Olavo de Carvalho na Virgínia (EUA), em cena de 'O jardim
das aflições'
Publicado originalmente no site Brasil El País, em 02 de dezembro de 2018
Olavo de Carvalho, o Brasil só fala dele
Ignorado nas universidades do país e tido como figura
folclórica da direita nas redes sociais, filósofo sai da obscuridade ao indicar
dois ministros do novo Governo
Por Ricardo Della Coletta
O homem por trás da indicação de dois dos mais importantes
ministros do governo Jair Bolsonaro não é militar nem político. Não lidera
qualquer bancada de deputados na Câmara nem é porta-voz de uma frente
parlamentar temática que apoie o capitão reformado do Exército, como a
Evangélica ou a Agropecuária. Aos 71 anos, Olavo de Carvalho vive desde 2005
nos Estados Unidos, de onde ministra cursos de Filosofia que são transmitidas
por vídeos na Internet. Até pouco tempo atrás era tratado como uma espécie de
caricatura da extrema direita e do neoconservadorismo no Brasil, mas algo
definitivamente mudou com a eleição de Bolsonaro para a presidência da
República. Não só descobriu-se que Carvalho é o guru intelectual de alguns dos
mais próximos assessores do presidente eleito, como ele mesmo foi o padrinho
direto das nomeações de Ernesto Araújo para comandar o Ministério de Relações
Exteriores e de Ricardo Vélez Rodríguez para o Ministério da Educação (MEC).
A chamada nova direita que chegou ao poder pelas mãos de Bolsonaro,
que mistura a defesa do liberalismo econômico com o conservadorismo moral, tem
no filósofo brasileiro Olavo de Carvalho uma clara referência intelectual.
Tanto Flávio Bolsonaro, senador eleito pelo Rio de Janeiro e filho do futuro
presidente do Brasil, quanto seu irmão Eduardo já foram a Richmond, na
Virgínia, e participaram de transmissões no YouTube ao lado dele. A lista de
seguidores não para por aí: também estão entre os discípulos de Carvalho
personagens como o blogueiro de direita Felipe Moura Brasil e a deputada
federal eleita por São Paulo Joyce Hasselmann, do mesmo partido do presidente
eleito.
"Muito embora não seja um acadêmico, o Olavo de
Carvalho é um intelectual de influência considerável na opinião pública
brasileira. E já exerce uma atividade intelectual há várias décadas, primeiro
como articulista em grandes jornais e depois nas redes sociais, onde ele
difunde o seu pensamento e encontra os seus aderentes", explica Alvaro
Bianchi, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp). Apesar de ressalvar que "há pouca verdade" na
narrativa filosófica apresentada por Carvalho, Bianchi explica que ela se
mostra persuasiva e eficaz por abordar "os medos e as inseguranças do
homem comum perante as transformações do mundo contemporâneo."
Além de filósofo, Olavo de Carvalho é escritor —são 18
livros, segundo seu perfil no Twitter—, conferencista e jornalista. Ele se
apresenta como um intelectual (venerado por seu apoiadores como a mente que se
rebelou contra um suposto monopólio do pensamento de esquerda na imprensa e na
academia brasileira), mas construiu sua carreira sempre de costas para os
círculos universitários (não tem, por exemplo, um título acadêmico formal e boa
parte do seu trabalho concentra-se justamente em desqualificar a academia).
O desprezo parece ser recíproco nas faculdades brasileiras,
onde a obra de Carvalho é praticamente ignorada ou tratada como algo sem valor
científico. "Na minha geração e entre os meus colegas ninguém leu Olavo de
Carvalho. [Ele] é absolutamente irrelevante do ponto de vista filosófico",
afirma José Arthur Giannoti, professor emérito da Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP) e membro fundador do
Centro Brasileiro de Análise e Plenajemento (Cebrap). "Não tenho nenhum
interesse em ler o Olavo de Carvalho, a não ser [para] explicar como é que a
nova direita o tenha como um ídolo e que tanta gente no Brasil seja
influenciado por ele", acrescenta.
A imagem de outsider entre a intelectualidade brasileira só
é reforçada pelo seu passado pouco ortodoxo. Na década de 80 deu cursos de
astrologia e, por aqueles tempos, chegou a fazer parte de uma confraria mística
muçulmana (tariqa). Hoje denuncia em vídeos o que considera o perigo da
islamização do Ocidente e o abandono de valores judaico-cristãos.
O sucesso que Olavo de Carvalho atingiu na nova direita
brasileira, ao ponto de converter-se num fenômeno editorial e alcançar o status
de um verdadeiro guru, se deve principalmente à sua militância online ao longo
dos últimos anos. Ele mantém um perfil no Facebook que conta com mais de
543.000 seguidores. Para além disso, disponibiliza em sua web oficial um
seminário de filosofia —"o único que pode ajudar você a praticar a
filosofia em vez de apenas repetir o que outras pessoas, ilustres o quanto se
queira, disseram a respeito dela"— com videoaulas e cuja mensalidade custa
60 reais.
Os temas dos vídeos publicados por Carvalho na Internet são
vários. Já definiu o ex-presidente Lula como "líder supremo do comunismo
latino-americano"; considera o Foro de São Paulo, fórum criado nos anos 90
que reúne partidos de esquerda da América Latina, "a maior organização
política que já existiu no continente"; classificou o fascismo de
"variante do movimento socialistas" e afirmou que "ideologia de
gênero, abortismo e gayzismo" são parte de uma "revolução
cultural" coordenada por esquerdistas.
Nas publicações, não raro as suas análises se misturam com
teorias conspiratórias de procedência duvidosa —ou em alguns casos comprovadamente
falsas. Em um texto de novembro de 2008 intitulado Milagres da fé obâmica, por
exemplo, Olavo de Carvalho descreve Barack Obama, então o presidenciável
democrata prestes a arrematar a Casa Branca, como um político "apoiado
entusiasticamente pela Al-Qaeda, pelo Hamas, pela Organização de Libertação
Palestina, pelo presidente iraniano [Mahmoud] Ahmadinejad, por Muammar Khadafi,
por Fidel Castro, por Hugo Chávez e por todas as forças anti-americanas,
pró-comunistas e pró-terroristas do mundo, sem nenhuma exceção visível."
Num episódio mais recente, já na última campanha
presidencial brasileira, Carvalho publicou em suas redes sociais uma mensagem
na qual afirmava que Fernando Haddad, candidato do PT que acabou derrotado, fez
em um livro apologia à prática do incesto. O conteúdo da postagem,
posteriormente apagada por Carvalho, foi considerado mentiroso por sites de
checagem de informações no Brasil.
Para Esther Solano, professora da Universidade Federal de
São Paulo (Unifesp) e organizadora do livro Ódio como política (editora
Boitempo), assim como ocorreu no caso de Bolsonaro, a força de Olavo de
Carvalho no movimento neoconservador brasileiro só pode ser entendido a partir
do fenômeno das redes sociais. "[Ele] é a típica pessoa que soube se
capitalizar com base nesse novo formato de se comunicar: fácil, rápido,
polêmico e combativo", afirma. "Ele sabe se comunicar com base em
frases polêmicas, conteúdos curtos, mensagens fáceis e ataques. É a forma
comunicativa do best seller, daquele palestrante que tem um conteúdo muito
simples e mastigado. Uma coisa fácil, polêmica e que faz sucesso."
Guerra cultural
Se em seus textos e vídeos Olavo de Carvalho mostra-se como
alguém que transita com naturalidade entre diversos temas filosóficos e da
atualidade, um assunto parece merecer sua atenção especial. Trata-se da ideia
de "marxismo cultural", teoria conspiratória difundida em diversos
círculos de extrema direita ao redor do mundo. Basicamente, ela se apropria de
textos do filósofo marxista italiano Antonio Gramsci para atacar uma suposta
infiltração do pensamento comunista em diversas instituições culturais —de
escolas e universidades à própria imprensa— com o fim de destruir valores
civilizatórios.
Carvalho trata de adaptar essa teoria ao contexto
brasileiro. Há gravações na Internet nas quais ele diz que essa ação coordenada
de avanço da esquerda sobre as instituições brasileiras ocorreu a partir do
golpe militar de 1964. "Na estratégia do [Antonio] Gramsci [filósofo
marxista italiano] a maior parte da militância envolvida não saía pregando
ideias comunistas. Ao contrário, [ela] atacava pontos específicos que
representavam pilares da civilização, como a própria ideia de família, moral
sexual e as bases do direito penal e civil", diz Carvalho em um dos seus
vídeos. "Gradativamente eles [comunistas] foram ocupando todos os espaços.
Para se fazer uma ideia de como levaram isso a sério, no tempo do governo
militar a esquerda já dominava a imprensa brasileira inteira. Você não tinha um
jornal cujo diretor de redação não fosse comunista", conclui. A teoria
propagada por Carvalho pode ter pouco ou nenhum amparo entre historiadores e
especialistas, mas encontra solo fértil no neoconservadorismo brasileiro.
De acordo com Bianchi, da Unicamp, Carvalho
"reciclou" para o contexto brasileiro "de modo bastante
eficaz" um assunto que começou a ser discutido nos Estados Unidos na
década de 70. "A ideia de um marxismo cultural que estaria ameaçando os
valores e as tradições intelectuais das nossas sociedades é um tema recorrente
no debate político norte-americano já há bastante tempo", diz o professor.
Para Bianchi, que estuda justamente a obra de Gramsci, não há dúvidas de que as
teses apresentadas por Carvalho nessa área são teorias conspiratórias.
"Ele [Olavo de Carvalho] atribui um peso ao marxismo nas universidades
brasileiras que simplesmente não existe", pontua.
A ascensão de Bolsonaro tirou Olavo de Carvalho das sombras
e o colocou como uma das figuras centrais para compreender o que pensam tanto o
capitão reformado do Exército quanto algumas pessoas do seu círculo de
confiança. Carvalho tem sido alvo de elogios do secretário de relações
internacionais do partido do presidente eleito (PSL), Filipe Martins. "O
imaginário do jornalista brasileiro médio não é capaz de abarcar um homem de
pensamento, dedicado à vida interior e à construção de uma vida bem examinada,
como Olavo de Carvalho", publicou Martins recentemente no Twitter.
Para além disso, Carvalho já provou todo o alcance da sua
influência sobre Bolsonaro. Na formação do novo governo, o filósofo conseguiu
emplacar dois nomes na Esplanada dos Ministérios, justamente os de perfil mais
ideológico. Ernesto Araújo, por exemplo, é um diplomata que, à frente das
Relações Exteriores, promete combater o "alarmismo climático" e as
"pautas abortistas e anticristãs em foros multilaterais", segundo um
artigo que ele publicou na semana passada no jornal Gazeta do Povo. Os dias em
que Carvalho era retratado apenas como um excêntrico agitador de direita nas
redes sociais, sem maiores consequências, ficaram para atrás.
Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

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