O gênio sem vontade própria
Aos 87 anos, doente e interditado, João Gilberto, um dos
inventores do Brasil moderno, é um patrimônio nacional em risco
Por Joaquim Ferreira dos Santos
HÁ QUEM PREFIRA VIVER COM A PORTA FECHADA. João Gilberto,
por exemplo. Por muitas décadas o mundo bateu à porta do cantor pedindo que ele
concedesse a graça de um show ou a dádiva de um novo disco.
Em alguns momentos, João até abriu a porta. Topou a
concessão de um show eventual, acertou-se local e, à data marcada, apesar dos
preços caríssimos, logo estavam todos os ingressos esgotados. Era um desejo
mundial. Que João abrisse a porta do apartamento onde passou a maior parte da
vida trancado e fosse ao teatro perceber, com o silêncio reverente na hora da
interpretação e os aplausos entusiasmados ao final dela, a demonstração mais
uma vez inquestionável de como todos adoravam a sua arte, de como ela havia
colocado o Brasil na galeria das nações civilizadas.
Sim, João de vez em quando fingiu que ia abrir a porta e
fazer show – mas simplesmente não apareceu ou, minutos antes de abrir a
cortina, resolveu cancelar a performance. Ou ele estava resfriado, ou era o
ar-refrigerado que estava resfriado demais, ou os graves insuficientes, ou
sabe-se lá mais o quê.
Ninguém sabe exatamente o que João Gilberto tem contra o
mundo, o que fez com que preferisse viver alheio à vontade de ouvir o
agradecimento do público por sua arte sublime. Neste 2018, a bossa nova, o
movimento que ele criou ao gravar o compacto Chega de Saudade, está fazendo 60
anos, e todos querem vibrar a efeméride com as pompas merecidas. O mundo nunca mais
foi o mesmo. A partir do samba de origem negra, batucado pelos descendentes de
escravos nos quintais das tias baianas no Centro do Rio, João redesenhou a
percussão, as harmonias, as melodias, o jeito de cantar e inventou uma
sonoridade que se espalhou pela música de todos os países e hoje, com a mesma
força que o futebol, identifica o Brasil.
O mundo bate palmas agradecido a João, mas ele de novo não
está ouvindo. Trancado em algum apartamento na Zona Sul do Rio de Janeiro, ele
agora, pior, não faz silêncio por vontade própria. Aos 87 anos, doente, cheio
de dívidas, processos confusos na Justiça, em meio a uma disputa entre filhos,
ex-mulher e até um banco (dono dos direitos de seus primeiros discos), João foi
interditado. Não responde mais por si. Está sob o controle de sua filha Bebel –
e ela só conseguiu isso depois de uma decisão judicial mandar o cantor abrir a
porta.
É uma triste ironia do destino, como diria um samba-canção
antigo, deixar que um dos mais felizes criadores nacionais encerre sua vida
aprisionado nas sombras da falta de vontade própria. João botou o sol das
praias onde a moda era a luz difusa do abajur lilás iluminando os amores em
pecado do samba-canção. Sua história foi feita pelo fato de estarem todos indo
numa mesma direção e ele dizer que não era nada daquilo, e seguir na que bem
entendeu e inventou. O Brasil nunca mais foi o mesmo depois que João,
aproveitando-se das letras sofisticadas de Vinicius e das melodias idem de Tom
Jobim, botou um balanço diferente naquilo tudo e fez a síntese do som que uma
geração inteira estava procurando.
Ele deu a arte final. João inventou a bossa nova e, no mesmo
ano de 1958, com a parceria de JK e Niemeyer, que desenhavam Brasília, com
Nelson Pereira dos Santos, que ligava as câmeras do Cinema Novo, ele inventou o
Brasil moderno. É um pai doidão da pátria brasileira.
Desde que começou a fazer sucesso, João tomou gosto pela
estranha mania de viver atrás da porta. Deixou que se criasse um imenso
folclore por causa disso. Elba Ramalho, por exemplo, teria lhe pedido para
fazer uma visita. João topou, desde que ela levasse um baralho – e, quando a
cantora nordestina chegou à porta do apartamento, João lhe teria pedido que
passasse carta por carta pelo vão embaixo da jamais aberta porta. Finda a operação,
agradeceu, e a moça, sem ver João, foi embora.
O que falar do gato que, trancado atrás dessa porta, ouvindo
dias a fio seu dono ensaiar O Pato, aproveitou-se do momento em que o cantor
abriu uma nesga da janela e por ali se jogou, 12 andares abaixo, tendo uma
morte tristíssima, mas finalmente liberto do trancafiamento maluco?!
Foi assim a maior parte do tempo, continua sendo e,
infelizmente, agora não há mais tempo de João abrir a porta por vontade
espontânea. Desde 2008, ele não faz show. Desde 1989, não grava. A arte de João
Gilberto é o avesso do avesso de uma tragédia dessas e, neste momento, no lobby
de um hotel na Indonésia, é bem possível que se esteja ouvindo o som de sua voz
sussurrada cantando Meditação. Uma loja qualquer de Portobelo Road neste
momento salpica de charme suas roupas tocando ao fundo uma das muitas versões
que João gravou de O Barquinho. Não se ouve outra coisa, algum filhote da arte
de João, seja Stacey Kent ou John Pizzarelli, dentro dos elevadores da Quinta
Avenida.
O que se poderia ter feito para que o artista, responsável
por ter posto a moderna música brasileira em viagem pelo mundo afora, não
tivesse um fim tão melancólico, trancado por acordes tão pouco artísticos como
mandados judiciais e dramas familiares? Onde foi que o país errou? Ou, pelo
menos dessa vez, não cabe a ninguém a famosa culpa nacional de ter abandonado
um gênio às agruras da própria sorte?
Nas últimas décadas o Brasil não fez outra coisa senão bater
à porta de João Gilberto e oferecer os melhores frutos do paraíso para que ele
fosse novamente à frente do palco, ou ao microfone do estúdio, e mostrasse o
que quisesse – até a enésima versão de O Pato, aquela que matou o gato. Não
importava. O Brasil, ao contrário do que fez com muitos outros artistas,
suplicava pela arte de João. Ele seria o senhor dos nossos destinos e ouvidos.
Os amigos mais próximos sabem de uma lista de pérolas esquecidas da música
brasileira que ele burilava em ensaios exaustivos, gemas como Marca na Parede,
Às Três da Manhã, Treze de Ouro e outras delícias pouquíssimo conhecidas que,
se ele tivesse gravado, deixariam a poeira dos baús e brilhariam, clássicos
imediatos, como tudo mais que ele tocou. Poderíamos ter ficado melhores. Ele
também. Uma pena. De um lado ou do outro da porta, perdemos todos.
Texto reproduzido do site: livrariacultura.com.br


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