Publicado originalmente no site El País Brasil, em 30 de agosto de 2017
Não sorrir nem sair: é disso que você precisa quando está
triste
E que parem de te dar conselhos sobre como superar a
tristeza
Por Alejandro Tovar
Se a vida ter der limões, faça uma limonada. Muito bonito.
Mas você não gosta de limonada. É azeda e te obriga a fazer aquela cara…
“picassiana”. Mas melhor não dizer isso em voz alta, não verbalizar, porque vão
te chamar de pessimista. Vão dizer que é um fraco, que não sabe curtir a vida.
Então é preciso continuar sorrindo. Porque se você sorrir para a vida, ela te
sorrirá de volta. Porque se você se convencer disso, tudo correrá bem. Porque,
se você é capaz de sonhar, é capaz de fazer. E assim por diante. Esse é o
caminho para a felicidade. Tem certeza? Dúzias de estudos afirmam que não, que
deixar-se arrastar pela depressão e pelo desânimo é tão ruim como evitar os
problemas e sorrir sem nenhum fundamento, criando assim uma tendência contrária
ao otimismo mal compreendido e defendendo a necessidade de, por que não, estar
de cara amarrada de vez em quando.
Uma das vozes mais decididas na luta contra a sobrecarga de
felicidade é a da ativista norte-americana Barbara Ehrenreich. Em seu livro
Sorria: Como a Promoção Incansável do Pensamento Positivo Enfraqueceu a América,
ela lança sua alternativa ao que chama de “meia realidade”, aquela caravana de
mensagens ilusórias em que a sociedade parece acreditar. Ehrenreich teve um
câncer de mama e, durante seu processo de cura, comprovou que ninguém lhe
permitia sentir-se assustada, preocupada. Mas não cedeu: por que não teria medo
em uma situação tão crucial? Em sua tese, ela afirma o que lhe parece mais
lógico: olhar para o outro lado não resolve os problemas nem faz você se sentir
melhor, só aprendendo a administrar as emoções de forma correta é que se pode
viver realmente conectado com os sentimentos e levar uma vida condizente com
aquilo que está ocorrendo.
“Um medo não ouvido pode levar, com o tempo, a ataques de
pânico descontrolados, assim como uma tristeza ignorada pode transformar-se em
depressão”, diz Ángel Luis Sánchez, psicólogo e diretor do Instituto de
Desenvolvimento
“Pretender experimentar só emoções positivas é tão absurdo
quanto impossível”, afirma Rosana Pereira, psicóloga da clínica Haztúa e
especialista em Psicologia Positiva, que acrescenta: “É evidente que, diante
uma situação normal, é preferível ser otimista, mas as emoções ditas negativas
cumprem uma função adaptativa que nos ajuda a sobreviver”. Porque a raiva, a
tristeza, o estresse e o medo são mecanismos que, bem administrados, nos
permitem adaptar-nos a nossa realidade e vislumbrar soluções ou rotas de fuga.
“É assim desde que o homem é homem: o homem das cavernas não tentava dialogar
com um guepardo nem fazia caso omisso quando o animal ia atacá-lo; simplesmente
fugia o mais rápido possível movido pelo medo de ser devorado”, constata
Pereira.
Sentimentos como medo, raiva, esgotamento ou frustração
devem servir como motor de mudança, devem revelar-se como o germe que aciona o
pensamento crítico e a busca de alternativas. Negá-los só fomenta a rigidez
emocional e ainda traz um grau extra de mal-estar a quem já se sente mal por
uma situação negativa: saber-se incapaz de sorrir para a vida. Segundo Ángel
Luis Sánchez, psicólogo e diretor do Instituto de Desenvolvimento, ignorar
esses alertas é perigoso: “Um medo não ouvido pode levar, com o tempo, a
ataques de pânico descontrolados, assim como uma tristeza ignorada pode
transformar-se em depressão”.
Por isso, eles não devem ser evitados, mas tampouco se pode
permitir que subjuguem a vontade. “O importante é que ninguém fique preso no
derrotismo e que entenda que tudo que sente é uma resposta lógica ao que lhe
acontece”, continua Pereira, estabelecendo assim a linha divisória entre os
fundamentos da Psicologia Positiva e as frases categóricas dos gurus da
felicidade. E define a primeira como um complemento da Psicologia tradicional,
uma vez que “não se limita a arrumar uma situação de dor emocional, mas mostra
as pautas para administrar melhor essas emoções adaptativas negativas e ensina
a enfrentar os problemas e obter maior bem-estar”.
“Pretender experimentar só emoções positivas é tão absurdo
quanto impossível”, diz Rosana Pereira, psicóloga da clínica Haztúa e
especialista em Psicologia Positiva
Ela sabe que a Psicologia Positiva, às vezes, é associada
àquelas frases categóricas e ao otimismo irresponsável e mal compreendido.
“Existe muita gente atuando sem qualificação e os gurus fazem um desfavor à
Psicologia. É preciso desconfiar de toda sentença categórica; não podemos nos
esquecer de que a Psicologia é tudo, menos categórica”, porque fala e trabalha
com pessoas, e cada uma reage de forma distinta. Nessa linha caminham também
outros estudos que indicam os riscos de uma Psicologia Positiva mal aplicada.
A pesquisadora María Prieto-Ursúa, do departamento de
Psicologia da Universidade Pontifícia Comillas de Madri, fala da tirania da
atitude positiva. Ela diz que, de fato, às vezes é complicado sentir-se feliz
vendo o telejornal, mas que prescindir dessa carga de sofrimento nos afasta da
solidariedade, da sensibilidade e da vontade de melhorar a situação. E ressalta
que muitos seguidores entusiastas da Psicologia Positiva podem ter interpretado
mal sua mensagem levando-a ao extremo, à “necessidade de manter uma atitude
positiva ou de otimismo em todas as circunstâncias”.
Manter o bom humor mesmo quando as coisas vão mal?
Não. Porque, assim, será impossível confrontar o que está
acontecendo e concentrar-se em achar uma solução. “Um otimismo excessivo pode
nos fazer confiar demais no futuro e não nos esforçarmos o suficiente para
alcançar aquilo que pretendemos”, confirma Ángel Luis Sánchez.
Assim, quando alguém te convidar a deixar os problemas de
lado e sorrir para a vida, talvez seja bom explicar a utilidade de estar
triste, aborrecido, com raiva, de atravessar todas as fases emocionais que os
problemas desencadeiam. Ou, quem sabe, responder a seu sorriso mostrando a
língua. Se a vida te der limões… siga em frente. Será preciso continuar
trabalhando para transformá-los em laranjas.
Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

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