quarta-feira, 14 de junho de 2017

Toda mulher é meio Leila Diniz

Foto: Antônio Guerreiro

Toda mulher é meio Leila Diniz.

Publicado em recortes por Vitor Dirami.

Atriz popular, símbolo sexual, transgressora e ícone feminista. Amada e odiada, seu comportamento desafiou uma ditadura e o destino tratou de fazer dela um mito. Afinal, quem foi Leila Diniz?


"...Toda mulher quer ser amada / Toda mulher quer ser feliz / Toda mulher se faz de coitada / Toda mulher é meio Leila Diniz." Assim disse Rita Lee na canção "Todas as Mulheres do Mundo". Mas quem foi Leila Diniz? Uma das brasileiras mais marcantes do século XX, nascida em Niterói, à época capital do estado do Rio de Janeiro, em 25 de março de 1945.

Sagaz, desbocada e esperta, vinda de uma família de classe média, desde pequena já chamava a atenção pelo comportamento "diferente" e pelas ideias que tinha. Formou-se em magistério e dos 15 aos 17 anos de idade foi professora do maternal e jardim de infância no subúrbio carioca. Já naquela curta experiência ficou marcada a sua inadaptação aos costumes. Por exemplo, Leila chegou a abolir a mesa de professora para ficar sempre entre os alunos, queria mudar a maneira como se tratavam as crianças. Era bastante querida, mas seu comportamento causou desagrado. Cansada de brigar com os pais e a diretora da escola, Leila se demitiu e nunca mais voltou a lecionar.


Aos 17 anos, conheceu o diretor de cinema Domingos de Oliveira. Um dos grandes amores de sua vida. Ficaram juntos apenas três anos, mas tempo suficiente para que Leila descobrisse uma outra paixão: atuar. Leila começou a carreira de atriz atuando em peças de teatro infantis, fazendo anúncios de comerciais e pequenas figurações em filmes e participações menores em programas de televisão.

Leila já estava separada de Domingos de Oliveira quando atuou sob a direção dele no filme Todas as Mulheres do Mundo (1967). Nessa deliciosa comédia carioca, um dos maiores sucessos nacionais de público e crítica nos anos 60, o conquistador Paulo (Paulo José) vive os dilemas entre a vida de solteiro e o casamento com sua amada Maria Alice (Leila Diniz). Cheio de referências ao romance de Leila e Domingos de Oliveira, o filme se tornou um clássico do cinema brasileiro, que catapultou Leila ao estrelato nacional.

Embarcando no sucesso do cinema, Leila tornou-se a grande estrela da Rede Globo (então TV Globo), fundada apenas dois anos antes, em 1965. Na emissora carioca, que ainda engatinhava, Leila estrelou as telenovelas Eu Compro Esta Mulher (1966) e O Sheik de Agadir (1966/1967), dois grandes sucessos de audiência, ambos de Glória Magadan, novelista cubana radicada no Brasil.

Uma ingênua "Quase que de propósito" Em pouco tempo tempo, Leila Diniz tornou-se uma das atrizes mais populares do Brasil. Mas seu comportamento liberal e seu estilo de vida desencanado dividiam opiniões. Leila era autêntica, controversa, desbocada e desprendida. Mesmo com o alto nível de popularidade que gozava, ela dizia que não sabia ganhar dinheiro, gostava mesmo era de trabalhar com quem a divertia, não importando quem fosse ou o quanto ela ganharia por aquele trabalho. Extremamente simpática e carismática, se dava muito bem com os fãs, principalmente com as crianças, entre as quais fazia um grande sucesso. Leila só abria uma reticência - não gostava de ser abordada na praia. Lugar que era quase uma extensão do quintal da casa dela.

Sua beleza não era extraordinária. Fora suas curvas generosas, aquilo que a tornava fenomenal era a sua alma carioca, aliada a uma sensualidade explosiva e uma ingenuidade "quase que de propósito" - como se ela não fosse aquela sex-symbol que a mídia propagava. Mas Leila parecia mesmo um vulcão sempre prestes a entrar em atividade. As aparições sempre bombásticas, os papéis sexy que ela fazia no cinema e na televisão e a personagem fomentada pela mídia da época criaram a imagem de uma mulher explosiva, sedenta por sexo, que quebrava tabus e não respeitava nenhum dogma imposto, escandalizando a tudo e todos. O que viria a causar bastantes problemas para a atriz no futuro.

Palavrões, polêmicas e polícia política Em 1969, Leila foi entrevistada pelo semanário carioca O Pasquim, na edição de novembro. O tabloide editado pelos intelectuais Jaguar, Tarso de Castro, Sergio Cabral e Ziraldo, tornou-se um símbolo da oposição ao Regime Militar no Brasil. Considerado subversivo pela polícia política, o exemplar com maior número de vendagens foi justamente o que trazia a entrevista de Leila. Na sabatina de sete páginas, Leila falou abertamente sobre tudo - carreira, cinema, teatro, sexo, amor e afins. As declarações de Leila - totalmente desinibida - chocaram a sociedade de um jeito nunca antes visto, e causaram um dos maiores rebuliços da história da imprensa no Brasil. Foi nessa fatídica entrevista que substituíram os muitos palavrões que Leila falava por asteriscos. Foi ali que ela também proferiu sua frase mais polêmica: "Você pode amar muito uma pessoa e ir pra cama com outra. Isso já aconteceu comigo."

Tudo isso teve um preço, e foi logo depois da publicação dessa entrevista que foi instaurada a censura prévia à imprensa, mais conhecida como Decreto Leila Diniz. É necessário abrir um parêntese para ilustrar a situação sócio-política do Brasil à época. O país vivia um dos períodos mais tensos da Ditadura Militar, que endurecia o regime gradativamente após o decreto do Ato Institucional Nº5 (AI-5) que dava ao regime, na pessoa do presidente da república, poderes absolutos e extraordinários. Vivia-se uma época de perseguição política em que qualquer cidadão considerado subversivo estava na mira da polícia política.

"Não quero brigar nunca, e queria mesmo é fazer amor sem parar" Sendo assim, Leila se tornou uma das vítimas da repressão da Ditadura Militar. Mesmo que ela jamais tivesse qualquer engajamento político, seu comportamento independente, liberal, que levantava uma bandeira ao amor livre e à liberdade feminina, representava uma ameaça à moral e aos bons costumes, à seriedade e robustez do regime - regime este feito por homens, que viram naquela mulher um grande incômodo. Leila ia diretamente contra a ideologia do regime. Passou a ser vista como uma anarquista social, uma mulher promíscua, que não tinha vergonha ou pudor em debater publicamente os assuntos relacionados a sua sexualidade. Viviam-se os anos 60, época da revolução comportamental e da liberação sexual: nada mais natural do que ter Leila Diniz como ícone do movimento, mas tal era inadmissível num país que vivia nas trevas de uma ditadura. Mas Leila estava muito alheia daquilo tudo, só queria amar e ser livre. "No fundo, eu sou uma mulher meiga, adoro amar, não quero brigar nunca, e queria mesmo é fazer amor sem parar."

Leila passou a viver um dos piores momentos de sua vida. Vigiada pelos militares, sempre atentos aos seus passos, execrada pela direita e criticada pela esquerda. Ela também provocou indignação nas feministas tradicionais, que a acusavam de "servir aos homens". Formou-se uma espécie de boicote à atriz, que passou a ter dificuldades até para trabalhar. Conta-se que a TV Globo, pressionada pelos militares, preferiu não renovar o contrato dela.

Em 1970, no auge da polêmica, Leila foi chamada para compor o juri do Programa Flávio Cavalcanti. O histriônico Flávio foi um dos apresentadores mais controversos da televisão brasileira, famoso pelas polêmicas em que se metia com outros artistas. Na briga pela audiência, seus programas deixavam a concorrência comendo poeira. Quando ele chamou Leila para participar do programa, o circo estava armado. Acusada de proteger militantes da esquerda, Leila foi perseguida pela polícia política, que foi até os estúdios da TV Tupi no Rio de Janeiro, bairro da Urca, para prendê-la. Flávio Cavalcanti, então, escondeu-a em sua de campo em Petrópolis. Depois desse episódio, a censura resolveu tirar o programa do ar.

Meses depois, Leila reabilita o teatro de revista, com sucesso, na revista musical Tem Banana na Banda. No espetáculo, estilizado à la Carmen Miranda, ela improvisava textos escritos por amigos, como Millôr Fernandes, Luiz Carlos Maciel, José Wilker e Oduvaldo Viana Filho. Repercutindo o sucesso, ela recebeu das mãos de Virgínia Lane, a maior vedete do teatro de revista no Brasil dos anos 40, o título de Rainha das Vedetes. No carnaval de 1971, foi eleita Rainha da Banda de Ipanema por Albino Pinheiro, o fundador do tradicional bloco de rua carnavalesco da Zona Sul do Rio de Janeiro.

Quebrando tabus: uma grávida na praia Em 1971, grávida de sua única filha, Janaína, Leila também provocou um escândalo ao aparecer na praia, de biquíni, ostentando uma enorme barriga de seis meses. A atitude de Leila não era comum na época: as mulheres não iam à praia grávidas, e ainda mais vestindo biquíni. Leila acabou quebrando mais um tabu sem querer - conta-se que ela teria ido à praia principalmente porque o seu médico lhe disse que o sol faria bem ao bebê.

Nascida em em 1971, Janaína Diniz Guerra viveu apenas sete meses de sua vida ao lado da mãe, Leila Diniz. Durante esses sete meses, Leila amou muito sua filha e aproveitou intensamente os momentos que teve com ela, levou a menina para o carnaval de 1972 e chegou até a amamentá-la no meio da folia. Leila não sabia que seus dias juntas estavam a terminar.

De volta de uma viagem à Austrália, para promover o filme Mãos Vazias (1971) de Luiz Carlos Lacerda num festival de cinema, Leila morreu em um desastre aéreo, voo JAL 471 da companhia aérea Japan Airlines, no dia 14 de junho de 1972. O avião colidiu contra o solo nas margens do Rio Yamuna, na cidade de Nova Delhi, capital da Índia. 85 passageiros morreram, entre eles, Leila Diniz. Milagrosamente, cinco pessoas escaparam do desastre com vida. Diz-se que aquele não era o seu voo; ela teria decidido voltar antes para ficar ao lado de Janaína. Tinha apenas 27 anos de idade.

A grande estrela tornou-se um mito. Em sua carreira, ao todo, fez quatorze filmes no cinema e doze telenovelas. A atriz Marieta Severo e seu ex-marido, o compositor e cantor Chico Buarque, cuidaram da filha de Leila Diniz e Ruy Guerra por muito tempo, até que o pai dela tivesse condições de assumir a criança. Leila morreu jovem, cedo demais, rápido demais. Mas viveu intensamente. Como a maioria das grandes divas, teve uma vida breve, intensa, uma morte triste e deixou um legado incalculável. Seu mito é o de uma das brasileiras mais significativas do século XX.

"Sem discurso nem requerimento, Leila Diniz soltou as mulheres de vinte anos presas ao tronco de uma especial escravidão.", disse Carlos Drummond de Andrade.

 Texto e imagem reproduzidos do site: obviousmag.org

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