Evento de 'instagramers' em Los Angeles em novembro.
Publicado originalmente no site Brasil El País, em 28/12/2018
O Instagram será a
solução para os problemas do Facebook?
Rede criada por Zuckerberg envelhece, mas irmã mais nova
está no auge entre jovens e anunciantes.
Mudança experimental na plataforma do Instagram para
celulares causou furor nesta quinta-feira
Por Raquel Seco
Circulam pela Internet vários memes chamados “Como sou no
Facebook/como sou no Instagram”. Segundo eles (são mais engraçados nas fotos,
claro), no Facebook somos a Beyoncé sorrindo em uma foto de grupo:
responsáveis, comportados, discretos, olhando a câmera, provavelmente com nosso
melhor look, certamente etiquetados por nossa mãe, nosso colega de trabalho,
aquele amigo do colégio que não vemos há anos. No Instagram, entretanto, somos
a Beyoncé divina no palco em pleno megashow, com o ventilador de frente:
arrumados, sedutores, desafiantes, provocadores, modernos, fazendo algo divertido
com a música no último volume e um controle férreo de nosso melhor ângulo.
A brincadeira faz mais sentido do que parece. Um estudo de
setembro do instituto Reuters de Jornalismo pediu a norte-americanos,
brasileiros, alemães e britânicos de 20 a 45 anos que descrevessem o Facebook e
o Instagram. A primeira rede social, criada por Mark Zuckerberg em Harvard há
14 anos e com 2,2 bilhões de usuários mensais ativos, foi chamada de
“egocêntrica” e “sociopata”, comparada a “uma pessoa pouco cool” e disseram que
sofre uma “crise de meia idade” (entre as definições menos brutais estavam as
de “profissional” e “genérica”). O Instagram, por sua vez, era “glamorosa”,
“vibrante” e “de mente aberta”, ainda que também “exibicionista” e
“assediadora”. Nos últimos tempos, além disso, são muitos os problemas de
imagem do Facebook, com escândalos de privacidade como o da Cambridge Analytica
(o Parlamento britânico publicou na semana passada dezenas de documentos
internos que revelam como a empresa discutia vender dados de usuários), uma
parada relativa em países desenvolvidos — preocupante já que é ali onde ainda
se concentra grande parte de seu mercado publicitário e porque parece (não
existem números oficiais) que afeta o número de páginas vistas e o tempo de uso
- e um terceiro fator, fundamental: a rede social envelhece. O Instagram, cujo
maior problema recente foi uma mudança na plataforma (para o modelo do Stories)
que desagradou aos usuários nesta quinta-feira, para minutos depois ser
revertida — não passou de um teste mal conduzido, segundo o CEO Adam Mosseri —
pode ser a solução dos problemas do Facebook?
Se falamos de números, o Facebook ainda é um gigante
incomparável. Poucas ferramentas tecnológicas o superam (para dar uma
perspectiva, diante de seus 2,2 bilhões de usuários ativos a cada mês existem
pouco mais de 5 bilhões de contas de e-mail no mundo) e é, em termos gerais,
“uma rede ativa e saudável” com uma penetração sem precedentes, segundo a
confirmação de estudos como o recente Uma análise em grande escala da base de
usuários do Facebook e seu crescimento (Rubén Cuevas, Ángel Cuevas e Yonas
Mitike Kassa). Ainda tem potencial para se expandir até em mercados da África e
Ásia Central. Mas sua irmã mais nova criada há oito anos e comprada há seis por
Mark Zuckerberg por 1 bilhão de dólares (4 bilhões de reais), parece ter se
adiantado em prestígio em relação à mais velha. Especialmente entre os jovens.
Hoje, quando se pergunta a um grupo de adolescentes
espanhóis quem tem Facebook, ficam em silêncio. Quando se pergunta se eles
conhecem alguém que o use, alguns dizem, timidamente, que... seus pais. “E,
como dizem algumas análises: nem você nem ninguém quer estar onde estão seus
pais”, diz Ícaro Moyano, responsável por desenvolvimento e estratégia de
distribuição da agência digital Wink. A tendência é clara em países como os
EUA, onde, de acordo com o instituto Pew Research Center, o número de
adolescentes que usa o Facebook diminuiu de 71% a 51% em somente três anos (72%
usam o Instagram e 85% o YouTube). 44% dos pesquisados de 18 a 29 anos apagou o
aplicativo de celular do Facebook no último ano, ao que parece estimulados, em
parte, por temores relacionados à privacidade.
Alguns especialistas alertam do perigo de que o Facebook dê
um “abraço de urso” mortal no Instagram
Na frente publicitária, o Instagram pode ser a resposta a
esse envelhecimento, que é especialmente preocupante porque significa se
afastar de um público jovem extremamente valioso para os anunciantes. “O
Facebook funciona muito bem e é muito rentável. Os dados em questão de vendas
continuam sendo excelentes”, diz Philippe González, fundador da comunidade
Instagramers e autor de vários livros sobre redes sociais. “Mas o mercado da
Bolsa não avalia você somente em função do que consegue hoje em vendas, e sim
pelas expectativas de futuro”. Ou seja, ainda que o Facebook continue mandando
em termos econômicos, o futuro parece estar em sua rede irmã, que nasceu para
compartilhar fotos. E por isso, agora que o Instagram superou 1 bilhão de
usuários ativos, o desafio é conseguir dinheiro, ou, como se diz nos mundos
tecnológicos, monetizar. “Na última apresentação de resultados, onde foi vista
essa certa parada no Facebook, o ideal é que Zuckerberg acalmasse o nervosismo
dos acionistas com lucros bem-sucedidos no Instagram”, diz Philippe González.
Esses resultados espetaculares não aconteceram, mas a missão vai de vento em
popa, com um aumento de orçamento dos anunciantes de 177% em relação ao ano
passado contra um aumento de 40% no Facebook, de acordo com um relatório
recente da Merkle Digital Marketing. Entre as estratégias está, por enquanto,
incluir anúncios nas Stories do Instagram e tornar mais atrativa a plataforma
às lojas, com um botão de compra direta.
Mas nem tudo é cor de rosa no Instagram. São várias as
críticas por ser um lugar superficial, muito centrado na estética, de consumo
ultrarrápido, que cria expectativas de beleza, sucesso e realização pessoal tão
irreais como surreais. Há pouco, uma instagramer norte-americana se queixou
publicamente da pouca interação nas fotos de um de seus cinco filhos, culpou o
algoritmo e pediu que, em seu aniversário de seis anos, os seguidores
presenteassem o menino com “likes”. “Um oceano de falsidade”, disse sobre o
Instagram Enrique Dans, professor de Inovação na IE Business School, em um
artigo recente na Forbes, “um concurso de popularidade permanentes e exaustivo”
em que abundam táticas esdrúxulas para conquistar seguidores. A mudança de 2016
na forma em que as atualizações são recebidas — passaram de ordem cronológica a
ordem guiada por algoritmos — roubou parte da essência do Instagram, o
aproximou do Facebook. E as empresas se queixam de que, da mesma forma que no
Facebook, é cada vez mais difícil se destacar de maneira orgânica (não paga).
As preocupações são mais agudas desde junho, quando os
fundadores do Instagram, Kevin Systrom e Mike Krieger, anunciaram que deixavam
o barco porque, como sugerem alguns especialistas e mídia especializados,
sentiram-se menos confortáveis com a crescente influência de Zuckerberg, a
pressão para crescer e os desencontros em relação a como fazer crescer as duas
redes sociais. O potencial do Instagram, alertam alguns, o expõe ao mesmo tempo
ao risco de um “abraço de urso” mortal que retire sua essência e o force a uma
estratégia agressiva de monetização.
Os especialistas afirmam que o Facebook continua sendo o
rei. “É a televisão. Falar dos riscos do Facebook me lembra de quando se falava
muito dos riscos da Microsoft há 15 anos: deixou de ser interessante em muitos
aspectos, mas é o que acontece quando se é enorme”, diz Moyano. E, ainda que
seja cada vez mais questionado, também foi, não podemos nos esquecer, o
facilitador de um crescimento impressionante ao Instagram. Agora é preciso ver
se sua ambição prejudica o aplicativo mais vibrante do momento, tanto em
essência como em comunidade. Por enquanto, como diz outro meme, “meu Instagram
está cheio de gente que não conheço e adoro. Meu Facebook está cheio de gente
que conheço e evito”.
Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

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