Novo livro de Andrew Solomon aborda suicídio de famosos.
(MONTAGEM/TIMOTHY GREENFIELD-SANDERS/DIVULGAÇÃO)
Andrew Solomon: 'Estamos vivendo em tempos desesperados e
instáveis'
Autor do premiado 'O Demônio do Meio-Dia', sobre depressão,
doutor em Psicologia aborda suicídio de famosos em livro mais recente.
By Amanda Mont'Alvão Veloso
Desde que lançou um longo, visceral e acessível tratado
sobre a depressão — o livro O Demônio do Meio-Dia (Companhia das Letras) — em
2001, o norte-americano Andrew Solomon tem percorrido o mundo como uma voz e um
texto capazes de reunir plateias numerosas diante de um assunto bastante
evitado em nossa sociedade: o sofrimento.
A partir de um olhar sobre a própria depressão e de relatos
de quem passou por jornadas excruciantes similares, o doutor em Psicologia pela
Universidade de Cambridge trouxe o tema da saúde mental para as conversas
rotineiras e despertou perguntas onde elas não eram bem-vindas. Como a
depressão se manifesta? Qual a relação com nosso modo de viver? Em que medida
os tratamentos e medicamentos disponíveis trazem um enfrentamento efetivo ao
problema? As respostas permanecem múltiplas, insuficientes em alguns casos, e
pouco unânimes. Mas, pelo menos, a busca solitária de certas pessoas encontrou
companhia.
Autor de um contundente prefácio no livro que Sue Klebold
escreveu sobre o filho, Dylan, um dos garotos responsáveis pelo massacre de
Columbine, Solomon se interessa pelos humanos em seus matizes menos agradáveis
ou compreendidos. O preconceito dentro do contexto familiar sofrido por pessoas
com deficiências físicas, mentais e sociais ensejou o livro Longe da Árvore
(Companhia das Letras), publicado aqui em 2013.
Desta vez, anônimos e famosos que decidiram se matar são o
tema mais recente do consultor de saúde mental LGBT em Yale e professor de
psicologia clínica na Universidade de Columbia. Com edição exclusiva para o
Brasil, Um Crime da Solidão: Reflexões sobre o Suicídio (Companhia das Letras)
é uma coletânea de 9 artigos publicados em veículos como a revista New Yorker e
o jornal New York Times entre 2001 e 2018. Anthony Bourdain, Kate Spade, Robin
Williams, Sylvia Plath e pessoas bastante íntimas do autor dão rosto e
singularidade às suas palavras.
Em entrevista ao HuffPost Brasil por e-mail, o escritor
versa sobre a vulnerabilidade pouco admitida nas celebridades, a facilitação do
suicídio trazida pelo acesso a armas de fogo, a relação entre as mortes e
políticas de intolerância, e a urgência da prevenção do suicídio.
Leia a íntegra da entrevista:
HuffPost Brasil: A tristeza e a depressão são temas bastante
caros a você. O que você aprendeu com seus momentos mais agonizantes? E, na sua
opinião, qual o valor da tristeza para nossas vidas?
Andrew Solomon:O primeiro ponto a fazer é que tristeza e
depressão não são a mesma coisa. A tristeza é uma parte importante do espectro
de humor e seríamos desumanos sem ela. Se a morte daqueles que você ama não a
deixasse triste, você não se envolveria no amor como a conhecemos. Há um enorme
valor na tristeza; é o curso de todo o nosso envolvimento com o mundo. Já a
depressão representa um distúrbio do espectro do humor e, embora possa conter
tristeza, muitas vezes contém outros sintomas de forma mais proeminente. O
oposto da depressão não é a felicidade, mas a vitalidade, e é ela que
desaparece mais significativamente na depressão. Sentimentos de inutilidade,
desespero, isolamento e medo são todos parte do que se passa com você na
depressão, e qualquer um desses sentimentos pode ser motor do suicídio. Você
pode aprender muito com a depressão se ela não matar você, mas o que você
aprende não é sobre tristeza; é sobre o instinto de sobrevivência, sobre como
as pessoas continuam indo em frente diante do que parece ser um nível
insondável de desespero.
De que maneira o ato de falar sobre suicídio pode ajudar a
reduzir sua incidência? Há espaço para que o assunto seja falado?
Você pode levar as pessoas ao suicídio falando sobre isso;
você pode levar as pessoas ao suicídio sem falar sobre isso. É um dilema muito
inquietante. Falar sobre isso pode colocar a ideia na cabeça das pessoas.
Sempre que há um suicídio público amplamente coberto, as taxas de suicídio
aumentam; isso foi documentado pelo menos desde que Goethe publicou Os
Sofrimentos do Jovem Werther 2 séculos atrás, levando a uma onda de suicídios
imitativos. Mas o silêncio sobre o suicídio é igualmente perigoso. O sentimento
de solidão é um dos instigadores do suicídio, então é importante que as pessoas
que estão pensando em se suicidar saibam qual é o impulso, quem compartilha
desta situação e como a situação funciona a longo prazo. Aqueles que estão bem
informados sobre o suicídio são mais capazes de evitá-lo; eles entendem que
trata-se de um distúrbio psicológico que pode estar sujeito a melhorias e que o
suicídio é uma solução permanente para um problema temporário. Eles aprendem
como o suicídio é comum e quantas pessoas estão sob sua influência; a partir
disso, entendem como outras pessoas conseguem combatê-lo.
O oposto da depressão não é a felicidade, mas a vitalidade.
É ela que desaparece mais significativamente na depressão. Sentimentos de
inutilidade, desespero, isolamento e medo podem ser motor do suicídio.
No livro você afirma que o controle de armas de fogo seria a
forma mais eficaz de reduzir suicídios nos Estados Unidos (ele traz o dado de
que 50% dos suicídios americanos envolvem arma de fogo). Poderia falar mais
sobre essa questão?
Mais americanos morrem de suicídio por arma de fogo do que
por homicídio por arma de fogo. Mais membros das Forças Armadas dos EUA cometem
suicídio do que morrem em ação. O acesso a um meio de suicídio aumenta sua
probabilidade. Alguns especialistas argumentaram que, se as pessoas não
tivessem acesso a uma arma, encontrariam outra maneira, mas nossa descoberta
atual é que, se você tirar um meio de suicídio, as pessoas têm tempo para
pensar em seu impulso e agir para contê-lo. Quando altas barreiras foram
erguidas ao longo da Ponte Golden Gate, em São Francisco, a taxa de suicídio na
cidade diminuiu. As armas são os meios mais fáceis e eficazes de suicídio e
estão entre os mais frequentes. Se as pessoas não pudessem colocar as mãos tão
prontamente nessas armas, a taxa de suicídio diminuiria.
Por que o suicídio de uma celebridade choca tanto?
O culto da celebridade que vivemos hoje nos faz pensar que
pessoas muito famosas têm tudo na vida e oferece a falsa promessa de que se
pudéssemos ter tudo isso sozinhos, estaríamos livres de sentimentos negativos e
desfrutaríamos de nossas realizações. Claramente não é o caso: celebridades
frequentemente cometem suicídio, mas mesmo aquelas que não lutam contra um
vício, acabam passando por vários divórcios terríveis, ou têm filhos com algum
diagnóstico e assim por diante. Nós sabemos disso, pois é o material das
intermináveis revistas de fofocas. De alguma forma, sentimos como se essas
pessoas fossem imunes à dor, mesmo quando passam por esses desafios. Dependemos
de celebridades como nossos guias: é assim que você gostaria que fosse sua vida.
Quando ocorre de eles terem níveis tão altos de desespero, ficamos chocados com
isso e todo o nosso mundo desmorona um pouco. Temos que encarar a ideia de que,
mesmo se nos casássemos com uma estrela, ganhássemos uma enorme quantidade de
dinheiro e tivéssemos toda a bajulação do mundo, ainda poderíamos achar a vida
intolerável.
As armas são os meios mais fáceis e eficazes de suicídio e
estão entre os mais frequentes. Se as pessoas não pudessem colocar as mãos tão
prontamente nessas armas, a taxa de suicídio diminuiria.
As notícias do suicídio de um famoso costumam destacar os
valores e qualidades daquela pessoa, além de suscitar comoção entre a
sociedade. Esse tipo de cobertura pode contribuir para que se construa uma
certa idealização em torno de ser homenageado ou finalmente reconhecido após a
própria morte?
O suicídio faz as pessoas famosas ficarem mais famosas, pelo
menos temporariamente. Então isso é tentador. O suicídio deixa uma marca em
muitas pessoas ao redor da pessoa que comete, seja ela famosa ou não. Afeta
todos que a conhecem ou amam, todos que a admiram. A cobertura jornalística de
um suicídio costuma ser elogiosa para a pessoa que morreu e, às vezes, isso
pode acabar glamurizando o suicídio. Nós gostamos de tragédias; o fim trágico
sintetiza a vida vivida antes.
O isolamento pode apontar para um maior risco de suicídio.
Qual a importância de se compartilhar o sofrimento e construir redes de
convívio e proteção?
O isolamento de fato impulsiona as pessoas ao suicídio. E
uma das melhores coisas que podemos fazer para prevenir o suicídio é oferecer
às pessoas uma rede melhor. Um terapeuta pode ajudar a atravessar algumas
formas de isolamento, assim como vários suportes sociais. Recebo cartas com
bastante frequência de pessoas que se levantam de manhã e comem alguma coisa,
vão trabalhar na frente de uma máquina o dia todo (em uma fábrica ou em um
computador), depois pegam alguma comida, voltam para casa e comem na frente de
um aparelho de televisão. Essas pessoas são, muitas vezes, suicidas; mas o
discurso social é profundamente útil para gerar um senso de equilíbrio, um
sentimento de que você tem um propósito no mundo. Compartilhar seu sofrimento
geralmente alivia. Quando você fala sobre o que incomoda, o fardo se acalma,
ainda que pouco e temporariamente. Falar sobre o que está machucando você com
alguém que tem empatia pode ser a defesa mais importante contra a depressão
profunda e o suicídio.
Como o discurso de ódio e o incitamento à violência poderiam
não fomentar o desespero? Quando você desumaniza outras pessoas, você se
desumaniza.
Outra questão trazida pelo livro são os efeitos da aceitação
do preconceito e da intolerância pela sociedade. Você se refere à atual gestão
de Donald Trump nos Estados Unidos? De que maneira os discursos de ódio e de
incitação à violência podem fomentar o desespero e a vulnerabilidade dos
cidadãos?
Como o discurso de ódio e o incitamento à violência poderiam
não fomentar o desespero? Quando você desumaniza outras pessoas, você se
desumaniza. Quanto mais ódio existe no mundo, mais as pessoas são vítimas dele.
Ser vítima do ódio predispõe você a se desvalorizar. E o suicídio é muito mais
fácil de ocorrer depois de se desvalorizar. Eu não conheço as estatísticas
sobre suicídio desde que Trump assumiu o cargo, então eu estaria extrapolando
limites ao afirmar sobre isso. Mas acho que mais pessoas vivem hoje com terror
e ansiedade. Acho que mais pessoas têm medo de ser honestas com seus vizinhos.
A violência gera violência e, às vezes, as pessoas direcionam essa violência
contra si mesmas. Estamos vivendo em tempos desesperados e instáveis. Na semana
após a eleição [de Trump], meu terapeuta me contou, que, pela primeira vez em
seus 40 anos de prática, todos os pacientes que foram vê-lo falaram sobre o
impacto negativo que associaram ao que aconteceu. Todos eles estavam com medo.
A série 13 Reasons Why colocou o assunto suicídio em pauta
não só entre os jovens, como também entre seus pais, cuidadores e professores.
Ao mesmo tempo, foi criticada por sua abordagem explícita. Como você recomenda
a discussão do suicídio na adolescência, considerando que esta é a terceira
maior causa de mortes entre os jovens americanos?
A série foi julgada por glamurizar o suicídio para tornar o
assunto mais acessível. Eu não assisti a tudo e não posso comentar
especificamente. Mas, como disse antes, há um equilíbrio entre glamurizar o ato
e ocultar suas ocorrências. Precisamos conversar com adolescentes sobre como o
pensamento em suicídio é algo que pode ocorrer a eles, mas que jamais deve ser
executado. Temos que mostrar a eles os efeitos devastadores de um suicídio em
todos que o rodeiam. Precisamos falar sobre como as pessoas que se sentem
suicidas geralmente estão se sentindo assim temporariamente, e como até mesmo o
impulso de se matar parece um insight; é realmente um estado mental passageiro
que dará lugar a outros, com melhores impulsos. Mas não devemos ser macabros
nisso; não devemos nos deter em métodos de suicídio (o que pode fazer os
adolescentes perceberem como podem fazê-lo sozinhos). Nós não devemos fazer um
estardalhaço sobre os funerais ou outras formas de atenção póstuma que podem
parecer tão atraentes. O suicídio é resultado de uma doença mental e essa
doença mental é tratável. Ela pode ocorrer com qualquer um, e quase todo mundo
pode melhorar. Esta é a mensagem simples que precisamos transmitir.
O suicídio é resultado de uma doença mental e essa doença
mental é tratável. Ela pode ocorrer com qualquer um, e quase todo mundo pode
melhorar.
Texto e imagem reproduzidos do site: huffpostbrasil.com

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