O historiador Juan Postigo em uma rua de Zaragoza, cidade
protagonista de seu livro.
Foto: DAVID ASENSIO
Publicado originalmente no site Brasil El País, em 27/12/2018
Os arquivos da Igreja: o bordel dos franciscanos e um
assassinato na missa
Historiador retrata subterrâneos dos séculos XVII e XVIII
através de documentos da Justiça eclesiástica
Por Patricia Peiró
Em uma rua do centro de Zaragoza havia uma casa com as janelas
sempre fechadas pela qual desfilavam autênticas romarias de padres franciscanos
entrando e saindo com chave própria. Em uma das visitas, vários deles chegaram
até a se trancar ao mesmo tempo em um quarto com uma mulher de nome Francisca.
Até que os vizinhos disseram basta e acabaram com esse “lupanar especializado”.
Uma simples denúncia de um morador da mesma rua acabou com o prostíbulo
preferidos dos franciscanos no século XVII.
Se esse processo não ficou enterrado em séculos de história
é porque chegou aos tribunais com todos os detalhes. Os arquivos judiciais
eclesiásticos reúnem centenas de relatos de amores proibidos, terríveis
agressões sexuais, prostituição, a à época proibida homossexualidade e até
brigas em plena missa. O historiador Juan Postigo mergulhou durante meses no
arquivo diocesano de Zaragoza para rastrear os subterrâneos da sociedade dos
séculos XVII e XVIII.
“Os documentos são realmente explícitos. Como não existiam
provas forenses, os investigadores faziam interrogatórios extenuantes que
ficaram completamente registrados”, diz o pesquisador, cujo trabalho está no
livro El Paisaje y las Hormigas (A Paisagem e as Formigas). Como diz Postigo,
muitas das práticas consideradas ilegais eram aceitas pela sociedade, até que
um ponto de inflexão as transformava em insustentáveis e chegavam aos
tribunais. No caso do prostíbulo dos franciscanos, o detonador foi a discussão
de um dos vizinhos com o dono da casa.
Os processos judiciais mostram pequenos retratos dos
costumes da época. Um deles narra a tempestuosa relação entre um nobre e uma
criada, que acabou com a gravidez dela. Quando a mulher foi pedir ajuda ao
homem para criar o bebê ele se esquivou de suas responsabilidades, de modo que
ela recorreu a uma feiticeira moura. Um criado escutou a mulher em plena
conversa com a suposta bruxa e contou ao nobre, que sugestionado pelas práticas
mágicas começou a ter problemas para ter relações sexuais e decidiu ajudar a
mãe de seu filho.
O gênero feminino precisou entrar dentro dos padrões moralistas
de uma vida dependente do marido. Se elas queriam manter idílios amorosos
precisavam entrar no mundo da ilegalidade
Nas leis morais da época, o público e o privado se
confundem. Os escritos mostram denúncias contra nobres por deitarem-se com
algumas de suas criadas. E, por exemplo, uma acusação contra a mulher de um
hospedeiro por manter uma relação com um hóspede. “A sexualidade só tinha
espaço dentro do casamento, todo o resto era perseguido. Além disso, as pessoas
de diferentes classes não podiam ficar juntas e constantemente encontramos
casos de homens e mulheres que burlaram essas normas”, diz Postigo.
O historiador define a mulher como um “agente de
transgressão permanente”, pelas rígidas regras em que estavam presas. “O gênero
feminino precisou entrar dentro dos padrões moralistas de uma vida dependente
do marido. Se elas queriam manter idílios amorosos precisavam entrar no mundo
da ilegalidade”. Também são detalhados numerosos casos de maus-tratos a
mulheres, que se tornavam assunto público somente quando a crueldade era
especialmente grave, como no caso de Agustín Pintor, um homem que obrigava sua
mulher a se prostituir, a agredia quando os clientes se cansavam e deixavam de
pagar e andava pelo mercado com sua amante abertamente”. A pobreza tornava as
mulheres dependentes dos homens”, afirma Postigo.
Além das histórias de bairro levadas a julgamento, os
documentos dão descrições detalhadas de fatos atrozes, como tiros no meio da
noite, mães que prostituem suas filhas e agressões sexuais a meninas. O
escritor pega o assassinato dentro da basílica do Pilar do ourives Tomás
Teller, que ao acabar suas orações recebeu um tiro de rifle de alguém que havia
preparado cuidadosamente o lugar e o modo que iria acabar com sua vida.
Aconteceu na noite de 29 de agosto de 1687. “Como os templos eram os lugares em
que a sociedade cristã passava a maior parte de sua vida, também se
transformaram em cenários de crimes”, diz Postigo.
A vizinha catedral de La Seo também abrigou contendas, como
a impressionante briga a socos de dois religiosos em plena missa de 2 de
novembro de 1747. Tudo aconteceu porque um disse ao outro que ele havia se
esquecido de ler um versículo.
Postigo extrai uma conclusão da análise dos crimes passados:
“As rigidezes impositivas só faziam com que as pessoas precisassem encontrar
brechas para satisfazer seus instintos. Muitas vezes pode ser contraproducente
deixar as pessoas presas demais”.
Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

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