Um homem contempla 'O nascimento de Vênus'. ALBERTO PIZZOLI GETTY IMAGES
Publicado originalmente no site Brasil El País, em 26 de dezembro de 2018
Sindrome de Stendhal - Uma beleza irresistível?
Enfarte sofrido por um homem em frente a ‘O Nascimento de
Vênus’, de Botticelli, reabre o debate sobre a síndrome de Stendhal
Por Lorena Pacho
Galeria degli Uffizi, o museu mais visitado da Itália. Sala
Botticelli. Um turista italiano de 70 anos sofre uma parada cardíaca e desaba
enquanto contempla O Nascimento de Vênus. À sua direita ficam as telas A
Primavera e A Adoração dos Magos; à sua esquerda, A Anunciação; às suas costas,
o imponente Tríptico Portinari, do pintor flamengo Hugo van der Goes. Aconteceu
no último dia 15, em Florença. Um grupo de médicos que também visitava a
exposição conseguiu reanimá-lo com os desfibriladores da pinacoteca.
Dadas as circunstâncias do fato, muitos pensaram em um
possível caso da síndrome de Stendhal: uma espécie de indigestão artística ou
overdose de beleza. Um êxtase que afeta quem se sente esmagado pelas emoções, e
que pode produzir reações psicossomáticas como taquicardia, náuseas e
sufocação, embora alguns especialistas o considerem apenas um mito romântico.
O diretor da galeria, Eike Schmidt, conta ao EL PAÍS que
está consciente de que uma visita a um museu desse porte exige um esforço que
pode causar estresse emocional, psicológico e também físico. “Eu nunca me
permitiria diagnosticar algo assim em nenhum caso concreto, não sou médico, mas
se pode supor que se trate de um Stendhal”, diz, acrescentando que “é preciso
destacar o efeito da arte, que como a música tem uma grande força psicológica
sobre os seres humanos”.
“É preciso destacar o efeito da arte, que como a música tem
uma grande força psicológica sobre os seres humanos” (Eike Schmidt, diretor da
galeria)
Florença é, aliás, o berço da suposta síndrome. Lá seus
sintomas atingiram o escritor francês Stendhal em 1817, quando ele entrou na
basílica da Santa Cruz e se sentiu afligido por tanto esplendor. “Tinha
alcançado esse nível de emoção em que as emoções celestiais das artes e os
sentimentos apaixonados se encontram. Senti palpitações no coração, caminhava
temendo cair”, escreveu. Desde então, essas sensações, entre a patologia e a
sugestão, levam seu nome e ganharam espaço no imaginário popular.
Deixando de lado o fator romântico da tão discutida
síndrome, a médica Jessica de Santis, que atendeu o turista na sala, oferece um
ponto de vista asséptico. “É uma síndrome psicossomática que induz a
taquicardia e náuseas em frente a obras importantes como as de Botticelli, mas
não me atrevo a dar um diagnóstico, porque o paciente tinha problemas
coronários importantes”, afirmou ela a este jornal. Era a primeira vez que De
Santis, que trabalha em um hospital da Catânia, visitava a Galleria degli
Uffizi (ou Galeria dos Ofícios). A sala Botticelli foi considerada “uma
experiência mística, fantástica”.
Este caso é o mais grave já visto no museu, mas não o único.
O diretor relata que há alguns anos um jovem sofreu um ataque epilético em
frente à tela A Primavera, também de Botticelli. “Nossos assistentes de sala
têm formação em primeiros socorros, e um deles o atendeu”, relata. E acrescenta
que esses funcionários já estão praticamente familiarizados com os desmaios dos
visitantes. “Acontece em frente às obras de arte maiores, mais famosas”,
observa. O exemplo mais recente se deu há alguns meses, durante a inauguração
da nova sala dedicada a Caravaggio. Um homem desmaiou em frente à Cabeça de
Medusa, uma das obras mais inquietantes do gênio do barroco. “Quando se trata
de simples desmaios é mais fácil teorizar sobre uma síndrome de Stendhal”,
opina.
Para ele, a arte é um remédio. “Tem uma função terapêutica,
curativa”, salienta. O museu exprime esse poder reconstituinte com atividades
especiais. Às segundas-feiras, dia de fechamento ao público, organiza visitas
para pessoas com doenças psicoemocionais ou transtornos cognitivos. “Aí vemos o
grande efeito positivo para a saúde”, aponta. Há estudos que provam isso. Como
o que foi realizado em 2016 no santuário barroco de Vicoforte, no norte da
Itália. Lá, uma equipe de cientistas colheu amostras de saliva de mais de cem
visitantes antes de entrarem no monumento. O professor Enzo Grossi contou ao
jornal La Repubblica que na saída comprovaram que os níveis de cortisol, o
chamado hormônio do estresse, diminuíram em 60% na maioria dos casos.
Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

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