Publicado originalmente no site do jornal El País Brasil, em 06/04/2019
Você nunca vai agradar a todos. Aprenda a não ligar para
isso
Por Francesc Miralles
A verdadeira liberdade pode residir em conseguir ser feliz
sem precisar da aprovação alheia
UM DOS LIVROS mais populares dos últimos anos no Japão reúne
as conversas entre um jovem insatisfeito e um filósofo que lhe ensina, entre
outras questões, a arte de não agradar aos outros. É um tema sensível numa
cultura tão complacente como a nipônica, mas este compêndio de conversações
entrou também nas listas de mais vendidos dos Estados Unidos, e no Brasil foi
publicado como A Coragem de Não Agradar (Sextante).
O mestre é Ichiro Kishimi, especialista em filosofia
ocidental e tradutor de Alfred Adler, um dos três gigantes da psicologia junto
com Freud e Jung. E é justamente o pensamento de Adler que articula o diálogo
com o jovem Fumitake Koga sobre como se emancipar da opinião alheia sem se
sentir marginalizado por causa disso.
O debate socrático que eles mantêm ao longo das mais de 260
páginas do livro parte dessa ideia central: todos os problemas têm a ver com as
relações interpessoais. Nas palavras do próprio Adler, “se as pessoas querem se
livrar dos seus problemas, a única coisa que pode fazer é viver sozinhas no
universo”. Como isso é impossível, sofremos por alguma destas razões ao nos
relacionarmos com os outros:
- Sentimos um complexo de inferioridade em relação a quem
“conseguido mais” do que nós.
- Sentimo-nos injustamente tratados por pessoas que amamos
ou ajudamos e que não nos correspondem como esperamos.
- Tentamos desesperadamente agradar os outros para obtermos
sua aprovação.
Este último ponto se transformou em um vício generalizado.
Podemos vê-lo claramente nas redes sociais, onde publicamos posts procurando a
aprovação dos outros na forma de curtidas e comentários. Quando uma foto ou uma
reflexão importante para nós obtém poucas reações, podemos chegar a nos sentir
ignorados. Também nas relações analógicas, muitos problemas interpessoais têm a
mesma origem: não recebemos do outro o que acreditamos merecer. O fato de não
nos agradecerem suficientemente por alguma delicadeza que fizemos, por exemplo,
pode desatar o ressentimento e esfriar uma amizade.
Sob este desejo de concessões há uma ânsia de
reconhecimento. Se o outro me agradecer, se apreciar o meu trabalho, se
corresponder ao meu favor com um ato amável, então me sentirei reconhecido. Se
isso não acontecer, interpreto como se eu não tivesse feito nada, como se não
existisse para o outro. Essa visão é um poderoso gerador de problemas, já que
as relações nunca são totalmente simétricas. Há pessoas que desfrutam dando, e
outras que transmitem a impressão, mesmo que incorreta, de que não querem
receber nada. Isso provoca muitos mal-entendidos, somado ao fato de que cada
indivíduo tem uma forma diferente de expressar seu amor e gratidão. Há pessoas
que verbalizam de maneira imediata e direta o que sentem por nós, e outras que
nos apreciam igualmente, mas têm menos facilidade para expressar amor, ou o
fazem de forma diferida, quando encontram o momento e lugar adequados.
Todas as opções são corretas, sempre que nos liberemos da
ânsia por encontra uma compensação imediata e equitativa, como em um comércio
no qual será preciso receber imediatamente pela mercadoria entregue.
Conforme afirma o professor Ichiro Kishimi, “quando uma
relação interpessoal se alicerça na recompensa, há uma sensação interna que
diz: ‘Eu lhe dei isto, então você tem que me devolver aquilo’”, o que é uma
fonte inesgotável de conflitos.
Porque, além das diferentes maneiras de expressar afeto,
encontraremos pessoas que simplesmente não nos entendem ou inclusive não gostam
de nós. Fazer um drama por causa disso transformará nosso dia a dia em um
terreno fértil para os desgostos. A verdadeira liberdade inclui não nos
importarmos com o fato de algumas pessoas não irem com a nossa cara, porque
estatisticamente é impossível agradar a todos. Deixar de nos preocupar com o
que os outros acham de nós, especialmente os que não nos entendem, é o caminho
para a serenidade.
“Quando desejamos tão intensamente que nos reconheçam,
vivemos para satisfazer as expectativas dos outros”, afirma Ichiro Kishimi, e
com isso já deixamos de ser livres. Não exigir contrapartidas e se permitir
viver à sua maneira, dando-se inclusive o direito de não agradar, é algo que
traz liberdade, paz mental e, afinal, melhores relações com demais.
Não leve para o pessoal
- Em Los Cuatro Acuerdos, célebre ensaio publicado em 1998
por Miguel Ruiz, a segunda lei diz: “Não leve nada para o lado pessoal”. O
médico mexicano argumenta que para manter o equilíbrio emocional e mental não
se pode dar importância ao que ocorre ao nosso redor, já que “quando você
encara as coisas de forma pessoal, sente-se ofendido e reage defendendo suas
crenças e criando conflitos. Faz uma montanha a partir de um grão de areia”.
- Deixar de lado a necessidade de ter razão. Parar de gastar
energia em tentar convencer os outros, que têm suas próprias crenças, é
profundamente libertador. Quem anda pelo mundo levando tudo para o lado pessoal
vê inimigos por toda parte e nunca consegue ficar verdadeiramente tranquilo, já
que sempre tem contas pendentes que circulam por sua mente, causando
sofrimento.
- Segundo Miguel Ruiz, nada do que as outras pessoas fizerem
ou disserem deveria nos fazer mal se assumimos o seguinte axioma: “Você nunca é
responsável pelos atos de outros; só é responsável por si mesmo”.
Francesc Miralles é escritor e jornalista experiente em
psicologia.
Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

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