O papa Francisco, no Vaticano, no dia 28 de novembro (Ettore Ferrari EFE)
Publicado originalmente no site Brasil El País, em 7 de dezembro de 2018
Até tu, papa Francisco?
Os sacerdotes homossexuais não representam nenhum escândalo, e eles estão sujeitos, como qualquer outro, a respeitar o compromisso com o celibato. Nada mais
Por Juan Arias
Tanto a Igreja Católica como as confissões evangélicas
mantêm um medo atávico da sexualidade, do qual não conseguem se livrar. Até o
papa Francisco, que com sua famosa frase aos jornalistas, “Quem sou eu para
condenar a um homossexual?”, parecia ter aberto uma porta de esperança e
compreensão da Igreja para com os diferentes, agora recuou.
Queixa-se agora Francisco de que a Igreja parece “inundada
pela moda da homossexualidade”. E se espanta de que tantos sacerdotes e
religiosos “se declarem homossexuais”, e pede que “sejam tomadas medidas para
que não escandalizem”.
Não seria difícil responder ao papa Francisco, que nos havia
admirado com sua liberdade de espírito e seu desprendimento do poder, que a
Igreja deveria se preocupar mais com o pecado e o escândalo dos sacerdotes
pedófilos, que abusam da sua condição para seduzir e violentar menores. Os
sacerdotes homossexuais não representam nenhum escândalo, e eles estão
sujeitos, assim como os heterossexuais, a respeitar o compromisso com o
celibato que aceitaram voluntariamente. Nada mais.
Seria mais normal que, a esta altura, a Igreja Católica acabasse
abolindo o celibato obrigatório como condição para exercer o sacerdócio. Não se
trata de nenhum dogma de fé, e menos ainda de algum ensinamento dos evangelhos.
A obrigação do clero secular de professar o celibato nasceu tarde na Igreja, na
qual durante séculos não só sacerdotes, mas também bispos e até papas, eram
casados e tinham família, começando por são Pedro, cuja sogra Jesus curou.
Todas as confissões cristãs se inspiram nos evangelhos. E é
curioso que em nenhum deles exista uma só palavra, recomendação ou condenação
da sexualidade nem da homossexualidade. Não se encontra uma só palavra sobre o
tema na boca de Jesus, que certamente também era casado. Tão pouco medo tinha
da sexualidade que foi acusado de ser “amigo de prostitutas”, sobre as quais
chegou a dizer que teriam um lugar preferencial no paraíso.
Nem o exercício da sexualidade nem a homossexualidade são
tratados nos evangelhos. Era algo que não preocupava o profeta de Nazaré. Suas
prioridades foram sempre, pelo contrário, os marginalizados, os desprezado e os
que sofriam os açoites da injustiça social.
Por que então esse medo dos religiosos quanto ao exercício
da sexualidade, a força motriz não só dos humanos como também de toda a
natureza, já que do seu exercício depende a sobrevivência das espécies?
Talvez esse medo da sexualidade, que a Igreja sempre viu
como ameaça e pecado, alheia aos evangelhos, se deva a que a vida tem sido
vista mais sob o ângulo da dor e da renúncia que da felicidade e do prazer. A
Igreja associou tantas vezes o prazer ao pecado e a dor à virtude.
Renunciar ao exercício da sexualidade é para as Igrejas algo
mais digno e agradável a Deus que seu exercício. Durante muito tempo, a Igreja
exigia aos casais católicos que no exercício da sexualidade, destinada à
procriação, se abstivessem ao máximo de desfrutá-la. Copulava-se só para gerar,
durante os dias de fertilidade da mulher, para dar filhos a Deus. O prazer
deveria ser eliminado ao máximo.
Entretanto, recordo que no Concílio Vaticano II, convocado
pelo papa João XXIII, que foi considerado como o da revolução da Igreja, teve
lugar uma grande discussão sobre a finalidade da sexualidade humana. Aqueles
3.000 bispos de todo o mundo, reunidos em Roma, vindos dos cinco continentes,
pela primeira vez em 20 séculos de história da Igreja defenderam que a
sexualidade não era só um meio destinado à procriação, mas também “um
instrumento de diálogo” entre os seres humanos. Foi uma revolução copernicana.
Passaram-se mais de 50 anos daquele Concílio que devolveu à
sexualidade sua dignidade e sua condição de nova linguagem da comunicação
humana. É triste que ainda hoje, com a nova revolução dos gêneros e o maior
conhecimento sobre as diversas formas humanas de viver e exercer sua
sexualidade, sem distinções racistas ou farisaicas, a Igreja continue com esses
medos.
Medo não só da homossexualidade, como se se tratasse de uma
peste da qual defender os cristãos, e sim da própria sexualidade como tal. Algo
tão perigoso (na Igreja, chegou a falar-se em algo “sujo”) que hoje quer
proibir que se fale dela às crianças e jovens nas escolas.
Na verdade, por trás desse medo da sexualidade esconde-se
algo mais profundo e perigoso, que é a convicção de tantos religiosos de que
esta vida é só uma passagem para a eternidade. Que, aqui, quanto mais se sofra
e mais se castre o prazer e a felicidade, mais Deus abençoará.
Alguém estranha que esteja crescendo o número de agnósticos
e ateus no Brasil e no mundo? E que a religião, que deveria ser libertadora de
medos e tabus, oferta de felicidade e encontro espiritual e corporal, esteja se
tornando um perigo de alienação e discriminação?
Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

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