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Publicado originalmente no site Brasil El País, em 28 DEZ 2018
Educar na era digital, ou como aproveitar o lado luminoso do
suposto inimigo
Quem educa no século XXI enfrenta desafios que não existiam
antes, por isso não há um histórico nem referentes que nos indiquem o caminho a
seguir
Educar na era digital, ou como aproveitar o lado luminoso do
suposto inimigo
Por Olga Carmona *
É época de presentes, principalmente para nossos meninos e
meninas. Segundo a Amazon, os dispositivos eletrônicos foram, neste Natal, os
produtos mais procurados. O Instituto Nacional de Estatística explica que, na
Espanha, 45,2% dos meninos e meninas de 11 anos já têm celular, e 92,4% das crianças
dessa idade já navegam na Internet. Mas não é preciso consultar os dados, esta
é uma realidade que não foge a ninguém.
Quem educa no século XXI enfrenta desafios que não existiam
antes, por isso não há um histórico nem referentes que indiquem o caminho a
seguir. Caminhamos na base da intuição, tateando entre o que acreditamos, lemos
e nos dizem, sendo nós mesmos, muitas vezes também presas fáceis das novas
tecnologias.
Podemos encontrar vozes supostamente especialistas, que
defendem uma espécie de retorno à era do ábaco, recomendando exilar da vida de
nossos filhos qualquer dispositivo digital, ao mesmo tempo que outras vozes,
tão especialistas quanto as anteriores, afirmam que, como eles são nativos
digitais, não devemos cerceá-los.
Um estudo realizado pela Faculdade de Medicina da
Universidade de Yale em 2009 (ou seja, já tem 10 anos) assinalou que já naquela
época a exposição a novas tecnologias era de 45 horas por semana: televisão,
videogames, celulares, etc.…). Não é difícil intuir que em 10 anos aumentaram
consideravelmente as horas de exposição e o uso de “telas”, ao ponto de já
falarmos de Vício em Novas Tecnologias, de surgirem termos como nomofobia (para
definir, por exemplo, o vício em celular), ciberbullying (assédio pelo celular
ou pela Internet), phubbing (sentir-se ignorado pelo parceiro, família ou
amigos porque eles estão absortos em seus celulares, ou fomo (medo de perder
alguma experiência gratificante nas redes sociais ou de ser excluído de um
evento).
A pergunta que surge é se realmente estamos diante de uma
pandemia em escala planetária ou, pelo contrário, trata-se apenas do medo
natural e repetitivo que a humanidade sempre sente em relação aos avanços
tecnológicos. De qualquer forma, e com as informações disponíveis, não há
alternativa a não ser administrar esse problema com nossos filhos e com nós
mesmos. Ignorar uma realidade não a faz desaparecer, muito pelo contrário,
costuma torná-la mais prejudicial. Administrar é a palavra: usar o bom senso,
buscar o equilíbrio e aproveitar o lado luminoso do suposto inimigo.
É verdade, nossos filhos são nativos digitais, mas nós não.
Por isso, não temos uma bússola que nos guie por um território ainda não
mapeado, e nossos filhos, por sua vez, não têm ferramentas que os ajudem a
administrar de forma equilibrada os recursos tecnológicos disponíveis na era
que lhes coube viver.
A pergunta que surge é se realmente estamos diante de uma
pandemia em escala planetária ou, pelo contrário, trata-se apenas do medo
natural e repetitivo que a humanidade sempre sente diante dos avanços
tecnológicos
Alguns dos sinais de que nossas crianças e nossos jovens
estão fazendo um uso tóxico ou viciante das novas tecnologias, segundo a
Associação Americana de Psiquiatria:
Privar-se de sono (< 5 horas) para ficar conectado à
Internet, dedicando a ela tempos de conexão anormalmente altos.
Negligenciar outras atividades importantes, como o contato e
a convivência com a família, as relações sociais, o estudo ou o cuidado com a
saúde.
Receber, de alguém próximo (como pais ou irmãos),
reclamações sobre o uso da Internet e não dar importância, ou simplesmente
negar o uso excessivo.
Pensar na rede constantemente, mesmo quando não estiver
conectado, e ficar excessivamente irritado quando a conexão cai ou é muito
lenta.
Tentar limitar o tempo de conexão, mas não conseguir, e
perder a noção do tempo.
Mentir sobre o tempo real que você está conectado ou jogando
videogame.
Isolar-se socialmente, mostrar-se irritável e baixar o
rendimento escolar ou profissional.
Sentir uma euforia ou empolgação anormal diante do
computador. Dessa forma, conectar-se ao computador ao chegar em casa ou ao se
levantar e ser a última coisa que você faz antes de dormir, bem como reduzir o
tempo das tarefas cotidianas (comer, dormir, estudar ou conversar com a
família) configuram o perfil de um viciado em Internet.
Para administrar de forma equilibrada as novas tecnologias e
prevenir comportamentos viciantes, sugerimos:
Informar nossos filhos sobre os riscos da exposição
ilimitada a telas em um cérebro em desenvolvimento, usando uma linguagem
adaptada a cada idade.
Com essa informação entendida, negociar o tempo (diário,
semanal...) que nos pareça (a todos) adequado.
É essencial que eles assumam o compromisso de cumprir o
combinado. É muito importante educar no valor ético do compromisso.
Como o tempo foi combinado e temos seu compromisso de que
será respeitado, não ficaremos vigiando se cumprem ou não. Eles trabalham um
valor e nós, outro: a confiança.
Se inicialmente não conseguirem, mas fizerem avanços,
reforçaremos estas novas tentativas de autorregulação e de respeito à palavra
dada.
Temos de ser coerentes: não abriremos a possibilidade de
usar telas fora do tempo combinado, mesmo em uma ocasião em que isso seja
conveniente para nós.
Não use as telas como reforço nem como castigo. Você estaria
dando a elas a categoria de “valor desejável”, o que as tornaria mais
atraentes.
Não demonize a ferramenta: depende de seu uso que ela seja
útil ou prejudicial. Por exemplo, muitas crianças têm a inteligência
visual-espacial altamente desenvolvida, ou seu estilo de aprendizagem é visual.
Para esse tipo de crianças, a tela pode ser um veículo perfeito de
aprendizagem.
É importante selecionar um tipo de jogo que seja adequado à
idade e contribua para algum tipo de enriquecimento. Nem é preciso dizer que os
jogos violentos ou com conteúdo inadequado para a idade da criança estão
descartados.
Incorpore seu uso como uma ferramenta a mais de
aprendizagem, também acadêmica: para fazer apresentações, pesquisar...
O menino ou menina não deve estar em um quarto da casa sem a
supervisão de um adulto. É sempre melhor que ela esteja onde algum dos pais
estiver.
Brinque com seu filho. Entre no mundo dele, conheça-o por
meio do que ele gosta e use isso como uma estratégia a mais de vínculo e
desfrute. Desse lugar, você poderá propor jogos ou atividades diferentes e terá
mais possibilidades de ser ouvido.
Defina filtros e controles parentais. Os psicólogos estão
vendo muitos pais alarmados porque seus filhos tiveram acesso à pornografia
antes dos 8 anos.
Respeitar a idade definida para cada rede social. Se não
tiver a idade, terá de esperar.
Ficar muito atento às pessoas com quem seu filho se
relaciona de maneira virtual. Se você tiver estabelecido uma relação de
confiança na qual não seja visto como um espião e seu filho sinta que joga no
mesmo time que você, é altamente provável que ele mesmo lhe conte isso.
Dedique tempo a seu filho, leve-o com você para fazer
tarefas cotidianas, inclua-o na medida do possível nas conversas, proponha
atividades alternativas em conjunto: ir às compras, cozinhar, jogar um jogo de
mesa...
Não deixe a televisão ligada em casa como se fosse a
geladeira. Ligue-a para ver algo específico em momentos determinados, não como
ruído de fundo. Selecione conteúdos que vocês possa compartilhar e aproveite
para lhes falar sobre a publicidade e suas mentiras e propósitos manipuladores.
Fortaleça as relações sociais reais: estimule a visita de
crianças, que seus filhos fiquem com outras crianças, etc.
Obviamente, nada disto adianta se você vive olhando seu
próprio celular.
O lado escuro do abuso das novas tecnologias acarreta, entre
outras limitações:
Um déficit de habilidades sociais.
Isolamento
Distorções cognitivas
Sobrecarga sensorial ou hiperestimulação.
Desequilíbrio entre os diferentes aspectos do
desenvolvimento evolutivo.
Inibição social.
Baixa tolerância à frustração e ao autocontrole.
Mas elas também têm um lado luminoso quando são utilizadas
com bom senso e equilíbrio:
Melhoram a aprendizagem e podem torná-la mais atraente.
São um veículo a mais de comunicação.
As possibilidades de pesquisar e aprender a respeito de algo
são ilimitadas.
Estimulam a habilidade de tomar decisões e resolver
problemas.
Aumentam a criatividade em algumas áreas.
Existem programas específicos para o desenvolvimento da
memória, cálculo mental, atenção, etc.
São uma ferramenta que os pais podem usar de forma seletiva,
decidindo a quais conteúdos expor ou não seus filhos.
As pedagogias mais vanguardistas, como a aprendizagem
indutiva e a sala de aula invertida, incorporam as novas tecnologias como
ferramentas indispensáveis. E é nessa direção que está o futuro dos nossos
filhos.
* Olga Carmona é psicóloga clínica e especialista em
psicoterapia breve e em psicopatologia da infância e adolescência
Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

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