Publicado originalmente no site [brasil.elpais.com], em 16 de setembro de 2019
40 anos de ‘Apocalypse Now’: assim foi o set mais selvagem
da história
Tudo que podia dar errado na rodagem saiu pior. Mergulhamos
na brumosa, esquizofrênica e arriscada história de uma gestação cinematográfica
nunca igualada
Por Juan Sanguino
Como pode uma rodagem planejada para 16 semanas acabar
durando 15 meses? No caso de Apocalypse Now, a façanha é que (quase) todos os
membros da equipe tenham conseguido terminar o trabalho vivos. Seu diretor,
Francis Ford Coppola, acabou acompanhando seu protagonista, o capitão Willard,
no mergulho à loucura: se a missão do soldado era caçar o coronel Kurtz, a de
Coppola era concluir um filme que havia começado sem roteiro e sem final. Ele
mesmo reconheceria ter contemplado o suicídio em três ocasiões ao longo dos
quatro anos de produção, quando tudo o que podia dar errado deu errado. E tudo
o que ninguém nem sequer havia pensado que pudesse ocorrer saiu ainda pior.
Coppola, o diretor, reconheceu ter contemplado o suicídio em
três ocasiões ao longo dos quatro anos de produção, quando tudo o que podia dar
errado deu errado.
Nenhum estúdio de Hollywood queria nem ouvir falar de um
filme sobre o Vietnã meses depois da derrota dos Estados Unidos na guerra mais
controvertida de sua história. Coppola conseguiu o apoio da distribuidora
United Artists, fundada por Charles Chaplin em 1930 para que os artistas não
tivessem que depender dos estúdios comerciais, mas viu-se obrigado a negociar
pessoalmente com os investidores e respaldar cada empréstimo com todas as suas
propriedades e a receita que continuava sendo gerada com O Poderoso Chefão e
sua sequência. Nos anos setenta, os estúdios de Hollywood ainda não haviam sido
absorvidos por multinacionais, de modo que era preciso negociar cada dólar. E
as filmagens, graças ao fato de que os executivos eram cinéfilos e não
economistas, podiam se estender se o filme merecesse.
Apocalypse Now (que estreou no verão de 1979, há exatos 40
anos) era, segundo o diretor de fotografia Vittorio Storaro, “um quadro da
imposição de uma cultura sobre a outra e da vontade que os americanos têm de
transformar tudo em espetáculo”: se os soldados reais colocavam rock and roll
para bombardear povoados vietnamitas, os do filme escutavam Cavalgada das
Valquírias, de Wagner. Se o exército arrasou Vietnã com explosões de napalm,
Coppola rodaria a maior explosão já produzida fora de uma guerra. Com 11
milhões de dólares de orçamento (mesma quantia de Star Wars), Apocalypse Now
seria o primeiro blockbuster de arte e ensaio.
Steve McQueen rejeitou o papel protagonista, assim como Al
Pacino, Robert Redford e Jack Nicholson. A frustração levou Coppola a jogar
seus cinco Oscars pela janela e, após colocá-los de novo na estante, contratar
Harvey Keitel. Depois de três semanas de filmagem, porém, percebeu que o estilo
de interpretação do ator não se encaixava num personagem que devia funcionar
como um espectador passivo de uma viagem ao fim do mundo e à alma humana. O
substituto foi Martin Sheen, que aterrissou nas Filipinas em meio à sua própria
batalha com os demônios: bebia sem parar, fumava três maços por dia e, numa das
primeiras cenas, estatelou-se no chão gritando entre lágrimas. Quando se olhou
no espelho e deu um soco no seu reflexo, seu braço encheu-se de sangue, mas
Coppola ordenou que continuassem filmando enquanto o ator gritava. Apocalypse
Now acabava de começar. O horror ainda não tinha chegado.
Dennis Hopper exigiu 25 gramas de cocaína para construir seu
personagem.
E recebeu. Na imagem, o ator no set.
FOTO: GETTY
“Adoro o cheiro de napalm pela manhã” (tenente-coronel
Kilgore)
Em vez de trabalhar a partir de um roteiro, Coppola levava a
todas as partes um exemplar de O Coração das Trevas (o romance inadaptável de
Joseph Conrad no qual se baseia o filme) grifado por ele. E escrevia cada cena
na noite anterior. A produção foi feita nas Filipinas porque o presidente do
país, o ditador Ferdinando Marcos, deixou tudo mais fácil: em troca de milhares
de dólares diários, a equipe podia usar helicópteros e pilotos do exército
filipino e bombardear com napalm os hectares de floresta que precisasse. Mas em
várias ocasiões os helicópteros, ainda com as câmeras ligadas, abandonavam a
cena porque tinham que combater a guerrilha rebelde filipina.
Coppola e seus 900 trabalhadores não tinham outra opção a
não ser esperar, de braços cruzados, que os pilotos aniquilassem o inimigo e
decidissem retornar ao set. Com frequência, os aviadores que participavam dos
ensaios não eram os mesmos que depois compareciam à rodagem, de modo que era
preciso começar do zero a cada manhã. Como a própria Guerra do Vietnã, essa
filmagem era a imposição de uma cultura sobre a outra (os cenários foram
construídos por nativos, explorados com um dólar por dia, e um deles morreu
sepultado por um bloco). E, como também ocorreu com os vietcongs, a invasão não
foi tão fácil quanto os americanos achavam.
O tufão Olga assolou as Filipinas em maio de 1976. Coppola
tentou incorporar a chuva ao filme (os monções arrasaram o Vietnã durante a
guerra), mas o plano se mostrou impraticável quando o temporal destruiu
diversos cenários do filme. Ao saber disso, o diretor reagiu cozinhando uma
bela massa enquanto escutava La Bohème, de Puccini. Depois de jantar, tomou a
decisão de paralisar as gravações durante dois meses. Quando retomou, deu de
cara com outra força da natureza: Marlon Brando. “
“O horror tem rosto”
(coronel Kurtz)
Brando apareceu com 130 quilos (apesar de o roteiro
descrever Kurtz como uma criatura mitológica, esbelta e atlética), sem ter lido
o roteiro e sem nenhuma intenção de dividir a cena com Dennis Hopper (que, para
construir seu personagem, havia pedido 25 gramas de cocaína, que saíram do
orçamento da produção). Mas Brando tinha toda a intenção de receber seu salário
de três milhões de dólares por três semanas.
Coppola teve que adiar a rodagem mais outra semana para ler
em voz alta os diálogos de Brando e preparar as cenas com ele. O cineasta
deixou que a estrela improvisasse reflexões filosóficas, bélicas e
filantrópicas num monólogo de 18 minutos filmado nas sombras a pedido do ator,
que não queria que sua envergadura física distraísse os espectadores. E chegou
a colocar um fone no ouvido de Brando para recitar as suas frases. Um dia,
Brando disse a Coppola que já o tinha utilizado o suficiente e que, se queria
mais cenas, que contratasse outro. Levantou-se da cadeira, foi embora e não
voltou a aparecer no set.
“Cheirava a morte lenta” (capitão Willard)
Enquanto esperava que Brando estivesse pronto, o produtor
Gray Frederickson começou a sentir cheiro de algo podre no cenário do santuário
de Kurtz. “Vocês têm que se desfazer dos ratos mortos”, disse ele ao designer
de produção Dean Tavoularis, que lhe explicou que os roedores estavam ali de
propósito para criar o clima. De repente, um aderecista que passava por lá
exclamou: “Pois espere até descobrir os cadáveres humanos.” Ante o espanto do
produtor, levaram-no a uma tenda cheia de mortos, armazenados à espera de que
Coppola quisesse rodar a chegada de Willard ao santuário (onde haveria
cadáveres pendurados nas árvores e espalhados pelo chão). “É que vai ficar
muito autêntico”, prometeu o designer.
Parte do grande cenário que precisou ser construído nas
Filipinas para rodar ‘Apocalypse Now’.
FOTO: GETTY
O sujeito que forneceu os cadáveres não trabalhava num
necrotério, como havia assegurado; tinha roubado os corpos das tumbas. A
polícia então paralisou a produção por vários dias para interrogar cada um dos
trabalhadores e se certificar de que não eram assassinos. Ante a
impossibilidade de devolver os corpos não identificados aos túmulos (e a recusa
da United Artists de pagar os enterros), ninguém sabe ou ninguém quis contar o
que fizeram com eles.
“Todo homem tem um ponto de ruptura” (general Corman)
Em 5 de março de 1977, quatro dias depois que a rodagem
completou um ano, Martin Sheen acordou às duas da madrugada com uma dor
insuportável no peito. O ator saiu de sua tenda e se arrastou pela estrada,
agonizando por um quilômetro até encontrar ajuda. Estava tendo um infarto. Ao
saber disso, Coppola sofreu um ataque epiléptico, mas tentou ocultar o
incidente à United Artists. “Mesmo se Martin morrer, não estará morto até que
eu disser”, advertiu o diretor. Coppola acumulou uma dívida equivalente a 135
milhões de reais que deixaria sua esposa Eleanor e seus três filhos (Gio, de 12
anos; Roman, de 10; e Sofia, de 4) na mendicância. O suicídio já nem sequer era
uma opção.
A produção foi feita nas Filipinas porque o presidente do
país, o ditador Ferdinando Marcos, deixou tudo mais fácil: em troca de milhares
de dólares diários, a equipe podia usar helicópteros e pilotos do exército
filipino e bombardear com napalm os hectares de floresta que precisasse
Apocalypse Now, com um orçamento que hoje seria equiparável ao de Venom ou ao de Terremoto: A Falha de San Andreas, havia superado Cleópatra como o filme mais caro da história até então. Durante as seis semanas em que Sheen esteve afastado, Coppola rodou cenas que não estavam previstas no roteiro, enviou um telegrama a seu amigo (e diretor original do projeto) George Lucas para parabenizá-lo pelo sucesso de Star Wars – e, de quebra, para pedir dinheiro – e continuou enrolando para terminar o filme. Como acontece com a guerra, Coppola sabia quando e como começá-lo (embora nunca por quê), mas não tinha ideia de como ou quando o terminaria. E por mais que o estendesse, o final estaria lá, esperando por ele.
Apocalypse Now, com um orçamento que hoje seria equiparável ao de Venom ou ao de Terremoto: A Falha de San Andreas, havia superado Cleópatra como o filme mais caro da história até então. Durante as seis semanas em que Sheen esteve afastado, Coppola rodou cenas que não estavam previstas no roteiro, enviou um telegrama a seu amigo (e diretor original do projeto) George Lucas para parabenizá-lo pelo sucesso de Star Wars – e, de quebra, para pedir dinheiro – e continuou enrolando para terminar o filme. Como acontece com a guerra, Coppola sabia quando e como começá-lo (embora nunca por quê), mas não tinha ideia de como ou quando o terminaria. E por mais que o estendesse, o final estaria lá, esperando por ele.
“A possibilidade de perder tudo provoca uma euforia
poderosa” (Eleanor Coppola)
A última etapa da
rodagem ficou a cargo de um Francis Ford Coppola 50 quilos mais magro, que
insistia em prosseguir na iniciativa apesar dos sinais de advertência. Os
trabalhadores tinham disenteria quase diariamente, o ator que interpretava o
surfista Lance (Sam Bottoms) aparecia sempre chapado com speed, maconha ou LSD
porque toda a equipe havia caído na farra de madrugada, os animais selvagens espreitavam
as tendas de campanha durante a noite, as associações de defesa dos animais
haviam denunciado o sacrifício de um búfalo para a filmagem da cena final e a
United Artists pretendia reduzir o valor do seguro de vida de Coppola. Sua vida
já não valia tanto quanto no início da empreitada Apocalypse Now, mas era
preciso terminar o longa ainda que fosse (literalmente) a única coisa que
fizesse. Só assim o investimento seria justificado ante os credores. A essa
altura, Coppola já estava convencido de que o filme seria espantoso.
Quando o apresentou no Festival de Cannes, onde acabaria
ganhando a Palma de Ouro apesar de não estar concluído, Coppola traçou um
paralelo entre a rodagem e a guerra que retratava: “Éramos sujeitos com acesso
a dinheiro demais e material demais, e pouco a pouco fomos ficando loucos. Meu
filme não é sobre o Vietnã; meu filme é o Vietnã.”
Marlon Brando chegou às filmagens com 130 quilos e sem ter
lido o roteiro.
Recebeu três milhões de dólares por três semanas de trabalho.
FOTO: CORDON
Apocalypse Now
arrecadou cinco vezes mais que seu orçamento, o que salvou Coppola da falência,
embora a ruína definitiva viesse com O Fundo do Coração (1981). Hoje, ele diz
que todo o dinheiro que tem é graças ao seu vinhedo de Napa, na Califórnia. “O
filme já não é tão estranho visto hoje”, refletia em 2019 o diretor. “Aconteceu
com ele o mesmo que ocorre com essas pinturas de vanguarda que, com o tempo, se
transformam em estampas para papel de parede."
Marlon Brando, até o seu último dia de vida (morreu em
2004), reclamou que Coppola era “um gordo sacana” que lhe devia dois milhões de
euros (9 milhões de reais). Apocalypse Now demorou tanto para ser filmado que,
em 1978, O Franco-Atirador tirou dele a honra de ser o primeiro filme de
Hollywood sobre o Vietnã. Antes de entregar o Oscar ao diretor de O
Franco-Atirador, Michael Cimino (que arruinaria sua carreira dois anos depois,
causando também o fechamento da United Artists, com O Portal do Paraíso),
Coppola aproveitou para fazer uma advertência sobre Hollywood que foi recebida
com escárnio: a imprensa o ridicularizou, concluindo que tinha ficado
definitivamente louco por culpa da rodagem de Apocalypse Now. Qual foi a
aberração que Coppola se atreveu a profetizar? “Preparem-se, porque a
tecnologia digital está a ponto de mudar o cinema para sempre."
Texto e imagens reproduzidos do site: brasil.elpais.com




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