Foto: Divulgação
Publicado originalmente no site da revista ISTOÉ DINHEIRO, em 08/03/2019
Cristina Palmaka, Presidente da SAP BRASIL
Eficiência não tem gênero, cor ou orientação sexual
A principal executiva no País da empresa alemã de softwares
— e também maratonista — afirma que sua receita para ter equipes motivadas e
engajadas é simples: quanto mais diversidade, melhor
Por Geovana Pagel
Formada em Ciências Contábeis, com MBA na FGV e extensão na
Universidade do Texas, Cristina Palmaka começou sua carreira na Phillips,
passou quase 10 anos na Compaq/HP e foi vice-presidente de vendas para pequenas
e médias empresas na própria SAP, de onde saiu em 2010 para trabalhar na
Microsoft. Voltou em 2013 para assumir a presidência, posição que ainda é
raramente ocupada por mulheres. “Fui convidada para assumir a presidência num
momento em que a empresa estava muito bem e o meu desafio era impulsionar ainda
mais o crescimento da operação brasileira”, diz ela. “Principalmente, ajudar no
processo de transformação da SAP para uma empresa com foco em nuvem”. Também
maratonista, ela tem uma receita simples para continuar liderando a corrida da
inovação: inclusão, foco no cliente, criatividade e constante equilíbrio entre
a vida pessoal e profissional.
DINHEIRO – Como é estar na linha de frente de um setor onde
as inovações nunca param?
CRISTINA PALMAKA – Bill McDermott, nosso CEO global, define
assim o propósito da SAP: “Precisamos fazer o mundo funcionar melhor e
aperfeiçoar a vida das pessoas — um cliente de cada vez. Este é o compromisso
que assumimos”. Isso define muito bem o papel da liderança. Acreditamos no
potencial da empresa em ajudar o mundo a funcionar melhor e melhorar a vida das
pessoas por meio da inovação e da tecnologia. Pela transformação digital,
convertemos negócios em empresas inteligentes, que utilizam seus recursos de
forma otimizada para alcançar resultados de forma mais rápida e com riscos
reduzidos.
DINHEIRO – A SAP é uma empresa de software de gestão. Como
isso pode melhorar a vida das pessoas?
PALMAKA – A tecnologia está em tudo. Na sua roupa, no seu
relógio, na forma como você se locomove, se diverte, na sua comida, em tudo.
Quando me perguntam sobre as tecnologias da SAP para Internet das Coisas (IoT),
Inteligência Artificial, eu falo que não vendo nada disso, pois a tecnologia é
o menos importante na equação. Diante da reação de espanto, explico que está
tudo conectado – o essencial é entender qual é o problema e a tecnologia será
um habilitador para criar valor para o nosso cliente. O importante é ter
profissionais que entendam o impacto da tecnologia para resolver uma demanda de
negócio ou para contribuir com um projeto de pesquisa.
DINHEIRO – Você enfrentou dificuldades ou preconceitos ante
de chegar à posição de presidente da SAP Brasil?
PALMAKA – Quando alguém me pergunta por quais dificuldades
passei, respondo que passei pelas mesmas que qualquer outro profissional.
Eficiência não tem gênero, cor ou orientação sexual. Esse cenário ainda é um
desafio para a sociedade e as empresas, não apenas no Brasil. Mesmo companhias
que têm políticas claras de apoio à diversidade e inclusão, como a SAP,
precisam estar atentas para que essas políticas tragam resultados concretos e
duradouros. Meu papel como líder é criar as condições necessárias para que
tenhamos um ambiente saudável e diverso “dentro de casa”, além de disseminar
boas práticas para o mercado.
“Atrair, reter e desenvolver talentos femininos ajudará a
aumentar o número de líderes mulheres” – A meta global da SAP é alcançar 25% de
mulheres nos cargos de liderança, índice que já existe na operação brasileira
da empresa (Crédito:iStock)
DINHEIRO – O que a levou a escolher a área de tecnologia?
PALMAKA – Olhando em retrospectiva, foi mais que uma
escolha. Encontro na tecnologia a possibilidade de desenvolver alguns dos meus
valores, já que ela proporciona um impacto positivo não apenas nas empresas,
que se tornam mais produtivas, inovadoras e eficientes, mas também nas pessoas,
já que são soluções que afetam as vidas delas. Seja na área de saúde, na
descoberta de novos medicamentos, por exemplo, ou em processos que tornem uma
campanha de vacinação mais eficiente. Essa possibilidade do impacto me energiza
e mostra que novos e infinitos caminhos podem ser trilhados. Ter objetivos
claros, resiliência e o desenvolvimento constante das pessoas são
características essenciais para qualquer líder que quer não apenas fazer uma
boa gestão, mas também deixar um legado.
DINHEIRO – Qual sua maior dificuldade para administrar uma
empresa alemã no Brasil?
PALMAKA – O Brasil tem enormes desafios e alguns ficaram
mais evidentes em função da recessão agravada pela crise política. Eles
impactam não apenas na operação da SAP, mas em todos os nossos clientes. Ao
mesmo tempo é um país de enormes oportunidades, com grandes recursos naturais,
produção diversificada e uma presença forte em todos os segmentos industriais.
No caso da SAP, os profissionais brasileiros são responsáveis por muitas
inovações e soluções que são usadas pela empresa no resto do mundo. Liderar uma
empresa no Brasil é buscar oportunidades, adaptar soluções às necessidades dos
clientes, qualificar e investir na nossa força de trabalho para que ela seja
cada vez mais parceira dos nossos clientes. Não é fácil, mas é muito
gratificante.
DINHEIRO – Estudos apontam várias vantagens de se promover
um ambiente de trabalho diversificado: equipes com diversidade de gênero têm
uma margem operacional 48% maior. Na SAP existe um projeto de inclusão,
diversidade e igualdade. Como isso funciona na prática?
PALMAKA – A SAP tem ações para atrair, reter e desenvolver
mulheres e isso é parte da política global. Tenho empenho pessoal para
aplicá-la na operação brasileira. A meta global da SAP é alcançar 25% de
mulheres nos cargos de liderança, que nós já temos aqui no Brasil. Um dos
nossos desafios constantes é fortalecer as redes de funcionários (Employee
Network Groups), voltadas às minorias. Entre as redes em andamento podemos
citar a Business Women’s Network, para desenvolver talentos femininos. Fazem
parte desta rede homens e mulheres e o objetivo é atrair, reter e desenvolver
talentos femininos, o que ajudará a aumentar o número de líderes mulheres.
Estamos seguindo neste tema com suporte da ONU Mulheres, com o programa
#heforshe, já que homens contratam, promovem e têm que fazer parte desta
transformação. Também temos as redes de LGBTs (a Pride@SAP brasileira é umas
das maiores no mundo), negros e vamos começar a Different Abled People, de
pessoas com deficiência. Além delas temos o programa Autism@Work, com quase 200
pessoas autistas contratadas no mundo, 15 delas no Brasil.
DINHEIRO – Você está entre os melhores CEOs no Brasil. Isso
se deve ao seu estilo de gestão?
PALMAKA – É muito gratificante quando o reconhecimento vem
do mercado, me colocando ao lado de executivos que vêm fazendo a diferença em
suas empresas e em mercados tão distintos. Não deixa de ser o reconhecimento da
força do talento feminino e espero que sirva de inspiração para que muitas
outras mulheres possam ter suas capacidades e habilidades valorizadas. Acredito
que o meu estilo de gestão esteja apoiado em bom planejamento, disciplina,
trazer as pessoas certas para o meu lado e construir equipes vencedoras e que,
ao mesmo tempo, sejam diversas e inclusivas.
DINHEIRO — Como você vê o cenário após a aprovação da Lei
Geral de Proteção de Dados no Brasil?
PALMAKA – A SAP é uma empresa alemã e seguimos os preceitos
europeus. A Europa é muito mais conservadora na gestão da privacidade de dados
e o GDPR mostrou isso. Todos os sistemas SAP estão alinhados com essas
políticas e todas as empresas que fazem negócios com a Europa precisam atender
a essa regulamentação. A legislação brasileira, que passa a vigorar no início
do próximo ano, está em linha com a legislação europeia sobre como as
informações pessoais devem ser, o que é público e o que é informação pessoal.
Por outro lado, a SAP também oferece soluções que permitem que as empresas
conheçam cada vez melhor o cliente para tomar decisões nos negócios. A grande
questão é fazer isso atendendo à legislação, despersonalizando os dados quando
necessário, mas também possibilitando um atendimento personalizado, desde que o
consumidor final concorde. O mais importante é saber que o cliente está no
comando e ele espera que a relação com as empresas seja transparente e que
tenha o poder de decidir quais e como seus dados serão compartilhados.
“Há características comuns ao universo corporativo e o das
corridas: constância, resiliência, equilíbrio…” – Cristina completou 13
maratonas e diz que, apesar de parecer um esporte individual, a corrida é um
trabalho em equipe (Crédito:Luis Robayo / AFP)
DINHEIRO — A transformação digital é só para as grandes
empresas? Os pequenos negócios terão condições de sobreviver?
PALMAKA – As empresas se encontram em estágios distintos,
mas a digitalização dos processos está em curso e a nuvem torna as soluções
muito mais acessíveis para negócios de todos os tamanhos. Para os pequenos, a
principal vantagem é a fácil adoção e a melhor relação custo/investimento, além
da facilidade de escalar conforme a necessidade. A solução SAP Business One,
por exemplo, permite a contratação modular, de acordo com a demanda, e pode ser
integrada com qualquer outro sistema, conforme crescem as necessidades. Essa
facilidade de integração permite a adoção de novas tecnologias pelas pequenas
empresas. A transformação digital é uma necessidade para todos que queiram se
manter competitivos e com capacidade para inovar em um futuro muito próximo.
DINHEIRO — No passado, se dizia que a tecnologia abarcaria
várias atividades e sobraria mais tempo para o lazer. Mas os smartphones levam
o trabalho para onde a gente está. A evolução tecnológica vai nos deixar mais
ocupados?
PALMAKA – Estamos em uma fase de transição e a visão da SAP
é muito positiva sobre o futuro do trabalho. Com a automatização cada vez
maior, a tecnologia será a grande aliada. Acreditamos que o ser humano será
cada vez mais estimulado a criar inovações que impactem positivamente na vida
das pessoas e da sociedade. Na SAP trabalhamos com o conceito de humanidade
aumentada, que é o poder da tecnologia em automatizar tarefas mais simples,
combinado ao discernimento humano para tomar as melhores decisões. As
competências mais importantes serão, primeiro, a criatividade: é possível fazer
muitas coisas com a tecnologia, pegar o que existe e disponibilizar de formas
infinitas. Segundo, a empatia: é preciso entender o que o seu consumidor está
falando, o que ele está querendo. Terceiro, a coragem de tomar as decisões
corretas, de deixar de fazer coisas que realmente não devemos continuar
fazendo, trazer essas discussões de privacidade e ética.
DINHEIRO — Como a Inteligência Artificial e a internet das
Coisas mudarão a sociedade?
PALMAKA – Internet das Coisas, Machine Learning e
Inteligência Artificial vão permitir às organizações acelerar a criação de
valor através de três pilares: a automação de processos, a obtenção de
predições ou insights automatizados sobre os dados e a nova geração de
interfaces inteligentes, como chatbots. As soluções da SAP já incluem essas
tecnologias através do nosso sistema de inovação, SAP Leonardo. Como o Da
Vinci, ele se destaca pela genialidade e habilidades sobre-humanas. É o que une
as soluções de forma integrada em nossa nuvem, a SAP Cloud Platform. Na
realidade atual, velocidade é a chave. Inovações e negócios se tornam obsoletos
a cada minuto. Estar a par do que está acontecendo no mercado e se antecipar às
tendências tornou-se questão de sobrevivência. O futuro é dos negócios
inteligentes.
DINHEIRO — Além de executiva, você é maratonista. Como leva
ensinamentos e estratégias da corrida para o trabalho?
PALMAKA – A corrida entrou na minha vida sem querer. Um dia
eu estava na academia e fui convidada para participar de uma corrida de 8 km no
centro histórico de São Paulo. No começo, eu resisti porque não queria acordar
tão cedo no final de semana, mas acabei topando. Corri quatro quilômetros,
depois caminhei até o final e adorei. Hoje, 18 anos depois, já completei 13
maratonas. Apesar de parecer um esporte individual, tem um lado coletivo muito
forte, com companheiros de atividade, um técnico que te conhece profundamente e
está sempre puxando suas metas, nutricionista que ajuda a melhorar a
alimentação. Eu gosto de elencar seis características comuns ao universo
corporativo e das corridas: objetivos claros, preparação, constância, trabalho
em equipe, resiliência e equilíbrio físico e mental. É durante a corrida que eu
consigo solucionar problemas mais complexos e colocar a minha cabeça em ordem.
DINHEIRO — Estamos na semana do Dia Internacional da Mulher,
8 de março. Na sua avaliação, essa é uma data de comemoração ou de protesto?
PALMAKA – Eu sou uma otimista, então vejo muitos avanços nas
últimas décadas mas, ao mesmo tempo, temos muito o que conquistar enquanto
sociedade. Acredito que a data é importante para fazer uma análise e definir o
caminho que vamos seguir. Se consideramos as três capacidades que vão
diferenciar humanos e máquinas – criatividade, empatia e coragem – as
competências femininas passarão a ter um papel ainda mais importante no mercado
de trabalho do futuro, dado o potencial das mulheres para a negociação e
facilidade na gestão de equipes.
Texto e imagens reproduzidos do site: istoedinheiro.com.br



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