Com a designação de novas terminologias de gênero e sexualidade,
a sigla cresce e desafia a capacidade de comunicação linguística.
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Publicado originalmente no site [huffpostbrasil.com], em 17 de setembro de 2019
O que significa a sigla 'LGBT' e por que cada vez mais
letras são agregadas a ela
“Há uma questão no aumento dessa sigla no que diz respeito
àquilo que estamos querendo representar com ela”, afirma pesquisador.
By Victor Gouvêa
Ao fazer uma busca do Google por “sigla LGBT”, palavras como
“completa”, “oficial”, “correta”, “mudou” acompanham o termo e revelam que o
desejo por informações sobre a sigla também é repleto de dúvidas em relação ao
seu uso adequado e atualizado. As mudanças, de fato, não foram poucas.
Na década de 1990, foi popularizada como “GLS”. Com o tempo
o S, referente a simpatizantes, acabou sendo derrubado para dar espaço ao B, de
bissexuais, e ao T de transexuais. A ordem também mudou: comumente
invisibilizadas dentro do movimento, lésbicas pressionaram e tomaram a frente.
Assim chega-se à sigla que se tornou, por algum tempo, a
expressão para se referir a pessoas de designações divergentes da
heterossexual.
“Há uma forma sedimentada na língua, que é LGBT, [e ela] vai
continuar sendo a mais utilizada”, constata Emerson da Cruz Inácio, professor
de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da USP (Universidade
de São Paulo), que também pesquisa gênero e sexualidade no idioma.
Há uma questão no aumento dessa sigla no que diz respeito
àquilo que estamos querendo representar com ela. (Emerson da Cruz Inácio, professor de Estudos Comparados de
Literaturas de Língua Portuguesa da USP).
Segundo o pesquisador, a intensificação das discussões sobre
expressão da sexualidade e identidade de gênero começaria, aos poucos, a
questionar essa sigla como sendo insuficiente. Foi demandado espaço para o Q, o
I e o A, para contemplar, respectivamente queer, intersexo e assexuais. E no
final de tudo um sinal de mais (+), que cumpria o papel de um vago “etcétera”.
Quando, em 2018, o site britânico The Gay UK propôs que a
sigla correta deveria ser LGBTQQICAPF2K+, até a própria comunidade torceu o
nariz.
“Há uma questão no aumento dessa sigla no que diz respeito
àquilo que estamos querendo representar com ela”, aponta o pesquisador. “Acho
muito difícil que pegue em termos linguísticos”, diz. “Quanto mais elementos
são colocados, menos se comunicam realidades e experiências.”
Expressões da sexualidade de A a Z
Ativista defende que, talvez, antes de pensar em aumentar a
sigla "LGBT",
seja mais urgente que o movimento busque se comunique
com efetividade.
Reconhece-se hoje algo em torno de 30 a 60 expressões e
identidades de gênero distintas, dependendo da fonte de referência. Iran
Giusti, ativista, fundador e presidente do Centro de Acolhida e Cultura Casa 1,
em São Paulo, aponta que é mais interessante analisar o que a sigla, em si,
expressa.
“Vamos chegar ao momento em que teremos um nome específico
para a comunidade lésbica negra, pros LGBTs asiáticos?”, exemplifica. “É
inegável que a minha experiência é completamente diferente de uma mulher trans
negra, olha quantos recortes e vivências existem em um único movimento”.
Para ele, é fundamental falar sobre sigla, visibilidade e
nomenclatura, mas talvez no momento seja mais urgente que o movimento se
comunique com mais efetividade. “A gente está brigando ainda por coisas muito
básicas, com o governador recolhendo apostila que falava sobre hétero, homo e
bissexual, por exemplo e enfrentando
conservadorismo e até censura por parte do Estado”.
O ativista se refere a recentes ofensivas tanto de governos
municipais quanto o Federal. Neste mês, o presidente Jair Bolsonaro disse ter
determinado ao Ministério da Educação (MEC) que seja elaborado um projeto de
lei para proibir a abordagem de questões de gênero nas escolas de Ensino
Fundamental.
Também neste mês, João Doria, governador de São Paulo,
mandou recolher material que continha apologia à “ideologia de gênero”. Após um
grupo de professores questionar na Justiça, Doria foi obrigado a devolver o
material.
Na semana passada, foi a vez do prefeito Crivella. Ele
determinou que a história em quadrinhos Vingadores: A cruzada das crianças, da
Marvel, publicada em 2016 no País, fosse recolhida da Bienal do Livro por
conter um beijo gay.
Recentemente, Bolsonaro também criticou produções
audiovisuais de temática LGBT que estavam pré-selecionadas em um edital para
TVs públicas da Ancine, o que fez o governo federal suspender o processo de
seleção.
Iran defende que deveria existir um “alfabeto inteiro” para
gerar utilidade na luta por políticas públicas para a população LGBT, mas que
também é preciso traçar estratégias para que, novamente, a comunicação seja
efetiva.
“A gente na ‘Casa 1’ usa LGBT no fluxo de comunicação geral,
porque é uma terminologia com um pouquinho mais de entendimento por parte da
população”, explica. “Quando temos mais espaço de inflexão, trabalhamos com
LGBTQIA+”.
Cruz Inácio corrobora a opinião do ativista. “Esse acréscimo
[de letras] compromete sobretudo a comunicação com o público externo, não
queer, sobre o entendimento daquilo que se quer veicular. Essa é a grande
questão”.
Explicando o mais “novo” integrante: O Q, de Queer
Para a socióloga e professora da UnB, Berenice Bento, a
tradução mais
próxima para o termo seria a palavra “transviado” RAWPIXEL VIA GETTY IMAGES
Apesar de tentativas recentes, o termo “queer” é quase que
intraduzível. Em português, ele significaria algo como a síntese de “qualquer
expressão da sexualidade discordante da heteronormatividade”, ou seja, tudo o
que foge à norma, à binariedade que calcifica representações masculinas e
femininas.
Para a socióloga e professora da UnB, Berenice Bento, a
tradução mais próxima para o termo seria a palavra “transviado” ― mas, mesmo
com esta proposição sendo reconhecida pela academia, ela é pouco utilizada.
Mas estas poderiam, então, ser uma solução linguística para
o termo?
“Em outras experiências, nos Estados Unidos e França, têm se
utilizado com maior frequência o ‘queer’ como uma palavra ‘guarda-chuva’, onde
cabem muitas coisas”, aponta o professor da USP.
Sigla LGBT tem como objetivo comunicar o que é o movimento e
expressar identidades.
MALTE MUELLER VIA GETTY IMAGES
“Não sei se ‘queer’ dá vazão a tudo, mas é um termo neutro,
e essa neutralidade abarcaria com maior facilidade”, defende ao mencionar que
versões aportuguesadas, como “cuier” ou “quier” também estão sendo discutidas
em termos de linguagem.
Isso acontece porque “queer” é uma palavra inglesa, usada há
quase 400 anos para denominar pessoas que estão dentro do espectro do que a
palavra significa literalmente: estranho, desviante. Há registros de que, em
Londres, na Inglaterra, havia até uma rua que foi apelidada de “Queer Street”,
onde viviam pessoas marginalizadas como prostitutas, homossexuais e famílias
pobres.
O termo logo se consolidou como pejorativo no norte do
mundo. Mas, por volta dos anos 90, com o amadurecimento dos estudos de gênero
nas universidades europeias e, principalmente, norte-americanas ― com a
publicação do livro Problemas de Gênero, da filósofa Judith Butler ― movimentos
LGBT tomaram posse desta identidade “estranha” e “desviante” para ressignificar
seu uso.
É tudo muito novo até na própria construção das identidades
dentro do movimento (Iran Giusti, jornalista e diretor-presidente da Casa 1).
Um possível equivalente brasileiro que talvez servisse como
“guarda-chuva” seria a palavra “diversidade”. O ativista Iran Giusti não recusa
o termo, mas pontua que, atualmente, colocar todas as identidades ― que são
plurais e subjetivas ― em uma única “caixinha”, não é positivo para a
discussão.
“Falar de uma única ‘diversidade’ é deixar o debate
superficial, e a gente precisa que esse debate seja feito hoje. É tudo muito
novo até na própria construção das identidades dentro do movimento”, aponta.
Ele diz que discussões sobre representatividade e
intersecção do que cada identidade que compõe a sigla traz consigo acontecem,
mas que ainda é preciso fazer um debate anterior, que diz respeito à vivência
do que é ser LGBT.
“Hoje a gente tem um debate muito mais forte das inserções
nessas ‘caixinhas’, sobre questões identitárias, o que é totalmente natural
quando você não precisa mais se preocupar com questões mínimas de
sobrevivência”.
Os dados sobre LGBTfobia no Brasil
De acordo com o Atlas da Violência do Ipea (Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada), cresceu 10% o número de notificações de agressão
contra gays e 35% contra bissexuais de 2015 para 2016, chegando a um total de
5.930 casos, de abuso sexual a tortura.
Canal oficial do governo, o Disque 100 recebeu 1.720
denúncias de violações de direitos de pessoas LGBT em 2017, sendo 193
homicídios. A limitação do alcance do Estado é admitida pelos próprios
integrantes da administração federal, devido à subnotificação e falta de dados
oficiais.
Por esse motivo, os levantamentos do Grupo Gay da Bahia,
iniciados na década de 1980, se tornaram referência.
Em 2018, a organização contabilizou 420 mortes de LGBTs
decorrentes de homicídios ou suicídios causados pela discriminação. O relatório
“População LGBT Morta do Brasil” mostra, ainda, um aumento dos casos desde
2001, quando houve 130 mortes.
O grupo divulgou nova pesquisa que aponta 141 vítimas entre
janeiro e o dia 15 de maio deste ano. De acordo com o relatório, ocorreram 126
homicídios e 15 suicídios, o que dá uma média de uma morte a cada 23 horas por
homofobia.
O STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu, em junho deste
ano, que a LGBTfobia deve ser equiparada ao crime de racismo até que o
Congresso Nacional crie uma legislação específica sobre este tipo de violência.
Pena é de até 3 anos e crime será inafiançável e imprescritível, como o
racismo.
Texto e imagens reproduzidos do site: huffpostbrasil.com




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