Manifestação contra o golpe de 1964, no dia 31 de março no
Rio.
DANIEL RAMALHO AFP
Publicado originalmente no site do jornal El País Brasil, em 7 de abril de 2019
1964: lembranças e tormentos
A institucionalidade foi quebrada e minha vida mudou.
Recordar faz parte da História. Celebrar, o quê?
Por Fernando Henrique Cardoso
Cinquenta e cinco anos passam depressa. A memória se vai,
mas ficam recordações. No dia 13 de março de 1964 eu estava no Rio, em casa de
meu pai. À noite fui à Central do Brasil pegar o trem de volta para São Paulo.
Meu pai, general reformado e ex-deputado federal, residia no Arpoador, no mesmo
prédio em que moravam minha avó e um tio. Lá também morava Carlos Drummond de
Andrade. Por Copacabana inteira, passando por Botafogo e pelo Flamengo, havia
velas acesas nas sacadas de muitos edifícios: a classe média, especialmente a
mais alta, protestava contra Jango Goulart, presidente da República que
convocara seus apoiadores a se reunir naquela noite em comício perto da Central
do Brasil, em frente à Praça da República.
Tomei o trem indiferente ao que ocorria. Por acaso estavam
no trem vários amigos: o José Gregori, que viria a ser ministro da Justiça em
meu governo, Plínio de Arruda Sampaio, que fora meu colega de curso primário no
colégio Perdizes em São Paulo e se tornaria deputado federal constituinte, e o
engenheiro Marco Antônio Mastrobono, futuro marido da filha de Jânio Quadros.
No jantar, conversas e discussões. O “golpe” estava no ar: de quem seria? Não
chegamos a concluir se dos militares e da “direita”, ou das “forças populares”,
com Jango à frente, em favor de vagas reformas. Só sabíamos de uma coisa,
viesse do lado que viesse, sofreríamos as consequências...
Na época eu era jovem professor-assistente da Faculdade de
Filosofia, tinha 33 anos e assento no Conselho Universitário da USP como
representante dos livre-docentes. Pouquíssimos sabiam de minhas relações de
família com a vida política. Meu pai se elegera deputado federal pelo PTB em
1954. No governo de Getúlio, um primo de meu pai havia sido governador do Rio e
outro ministro da Guerra, o mesmo cargo ocupado por um tio-avô no início dos anos
1930. No governo de Juscelino um tio havia presidido o Banco do Brasil.
Meu pai e muitos familiares pertenciam à ala nacionalista e
eram favoráveis à campanha do “Petróleo é nosso”, na qual também me envolvi.
Nunca me esquecerei do vidrinho de petróleo baiano, colocado em uma estante na
casa do marechal Horta Barbosa, que eu frequentava quando menino, pois sua
filha se casara com um irmão de meu pai.
Eu me interessava sobretudo pela Faculdade, na qual me
tornei professor em 1953, num ambiente avesso a Vargas e distante dos
militares.
Minha participação política até então havia sido fugaz: no
começo dos anos 1950, estive próximo da esquerda, do Partidão e do círculo
intelectual liderado por Caio Prado Júnior na Revista Brasiliense. Rompi com o
PC quando os soviéticos invadiram a Hungria em 1956. Depois do Relatório
Kruschev, da mesma época, agitei bastante contra os dirigentes comunistas. Não
simpatizava com o populismo de Jango, embora fosse amigo de seu chefe da Casa
Civil, Darcy Ribeiro. Nada disso impediu que a partir de 1964 eu fosse
considerado “subversivo” pelos novos donos do poder.
No início dos anos 1960, lutava pela organização da carreira
universitária e pela Fapesp. No Conselho Universitário ajudei a derrotar a
“oligarquia”: com a ajuda de Hélio Bicudo e Plínio Sampaio, ambos do gabinete
do governador Carvalho Pinto, elegemos o prof. Ulhôa Cintra para reitor da USP.
Por isso eu gozava de prestígio em camadas de professores e, sobretudo, de
estudantes.
Em 13 de dezembro, o ministro da Justiça leu o AI-5 que
fechou o Congresso, suspendeu o habeas corpus, cassou mandatos e, como vários
professores universitários, fui compulsoriamente aposentado em abril de 1969
Recordo-me de duas reuniões na Faculdade de Filosofia na
noite de 1º de abril de 1964. Em uma, tentava acalmar os estudantes, pois não
entendia bem o que ocorrera e achava precipitado haver manifestações. Na
segunda, tentava o mesmo com meus colegas professores. Tamanha era a confusão
que houve quem propusesse um manifesto contra os militares golpistas que
apoiavam Jango... Precisei telefonar para um colega, professor da Medicina,
pedindo que viesse em meu socorro, para evitar o protesto contra Jango que
estava sendo deposto.
Em seguida, a polícia tentou prender outro professor, Bento
Prado, confundindo-o comigo. Tive que me “esconder”, primeiro em casas de
amigos, em São Paulo, depois no Guarujá, num apartamento do Thomas Farkas, na
companhia de Leôncio Martins Rodrigues. De lá sai para ir a Viracopos, cercado
por familiares e amigos, sob a batuta de Maurício Segall, que se informava e
sabia dos aeroportos ainda sem listas de subversivos a serem capturados. Voei
para Buenos Aires, onde me hospedei no apartamento de um colega sociólogo, José
Num, que mais tarde foi ministro da Cultura de Nestor Kirshner. Da Argentina
fui para o Chile, carregando comigo os escritos da tese que pretendia defender
para conquistar uma cátedra que vagara com a saída de Fernando de Azevedo.
Ruth, minha mulher, ficou em São Paulo. Ela procurou, então,
o prof. Honório Monteiro, que representava a Faculdade de Direito no Conselho
Universitário e era afilhado de sua avó. Eu me dava bem com ele, assim como com
meus vizinhos de cadeira no Conselho, representantes da Faculdade de Direito,
Luís Eulálio Vidigal e Gama e Silva (que fora ao jantar de comemoração de meu
doutorado. Mal sabia eu, que anos depois ele assinaria o AI-5...). Quando Ruth
perguntou ao professor Honório: “O que vai acontecer?” Ele, sabiamente,
replicou: “nada; vai mudar tudo”. Perdi a condição de professor, que só
retomaria em outubro de 1968 ao vencer o concurso para a cadeira de Ciência
Política. A cátedra durou poucos meses. Em 13 de dezembro, Gama e Silva, então
ministro da Justiça, leu o AI-5 que fechou o Congresso, suspendeu o habeas
corpus, cassou mandatos e, como vários professores universitários, fui
compulsoriamente aposentado em abril de 1969.
A institucionalidade foi quebrada e minha vida mudou.
Recordar faz parte da História. Celebrar, o quê? No meu caso, exílio, processos
e perda de cátedra. Rancor? Para quê? Olhar para frente e manter a democracia é
o que conta.
Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

Nenhum comentário:
Postar um comentário