Casos de adolescentes que se matam já fazem parte da crônica das cidades de todo o país.
Publicado originalmente no site El País Brasil, em 19 de junho de 2018
O suicídio dos que não viram adultos nesse mundo corroído
Por que, neste século, mais adolescentes têm respondido ao
desespero deletando a própria vida?
Por Eliane Brum
Desde que dois alunos do Colégio Bandeirantes, tradicional
escola de elite de São Paulo, se mataram no espaço de 15 dias no mês de abril,
o suicídio de adolescentes entrou no debate público no Brasil. Psicanalistas e
profissionais de saúde mental têm sido chamados à rede privada de ensino para
falar sobre o tema. Pais e professores estão em busca de pistas para
compreender por que mais jovens tiram a própria vida e como é possível prevenir
a tragédia. Casos de adolescentes que se matam já fazem parte da crônica das
cidades de todos os tamanhos no país, do Rio Grande do Sul aos estados da
Amazônia. No Brasil, entre 2000 a 2015, os suicídios aumentaram 65% dos 10 aos
14 anos e 45% dos 15 aos 19 anos, segundo levantamento do sociólogo Julio
Jacobo Waiselfisz, coordenador do Mapa da Violência no Brasil. Nos últimos dois
anos, os números podem indicar uma pequena estabilização, mas só daqui mais um
ano será possível afirmar se é uma tendência ou apenas uma oscilação. No mundo,
o suicídio já é a segunda causa de morte entre adolescentes, segundo a
Organização Mundial da Saúde. Por que mais jovens se suicidam hoje do que
ontem?
Essa é a pergunta óbvia de onde costuma partir o debate. Mas
a pergunta ainda mais óbvia talvez seja: por que não haveria mais adolescentes
interrompendo a própria vida nos dias atuais do que no passado? Na leitura do
momento, me parece que o espanto se justificaria se, num mundo distópico,
houvesse menos jovens com dificuldade de encontrar sentidos diante do
desespero.
Quando adolescentes se matam, eles dizem algo sobre si
mesmos, mas também dizem algo sobre a época em que não viverão.
A inversão da pergunta não é um jogo retórico. Ela é
decisiva. É decisiva também porque devolve a política à pergunta, de onde ela
nunca poderia ter saído. E a recoloca no campo do coletivo.
Essa dimensão não apaga a singularidade de cada caso, mas é
necessário situar essa singularidade no contexto do seu tempo histórico. Quando
adolescentes se matam, eles dizem algo sobre si mesmos, mas também dizem algo
sobre a época em que não viverão. É esse o ângulo que me parece importante
chamar a atenção, porque em geral ele é apagado. É nas particularidades de cada
história que podemos encontrar caminhos para prevenir o ato de desespero, mas é
também na conformação do mundo em que a violência autoinfligida ocorre que
devemos buscar pistas para compreender o que o suicídio expressa sobre essa
época.
Os adolescentes de hoje herdarão um mundo corroído pela
mudança climática provocada pelas gerações anteriores, incluindo a de seus
pais, onde a água vem se tornando o grande desafio e a paisagem já começa a ser
desfigurada. As séries de TV, principal produto cultural e também de
entretenimento, expressam o sentimento dessa época: um presente que já é uma
distopia e a impossibilidade de imaginar um futuro que não seja apocalíptico. A
internet, onde os adolescentes e a maioria dos adultos vive, arrancou a ilusão
sobre o que chamamos de humanidade. Ao permitir que cada um se mostrasse sem
máscaras, que cada um pudesse “dizer tudo”, abriu-se uma ferida narcísica cujos
impactos levaremos muito tempo para dimensionar. Essa ilusão sobre o quê e quem
somos nós cumpria um papel importante no pacto civilizatório. Sua perda é parte
da explicação da dificuldade de compartilhar o espaço público, hoje interditado
por ódios.
Por que, diante desse cenário, mais adolescentes não teriam
dificuldade para encontrar saídas? Por que alguém que está vivendo uma fase da
vida em que precisa dar conta de um corpo em transformação e assumir a
responsabilidade de encontrar seu lugar não estaria desorientado diante do
mundo que o espera – ou mesmo sem nenhuma confiança de que vale a pena ser
adulto nesse planeta?
O desafio que o suicídio impõe à sociedade é conseguir
construir uma resposta que não seja a brutalidade de tirar a própria vida
Se cada caso é um caso, o significado de ser adolescente
nessa época determinada não pode ser deletado de qualquer resposta que pretenda
ser uma resposta. Aberta, em constante construção, mas uma resposta.
Um adolescente que faz perguntas duras a si mesmo e aos
adultos não está apresentando um comportamento desviante. São perguntas inteligentes,
são perguntas de quem percebe o mundo que vive, são perguntas de quem se recusa
a se alienar. O desafio que o suicídio nos apresenta, como sociedade, é
conseguir construir junto com os jovens uma resposta que não seja a brutalidade
de tirar a própria vida.
Essa tarefa não é individual, não é um problema apenas do
adolescente que não consegue encontrar sentido ou de sua família. Mas uma
construção coletiva. Inclui esse adolescente, mas não é só dele. Se há uma
possibilidade nesse momento é a de que o desespero de ver adolescentes morrendo
fez com que se rompesse o silêncio sobre o suicídio.
A crença de que falar sobre o suicídio aumenta o número de
casos estabeleceu um silêncio em torno das mortes que colaborou para que se
localizasse o problema e a suposta solução no indivíduo. Colaborou para a ideia
sem substância do suicídio como covardia do adolescente e fracasso dos pais. O
suicídio, convenientemente, deixou de ser uma questão da sociedade para ser um
problema de uma pessoa ou família com um tipo de defeito. Ou foi colocado na
conta de uma patologia mental, com vários nomes disponíveis no mercado. É um
fato que há casos de suicídio relacionados a doenças mentais, mas não é
possível desconectar qualquer doença da época em que ela é produzida.
A questão não é a doença mental, quando ela existe, ou a
angústia e o desespero, mas por que o suicídio tem sido a resposta e não outra
a acontecimentos como a doença mental, a angústia e o desespero. É no fato de
que ao longo das diversas épocas já houve outras respostas possíveis, outras
respostas compatíveis com seguir vivendo, que podemos construir reflexões que
nos arranquem da repetição que acaba tratando como problema exclusivamente
individual o que é também produção social.
Não dá para viver num mundo literalmente corroído e
acreditar que o desvio é de quem sofre com ele
Voltar a falar de suicídio é importante, mas é igualmente
importante “como” falar sobre suicídio. Se a questão for apenas estabelecer
manuais, como se houvesse uma lista de alarmes para identificar aquele que se
descola da manada, ou se a saída encontrada for reforçar a causa e a solução no
indivíduo, é só mais um reforço para a tragédia da nossa crescente dificuldade
de fazer comunidade. Em resumo: não dá para viver num mundo literalmente
corroído e subjetivamente corroído e dizer que o desvio é de quem sofre com ele
e não encontra outra saída que não seja o suicídio. Ou da família que não pôde
ou não soube como impedir que o adolescente tirasse a própria vida.
Se podemos fazer algo com a tragédia que é termos criado um
mundo onde um número maior de adolescentes não se tornará adulto, é
reaprendermos a viver em comunidade, redescobrirmos como tecer redes de cuidado
mútuo. Isso não tira a responsabilidade individual. Ao contrário, a aumenta.
Mas coloca a responsabilidade individual onde ela deve estar: fazendo “laço”
com os outros. Fazendo junto.
A primeira geração formada nas redes sociais a partir de
“likes” e “blocks”
Estrear na vida e já ser condenado à memória eterna. Ser
formado na impaciência dos segundos e na sobreposição dos tempos. Acreditar que
um vídeo de mais de dois minutos ou um texto de mais de dois parágrafos são
longos demais. Arriscar-se nas redes sem os limites do corpo, podendo ser algo
num minuto e outra coisa inteiramente diferente no minuto seguinte. Mas, ao
mesmo tempo, sentir os efeitos profundos dos estímulos digitais no corpo. Os
dias acelerados que se emendam e a fábrica de ansiedade. A impossibilidade da
desconexão. A vida editada e “feliz” de todos, enquanto dentro de você a
tristeza é vivida como fracasso num mundo de tantos bem sucedidos de Facebook,
sem saber quem ou o quê é real ou “fake”.
Num vídeo postado dias atrás pelo Channel 4 News, Jaron
Lanier, filósofo da internet e criador da realidade virtual, sugere que os
adolescentes deveriam abandonar as redes sociais por pelo menos algum tempo.
“Somos fisgados por um esquema de recompensas e punições, em que as recompensas
acontecem quando você é retuitado por outros e as punições quando você é
maltratado por outros nas redes”, diz. Essa manipulação, segundo Lanier, não é
tão dramática quanto o vício em heroína ou o vício em jogo, mas obedece ao
mesmo princípio. “Deixa as pessoas ansiosas e irritadas, e torna especialmente
os adolescentes depressivos, o que pode ser muito grave”, afirma. “Há uma
grande quantidade de evidências e estudos científicos. O exemplo mais
assustador é a correlação entre o aumento do suicídio entre adolescentes e o
aumento do uso das redes sociais.”
“Dê a você mesmo seis meses sem redes sociais”
Jaron Lanier dá um conselho aos adolescentes: “Se você é uma
pessoa jovem e você só vive nas redes sociais, o primeiro dever com você mesmo
é conhecer você mesmo. Você deve experimentar viajar, você deve se desafiar.
Você não vai se conhecer sem essa perspectiva. Então, dê a você mesmo pelo
menos seis meses sem redes sociais. Eu não posso dizer a você o que é o certo.
Você tem que decidir”.
Netflix, cinema e a vida depois da perda
No ano passado, o psicanalista Mário Corso foi convidado
para dar uma palestra aos alunos de uma escola pública do interior do Rio
Grande do Sul. A diferença é que ele não foi convidado pela direção da escola
ou pelos professores ou mesmo pelos pais. A iniciativa foi dos alunos. Eles
tinham identificado uma colega com ideias de suicídio e decidiram formar uma
rede de cuidado. “Os colegas estão mais próximos e sabem melhor do que ninguém
quando algo realmente sério está acontecendo”, diz Corso. “Essa experiência de
ajudar a combater o mal-estar na escola, de entender as dificuldades da
socialização, seria uma formação extra e muito proveitosa que a escola pode dar
aos adolescentes. Existem muitos adolescentes cuidadores. É preciso fazer uma
aliança com eles.”
Todo profissional que trabalha com saúde mental é marcado
pela perda de pacientes. É algo que se carrega pela vida, mas que em geral é
elaborado e vivido no espaço privado. A diferença é que Corso ficou assinalado
também na esfera pública. Em 2006, um de seus pacientes, Vinicius Gageiro
Marques, de 16 anos, transmitiu a própria morte pela internet e teve ajuda de
pessoas de diferentes países para consumá-la. A incitação ao suicídio é um
crime previsto no Código Penal do Brasil.
A morte de Yonlu marcou o momento em que as pessoas
perceberam que, com a internet, os jovens frequentavam mundos que pais e
professores não alcançavam
Mais de um ano depois do suicídio de seu jovem paciente,
Corso me deu uma entrevista que se tornou uma referência, pela profundidade e
honestidade com que falou do que viveu. A morte do adolescente teve repercussão
internacional e marcou um momento em que as pessoas perceberam que, com a
internet, os jovens frequentavam mundos que pais e professores não alcançavam.
No segundo semestre, será lançado o filme Yonlu, nome com que Vinicius se
apresentava nas redes e assinava a sua produção artística, dirigido por Hique
Montanari.
Mário Corso é autor de vários livros, inclusive um infantil.
Três deles, escritos junto com a também psicanalista Diana Corso, relacionam
produção cultural e psicanálise, dos contos de fadas às atuais séries de TV. O
mais recente é Adolescência em Cartaz – filmes e psicanálise para entendê-la
(Artmed, 2017). Fiz cinco perguntas a ele:
P: Você acha que o sofrimento que provoca o suicídio hoje,
na era da internet, é diferente do sofrimento que provocava o suicídio nos
adolescentes de gerações anteriores?
R: Creio que o sofrimento dos adolescentes é o mesmo. Uma
solidão imensa, uma sensação de inadequação, uma desesperança próxima ao
desespero. A ideia que não há lugar no mundo para si, um mundo complexo demais
para ser decodificado, aliado ao momento de fragilidade dos laços entre os
pares, é um cruzamento perigoso e doloroso. O que mudou foram as possibilidades
de comunicação. Para o bem e para o mal. Por exemplo, o bullying antes era
restrito a um lugar, ficava na escola. Hoje ele não para, não dá trégua e não
dá àquele que sofre o direito de recomeçar. A internet não esquece.
Estar marcado em um colégio, por uma experiência negativa,
antes podia ser solucionado trocando de escola. Hoje, você leva contigo aquilo
que gostaria de esquecer. Uma pesquisa rápida e tua ficha é entregue. Por um
lado, a rede pode até ajudar os mais fóbicos, pois ela permite ensaiar-se em um
ambiente onde o corpo não está em jogo, e propicia a pessoas de hábitos
diferentes encontrarem sua praia. Por outro, ela também tem seu lado obscuro:
permite que portadores de sofrimentos e patologias, que antes eram isoladas,
como a anorexia, se apoiem em parceiros, igualmente tomados na loucura, que
incentivam seguir dentro da doença e dão a ela um sentido de pertença, de
identidade, muitas vezes letal. O mesmo com o suicídio. Antes isolado, o
adolescente tinha menos recursos, até, digamos, técnicos, para saber como se
matar. Raramente ele iria encontrar pessoas tão ou mais perturbadas para trocar
ideias sobre as "vantagens" do suicídio. Na rede, seguem existindo
fóruns de proselitismo do suicídio.
P: O que a morte de Yonlu mudou na sua clínica ou no seu
modo de entender o suicídio?
R: Não houve mudanças significativas na clínica ou no
entendimento das razões do suicídio. A principal mudança foi em mim. Desci mais
um degrau da minha personalidade já melancólica. Já tinha perdido pacientes,
mas casos graves, adultos vindos de anos de depressões crônicas, dos quais,
entre idas e vindas, eu fui apenas mais uma tentativa fracassada. São perdas
distintas. Sendo nesse caso alguém tão jovem, talentoso, inteligente, é difícil
se apaziguar. Os psicoterapeutas elaboram pouco sobre os efeitos de serem
depositários e testemunhas de tanto sofrimento. Mas são cicatrizes incuráveis.
Talvez um dia eu consiga entender melhor tudo isso. Ainda lateja.
“Vivemos não por razões, mas por pertencer a uma rede
afetiva, por ter uma sociedade que nos dá um lugar”
P: Desde aquela época, mais de uma década atrás, a sua
postura era de que era necessário falar sobre o suicídio. Mas só agora, e em
grande parte por conta de séries como 13 Reasons Why (“Os 13 porquês”,
Netflix), o silenciamento sobre o suicídio entre adolescentes começa a ser
rompido. Por que é importante falar e o que você gostaria de dizer?
R: Falar sobre o problema já é um começo. É um assunto tabu,
ninguém se sente à vontade para dar a partida. Ninguém sabe bem o que dizer. O
que está em jogo é o sentido da vida. E quem sabe dizer por que a vida vale a
pena? Não sabemos dizer até porque é uma questão mal colocada. Não existe
resposta racional. A resposta é emocional. Vivemos não por razões, mas por
pertencer a uma rede afetiva, por ter uma sociedade que nos dá um lugar.
Estamos aqui porque alguém um dia quis assim e ficou inscrito em nós essa
marca. A vontade de viver é algo que os pais transmitem, ou não, sem dar-se
conta. Mas é um território imponderável, nebuloso.
Acredito que estamos no momento de construir algo novo.
Creio que a arte já começou. O seriado da Netflix foi um bom começo. Antes de
ele ser feito, eu não acreditaria que daria certo. Tomado pelo paradigma de
Werther, de que narrar o suicídio emularia outros, eu não faria. (No século 18,
após a publicação do livro Os sofrimentos do Jovem Werther, do escritor alemão
Goethe, teria havido uma onda de suicídios de jovens na Europa que foi
considerada efeito do romance.) A Netflix fez, e a resposta foi oposta: mais
gente falando no assunto e pedindo ajuda.
“Se um estúdio de TV inventou uma narrativa que faz falar
sem estimular o ato, por que a comunidade de quem trabalha com saúde mental não
conseguiria?”
P: O que você, que analisa a produção cultural pelo viés da
psicanálise, acha da série?
R: Ela tem uma grande sacada: eles criaram um herói
romântico aparentemente típico. Hannah, a personagem, é uma alma sofrida e
sensível, que passou por traumas e é incompreendida. O mundo não seria bom o
suficiente para ela. Mas, no decorrer da série, ela se comporta de forma tão
pouco empática ao sofrimento dos outros, ela é tão autocentrada e egoísta, que
ninguém quer ser como ela. Ela exige cuidado e uma delicadeza que ela mesmo não
tem com ninguém. Ela é cega à dor alheia. Ou seja, eles viraram o fio. Ninguém
vai querer ser a Hannah mesmo que admitamos que ela tem suas razões e seu
sofrimento. Ela ajuda a narra a dor e a vontade de ir embora, mas não desperta
identificações diretas. Se um estúdio de TV inventou uma narrativa que faz
falar sem estimular o ato, por que a comunidade de quem trabalha com saúde
mental não conseguiria? Nós temos é que nos botar a pensar. É um tempo de
inventar. Creio que é um desafio que temos que nos colocar. É preciso dar uma
visibilidade ao problema real que o suicídio é. Não noticiar os casos, mas
encontrar uma nova via de ele estar sempre em pauta.
P: Existiria algo na educação dada atualmente às crianças e
aos adolescentes que os deixariam mais vulneráveis?
Corso: É algo que se pensa pouco. Nós temos uma conquista
civilizatória interessante, que é a infância protegida, reconhecida em suas
particularidades. Não devemos mudar isso, mas talvez pensá-la melhor. Nossas
crianças crescem numa bolha de proteção que rompe na adolescência.
Abruptamente, descobrem a dureza do mundo, a violência, a exigência desmedida –
nesse caso, às vezes dos pais. Sentem-se traídos pelo mundo de conto de fadas
que receberam. Será que não exageramos, que não haveria um modo de desde mais
cedo mostrar o mundo como o mundo realmente é? Existe uma depressão típica do
começo da adolescência que diz respeito ao dar-se conta do peso do mal-estar da
civilização. Utopias já não colam, vivemos na época das distopias, crenças
religiosas tampouco, o jovem sente que está em um mundo absurdo. E precisamos
pensar que ele não desenvolveu os anticorpos que nós já temos... Isso chega de
modo à vista. Será não poderia ser em suaves prestações? Brinco, mas creio que
exageramos na dose do mundo Disney. Em resumo: não os preparamos para o
infortúnio, não discursamos sobre as derrotas, as perdas, e elas são a única
certeza nessa vida. Ensinamos a ganhar, a dizer que serão vencedores. Ensinamos
o fácil e esquecemos o essencial: saber suportar as rudezas de um momento
civilizatório complicado.
O presente só é possível se o futuro for possível
Sem perspectiva, sonho, imaginação, desejo, a percepção já é
de vida interrompida. Tragado pelos dias de um presente acelerado, em que o
corpo é atingido por estímulos 24 horas por 7 dias na semana, mas não tem nem
espaço nem tempo para elaborar nenhuma experiência porque logo vem outra por
cima, a sensação é de afogamento. Sem perspectiva de futuro, o presente é
vórtex.
Como podemos construir junto com os adolescentes uma ideia
de futuro que não seja uma distopia?
Sugiro então uma terceira interrogação para esse momento: o
que podemos fazer junto com os adolescentes, porque não acredito em juventude
sem responsabilização, para que volte a valer a pena viver nesse mundo? Ou como
podemos construir juntos uma ideia de futuro que não seja uma distopia? A impossibilidade
de imaginar um futuro possível tem impactos profundos sobre a vida de todos,
muito mais do que a maioria consegue dimensionar no cotidiano. Recuperar a
capacidade de imaginar um mundo onde se possa viver é o imperativo que
atravessa essa época. Imaginar a partir da realidade brutal – e não negando-a,
como a maioria tem feito.
Esse momento de rompimento do silêncio sobre o suicídio é
rico de possibilidades. Mas apenas se formos capazes de recolocar a questão no
campo da política. É nisso que as escolas deveriam apostar, assim como todos os
espaços de compartilhamento. O desafio, tanto na rede pública quanto na
privada, é o de fazer comunidade, inclusive e principalmente entre as redes.
Não é porque se chama de “comunidade escolar” que é uma comunidade escolar.
Comunidade é algo bem mais profundo e demanda esforço contínuo de fazer laços
com o fora e com o dentro, reconhecendo as fronteiras para poder
ultrapassá-las.
Será uma pena se esse despertar violento, despertar sobre
corpos de alunos mortos, seja desperdiçado pela visão estreita de olhar para o
acontecimento como se ele fosse desconectado de sua época, individualizado e
isolado. Ou colocar questões de saúde mental como se elas pertencessem a um
arquivo impermeável, que não se comunicasse com todos os outros. Os sintomas de
nosso tempo expressam onde estão os nossos buracos. Os mais sensíveis sentem
primeiro.
Criar uma resposta para o suicídio de adolescentes é também
criar uma resposta para a nossa vida nesse planeta. É enfrentar o tema da mudança
climática e de sua adaptação a ela, é enfrentar a responsabilidade da nossa
espécie com todas as outras cuja casa destruímos, é enfrentar a crise da
democracia e criar maneiras de fortalecê-la, para que ela volte a significar
possibilidade de combater as desigualdades e fortalecer os direitos.
Ser parte da criação do futuro, mesmo na extrema
desesperança do presente, é fazer laço com a vida ao fazer laço com os vivos
O mal-estar do nosso tempo, este que tanto afeta aqueles que
estão estreando na vida, é alimentado pela nossa impossibilidade de enxergar
uma vida possível logo ali na frente. Como os adultos também não enxergam, o
desamparo é total. Se um colégio ou qualquer outra instituição quiser de fato
enfrentar o suicídio entre adolescentes deve se dedicar também a construir com
eles uma ideia de futuro que não seja o apocalipse climático – ou nuclear. Ser
parte dessa criação de futuro, mesmo na extrema desesperança do presente, é
fazer laço com a vida ao fazer laço com os vivos. O suicídio é também a
impossibilidade de fazer parte.
Sem imaginar um futuro possível, não há presente possível. É
isso que todos nós precisamos compreender. É isso que os jovens corpos tombados
estão também dizendo em seu silenciamento violento. Só se combate a vontade de
morrer criando um mundo em que vale a pena viver. Essa é a principal tarefa da
escola e de todas as instituições.
Na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), de 2014,
o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro disse uma frase provocadora, no melhor
sentido: “Os índios entendem de fim de mundo porque já viveram o fim do mundo
em 1500”. Retomo essa afirmação para lembrar que os jovens indígenas
Guarani-Kaiowá, as novas gerações de um dos povos originários mais massacrados
do planeta, se suicidam desde os anos 80. Seu suicídio invisível para os
brancos, invisíveis como eles mesmos, tem contado uma narrativa do fim do
mundo. É para eles, para esta dor, que deveríamos estar olhando, para este
mundo que lá se corrompeu antes pela força do extermínio.
Para os Guarani-Kaiowá, palavra é “palavra que age”.
Responder ao suicídio dos adolescentes com vida é romper as barreiras do
isolamento e se tornar palavra que age para fazer futuro.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora
dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém
vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma
Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter:
@brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum
Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

Nenhum comentário:
Postar um comentário