Publicado originalmente no site Brasil El País, 26 de dezembro de 2018
O segredo para viver cem anos está em suas mãos, não em seus
genes
Cientistas pensavam que a chave para a longevidade estava em
um estilo de vida saudável e uma genética favorável, mas a última influi menos
do que se acreditava
Por Miguel Ángel Bargueño
Todos nós conhecemos famílias nonagenárias, que parecem
indestrutíveis. Mas o que está por trás de sua longevidade? Até agora se
pensava que "a diferença entre os que vivem muito e os que vivem pouco
dependia entre 15% e 30% da genética", explica Miguel Pita, professor de
Genética no Departamento de Biologia da Universidade Autónoma de Madrid (UAM),
e autor do livro El ADN Dictator (2017). No entanto, um novo estudo publicado
na revista Genetics joga por terra esta ideia.
A pesquisa, intitulada As Estimativas da Hereditariedade da
Longevidade Humana Estão Substancialmente Infladas Por Causa da Combinação
Seletiva, foi conduzida por um grupo de pesquisadores radicado na Califórnia
(EUA) que comparou 54 milhões de árvores genealógicas do Ancestry, um banco de
dados que conecta pessoas de todo o mundo com seus ancestrais. De acordo com os
resultados, os genes influenciam, mas muito menos do que se pensava
anteriormente. Apenas 7%
A genética atua a partir da oitava década
As conclusões são relativamente surpreendentes, embora a
ciência já soubesse que o DNA pesava menos que o estilo de vida. "A ideia
geral que tínhamos até agora era que, nas sete ou oito primeiras décadas de
vida, o estilo de vida é mais importante que a genética", diz Pita.
"Digamos que o estilo de vida se sobrepõe ao efeito da genética. Se você
consegue manter uma dieta saudável, com pouco álcool, pouco fumo e muito
exercício, viverá muito mais do que se não fizer isso, independentemente da
genética que tenha."
É a partir da sétima e oitava décadas que a genética
intervém, acrescenta este especialista: "Todas aquelas pessoas que são
nonagenários e centenárias, além de terem tido um estilo de vida adequado,
tendem a possuir uma determinada genética". O professor Pita dá dois
exemplos: "A genética é importante porque, se você tem uma propensão muito
grande ao câncer, obviamente a duração de sua vida será afetada". No
entanto, ele faz uma comparação com o talento para a música. "Todos
podemos nos esforçar e tocar violão mais ou menos bem, mas, para sermos um
gênio, precisamos de uma certa genética", diz ele.
A novidade deste estudo está na maneira como os dados foram
analisados, e é isso que é enfatizado no complicado título. "O que diz é
que a diferença entre viver muito ou viver um pouco por causa da influência da
genética não é muita. Que é maior a influência ambiental." Este trabalho
demonstra que os estudos anteriores que apontavam que os genes tinham 30% da
culpa por alguém viver pouco ou muito não foram muito bem feitos: “Baseavam-se
em uma combinação seletiva, de modo que, quando parecia que duas pessoas tinham
a mesma genética, o que elas tinham, na verdade, era o mesmo ambiente”.
A importância do estrato social
"Os cálculos eram feitos com duas pessoas que tinham a
mesma genética porque eram irmãs: via-se que viviam mais que outras duas
pessoas que também eram irmãs e tinham outra genética", diz o professor.
Em vez disso, "este trabalho não analisa só a genética do primeiro par de
irmãos, mas também estuda o que acontece com os cunhados. E comprova que os
dois irmãos e o cunhado do primeiro grupo vivem mais que os dois irmãos e o
cunhado do segundo grupo ", continua o especialista.
Conclusão: não é genética, porque os cunhados não
compartilham a genética. "O que se vê é que pessoas com características
semelhantes, a mesma origem social e até traços físicos semelhantes tendem a
combinar entre si, de modo que não são seus genes o que as faz viver mais
tempo; é que estão se agrupando entre si”, afirma o especialista. Ou seja,
pessoas do mesmo extrato social tendem a se casar com pessoas da mesma condição
e é isso que as faz viver mais do que outras.
Isso não significa que, com melhorias na genética, não
iremos viver mais. "A genética é muito importante", diz Miguel Pita.
"Se identificamos quais são os genes que causam aumento da mortalidade e
administramos os medicamentos para combatê-los, a longevidade aumentará muito.
Embora pareça que a genética não influencia muito, pode, sim, aumentar muito a
expectativa de vida." Parece contraditório, mas não é. "A genética
pode fazer com que todos nós vivamos mais. Sempre haverá um ambiente no qual
ela influencia mais do que em outro, mas o controle dos genes aumentará a
longevidade", conclui o especialista.
Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

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