Publicado originalmente no site do jornal El País Brasil, em 3 de abril de 2019
As caras do desemprego no Brasil
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Mais de 15.000 pessoas foram até o centro de São Paulo atrás
de uma chance no Mutirão do Emprego, organizado pelo Sindicato dos Comerciários
e pela Prefeitura da cidade. Na semana em que a taxa de desemprego chegou a
12,4% dos brasileiros, o EL PAÍS conversou com representantes da parcela que
enfrenta dias de fila para conseguir uma carteira assinada
14 horas numa fila por um trabalho:
“As
contas e a barriga não esperam”
"Como uma pessoa se mantém sem um emprego?",
questiona Dayane do Amor Divino, 26 anos, após sair do Sindicato dos
Comerciários, no Vale do Anhangabaú, na última sexta-feira, com a instrução de
se candidatar em um processo seletivo online para operadora de caixa no
supermercado Pão de Açúcar. O aceno foi positivo para quem passou oito horas na
fila do Mutirão de Emprego apenas para pegar uma senha e poder voltar na sexta,
quando foi entrevistada por representantes do supermercado. Abandonada pelo
pai, ela e a irmã trabalham desde os 16 anos para completar a renda da casa
onde moram com a mãe, na zona norte de São Paulo. Dayane quer encerrar o
período de "muita angústia" que está vivendo durante um ano e meio
desempregada para, depois que ajudar no aluguel de casa, bancar um curso de
cabeleireira. "Passei quase a semana inteira aqui. Tenho experiência e
ainda assim não é certeza de que vão me contratar. No momento, eu preciso de
qualquer coisa, mesmo que seja pouco."
"Ter uma
primeira experiência é fundamental para se inserir no mercado. Acho um pouco
injusto, mas as empresas adotam esse critério", reclama Paulo José, 20
anos. O jovem mora com pai, mãe e dois irmãos em Campo Limpo, zona sul de São
Paulo, e foi até o centro da cidade tentar a primeira carteira assinada de sua
vida. "Fiquei seis anos cuidando de um problema no ouvido e estou
terminando um curso de informática no SENAI. Por enquanto, não busco nada
específico. É só para pegar experiência mesmo, porque na minha área sempre
perguntam onde eu trabalhei." Paulo agradece os empregos dos seus pais,
que evitam que a família passe por necessidades, e foca no objetivo de usar o
dinheiro do trabalho para fazer uma faculdade de análise de sistemas.
"Alguém que fez curso técnico costuma ter mais habilidade do que quem fez
ensino superior. Mesmo assim, as empresas exigem muito o superior."
"As contas e a
barriga não esperam", brinca Maria José, 50 anos, na saída do sindicato
após ser entrevistada para uma vaga de operadora de caixa. Bem-humorada, a baiana
que mora há 30 anos em São Paulo só demonstra desânimo na hora de admitir a
preocupação pelos quatro meses sem emprego. Maria era sustentada pelo marido
quando, em 1996, se separou e precisou correr atrás de um trabalho. Desde
então, mora sozinha em Guarulhos. Ela trabalhava há três anos como auxiliar de
limpeza em uma empresa terceirizada, de onde foi demitida em novembro. Agora
sobrevive com o seguro-desemprego e uma "ajudinha" das suas quatro
filhas adultas. "O seguro tá acabando", confessa. "Fiz entrevista
no Pão de Açúcar, na Marisa... Me pediram para aguardar o contato. Não ajuda
muito na minha ansiedade. A saúde mental é o principal".
Aos 61 anos, Carlos
Peinado precisa de mais três de contribuição para conseguir sua aposentadoria.
"Trabalhei 16 anos no Banco do Brasil, já tive negócio próprio e já fui
motorista. Hoje, topo qualquer coisa". Foram quase 14 horas de fila (das
3h30 às 17h) na terça-feira até sair com uma senha para voltar na sexta. Desde
novembro do ano passado, quando deixou o emprego de motorista que tinha no
próprio Sindicato dos Comerciários, Carlos procura algo que o ajude a sustentar
sua mulher e duas filhas adultas, com quem mora em São Paulo. "Não cogitei
trabalhar em aplicativos como o Uber porque não tenho dinheiro para comprar um
carro melhor. O meu é de duas portas e não tem ar condicionado", comenta
ele. Entre o começo de 2016 e o fim de 2018, dados do IBGE apontam que o número
de trabalhadores informais, que não possuem carteira assinada - como os de
aplicativos de transporte particular -, cresceu de 35,3 para 38,2 milhões de
pessoas. "Ainda tem a prioridade para gente mais nova, isso torna tudo
muito difícil para mim. Acordar e não ter o que fazer o dia inteiro... Se ficar
martelando na cabeça, você não aguenta."
Aos 11 anos de idade,
Priscila Dantas já trabalhava na feira perto de casa para pagar seu curso de
computação, que fazia simultaneamente à escola. "Acho que a mulher precisa
ser independente. Fazer o que ela quiser, não achar que tem que ser dona de
casa", opina a mãe de duas filhas e casada há sete anos. Priscila, hoje
com 30 anos, parou de trabalhar em 2016, quando nasceu sua segunda filha, e
voltou a procurar emprego assim que conseguiu uma creche para a criança, há
oito meses. "Precisei voltar porque muitas coisas mudaram em casa nesses
três anos, só com meu marido sustentando. Quando somos acostumados a um
patamar, não queremos baixá-lo". Ela conta que saiu do sindicato
encaminhada para o RH da rede de supermercados Makro, para fiscal de estoque.
"Ainda quero fazer uma faculdade ligada à área que estudei, mas preciso de
condições financeiras. Então o que aparecesse hoje eu iria fazer."
Pernambucano e
morador de São Paulo desde os seis anos, Paulo Sérgio da Silva, 49, não lembra
a última vez que teve um emprego com carteira assinada. "Faz muito tempo.
Já tive loja de roupas, fui Uber e fui assaltado, pedreiro, eletricista...
Sempre trabalhei autônomo. Agora quero algo registrado porque me preocupo com
minha família." Marido de uma esposa desempregada e pai de um filho de 19
anos, ele diz ser "meio invertido" ver o filho ajudando no sustento
da casa. "Ele engravidou uma menina agora, o que deixa mais difícil. Minha
mulher ainda está recebendo seguro-desemprego, e por isso não precisou
vir". Paulo sorri ao dizer que foi encaminhado para uma vaga de instalador
de TV a cabo, mesmo procurando algo como motorista ou promotor de vendas. "Estou
muito ansioso. O cara desempregado é insignificante. Sujei meu nome por conta
de empréstimos e fico desesperado vendo as dívidas. Agora deu uma
esperança".
"Sou divorciado,
meu pai é falecido e moro com a minha mãe, de 78 anos, porque ela depende de
mim para ir no médico". Gilmar José Amancio, 54, interrompeu a faculdade
de logística quando novo para trabalhar e sustentar a família. Ingressou no
ramo automobilístico, de onde saiu há dois meses, quando foi demitido de uma
ferramentaria que teve o contrato cortado com a montadora de carros Honda. Com
uma filha de 24 anos, ele se emociona ao contar que ela o ajuda quando pode.
"Mas também está desempregada desde quando saiu de uma empresa de
telemarketing, há um ano. Ela é a minha maior motivação". Ele reclama da
corrupção na política do país, que, para ele, impede que empresários de fora
invistam no Brasil. "Na terça, cheguei 7h30, olhei aquela fila e achei
frustrante ver esse povo desempregado. O preço do feijão subiu hoje. A Ford de
São Bernardo vai fechar. Não sabemos o quanto mais a economia vai piorar com
esses políticos... gastei meus últimos reais tentando achar emprego".
Segundo divulgou o IBGE na última semana, o número de pessoas que
"desistiu" de procurar emprego é recorde no país: 4,9 milhões de
pessoas.
Cristiana dos Santos,
29, mora em Mauá, na região metropolitana de São Paulo, e foi ao Anhangabaú
porque viu no Mutirão do Emprego uma esperança de conseguir trabalhar com
carteira assinada após seis anos de bicos de faxina e manicure. Desde os 13
anos, quando fazia abordagem de rua para uma escola de informática, busca
dinheiro para ter independência financeira. "Na época, também era para
ajudar minha mãe, que tinha câncer e era separada do meu pai". Ela se
casou aos 16, saiu de casa aos 18, voltou para a casa da mãe após também se
divorciar do marido, mas foi morar sozinha novamente depois do falecimento de
sua mãe, vítima da doença. "Tenho duas filhas, de cinco e um ano, que
estão na escola. Aceito qualquer coisa por elas. Vejo o mercado de trabalho
difícil para quem tem curso profissionalizante, experiência, tudo. Imagina para
a gente que não têm quase nada..."
Texto e imagens reproduzidos do site: brasil.elpais.com









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