sábado, 23 de março de 2019

O gênio sem vontade própria



O gênio sem vontade própria 

Aos 87 anos, doente e interditado, João Gilberto, um dos inventores do Brasil moderno, é um patrimônio nacional em risco

Por Joaquim Ferreira dos Santos

HÁ QUEM PREFIRA VIVER COM A PORTA FECHADA. João Gilberto, por exemplo. Por muitas décadas o mundo bateu à porta do cantor pedindo que ele concedesse a graça de um show ou a dádiva de um novo disco.

Em alguns momentos, João até abriu a porta. Topou a concessão de um show eventual, acertou-se local e, à data marcada, apesar dos preços caríssimos, logo estavam todos os ingressos esgotados. Era um desejo mundial. Que João abrisse a porta do apartamento onde passou a maior parte da vida trancado e fosse ao teatro perceber, com o silêncio reverente na hora da interpretação e os aplausos entusiasmados ao final dela, a demonstração mais uma vez inquestionável de como todos adoravam a sua arte, de como ela havia colocado o Brasil na galeria das nações civilizadas.

Sim, João de vez em quando fingiu que ia abrir a porta e fazer show – mas simplesmente não apareceu ou, minutos antes de abrir a cortina, resolveu cancelar a performance. Ou ele estava resfriado, ou era o ar-refrigerado que estava resfriado demais, ou os graves insuficientes, ou sabe-se lá mais o quê.

Ninguém sabe exatamente o que João Gilberto tem contra o mundo, o que fez com que preferisse viver alheio à vontade de ouvir o agradecimento do público por sua arte sublime. Neste 2018, a bossa nova, o movimento que ele criou ao gravar o compacto Chega de Saudade, está fazendo 60 anos, e todos querem vibrar a efeméride com as pompas merecidas. O mundo nunca mais foi o mesmo. A partir do samba de origem negra, batucado pelos descendentes de escravos nos quintais das tias baianas no Centro do Rio, João redesenhou a percussão, as harmonias, as melodias, o jeito de cantar e inventou uma sonoridade que se espalhou pela música de todos os países e hoje, com a mesma força que o futebol, identifica o Brasil.

O mundo bate palmas agradecido a João, mas ele de novo não está ouvindo. Trancado em algum apartamento na Zona Sul do Rio de Janeiro, ele agora, pior, não faz silêncio por vontade própria. Aos 87 anos, doente, cheio de dívidas, processos confusos na Justiça, em meio a uma disputa entre filhos, ex-mulher e até um banco (dono dos direitos de seus primeiros discos), João foi interditado. Não responde mais por si. Está sob o controle de sua filha Bebel – e ela só conseguiu isso depois de uma decisão judicial mandar o cantor abrir a porta.

É uma triste ironia do destino, como diria um samba-canção antigo, deixar que um dos mais felizes criadores nacionais encerre sua vida aprisionado nas sombras da falta de vontade própria. João botou o sol das praias onde a moda era a luz difusa do abajur lilás iluminando os amores em pecado do samba-canção. Sua história foi feita pelo fato de estarem todos indo numa mesma direção e ele dizer que não era nada daquilo, e seguir na que bem entendeu e inventou. O Brasil nunca mais foi o mesmo depois que João, aproveitando-se das letras sofisticadas de Vinicius e das melodias idem de Tom Jobim, botou um balanço diferente naquilo tudo e fez a síntese do som que uma geração inteira estava procurando.

Ele deu a arte final. João inventou a bossa nova e, no mesmo ano de 1958, com a parceria de JK e Niemeyer, que desenhavam Brasília, com Nelson Pereira dos Santos, que ligava as câmeras do Cinema Novo, ele inventou o Brasil moderno. É um pai doidão da pátria brasileira.

Desde que começou a fazer sucesso, João tomou gosto pela estranha mania de viver atrás da porta. Deixou que se criasse um imenso folclore por causa disso. Elba Ramalho, por exemplo, teria lhe pedido para fazer uma visita. João topou, desde que ela levasse um baralho – e, quando a cantora nordestina chegou à porta do apartamento, João lhe teria pedido que passasse carta por carta pelo vão embaixo da jamais aberta porta. Finda a operação, agradeceu, e a moça, sem ver João, foi embora.

O que falar do gato que, trancado atrás dessa porta, ouvindo dias a fio seu dono ensaiar O Pato, aproveitou-se do momento em que o cantor abriu uma nesga da janela e por ali se jogou, 12 andares abaixo, tendo uma morte tristíssima, mas finalmente liberto do trancafiamento maluco?!

Foi assim a maior parte do tempo, continua sendo e, infelizmente, agora não há mais tempo de João abrir a porta por vontade espontânea. Desde 2008, ele não faz show. Desde 1989, não grava. A arte de João Gilberto é o avesso do avesso de uma tragédia dessas e, neste momento, no lobby de um hotel na Indonésia, é bem possível que se esteja ouvindo o som de sua voz sussurrada cantando Meditação. Uma loja qualquer de Portobelo Road neste momento salpica de charme suas roupas tocando ao fundo uma das muitas versões que João gravou de O Barquinho. Não se ouve outra coisa, algum filhote da arte de João, seja Stacey Kent ou John Pizzarelli, dentro dos elevadores da Quinta Avenida.

O que se poderia ter feito para que o artista, responsável por ter posto a moderna música brasileira em viagem pelo mundo afora, não tivesse um fim tão melancólico, trancado por acordes tão pouco artísticos como mandados judiciais e dramas familiares? Onde foi que o país errou? Ou, pelo menos dessa vez, não cabe a ninguém a famosa culpa nacional de ter abandonado um gênio às agruras da própria sorte?

Nas últimas décadas o Brasil não fez outra coisa senão bater à porta de João Gilberto e oferecer os melhores frutos do paraíso para que ele fosse novamente à frente do palco, ou ao microfone do estúdio, e mostrasse o que quisesse – até a enésima versão de O Pato, aquela que matou o gato. Não importava. O Brasil, ao contrário do que fez com muitos outros artistas, suplicava pela arte de João. Ele seria o senhor dos nossos destinos e ouvidos. Os amigos mais próximos sabem de uma lista de pérolas esquecidas da música brasileira que ele burilava em ensaios exaustivos, gemas como Marca na Parede, Às Três da Manhã, Treze de Ouro e outras delícias pouquíssimo conhecidas que, se ele tivesse gravado, deixariam a poeira dos baús e brilhariam, clássicos imediatos, como tudo mais que ele tocou. Poderíamos ter ficado melhores. Ele também. Uma pena. De um lado ou do outro da porta, perdemos todos.

Texto reproduzido do site: livrariacultura.com.br

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