Nada pode ficar subentendido. Não é suficiente dizer para a criança se comportar. Isso é abstrato demais para ela. Diga quais comportamentos são esperados e quais são reprovados. Os pais precisam ser enfáticos e coerentes em relação ao que pode e o que não pode, explicando sempre o porquê. Devem ser fornecidas explicações que a criança seja capaz de entender, e não palestras ou discursos. Nada de papo-cabeça com criança. A lógica infantil precisa ser respeitada.
Converse muito e abra espaço para que a criança fale. O diálogo é fundamental no dia a dia. Conversar e ouvir é mostrar interesse, o que significa que a criança se sente respeitada e aprende a também respeitar. Não se pode esperar a adolescência para começar a conversar. A comunicação se constrói no tempo e por isso deve ser iniciada cedo. O diálogo ajuda a entender os problemas das crianças.

5 - Limite o tempo de TV e de internet

Computador e internet se tornam prejudiciais quando roubam tempo de outras atividades necessárias ou desejáveis. Uma a duas horas de TV por dia estão dentro do razoável. A criança precisa de outros tipos de estímulo e de contato com a natureza. No caso da internet, não subestime os perigos. Mantenha o computador em um local onde possa vigiá-la e acompanhe de muito perto o que seu filho põe na rede e com quem se relaciona. As tecnologias têm importância na educação das crianças, mas é necessário cuidado com os excessos.

6 - Estabeleça horários

Acordar, comer, dormir – tudo tem de ter horário. A rotina ajuda a criança,
principalmente a de menos idade, a organizar seu pensamento e a educa para seguir regras. Falta de rotina, pelo contrário, desorienta. Uma criança não tem condições de decidir que precisa ir dormir porque no dia seguinte terá de acordar certo por causa da escola. A organização deve ser de um adulto. Isso prepara o terreno para ela própria aprender a se organizar.

7 - Não tenha medo de castigar

Com pouco tempo para ficar com os filhos, por causa do trabalho, os pais tendem a se sentir culpados na hora de dizer não e de castigar. Por esse motivo, acabam falhando em estabelecer limites. É preciso saber que em muitos casos se deve frustar o desejo das crianças – mas com carinho e respeito. Lembre-se que a criança lê a falha do pai em dar limites como falta de afeto. Se é permitido a ela fazer tudo, entenderá que o adulto não se importa e não a ama. Primeiro, explique. Se a criança persistir agindo mal, pode ser o caso de castigar. Mas o castigo deve estar vinculado à coisa feita. Se ela riscou a parede, o castigo será limpar a parede. Assim ela aprende que fazer certas coisas tem um preço. O castigo não deve ser arbitrário, como deixar sem ver TV porque riscou a parede.

8 - Elogie o bom comportamento

Quando a criança fizer algo de bom, não poupe adjetivos. Elogie efusivamente e mostre sua satisfação. As crianças aprendem a repetir os comportamentos que são valorizados pelos pais. Não espere por grandes conquistas, que às vezes são difíceis de alcançar, para elogiar. Valorize as pequenas vitórias do dia a dia. Mesmo que seu filho não tenha obtida um 10, celebre o fato de ele ter melhorado o desempenho em uma disciplina na qual estava mal. Isso serve de estímulo.

9 - Aproveite o tempo juntos

Os pais se ressentem de longas jornadas de trabalho, que impedem um contato prolongado com seus filhos. Mas esteja atento ao fato de que passar o dia inteiro com a criança não é melhor do que passar pouco tempo, mas de forma correta. O que você deve fazer é dedicar, todos os dias, uma hora para ela – e apenas para ela. Desligue o celular, dê toda a sua atenção e faça algo em parceria: veja um filme abraçado, monte um quebra-cabeças, conte um história. Isso mostra que você valoriza seu filho. Ele precisa sentir esse carinho todos os dias. Depois disso, a criança vai se sentir gratificada e deixará tempo para você resolver outras questões.

10 - Seja presente na escola

Procure levar e buscar seu filho na escola, pelo menos algumas vezes por semana, converse com os professores e compareça às reuniões. Olhe sempre os cadernos das crianças e pergunte sobre as aulas. Se você não der atenção à vida escolar dela, a mensagem que você passa é de que isso
não é importante.

11 - Dê tarefas domésticas

A partir do momento em que seu filho aprende a caminhar, pode começar a assumir algumas pequenas tarefas, como guardar os brinquedos. Com o tempo, pode ir colaborando de outras formas, como arrumar a mesa das refeições ou ajudar com a louça. Além de educar, essa participação nos afazeres domésticos deixam a criança feliz, porque ela se sente participante.

12 - Favoreça a formação cultural

Desde cedo, leve a criança a teatros, cinemas, livrarias, museus e galerias de arte. Isso vai fazê-la refletir e vai deixá-la familiarizada com a riqueza do mundo das artes.

Texto e imagem reproduzidos do site: clicrbs.com.br/especial

quarta-feira, 18 de março de 2015

A era da impaciência

Qual a fonte primária do crescimento econômico? 
A paciência. De onde veio a paciência? Dos livros.

Publicado originalmente no site cartacapital, em 15/03/2015.

A era da impaciência.

Assim como os livros expandiram nossa capacidade cerebral, as tecnologias atuais podem gerar o efeito contrário.

Por Thomaz Wood Jr.

A vida no século XXI pode não ser maravilhosa como sugerem as propagandas de telefones celulares, graças aos consideráveis impactos sociais provocados pela onipresença das novas tecnologias de comunicação e informação. Dois filmes recentes tratam do tema: Disconnect (de 2012, dirigido por Henry Alex Rubin) e Men, Women & Children (de 2014, dirigido por Jason Reitman). As duas obras adoçam seu olhar crítico com uma visão humanista. O grande tema é a vida contemporânea, marcada pelo consumo de bens e estilos, e povoada pelas doenças da sociedade moderna: bullying, identidades roubadas, comunicações mediadas e relações fragilizadas. No centro dos dramas estão a internet e as mídias sociais.

Se determinados impactos sociais já são notáveis, alguns efeitos econômicos ainda estão sendo descobertos. No dia 17 de fevereiro de 2015, Andrew G. Haldane, economista-chefe do Banco da Inglaterra, realizou uma palestra para estudantes da University of East Anglia. O tema foi crescimento econômico. O texto, disponibilizado pela universidade, é raro exemplo de elegância e clareza, com doses bem administradas de história, economia, sociologia e psicologia.

Haldane inicia mostrando que o crescimento econômico é uma condição relativamente recente na história da humanidade, começou há menos de 300 anos. Três fases de inovação marcaram essa breve história do crescimento: a Revolução Industrial, no século XVIII, a industrialização em massa, no século XIX, e a revolução da tecnologia da informação, na segunda metade do século XX.

Qual a fonte primária do crescimento econômico? Em uma palavra, paciência. É a paciência que permite poupar, o que por sua vez financia os investimentos que resultam no crescimento. 

Combinada com a inovação tecnológica, a paciência move montanhas. Existem também, lembra Haldane, fatores endógenos, a exemplo de educação e habilidades, cultura e cooperação, infraestrutura e instituições. Todos se reforçam mutuamente e funcionam de forma cumulativa. Pobres os países que não conseguem desenvolvê-los.

De onde veio a paciência? Da invenção da impressão por tipos móveis, por Gutenberg, no século XV, que resultou na explosão da produção de livros, sugere Haldane. Os livros levaram a um salto no nível de alfabetização e, em termos neurológicos, “reformataram” nossas mentes, viabilizando raciocínios mais profundos, amplos e complexos. Neste caso, a tecnologia ampliou nossa capacidade mental, que, por sua vez, alavancou a tecnologia, criando um ciclo virtuoso.

E os avanços tecnológicos contemporâneos, terão o mesmo efeito? Haldane receia que não. Assim como os livros expandiram nossa capacidade cerebral, as tecnologias atuais podem gerar o efeito contrário. Maior o acesso a informações, menor nossa capacidade de atenção, e menor nossa capacidade de análise. E nossa paciência sofre com o processo.

Não faltam exemplos: alunos lacrimejam e bocejam depois de 20 minutos de aula; leitores parecem querer textos cada vez mais curtos, fúteis e ilustrados; executivos saltam furiosamente sobre diagnósticos e análise e tomam decisões na velocidade do som; projetos são iniciados e rapidamente esquecidos; reuniões iniciam sem pauta e terminam sem rumo. Hipnotizados por tablets e smart phones, vivemos em uma sociedade assolada pelo transtorno do déficit de atenção e pela impaciência crônica.

Os efeitos são preocupantes. A impaciência em crianças prejudica a educação e cerceia o seu potencial. Nos adultos, reduz a criatividade, freia a roda que gera o desenvolvimento do capital intelectual e a inovação e coloca em risco o crescimento econômico futuro.

Haldane conclui que os ingredientes do crescimento ainda são misteriosos, mas que a história aponta para uma combinação complexa de fatores tecnológicos e sociológicos. É prudente observar que o autor não está sugerindo uma relação direta entre o crescimento das mídias sociais e a estagnação econômica que vem ocorrendo em muitos países. Sua análise é temporalmente mais ampla, profunda e especulativa. Entretanto, há uma preocupação clara com os custos cognitivos da “revolução” da informação, que se somam aos custos sociais tratados nos dois filmes que abriram esta coluna. Não é pouco.

Texto e imagem reproduzidos do site: cartacapital.com.br/revista/840

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Educação Ética

HANNAH ARENDT - “Os maiores males não se devem àquele que tem de
 confrontar-se consigo mesmo. Os maiores malfeitores são aqueles que
 não se lembram porque nunca pensaram na questão” .
Foto: Getty Images/VEJA.

Publicado originalmente no site da Revista Veja, em 14/09/2013.

Educação.

Gustavo Ioschpe: devo educar meus filhos para serem éticos?
Por Gustavo Ioschpe.

Quando eu tinha uns 8 ou 9 anos, saía de casa para a escola numa manhã fria do inverno gaúcho. Chegando à portaria, meu pai interfonou, perguntando se eu estava levando um agasalho. Disse que sim. Ele me perguntou qual. “O moletom amarelo, da Zugos”, respondi. Era mentira. Não estava levando agasalho nenhum, mas estava com pressa, não queria me atrasar.

Voltei do colégio e fui ao armário procurar o tal moletom. Não estava lá, nem em nenhum lugar da casa. Gelei. À noite, meu pai chegou em casa de cara amarrada. Ao me ver, tirou da pasta de trabalho o moletom. E me disse: “Eu não me importo que tu não te agasalhes. Mas, nesta casa, nesta família, ninguém mente. Ponto. Tá claro?”. Sim, claríssimo. Esse foi apenas um episódio mais memorável de algo que foi o leitmotiv da minha formação familiar. Meu pai era um obcecado por retidão, palavra, ética, pontualidade, honestidade, código de conduta, escala de valores, menschkeit (firmeza de caráter, decência fundamental, em iídiche) e outros termos que eram repetitiva e exaustivamente martelados na minha cabeça. Deu certo. Quer dizer, não sei. No Brasil atual, eu me sinto deslocado.

Até hoje chego pontualmente aos meus compromissos, e na maioria das vezes fico esperando por interlocutores que se atrasam e nem se desculpam (quinze minutos parece constituir uma “margem de erro” tolerável). Até hoje acredito quando um prestador de serviço promete entregar o trabalho em uma data, apenas para ficar exasperado pelo seu atraso, “veja bem”, “imprevistos acontecem” etc. Fico revoltado sempre que pego um táxi em cidade que não conheço e o motorista tenta me roubar. Detesto os colegas de trabalho que fazem corpo mole, que arranjam um jeitinho de fazer menos que o devido. Tenho cada vez menos visitado escolas públicas, porque não suporto mais ver professores e diretores tratando alunos como estorvos que devem ser controlados. Isso sem falar nas quase úlceras que me surgem ao ler o noticiário e saber que entre os governantes viceja um grupo de imorais que roubam com criatividade e desfaçatez.

Sócrates, via Platão (A República, Livro IX), defende que o homem que pratica o mal é o mais infeliz e escravizado de todos, pois está em conflito interno, em desarmonia consigo mesmo, perenemente acossado e paralisado por medos, remorsos e apetites incontroláveis, tendo uma existência desprezível, para sempre amarrado a alguém (sua própria consciência!) onisciente que o condena. Com o devido respeito ao filósofo de Atenas, nesse caso acredito que ele foi excessivamente otimista. Hannah Arendt me parece ter chegado mais perto da compreensão da perversidade humana ao notar, nos ensaios reunidos no livro Responsabilidade e Julgamento, que esse desconforto interior do “pecador” pressupõe um diálogo interno, de cada pessoa com a sua consciência, que na verdade não ocorre com a frequência desejada por Sócrates. Escreve ela: “Tenho certeza de que os maiores males que conhecemos não se devem àquele que tem de confrontar-se consigo mesmo de novo, e cuja maldição é não poder esquecer. Os maiores malfeitores são aqueles que não se lembram porque nunca pensaram na questão”. E, para aqueles que cometem o mal em uma escala menor e o confrontam, Arendt relembra Kant, que sabia que “o desprezo por si próprio, ou melhor, o medo de ter de desprezar a si próprio, muitas vezes não funcionava, e a sua explicação era que o homem pode mentir para si mesmo”. Todo corrupto ou sonegador tem uma explicação, uma lógica para os seus atos, algo que justifique o porquê de uma determinada lei dever se aplicar a todos, sempre, mas não a ele(a), ou pelo menos não naquele momento em que está cometendo o seu delito.

Cai por terra, assim, um dos poucos consolos das pessoas honestas: “Ah, mas pelo menos eu durmo tranquilo”. Os escroques também! Se eles tivessem dramas de consciência, se travassem um diálogo verdadeiro consigo e seu travesseiro, ou não teriam optado por sua “carreira” ou já teriam se suicidado. Esse diálogo consigo mesmo é fruto do que Freud chamou de superego: seguimos um comportamento moral porque ele nos foi inculcado por nossos pais, e renegá-lo seria correr o risco da perda do amor paterno.

Na minha visão, só existem, assim, dois cenários em que é objetivamente melhor ser ético do que não. O primeiro é se você é uma pessoa religiosa e acredita que os pecados deste mundo serão punidos no próximo. Não é o meu caso. O segundo é se você vive em uma sociedade ética em que os desvios de comportamento são punidos pela coletividade, quer na forma de sanções penais, quer na forma do ostracismo social. O que não é o caso do Brasil. Não se sabe se De Gaulle disse ou não a frase, mas ela é verdadeira: o Brasil não é um país sério.

Assim é que, criando filhos brasileiros morando no Brasil, estou às voltas com um deprimente dilema. Acredito que o papel de um pai é preparar o seu filho para a vida. Essa é a nossa responsabilidade: dar a nossos filhos os instrumentos para que naveguem, com segurança e destreza, pelas dificuldades do mundo real. E acredito que a ética e a honestidade são valores axiomáticos, inquestionáveis. Eis aí o dilema: será que o melhor que poderia fazer para preparar meus filhos para viver no Brasil seria não aprisioná-los na cela da consciência, do diálogo consigo mesmos, da preocupação com a integridade? Tenho certeza de que nunca chegaria a ponto de incentivá-los a serem escroques, mas poderia, como pai, simplesmente ser mais omisso quanto a essas questões. Tolerar algumas mentiras, não me importar com atrasos, não insistir para que não colem na escola, não instruir para que devolvam o troco recebido a mais...

Tenho pensado bastante sobre isso ultimamente. Simplesmente o fato de pensar a respeito, e de viver em um país em que existe um dilema entre o ensino da ética e o bom exercício da paternidade, já é causa para tristeza. Em última análise, decidi dar a meus filhos a mesma educação que recebi de meu pai. Não porque ache que eles serão mais felizes assim - pelo contrário -, nem porque acredite que, no fim, o bem compensa. Mas sim porque, em primeiro lugar, não conseguiria conviver comigo mesmo, e com a memória de meu pai, se criasse meus filhos para serem pessoas do tipo que ele me ensinou a desprezar. E, segundo, tentando um esboço de resposta mais lógica, porque sociedades e culturas mudam. Muitos dos países hoje desenvolvidos e honestos eram antros de corrupção e sordidez 100 anos atrás. Um dia o Brasil há de seguir o mesmo caminho, e aí a retidão que espero inculcar em meus filhos (e meus filhos em seus filhos) há de ser uma vantagem, e não um fardo. Oxalá.

Texto e foto reproduzidos do site: veja.abril.com.br/noticia/educacao

'Só um imbecil gostaria de fazer o que não curte'

Mário Sérgio Cortella.
Foto: Gigi Kassis. 

'Só um imbecil gostaria de fazer o que não curte'

O filósofo Mario Sergio Cortella é conhecido por sua experiência na área de educação, mas parece capaz de filosofar sobre tudo. Nesta entrevista de menos de uma hora, ele foi da sala de aula à Copa, passando por tecnologia, democracia e mundo corporativo.

Cortella é professor há 40 anos e, na juventude, tentou por três a vida no Monastério. Foi Secretário Municipal de Educação de São Paulo, trabalhou ao lado de Paulo Freire, uma das figuras mais importantes da educação brasileira, e escreveu mais de 15 livros. Uma de suas aulas colocadas no YouTube - "Você sabe com quem está falando?" - tem quase 800 mil visualizações.

Na conversa a seguir, ele chama a atenção para um "desvio de formação" dos jovens, que não foram ensinados a batalhar pelo que desejam. Ao mesmo tempo, afirma que essa geração tem várias características que precisam ser valorizadas. Cortella também dá um alerta sobre a nossa falta de tempo para pensar sobre nós mesmos: "algumas coisas na vida é melhor começar cedo antes que seja tarde". A dica, que ele repetiu algumas vezes durante a entrevista, é "parar, olhar e escutar". Já fez o seu minuto de silêncio hoje?

Debate-se muito no mercado de trabalho sobre essa geração que está encarando agora seus primeiros empregos, que suas expectativas não condizem com o que o mundo corporativo tem a oferecer hoje, e que eles não se encontram.

Há duas coisas aí. Primeiro: de qual jovem estamos falando? Porque aquele que não se encontra é aquele que tem escolha. Quem não tem escolha tem que se encontrar, senão não sobrevive. A mesma coisa vale para o dilema de mulheres que não sabem se trabalham ou cuidam dos filhos. Essa é uma opção que só parte da população tem. Boa parte das mulheres ou trabalha ou morre, só isso. De maneira geral, aquela que tem o dilema é aquela que contrata outra mulher para cuidar de seus filhos, para que possa trabalhar enquanto pensa se trabalha ou cuida dos filhos.

Mas para quem tem escolha, nas grandes organizações hoje há uma dificuldade de lidar com essa geração. Porque esse jovem com menos de 30 anos tem grandes belezas e capacidades, como senso de urgência, mobilidade, instantaneidade, simultaneidade, velocidade. Mas ele não tem algumas coisas que é necessário trabalhar: paciência, noção de hierarquia e compromisso com resultado e meta. Por uma razão: essa classe média jovem tem um desvio de formação que é confundir desejos com direitos. Isto é, eu quero, portanto você tem que me dar.

É um problema de criação?

Claro, é um problema de formação dentro da família. Desse ponto de vista, uma parcela deles acha que, dentro de uma empresa, se eu sou o chefe é como se eu fosse pai ou mãe, ou seja, eu tenho que prover as condições, e isso não acontece. Portanto, retirou-se da formação de uma parcela dessa geração a ideia de esforço. Ao fazê-lo, criou-se uma condição muito malévola, que é supor que as coisas tem que ser marcadas pela ideia de prazer. E por isso há um hedonismo hoje muito forte.
Um jovem diz: eu quero fazer o que eu gosto. Eu também. Só um imbecil gostaria de fazer o que não gosta. Todo mundo gosta de fazer o que gosta. No entanto, para fazer o que gosta é preciso que dê passos não tão agradáveis no cotidiano. Eu gosto demais de dar aula, faço isso há 40 anos, mas não gosto de corrigir prova, não conheço ninguém que goste. Mas eu não posso não corrigir, porque se eu não corrijo não tenho visão do como os alunos estão aprendendo e de como eu estou ensinando. Pois bem, qualquer um sabe que para obter prazer em algo é preciso algumas coisas que não são, no caminho, satisfatórias e prazerosas. Só que essa geração atual foi criada sem esse tipo de transição entre o desejo e o fato, entre a vontade e o sucesso, o anseio e a satisfação. Tem menino de 20 anos de idade que nunca arrumou cama, lavou louça.

O que a empresa pode fazer?

Elas precisam lidar com esse percurso de modo a formar as pessoas dessa geração com compromisso, metas e prazos, mas sem perder o que ela tem de mais inovador. Isto é, não só a familiaridade com o digital, mas o senso de urgência, mobilidade, inovação. Isso é uma força vital, altamente contributiva no mundo das empresas. Não posso em um negócio não ter gente que queira viver algo que é novo. Mas também não posso aceitar que ele ache que a vida só funcione com o novo. Você pode desprezar essa geração em nome daquilo que nela é um desvio, o que seria uma tolice imensa, ou pode aproveitar o que ela tem e procurar formá-la na direção daquilo que a fará crescer.
Há outra questão latente nas empresas: elas têm abusado da tecnologia e, muitas aproveitam as novas ferramentas, para exigir que seus funcionários fiquem disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana.

Como lidar com isso?

A tecnologia não pode ser nossa senhora, tem que ser nossa serva. Sempre que algo que é do nosso uso nos possui, isto é, domina o nosso cotidiano, esgota nosso tempo, devora nossa condição de convivência, existe algum tipo de malefício. A recusa da tecnologia é tola, a adoração da tecnologia também é. Quando a empresa exagera nesse polo obtém vantagem por tempo limitado. Ela esgota de tal maneira seus empregados que depois de um tempo eles não conseguem mais lidar com isso. As pessoas começam a não render mais, se desinteressam, vão embora.
E na vida pessoal, as pessoas percebem o quanto a tecnologia as consome?
Elas começam a perceber aos poucos porque começam a argumentar que estão sem tempo. Esse estar sem tempo é muito sério. Significa “não consigo mais ficar comigo, tenho que viver em voz alta”. Uma das coisas que colaboram para isso é a ausência de energia. De vez em quando acaba a eletricidade e as pessoas tem que olhar-se. Ou quando a pessoa está fazendo uma viagem de avião, ela tem que ficar quieta. São coisas que vão induzindo um pouco do silêncio.
Até na área de educação escolar estamos tendo que reordenar o modo como a gente acolhe as crianças de manhã. Vêm com transporte até a escola ouvindo musica alta no fone, chegam em estado de tensão. É preciso acalmá-las, não basta colocar numa sala, mandar sentar e abrir o livro na página 36. É preciso antes diminuir a luminosidade da sala, colocar uma música mais relaxante e sossegar um pouco. Porque se não acalmar há um desespero contínuo.


Como a gente coloca um pouquinho mais desse silêncio, desse tempo, em nosso dia?

Se for em relação às empresas, algumas estão criando esse tempo. Colocam na jornada de trabalho momentos de reflexão, meditação ou espaço de repouso após almoço. O que leva o funcionário a ter um rendimento e um bem-estar maior.
Quanto ao indivíduo, ou ele cria esses tempos – pare, olhe e escute - ou vai viver de maneira automática, robótica, e conseguirá em breve um estresse. O que pode gerar a adesão ao consumo exagerado de medicamentos e drogas, legais ou ilegais. Uma obsessão por tentar ficar em estado de não sobriedade. Tem uma musica antiga que diz: “não posso parar, se eu paro eu penso, se eu penso eu choro”. Portanto, é necessário que as pessoas criem seus tempos de recolhimento. Não de meditação e sofrimento. Mas para pensar: por que faço o que faço? Por que deixo de fazer? Por que faço do jeito que faço? Por que não faço como deveria? Isso é meditação. É reflexão. Senão uma hora a pressão é insuportável. Algumas coisas na vida é melhor começar cedo antes que seja tarde.
  
E essa questão da família, da criação? Estamos no caminho certo?

Não, de maneira alguma. Vou lembrar algo óbvio: trabalho de parto não termina na maternidade. Chama trabalho porque ter alguém exige responsabilidade. Algumas pessoas escapam hoje dessa responsabilidade e querem terceirizar isso. Assim como existe personal trainer, personal stylist, agora tem personal father, personal mother. Por exemplo, você vai com uma criança ao resort e, ao invés de ficar com seu filho, entrega para a recreação. Ou vai a um buffet infantil, que é um sinal nosso de demência, e lá tem um recreador. Desde quando criança precisa de adulto para fazê-la brincar? Estamos criando gerações que nem brincar mais por si conseguem. Precisa um adulto vestido de Bozo andando pra lá e pra cá animando as crianças. Como?! Criança se anima sem adulto. A família tem que repensar isso também.
  
Isso não quer dizer que não seja possível equilibrar família e trabalho...
Lógico que consegue. É uma questão de escolha. Tempo é uma questão de prioridade. Quando você diz que não tem tempo pra algo é porque aquilo não é prioridade pra você. Meu dia tem 24 horas eu vou preenchê-lo do modo que eu quiser. Em relação ao filho é tranquilo. Se você não tem tempo para os filhos, espere ele cair no mundo das drogas. Ai não é uma hora por dia. Um ano, dois anos, se der tempo. Portanto, pare, olhe e escute.
  
Como é que você vê, com a morte do Eduardo Campos, essa mudança radical nas eleições? Qual é o efeito disso na cabeça do eleitor?

Dependerá muito de como o grupo que sucede essa candidatura vai se organizar. Eles não são um grupo homogêneo, seja do ponto de vista de intenção, seja do ponto de vista de organização. Já tiveram mudança do comando de campanha. Me alegra que foi escolhida para a coordenação da campanha a Luiza Erundina, que é uma pessoa que eu admiro, fui secretário de educação no governo dela. Mas a morte de Eduardo Campos coloca um componente emocional na eleição, que é muito forte no Brasil. Temos três grandes fontes que nos impulsionam durante as eleições: a credibilidade, o ridículo e a comoção. E há uma comoção em relação à perda do candidato. Isso pode impulsionar, mas no quadro geral dependerá de como esse partido, no caso o PSB, com suas alianças, consegue ganhar maior unidade. Inclusive porque nos próximos 15 dias muda tudo, assim como nos últimos 15 mudou. [A entrevista foi feita no dia 22 de agosto de 2014]

Estamos vindo de um ano que foi marcado por uma Copa em que o país não pareceu muito animado...
Veja, nós somos um país que viveu uma situação esquizofrênica muito interessante antropologicamente. Fomos para esta Copa com uma certeza dupla: nosso time vai muito bem a organização vai muito mal. Aconteceu exatamente o inverso: nós conseguimos uma estrutura de organização absolutamente funcional, no padrão do que foi feito em países muito mais estruturados que o nosso, e uma seleção pior do que boa parte das seleções que disputaram a Copa.

Em 40 dias nosso sentimento mudou. Ele era um sentimento que seria de protesto a um governo que não conseguiria organizar uma Copa, ao lado de uma animação imensa com uma seleção rumo ao hexa. Mas depois do 7x1, nós não falamos mais de futebol. Não é uma questão pra nós. A nossa questão agora é a nação. A eleição, o que se faz no país. Isso foi um grande ganho. Ter sido humilhado no Mineirão produziu em nós um efeito que esquecemos o futebol e fingimos que aquilo não existiu. Estamos preocupados agora com aquilo que era a motivação original dos movimentos em junho de 2013.
Portanto, 2014 é um ano que traz grandes expectativas em relação ao debate no campo da política, de gestão nacional, discussão que foi adensada pela morte de Eduardo Campos.
  
E essa onda de movimentos?

Infelizmente, eles foram assassinados por uma parte dos democracidas que esquecem que democracia não é ausência de ordem, democracia é ausência de opressão. Quando os democracidas entraram com a brutalidade, a estupidez, afastaram as pessoas e produziram um dano muito forte a nossa democracia.
Eles criaram em parte das pessoas rejeição ao movimento de rua. Ficou uma imagem que, depois de um tempo, muita gente estava achando que era melhor que o aparelho policial, que tem a tarefa em uma democracia de garantir a expressão, fosse repressor. Em vez de ser uma estrutura policial garantidora - não podemos esquecer que palavra polícia e política são a mesma em termos de estrutura, polis é a comunidade e polícia é o que faz com que a comunidade viva em paz – ela passou a ser demandada por uma boa parte da sociedade para ser um órgão repressor.
Acho que gerou pânico em relação à manifestação de rua, o que é muito ruim. O país viveu em 2013 dois momentos inesquecíveis, algo que historicamente era novo. As pessoas indo para as ruas com os filhos, caminhando nas avenidas, pedindo melhorias. Isso tem uma beleza cívica. A praça, a rua, de novo como uma coisa do povo.
  
E o segundo momento?

A outra coisa bela foi a visita do Papa Francisco. É inacreditável que um homem que representa uma das religiões seja capaz de durante uma semana pautar o país. Não se falou de outra coisa. Um homem de mais de 70 anos de idade, representante de uma religião, sendo que religião pra uma parte dos jovens representa aquilo que é anacrônico, colocou em Copacabana mais gente do que os Rolling Stones. E ele trouxe algo incrível que é um debate sobre humildade, sobre simplicidade, isso afetou as pessoas. Levou a repensar nossa convivência com a política, nossa convivência com gestores, nossa atração palacial, de achar que o palácio é a representação do poder. Portanto essa foi uma contribuição muito mais forte até do que outro debate que nós tivemos.

O que esperar para o Brasil dos próximos quatro anos?

Bom, a primeira coisa é que a gente não deve esperar, a gente deve fazer. Tem que ter esperança ativa. Aquela que é do verbo esperançar, não do verbo esperar. O verbo esperar é aquele que aguarda enquanto o verbo esperançar é aquele que busca, que procura, que vai atrás. Bem, o que podemos esperançar? O que a gente puder construir dentro desse tempo agora. Nós precisamos fazer com que, até o momento da eleição, haja uma discussão sobre a necessidade de se pensar a educação, que é minha área, como um projeto de nação e não de governo. É preciso que haja um compromisso, continuidade de um projeto que é nacional. O governo passa, a nação persiste.
Por outro lado, dos três principais candidatos que estão dentro do cenário hoje, os três tem algum compromisso sério com a área de educação. O governo de Fernando Henrique junto com o governo Lula e Dilma conseguiram tirar nossa educação escolar da indigência. Claro que estamos só, como diria o Churchill, no fim do começo e não no começo do fim. Mas o partido do Aécio tem uma formação nesse campo, o próprio PT tem tradição nessa área e, claro, o próprio PSB. Temos boas expectativas nesse campo. Ademais, novo Plano Nacional de Educação prevê aporte maior de recursos do PIB nessa área. Portanto seja quem for eleito vai ter que fazê-lo. Por isso, minhas expectativas são positivas. É preciso que se construa essa estrutura, mas é animador face ao que nós tivemos nos nossos 514 anos mais recentes de história.

Fonte: Época Negócios/Dalmir Reis Jr.

Texto e foto reproduzidos do site: dalmirjunior.com.br/2014

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Entrevista: ‘Lojas de livros não conseguirão sobreviver’

Jason Merkoski trabalhou no desenvolvimento do primeiro Kindle 
e é autor do livro “Burning the page:
 The eBook Revolution and the Future of Reading”
Foto: Divulgação.


Entrevista: ‘Lojas de livros não conseguirão sobreviver’
Jason Merkoski, ex-evangelista da Amazon, diz que livros de papel se tornarão raros como discos de vinil

Por Ligia Aguilhar

SÃO PAULO – “As pessoas da Amazon não se importam realmente com o que você quer como consumidor.” A frase soa surpreendente ao sair da boca de Jason Merkoski, primeiro evangelista (responsável por disseminar novas tendências) da Amazon e um dos membros da equipe que desenvolveu o primeiro leitor de livros digitais Kindle, lançado em 2007.

Fundador da startup Bookgenie451, criadora de um software que identifica interesses de leitura de estudantes para recomendar livros didáticos, Merkoski mistura otimismo com alguma cautela quando o assunto são livros digitais.

Na quinta-feira, 21, ele vem ao Brasil participar do 5º Congresso Internacional CBL do Livro Digital, em São Paulo, no qual vai falar sobre a sua obra Burning the page: The eBook Revolution and the Future of Reading (ainda sem título em português), na qual decreta o fim do livro impresso.

Ao Link, ele deu mais detalhes sobre as mudanças e problemas que prevê para o mercado editorial. Confira os principais trechos.

Você decreta o fim dos livros impressos em sua obra, mas as vendas de tablets e leitores digitais começam a se estabilizar sem que isso tenha acontecido. O que falta para o livro digital se popularizar?
O que mais influencia a popularidade é a seleção de títulos. O que vimos acontecer nos EUA e Japão é que, uma vez que as pessoas consigam encontrar 80% dos títulos que buscam no digital, a chance delas migrem para e-books é de 100%.

Quanto tempo demora para essa mudança acontecer?
Cerca de três anos depois que os livros digitais estão disponíveis em um país.

Serviços de streaming podem ajudar nessa popularização?
O problema de serviços de streaming como o da Amazon é que eles têm vários livros no catálogo que as pessoas não querem ler. Um dos desafios é definir um modelo de preços para e-books, que hoje não existe. Até isso ser feito será difícil tornar o streaming uma experiência satisfatória e o seu custo sustentável.

Você esperava esses impactos quando ajudou a criar o Kindle?
Como indústria, acho que revolucionamos o mercado editorial, o que é assustador e maravilhoso ao mesmo tempo. Como dono de uma empresa de livros digitais, digo que é muito difícil trabalhar com editoras hoje, porque o mundo delas está em colapso. É como se elas estivessem no Titanic após bater no iceberg, sem coletes salva vidas, com o barco pegando fogo e naves alienígenas atirando contra o barco. As editoras estão confusas e com medo.

Teremos problemas com a coleta e uso de dados sobre nossos hábitos de leitura?
Certamente. Não vai demorar para começarmos a ver propagandas dentro dos e-books. Mas não estou realmente preocupado com o que a Amazon e o Google vão saber sobre mim porque acho que já aceitei que, inevitavelmente, eles saberão das coisas de algum jeito.

Esses dados também geram recomendações de leitura. Essa facilidade pode ter um lado ruim, como afastar o leitor de clássicos em prol de best-sellers?
Algum conteúdo poderá ser negligenciado com toda certeza. O problema de livros clássicos é que eles não são sexy e não são promovidos na página de entrada da Amazon porque a empresa não vai ganhar dinheiro com eles. O que menos gosto da virada do livro para o digital é a cultura do momento. Recomendamos apenas coisas atuais. Ferramentas de recomendação precisam melhorar.
Você já declarou em entrevistas que é difícil amar a Amazon…
Acho que o papel das empresas maiores não é estar na minha cara enquanto eu estou lendo. Elas podem ser mais sutis e acredito que esse é um papel que a Amazon faz mal. Hoje os varejistas conseguem aprender quem você é. Seria interessante se essas informações fossem repassadas para as editoras criarem conteúdo. Mas os varejistas retêm todos os dados. É por isso que o sistema está quebrado.

O que acontecerá com a palavra escrita?
Eu realmente acho que o futuro da palavra escrita é ser falada, porque a escrita é devagar. Os livros do futuro serão falados porque tudo gira em torno da fala hoje em dia. Aparelhos como o iPhone, com a Siri, permitem que você fale ao telefone o que você quer fazer.

Acredita que bibliotecas e livrarias vão mesmo acabar?

Não acho que o futuro será bom. Meus estudos mostram que nos últimos três anos os alunos gastaram 70% menos tempo nas bibliotecas das universidades. Onde eles estão pegando informação? Na Wikipédia ou em sites. As lojas de livros não conseguirão sobreviver e vão desaparecer. Sobrarão apenas algumas, especializadas em livros impressos, como as que vendem discos de vinil. Vão permanecer no mercado Google e Amazon, infelizmente. Conheço as pessoas da Amazon. E elas não se importam com o que você quer como consumidor. Elas se importam em como conseguir mais lucro. Uma maneira de fazer isso é empurrando livros populares, negligenciando outros. E infelizmente as pessoas vão aceitar. A curadoria de títulos está na mão dos varejistas.

Foto e texto reproduzidos do site: http://blogs.estadao.com.br/link

quinta-feira, 1 de maio de 2014

"Futilidades da web desmobilizam a juventude"


Publicado originalmente no site da Revista Carta Capital, em 30.04.2014

Entrevista - Abel Prieto Jiménez.

"Futilidades da web desmobilizam a juventude", diz autor
Segundo o escritor cubano Abel Prieto Jiménez, as pessoas se conformam com cápsulas de informação e não se aprofundam em nada.

Por Rodrigo Martins. 

Ser culto é a única forma de ser livre, vaticinou o poeta e filósofo José Martí, herói da Independência de Cuba. O Apóstolo, como era chamado, não pôde, porém, ver o sonho realizado. Morreu em confronto com as tropas espanholas em 1895, quando a esmagadora maioria da população da ilha caribenha ainda permanecia presa ao analfabetismo. Hoje, passados mais de 50 anos da revolução socialista liderada por Fidel Castro, Cuba orgulha-se de ter um dos melhores indicadores de alfabetização e escolaridade do mundo, líder absoluta na América Latina.

Mas nem tudo são flores, alerta o escritor Abel Prieto Jiménez, ministro da Cultura de Cuba de 1997 a 2012. A queda do número de leitores de livros, verificada em quase todos os cantos do planeta, também preocupa as autoridades cubanas. Assim como o avanço de uma indústria do entretenimento cada vez mais focada em futilidades. “Isso arrasta os jovens para um mundo frio, que os desmobiliza do ponto de vista intelectual e da transformação social”, avalia Prieto, hoje assessor de Raúl Castro.

Em passagem por Brasília, onde participou da 2ª Bienal do Livro, o escritor conversou por cerca de uma hora e meia com CartaCapital. Defendeu a criação de núcleos de resistência à hegemonia da cultura norte-americana e falou sobre os projetos em parceria com o Brasil, como a construção do Porto Mariel e o programa Mais Médicos. “As parcerias econômicas são prioritárias, mas podemos fazer muito mais no campo da cultura”.

Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista.

CartaCapital: Durante a Bienal do Livro, o senhor disse que Cuba ainda não superou o colonialismo cultural. Por quê?

Abel Prieto: Na verdade, o fenômeno é mundial. A chamada indústria do entretenimento, hegemônica, impõe modelos de consumo cultural em toda parte. A estratégia é associar a felicidade ao consumo. Estive em viagem pela Europa e havia uma publicidade delirante em meio à crise, para que os europeus continuassem a consumir freneticamente. Também cultua-se a cultura inútil. A cantora Lady Gaga talvez seja a pessoa de maior destaque no Twitter. Pessoas sem nada a oferecer têm milhões de seguidores nas redes sociais: futebolistas, celebridades. Isso arrasta os jovens para um mundo frio, que os desmobiliza do ponto de vista intelectual e da transformação social.

CC: A cultura está mais frívola, é isso?

AP: Essa é uma preocupação até mesmo para o escritor peruano Vargas Llosa, um ardoroso defensor do neoliberalismo. Llosa é um homem muito talentoso, mas sua atividade política é abominável. Ele está para o neoliberalismo como Doutor Jekyll está para Mister Hyde (em alusão à novela O médico e o Mostro, de Robert Louis Stevenson). De toda forma, no livro “A Civilização do Espetáculo”, ele faz uma interessante reflexão em cima de conceitos de outros autores, como Adorno e Horkheimer, da Escola de Frankfurt. Llosa está sangrando porque seus livros são muito bons, mas vendem muito menos que antes. As obras mais vendidas em todo o mundo são as de autoajuda.

CC: O número de leitores também está em queda.

AP: É verdade, inclusive em Cuba. Em geral, há uma tendência de ler menos. Alessandro Baricco, um grande escritor italiano, tem uma coleção de artigos sobre esse fenômeno, chamada “Os bárbaros”. É um compêndio de textos que publicou em sua coluna no jornal La Repubblica. Segundo ele, em termos de informação, a civilização de hoje se caracteriza pelo surfe, isto é, por navegar pela superfície das ondas, mas nunca aprofundar em nada. As pessoas se conformam com cápsulas de informação. Isso, lamentavelmente, ocorre em todas as partes do mundo.

CC: O que fazer diante deste cenário?

AP: Saí de um congresso da União de Escritores e Artistas de Cuba antes de viajar ao Brasil, e neste encontro se discutiu muito sobre o que era possível ser feito. Temos algumas vantagens. Os meios de comunicação, em Cuba, não são privados. São estatais. Todas as escolas são gratuitas, universais e controladas pelo Estado. Praticamente toda a população infantil está escolarizada, não há analfabetismo. Por isso, acreditamos ser possível trabalhar com os professores das escolas, com as instituições culturais de cada município, com os museus, as bibliotecas, as casas de culturas, os instrutores de arte, para sensibilizar a população. Não adianta proibir nada. Primeiro, porque é inútil tentar proibir que esse tipo de mensagem, frívola e globalizadora, chegue até nós. Além disso, a proibição tende a ter um efeito contrário.

CC: Aguça ainda mais a curiosidade pelo proibido...

AP: Sim, pode se tornar ainda mais atrativo. Em vez de proibir, acredito ser mais efetivo ter ações direcionadas para que os modelos de consumo cultural sejam mais autênticos, tenham mais relação com uma cultura humanística. O entretenimento não precisa ser idiotizante. Fernando Martínez Heredia, um grande ensaísta cubano, dizia ser possível sentir prazer com uma cultura que faça ascender a condição humana. É o que devemos perseguir. Uma das coisas mais dolorosas é o abandono do bom cinema. Conseguimos, nos 1960 e 1970, que a população tivesse acesso a uma cultura cinematográfica notável. Conhecíamos bem o cinema brasileiro. Glauber Rocha era um ídolo em Cuba. “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e “Terra em Transe” tiveram um sucesso estrondoso. Assim como os filmes de Buñel, Godard, entre outros. Conhecemos o cinema de vanguarda europeu, o cinema experimental dos Estados Unidos, o cinema latino-americano. A criação do Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica representa a tentativa de desenvolver um cinema nacional. Responsável por este projeto, Alfredo Guevara se correspondia com Vittorio de Sicca e outros grandes cineastas europeus, convidados a vir para Cuba para incentivar os jovens cineastas cubanos de então, a exemplo de Gutiérrez Alea, Santiago Álvarez e Humberto Solás, as primeiras grandes figuras do cinema cubano. Era um cinema de altíssima qualidade.

CC: Mas o grande público aprecia este tipo de cinema?

AP: Também havia a preocupação de formar um público para o cinema em escala massiva. E isso de fato ocorreu. Eu desfrutava do cinema de Bergman, de Kurosawa, todo o grande cinema universal, em sua versão descolonizada, não com o modelo ianque. Hoje, sobretudo os jovens, consomem um cinema péssimo, que tem um ritmo frenético. A cada momento é preciso ter uma morte para manter a atenção do público, ou ao menos uma cena erótica. Lembro-me de uma feira do livro na Rússia, e eles fizeram uma mostra de cinema muito boa, com a exibição de uma versão mais antiga de Crime e Castigo. E isso me preocupou, porque em todo o livro não há mais do que dois mortos, como então prender a atenção do público por duas horas?

CC: Dostoiévski, hoje, seria um grande fracasso...

AP: Não tenho dúvidas, porque é muito baixa a frequência de assassinatos (risos). O cinema cultuado hoje cria um espectador mais interessado nos efeitos especiais do que na mensagem, e ele acaba por inabilitar os espectadores a apreciar o cinema de qualidade. Qualquer filme mais elaborado pode aborrecer o espectador. Recentemente, a Associação Hermanos Saíz, de jovens artistas e escritores cubanos, iniciou um projeto de cineclube muito bom. Eles levam às universidades filmes de mais qualidade. Apesar de todos os problemas, há uma semente. Realizamos todos os anos, por exemplo, o Festival de Cinema Francês, que percorre todos os municípios e tem uma massa de espectadores maior do que a existente na própria França.

CC: É impressionante. Cuba tem 11 milhões de habitantes. Como pode ter mais apreciadores do cinema francês que a própria França, com 65 milhões de cidadãos?

AP: Foi o que me garantiu o embaixador francês em Cuba. Na França, os distribuidores são obrigados a ter uma cota de cinema nacional, mas o que se assiste é o cinema hollywoodiano. Para mim, o povo cubano deve ter referências diversas, plurais. A cultura tem muitas formas de se manifestar. A supervalorização dos efeitos especiais é uma demonstração da decadência de Hollywood. Repare que a propaganda foca muito em quanto custou o filme. É como se qualidade e dinheiro andassem juntos, mas normalmente é o contrário. Assisti à nova versão de O Grande Gatsby. O filme de 1974, com Robert Redford, não é uma obra prima, mas tem uma intensidade dramática que faz jus ao romance de Scott Fitzgerald. Na versão atual, com Leonardo Di Caprio, isso não existe. Torna-se mais importe o cenário, os efeitos deslumbrantes. Há um culto excessivo à tecnologia.

CC: E como o senhor avalia a emergência da internet como um novo difusor de padrões culturais?

AP: Em Cuba, temos um grave problema de conectividade, que ainda não conseguimos resolver. Está crescendo pouco a pouco. Quase todos os jovens têm uma conta no Facebook e utilizam as redes sociais, mesmo com uma conexão lenta. Mas a maioria das pessoas não tem internet em casa. A Associação Hermanos Saíz tem salas de navegação espalhadas por todo o país. São muito lentas, é verdade, mas existem. As bibliotecas municipais e os clubes de computação também têm. A internet é uma forma nova e fascinante de se comunicar. Mas também há experiências ruins, como a da rede social Zunzuneo, que, descobriu-se mais tarde, era desenhada e financiada pela Usaid (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), com o objetivo de difundir conteúdos mentirosos e subversivos (a rede social parou de funcionar em 2012). Mas não há nenhuma reação ou temor em relação às possibilidades que a internet representa. Precisamos continuar investindo para aumentar a conectividade.

CC: Certa vez, o senhor comentou que o primeiro livro editado pelo regime socialista cubano não era um manual revolucionário, e sim o clássico Dom Quixote, de Miguel de Cervantes.

AP: É um símbolo de como enxergávamos a transformação do ser humano por meio da cultura. Há muita gente cínica ou cansada que diz não ser possível fazer nada, não dá para ganhar a batalha cultural. Mas devemos criar núcleos de resistência. Acredito que a derrocada do socialismo na União Soviética e nos países da Europa Oriental ocorreu porque eles perderam a batalha dos símbolos, a batalha cultural. Os próprios filmes causavam uma fascinação pelo Ocidente. O socialismo deve ser o reino da liberdade. José Marti, herói da independência de Cuba, dizia que ser culto é a única forma de ser livre. Até para não se deixar manipular, não ser manipulado. Para não cair na teia da aranha, é preciso ter referências culturais. A resposta tem de ser cultural.

CC: Ainda faz sentido encarar a questão nos moldes da guerra fria, como uma batalha cultural em curso?

AP: Em 2005, os Estados Unidos fizeram dezenas de documentários sobre os 50 anos dos ataques com bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki. E a tese defendida era a mesma: Trumann ordenou o ataque para forçar a rendição do Japão o mais rápido possível e, assim, poupar a vida de milhares de pessoas com o prolongamento da guerra. Essa mentira se repetiu tanto que ganhou ares de verdade, como se o Japão já não estivesse praticamente derrotado. A verdade é que aquele feito horrível provocou a morte de centenas de milhares de civis e deixou sequelas atrozes aos sobreviventes. Foi uma demonstração de força contra os soviéticos, para amedrontar o bloco que uniu em torno das ideias do socialismo. Mais recentemente, Estados Unidos e Israel foram os únicos dois países que votaram contra a Convenção pela Defesa da Diversidade Cultural. Veja o quão importante para eles é manter o monopólio da indústria cultural hegemônica. Não se trata apenas de preservar uma indústria que gera muito lucro. É uma guerra de caráter ideológico.

CC: E a reforma na economia cubana? Houve avanços?

AP: Sim, há uma mudança em curso. Hoje, temos cerca de 500 mil trabalhadores que não são mais estatais. Atuam no setor privado, em cooperativas, sobretudo no setor de serviços ou na agricultura, utilizando o campo para seu usufruto. É uma batalha tremenda contra a burocracia, por uma administração racional.
  
CC: Qual é o objetivo da reforma? A inspiração vem da China?

AP: Não, não. Fidel Castro sempre foi crítico à cópia de modelos estrangeiros. No passado, nós copiamos dos soviéticos a forma de dirigir a economia, a forma de administração. Tivemos de rever tudo. O desafio, agora, é criar algo novo, o que Raúl Castro chama de socialismo próspero e sustentável, cuja célula fundamental é a empresa estatal socialista modernizada, com muito mais atribuições. Veja o caso do projeto que o Brasil está participando, do Porto Mariel. Estamos criando uma carteira de projetos para os investidores estrangeiros que tragam real benefício para nós. Não temos tecnologia nacional para extrair petróleo do mar, em uma região que se supõe possuir petróleo. Inevitavelmente, teremos de nos associar a países que tem a tecnologia para isso, como Venezuela ou Brasil. A empresa socialista com novas atribuições é a chave do sucesso.
  
CC: Criou-se uma zona econômica especial para acomodar as empresas estrangeiras no projeto do Porto Mariel. Em que essa iniciativa difere da experiência chinesa?

AP: Já tivemos outras zonas econômicas especiais e experiências do tipo. Mas acredito que nós estamos obrigados a não copiar modelos de fora. Podemos encontrar experiências interessantes em outros países, como as cooperativas de agricultura existentes no Brasil, e ver como poderiam ser úteis a Cuba. E ninguém ficará desamparado. Fizemos um estudo com toda a população infantil cubana, para investigar onde poderia haver desnutrição. E identificamos uma porção ínfima de casos. Não fechamos os olhos, essas famílias estão recebendo um tratamento diferenciado.

CC: Recentemente, o governo brasileiro contratou centenas de médicos cubanos para atuar em hospitais públicos de áreas remotas ou nas periferias das grandes cidades. E houve uma forte campanha contrária encampada pelos médicos brasileiros...

AP: Essa campanha contrária tende a se diluir, porque a população saberá reconhecer o trabalho dos médicos cubanos. Eles não estão só aqui. Estão no Haiti desde muito antes do terremoto. Estão na Venezuela, na Bolívia. Vi relatos comoventes, como o de um indígena boliviano que, pela primeira vez, teve contato com um médico que o tocou. O racismo contra os indígenas era tão ferroz naquela localidade que os médicos brancos não se davam ao trabalho de tocar no paciente. Os índios eram intocáveis, assim como os dalits da Índia. Acredito que a conduta generosa, sensível e humilde dos médicos cubanos levará a um índice de aprovação realmente impressionante.

CC: A apropriação de parte do salário dos médicos pelo governo cubano também é alvo de críticas.

AP: Pois a classe médica foi um dos primeiros setores da economia cubana a passar por reforma e ter melhorias salariais. Os médicos ganham mais do que qualquer outro trabalhador em Cuba, até porque fazem um trabalho notável. É verdade que precisamos elevar os salários de todos. Mas Raúl Castro foi muito franco ao falar aos trabalhadores: a remuneração vai depender da produtividade do país. Muita gente não está preocupada em preservar seu trabalho, então produz sem empenho. Para romper com esse círculo vicioso, a produtividade precisa ser recompensada. Gastamos 2,2 milhões de dólares com importação de alimentos, mas ainda temos terra fértil sem cultivar.

CC: Qual é o grande objetivo de Porto Mariel? Abastecer o mercado cubano ou também ser uma plataforma regional?

AP: É claro que, por sua posição geográfica, Cuba ocupa um espaço privilegiado em todo o Caribe. Pode ser, sim, uma plataforma regional. Mas há outra vantagem extraordinária. A cidade velha de Havana é uma atração turística importantíssima. É realmente uma cidade deslumbrante, comparável a Cartagena das Índias, na Colômbia. O porto de Havana tem potencial para receber turistas e, com a inauguração de Porto Mariel, deixará de receber cargas, será possível limpar a região. A grande maioria dos turistas passa por Havana Velha. Visitam Varadero e outras cidades, mas não deixam de passar um dia ou dois em Havana.

CC: Mas o bloqueio imposto pelos Estados Unidos não atrapalha os planos de transformar Porto Mariel em uma plataforma regional? Ou Cuba aposta no fim das sanções?

AP: É difícil prever o fim do bloqueio. Há uma percepção mundial de que o governo Obama é mais flexível conosco, mas não é bem assim. De fato, Bush fechou completamente a fronteira, os intercâmbios acadêmicos, de artistas. Mostrava a cara ferroz do Império. Obama é um homem mais inteligente, de outro perfil. Permite artistas cubanos em premiações do Grammy, libera shows do Buena Vista Social Club. Autoriza viagens de acadêmicos americanos interessados em conhecer Cuba. Mas a burocracia do Departamento do Tesouro do governo Obama é mais eficaz na perseguição dos bancos que mantém transações com Cuba, das empresas que negociam conosco. Acredito que a cúpula americana tem muito medo dos grupos extremistas de Miami. Há pesquisas que atestam: a maioria da população americana é favorável à normalização das relações com Cuba. Mas essa turma de Miami tem muito poder, mantém o discurso do ódio. Não acredito que o bloqueio inviabiliza o Porto Mariel, mas sem duvida o seu fim multiplicaria as oportunidades de negócios.

CC: Qual é o peso do bloqueio hoje? Diversas nações negociam com Cuba, como Venezuela, Espanha e o próprio Brasil...

AP: Sim, mas com muita dificuldade. O custo do frete, por exemplo, é altíssimo. Um barco que aporta em Cuba não pode, por seis meses, entrar nos Estados Unidos. Evidentemente, as empresas de transporte cobram por isso, pois podem perder oportunidades de negócios com os Estados Unidos. Se uma empresa europeia tem sócios ou uma subsidiária nos Estados Unidos, não pode negociar conosco. É algo realmente asfixiante. Há um fator irracional de ódio e vingança nesse núcleo de Miami, que encontrou em Bush uma força nunca antes vista.

CC: E as relações comerciais com o Brasil? Devem aumentar?

AP: Há, de fato, uma proximidade entre os dois países. Mas acredito que podemos avançar mais, e não apenas em acordos comerciais. É possível estabelecer mais intercâmbios culturais, desenvolver o turismo, há muita simpatia entre os povos. Temos culturas mestiças, muitos aspectos em comum. A música brasileira é muito apreciada em Cuba. Os Últimos Soldados da Guerra Fria, livro de Fernando Moraes sobre os cinco cubanos presos nos Estados Unidos por denunciar planos de terrorismo contra Cuba, foi um best seller. As parcerias econômicas são prioritárias, mas podemos fazer muito mais no campo da cultura.

Fotoe texto reproduzidos do site: cartacapital.com.br/cultura

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Comportamento - Conversas Paralelas



Conversas Paralelas.
Por Patrícia Dantas Romero

Observe. Neste momento alguém a sua volta deve estar usando um celular. Os aparelhos de 3ª geração (3G), que utilizam sistemas como o Symbian, Windows Mobile, iOS e Android, invadiram a ”nossa praia”, leia-se a “nossa sociedade”. Com a possibilidade de acesso à internet pelo celular, saltamos do uso comedido para a mania. Cenas diárias de interação do homem com o “amigo inseparável” pipocam na capital, causando irritação àqueles que tentam travar um diálogo convencional. São as conversas paralelas, que agora, através dos celulares, se tornam rivais cada vez mais poderosas.

Tereza Cristina Maynard, bióloga, especialista em Saúde Pública, recepciona bem a tecnologia, mas alerta que ela possibilita novas formas de relacionamentos, ao tempo em que restringe as formas tradicionais de interação social. Sem falar que “a dependência pelas redes sociais é hoje uma realidade com impactos impossíveis de ignorar”, diz. Estamos encantados com o “mundo” à mão, tal qual Narciso diante da própria imagem refletida no lago de Eco, enquanto “outros”, de carne e osso, solicitam a nossa atenção.

Fernando Silva, empresário no segmento de tintas e afins, experimentou o gosto amargo de ficar “só” durante um jantar de confraternização. “A minha empresa levou um grupo de profissionais para jantar. Findada a refeição, supunha que todos entrariam num animado papo, mas aí o que acontece? Todos, sem exceção, sacam os seus smartphones, esquecendo-se completamente de que aquele era um jantar de confraternização. Alguns passaram mais de 10 min. totalmente antenados com eles próprios. Fiquei chocado com tanta desatenção para com o próximo”, desabafa.

E você, já experimentou uma situação similar? Alguém já te deixou “falando sozinho”? Já foi vítima dessas conversas “virtuais” paralelas? Tereza Cristina também sentiu na pele a sensação de estar sozinha, mesmo que acompanhada. “Certas ocasiões encontrava-me em festas, onde quase todas as pessoas da mesa utilizavam o celular. Eu me senti numa espécie de “estágio de isolamento social”. Estamos numa mesa com amigos e de repente todos usam o celular! O diálogo entre nós desapareceu? Estamos conversando virtualmente com os distantes e mudos com os mais próximos? Não aprecio!”, confessa.

Para Fernando Silva, não há como negar os benefícios da tecnologia, mas devemos manter a sensibilidade de utilizá-los nos momentos certos, sem passar por cima dos valores morais e da educação. Há uma corrente filosófica que diz exatamente isso: “quanto mais complexa a tecnologia, maior deve ser o braço da ética”. A filha de Fernando, Rafaella Dantas Silva, administradora de empresas, concorda com a opinião paterna, mas confessa que usa bastante o celular, como a maioria das pessoas da sua geração. “Não sou tão educada, às vezes utilizo o celular, mesmo que haja alguém ao meu lado. Meu namorado sempre reclama, pois tem aversão ao uso abusivo do aparelho, quando na companhia de pessoas”, declara.

Os “telefones inteligentes” são, de fato, irresistíveis. Como explica Rafaella, “emails circulam em tempo real, decisões são tomadas de forma mais prática, numa altíssima velocidade de tempo, a qualquer distância do mundo e os chats nos dão a possibilidade de encontrar amigos pessoais, ou contatos profissionais para tratar de assuntos pertinentes”. As mil possibilidades de ação através do celular dá ao homem a sensação de poder e controle da vida. O ganhador do prêmio Nobel da Paz, o indiano Muhammad Yunus foi mais longe: “A tecnologia dá poder as pessoas”. Justamente por isso fascina tanto.

Só para ilustrar o tamanho do poder de um celular, Pollyana Ferrrari, professora de jornalismo da PUC/SP, reconta em seu livro a “A Força da Mídia Social” a noite de 13/06/2009 em Teerã, quando um internauta descreve para o mundo pelo celular, através do Twitter, o início da rebelião batizada de 2.0. Enquanto os jornais, TVs e rádios sofriam a censura estatal, 45 milhões de celulares daquele país mostraram ao mundo uma das mais significativas manifestações políticas do Irã.

Portanto, é difícil não se sentir o “todo poderoso” com um brinquedinho desses nas mãos. Acesso à internet por Wi-Fi e banda larga, vídeos conferências em tempo real, chats, redes sociais, câmeras de até 12 Mpx, jogos em 3D e TV’s com até 5.5' polegadas, tudo embalado em belos objetos portáteis. Aí estão os valores básicos da tecnologia: eficiência e economia, aliados à estética. Mas será que é só isso? Em se tratando de tecnologia, a questão mais polêmica, sobre a qual se debruça a psicologia e a filosofia, não está relacionada à máquina e o que ela pode fazer, mas sim com a significação dela para existência humana.

Albert Borgmann, filósofo alemão contemporâneo, diz que o apelo tecnológico é tão forte, que a maioria das pessoas é incapaz de recusar. Esse “entorpecimento” do homem pela máquina torna a vida humana limitada, pois as pessoas deixam de enxergar outras formas de se viver.  Em sua obra “Tecnologia e do caráter da vida contemporânea: uma interpretação filosófica”, Borgmann instiga: “Se duas horas de TV por dia entram em nossas vidas, outra coisa tem que sair. E o que saiu? Contar histórias, ler, socializar com os amigos ou apenas dar um passeio para ver o que está acontecendo no bairro”.

 Jorge Alvarez, Engenheiro Mecânico e de Segurança do Trabalho, tem se questionado sobre esse “entorpecimento pela tecnologia” de que fala Borgmann. “Não existe mais aquela amizade de você passar na casa do amigo para ver como ele está, basta uma mensagem no facebook e pronto. Onde fica o verdadeiro significado da amizade, aquele calor humano que tínhamos antes dessa era das redes sociais, onde as pessoas possuem milhões de amigos, quando na verdade muitos são totais desconhecidos?”, questiona.

Uma das cenas hilárias testemunhadas por Jorge aconteceu à noite, num bar da cidade. “Estava na balada e observei um cara tentando conhecer uma menina. A cada instante ela interrompia o rapaz para mexer no celular. Lá pelas tantas o cara se irritou, deixou a menina sozinha e saiu resmungando”. Segundo Jorge, a situação é preocupante, pois não há como preferir à rede social a uma boa conversa com amigos, ou até desconhecidos que querem ampliar o rol de amizades reais. “Eu chamaria isso de uma inclusão no mundo virtual e uma exclusão do mundo real”, finaliza.

E qual a solução para aproveitar o lado bom dos avanços tecnológicos, sem nos esquecer dos valores antigos? “Acredito que o segredo está na moderação. Chamo sempre a atenção dos meus filhos para que não se isolem do convívio social real’”, diz Tereza Cristina Maynard. Os jovens descobriram uma forma lúdica para se chegar a um meio-termo e quem nos conta sobre a brincadeira é Rafaella Silva: “A última moda é colocarmos os aparelhos empilhados na mesa do bar. Quem pegar primeiro, paga a conta toda. Essa é uma maneira de gerar interação pessoal e esquecer-se um pouco o mundo virtual”, comenta.

EDUCAÇÃO É A SOLUÇÃO

Quando o professor francês Gérard Boyer se aposentou, em 2001, os celulares não tinham invadido as escolas. De lá para cá a realidade é outra. É comum observarmos crianças do ensino fundamental utilizando celulares. Durante a elaboração dessa matéria, também observei alunas adultas passarem aulas inteiras com os celulares grudados às mãos, postando mensagens entre um exercício e outro, num curso de idioma. Para Gérard, esses “fenômenos de isolamento” dentro de uma comunicação virtual vão acontecer cada vez mais.

“O mundo virtual é o chamado Matrix. Esta é a nova forma de interação com o mundo exterior. Mas o mundo é muito mais do que um eco de si mesmo”, nos conta Gérard. Então não adianta ficarmos como Narciso, debruçados sobre a tela do celular, para criar vidas perfeitas, através de jogos, ou redes sociais, massagear o ego, ou suprir carências. Ali não é o mundo, por mais avançada que seja a tecnologia. E não se esqueçam, de tanto se olhar, fascinado por si, Narciso mitológico afogou-se. E ele nem podia medir a sua popularidade. Imaginem nós, com as redes sociais à nossa disposição!

Segundo o professor, hoje residente no Brasil, as verdadeiras predadoras cruéis das crianças e adolescentes são as empresas globalizadas e ultrapoderosas, que veiculam anúncios atraentes, de conteúdo apelativo, em conformidade com a moda, para um público impotente de reação. Além disso, educação se dá pelo exemplo. “Os educadores têm geralmente um ou dois celulares. Como eles poderiam salvar as crianças de uma doença que eles mesmos estão sofrendo?”, questiona.

Para Gérard Boyer, a solução está nas mãos dos pais, professores, industriais, que são capazes de filtrarem os conteúdos negativos, veiculados pelos meios tecnológicos. Televisão, sim, mas sob o controle. Jogos eletrônicos e móveis, sim, mas sob o controle. Segundo o professor, há uma frase de um autor francês do Renascimento, François Rabelais, que atravessou os séculos e precisa ser lembrada nos dias de hoje: "Ciência sem consciência é a ruína da alma".

Fotos e texto reproduzidos do blog:  patriciadromero.blogspot