domingo, 19 de novembro de 2017

"A política é a arte da sacanagem" (Ruy Castro)


Publicado originalmente no site da revista ISTOÉ, em 17.11.2017.

A política é a arte da sacanagem
Por Luís Antônio Giron

O jornalista e escritor Ruy Castro completa 50 anos de carreira em 2017. Em 2018, faz 70 anos. Para comemorar o evento, sua mulher, a escritora Heloísa Seixas, organizou o volume “Trêfego e Peralta – 50 textos deliciosamente incorretos”, lançado pela Companhia das Letras, reunindo sua produção jornalística. O título surgiu de uma brincadeira de um amigo — talvez Jaguar, Ruy não se lembra — e define a sua trajetória como repórter: “trêfego” significa “sagaz”, “astuto”; “peralta” é um indivíduo afetado, um “peralvilho”, como diriam nos tempos áureos do Rio de Janeiro, a cidade que Ruy, mineiro de Caratinga, cultua. Ele tinha 19 anos e morava no famoso Solar da Fossa, berço da contracultura carioca, quando começou a trabalhar como repórter no jornal “Correio da Manhã”. Foi em maio de 1967 que saiu no jornal a sua primeira reportagem assinada: uma homenagem ao compositor Noel Rosa nos 30 anos de sua morte. A matéria não consta do volume, mas foi o marco zero do estilo de Ruy, feito de humor e pesquisa, cujo segredo ele revela nesta entrevista — ou melhor,bate-papo.

Que significa “trêfego e peralta”?

Acho que o Jaguar me definiu assim, mas não tenho certeza. De qualquer forma, a expressão é fiel ao meu modo moleque. A foto da capa do livro foi tirada quando eu tinha 33 anos e morava em Portugal, em 1974. É só olhar minha expressão para compreender quem sou eu, um sujeito que aparentemente não se levava a sério.

Por que publicar um volume com seu trabalho jornalístico?

Olha, desconfio de coletâneas com material de imprensa. Ninguém é tão importante para merecer uma. Por isso, tratei de publicar coletâneas temáticas ao longo da minha carreira: artigos sobre cinema, música popular, futebol, viagens. Aí a Heloísa Seixas fez uma coisa diferente, ela preparou uma coletânea que cobre a produção ao longo de minha carreira levando em conta matérias que trazem uma abordagem diferente, que reflete a forma como vejo os fatos, temas e personagens, que não é politicamente correta, até porque o termo nem existia quando comecei.

Como foi sua trajetória jornalística?

Trabalhei em muitos veículos: “Correio da Manhã”, “O Pasquim”, “Manchete”, “IstoÉ”, “Playboy”, “Status”, “Veja”, “O Estado de S. Paulo”. Eu parei de trabalhar em redação em dezembro de 1986, quando deixei a “Veja São Paulo”. Foi quando eu parei de beber e decidi escrever livros. Hoje só vou à redação para fazer uma visita. E como os nossos colegas hoje têm idade média abaixo de 25 anos, quando eu apareço na redação é como se um senador visitasse o jornal. A sensação é estranha. Mas por nem um único dia eu deixei de trabalhar para a imprensa nesses 31 anos. Acompanho tudo, até porque assino uma coluna três vezes por semana na “Folha de S. Paulo” sobre todos os assuntos e preciso estar atualizado. Quando eu escrevo, tento parecer que estou vestido de jornalista, embora de fato eu escreva sem camisa e de calção.

Você mantém uma relação amistosa com as novidades tecnológicas? Você lê notícias pela internet?

Sim, mas continuo a ser aquele cara que lê jornal de manhã e compra revista na banca da esquina. Não mexo com as redes sociais e não uso celular até hoje, acredita? Sou como aquele cidadão que ganhou uma vitrola, mas até hoje não notou que o disco tem dois lados para tocar. Eu me permito ser atrasado. Eu me recuso a escrever segundo a última reforma ortográfica. Envio os textos para a redação e ela que faça a atualização. Mesmo assim, já fui antenado. Fui um dos primeiros jornalistas a escrever matérias em um computador doméstico, nos idos de 1988.

Como você analisa a guerra cultural nas redes sociais, com manifestações contra a arte?

A intolerância não ocorre só no Brasil. Ela se espalha pelas redes sociais. Qualquer um se sente na posição de dizer o que quer. A mentalidade do politicamente correto se disseminou. Observe a distorção: se eu fizer uma coluna a favor do cigarro, vou ser massacrado; mas se defender a maconha, todos vão aplaudir. É um retrocesso perseguir o nu em 2017 quando já era normal para uma adolescente em 1968. Jornalista deve escrever e não ler opiniões de leitores. Sou o único colunista que não informa o e-mail. Os internautas que protestam em redes sociais reencarnam o leitor que escrevia para jornal. Paulo Francis dizia que leitor que escreve para jornal deveria ter o cérebro examinado. Os militantes de redes sociais precisam de tratamento psiquiátrico.

Você começou a carreira aos 19 anos o “Correio da Manhã” já como jornalista cultural. Como isso aconteceu?

Quando entrei no jornal, eu cobria a cidade. O editor José Lino Grünewald aprovou minha pauta: os 30 anos da morte de Noel Rosa. Eu saí pelo centro do Rio para falar com o Ismael Silva e a Aracy de Almeida, e montei a matéria a partir dessas conversas. A matéria saiu em 4 de maio de 1967, no dia da inauguração de uma exposição sobre Noel no Museu da Imagem e do Som. Fui até lá. As exposições eram feitas de recortes de jornal colados em tabiques. Para minha surpresa, a minha matéria já fazia parte da exposição. Eu estava lá lambendo a cria quando o diretor do museu, Ricardo Cravo Albin, me disse que ficou surpreso que um jovem fosse capaz de escrever sobre Noel Rosa, e resolveu me apresentar a alguma pessoas. Quando entrei numa sala, vi que lá estavam Pixinguinha, Donga, João da Baiana, Paulo Tapajós e Braguinha. Em um minuto, toda a história da música popular brasileira me cumprimentou. A partir de então, comecei a assinar matérias. Passei a trabalhar com o Paulo Francis e foi aquela festa.

Você era menos peralta naquele tempo?

Eu era um jovem intelectualizado e me envolvia com a vanguarda, os poetas concretos, a nova esquerda, o anarquismo e o maoismo. Eu fazia altas pensatas sobre Jean-Luc Godard e Oswald de Andrade, como era comum. Quem fechava minhas matérias era o Francis. Quando ele editou a revista “Diner’s”, me encomendou textos com temas menos sérios. Eu só assinava os sérios. Paulo Francis me disse que as minhas melhores matérias eram as que eu não assinava. Repeti Millôr Fernandes, que assinava charges como Vão Gôgo e reservava o nome Millôr para as obras teatrais, mas se rendeu. Meus lados peralta e intelectual se uniram para sempre sob um nome só. Era como se o Doutor Jeckyll se conciliasse com o Senhor Hyde.

Que jornalistas foram determinantes para sua carreira?

As maiores influências foram existenciais. O Marinheiro Sueco (o publicitário Hans Henningsen. 1934-2015) foi o principal. Eu me tornei um moleque boêmio e bebedor por causa dele. Sabia tudo de música. Foram fundamentais Telmo Martino e sua verve, o humor de Millôr e de José Lino Grünewald, as dicas culturais de Paulo Francis e Ivan Lessa, o poder de análise do crítico de cinema de Moniz Vianna, do Carlos Heitor Cony, que conheci em 1969 e com quem não briguei até hoje. Cony era diretor da revista “Ele & Ela”. Escrevi para ele um “Manual do Paquera Perfeito”, que saiu em 1969.

Você aprendeu com esses mestres, mas criou um estilo próprio, capaz de provocar prazer em qualquer tipo de leitor. Qual o segredo de seu estilo?

Ninguém escreve bem, e sim reescreve. Meu segredo é cortar e simplificar o texto ao máximo, sem perder a premissa básica. Isso acontece na coluna: escrevo mais do que o limite do espaço — 1.815 caracteres – e tenho que cortar.

Você sofre quando tem que cortar o texto?

Não muito. Na verdade, é uma delícia cortar 400 caracteres. O teste final é eu sentir prazer de ler o texto final. Eu não entendo quem tem orgasmos ao ler Dostoievski. Aprecio textos “fáceis”, como o de Barbara Tuchman. Com ela, aprendi a história da política. Outro erudito que escreve fácil é o historiador Robert Darnton.

Que dica você dá para um novato escrever bem?

O jornal foi uma escola importante para minha geração. Numa redação, você apreendia a fazer pauta, organizar a estrutura de um texto e principalmente ouvir os outros. Não é possível escrever bem sem ter vivência e sem buscar a informação.

Você ama o Rio de Janeiro. A cidade está decadente?

Todos os meus livros são sobre o Rio. Estou preparando para 2019 um panorama sobre o Rio na década de 1920. Continuou apaixonado por esta cidade. O Rio de Janeiro é a cidade mais malhada do Brasil nas mais diversas épocas da história. É impressionante como as acusações são sempre iguais. O Rio já era decadente em 1710, 1795, 1830, 180, 1930… Paulo Francis achava que o auge do Rio se deu nos anos 1940. Para o Ivan Lessa, o Rio era bom mesmo nos anos 1950. Di Cavalcanti afirmou que o Rio poético morreu em 1922. Se recuarmos, vamos descobrir que o Rio entrou em decadência com o Estácio de Sá. O Rio é decadente há 500 anos.

Mas hoje a situação do Rio não é mais alarmante?

Claro que hoje assistimos à corrupção total das instituições do Rio, a começar por seus governantes e políticos – e tudo ficou pior quando Lula e Dilma apoiaram Sérgio Cabral e sua turma para “desenvolver” o Rio. Isso foi desastroso. A nova decadência do Rio começou quando deixou de ser Distrito Federal e passou a fazer parte de um estado pobre. Vieram governadores como Moreira Franco, Brizola, Garotinho e Rosinha Matheus, culminando com Cabral e a atual acefalia. Mas o Rio continua sendo um agradável de viver. Ele está em 40º lugar em índice de violência. Há estabelecimentos tradicionais fechando as portas. Mas agora está decadente, talvez porque os jovens não queiram mais comer abacaxi. As coisas se renovam, inclusive a decadência.

Por que você odeia a política?

A política é a arte da sacanagem. Eu me desiludi dela muito cedo. O último político em quem votei foi Mário Covas para presidente em 1989. Depois, não votei mais em ninguém. Porque não acredito mais em ninguém. Eu me inoculei de política em Lisboa, durante a Revolução dos Cravos. Eu estava lá em 25 de abril de 1974,quando a derrubada da ditadura causou euforia. Todos pareciam acreditar em um futuro de liberdade. Poucos dias depois, porém, o Partido Socialista começou a perseguir os adversários usando os arquivos secretos de Salazar. Ver o golpismo da esquerda é a receita para você não acreditar mais em nada.

Você é perseguido pela esquerda no Brasil?

Tem leitor que me acusa de ter ajudado a depôr Dilma e colocado Temer no poder em minhas colunas. Respondo que quem colocou o Temer no Planalto não fui eu, e sim Lula e Dilma.

Para quem não se leva a sério, até que você é organizado. É verdade que, como conta a Heloísa na apresentação do livro, você guardou todos os seus textos?

Eu tenho uma estante que ocupa uma parede, repleta de pastas com textos meus organizados por data de publicação. Herdei esse hábito e essa coleção de minha mãe.

Ela era professora?

Não, dona de casa. Mas desde o tempo em que eu morava no Solar da Fossa ela começou a recortar e arquivar as matérias do filho. Ela era minha maior fã. Eu tinha 19 anos, mas já contava com os registros dela. Ela passou o material para mim e continuei a colecionar pastas.

Magalhães Junior era uma espécie de Google e não sabia. E você?

Era um Google muito mais rápido do que o da internet, porque você obtinha dele a resposta imediata. Eu sou uma espécie de Google. Isso porque gosto de aprender. Isso não vai acabar nunca. Você vai morrer aprndendo. Nunca me contento com informações superficiais. Quero desvender um assunto e, para isso, esgoto a minha curiosidade.

Você sofre quando tem que cortar o texto?

Não muito. Na verdade, é uma delícia cortar 400 caracteres. O teste final é eu sentir prazer de ler o texto final. Eu entendo quem tem orgasmos ao ler Dostoiévski. Eu tenho prazer lendo textos “fáceis”, como o de Barbara Tuchman. Com ela, aprendi a história da política internacional. Outro erudito que escreve fáci é o historiador Robert Darnton, que me ensinou muito também

Como ser original quando tudo parece ter sido escrito, e sobre todos os temas possíveis?

Aprendi no jornal a pensar na frente e atrás do leitor. Eu gosto de abordar as atualidades à minha maneira, a partir de um ângulo inesperado, cômico ou ridículo. O importante é não cair na mesmice. Isso vale tanto para textos tanto como literários.

Texto e imagem reproduzidos do site: istoe.com.br

sábado, 18 de novembro de 2017

Prostituta, hermafrodita, ciclista e pai de 3 filhos... (+18)



Publicado originalmente no site huffpostbrasil.com, em  02/04/2014.

Prostituta, hermafrodita, ciclista e pai de 3 filhos: conheça a história de Claudette.

Por Cleber Facchi (Jornalista).

Esta é Claudette. Claudette é um marido, avô e ciclista premiado. Ela também é intersexual - possui ambos os sexos - e é prostituta. "Eu prefiro vender minha bunda do que minha alma, é mais difícil, mas muito mais limpo", disse para a fotógrafo Malika Gaudin Delrieu logo depois de elas se conheceram.

Delrieu ficou encantada com a história de Claudette, tanto que decidiu documentar a vida da "personagem" em uma série de imagens intituladas "La Vie en Rose". Recortes do cotidiano de Claudette, olhando roupas em uma vitrine ou abraçando Andrée, sua esposa há 52 anos e mãe de seus três filhos.

Nascida com genitália masculina e feminina, os pais de Claudette atribuíram a ela o gênero masculino quando nasceu, na Suíça, em 1937. Ao longo de toda a vida, o gênero tem desempenhado um papel importante na identificação de Claudette - embora ela ainda não tenha uma definição exata sobre ele. "Eu nunca me senti mal por ser hermafrodita, são os outros que têm um problema com isso, não eu", disse Claudette para Delrieu. "... Eu sempre me senti como uma menina e vivi minha vida em conformidade. Tenho o sexo dos anjos, por que eu iria ter vergonha dele?".

Para brincar com as possibilidades e ramificações de papéis de gênero, Claudette resolveu se aproximar da prostituição. Segundo ela, "a prostituição se torna uma fonte de auto-confiança".

Embora sua identidade sexual e profissão sejam tratados na maioria das vezes com um sentimento de vergonha, Claudette usa ambos os aspectos de vida com orgulho e alegria. De forma honesta, ela desenvolveu uma vida para si mesma - uma história que, apesar dos detalhes não convencionais de sua existência, é abastecido por componentes universais de trabalho, família, memórias e amor.

(Via The Huffington Post)

Texto e imagens reproduzidos do site: huffpostbrasil.com

Confissões de um garoto de programa... (+18)

Vitral sexo.

Publicado originalmente no site huffpostbrasil.com, em 06/09/2015.

Confissões de um garoto de programa: 'Muita gente me contrata para desabafar' (+18)

Rafael Nardini Especial para HuffPost Brasil

"Meu cliente mais comum tem 35 anos e um casamento padrão. E ele se diz hétero para a sociedade."

O depoimento a seguir foi editado a partir de conversas com Alan Souza, 33. O garoto de programa atende em Salvador (BA) e não vê problema algum em falar sobre seu trabalho. Também aceita convites para viagens com casais, homens ou mulheres.

Acredito que muitos me contratam pela curiosidade. Porque hoje temos acesso a tudo. Na internet se encontra tudo que quiser. Então esses homens me procuram mais para quebrar uma vontade incubada que vem de muito tempo atrás.

Há duas semanas, um homem de 52 anos, que não tinha relações sexuais há 10 anos com a mulher dele, me ligou. Fomos num barzinho, batemos um papo e partimos para o motel. Ele realmente já não tinha mais prática no sexo, mas queria voltar a ter tesão. Também nunca havia feito sexo com um homem antes.

Mas a coisa varia um pouco. Muitos casais me contratam para passar os finais de semana em casas de praia. Nesses casos, de maneira geral, o contato é feito pelo homem, que deseja me ver fazendo sexo com a esposa. Ele quer ser voyeur. Gosta de olhar e tem o seu tesão em ver a mulher transando com outro cara. Mas tem muito casal que participa. Já teve caso de um ficar com o cara e a mulher querer interferir...

Quanto vale o show?

Sexo é uma coisa muito psicológica. Tem um trabalho de atenção. Muita, mas muita gente mesmo me contrata para desabafar e conversar sobre situações do dia a dia. Falam de um problema em casa, do trabalho que não rolou, da relação conjugal... O atendimento tem todo esse lado do trabalho psicológico.

Nunca tomei Viagra. Procuro passar a noite em casa, ler e descansar. Me alimento bem, me cuido, faço artes marciais, corro três vezes por semana na orla de Salvador. E na hora do sexo, tanto com homem quanto com mulher, vai funcionar do mesmo jeito.

Mas meu primeiro programa, por exemplo, foi muito ruim. Trabalhava numa casa de massagem em Rio Vermelho. Era caseiro lá. No final do expediente o dono da casa recebeu um casal de amigos que queria fazer o programa. Mas foi muito ruim porque não tinha experiência nenhuma. Mas vi que dava para ganhar um dinheirinho. Nessa época recebia R$ 50 por semana como caseiro. Não tinha onde morar, não tinha mais grana e tinha acabado de me separar. Estava abalado e cheguei a morar na rua.

Os piores programas, aliás, acontecem quando o casal me contrata e, na hora H, o cara sente ciúme. Ou então a mulher nem quer nada e o cara fica insistindo... Acontece também de a mulher se soltar mais pelo toque, pela vontade de trepar e o cara fica puto.

A prioridade são os clientes fixos porque eles me mantêm. Novos clientes pagam R$ 350, R$ 300 pela hora. Menos do que isso, não. Quando é viagem, o valor é outro.

Qual é a minha

Desde os 12 anos, quando brincava com os meus primos, já tinha curiosidade. Minha primeira relação homossexual foi nessa fase. Já sabia que era bissexual.

Tenho duas filhas que moram no interior da Bahia e vou sempre buscá-las para passarem as férias comigo. Elas tem 15 e 17 anos. Ainda não falei com elas sobre o meu trabalho, mas está perto. Mas elas têm a cabeça aberta. É tranquilo.

Procuro ter uma rotina. Mas não tenho muito cronograma. Pela manhã corro na orla e tiro duas horas para treinar música. Malho quatro vezes na academia por semana. Durante a noite procuro não sair. Só se for para atender. Saio e volto. Sou muito caseiro mesmo. Nos finais de semana, que tem uma clientela que gosta de puxar mais um pouquinho, procuro dormir à tarde.

Não uso maconha. Não uso cocaína. Mas as drogas são muito presentes na prostituição. Principalmente aos finais de semana. Esse estereótipo de que o garoto de programa usa droga para trabalhar é o maior caô. Ele vai ganhar de outra forma. Por exemplo, você acerta um cachê com um cara para um período de duas horas. Mas o cara que está cheirando não quer que você vá embora. Então eles colocam mais dinheiro para você ficar até ele consumir toda a droga com isso. Então você acaba ganhando mais quando o cliente está usando cocaína. Mas não tenho nenhum preconceito com drogas.

Gosto de quebrar tabus. A prostituição está em todo lugar. Em casa, na igreja, na faculdade. Se você sai com uma pessoa e fica uma noite só por festa é prostituição. Tem muitos casais que moram 30 anos e a mulher se prostitui porque não gosta do cara.

Não é nada fácil

A legalização melhoria a profissão, sim. Se legalizar os prostíbulos, vai evitar que os menores entrem. O que não é legalizado funciona no vácuo da propina.

Seria importante porque tem muita garota de programa que chega 23h na casa e só sai depois das 5h. Se sair antes, recebe multa. E tem muitas garotas que trabalham 12 horas e até 13 horas. É uma profissão onde as pessoas são muito exploradas. Com a legalização elas teriam seus direitos assegurados.

Mas não indico minha vida para ninguém.

Para entrar na prostituição precisa ter cabeça. É uma área muito perigosa. Não aconselho ninguém entrar, não. Você tem muita amizade restrita e se não tem uma personalidade bacana, acaba consumindo droga e acaba se afundando e perde o foco. Mas como já corri perigo a vida toda e estou acostumado, tenho a cabeça no lugar. Mas aconselho a procurar um caminho que vai trazer resultado sem tanta dor.

Texto e imagem reproduzidos do site: huffpostbrasil.com

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Letícia Lima, uma mulher de pegada







Yuri Sardenberg e Aninha Monteiro/VIP.

Publicado originalmente no site da revista VIP, em 23 out 2017.

Letícia Lima, uma mulher de pegada

A atriz conta que não tem pudor na hora de interpretar e fala pela primeira vez sobre seu relacionamento com a cantora Ana Carolina

Por Cláudia de Castro Lima 

Letícia Lima, sucesso na internet e na televisão, bateu um papo bem sincero com a VIP em fevereiro.

Teve coragem de falar, pela primeira vez, em público de sua sexualidade. Ela demorou três anos para se sentir confortável para tocar no assunto. Veja abaixo a entrevista:

Eu não sei parar de te olhar

Letícia Lima não quer militar. Não pretende levantar bandeiras. Tampouco está a fim de brigar. Não que ela seja contra isso. Apenas acha que entrar em uma guerra para defender seu direito de ficar em paz soa contraditório.

A atriz de 32 anos está sentada a uma pequena mesa, com um prato de tartar de atum à frente, falando serenamente — e pela primeira vez em público — sobre sua relação com a cantora Ana Carolina. “Meu coração está muito bem alimentado, assim como eu vou ficar agora, obrigada”, ela brinca.

Usando um body preto semitransparente e enrolada da cintura para baixo em um roupão, ela acabou de fazer as fotos que você vê neste ensaio. “Estou bem feliz. É meu primeiro relacionamento com mulher. Para mim, é tão normal, tão natural que não tem nem o que falar sobre isso. Me senti atraída e só não hesitei, não fiz nada, deixei acontecer. Não teve uma grande questão. Foi a primeira vez que me senti atraída por uma mulher. No fim, você se apaixona pela pessoa, não pelo gênero. E foi das descobertas mais incríveis. Acho que, quanto mais naturalmente a gente age, mais aquilo é normal. Não preciso afrontar.”

Os boatos de que a atriz e a cantora estariam juntas começaram a ganhar força no Carnaval do ano passado, depois de elas terem sido flagradas dando um selinho em um camarote na Sapucaí. Continuaram aumentando ao longo do ano a cada vez que elas eram fotografadas no aeroporto, caminhando de mãos dadas, em shows ou eventos.

Reservada, Letícia nunca comentou o assunto. “A gente nunca falou sobre nosso relacionamento, mas também nunca evitou. Estamos sempre no aeroporto, nos lugares públicos. Precisa falar o quê? Sobre algo que é natural? Não havia necessidade.”

As duas namoram há três anos, e, se Letícia achou que agora era um bom momento para trazer o assunto à tona, não foi apenas porque o relacionamento entre as duas está mais maduro. Foi também por causa do preconceito muitas vezes velado que ela vem notando.

“Estou até numa posição favorável, porque sou artista: artista é excêntrico, logo, artista pode tudo. Se eu, que sou artista, já sofro preconceito, fico pensando: e quem não é? Incrível que no meu meio tenha tanto preconceito. Fiquei chocada. Teoricamente é para ser mais liberal, mas não é assim, não. Acho que as pessoas não estão abertas o suficiente. Até de repente elas têm isso no discurso, mas na hora do vamos ver, da prática, te olham meio esquisito. A gente percebe o incômodo”, diz.

“Isso que me faz falar. Acho bacana para dar força a quem passa pela mesma situação, que está só vivendo sua vida, está amando. E daí a maneira que você vai amar? Você não está prejudicando ninguém. Está só fazendo bem para outra pessoa, no máximo é isso que acontece.”

Letícia Reis de Lima nasceu na cidade fluminense de Três Rios, bem perto da fronteira com Minas Gerais. Logo criança percebeu sua veia cômica e o talento para interpretar, mas foi uma tragédia que a fez desenvolvê-los. “Perdi um irmão muito nova. Eu tinha 5 anos, ele, 7. Ele teve um problema de saúde e o perdemos. Foi um supertrauma, muito difícil. Nesse período eu sentia a necessidade de entreter minha família. Acho que eu já tinha esse negócio do humor, porque senão eu não conseguiria desenvolver. Foi o jeito que eu, criança, arrumei para lidar com isso. E realmente passei a entreter minha família, a ser a criança divertida e tal.”

Aos 9 anos, entrou no teatro e fez peças amadoras na região onde morava. Começou a trabalhar aos 14 para levantar algum dinheiro, animando festas infantis. Aos 18, resolveu ir sozinha para o Rio de Janeiro estudar cinema, mas já com a intenção de seguir o caminho da dramaturgia.

Depois de formada, Letícia foi trabalhar em canais a cabo como diretora de arte. Ao mesmo tempo, resolveu embarcar em um projeto com o então namorado Ian SBF, que conheceu na faculdade: um canal no YouTube de humor e ficção, o Anões em Chamas. “Não sabia nada de internet. Inventamos o quadro chamado Programa da Amanda e eu só pensava em expor meu trabalho, para exercitar e para mandar os links para produtores de elenco. Era um canal em que acontecia muita coisa e tinha orgulho de estar ali, fazendo algo inovador”, conta.

O canal foi um sucesso, o Programa da Amanda também. Começaram a surgir várias propostas de revistas – inclusive da VIP, que a fotografou para uma matéria.

“A Amanda tinha um apelo, uma coisa sexy. A ‘homarada’ amava. E era um programa superfeminista na verdade, porque ela era tão submissa que chamava atenção para o machismo. Passei a ser reconhecida na rua.”

Gregorio Duvivier, Fábio Porchat, Rafael Infante e Marcus Majella eram alguns dos visionários que estavam com Letícia e Ian nos primórdios do Anões. Depois, mais nomes juntaram-se ao grupo, que virou o fenômeno Porta dos Fundos.

“Foi só no Porta que pude deixar de ser diretora de arte e virar só atriz. Dali engatei.” Graças ao seu trabalho no canal, o autor de novelas João Emanuel Carneiro e a diretora Amora Mautner a convidaram para estrear na TV Globo, em A Regra do Jogo.

“Foi superincrível. Recebi um telefonema da Amora dizendo que ela admirava muito meu trabalho e que tinha um papel para mim na nova novela do João Emanuel. Pensei: ‘Caraca, deve ter um exagero nessa história. Quando eu encontrei o João Emanuel ele disse que estava mesmo escrevendo um papel para mim fazia seis meses, sem nem saber se eu ia para lá’.

Letícia foi. “Não dava para conciliar o trabalho com o Porta e tinha uma questão contratual do programa com a Fox. Foi muito difícil tomar essa decisão, fiquei angustiada de verdade, meio deprimida. Mas sabia que era um passo importante na minha carreira.” O colunista Flávio Ricco afirmou no UOL que a saída dela do humorístico causou mal-estar. À VIP, ninguém confirmou a informação. João Vicente de Castro e Gregorio Duvivier, ex-colegas do programa, não quiseram falar sobre ela.

Na novela, a atriz ganhou fãs do alto escalão da dramaturgia. “Nos encontramos no camarim e acho sinceramente que foi amor à primeira vista”, conta a veterana Susana Vieira. “Durante as gravações, a gente ficou muito amiga, confidente. Ela é uma pessoa muito querida, muito doce e muito talentosa, muito. E além disso acho que ela tem o cabelo mais bonito da TV Globo. Que as outras me perdoem, mas é lindo e é dela!”

A Regra, Letícia viveu a funkeira Alisson e sua primeira cena era de sexo, fazendo topless e usando uma calcinha fio dental. “Fiz numa boa. Tenho pudor zero para trabalhar, não tenho vergonha de algumas partes, não ligo mesmo. Mas eu mesma sou um pouco tímida no meu dia a dia. Prefiro me manter mais reservada. Minha profissão já me expõe tanto…”

Depois do folhetim, outra prova de popularidade: foi chamada para fazer a Dança dos Famosos, no Domingão do Faustão. “Eu já tinha muito retorno do público por causa da internet. A televisão diversificou isso.”

Público, aliás, que Letícia diz só emanar coisas boas para ela e Ana Carolina. “Sinto muito carinho da parte deles. Se você olhar as minhas redes sociais vai ver. É isso que me dá esperança, sabe? Nossa, tem salvação. Parece clichê, piegas e tal, mas que bom que o amor está vencendo, seja da maneira que for. Tem que ter coragem, mas vale a pena.”

Embora não goste de dar detalhes de sua vida pessoal e não confirme se está morando com a namorada, a atriz conta que adora seu apartamento, em Botafogo, onde gosta de andar nua, cuidar do cãozinho Bruno, manter uma horta, fazer trabalhos de marcenaria e preparar pratos “com um toquezinho gourmet”, que misturam culinária italiana e mineira (“É tipo risoto de couve e manteiga, risoto de torresmo”, ela explica diante de minha ignorância).

Também é superorganizada e tem uma gaveta de calcinhas separadas por cores e setores (“Tem a do dia a dia, a fio dental, a quero-ser-sexy-sem-ser-vulgar, a quero-ser-vulgar. Se não separar, embaralha tudo e não sei o que tenho”).

É em casa que ela assiste às cenas que grava – e odeia todas: “Se não odeio, consigo dizer: `Gostei, mas podia ter ficado melhor¿. É um bom exercício, não quero eliminar isso da minha vida.”

Neste ano, Letícia estará em três longas nos cinemas. Este mês estreia Ninguém Entra, Ninguém Sai, comédia em que ela é protagonista. Está programado para junho o lançamento de Duas de Mim.

E tem ainda um filme independente que ela fez com direção de Ian SBF, com quem ficou por oito anos. “Nossa parceria de trabalho é incrível. Sempre que eu puder convidar um diretor para trabalhar comigo, quero convidá-lo. Somos superamigos, foram muitos anos juntos, né? Também tem o seguinte: não houve uma grande merda. A gente só não era mais um casal homem e mulher”.

Letícia faz também a nova temporada de Vai Que Cola, do Multishow, emissora que a convidou para ajudar a criar um programa com a apresentadora Didi Wagner.

No fim do ano, o canal disponibiliza, só na internet, uma websérie com a atriz. “Não me considero humorista. Sou uma atriz que faz humor. Mas corro atrás de outros gêneros. Quero fazer teatro este ano, e não vai ser humor”, diz. Mas sabe que sua imagem está ligada ao riso. E, sem se conter, faz troça: “As pessoas já chegam até mim rindo. Ou elas se lembram de algum papel que fiz ou estou cagada”.

Estilo: Fabrício Miranda e Fernando Batista
Beleza: Max Weber

Ensaio produzido no Hotel Emiliano.

Texto e imagens reproduzidos do site: vip.abril.com.br

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Liberdade de imprensa é ser plural, defende o acadêmico Fernando Schuler

Crédito:Arquivo pessoal

Publicado originalmente no site do Portal Imprensa, em 26/04/2017

Liberdade de imprensa é ser plural, defende o acadêmico Fernando Schuler

Marília Marasciulo (em colaboração)

Filho de um professor de História e Teologia, o gaúcho Fernando Schuler, um dos ganhadores do Troféu Liberdade de Imprensa, teve uma formação fortemente ligada aos livros e desde cedo liberdade de expressão e democracia foram focos de seus estudos. Inspirado por autores como o italiano Norberto Bobbio e o francês Alexis de Tocqueville, conhecido pela obra "A Democracia na América", Schuler sempre se questionou sobre como construir uma civilização capaz de preservar o pluralismo de ideias. A resposta, ao que tudo indica, aponta para a liberdade de expressão como peça fundamental. “Uma democracia terá seus descontentes, mas esse é o custo da liberdade, ela incomoda”, diz. “A vantagem é que aqueles que se sentem prejudicados podem expressar sua visão.”

Doutor em Filosofia e Mestre em Ciências Políticas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Schuler atualmente é titular da Cátedra Insper e Palavra Aberta, voltada à reflexão sobre a liberdade de expressão e de imprensa. Na visão dele, hoje um dos maiores desafios, ironicamente, está no excesso de informação circulando. “Por um lado, isso é muito positivo, pois as pessoas se sentem cada vez mais à vontade e livres para se expressar”, explica. “No entanto, isso provoca uma explosão de pós-verdade e abre espaço para uma permanente instabilidade e intolerância.” Afinal, informação é poder e precisa ser tratada com responsabilidade.

É aí, opina Schuler, que entra a mídia profissional. Apesar dos desafios principalmente econômicos que o setor tem enfrentado nos últimos anos, Schuler enxerga o jornalismo brasileiro com muito otimismo. “O país tem uma mídia pluralista, é uma das nossas instituições e há grande diversidade de opiniões”, diz. Em tempos nos quais qualquer pessoa pode se tornar emissora de informação, a imprensa tradicional adquire maior relevância, pois passa a desempenhar o importante papel de filtrar e fazer a curadoria do conteúdo.

Para isso, no entanto, é essencial preservar um pluralismo complexo, partindo de hipóteses que podem ser derrubadas e mantendo sempre uma neutralidade no ponto de partida de investigações. “Não se pode cair em maniqueísmo e acreditar que tudo tem só dois lados”, opina. A mídia tradicional não pode competir com a avalanche de informação que circula a todo segundo nas redes sociais, mas pode, e deve, se consolidar como uma fonte com credibilidade e qualidade — e ter liberdade para fazer isso sem ceder a pressões do mundo online ou interesses de terceiros.

Texto e imagem reproduzidos do site: portalimprensa.com.br

Agora pode! Leve seu filho ao MASP

 Victor Meirelles, Moema, 1866 Óleo sobre tela [Oil on canvas], Acervo MASP [Collection]

Publicado originalmente no site Página B, em 09/11/2017

Arte Censura 

Agora pode! Leve seu filho ao MASP

A partir de agora, pais podem discutir livremente sobre sexualidade com seus filhos, através da arte, também no MASP.

Por Maria Hirszman. 

A decisão do Masp de proibir a mostra “Histórias da Sexualidade” para menores de 18 anos, felizmente revertida esta semana após a publicação de uma nota técnica pela Procuradoria Técnica dos Direitos do Cidadão (Ministério Público Federal), seguiu uma estratégia perigosa. Se toda a discussão em torno da censura aplicada acabou revertendo em uma grande publicidade em torno do museu e da instituição, atraindo novos visitantes curiosos, a medida acabou por levar a um desgaste da imagem do museu como instituição independente e autônoma.

Há dois pontos a serem considerados em relação a esse assunto:

Em primeiro lugar a decisão de não seguir o sistema de classificação indicativa, em vigor no país há décadas, mas usualmente aplicado aos setores cinematográfico e teatral, que agora volta a entrar em vigor. De acordo com esse sistema, a fiscalização se resume a indicar aos pais que aquele conteúdo pode não ser adequado para determinada idade por conter aspectos como nudez, violência etc, mas cabe ao responsável legal pelo menor decidir se ele está apto ou não a vivenciar aquela experiência. Museus sempre seguiram iniciativa semelhante, indicando quando a sala continha algum trabalho não indicado para menores.

Essa metodologia – derivada da Constituição e de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente – foi deixada de lado pelo Masp desde a abertura da mostra até o dia 7, quando emitiu nota liberando o acesso dos menores à exposição, desde que acompanhados pelos responsáveis legais. Possivelmente o abandono do sistema mais rígido de interdição – similar aquele praticado antes da redemocratização no país – foi também uma resposta às ações de país contra o museu, contestando o que consideravam um cerceamento do direito de seus filhos, e aos protestos gerais contra o que muitos apontam como um retorno da censura e uma capitulação excessiva.

Em segundo lugar cabe destacar o excessivo rigor na determinação da faixa etária adequada. Apesar de bastante mitigado no momento, a classificação constitui evidente exagero. Segundo norma do Ministério da Justiça, a indicação (não a proibição) de 18 anos corresponderia a situações que nem de longe se verificam nos trabalhos mostrados, ainda mais levando em conta que contextos cômicos ou históricos (como a crítica à exploração sexual colonialista que constitui a base da obra de Adriana Varejão) são considerados atenuantes.

Agindo com excessiva e injustificada cautela, o MASP não apenas alijou parte da juventude de seu direito de ver e debater as questões relacionadas à sexualidade – tema de enorme importância num momento definidor como a adolescência –, como alimentou indiretamente àqueles que se utilizam do escândalo e da falsa moral como armas políticas. Felizmente, voltou atrás.

Texto e imagem reproduzidos do site: paginab.com.br

domingo, 12 de novembro de 2017

O Abuso de Deus

Chiharu Shiota, Stairway (Reprodução).

Publicado originalmente no site da Revista Cult, em 13 de junho de 2016

O Abuso de Deus
Por Marcia Tiburi 

Intolerância e Democracia religiosas no tempo das novas mistificações

Deus sempre foi usado por pessoas e instituições como uma espécie de verdade que tudo justifica. Barbaridades e maldades foram feitas em nome de Deus.

Violências físicas e simbólicas são até hoje realizadas pelas mais diversas pessoas e religiões em nome de Deus.

Podemos citar exemplos históricos envolvendo intolerância religiosa, algo que se dá sempre em nome de Deus. Judeus, cristãos e muçulmanos de tempos em tempos massacram uns aos outros tendo como base a ideia de que o Deus único no qual creem está mais para o seu lado do que do lado dos outros. A caça às bruxas medieval, a perseguição a ateus e apostatas, não difere muito da contemporânea perseguição às mulheres e à homofobia das quais algumas Igrejas – instituições reconhecidas por sua misoginia – ainda estão cheias. Muitos dos crimes motivados pelo preconceito e pelo ódio tem como base ideias religiosas e obscurantistas sobre supostas verdades acerca da natureza humana e da natureza divina. Deus desde sempre é um tema que, como política e futebol, tem o poder de reunir fanáticos e separar cidadãos. Deus pode ser um perigo.

Para evitar guerras e violências é que se defende um Estado laico, um Estado sem religião oficial e que sustente a democracia religiosa, ou seja, o direito de cada um exercer sua crença respeitando a do outro. Democracia religiosa é algo que só um Deus amoroso pode desejar. Mas nem todo mundo usa um Deus bacana, um Deus do bem, para fazer religião, muita gente quando faz religião nem lembra que um bom Deus possa existir.

Assim é que se usa Deus – que nem imagina o que pode estar sendo feito em seu nome. Podemos dizer que, em nossa época, “Deus” está baratinho, pode ser vendido em qualquer esquina, basta alguém resolver explorá-lo como se explora uma criança na rua ou uma mulher sexualmente. A cafetinagem de Deus sempre foi um bom negócio.

É assim que, no Brasil, as igrejas crescem como nunca. O poder religioso exercido pelas igrejas é poder como outro qualquer: violência, força, dominação, controle para sua própria manutenção. O poder religioso não vem sozinho, ele implica o poder do dinheiro com o qual as três grandes religiões sempre estiveram envolvidas. Riqueza e pobreza defendida por uns e outros em tempos e contextos diversos serve ao poder econômico de poucos, como sempre. Qualquer igreja, de um modo geral, nada mais faz do que administrar a fé no contexto do capitalismo. A fé é usada como Deus é usado. Capitalismo é religião mesmo quando nenhum outro deus além do capital está em jogo, mas sempre que o capital se confunde com Deus, quando Deus é o próprio capital, então esse poder é levado a uma potência indescritível.

Diz-me o que fazes com teu Deus e dir-te-ei quem és

Deus é usado e constantemente abusado. Deus pode ser uma ideia boa quando se faz um bom uso dela. Mas quando se faz um mau uso, essa ideia causa muitos problemas. Justamente porque Deus é uma ideia incrível e todo mundo quer usar uma ideia incrível. A ideia de uma Deus único, patriarcal, soberano, que tudo sabe, que tudo escolhe, que tudo decide, combina muito com a sociedade humana. Todo mundo quer ficar do seu lado e ter sua proteção.

Porém, nesse contexto, Deus é instrumentalizado pelas religiões que o usam como uma espécie de poder absoluto. E quem não obedece ao padre ou pastor, que defende algo em nome de Deus, pode se dar muito mal, acusado de herege ou banido da comunidade em que a questão religiosa está dada como fundamental para o convívio e a participação. É como ser vegetariano em um churrasco.

As liberdades democráticas se exercem de muitos modos, e a religião necessariamente é uma delas. Isso nos faz pensar que a intolerância religiosa é um mecanismo de controle social. O fanatismo religioso, nesse sentido, é sempre muito útil. Muito fácil submeter os outros aos desejos e à necessidade autoritária que o fanático faz sua. Muito fácil usar o “meu Deus” como desculpa para todo tipo de violência simbólica ou física.

No Brasil o fundamentalismo religioso está em voga. Se novas igrejas de todo tipo surgem em cada esquina, é porque isso é permitido no contexto do Estado laico. Ao mesmo tempo, cresce a intolerância e outros vícios comuns às religiões. Isso significa que as igrejas que surgem não têm feito muito bem o seu papel sempre prometido de levar Deus – que deveria ser uma coisa boa – às pessoas.

Atualmente vemos um elogio das novas igrejas neopentecostais que dariam um lugar de reconhecimento ao povo invisibilizado. Alega-se que aquele sujeito invisibilizado por sua condição de classe tem um lugar de reconhecimento na igreja que ele procura ao deixar seu posto de trabalhador ou subtrabalhador. As pessoas abandonadas pelo estado e pela sociedade encontrariam um lugar na igreja. Aqueles abandonados pelas igrejas tradicionais também. Quem defende esse tipo de ideia tem toda a razão, o desamparo faz crescer a religião. Mas é uma razão precária e perigosa porque rebaixa o sentido do reconhecimento. Um trabalhador invisibilizado, uma pessoa desamparada, tem que ser reconhecido como sujeito de direitos e não como um pobre coitado que tem que agradecer ao sacerdote que vai extorqui-lo por chamá-lo pelo nome e lhe dar um olhar como esmola.

Pensa-se nesse tipo de teoria na base do sentimento de pena para com aqueles cidadãos que são rebaixados pelo sistema, e pelo discurso dos intelectuais que teriam compreendido o sentimento do povo, a pobres coitados dos quais pelo menos a igreja se ocupa. Ora, a igreja sempre usa os pobres para ter poder, como um dia usou os indígenas, como usa as mulheres, como usa as pessoas que sofrem dando-lhes em troca, quando convém, alguma migalha do seu poder.

Não estou pregando a impiedade, mas pondo em questão que o “reconhecimento” como categoria política não pode ser usada para fins perversos. Respeitar o sofrimento e a dor alheia, ou seja, ter compaixão, não pode ser tratado como mera piedade que só se sustenta enquanto muitos são rebaixados a pobres coitados.

Deus, um jogo de linguagem

A ideia de um deus único está envolta em muitos jogos de poder. Hoje em dia sabemos que jogos de poder são sempre jogos de linguagem. Jogos de linguagem implicam usos da linguagem.

Deus é um assunto que precisa ser analisado também nesse sentido, como um dispositivo de poder inserido em um jogo de linguagem. Nossa questão tem que ser “como se usa Deus” em um jogo de linguagem.

Se Deus existe ou não é uma questão falsa usada com fins específicos de mistificação. Todas as vezes em que alguém que acredita em Deus pergunta a um outro se ele acredita ou não em Deus, é provável que espere uma resposta positiva. Sempre me neguei a participar desses jogos. Todas as vezes em que me perguntaram se acredito ou não em Deus, preferi analisar a pergunta do que oferecer uma resposta.

Para certos crentes, sobretudo para os fundamentalistas religiosos, a hipótese de que Deus não exista não é muito boa. Para um crente fanático, a ideia de que o outro não acredita em Deus é devastadora. O crente fundamentalista não suporta que outros não acreditem nele. Porque “seu” Deus não vale para a sua alma, para os fins da sua subjetividade, mas sim como peça essencial em um jogo de poder no qual se usa a outra pessoa por meio de Deus. E, ao fazer isso, o que se faz é usar Deus, é instrumentalizá-lo mais uma vez.

Má fé e ideologia de Deus como abuso

Atualmente, no contexto do mau uso que se faz de Deus, pastores de igrejas neopentecostais ocupam o poder político no Brasil. Os pastores parlamentares são, de um modo geral, contrários a todos os avanços democráticos e aos direitos fundamentais e individuais. Como políticos muitas vezes são obscurantistas e oportunistas, capazes de desprezar direitos humanos e minorias e de, ao mesmo tempo, usarem esse espaço de debate e de poder como sendo sua propriedade.

A bancada evangélica no Congresso brasileiro cresce a cada eleição. Praticamente não há político, mesmo não sendo evangélico, que não leve em conta o peso do voto dos fiéis evangélicos em seus processos eleitorais.

A sustentação do Estado laico deveria ser cuidadosa com a candidatura e a eleição de líderes religiosos, de sacerdotes em geral, padres, pastores. Do mesmo modo que funcionários da mídia deveriam ser inelegíveis já que, de antemão, tem o capital espetacular e midiático que sempre pode se converter em votos fáceis.

A reflexão sobre a religião – que deve ser levada a sério para ajudar a diminuir a intolerância religiosa – não deve ser confundida com a crítica objetiva aos pastores evangélicos que passam a fazer política partidária e, com ela, buscam mudar os rumos do Estado laico que faz bem a uma sociedade de religiosidade plural. O que vale para juízes, a proibição de se dedicar à política partidária com vistas à eleição para cargos, deveria valer também para quem participa do poder religioso, ele mesmo, como todo poder, essencialmente político.

A relação entre religião e política implica a instrumentalização de uma pela outra. Isso quer dizer que os fins religiosos justificam os meios políticos, e os fins políticos justificam os meios religiosos. A ética, como reflexão sobre a ação, como preocupação com o outro, é jogada no lixo da história nesse arranjo.

As teorias e práticas obscurantistas de parcela dos pastores evangélicos em sua bancada cada vez mais poderosa, têm influenciado fortemente a mentalidade nacional e tem prejudicado a vida de muita gente. Mulheres, minorias religiosas, sexuais, étnicas, sem falar nas minorias de classe exploradas economicamente pelas próprias igrejas, estão na mira do que se configura como o mal radical realizado em nome da própria religião. Por mal radical define-se o mal que tem como objetivo simplesmente fazer o mal contra os outros. Uma espécie de mal profundo, um mal que se oculta em palavras mistificatórias, que não deseja a felicidade dos outros, que objetifica o outro como uma coisa, é disso que estou falando. O fiel é reduzido a alguém que se pode usar, seja para pagar o dízimo, seja para angariar o voto. O que está em cena é o mal pelo uso da fé que é a má fé.

Muitas igrejas sempre usaram de má fé para controlar o povo. Ao mesmo tempo, contam com a boa fé do povo e a manipulam como se as pessoas fossem incapazes de perceber o que se passa com elas. A isso podemos chamar de ideologia da fé. A fé usada para enganar, a fé manipulada, a fé transformada em mercadoria. E Deus servindo a isso tudo como se fosse um simples fiador. Mas é nisso que ele é transformado.

Se lembrarmos de propostas tais como a da “cura gay” ou do vem sendo chamado de “Ideologia de Gênero”, a gravidade da questão fica clara. As falas homofóbicas, os discursos misóginos (a ponto de se chegar a falar de estupro em potencial), a guerra contra a legalização do aborto como guerra contra as mulheres, não inova em nada a velha caça às bruxas da igreja que odeia as mulheres e homossexuais e que odeia a palavra gênero porque ela é uma palavra que desmistifica, que desmascara, que faz pensar. O que os pastores evangélicos têm proposto em diversos aspectos é simplesmente diabólico. Vindo de gente que se diz da fé, a coisa é ainda mais preocupante.

Essas práticas produzem um evidente controle da vida das pessoas e pode ser definida como oportunismo ideológico. As igrejas sempre fizeram isso, não é novidade o que pastores oportunistas das igrejas contemporâneas do mercado fazem. Apenas reeditam a mistificação e, num golpe de populismo por ignorância, abusam do povo e, para fazer vingar o seu abuso, usam Deus como ideologia.

Abusam, portanto, de Deus, mas como Deus não deve existir para elas, ou existe apenas como mercadoria, não há problema de consciência e eles seguem praticando o mal.

Texto e imagem reproduzidos do site: revistacult.uol.com.br

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Caetano Veloso diz que prioridade do Brasil deve ser enfrentar desigualdade

 Caetano Veloso na nova sede da Mídia NINJA, em SP (Francio de Holanda/Divulgação).

Antonia Pellegrino, Caetano Veloso, Caio Prado e Thalma de Freitas em debate no evento de inauguração da nova sede do Mídia NINJA em São Paulo (Foto Mídia NINJA/Divulgação)

Publicado originalmente no site da revista CULT, em 17 de outubro de 2017

Em debate, Caetano Veloso diz que prioridade do Brasil deve ser enfrentar desigualdade

Por Paulo Henrique Pompermaier 

“O país continua tristemente cumprindo a frase de Joaquim Nabuco: ‘a escravidão permanecerá por muito tempo como característica nacional do Brasil'”, acredita Caetano Veloso. Para o músico e compositor, “o principal problema do Brasil ainda é a desigualdade, e ter capacidade de enfrentá-la deve ser prioritário.”

O músico participou, na tarde desta segunda (16), de um debate em São Paulo junto do produtor cultural e o teórico da cultura digital Claudio Prado, com mediação da atriz e cantora Thalma de Freitas e da escritora e roteirista Antonia Pellegrino. O encontro marcou os 20 anos da publicação de Verdade tropical e a inauguração da sede do coletivo jornalístico Mídia Ninja, na casa cultural do Acadêmicos do Baixa Augusta.

Na ocasião, Caetano frisou como o principal problema do país continua sendo sua herança escravocrata. “Neste momento a gente vê que muitas coisas que foram esboçadas quando a gente era novo vieram à tona na vida política oficial”, afirmou. “Houve muito refluxo do que foi conseguido e do que foi esboçado.”

Concretizações e refluxos do que foi pensado desde a Tropicália, movimento contracultural encabeçado por Caetano em 1967, também ocupam algumas páginas da nova edição de Verdade tropical, relançado pela Companhia das Letras neste mês. No trecho inédito, o músico reflete sobre as mudanças culturais e políticas pelas quais o Brasil passou de 1997 para cá.

Para Claudio Prado, que se tornou amigo de Caetano e Gilberto Gil durante o exílio político em Londres, a principal mudança foi a revolução tecnológica. “A grande loucura é entender que a internet não pertence a ninguém, ela é livre, fura os monopólios de mídia”, disse. “Isso aqui [celular] é o coquetel molotov do século 21.”

Independentemente da mídia, Caetano acredita que a sociedade é invariavelmente marcada por forças de esquerda e direita, e não se trata de suprimir uma dessas vozes. “O conservadorismo é necessário para manter a sociedade”, argumentou. “Assim como sempre há resquícios da contracultura, desse desejo das pessoas de viverem uma vida autêntica.”

Por isso, disse, as recentes manifestações conservadores podem até ter um aspecto positivo, uma vez que “tornam claras as visões de mundo espalhadas no seio da sociedade”. “Antes a direita usava a expressão ‘maioria silenciosa’, que não faz barulho mas segura os privilégios da maioria”, disse.

Por outro lado, considera que há também perigos já que “pode haver embates inúteis e até desnecessários que venham a retardar o que precisa ser modificado”. “Mas talvez esse barulho queira dizer que eles [os de extrema-direita] são a minoria que não representam a maioria silenciosa dos conservadores, que também compõe e sustenta uma sociedade”, afirmou.

Censuras e protestos contra exposições, como os casos recentes da performance La Bête, no MAM de São Paulo, e do Queermuseu em Porto Alegre, são evidências, para o músico, dessa minoria que “faz barulho” e manipula a população. “Não é preciso ser de esquerda para perceber que há um desrespeito e uma manipulação da obra desses artistas por pessoas que sabem o que estão fazendo”, afirmou.

“Qualquer pessoa minimamente esclarecida percebe que há manipulação do tema moral pra assustar pessoas mais inocentes. A grande maioria dos brasileiros é inocente a essas coisas, mal sabe o que é um museu, nunca foi a um”, argumenta Caetano. “E tem gente que usa isso de maneira cínica, para manipular essas pessoas, pois sabem que não se trata mesmo de pedofilia, zoofilia ou qualquer coisa do tipo.”

Caetano estava em São Paulo desde sábado (14) para a série de shows em que se apresenta junto dos filhos Moreno, Tom e Zeca Veloso. Serão seis apresentações no Theatro Net com encerramento no dia 29. Após uma hora de conversa com público (que lotou o espaço), o show foi invocado por Caetano para se despedir do público.

Antes de partir, no entanto, constatou que a crise de paradigmas é geral, e não é apenas a esquerda que precisa refletir sobre suas práticas políticas. “Apenas o que quero dizer é que enfrentei a desilusão do socialismo real, e agora precisamos enfrentar a desilusão do liberalismo real.”

Texto e imagens reproduzidos do site: revistacult.uol.com.br

Maria Clara Spinelli fala sobre desafios de ser uma mulher trans

Foto: Julia Amaral/CLAUDIA.

Publicado originalmente no site da revista Claudia, em 25 out 2017.

Maria Clara Spinelli fala sobre desafios de ser uma mulher trans

Atriz contou a CLAUDIA sua luta para ser aceita pela família e pela sociedade

Por Da Redação 

Seja quem for a mulher que cada uma escolher ser, CLAUDIA está pronta para dividir esse caminho com elas. A gente quer estar com você, leitora, nesta trilha pela igualdade de direitos e oportunidades. Nenhuma de nós está mais sozinha. E, juntas, somos muito mais fortes e chegaremos muito mais longe.

Nós somos as mulheres que não mais esperam pela bênção da sociedade para reivindicar o que é nosso. E nós sabemos que, não importa qual seja nosso desejo, não importa qual seja nossa escolha, nós temos direito.

Inspire-se na história de Maria Clara Spinelli, atriz de São Paulo.

“Ainda fico emocionada ao lembrar da primeira vez em que minha mãe me chamou de Maria Clara. Foi como me dar à luz pela segunda vez. Gosto de falar que nasci em transição. Sempre soube quem eu era e fui muito transparente. Nunca fingi ser homem. Então, quando comecei o processo, conforme fui explicando, as pessoas mais próximas encararam minha escolha com naturalidade.

Claro que houve resistência, mas hoje vejo que era medo de eu sofrer física e emocionalmente. Eu não tinha outra opção. Nasci mulher presa a um corpo que não era considerado feminino. E a única maneira de existir plenamente, de ser, era passar pela transição. Se não tivesse direito à minha identidade, não poderia ser cidadã, filha, amiga, esposa e, quem sabe um dia, mãe.

Muitas vezes, esse caminho foi absolutamente solitário, mas o amor-próprio me fez continuar. Dali eu tirava força para os momentos mais difíceis. Aprendi que ninguém sabe o que é melhor para nós, além da gente. Aos outros cabe tentar compreender, aceitar e amar a pessoa querida em fase de transição.

Vivemos um momento benéfico para homens e mulheres transexuais, pois o assunto entrou em pauta. Apesar de sempre ter existido na natureza, o tema era tabu na nossa sociedade. Precisamos aproveitar esta fase para começar um novo diálogo com a comunidade, explicar, tirar dúvidas. E também para nos unirmos, as minorias, contra esse conservadorismo forte, que faz resistência à evolução.

Já sofri muito preconceito, mas agora ele se apresenta de forma velada. Não é bom atacar pessoas que têm visibilidade. Porém, continuo perdendo oportunidades, encarando situações em que não sou bem-vinda. Quando falam ‘admiro pessoas como você’, me diferenciam, me excluem do todo. Não é um elogio, apesar de muitos acharem que sim.

Foi por isso que aprendi a me colocar, apresentar meu ponto de vista. Não podemos ficar caladas. Quando alguém contar piadas sexistas, interrompa, não ria só para agradar. Nunca pergunte o nome anterior de transexuais. Era uma identidade com a qual ele ou ela não se reconheciam, e não vai acrescentar nada. E, acima de tudo, não pergunte se uma pessoa é operada. Dessa maneira, você condiciona gênero a uma genitália. E desqualifica quem não passou pelo processo, sendo essa uma escolha individual.

Eu pretendo me tornar uma referência para a geração que está vindo. Quando eu era mais nova, havia poucas pessoas em quem me inspirar. Esse assunto não era tratado abertamente. Então tive que trilhar um caminho próprio. Mas quero honrar essa luta de anos, conquistar mais espaço, continuar construindo”.

Texto e imagem reproduzidos do site: claudia.abril.com.br

domingo, 22 de outubro de 2017

Paolla Oliveira, a mulher mais sexy do mundo



 



Publicado originalmente no site da revista VIP, em 20 out 2017

Paolla Oliveira, a mulher mais sexy do mundo

No primeiro ensaio que faz na vida para uma revista masculina, Paolla Oliveira mostra por que o título das 100 + é MUITO mais do que justo e merecido

Por Renato Krausz 

A equipe da VIP que acompanhou as fotos da grande campeã das 100+ de 2013 no Rio de Janeiro voltou para São Paulo um tanto impressionada e até um pou­­­­co sem palavras por ter presenciado um conjunto de coisas dando certo ao mesmo tempo, criando uma dessas situações em que no fim do dia, ainda meio extasiado, você se pergunta: “Foi assim mesmo?”.

Comecemos pelas coisas mais secundárias. Em primeiro lugar, pela praia em que o negócio aconteceu, a paradisíaca e curtíssima extensão do litoral carioca que se situa em frente ao hotel Sheraton, no Leblon. Em segundo, pelo clima, um dia ensolarado, sem nuvens, com raios oblíquos de sol realçando o brilho da areia fina.

E, finalmente, pela mulher, Paolla Oliveira, e por tudo o que isso significa: por ser a mais deslumbrante do mundo na (muito acertada) opinião dos leitores que votaram em massa nesta eleição; por ser perfeita de um jeito desconcertante, desde as linhas simétricas do rosto até o formato arredondado das unhas dos pés.

Por ser uma mulher que sabe exatamente o que quer – estamos num ensaio fotográfico, e ela tem sempre certeza do que gosta ou desgosta, da roupa que lhe cai bem ou mal, do ângulo em que sai melhor ou pior, e vai conduzindo isso de um jeito tão educado, com um sorriso tão doce, como se mais do que em qualquer outra pessoa do mundo nela pudessem coexistir doses idênticas de assertividade, meiguice, humildade e convicção.

Paolla é a 12ª mulher a ocupar o posto de mais sexy do mundo na eleição mais inebriante do país, que acaba de completar 15 anos e 16 disputadíssi­­­­­­mas edições. Esta é a sua sétima participação na lis­­­­­­­ta.

Temos mais estatísticas aqui: Paolla tem 326 pontos e está em 74º lugar na classificação geral que computa todas as 475 mulheres que já figuraram ao menos uma vez entre as 100 desde 1998. É uma das 28 paulistas e uma das 61 atrizes que foram eleitas este ano. Aos 31 anos, é a terceira mais velha ganhadora do título, atrás de Juliana Paes em 2012, com 33 anos, e de Deborah Secco em 2011, com 32.

Números e prêmios são importantes, mas Paolla é muito mais do que isso. Mesmo o título de “mais sexy” é pouco. Lisonjeada, ela vê a coisa toda como resultado de um ano muito produtivo, com bastante exposição e um gratificante reconhecimento profissional.

Mas nós vemos como a materialização de um sonho coletivo que há anos permeia a cabeça do brasileiro em geral e do leitor de VIP em particular e coloca Paolla lá em cima no ranking das mulheres mais desejadas do país e também no das mais pedidas para nossa capa.

A sensualidade, para Paolla, está ligada à energia e à potência da vida. Está ligada ao fato de interpretar uma garota pelo menos dez anos mais jovem (a Paloma, de Amor à Vida) que depois cresce e vira mãe de uma pré-adolescente. Ou seja, tem tudo a ver com a capacidade de abrigar tantas mulheres diferentes dentro de si, seja na pessoa jurídica (as personagens), seja na física (a atriz).

E é importante frisar: não conhecemos muitas atrizes que possuem o dom de misturar tão sutilmente essas pessoas como Paolla faz. Colocando, como ela diz, uma pitada de maldade nas suas mocinhas ou uma dosezinha de bom coração em sua única vilã. Ou ainda, na nossa visão, pondo algo de enlouquecedor em suas personagens mais sensuais, como na Paula do filme Entre Lençóis, de 2008.

Formada em fisioterapia, a atriz estreou na Glo­­­­bo na novela Belíssima. Difícil imaginar um co­­­­­meço melhor. Suas colegas de elenco eram Fernanda Montenegro, Glória Pires, Irene Ravache, Cláudia Abreu e Cláudia Raia. Paolla diz ter bebido em todas as fontes e aprendido muito com cada ator ou autor que já trabalhou até hoje.

Tem consciência da própria beleza e talento suficiente para não ser dependente dela. Suas principais referências são Meryl Streep e Kate Winslet, mulheres camaleoas que, na opinião de Paola, se impõem pelo poder de se transformar, e não pelo de polemizar. As polêmicas são, diz ela, o ônus da super­exposição. Paolla considera isso natural, mas nada agradável, e admite fazer tudo para se resguardar.

Tanto que, após um ano profícuo como este – e ainda coroado pelo título de mulher mais estonteante do mundo –, apesar de amar o Brasil e ter um carinho muito acima da média pelo público (na praia com a VIP, ela atendeu a cada pedido de foto de fã de uma forma encantadora), quando acabar a novela e só conseguir pensar em férias, ela cogita viajar para fora do país. “Desde que não seja um lugar muito frio”, me conta.

Fotos: Alê de Souza
Estilo: Juliano Pessoa e Zuel Ferreira.

Texto e imagens reproduzidos do site: vip.abril.com.br