A filósofa norte-americana Judith Butler em Guadalajara (México).
Guadalajara (México) 29 de novembro de 2018
Judith Butler: “Matar é o ápice da desigualdade social”
Filósofa norte-americana, alvo de protestos no Brasil no ano
passado por sua teoria sobre gênero, prepara uma nova obra sobre a ética da não
violência
Por Marién Kadner
Judith Butler (Cleveland, 1956) não é só uma das filósofas
mais influentes nos estudos de gênero, mas também, talvez a contragosto, uma
ativista. É profundamente acadêmica em seu discurso, mas não precisa de
megafones para espalhar sua mensagem, porque mede cada palavra e assim consegue
incendiar os corações. “Aceitamos que todos aqueles que são privados da vida
através da violência sofrem uma injustiça radical”, explica, falando a respeito
de sua nova teoria sobre a não violência, ainda em desenvolvimento. “Será
possível que algumas vidas sejam consideradas merecedoras de luto, e outras
não?”, continua. Sua reflexão ganha especial relevância num país como o México,
onde casos como o de Ayotzinapa, as dezenas de milhares de desaparecimentos
forçados e as valas comuns clandestinas revelam-se como terríveis comprovações
da sua análise, onde nem as vítimas nem seus próximos ainda podem estar em paz.
“Matar é o ápice da desigualdade social”, sentencia com frieza em Guadalajara
(México), onde proferiu uma conferência que foi parte da Feira Internacional do
Livro.
Butler foi recebida nesta terça-feira como uma estrela do
rock no anfiteatro da Universidade de Guadalajara, decorado em 1936 pelo muralista
mexicano José Clemente Orozco. A feminista norte-americana irrompe, miúda,
entre aplausos e vivas. Há forte expectativa por parte do público, composto em
sua maioria por mulheres jovens. Os mais desafortunados ainda fazem fila, em
vão. “Muito obrigado”, inicia, falando espanhol com forte sotaque
norte-americano. Ela agora prepara um livro sobre a não violência, a ser
lançado no ano que vem, depois de escrever uma das obras fundadoras da teoria
queer, Problemas de Gênero (Civilização Brasileira, 2003), onde defende que nem
o gênero nem o sexo nem as orientações sexuais são naturais, e sim uma
construção social —uma tese que rendeu protestos em São Paulo no final do ano
passado, quando um punhado de manifestantes ultraconservadores contra o que
chamam de "ideologia de gênero" exigiu o cancelamento de uma palestra
dela no Sesc Pompeia, que acabou acontecendo.
A conferência desta terça-feira é uma antecipação dessa
teoria. “A não violência deve ser uma posição ativa e apaixonadamente
perseguida”, afirma a doutora pela Universidade de Yale, hoje professora em
Berkeley. Sua análise parte da ideia de que as sociedades estão divididas em
dois grupos de pessoas: aqueles cujas vidas têm que ser protegidas, e aquelas
que são dispensáveis, o que depende de sua raça, gênero e posição econômica.
“As mulheres são assassinadas não pelo que fazem, mas sim pelo que são [...],
pelo fato de serem femininas, e isto inclui as mulheres trans”, diz. “Assim
como as mulheres são consideradas propriedade do homem, sua vida e sua morte
são mantidas pelo homem.”
Orgulhosa do movimento Nenhuma a Menos, que conseguiu se
expandir pela América Latina, a professora ressalta a importância de ter podido
transformar a categoria das mulheres em um coletivo. “Nos EUA só acumulamos
histórias individuais, porque estamos entregues ao individualismo”, critica.
Inserida na filosofia pós-estruturalista, insiste na importância da utilização
da linguagem, que estrutura nosso mundo: “’Nenhuma a menos’ quer dizer que
continuarão vivas e que nenhuma a mais será perdida”.
Butler, de origem judaica, acredita que todo o mal tem
início com um muro erguido como defesa entre identidades, e por isso critica
com dureza a visão do “regime de Trump” de que a caravana dos imigrantes só
levará morte ao seu “pacífico” país, como aponta com ironia. Esse medo é para
ela uma fantasmagoria, uma mera ilusão. “Devemos estar atentos àqueles que veem
ameaças fantasmagóricas em identidades diferentes, que detêm ou indiretamente
permitem que o migrante seja morto”, adverte a pensadora. “Novas formas de
fascismo estão aparecendo no Brasil e nos Estados Unidos, mas também na
Hungria. E ameaçam obter um maior poder na Alemanha. Todas elas reanimam o
conceito de nação, em nome da pureza étnica e de uma perniciosa rejeição a
reconhecer a igualdade dos seres humanos.” O aviso está dado.
Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

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