Publicado originalmente no sile do jornal El País Brasil, em 29 MAR 2019
O pornô lésbico faz história na salas comerciais de cinemas do Brasil
Longa argentino ‘As Filhas do Fogo’ torna-se o primeiro do gênero a ser exibido em mais de 20 salas comerciais no Brasil, retratando o prazer de mulheres fora do padrão da indústria
Por Joana Oliveira
No altar de uma igreja no meio do campo, três corpos
misturam-se em uma coreografia lenta, mas potente, que, às vezes, remete a um
parto. Os jogos de luzes e sombras acentuam as curvas de coxas, barrigas e
seios. A composição, registrada em plano aberto, lembra um quadro de
Caravaggio. Não fosse por um detalhe: as mulheres sobre o altar praticam sexo
explícito —beijam-se e se comem com mãos e línguas—, enquanto uma terceira
observa a cena e masturba-se parada na porta do recinto.
De cenas como esta, explícitas, está composto o filme As
Filhas do Fogo, da argentina Albertina Carri, que estreou nas salas comerciais
dos cinemas brasileiros em meados do mês de março e fica em cartaz até a
primeira semana de abril. O longa, um road movie que conta a história de três
mulheres que começam uma jornada poliamorosa em busca de prazer, diversão e
novas formas de relacionamento, circulou em diversos festivais internacionais
(como o de Roterdã, San Sebastián e do Rio) e foi aclamado no Bafici (Festival
Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires), mas quase não chegou aos
circuitos comerciais. Na Vitrine Filmes, que encarou a missão de trazê-lo ao
Brasil, contam que algumas pessoas riam do propósito de distribuí-lo aqui e que
seria “risível” se o filme estreasse em sequer uma sala comercial. Mas o
sucesso de público foi tamanho que o “surubão de Ushuaia” —segundo uma crítica—
chegou a mais de 20 salas do país.
Além das experimentações na sexualidade entre mulheres e da
descoberta da sororidade, um dos temas centrais da produção é metalinguístico:
o que faz um filme ser pornô? Violeta, uma das protagonistas, embarca nesse
questionamento em busca de seu próximo projeto cinematográfico. “O problema
nunca é a representação dos corpos. O problema é que como esses corpos se
convertem em território e paisagem em frente à câmera”, responde a própria
personagem.
A idealizadora e diretora Albertina Carri, de 44 anos,
define sua obra como um “pornô lésbico feminista” ou, como prefere, “um gozo
libertador”. Em entrevista ao EL PAÍS, ela conta que aproximou-se da
pornografia desde que começou a fazer cinema, há mais de duas décadas, mas que
essas produções nunca a convenciam por completo. “A pornografia convencional
sempre visou a domesticação das mulheres, assim como as novela e a publicidade,
que são como sucursais da pornografia. E o cinema pornográfico não apresenta grandes
variações, é quase sempre mais do mesmo: corpos coisificados em busca de uma
forma única de prazer: patriarcal, capitalista, genital, e, por fim,
destrutivo, porque a qualidade do sujeito e da experiência transcendental se
perde”, diz ela.
Foi de todos esses clichês que Carri quis fugir quando
começou a imaginar, há 20 anos, As Filhas do Fogo. Em 2001, ela gravou o seu
primeiro curta pornô, Barbie También Puede Estar Triste, rodado apenas com
bonecas, e, pouco depois, fez outra produção com arquivos clandestinos de
quando a pornografia estava proibida, durante os anos 1970, na ditadura
argentina. Ficou a vontade de gravar com gente. “Queria trabalhar com pessoas
que entendessem que esse filme é uma reivindicação da pornografia em termos de
desejo e prazer, mas uma destruição total do gozo de corpos que são pensados
como propriedade privada. O objetivo é visibilizar o desfrute de corpos que
geralmente são condenados ao drama na narrativa cinematográfica, e poder contar
outras formas de afeto, além das monogâmicas convencionais e heterossexuais”,
explica.
Nessa busca, encontrou Disturbia Rocío, Mijal Katzowicz,
Violeta Valiente, Rana Rzonscinsky, Canela M., Ivanna Colonna Olsen, Mar
Morales, Carla Morales Ríos, Cristina Banegas e Érica Rivas. Para Carri, o
elenco já é o filme em si: todas elas são feministas, algumas atrizes, outras,
não, mas que não intimidaram-se à hora de usar vibradores, praticar sexo oral e
compartilhar seus orgasmos com os espectadores. Longe dos estereótipos de
loiras gostosas do cinema pornográfico, As Filhas do Fogo são mulheres gordas,
baixas, altas, magras, com muito ou pouco peito, que têm pênis.
Cena de 'As Filhas do
Fogo'.
A celebração desses corpos femininos, que desejam, amam e
gozam é uma das essências do longa. Carri, que criou o primeiro festival
internacional de cinema LGBT em Buenos Aires, em 2013 (chamado Asterisco),
conta que, de todas as produções que chegam até ela, as que têm uma narrativa
de homens gays tendem a ser mais positivas e alegres, enquanto as histórias
lésbicas estão relegadas aos grandes dramas existenciais e, não poucas vezes,
com finais infelizes. Ela é categórica: “Quis fugir desse discurso dramático. A
gente não só vive e luta, também comemoramos, celebramos. E sem celebração, não
há revolução”.
Consciente do “momento de crescimento de discursos de ódio
tanto na Argentina quanto no Brasil”, a diretora comemora a boa acolhida que
sua obra teve nas plateias do país vizinho. “É importante que as dissidências
possamos encontrar-nos nas telonas, no cinema”. Para ela, afinal, a
resistência, tanto ética quanto estética, é uma coisa só.
Texto, imagem e vídeo reproduzidos dos sites: brasil.elpais.com e youtube.com


Nenhum comentário:
Postar um comentário