'Abaporu', de Tarsila do Amaral.
Publicado originalmente no site do jornal El País Brasil, em 05/04/2019
O ‘Abaporu’ visita São Paulo
Tarsila do Amaral, em seu lado mais popular, chega ao MASP
com sua primeira grande retrospectiva no Brasil. Seu quadro icônico volta à
cidade depois de 11 anos
Por Joana Oliveira
"Eu quero ser a pintora do meu país", dizia
Tarsila do Amaral (1886-1973). Uma boa dose de cubismo —que ela aprendeu na
célebre Académie Julian, em Paris, nos anos 1920— passou pela peneira das
cores, formas e da vegetação do Brasil e, assim, ela alcançou seu objetivo e
tornou-se uma figura-chave do modernismo brasileiro. Sem abdicar da matriz
modernista europeia e formal que absorveu nas oficinas de Fernand Léger, Albert
Gleizes e André Lhote, Tarsila voltou-se para os personagens, temas e
narrativas ligadas ao Brasil mais popular. É essa Tarsila Popular que poderá
ser vista no MASP, em São Paulo, a partir desta sexta-feira até 23 de junho, em
uma exposição que faz a maior retrospectiva da artista no país, um ano depois
da grande exposição realizada no MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York) —ela
foi a primeira artista latino-americana a ter uma retrospectiva lá.
O destaque da mostra é Abaporu (1928), a figura de pé
dilatado e cabeça diminuta, que volta a São Paulo onde foi pintado depois de 11
anos (em 2016 o quadro esteve exposto no MAR, no Rio). A obra —tela brasileira
mais valorizada no mercado internacional, estimada em 40 milhões de dólares—
pertence ao Malba (Museu de Arte Latino-americana de Buenos Aires). O
"homem que come carne humana" (significado da palavra indígena
abaporu) é o grande exemplo da assimilação, do canibalismo que fez Tarsila
adaptar sua formação estética europeia à estética primitiva e à cultura
tradicional brasileira. Ao lado de Urutu (1928) e Antropofagia (1929), essa
tela traz a essência da fase antropofágica da artista na retrospectiva de São
Paulo, composta por cerca de 120 obras, entre elas 52 telas e 40 desenhos.
"Esses desenhos eram uma parte fundamental do processo
criação dela. São os rascunhos das linhas que ela usava para encher depois com
as cores do Brasil", conta ao EL PAÍS Tarsilinha do Amaral, sobrinha-neta
da artista e responsável por seu espólio. Esses rascunhos teriam inspirado o
Manifesto Pau Brasil, de Oswald de Andrade. "A Poesia existe nos fatos. Os
casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são
fatos estéticos", diz um trecho do Manifesto. Era com esse espírito que
Tarsila pintava as cenas de Carnaval, favelas e feiras ao ar livre, além de
interpretar nas telas a religiosidade nacional —plasmando, por exemplo, os
múltiplos altares presentes nas casas brasileiras—, além das lendas populares e
indígenas. Exemplo disso são os quadros A Cuca (1924), Carnaval em Madureira
(1924) ou O Batizado de Macunaíma (1956), todos parte da exposição.
"A ideia popular em Tarsila vem desde o início de sua
produção, nos anos 1920, com essa busca pela ideia de Brasil, por uma
identidade nacional, sem deixar de lado questões sociais, raciais e de classe.
A exposição e o catálogo que a acompanha pretendem promover reflexões mais
abrangentes sobre essa produção, articulando vida e obra da artista sob visão
política e social da cultura brasileira e do modernismo, um movimento que, no
Brasil, raramente é abordado sob esses prismas”, diz Fernando Oliva, um dos
curadores da exposição, ao lado de Adriano Pedrosa. Oliva explica a
retrospectiva, que vem sendo preparada há dois anos, é a mais ampla exposição
que percorre todas as fases da artista, além de contar com um catálogo que traz
ensaios inéditos sobre a pintora.
Para estabelecer maior diálogo com o público, alguns dos
textos que compõem o catálogo da retrospectiva também estão nas paredes, ao
lado dos quadros. "É um tipo de recurso que utilizamos quando fizemos a
retrospectiva Portinari Popular, em 2016, e que funciona bastante",
explica Oliva.
'O Pescador', de
Tarsila do Amaral.
"É muito emocionante, porque o público poderá ver as
obras mais importantes de Tarsila, com uma abordagem que a aproxima ainda mais
dos brasileiros", comemora Tarsilinha do Amaral. Uma dessas telas inéditas
é Um Pescador (1925), que tem um colorido excepcional e trata de um tema bem
brasileiro: um pescador num lago em meio a uma pequena vila com casinhas e
vegetação típica. A obra —que foi exposta em Moscou, em 1931, e acabou comprada
pelo Governo russo— é uma das que compõem uma das primeiras fases da artista,
chamada de Pau Brasil, marcada por telas de cores e temas acentuadamente
tropicais, como a exuberância da fauna e da flora locais, pintadas ao lado de
máquinas e trilhos, símbolos, por sua vez, da modernidade urbana do país.
A exposição no MASP propõe uma viagem pela produção de
Tarsila entre 1921 e 1969, passando também pela fase Social, que deixa clara a
aproximação da artista com temas políticos. No início de 1930, já separada de
Oswald de Andrade e casada com o psiquiatra Osório César, a pintora, empobrecida
pela perda da fortuna familiar na Grande Depressão de 1929, teve de desfazer-se
de obras de sua coleção particular e, assim, reuniu recursos para viajar à
União Soviética e visitou Moscou, Leningrado e Berlim. Quando voltou ao Brasil,
foi considerada suspeita de "atividades subversivas" por ter visitado
países comunistas. Esses eventos marcaram sua produção de temática social,
resultando em obras como Operários (1933) e Segunda Classe (1933), que
exploravam as desigualdades sociais e raciais da sociedade brasileira.
"Em realidade, é possível ver esse retrato das classes
menos favorecidas ao longo de toda a produção dela", diz a sobrinha-neta.
A artista que queria ser a pintora de seu país não teve medo de mostrá-lo, em
toda sua glória e tristeza, ao mundo.
Texto e imagens reproduzidos do site: brasil.elpais.com


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