Imagem reproduzida do site [uproxx.com] e postada pelo blog
Demanda WEB,
para ilustrar o presente artigo
Texto publicado originalmente no site do Portal Infonet, em
12/03/2019
Quando Spielberg foi pra briga contra a Netflix
Por Mauro Luciano (Blog Infonet)
Existiu um tempo em que Cinema era algo pra ser feito nos
chamados theaters. As salas de cinema. Nós não traduzimos muito bem isso por
aqui porque tivemos poucos teatros de filme (movie theatres) em nossa história.
Aqueles como o Odeon, na Cinelândia, Rio de Janeiro, com 550 lugares. Esse
tempo passado contribuiu para que milhões de pessoas pelo mundo aceitassem esse
tipo de trabalho como uma arte – e das mais potentes.
Só que hoje, ou melhor, desde a década de 1970
especificamente, Cinema é feito também para a TV. Dois dispositivos do filme
diferentes: Sala de Cinema (movie theater) e Sala de TV (living room).
Spielberg, acredito com muita certeza, foi conhecido por
você que me lê quando assistia ou à sessão da tarde, ou à tela quente. Filmes:
E.T., Tubarão, Inteligência Artificial, Minority Report, etc. Este diretor
bilionário pela venda de seus filmes às TVs do mundo, sócio fundador da
Dreamworks, saiu da toca pra dizer que Cinema, mesmo, com C maiúsculo, é pra
ser feito para as grandes salas. Não para as salas de estar. Paradoxo.
Spielberg provavelmente defende um mercado que se vê em
crise. Quem ameaça os Cinemas? Videogames, indústria que tomou conta,
praticamente, das grandes bilheterias com as CGs (Computações Gráficas) em
filmes de herói; os canais de TV, já conhecidos por “deturpar” o grande cinema
com séries e temporadas requentadas; e, finalmente, serviços stream. Netflix,
pioneiro nos VOD (vídeos on demand, outro nome para os streamings), é o alvo
principal do diretor. Agora você se pergunta: por quê?
A Netflix está produzindo um filme que bate recorde em
milhões de dólares. The Irishman, de Martin Scorsese. Segundo alguns, é a
falência dos grandes estúdios em Hollywood. O modelo, agora, fica com os canais
de filmes pela internet.
Scorsese disse à imprensa: Onde vamos? Não sei. Devemos
proteger o cinema, o ritual e a arte, contra os produtos de super-heróis ou
quase de animação, que são um género próprio e estão bem, mas não é o cinema a
que vou, aquele que quero preservar e gosto de restaurar. Esse também precisa
do seu público e devemos convencer as pessoas a irem ver esses filmes. Eu
preferia nas salas e não em casa. E esse hábito deve ser encorajado o maior
tempo possível, mas os estúdios pararam de apoiar os cineastas: no meu caso,
apenas a Netflix apoiou”.
Spielberg então diz: Cinema, mesmo, é feito para as salas de
cinema. Não dá, segundo ele, para o Oscar premiar filmes que são produzidos
pelo canal Netflix. Caso de Roma, por exemplo. Seria o fim de sua era
Dreamworks, ele deve saber disso.
A questão se coloca não somente como “O que é o cinema? Esta
pergunta era feita na época em que Hitchcock, Rosselini e Antonioni produziram
filmes para a TV. Ou mesmo quando surgem espaços na programação para filmes
longa metragem nos canais norte-americanos. Segundo Spielberg, quando se produz
um filme através da TV, é um filme unicamente para a TV – contrariando, por
exemplo, canais como a ZDF alemã ou mesmo a Arte 1 francesa.
Longe de errar, Spielberg se denúncia. Mostra que não
aprendeu absolutamente nada com Truffaut – se é que ele quis isso em seu
contato –, e principalmente, que não se interessa pela democratização do acesso
e das produções fílmicas. Sua defesa dos grandes estúdios é uma política que
desautoriza o Cinema que foge do modelo industrial hollywoodiano. Há muito o
que se considerar nisso, e Scorsese mesmo pareceu refletir sobre.
Há quem concorde com a ideia de que Cinema é nas salas. Mas,
hoje em dia, há milhares de salas feitas com Smart TVs planas de 60 polegadas,
com som externo chamados “home theaters”. Se isso não for para os filmes de
Cinema, não há outra explicação para o sucesso da Netflix como novo modelo de
produção.
Texto reproduzido do site: infonet.com.br

Nenhum comentário:
Postar um comentário