Publicado originalmente no site da revista Época Negócios, em 23/03/2019
A diversidade não cria o problema, mas sim o expõe
Alguns profissionais estão tão convictos de que a
diversidade trará complicações que começam a focar no que poderia acontecer de
ruim
Por Liliane Rocha *
Entre 2017 e 2018 realizei mais de 100 palestras e workshops
sobre o tema diversidade em grandes empresas brasileiras. Foram mais de 400
horas de treinamentos e 8 mil pessoas impactadas. Estive, literalmente, do
Oiapoque ao Chuí, passando por todas as regiões do país em diversos estados.
Empresas dos mais variados segmentos, de 2 mil funcionários
até 50 mil funcionários, em contextos com complexidades distintas e
teoricamente diferentes problemáticas. Mas em todas elas o que mais me chamou a
atenção foi o fato de que as pessoas têm um receio latente, um medo por assim
dizer, de começar a trabalhar o tema da diversidade na organização e ter que
passar por situações que elas traduzem como dificuldades ou barreiras para
lidar com a questão da diversidade.
Alguns profissionais estão tão convictos de que a
diversidade trará complicações que começam a focar no que poderia acontecer de
ruim. Por exemplo, já fui questionada durante um treinamento sobre como poderia
uma mulher ou uma pessoa com deficiência trabalhar em uma área da empresa ou em
um município sem segurança? “Isso não tem nada a ver com diversidade, mas sim é
gestão de risco” me disse um executivo certa vez.
E sempre pergunto: Segurança em si não é um critério da
empresa? Digo, perigo é algo que mulheres e pessoas com deficiência não podem
passar, mas um homem ou alguém que não esteja categorizado como pessoa com
deficiência pode? Alguns podem ser expostos a situações de risco e outros não?
Ou segurança deve ser um critério para todos? Porque se a segurança é premissa
e há uma meta de zero acidentes em uma empresa, a solução não está em deixar de
contratar mulheres e pessoas com deficiência, mas sim em garantir que existam
processos sólidos que garantam a segurança de todos no ambiente de trabalho.
Uma outra história que sempre lembro é de uma profissional
de recursos humanos que relatou certa vez estar no refeitório da empresa e a
única proteína disponível era um bife. Ao lado dela estava um rapaz que não
tinha um dos braços e que se serviu de arroz, feijão e salada. Naquele exato
momento algo dentro dela disparou um alarme de atenção e começou a se perguntar
“Será que ele é vegetariano?”, “Ou não está pegando a carne porque não
conseguiria cortar?”, “Será que ficará ofendido se eu perguntar se quer ajuda
para cortar a carne?”, “Será que devo confirmar na cozinha se há outra opção?”.
Então, ela relatou que quando saiu daquele estado de
questionamento e voltou a si, o rapaz já estava na mesa comendo tranquilamente,
e ela ficou sem saber o que deveria ter feito.
A questão que quero levantar aqui é: será que uma
profissional de RH, ou mesmo se fosse um líder, que não consegue fazer
perguntas sobre o que uma pessoa quer almoçar ou o que prefere ter em sua
guarnição, está apta a fazer perguntas de gestão no dia-a-dia? Ou seja, a
questão aqui é entender a capacidade de diálogo assertivo, que no cotidiano
pode passar despercebida, mas que no contexto da diversidade fica muito
evidente.
Lembremos que a área de RH é responsável por contratar,
reter e desenvolver funcionários, ou seja, é um dos principais guardiões da
cultura corporativa e de clima organizacional das empresas. Então, será que um
profissional da área que “paralisa” diante de uma simples pergunta sobre a
preferência do funcionário no almoço, está conseguindo dialogar com os demais
funcionários sobre questões importantes para o sucesso da empresa, como: “Você
gosta de trabalhar aqui?”, “Qual seu plano de carreira?”, “Como você pode
desempenhar melhor suas funções?” etc.
Posso dar outros tantos exemplos, mas na verdade o que quero
mesmo é que você pare para pensar na próxima vez que estiver em uma situação
onde pareça que a diversidade de gênero, raça/etnia, pessoas com deficiência,
LGBT+, geracional e/ou religiosa esteja gerando uma dificuldade ou um problema.
É a diversidade mesmo que está gerando o problema? Ou a
diversidade está trazendo à tona problemas que já existem e que devem ser
resolvidos? Como, por exemplo, a segurança, a capacidade para o diálogo, a
dificuldade de fazer um bom processo seletivo, entre outros.
Sendo bem enfática, a diversidade não cria o problema, nem é
o problema, mas com certeza ela descobre entraves da empresa até então ocultos,
subliminares e que precisam ser tratados com urgência.
E isso não é ruim. Muito pelo contrário, é ótimo, pois a
empresa terá uma oportunidade de trazer para o centro da discussão com seus
líderes, com a área de recursos humanos, com a comunicação e todos os demais
funcionários uma nova perspectiva de pensar e agir que poderá ser otimizada e
até possibilitar a resolução de questões fundamentais, que certamente estavam
esquecidas.
*Liliane Rocha CEO e Fundadora da Gestão Kairós, consultoria
especializada em Sustentabilidade e Diversidade e autora do livro Como ser um
líder Inclusivo.
Texto e imagem reproduzidos do site: epocanegocios.globo.com

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