domingo, 23 de março de 2025

“Persuadir não é manipular..."

Artigo compartilhado do site PORTAL TERRA DA LUZ

“Persuadir não é manipular! E entender a diferença pode ser a chave para uma comunicação de sucesso nos negócios”

Por Giovana Pedroso*

Está nas conversas verdadeiras, com perguntas interessadas e menos respostas prontas, o caminho assertivo para uma comunicação realmente persuasiva.

Sabe quando você disse sim para uma caminhada de fim de tarde com o amigo que o chamou justificando que voltariam “mais relaxados” e trabalhariam melhor no dia seguinte? Você foi persuadido e provavelmente não entendeu.

Antes que você lembre de momentos iguais a esse e talvez até se surpreenda por perceber que foi persuadido, é importante dizer que não existe nada de errado em ser o alvo dessa estratégia ou usá-la a seu favor. Inclusive, a melhor estratégia de persuasão é aquela que não foi percebida. É como um truque de mágica: se você descobrir, a magia acaba.

Mas diferente de um truque, na comunicação persuasiva não há espaço para ilusões ou mentiras.

Nas palestras e treinamentos que facilitam, é comum observar a confusão entre persuasão e manipulação. Fundamental dizer que são conceitos diferentes. Por desconhecer isso, muitos profissionais rotularam a comunicação persuasiva como um truque moralmente errado. Neste texto, eu explicei por que ela não é.

Vamos começar diferenciando persuasão, convencimento e manipulação?

Persuasão é uma palavra que deriva do latim “persuadere”, numa tradução livre significa aconselhar alguém até fazer-lo agir de acordo. Persuasão pressupõe ação. É dizer sim, é comprar, é fazer. Observe que é diferente de conceber, pois posso ser concluído de que fazer exercícios físicos é importante, mas nem sequer me matricule em uma academia.

Percebeu que convencer é vencer só no campo das ideias?

Persuadir é agir.

Já a manipulação é o caminho moralmente errado.

Manipular pressupõe mentir, omitir informações ou distorcer fatos para levar alguém à ação. Não vamos entrar neste momento em uma discussão sobre valores, ética e moral, mas racionalmente, quem escolhe manipular faz isso porque falta esclarecer para construir argumentos bem fundamentados que justifiquem o benefício mútuo da ideia.

Em outras palavras, se nem você sabe bem por qual razão seu produto, serviço, ideia ou recomendação podem fazer a diferença, como espera que o público saiba?

A não ser que a sua intenção seja mesmo a de enganar ou treinar alguém – e gosto de acreditar que não –, alerta que a manipulação é usada mesmo sem querer quando buscamos resultados rápidos. Na pressa, acaba faltando tempo, esforço e técnica para descobrir o que é importante para quem vai se sentar na sua frente ou vai acompanhá-lo do outro lado da tela.

Entenda que sua empresa ou ideia podem ser as coisas mais importantes do mundo para você, mas para um público que tem sonhos, desejos, necessidades e problemas reais, acredite, dizer que você é uma empresa inovadora um pouco vai importar.

Não pode fazer sentido somente para você

Quando você entende o que faz sentido para quem está sentado à sua frente e não o que faz sentido somente para você ou para sua empresa, o caminho para a persuasão começa a ser construído.

Entender tudo isso pode até ser útil, mas não pague as suas contas, acertei? Possivelmente você espera que eu aponte caminhos para a persuasão que ultrapassem a barreira do “gerar consciência” sobre ela.

Algumas rotas úteis para ser mais persuasivo incluem comportamentos básicos, mas muito negligenciados: investir tempo para conversar com seus clientes ou públicos ideais; fazer mais perguntas e ter menos respostas prontas; entender por que compram de você, descobrir quais são seus maiores desafios e necessidades; Perceba como as pessoas veem você ou a sua empresa.

Ouça e depois volte para sua mesa, fale em voz alta o que descobriu em cada conversa e se responde: como o que eu faço pode ser útil?

O que vem a seguir pode ser usado o que é importante para o seu público na construção das narrativas que guiarão a sua comunicação, seja em um pitch de vendas ou em uma reunião. Quanto mais investimento emocional, mais persuasão. Mas esse é assunto para uma outra conversa.

Agora que você já concorda que a persuasão é uma estratégia não só eficaz, como também moralmente adequada, conte-me qual será a próxima situação que você usará a comunicação persuasiva?

* Giovana Pedroso é palestrante TEDx, jornalista e especialista em comunicação.

Texto e imagem reproduzidos do portalterradaluz com br 

sábado, 22 de março de 2025

Cérebros apodrecidos

 Henry David Thoreau

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 21 de março de 2025

Cérebros apodrecidos

Se a sua vida se resume basicamente a introjetar, sem piedade, toneladas de lixo na sua mente, ela passará a viver disso. Dennis Xavier para a Crusoé:

“Cérebro apodrecido” (brain rot, em inglês) foi eleito o termo do ano pelo dicionário de Oxford.

A expressão se refere a uma sensação, conhecida de muitos de nós, que deriva de consumo excessivo de conteúdos triviais, simplórios e banais que inundam especialmente as redes sociais: aquela constatação incômoda de que o cérebro vai se dissolvendo em meio a tantas bobagens e notícias ruins.

Bem, ainda não há comprovação científica de que o cérebro realmente “apodreça” ao consumir o chorume do mundo virtual.

Mas os estudos estão apenas no início e não devem tardar em evidenciar aquela intuição que quase todos nós temos e que ficou impressa num dito estoico: se você frequenta um limpador de chaminés, fatalmente sairá sujo de fuligem.

É o óbvio ululante!

Diga-me no que prestas atenção e te direi quem és!

Se a sua vida se resume basicamente a introjetar, sem piedade, toneladas de lixo no cérebro, ele passará a viver disso, a se alimentar disso e a reproduzir ideias e comportamentos a altura.

Estamos caminhando perigosamente para uma sociedade ancorada em indivíduos que não conseguem concatenar pensamentos mais complexos, que demandem conexões causais não óbvias e que, em suma, não conseguem lidar com problemas não triviais.

É o império da platitude e da ignorância sistêmica.

Henry David Thoreau, primeiro a escrever sobre apodrecimento cerebral, abordou a questão um bom tempo antes da internet e de seus efeitos potencialmente catastróficos.

Em seu livro Walden ou A vida nos Bosques, de 1854, ele criticou a tendência da sociedade em desvalorizar ideias complexas em favor das mais simples.

“Enquanto a Inglaterra se esforça para curar a praga da batata, não haverá nenhum esforço para curar a praga do cérebro — que prevalece muito mais ampla e fortemente”, escreveu Thoreau.

Mais recentemente, em 1953, Ray Bradbury – autor da clássica distopia Fahrenheit 451 – toca a questão da superficialidade de uma vida cercada por telas que emitem nada mais do que, eu diria, conteúdos misológicos, anti-intelectuais: gente que toma um livro de qualidade por ameaça, que passa toda uma vida dedicada a obscenidades intelectivas de baixo nível em telas espalhadas por todos os lados.

Assustadoramente atual…a sociedade disfuncional descrita no livro de Bradbury é exatamente a que estamos construindo para nós, segundo demanda nossa!

Apenas reverendíssimos apedeutas agem assim diante de seus próprios destinos.

Ainda em 1960, o autor relatou:

“Escrevendo ‘Fahrenheit 451’, eu pensei que estava descrevendo um mundo que talvez ‘aconteceria’ em quatro ou cinco décadas. Mas, há algumas semanas, numa noite em Beverly Hills, um casal passou por mim caminhando com seu cachorro. Eu fiquei olhando para eles, absolutamente pasmo. A mulher segurava, em uma mão, um rádio, em forma e tamanho mais ou menos de um pacote de cigarro, com uma antena balançando. Dele, saía um minúsculo cabo de cobre que terminava em um delicado fone em forma de cone ligado na sua orelha direita. E ela ia 'voando', sonâmbula, esquecida do homem e do cão, escutando à novela que tocava no rádio, guiada por seu marido que provavelmente não estava nem aí. Isso não era ficção”.

Com o advento dos smartphones, quem nunca, não é mesmo?

Não bastasse tudo, a rolagem excessiva de feeds de redes sociais pode levar a níveis mais elevados de sofrimento psicológico e níveis mais baixos de bem-estar mental, como apontou pesquisa da National Library of Medicine.

Logo, meus amigos… não é que devamos arremessar nossas telas no fogo. Mas precisamos de menos tempo com elas diante dos olhos e de maior qualidade no que frequentamos. Isso, claro, se não quisermos ver nossos cérebros “apodrecer”.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

terça-feira, 11 de março de 2025

A vida nada fácil das profissionais do sexo...

 

Legenda da foto: 90% das mulheres trans e travestis são obrigadas a tirar o sustento do próprio corpo –  (Crédito da foto: Pritty Reis)

Publicação compartilhada do site da REVISTA AFIRMATIVA, de 12 de janeiro de 2022

A vida nada fácil das profissionais do sexo nas esquinas da Bahia e de Sergipe

“Três pessoas saíram do carro com paus e eu saí correndo. Me derrubaram em uma vala e começaram a me dar pauladas. Pularam em cima de mim, chute, pedrada, e a única forma que eu tive para me salvar foi me fingir de morta. Prendi minha respiração por alguns minutos e eles começaram a diminuir o enforcamento

Retratos de violências e exclusões vividas por mulheres (cis e trans) que atuam como profissionais do sexo nas ruas 

Por Brenda Gomes e Díjna Torres

Arte: Ani Ganzala

“Três pessoas saíram do carro com paus e eu saí correndo. Me derrubaram em uma vala e começaram a me dar pauladas. Pularam em cima de mim, chute, pedrada, e a única forma que eu tive para me salvar foi me fingir de morta. Prendi minha respiração por alguns minutos e eles começaram a diminuir o enforcamento e eu percebi eles indo embora. Eu fiquei com muito medo de eles voltarem, de abrir os olhos”. O relato é de Linda Brasil, mulher trans, vereadora (PSOL) mais votada em Aracaju nas eleições 2020. O fato aconteceu quando ela trabalhava como profissional do sexo. 

“Ele parou no ponto, perguntou o valor do programa. Eu cumpri o que combinamos, mas além de não querer me pagar o que havíamos combinado, ele não queria me deixar sair do quarto. Foi quando eu comecei a gritar para sair. Ele me apertava e começou a me bater, ele dizia que estava armado, que ia me matar. Precisei ficar quieta como forma de me defender. Só pensava no meu filho e que não sairia de lá viva. Fui obrigada a ter relação com ele novamente. Essas coisas não acontecem sempre, mas quando acontecem você se sente ainda mais desumanizada, sem apoio e sem ninguém.” Relata Beatriz Barbosa*, 33, garota de programa em Salvador na Bahia.

Seja em Sergipe ou na Bahia, seja cis ou trans, as histórias das mulheres que trabalham como profissionais do sexo no Brasil se cruzam. Marcadas pelas violências e opressões, a “vida fácil”, como é preconceituosamente denominada, está atrelada muitas vezes a fatores relacionados a desigualdade de gênero, socioeconômicas e raciais. Apesar dos avanços nos estudos relacionados à violência de gênero, considerada um problema global, raramente nestas discussões são incluídas a violação de direitos e abusos vivenciados por essas mulheres.

Ainda são poucos os dados referentes a violência contra as profissionais do sexo no Brasil. A pesquisa da Faculdade de Ciências da Saúde de Brasília, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz, entrevistou prostitutas em dez cidades brasileiras. De acordo com o estudo, 66,4% das entrevistadas já se sentiu discriminada e os principais motivos foram: pela profissão e falta de dinheiro ou condição social; 59,5% relatou ter sofrido violência verbal; 38,1% relatou violência física; 7,9% relatou já ter sofrido violência policial. E no quesito violência sexual, 37,8% das mulheres entrevistadas relatou que sofreram em algum momento ao longo da vida. 

Maria Fátima Medeiros é uma das fundadoras da Associação das Prostitutas da Bahia – APROSBA. Organização sem fins lucrativos, que desde 1997 tem buscado apoiar e organizar mulheres (cis e trans) que trabalham como prostitutas no estado. Ela afirma que o combate a violência é um desafio que acompanha as profissionais do sexo desde sempre. “Nosso trabalho é baseado em valorizar as prostitutas como cidadãs, que têm direitos e deveres na sociedade. Infelizmente, ainda há a desumanização dessas profissionais, seja pelas suas famílias, pelos clientes e/ou pela sociedade como um todo”, comenta. 

Medeiros conta que ainda é difícil contabilizar os casos de violência no estado, pois não é comum que as profissionais do sexo se dirijam as delegacias para prestarem denúncias. “Quando a violência bate à porta somos nós por nós! É muito difícil uma garota de programa ir até uma delegacia prestar queixa. Até porque quando chegamos a DEAM (Delegacia da Mulher) não somos atendidas, pois eles alegam que lá somente podem ser tratados casos de violência doméstica. Nos encaminham para uma delegacia comum, onde, muitas vezes, o atendimento é vexatório”, conta.  

Em contato com a assessoria da Polícia Civil da Bahia, a nossa equipe foi informada que as DEAMs “são destinadas exclusivamente ao atendimento de vítimas de violência doméstica e familiar contra a mulher, em cumprimento à Lei 11340/2006 (Lei Maria da Penha). Contudo, o protocolo interno, lastreado no Decreto Lei 3.689/1941, determina que as demais ocorrências sejam registradas e apuradas na unidade policial da área do fato. Desta forma, os casos de delitos praticados em desfavor dos profissionais do sexo devem ser registrados na delegacia da área onde o fato ocorreu.” A instituição ainda informou que  A Polícia Civil dispõe de um serviço de ouvidoria, onde o cidadão pode enviar sugestões, críticas e reclamações pelo email ouvidoria.pc@pcivil.ba.gov.br, ou nos telefones: (71) 3116-6408 e 99631-5259.

Subsistir para existir 

A decisão de trabalhar como profissional do sexo foi tomada por Vanessa*, 46, natural  de Feira de Santana (BA), após fugir de casa onde era vítima de violências. Ela viu na prostituição a possibilidade de sustento. “Meus irmãos e meu pai eram alcoólatras, e batiam muito em mim e em mainha. Um dia eu estava sozinha em casa, meu pai chegou tão alucinado que me bateu tanto e eu desmaiei. Quando eu acordei estava com a roupa rasgada. Sem calcinha, sem sutiã. Eu tinha 17 anos. Quando mainha chegou a gente combinou de fugir. Era muito difícil arranjar trabalho que desse para nós duas comermos e pagar um aluguel. Foi quando uma moça me disse que eu poderia ficar com um cara e ele me pagaria. Era isso ou não comer. Foi aí que eu comecei”, conta. 

Com 25 anos de atuação, Vanessa relata que já viveu diversas histórias de violência durante os programas, mas que somente uma vez tentou denunciar. “Quando você faz programa você está exposta a tudo. A uma doença, pancadas, assalto, racismo… não foram poucas as vezes que me xingaram por eu ser uma mulher negra, não. Você sai para trabalhar sem saber se vai voltar. Minha mãe fica em casa rezando por mim”, desabafa. 

“Uma vez o cliente jogou gasolina no meu corpo e eu saí correndo na rua pedindo socorro. Um comerciante, graças a Deus, que me ajudou. Eu fui na delegacia prestar queixa, mas ficou por isso mesmo, ainda mais que era gente grande, que tinha dinheiro. Eu não me arrependo de ter começado nessa vida. Se não fosse isso, eu e minha mãe poderíamos estar mortas de fome, ou meu pai matava a gente. Eu tive que ter coragem para sustentar minha decisão.” Vanessa*, 46 anos

Prostituição e a violência contra às mulheres trans

Se para as mulheres cis, exercer o trabalho da prostituição é um desafio, para as mulhres trans a realidade não é diferente. De acordo com dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 90% das  mulheres trans e travestis tiram o sustento do próprio corpo. O dado revela a realidade da exclusão social vivida pelo público no país que mais mata LGBTQIA+ no mundo.  Para  as travestis entrevistadas, as ruas representam uma necessidade para se manterem vivas, que é a prostituição. Condicionadas às diversas formas de violência, essas profissionais do sexo buscam esses espaços como meios de sobrevivência, sobretudo pela falta de oportunidades no mercado de trabalho formal. Ainda, segundo os dados da Antra, pouco mais de 4% dessas mulheres têm carteira assinada. A Secretaria de Educação da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais (ABLGBT) expõe que 76% das pessoas trans já sofreram algum tipo de exclusão no processo educacional e, por conta disso, somente 18% concluíram o ensino.

O Brasil apresentou aumento de 13% nos casos de assassinatos de pessoas trans em 2020, mesmo no período de pandemia do coronavírus. Segundo relatório da Antra referente ao primeiro quadrimestre de 2020, foram 34 notificações de assassinatos, 11 suicídios, 22 tentativas de homicídio e 21 outras violações de direitos humanos. Além de 6 casos de mortes relacionadas à Covid-19. Vale ressaltar que todas as pessoas trans assassinadas, até o momento apresentado pelo relatório, eram travestis ou mulheres trans.  

Para além de todo o processo de violência e invisibilidade, há a resistência por parte dessas mulheres, que criam estratégias para reivindicar os espaços e afirmar suas identidades. “A transfobia é estrutural, antes mesmo de eu fazer a transição, de afirmar minha identidade publicamente, para minha família, para a sociedade, eu já sofria transfobia,por não me adequar aos padrões de gênero e já me perceberem como uma pessoa trans” ressalta a vereadora Linda Brasil. Ela explica que mesmo que ainda não se denominasse, já que a transgeneridade é diferente da orientação sexual, vivia um terror e uma série de violências pelo seu jeito.

Outro exemplo de caso parecido com a história da vereadora Linda é  o de Brunna Darlyn*,  28 anos, alagoana que foi morar em Sergipe para tentar uma vida melhor e fugir do preconceito e rejeição dos familiares. História que não é diferente das de muitas meninas e mulheres trans que acessam à prostituição após a  rejeição familiar e falta de oportunidade no mercado de trabalho formal.

Para Brunna, foi tudo de repente, ela relata que ficou desempregada, foi para  Aracaju e começou a trabalhar numa boate, fazendo inicialmente serviços gerais. “Lá, eu comecei a fazer programa (é um local de atividades de prostituição), vi que dava dinheiro, que ganhava muito, então terminei gostando e estou até hoje nesta vida”,  conta. Ela afirma que convive constantemente com os julgamentos da sociedade. “Existe muito preconceito no mercado de trabalho, muito mesmo. É muito difícil a relação, trabalhar com outra coisa que pague o mesmo ou mais do que o que se ganha na prostituição”, disse. 

Jéssica Tylor dos Santos, 49 anos, presidenta da TransUnides, associação das travestis e trans de Aracaju, trabalhou como doméstica, babá e prostituta. “Eu nasci no interior (de Sergipe) e meu pai ao descobrir, na verdade fui eu quem contei a minha sexualidade, ele não aceitou e daí eu tive que sair de casa. Eu saí de casa muito cedo, aos 11 anos de idade, e vim para Aracaju (SE)”. Jéssica conta que foi morar com uma tia, e foi quando começou as dificuldades. “Então, muito cedo eu tive que ir à prostituição, foi meu primeiro emprego, depois, eu cansada da vida da prostituição, arrumei emprego em casa de família. Minha vida não foi fácil”, desabafa.

Não bastasse a exclusão por parte de sua família, Jéssica enfrentou a exploração de sua mão de obra como doméstica. “As pessoas achavam que pelo fato de me aceitar por eu ser trans, então eu tinha que passar por aquelas dificuldades todas de trabalho. Voltei à prostituição de novo, naquela época (década de 90), a gente não podia sair durante o dia na rua pelo fato de se vestir diferente, as pessoas eram muito agressivas”, afirma.

Em 1998, Jéssica decidiu unir forças a outras travestis para fundar a Associação das Travestis, com o intuito de lutar por direitos e acolher essas mulheres vítimas da exclusão social e das diversas formas de violência. “A gente ainda percebe que é difícil, mesmo tendo a qualificação, que as pessoas nos empreguem, a não ser um concurso público e mesmo as concursadas já passaram por dificuldades com a discriminação por ser trans”, explica. A presidenta da TransUnides aponta que muitas coisas ainda precisam mudar. “Vamos continuar existindo e resistindo a esses preconceitos, a essas violências, e a gente vai ocupando os espaços que são nossos por direito. Essa também é a função da associação, que hoje mudou o nome para TransUnides, para acolher pessoas trans também”, comenta.

A pandemia para quem não pode fazer teletrabalho  

Que a pandemia evidenciou ainda mais as desigualdades e tornou a vida de muitos brasileiros ainda mais difícil, todo mundo já está cansado de saber. Mas, o que fazer em tempos de distanciamento social, quando o contato corporal não é dispensável durante o trabalho? 

Fátima Medeiros, da Aprosba, afirma que durante o cenário pandêmico a desumanização das pessoas que se prostituem foi ainda maior. “Durante a pandemia muitas mulheres (cis e trans) morreram por conta da Covid-19, mas também por conta da fome. Muitas aceitaram fazer programas super baratos, só para conseguir se manter”, relata. A profissional conta que a entidade recorreu a órgãos públicos da Bahia, mas obtiveram poucos retornos. “As cestas básicas que recebemos distribuímos. Mas, claro, não dá para todo mundo. Não fomos colocadas como público prioritário na vacinação. Foram poucas que conseguiram receber auxílio emergencial. Mais uma vez a sociedade da moral dos bons costumes fingiu  que não existimos”, lamenta. 

Em Aracaju, a doutora em antropologia e historiadora, Elayne Passos, dirigiu e assinou o roteiro do minidocumentário “Travestis da Rua da frente”, lançado em setembro de 2020. O filme mostra as dificuldades e enfrentamentos ao longo da vida dessas mulheres e que foram amplificadas ao longo do período de isolamento. O material está disponível neste link. 

De acordo com a antropóloga há uma  dinâmica particular estabelecida entre o espaço urbano e as travestis, e que  apesar das finalidades institucionais/oficiais que embasam as sucessivas intervenções urbanas com a finalidade de expurgar, “existe, na contramão, uma força reativa, persistente e marginal, não disposta a ceder aos objetivos pré-definidos para a região. As travestis compõem uma fração dessa força continuamente renovadas a cada nova construção, reforma ou restauração ali feita”. Ela ressalta que as travestis não se limitam à exclusão e à prostituição, porém, a forma como elas são mantidas e apresentadas no cotidiano das paisagens urbanas, em muitos momentos, relegam esse papeis à elas.

Pensando em reduzir a contaminação por coronavírus, que a  Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), elaborou uma cartilha com dicas para pessoas que se encontram em situação de prostituição. O documento pode ser acessado clicando aqui. 

*Nome usado pelas profissionais nas ruas. A prática é comum por diversos motivos,entre eles privacidade e segurança. 

Texto e imagens reproduzidos do site: revistaafirmativa.com.br

A pré-história nos ensina a pensar a partir dela e não a partir da modernidade

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 10 de março de 2025

A pré-história nos ensina a pensar a partir dela e não a partir da modernidade

Carregado de significados, nas esferas de consumo, espiritual, religiosa e política, o parto não está livre da histeria ideológica. Luiz Felipe Pondé para a FSP:

O parto é um dos fenômenos mais carregado por modas contemporâneas. Parto em casa, na água, indígena, sem médico, "natural" que dura 30 horas sem anestesia, cesáreas para garantir as agendas da equipe e da mãe, enfim, um tópico significativo nas redes sociais.

Em si, trata-se de um processo fisiológico, que pode atingir efeito letal. Carregado de uma miríade de significados, seja da esfera de consumo, espiritual, religiosa e mesmo política, como no caso do revestimento do parto por pautas feministas ou conservadoras. Nem os bebês estão a salvo da histeria ideológica do século 21.

O parto é uma experiência evidentemente pré-histórica, portanto, atávica. Tópico que recebe muita atenção por parte das estudiosas da pré-história, principalmente daquelas que se dedicam a entender a condição feminina naquele longo período, assim como também, daquelas que se dedicam aos estudos das raízes pré-históricas da religião.

Quando nos aproximamos da pré-história devemos ter em mente os "efeitos colaterais" dessa aproximação. A arqueóloga francesa Sophie A. de Baune se refere a esses efeitos como a personalidade do estudioso da pré-história. Personalidade epistemológica e não psicológica, claro. Alguns desses traços são: ruína da percepção de tempo, isto é, superação da obsessão, principalmente moderna, de que os últimos cem anos são insuperáveis como marco temporal da espécie.

Como é comum nesse ramo, os estudos dos nossos ancestrais de 10 mil ou 300 mil anos nos mostram que, no fundo, tudo é pó e cinzas. O Eclesiastes está certo. De nós, também restará nada. A pré-história nos ensina a pensar a partir dela e não a partir da modernidade, e assim, talvez, enxergar o Sapiens na longa duração do tempo.

Uma reverência para com a pré-história, para além de bem e mal, marca esses profissionais: nossos ancestrais nos legaram a vida, não temos certeza de que seremos capazes de fazê-lo, ou mesmo que desejemos fazê-lo. O século 21 é patologicamente narcísico e, por isso mesmo, estéril.

Nossos ancestrais do paleolítico superior —mais ou menos de 60 mil a 15 mil anos atrás— eram iguais a nós, o que nos autoriza a fazer uso do que De Baune se refere como "nossa humanidade comum". Este argumento é comum entre os estudiosos da pré-história. Esse passo nos ajuda a analisar restos arqueológicos da época.

No que se refere às mulheres, sabe-se que eram objeto de roubo por parte de bandos em que faltavam mulheres. Essa prática existiu até no Velho Oeste. Sendo as mulheres as "reprodutoras", sem elas não havia chance para o bando, assim, como também, pelo prazer sexual que elas davam e dão aos homens que as apreciam.

Claro, que tudo isso era, em muitos casos, envolvido por muita violência, como deixa claro outra arqueóloga francesa, Marylène Patou-Mathis, contra os homens assassinados e as mulheres sequestradas. Roubar mulheres sempre foi uma prática comum. "Casas de menstruação" é outro tópico na área. Provavelmente, a menstruação era marcada por significados de todos os tipos. "Esse ser que todo mês sangra e não morre". "Casas de parto" é outra referência. Locais com muitos restos ósseos de mulheres, bebês e fetos apontam para essa realidade.

O parto sempre foi mortal, aliás, cada um era um risco enorme em si mesmo, para a mulher e para o bebê. Causa de morte recorrente entre mulheres até ontem. Recobrir o parto com modinhas de comportamento é típico da nossa época mimada. O sexo sempre custou caro para a mulher. Por outro lado, a infertilidade feminina sempre foi vista como uma grande maldição, como vemos na Bíblia.

A arqueóloga britânica Chantal Conneller, especialista no final do paleolítico superior e mesolítico, diz que o parto era visto como um rito apotropaico. O que é isso? Apotropaico é um termo que significa um rito que funciona como um enfrentamento do mal, como uma tentativa de proteção contra o mal.

O parto, em sendo um risco de morte muito possível, pode ter sido associado a ritos de passagem. Conneller levanta a hipótese de que o parto dava a mulher outro status social, fazendo dela uma mãe e não mais uma "simples" mulher no grupo social. Para o bebê, obviamente, ele deixava de ser "um nada" para ser uma criança que viria a ser parte do grupo social, principalmente, se chegasse à idade adulta.

No caso de morte da mulher ou do bebê, ou de ambos, muito possivelmente, o recurso apotropaico teria falhado. No caso de falha, perdia-se uma chance de enfrentar as contínuas ameaças da contingência, quase sempre materializada no mal.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

No filme 'O Brutalista', o poder do dinheiro enfrenta o poder do espírito.

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 21 de fevereiro de 2025

No filme 'O Brutalista', o poder do dinheiro enfrenta o poder do espírito.

Épico dirigido por Brady Corbet lembra o público que nem toda a riqueza do mundo garante aos poderosos um lugar na história. João Pereira Coutinho para a FSP:

O imigrante chega aos Estados Unidos e a Estátua da Liberdade o recebe: quantas vezes o cinema americano se dedicou a esse encontro?

Várias, várias: de Charlie Chaplin a Elia Kazan, de Sergio Leone a Francis Ford Coppola, a estátua foi ganhando estatuto promissor e mítico. "Dai-me os vossos cansados, os vossos pobres", lê-se na inscrição do pedestal, "as vossas massas encurraladas ansiando por respirar livres". A estátua está ali para erguer a sua lâmpada "ao lado da porta dourada".

"O Brutalista", de Brady Corbet, seguramente o grande filme do ano, rompe com essa tradição. Temos o imigante, cansado e pobre. Temos a estátua, com sua lâmpada. Mas agora ela é filmada de ponta-cabeça, como prenúncio de uma promessa sob ameaça.

O imigrante é László Tóth —notável Adrian Brody—, um judeu sobrevivente do Holocausto. Saberemos depois que László é também um arquiteto húngaro de renome, que deixou obra em Budapeste.

Separado da mulher e da sobrinha durante a guerra, ele cruza o Atlântico em busca de uma vida nova, aguardando pelo reencontro com a família.

Um primo o recebe –"Atilla", nome que é todo um programa– e László percebe que o primo mudou de sobrenome, de religião, até de passado. Sobreviver na América é um ato de autocriação permanente onde a velha identidade não tem lugar.

Mas László não pode abandonar essa identidade. A sua arte, os traumas do campo de concentração, a longa espera pela mulher, tudo isso o mantém ligado à velha Europa.

Os primos vivem em universos distintos, com valores distintos, e a ruptura é uma questão de tempo. E de temperamento.

László, novamente à deriva, sobrevive com trabalhos menores, existindo nas margens do sonho americano. Até ser resgatado por Harrison Van Buren, vivido por Guy Pearce, um milionário que lhe concede uma segunda oportunidade ao saber que László é um artista reconhecido.

Van Buren parece saído das páginas de Thorstein Veblen na sua "Teoria da Classe Ociosa": ele admira a arte e os artistas, os livros e os criadores, porque as rivalidades da ostentação —o "consumo conspícuo" de que falava Veblen— a isso obrigam.

László é um adereço raro para ser exibido à família e aos amigos. Será também o autor de um projeto arquitetônico para imortalizar a matriarca da família Van Buren.

A construção avança. E o conflito imemorial entre o poder do dinheiro e o poder do espírito ressurgem em toda sua força primitiva.

Como o filósofo René Girard ensinou, existe na admiração de Van Buren um desejo mimético pela liberdade e pela criatividade de László. "As nossas conversas são intelectualmente estimulantes", diz ele, como se avaliasse um objeto de luxo ou um terreno valioso.

Mas o desejo, ensinava também Girard, é facilmente convertido em inveja: nem todo dinheiro do mundo pode comprar a liberdade e a criatividade de László. O ressentimento do admirador converte o objeto desejado em bode sacrificial.

Assistindo a "O Brutalista", não pude deixar de pensar no igualmente magistral "Mank", de David Fincher. Falo da relação entre o roteirista Herman Mankiewicz (Gary Oldman, no filme) e o magnata William Randolph Hearst (Charles Dance), que o julga possuir e controlar.

Para ilustrar essa superioridade, Hearst relembra a Mankiewicz a parábola do macaco e do tocador de realejo. O macaco pensa que é a estrela do show. Mas ele se esquece que, sem o tocador de realejo, o público não estaria ali para o ver dançar.

Tradução: o poder e o dinheiro são mais importantes que as habilidades simiescas do artista. Pelo menos, os boçais pensam que sim.

Mas é uma ilusão de curto alcance. Na história e na memória, será o macaco, e não o tocador de realejo, que será lembrado e celebrado. Serão Henry Mankiewicz —escritor de "Cidadão Kane"— e László Tóth —na sua metáfora de concreto, cujo significado só será revelado no final— que terão a última palavra.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sábado, 15 de fevereiro de 2025

João Paulo Barreto ENTREVISTA Walter Salles

Entrevista – Walter Salles: 'Ainda Estou Aqui fala da reconstrução da memória de uma família (e da memória de um país)'

Entrevista compartilhada do site SCREAMYELL, de 20 de novembro de 2024

Entrevista de João Paulo Barreto*

Em “Ainda Estou Aqui” (2024), Walter Salles constrói um mundo solar, iluminado, que dolorosamente se torna sombrio e repleto de trevas. Das areias brancas da praia do Rio de Janeiro, banhadas por águas refrescantes e receptivas pelo escaldante sol carioca, a obra adentra em sombras que começam com as cortinas da casa do então ex-deputado Rubens Paiva (Selton Mello) sendo cerradas ainda com o sol lá fora. A mensagem é bem clara. O mundo desabou.

As trevas começaram anos antes daquele janeiro de 1971, mas foi só ali, quando o governo militar assassinou Rubens Paiva, que a realidade dura de um país tomado pela tirania atingiu aquela família para tirar sangue. Da limpeza floral daquela casa com gosto de salitre, para os fétidos corredores dos locais de tortura e morte, o caminho é tortuoso e o choque é grande. Quando vemos a família de Eunice Paiva (Fernanda Torres) ser destroçada pela ditadura, os sorrisos e o carisma daquelas pessoas começam a desaparecer de modo não fugaz, mas lento.

A imagem materializada do momento em que as trevas alcançam os Paiva bate pesado no espectador. É quando as cortinas da casa são fechadas de modo abrupto pelos militares a paisana, e todo o aspecto de brilho solar e otimismo com o futuro se perdem de imediato. Os planos simples de ir em família assistir a um filme no cinema são suspensos, uma rotina de sorrisos e brincadeiras em um lar saudável, cessa. “Essa parte do filme tem a ver com o trabalho de um pintor dinamarquês chamado Vilhelm Hammershoi, que, para mim, talvez seja um dos pintores que tenha mais bem trabalhado a questão da falta e da ausência”, revela Walter Salles em conversa com o Scream & Yell.

A relação entre os espaços a partir daquela nova perspectiva em transmitir uma sensação de sufocamento para a audiência, juntamente com a direção de arte que muda em 180 graus para exibir não mais a calorosa casa para, sim, os ciclos do inferno do quartel, se faz valer de maneira palpável através da câmera de Salles e pelo olhar do diretor de fotografia Adrian Teijido. É uma sensação de sufocamento agonizante e impotência que se faz presente. “Uma ditadura afeta tudo, a começar pela linguagem. A palavra não pode ser mais usada livremente. A partir dali a narrativa se torna subjetiva”, observa Salles.

Baseado no livro homônimo escrito por Marcelo Rubens Paiva e lançado em 2015, “Ainda Estou Aqui” apresenta a maneira resiliente como aquela família orfã de pai passou ter em Eunice seu bastião. E como essa luta da personagem de Fernanda Torres espelha a vida de muitas outras viúvas que a putrefata ditadura gerou.

O cineasta Walter Salles – cujo currículo engloba os elogiados Terra Estrangeira”, “Central do Brasil”, “Diários de Motocicleta” e “Na Estrada” – conversou com o Scream & Yell e falou sobre a construção dessas sensações e reflexões que o peso de seu filme lança no colo do espectador, trazendo, também, uma análise acerca de um Brasil que recentemente passou por uma tóxica ascensão de uma extrema-direita oportunista que prefere jogar a sujeira dos militares para debaixo do tapete. Abaixo, leia a entrevista na íntegra.

“Ainda Estou Aqui” inicia de modo solar e, de supetão, mergulha em sombras. O choque é grande. Dentro desse aspecto que visava transmitir essa sensação de sufocamento (ao menos foi essa a minha sensação), como funcionou o seu diálogo como cineasta junto ao diretor de fotografia Adrian Teijido?

Para mim, essa sempre foi a história de uma família que, no momento turbulento da nossa história, foi roubada de um futuro possível. Da mesma forma como o país foi roubado de um futuro possível. Essa oposição entre a luminosidade inicial do filme e o “chiaroescuro” que acontece depois do desaparecimento de Rubens, após a invasão da casa por policiais militares à paisana, foi, portanto, parte do conceito inicial de toda a narrativa. O estar no mundo da família Paiva no início do filme é pleno de possibilidades: na casa do Leblon, havia o encontro de pessoas de gerações diferentes, discutindo política, ouvindo música. Os momentos em super 8 do início do filme revelam a geografia humana, mas, também, a geografia física de uma cidade, o Rio de janeiro. Tanto a imagem quanto o som transmitem uma sensação de que, mesmo sob aquela ditadura militar, era possível sonhar com um outro país. A partir do momento em que Rubens é levado abruptamente para dar um depoimento no quartel militar, o filme como um todo é sujeito à subtração de elementos tanto visuais quantos sonoros. Quando as cortinas são fechadas, há uma ausência da luz natural. Ao mesmo tempo, os sons exteriores são abafados, a música cessa. Uma ditadura afeta tudo, a começar pela linguagem. A palavra não pode ser mais usada livremente. A partir dali a narrativa se torna subjetiva. Um personagem tenta entender o que o outro sente sem palavras. O filme se torna uma narrativa de não ditos. Em outras palavras, para falar da ausência de Rubens, para retratá-la, era preciso sentir que a casa havia mudado. Era necessário projetá-la na sombra. Subtrair a luz, subtrair os sons externos, retendo, inclusive, a interpretação dos atores. A câmera deixa de ser fluida. Há um alongamento de cada plano, e, também, uma outra compreensão do espaço. As lentes se tornam mais abertas, os planos mais estáticos. Essa parte do filme tem a ver com o trabalho de um pintor dinamarquês chamado Vilhelm Hammershoi, que, para mim, talvez seja um dos pintores que tenha mais bem trabalhado a questão da falta e da ausência. Na conversa com o diretor de fotografia Adrian Tejido e com Lula Cerri, o incrível operador de câmera com quem trabalhamos, as pinturas de Hammershoi foram um ponto de partida. Compartilhei com eles um livro com o trabalho dele e construímos essa parte toda do filme a partir desse raciocino.

Um dos personagens de “Ainda Estou Aqui”, um militar que ajuda Eunice Paiva com informações mínimas que lhe trazem alguma informação sobre o paradeiro de Rubens, afirma não concordar com aquilo. Recentemente, o filme de Lúcia Murat, “O Mensageiro”, criou toda uma narrativa em torno dessa ideia de “estar apenas cumprindo ordens”. Ao inserir de forma tão breve um personagem com a mesma premissa em seu filme, qual reflexão sobre esse comportamento você buscava trazer ao público?

O personagem ao qual você se refere tem uma presença marcante no livro de Marcelo Rubens Paiva. Talvez seja o único fio de humanidade com o a qual Eunice conseguiu se relacionar durante os 13 dias que ficou presa, sem qualquer justificativa e sem qualquer possibilidade de ser defendida de forma legal. Esses jovens militares conhecidos como “catarinas” vinham, na sua maior parte, de Santa Catarina para não terem laços afetivos na cidade do Rio de Janeiro. Eles tiveram, em algum momento, um papel importante na relação da prisão com o mundo exterior. No caso do filme de Lucia Murat, que é uma cineasta que eu admiro profundamente, o catarina se torna o mensageiro com mundo externo. No nosso filme, o jovem catarina não vai tão longe, embora ele tenha, na realidade, chegado a trazer alimentos para Eunice, algo que ele trazia sem autorização de seus superiores. Não era o caso de se desenvolver essa relação além do que fizemos, mas ele é uma presença importante no filme para mostrar que, mesmo naquele submundo, nem todos concordaram com os absurdos que estavam sendo cometidos por lá.

Rubens Paiva é um dos desaparecidos desse período nefasto da nossa história. O filme traz em suas elipses a luta de Eunice Paiva pelo reconhecimento do governo brasileiro em relação ao assassinato de seu marido. Recordo-me que o ex-presidente da gestão anterior à atual, notório apoiador da ditadura, chegou a falar com ironia sobre o desaparecimento do pai do presidente da OAB. Esse preâmbulo é para lhe perguntar a importância do seu filme nessa conscientização do brasileiro para com a indignação necessária contra pessoas que pedem a volta do período ditatorial.

A medida em que Marcelo foi arquitetando o livro, ele foi abraçando o ponto de Eunice. Marcelo abriu a possibilidade de falar da ditadura a partir do microcosmo da família. A partir do quarto dos filhos, da sala de jantar, do armário do pai. Eunice instaurou uma outra forma de resistência, que se soma a outras que são extremante importantes. O filme oferece um reflexo possível do Brasil nos anos 1970. Acompanha a reinvenção dessa mulher e a forma de resistência que ela abraçou durante quarenta anos. O que podemos esperar é que o filme abra a possibilidade de entender melhor quem nós fomos em dado momento da nossa história e, com isso, entender melhor as opções que temos no presente e, quem sabe, no futuro.

A sessão em Salvador de “Ainda Estou Aqui”, no Cine Glauber Rocha, quando o filme ficou em cartaz em setembro, teve um peso bem impactante em mim, principalmente pelo fato de que o cinema, ali na Praça Castro Alves, funciona como um espaço de resistência que rima bastante com a reflexão que seu filme traz. Queria saber sua opinião acerca dessa importância das salas de rua em um país que passou por um período recente no qual a Cultura foi tão negligenciada.

Em primeiro lugar, foi uma imensa honra estrear em Salvador em um cinema de rua tão simbólico e que traz o nome de um dos maiores cineastas da história: Glauber Rocha. O nosso filme fala de reconstrução da memória de uma família, assim como fala da reconstrução da memória de um país, e de uma forma resistência proposta por Eunice Paiva e pela família Paiva. O cinema no qual o filme estreou no Brasil, em Salvador, é um símbolo da luta pela memória coletiva no Brasil, da mesma forma com que é um símbolo daquilo que o cinema brasileiro tem de mais criativo a invocar.

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* João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador. 

Texto reproduzido do site: screamyell com br

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Marcelo Paiva se serve da literatura para honrar a coragem da matriarca

Artigo compartilhado do site SESCSP, de 2 de fevereiro de 2025

Autor de Ainda estou aqui, livro que inspirou o filme brasileiro indicado ao Oscar 2025, Marcelo Rubens Paiva se serve da literatura para honrar a coragem da matriarca 

Tudo sobre minha mãe
Por Maria Júlia Lledó 

Uma das poucas especialistas em direito indígena no Brasil, advogada de ilustres e desconhecidos, consultora da Organização das Nações Unidas (ONU) e símbolo da luta pelos direitos humanos dos desaparecidos na ditadura militar no Brasil, Eunice Paiva (1929-2018) sempre sorria nas fotos. Desdenhava qualquer intenção da imprensa de capturar um rastro de tristeza para estampar os jornais com a manchete “a família vítima da ditadura”. Resiliente, Eunice foi até o fim da vida guardiã da memória de seu marido, o engenheiro e político Rubens Paiva (1929-1971), e protetora de seus cinco filhos, Vera Sílvia, Maria Eliana, Ana Lúcia, Maria Beatriz e Marcelo.  

É sobre sua mãe e as feridas abertas pela ditadura que o escritor Marcelo Rubens Paiva escreveu Ainda estou aqui (Companhia das Letras, 2015). Adaptado para o cinema e dirigido por Walter Salles, a obra traz Eunice Paiva em primeiro plano. Interpretada pela atriz Fernanda Torres, vencedora do prêmio de melhor atriz no Globo de Ouro, a luta de Eunice por justiça já capturou a atenção de mais de 3 milhões de espectadores mundo afora.  

“A gente sempre fala dos homens, dos heróis, dos combatentes, mas nunca fala da mãe, daquela que fica na retaguarda ou, às vezes, no front de batalha. No caso da minha mãe, ela ficou na retaguarda e no front”, ressalta o escritor. Neste Depoimento, Marcelo Rubens Paiva compartilha as motivações que o levaram a criar essa obra, fala sobre a missão da literatura de contar o outro lado da história oficial e dá um spoiler sobre seu novo livro, cujo tema é paternidade, e que será lançado neste ano pela Companhia das Letras.   

ela 

Lembro que na Flip [Festa Literária Internacional de Paraty] de 2014, enquanto conversava com a [historiadora e escritora] Lilia Schwarcz sobre o que estava acontecendo naquele momento político do Brasil, nos perguntamos: “Será que as pessoas não leram na escola sobre o que foi a ditadura? Por que querem voltar a esse período?”. E aí concluímos: “A gente precisa, sempre, escrever sobre isso. Não podemos parar”. Então, eu senti a missão de contar aquela história novamente, a história que eu tinha contado superficialmente em Feliz Ano Velho (1982). Queria me aprofundar no que aconteceu, não só dentro da minha casa, mas fora de casa, dentro dos quarteis. Surgiu essa oportunidade e, em 2015, publiquei Ainda estou aqui, focando na minha mãe, que descobri, naquele caos todo em que nós vivemos, que foi realmente a grande líder, guerreira e heroína da família. Porque, além de todas as suas lutas, ela tinha cinco crianças para cuidar. Passei a dar um valor em dobro à minha mãe. A gente sempre fala dos homens, dos heróis, dos combatentes, mas nunca fala da mãe, daquela que fica na retaguarda ou às vezes no front de batalha. No caso da minha mãe, ela ficou na retaguarda e no front. 

interrompida 

Como o filme [Ainda estou aqui] retrata, a gente sofreu a interrupção de um projeto familiar, de um projeto de vida, de maneira brusca e inexplicável. A partir daí, você passa a duvidar do sentido da vida, duvidar até da religião, da existência de Deus, da justiça. Nós fomos, de certa maneira, discriminados, porque as pessoas tinham muito medo de se aproximar ou de se associar à gente, pois éramos pessoas muito visadas. Tivemos que nos adaptar a uma situação econômica desfavorável. A gente não tinha roupa, mas a gente tinha educação porque conseguiu bolsas para ir a boas escolas. Perdemos totalmente o conforto da família burguesa de antes, apesar de conviver, ainda, com parte dos amigos dos meus pais, que eram de família rica. Isso também nos amadureceu. Passamos a ter que, cada um à sua maneira, lidar com o luto, com a dor, com as adversidades da vida. E, especialmente, lidar com uma mãe que tinha cinco crianças e tínhamos que ser muito solidários a ela. Acho que tivemos que ser adultos muito cedo. Foi uma espécie de infância interrompida.  

revelação 

A minha família, desde sempre, se deu conta de que não podia falar do nosso lado da história, porque não tínhamos informações completas. Primeiro, quem mantinha as informações completas eram as Forças Armadas. Segundo, porque era ditadura, então havia censura, controle da informação. A literatura foi a forma que eu encontrei de contar para as pessoas o que aconteceu. Fiz isso em Feliz Ano Velho, e depois em Ainda estou aqui, dessa vez com mais elementos, porque já havia terminado a ditadura e estávamos na fase da Comissão da Verdade, quando muitas coisas foram reveladas. Aí sim, eu pude narrar. As pessoas têm reagido descobrindo o que aconteceu: muita gente já sabia, mas nem todo mundo. Agora sim, as pessoas têm a informação em detalhes de tudo o que aconteceu, e este é um papel da literatura e do cinema.  

Não acredito que você seja obrigado a falar de si [em seus livros], mas você precisa falar com verdade

lutos 

Feliz Ano Velho e Ainda estou aqui são dois livros que contam como passei por um luto pessoal. O primeiro foi um luto pelo meu corpo, por ter me abandonado. Eu estava bem e, de uma hora para outra, estava numa UTI sem me mexer [devido a um acidente de mergulho numa lagoa, que o deixou tetraplégico]. E o segundo livro, sobre a situação da minha família, o fato de meu pai ter sido levado sem nenhuma explicação e até hoje não sabemos ao certo o que aconteceu com ele. No primeiro livro, eu focava no meu corpo, no meu acidente, como se eu estivesse conversando comigo sobre quem eu me tornaria e como seria aceito. Um garoto de 20 anos, no auge da sua sexualidade e que, de repente, teve que ressignificar seu corpo, seu projeto de desejo, de relacionamento, de casamento, de amor, de autoestima.  Então, eu tinha que elaborar comigo mesmo o que estava acontecendo.  

versões  

Um grande crítico de literatura, Nicolau Sevcenko (1952-2014), já disse que a literatura é a versão dos vencidos. E a história oficial é a versão dos vencedores. Ele fez essa afirmação depois de ter feito uma pesquisa sobre Os Sertões (1902) e sobre como Euclides da Cunha (1866-1909) retratou a história de duas formas diferentes: primeiro, como repórter do jornal O Estado de São Paulo, e depois como escritor, com anos de dedicação para ele ir até lá, repensar e deglutir o que aconteceu. Na literatura, ele mostrou, de fato, o que aconteceu. Como foi a vida do Antônio Conselheiro (1830-1897), como foram as várias tentativas do Exército de debelar aquela “rebelião” (quando, na verdade, tudo que eles queriam era montar uma comunidade independente). Foi aí que ele chegou à reflexão de que houve um massacre. Então, Nicolau percebeu que Euclides da Cunha mudou de opinião quando ele transformou aquela experiência em literatura.  

autenticidade 

Acho que, às vezes, falo de mim através de outros personagens. Como nos livros Blecaute (1986) e Malu de bicicleta (2003) e nas peças de teatro E aí, comeu? (2014), e No retrovisor (2003). Nessas obras, não sou o personagem principal. Na verdade, sou um observador das coisas ao redor. Evidentemente, me coloco como testemunha. Acredito que quando você fala com profundidade sobre temas que estão incomodando as pessoas, quando escrevo sobre o que as pessoas querem falar, aí sim posso atingir o público. Não acredito que você seja obrigado a falar de si [em seus livros], mas você precisa falar com verdade. 

paternidade 

Na verdade, [o tema do próximo livro] foi sugestão do meu editor, Luiz Schwarcz [da Companhia das Letras]. Assim como foi com Feliz Ano Velho, cujo tema foi sugestão do meu editor da época, Caio Graco (1932-1992), da editora Brasiliense. Caio virou para mim e falou: “por que que você não escreve sobre o que está acontecendo contigo?”. Era a minha reabilitação física. E agora, quando Luiz também sugeriu o novo tema, eu achei perfeito, porque a paternidade me fez enxergar a minha mãe de uma forma diferente. Quando me tornei pai, vi como é difícil. Quantas opções você tem que pensar sobre o futuro do seu filho, como você tem que pisar em ovos, como você fica inseguro em relação à vida. Por dois anos, me dediquei a escrever esse livro, pedi permissão à mãe [dos dois filhos], e ele será lançado agora em 2025. Vai se chamar O novo agora. Eu tenho um filho de oito e outro de 11 anos e eles já sabem, desde pequenos, tudo sobre o vovô Rubens. Assim como meu pai me contava, quando eu tinha seis anos, o que era ditadura.  

Pela literatura, Marcelo Rubens Paiva dá continuidade à preservação da memória dos efeitos da ditadura, período histórico que  enfrenta tentativas de apagamento. 

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Texto e imagem reproduzidos do site: www sescsp org br/editorial/tudo-sobre-minha-mae

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Gates fala a VEJA: da obsessão pelo sucesso ao desconforto na era Trump

 


Entrevista compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 31 de janeiro de 2025

Bill Gates fala a VEJA: da obsessão pelo sucesso ao desconforto na era Trump.

Autobiografia ajuda a decifrar as raízes da extraordinária capacidade que o levou a encabeçar a revolução tecnológica. Entrevista a Caio Saad, da Veja:

O ano de 2025 é de muitos significados para o americano Bill Gates e todos que gravitam em torno de uma extraordinária epopeia humana: como a empresa que ele criou com o sócio Paul Allen (1953-2018) em 1975 dominou, e domina até hoje, o segmento mais lucrativo da indústria de computadores — os programas que fazem com que eles sejam muito além de uma máquina ligada na tomada. De lá para cá, Gates, um dos gênios do milênio, passou de garoto prodígio a empreendedor admirado, transmutado depois em vilão monopolista que, mais tarde, deixou para trás o mundo corporativo para fincar pé na filantropia, à frente de uma fundação dedicada a desbravar fronteiras e espalhar conhecimento nas áreas de educação e saúde, especialmente.

Em um ano coalhado de efemérides, Gates completa 70 anos, a Microsoft faz meio século, a chegada de seu criador ao topo da lista de mais ricos soma três décadas (hoje é “só” o décimo terceiro) e a fundação com seu nome celebra o 25º aniversário. Motivos não faltam, portanto, para lançar na próxima terça-feira, 4 de fevereiro, a primeira parte de sua autobiografia, Código-Fonte: Como Tudo Começou (Companhia das Letras), um mergulho pessoal que ajuda a decifrar como se tornou quem é — o precursor de toda uma turma que mudou por meio da tecnologia a forma de a humanidade existir. “Geralmente só olho para o futuro, mas esta me pareceu uma boa data para revisitar o passado”, diz Gates.

Visionário, ao lado de Allen, amigo desde os primórdios na escola, ele terminou por instalar os sistemas Win­dows e Office em praticamente todos os computadores do planeta tendo como ponto de partida uma era em que a disseminação do PC começava a engatinhar. E assim tornou seu uso acessível como nunca antes, um daqueles inventos capazes de chacoalhar pilares e ensejar a inovação, sedimentando o terreno para novas revoluções, como a da internet. “Quando Paul e eu dizíamos que cada casa e cada mesa teriam um computador, as pessoas nos achavam malucos”, lembra no livro.

Ainda hoje encantado com a linguagem do código e a extrapolação de limites do software, Gates trata com entusiasmo do salto promovido pela inteligência artificial (IA), em que investe e aposta. “A IA fica cada vez mais rica e os programas, mais profundos”, ressaltou na entrevista concedida a VEJA, em que percorreu solos mais movediços, como a experiência com drogas nos efervescentes anos 1970 e a guinada à direita do Vale do Silício, onda que o surpreendeu e na qual não engatou (veja entrevista abaixo). Recentemente, disparou contra Elon Musk, o fiel escudeiro do presidente americano Donald Trump. “É uma loucura e descabido que desestabilize a política de outros países”, disse, a propósito do enfático apoio de Musk à extrema direita alemã.

A espetacular marca de Gates na vida contemporânea foi esculpida desde cedo pela genialidade, uma das mais intrigantes capacidades do cérebro humano. “O gênio”, escreveu o filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), “ilumina sua era como um cometa na rota dos planetas”. Habitantes desse panteão nas mais distintas áreas revelaram seu ímpeto para elevar o saber em tenra idade, considerados os feitos que alcançaram. Aos 26 anos, Michelangelo (1475-1564) deu vida a Davi, a portentosa estátua com as veias saltadas no mármore que se agiganta para enfrentar Golias e é a própria expressão da Renascença, uma das mais belas obras da arte ocidental, linda e emocionante. Aos 22, Charles Darwin (1809-1882), que contava ter sido “um garoto muito comum, com intelecto um pouco abaixo do padrão”, pôs-se a bordo do Beagle e zarpou para Galápagos, onde juntaria valiosa observação que, após duas décadas, municiou sua teoria da evolução das espécies. Aos 26, foi a vez de Albert Einstein (1879-1955) prever em sua teoria da relatividade fenômenos que só seriam comprovados no século seguinte, com equipamentos de alta tecnologia.

A diferença entre eles e os seres, digamos, normais vem atiçando a curiosidade de civilizações diversas. Os gregos acreditavam que a superabundância de bílis negra — um dos quatro “humores corporais” descritos por Hipócrates — dotava poetas e filósofos de “poderes exaltados”. Ao longo dos séculos, cientistas coletaram crânios, entre eles o do filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), para sondar, medir, pesar e tentar identificar propriedades individuais, mas ali não encontraram a chave para a genialidade. O próprio Einstein teve o cérebro vastamente estudado por um médico-legista a cargo de sua autópsia, que guardou material para futuras investigações. A conclusão é de que a teia de neurônios do físico que virou sinônimo de gênio não se distinguia em eficiência da dos outros, mas funcionava de maneira diferente. “Provavelmente pela exposição a um ambiente em que era possível desenvolvê-la”, segundo pesquisadores.

A ciência já dissecou os fatores que aproximam os indivíduos que se desgarram da curva de modo excepcional — e eles têm raízes em um padrão de comportamento bem peculiar. No conjunto de características desses singulares representantes da espécie constam o perfeccionismo — presente em altas doses na trajetória de Gates, que ficava trancado no quarto horas a fio às voltas com códigos e livros, lapidando o trabalho — e uma insatisfação latente, como se aquilo nunca estivesse bom o suficiente. A coragem de colidir com quem pensa diferente, como nos embates públicos travados com Paul Allen sobre o futuro da empresa, é também um traço do seleto Olimpo, onde não raro a sorte contribui. No caso do fundador da Microsoft, um bom empurrão veio dos ventos que davam gás à revolução tecnológica que ele ajudou a encabeçar, embalado pela oportunidade de fazer o que mais gostava. “Assim como os Beatles eram capazes de tocar oito horas por noite, sete dias por semana, Bill Gates se sentia em êxtase quando estava no teclado do computador. A perspectiva de anos intermináveis de trabalho duro não era um fardo”, escreveu Malcolm Gladwell, autor do best-seller Outliers (Fora de Série), no qual examina como o ambiente e o empenho pessoal determinam as chances de sucesso.

A rigor, Gates não construiu uma obra tangível. Ele é um produtor de ideias — e ao mesmo tempo um produto do lugar onde nasceu e sempre viveu. Natural de Seattle, no estado de Washington, viu sua cidade, berço da gigante aeronáutica Boeing, ser tomada pela febre da tecnologia aeroespacial no fim dos anos 1950 e se transformar numa vitrine da capacidade científica dos Estados Unidos. Na escola em que estudava, Lakeside, uniu-se, em 1968, a um clube de informática (algo então inexistente até nas faculdades) com acesso a um Teletipo Modelo 33 ASR, computador instalado na Califórnia e conectado ao colégio via linha telefônica. No livro, cavuca o baú desse período em que anotava códigos a mão e aguardava a hora de testá-los no laboratório, alvo de disputa da turma nerd. “O computador exigia que eu fosse consistente em termos lógicos e que prestasse atenção nos detalhes. Uma vírgula ou um ponto e vírgula fora do lugar bastavam para que nada funcionasse”, relata.

Até as brincadeiras na adolescência, fase em que não menciona relacionamentos amorosos, tinham a computação no DNA. Gates revive na biografia o episódio em que, com Allen, juntou substantivos, verbos, adje­ti­vos e sintaxe para criar um gerador de 120 frases aleatórias, uma versão muito primitiva dos chatbots de IA. “Interessantes para mim eram leitura, matemática e ficar sozinho. Desinteressantes eram a rotina diária, caligrafia, arte e esportes. E quase tudo o que minha mãe me pedia para fazer”, diz. E dá-lhe dor de cabeça para o clã de três filhos — o pai, bem-sucedido advogado, a mãe, envolvida em projetos sociais. Preocupados com o sarcasmo do rebento do meio, o levaram à terapia e ouviram do especialista: “Desistam de ficar competindo com Bill, pois ele vai ganhar”. Verdade, o tempo mostraria.

Eram comuns seus insultos a colegas e professores. “Isso é a coisa mais cretina que já escutei”, atirava o menino. “Ele era um rebelde com pouco respeito por autoridade, outro elo entre os inovadores excepcionais, mas ao mesmo tempo trabalhava duro. Sua intensidade permitia que cumprisse prazos considerados insanos”, observou Walter Isaacson, autor de livros sobre gênios como Leonardo da Vinci e Steve Jobs (parceiro e rival de Gates), em Os Inovadores — Uma Biografia da Revolução Digital.

Em meados dos anos 1970, imerso em um universo particular e já engatado na Microsoft, Gates não via mais sentido em se manter na universidade e largou a prestigiada Harvard no segundo ano — afronta à trilha esperada que lhe permitiu se perder nos labirintos da computação. Encarava as máquinas como “caça-­níqueis”, vício que o mantinha preso à ideia de criar, testar e acertar. “Adorava o desafio mental”, diz. Hoje, tendo adquirido traquejo social, reconhece ter encoberto as inseguranças fingindo indiferença. Passagens mais polêmicas, como o conturbado divórcio de Melinda Gates após 27 anos e o convívio com Jeffrey Epstein, o bilionário pedófilo que abalou a elite americana, pertencem a capítulos posteriores da vida de Gates, a ser abordados em dois livros já previstos — um sobre a era no comando da Microsoft e outro na Fundação Gates. Eles prometem descortinar mais camadas da mente do homem capaz de fazer da árida linguagem dos códigos uma inegável obra-prima.

Quando fica empolgado, Bill Gates balança o corpo inteiro. No resto do tempo, sorri e discorre com calma sobre os temas levantados, bebericando um copo de água. De seu escritório na Califórnia e às vésperas do lançamento de sua autobiografia, o fundador da Microsoft concedeu uma entrevista de uma hora, por videoconferência, a jornalistas de veículos de cinco países — e o repórter Caio Saad, de VEJA, estava entre eles. A seguir, os principais trechos da conversa.

Código-Fonte trata de sua trajetória até chegar à Microsoft. Seu destino estava traçado desde o começo? Acho que sim. Não tive uma infância desafiadora ou ruim. Meus pais eram bem de vida e pude estudar em uma escola particular incrível. O relacionamento com a minha mãe era complexo, porque ela exigia normas de comportamento que não combinavam comigo. Mas por causa da pressão dela desenvolvi logo cedo a capacidade de interagir com adultos, e isso foi bom. Ainda adolescente, trocava ideias com pessoas mais velhas, que gostavam de me desafiar.

E com a turma da sua idade, como era o relacionamento? Levou muito tempo para me socializar com os colegas fora do mundo nerd. Se eu fizesse um teste hoje, provavelmente seria diagnosticado com algum transtorno no espectro do autismo e teria entendido melhor as características que me faziam diferente. Também é provável que recebesse o diagnóstico de transtorno de déficit de atenção.

Até que ponto a falta dessa habilidade social o atrapalhou? Eu sempre tive inveja de pessoas como Steve Jobs, capaz de fazer discursos sedutores e motivar seus funcionários de forma muito natural. Outra coisa que admirava em Jobs era a forma de pensar sobre design e marketing. Nunca cheguei nem perto dele nessas áreas. Uma vez, ele brincou que, se eu tomasse ácido, talvez fizesse produtos de maior bom gosto. Respondi que saímos de fornadas diferentes e nossos talentos eram distintos. Eu não tenho o dom do design. Ele não escrevia uma linha de código.

No livro, o senhor levanta uma discussão sobre o que leva ao sucesso: talento ou esforço. O que se sobrepôs em sua própria trajetória? Quando estava em Harvard, pensava que ser bom em matemática era o teste máximo para definir um gênio e ficava me perguntando: “Sou realmente bom?”. Havia ali pessoas que eram obviamente muito melhores do que eu. Em minha vida, obtive sucesso pela combinação das circunstâncias e das experiências — junto com um pouco de talento, claro. Acho que, no fim das contas, se sai melhor quem tem perseverança.

O senhor também trata da experiência com drogas. Como foi? Como sou otimista e estou disposto a correr riscos, tentei muitas coisas nos anos 1970. Mas minha mente precisa funcionar de forma racional e lógica. Parei com a maconha aos 20 e poucos anos simplesmente porque tirava meu foco e deixava minha mente mais lenta. Para dizer a verdade, fumei maconha na adolescência mais para impressionar as garotas. Não deu certo e desisti.

Sua fundação está envolvida em vários projetos e pesquisas ligados à educação. Acha que ela vai tirar grande proveito da inteligência artificial (IA)? IA é inteligência ao alcance das mãos e terá tremenda influência em todas as áreas, embora eu continue achando que as pessoas deveriam aprender a somar e multiplicar sem a ajuda das máquinas. Sinto muita vergonha de só saber falar inglês e com a IA fiquei ainda mais devagar nesse quesito, mas a ideia de contar com um tradutor de qualquer idioma em tempo real, a apenas um clique, é genial.

E na saúde, área contemplada por sua fundação, como a IA pode ser decisiva? Há pesquisas que fazem uso da edição genética para tentar curar doenças como anemia falciforme e aids, uma revolução na biologia que é acelerada pela inteligência artificial. Só precisamos lapidar certas coisas e fazer da maneira correta. Acredito que apareça, por exemplo, alguma abordagem genética para tornar as pessoas mais inteligentes. Mas vale aplicar isso? Precisamos pensar. Afinal, levanta uma reflexão ética ao mexer com a própria noção do que é humano e natural.

Com tão aceleradas mudanças, o que enxerga no horizonte da tecnologia? Quando eu e Paul Allen falávamos, lá no começo, sobre um computador em cada casa e em cada mesa, as pessoas achavam bizarro. Agora, estamos muito além disso. Não vejo limites para os avanços, estimulados por centenas de bilhões de dólares e inúmeros países envolvidos. É uma escala de competição como nunca se viu.

O senhor é um dos poucos grandes nomes do mundo tech que não aderiram a Donald Trump e sua visão do mundo. Por quê? Politicamente, me situo no centro, na centro-esquerda. Defendo um sistema de tributação mais progressivo, que onere mais os ricos. Até uns anos atrás, só Peter Thiel, fundador do PayPal, expressava opiniões mais confusas e diversas. Os outros eram de esquerda e centro-­esquerda, como a Califórnia em geral. A guinada à direita do mundo tech me surpreendeu.

Como é sua relação com Elon Musk? Musk foi bom comigo em alguns momentos e mau em outros. Já conversamos sobre filantropia e não teria problema em trabalhar com ele porque é brilhante, rico e influente. Quando me encontrei com Trump, depois do Natal, em Mar-a-Lago, achei que ele estaria lá, mas não estava. Por causa da fundação, eu mantenho contato com qualquer governo, republicano ou democrata.

Publicado em VEJA de 31 de janeiro de 2025, edição nº 2929 Bill Gates

Texto reproduzido do blog: otambosi blogspot com

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Escrevendo com a alma ou com o algoritmo?

Legenda da foto: A tecnologia não é uma inimiga, mas um instrumento

Artigo compartilhado do site JLPOLÍTICA, de 13 de Janeiro de 2025

Escrevendo com a alma ou com o algoritmo?
Por Déborah Pimentel*

“Escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio, você coloca ideias” (Pablo Neruda)

Vivemos tempos curiosos. A escrita, que por tanto tempo foi vista como um processo artesanal, parece ter se transformado em algo automatizado, quase industrial. Há textos por toda parte, mas poucas palavras nos atravessam. Muitos escrevem, mas será que estão realmente dizendo algo?

Pablo Neruda nos lembra que escrever, em sua essência, parece simples: começar com uma maiúscula, terminar com um ponto e preencher o espaço entre eles. Mas o que estamos colocando no meio? Essa parte invisível, onde as ideias ganham forma, parece cada vez mais sufocada pela pressa e pela superficialidade.

As ferramentas de inteligência artificial, oferecem possibilidades incríveis, mas também perigos sutis. Em questão de segundos, é possível gerar textos impecáveis, cheios de informações, mas vazios de autenticidade. A máquina escreve com precisão, mas não com o coração.

O que isso diz sobre nós? Talvez que estejamos mais preocupados em produzir do que em comunicar. Mais interessados em quantidade do que em qualidade. Há algo quase mecânico em todo esse processo.

Escrevemos para alimentar algoritmos, para manter relevância em redes sociais, para produzir mais conteúdo, mas esquecemos de parar e perguntar: alguém realmente lê? E mais importante: alguém sente algo desta escrita?

As mensagens rápidas, os posts instantâneos, as notícias que se multiplicam sem verificação nos colocam diante de outro dilema. Não basta escrever rápido. É preciso pensar devagar. A escrita nunca foi apenas sobre palavras. É sobre intenção, reflexão, presença. Um texto autêntico não nasce de um algoritmo, mas de uma inquietação, de uma verdade que precisa ser compartilhada.

Retomando Neruda, o que colocamos no meio de nossos textos é o que define se estamos escrevendo ou apenas digitando. Escrever exige algo que nenhuma máquina pode oferecer: o confronto com nossas próprias ideias, a paciência para deixá-las amadurecer, a coragem de expô-las ao mundo.

A tecnologia não é uma inimiga, mas um instrumento. Ainda assim, é nossa responsabilidade definir como usá-la. Podemos deixá-la criar em nosso lugar ou utilizá-la como uma extensão do que somos, mantendo intacta a essência de nossa humanidade.

O desafio de escrever hoje é o mesmo de sempre: dizer algo que faça sentido, que nos conecte, que deixe marcas. A diferença é que agora, mais do que nunca, precisamos escolher se queremos produzir palavras ou construir pontes.

Talvez não haja uma resposta definitiva, mas há uma escolha diária: colocar ideias no meio, como Neruda sugere, e garantir que sejam nossas. Porque, no final, não é o algoritmo que precisa se emocionar – somos nós e quem nos lê.

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A articulista Débora Pimentel, é médica, pesquisadora da saúde mental e psicanalista. 

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica com br

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Fernanda Torres venceu o Globo de Ouro...

Artigo compartilhado do site CINEMAÇÃO, de 6 de janeiro de 2025

Fernanda Torres venceu o Globo de Ouro, mas qual a importância desta conquista?

 Publicado por: Rafael Arinelli

“Nós somos cegos para a nossa própria cultura, mas, ao mesmo tempo, queremos que o mundo veja o que ele está perdendo.” – Fernanda Torres

A frase acima é de uma atriz brilhante que entende o peso e a importância da arte que exerce e, mais ainda, sabe que é fruto dessa cultura, pois há décadas vem provando que sua carreira tem inspiração na mãe, mas que ela, por si só, tem alçado voos muito únicos.

Na noite de ontem (05/01/2025), o Brasil se emocionou ao ver uma atriz brasileira, Fernanda Torres, levando o Globo de Ouro com sua atuação no filme Ainda Estou Aqui, de Walter Salles. A simbologia dessa vitória invoca um orgulho e uma excelência que poucas vezes nos emocionaram tanto como nação.

Mas por que uma vitória no Globo de Ouro emocionou tanto? Qual o tamanho dessa conquista e por que ela ganhou tanta importância?

Para começar, acho que existem três aspectos importantes que podemos destacar: Simbólico, Político e Cultural.

1) Simbólico:

O Globo de Ouro (Golden Globe Awards) é uma das premiações mais prestigiadas de Hollywood. Ele entrega estatuetas para artistas de cinema e televisão que se destacaram no ano. O evento é realizado desde 1944 e a votação é feita pelos membros da Golden Globe Foundation, um grupo composto por jornalistas internacionais que cobrem a indústria do entretenimento em Hollywood.

Nestes 81 anos de premiação, o Brasil já teve representantes lá. A própria Fernanda Montenegro, em 1999, foi indicada ao Globo de Ouro por sua performance em Central do Brasil. Porém, o feito de Fernanda Torres na noite de domingo é inédito! Ela foi a primeira brasileira a vencer na categoria de Melhor Atriz em Filme de Drama por sua atuação em Ainda Estou Aqui.

Este feito ganha uma importância particularmente interessante quando entendemos que:

Estamos falando de aproximadamente 200 jornalistas internacionais que votam e participam do processo de escolha;

Em média, o Globo de Ouro tem um alcance de 18 milhões de telespectadores nos EUA e é transmitido globalmente. Em 2025, a premiação bateu recorde de ibope, chegando a picos de 3,5 pontos de audiência;

Apesar de serem outros votantes, o filme, a atriz e toda a equipe de Ainda Estou Aqui ganham um peso a mais em termos de visibilidade e prestígio para a premiação que vem a seguir, que é o Oscar.

Refletindo sobre a simbologia dessa vitória em termos práticos, estamos falando de uma vitória em uma premiação que é um símbolo do soft power da indústria cultural americana, que molda percepções globais. Quando uma atriz vence, especialmente se ela representa uma identidade ou cultura marginalizada, sua vitória ressignifica o espaço ocupado por essas vozes.

Basicamente, ver uma atriz brasileira em um filme falado em português ganhando um prêmio em um país que é símbolo do imperialismo e capitalismo contemporâneo, é como pegar um megafone e expor para o mundo que aquela história constrói uma nação, define valores e cria pontes entre culturas.

Não há de se estranhar, a própria Fernanda Torres definiu o simples fato de o filme ser um dos indicados como um “milagre”:

“É um milagre! A gente está com um filme cuja única barreira é a língua, e estamos aqui de igual para igual com outros filmes enormes.”

E aí vamos para o segundo aspecto importante dessa conquista… o aspecto político.

2) Político:

No dia 06/01/2025, Donald Trump terá sua vitória certificada no Congresso americano. No dia 20/01/2025, o republicano tomará posse como o 47º presidente dos EUA.

Trump foi eleito com um discurso muito forte de ódio e xenofobia. Essa retórica antiimigrante o ajudou a se eleger, defendendo um modelo fechado e excludente, onde aqueles que não se encaixam no perfil norte-americano tradicional são vistos como ameaças. Em meio a esse cenário, a vitória de Fernanda Torres transcende o reconhecimento individual, representando a força e a importância de uma cultura que, apesar das dificuldades políticas e sociais, segue se afirmando e conquistando espaços de destaque no cenário internacional.

Essa conquista é, sem dúvida, um reflexo do poder transformador da arte e da cultura, que têm o poder de unir pessoas e quebrar barreiras. Enquanto o discurso de Trump e de tantos outros líderes ao redor do mundo tenta enfraquecer o sentido de comunidade e fraternidade, a vitória de Fernanda nos lembra que a arte é uma ponte que conecta pessoas de diferentes origens e histórias, reforçando o valor da empatia e do respeito.

Durante entrevistas no Globo de Ouro de 2025, Walter Salles destacou que essa edição da premiação contava com mais de 20 obras estrangeiras, o que é um recorde no evento.

Este aspecto político é importante justamente porque a arte se posiciona de uma forma a nos rememorar os valores humanos essenciais, muitas vezes surgindo em contextos de opressão ou crise social. O Cinema Novo, por exemplo, surgiu no Brasil durante a ditadura militar. A Nouvelle Vague na França, representando a liberdade e a subjetividade humana. O Neorrealismo Italiano, após a Segunda Guerra Mundial, focou nas dificuldades do cotidiano das classes populares. O Expressionismo Alemão desempenhou um papel significativo na reflexão sobre a condição humana, especialmente em tempos de crise, e por aí vai…

Por isso, uma atriz estrangeira vencer um prêmio como este, cujo filme fala sobre a ditadura militar brasileira, é uma pequena revolução. E não à toa, temos o último aspecto da importância deste prêmio… o cultural.

3) Cultural

Ainda temos o Oscar pela frente. Ele tem um peso maior para a indústria cinematográfica porque é uma premiação cujos jurados são pessoas da própria indústria, como diretores, atores, etc. Além disso, a Academia trata do Oscar com um “glamour” diferente, seja com seu tapete vermelho, na chegada dos artistas, ou na própria audiência, que, nos tempos áureos, já chegou a bater quase 30 milhões de espectadores.

No entanto, independente do resultado do Oscar 2025, o feito de Fernanda Torres e da equipe de Ainda Estou Aqui já é algo marcante na nossa cultura. Isso porque, muitas vezes, o próprio brasileiro entende que sua arte faz parte de uma dinâmica de invisibilidade cultural, onde frequentemente o artista brasileiro é pouco valorizado dentro e fora do Brasil. O Globo de Ouro reconhecer a atriz, ao premiá-la por uma produção que toca questões de transcendência humana, é uma forma de visibilizar as narrativas brasileiras que ultrapassam a ideia de uma cultura subalterna.

Essa visibilidade alcançada pelo prêmio de Torres no Globo de Ouro também deve ser vista como um pequeno, mas significativo, gesto de autorresponsabilidade cultural. Não se trata apenas de reconhecer um talento individual, mas de afirmar um compromisso com a diversidade e a pluralidade de vozes que formam o tecido cultural de um país vasto como o Brasil.

É importante, nesse momento, festejarmos a vitória de Fernanda Torres, sobretudo em tempos de crise política, onde a arte é frequentemente questionada e deslegitimada. O prêmio da atriz se coloca como uma resistência.

Não é por acaso que, no Brasil e no mundo, a arte e a cultura sempre foram alvo de disputas. De um lado, a arte é vista como um veículo de transgressão e crítica social; de outro, como um reflexo da ordem estabelecida. E lembrar da trajetória de Fernanda Torres, com sua atuação em Ainda Estou Aqui, um projeto que também toca em questões existenciais e sociais, resgata a ideia de que a arte, como afirmação da subjetividade humana, também é um campo de confronto político.

Neste sentido, essa vitória vai além do reconhecimento pessoal e profissional: ela se torna um símbolo da resistência cultural brasileira no cenário internacional, em um momento no qual o país enfrenta desafios não apenas econômicos e políticos, mas também uma batalha constante pela valorização da arte e da diversidade cultural.

Fernanda Torres afirmou algumas vezes que: “Independente de levar alguma estatueta para casa, seja do Globo de Ouro ou do Oscar, só o fato de estar concorrendo, de ver o filme sendo reconhecido, já era motivo de orgulho.” – Estamos falando de um filme falado em português, sobre um período da história no qual nós não nos retratamos, não o rememoramos como deveríamos, e ainda enfrentamos polos da população que tentam fazer um revisionismo histórico. Esta vitória de Fernanda Torres é, de fato, uma conquista magistral, digna de lágrimas, sorrisos, gritos e orgulho.

Texto e imagem reproduzidos do site: cinemacao.com