Nina Silva, criadora do Movimento Black Money, rede de apoio
para aumentar a circulação
do dinheiro em comunidades negras Foto: Alexandre
Cassiano/Agência O Globo
Publicado originalmente no site da revista ÉPOCA, em 19/12/2018
O racismo também é uma burrice econômica
Executiva estimula empreendedorismo negro com o conceito
"não me vejo, não compro"
Nina Silva em depoimento a Gilberto Porcidonio
Nasci e vivi no bairro Jardim Catarina, em São Gonçalo, no
Rio de Janeiro. Em 1982, era a maior favela plana da América Latina. Meu pai é
soteropolitano e veio muito cedo para o Rio. Minha mãe é do interior. Veio
tentar a vida de empregada doméstica aqui. Minha irmã, seis anos mais velha que
eu, passou um baita perrengue quando éramos criança. Nossa vida só melhorou
quando meu pai se tornou funcionário público da Assembleia Legislativa. Como
ele sempre foi muito bom em gerir as finanças da família, mesmo na escassez,
viramos classe média e fomos para bairros e escolas melhores. Meu ambiente
familiar sempre foi dominado por negros.
Nas escolas privadas que estudei, a maioria sempre era de
brancos. Isso era uma dor muito grande. Eu era líder de turma, do clube de
literatura, dos times de educação física, do time de matemática, e as pessoas
não entendiam como eu era uma criança tão plural. As professoras e mães achavam
que eu era protegida por ser negra, então eu escutava: “Ah, tadinha dela. Por
isso que colocam ela na frente”.
Foi na faculdade que entendi um pouco melhor o que é o
mundo. Meu olhar perdeu algumas lentes românticas. Eu me vi como uma mulher
negra, depreciada em vários níveis, a ponto de ser o tempo todo questionada no
mercado de trabalho, de ter minhas notas e cursos checados para ver se eram
reais. De lá para cá, vi que esse problema existe por causa do racismo.
No mercado de trabalho, tive de aprimorar essa minha revolta
de criança e adolescente buscando uma rede de apoio. Entrei em contato com
muita gente que passava pelos mesmos problemas. Conseguimos nos unir.
Conseguimos provar que diversidade gera um terço a mais de lucro para as
empresas. Deixamos claro que racismo é crime e que falar de nossos corpos e
vestes é assédio moral. Buscamos dar voz a todos nós e não mais ficar isolados
uns dos outros. A estrutura escravocrata colonial sempre nos separou, então o
que fizemos foi buscar uma aglutinação. Usando argumentos reais e práticos.
Imagine um jovem negro que ascendeu, fez faculdade,
conseguiu emprego e obteve sua primeira rentabilidade por um investimento. Há
necessidade de uma educação financeira para estruturar a consciência de
consumo. Temos três vertentes: educação, que vai de educação financeira a
inserção em tecnologia e gestão de negócios; comunicação, que vem desse olhar
de que somos negros, belos, maravilhosos e podemos chegar aonde queremos sem pedir
inclusão o tempo todo; e de serviços financeiros, que é a ideia básica do black
bank.
A prática do black money vem como uma filosofia desde os
tempos de Marcus Garvey (ativista jamaicano) no início do século XX, quando
foram feitas várias ações para incentivar o investimento da comunidade negra
nela mesmo. O movimento black money dos Estados Unidos calcula quanto tempo o
dinheiro circula dentro de cada comunidade. Na asiática, por exemplo, ele
permanece por 28 dias, pois o chinês ganha seu salário e come no restaurante de
um chinês, compra na padaria de um chinês, bota o dinheiro no banco de um
chinês... Na judaica, ele fica por 19 dias. Na majoritariamente branca, por 17
dias. Na latina, apesar das dificuldades, fica por sete dias. Na comunidade negra
americana, mesmo os EUA tendo 91 bancos negros, o dinheiro fica por apenas seis
horas. Imagina como é no Brasil? Ainda não temos esse tipo de estudo
fundamental.
Meu sócio Alan Soares foi quem começou a idealizar o fomento
a negócios que projetem pessoas negras, retornando parte desse valor para
projetos sociais da negritude e com taxas justas para fazer a economia girar. O
objetivo é criar um movimento no qual pessoas pretas coloquem o capital
financeiro, o capital intelectual, o esforço e o labor na rede de apoio a
pessoas negras. O movimento vem para aglutinar e fortalecer tudo o que já
acontece. Assim, descobre-se que existem projetos que já estão aí há um tempo,
como a Feira Preta, de São Paulo, que tem 16 anos; o bloco afro-baiano Ilê
Aiyê, que é de 1974; o projeto Diáspora Black, que saiu daqui do Rio e foi
acelerado pelo Facebook na primeira implementação da plataforma no Brasil. O
que fazemos é botar um cimento nessa base.
Hoje já começamos a ter a questão do “support black
business” (apoie negócios tocados por negros) e o “we buy black” (nós compramos
de negros). Só compramos produtos de marcas em que nos reconheçamos. “Se não me
vejo, eu não compro.” Só em 2017, o consumo negro foi de R$ 1,6 trilhão.
Começa-se agora a fazer um trabalho publicitário para dar protagonismo para
quem está com sede desse consumo. Existe, no entanto, uma camada privilegiada
da sociedade que começa a achar que as coisas estão “ficando estranhas”. Então
esse nosso braço de comunicação é para mostrar que devemos apoiar essa ação,
com muita consciência. Não é caso de diversity washing (lavagem de diversidade)
, para promover falsamente a reputação das marcas. Apoiamos instituições que
estejam incluindo pessoas negras em seus diversos estágios, dando poder e
influências em diversos cargos — muito além do estagiário e do menor aprendiz.
Existe sim essa preocupação das empresas, mas ainda é um
olhar do outro sobre nós, e não o nosso olhar de representação. Há uma
movimentação de colocar atores negros em propagandas, mas não uma preocupação
de colocar pessoas negras na publicidade como redatores, roteiristas,
diretores... Coloca-se uma atriz negra — geralmente sempre as mesmas atrizes —
e as pessoas acham ok. Hoje você não deixa de ver uma pessoa de cabelo crespo
atuando em eventos como hostess ou promoter, todos bem novinhos, bonitos,
arrojados. Quando você transita no evento, no entanto, vê que só tem você e aquelas
pessoas de pele preta no evento inteiro. Ainda temos mais esse passo a dar, de
também sermos os tomadores de decisão e não estar apenas na ponta dela. O
mercado está começando a entender que essa massa consumidora existe e quer ser
protagonista desse consumo.
O empreendedorismo negro sempre foi muito presente para a
gente, principalmente por causa da sobrevivência. Durante uma crise, a
comunidade negra é a primeira a sofrer. Dois de cada três desempregados no
Brasil são negros. Daí ele abre uma barraquinha e gera renda familiar. Os
negros correspondem por 51% dos empreendedores do Brasil. Mas, em geral, não
são pessoas preparadas como gestoras de negócios. Não estão com capital para
investir, não têm visão de praça do produto nem sabem como está o mercado em
que se inserem. Esbarram em uma educação precária, não conseguem crédito no
mercado porque não têm histórico bancário para isso. Ainda tem a questão dos
bancos tradicionais, que olham primeiro sua fisionomia. Negros têm o crédito
negado três vezes mais que os brancos — mesmo com os mesmos níveis de garantia.
Quando se dá algum passo para a frente, como os que encontramos em feiras e
incubadoras e em instituições como o Sebrae, chega-se a um nível em que não dá
para progredir com o negócio porque não há mais pessoas capacitadas para dar
prosseguimento. Só 27% desses empreendedores conseguem empregar alguém. Se a
gente não gera emprego, a gente não tem emprego. Fica-se num ciclo vicioso que
nunca nos deixa em pé de igualdade de concorrência com um empreendedor não
negro. Isso é algo que o consumidor engajado nessa causa também precisa
entender quando fizer a opção pelo produto que quer consumir. Assim, há essa
possibilidade de sermos os financiadores dos afroempreendedores.
Isso é um benefício para sociedade brasileira como um todo.
Se a gente olha a base da pirâmide, somos 75% dos 10% mais pobres. Se mudo a
realidade de 20% da renda familiar de cada um que está nessa base, gera-se um
movimento econômico por toda a pirâmide. Assim, o cara lá do topo também vai
estar feliz. É por isso que o racismo é uma forma de burrice.
Texto e imagem reproduzidos do site: epoca.globo.com

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