sábado, 30 de agosto de 2025

O incrível poder do nada

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 29 de agosto de 2025

O incrível poder do nada

A tirania da positividade, com os seus profetas de sorriso plastificado e de discursos sobre a "vibração" e "gratidão", não se contenta em dominar a vida; tem a ousadia de querer colonizar a morte. Filipe Carvalho para o Observador:

Estamos perante uma das mais perversas ironias da nossa era. Numa sociedade que se declara mais livre, informada e céptica do que nunca, emerge uma nova casta de profetas: os gurus da autoajuda. Vendem a salvação, mas a troco de um preço, e em vez de sermões nas montanhas, oferecem palestras em palcos iluminados e palavras de ordem que, de tão ocas, parecem ecoar no vazio das nossas incertezas. Estes não são os filósofos que nos ensinam a pensar, mas sim os mercadores da felicidade que nos prometem a resposta para tudo, desde a falência emocional até à bancarrota financeira, numa sedutora, mas perigosa, simplificação da complexidade do viver.

Estes novos gurus da autoajuda, com as suas promessas de felicidade instantânea e sucesso garantido, emergem como parasitas emocionais, que se alimentam da desesperança e do anseio por uma vida perfeita. São os mercadores da ilusão, que vendem manuais de “felicidade” que mais se assemelham a receitas de bolo instantâneo, onde o principal ingrediente é a nossa conta bancária.

Através de livros, palestras e publicações nas redes sociais, estes pregadores da “solução para tudo” erguem um império sobre alicerces frágeis de frases feitas e pseudociência. Apresentam-se como portadores de uma sabedoria ancestral, quando na realidade não passam de meros repetidores de chavões vazios. A sua mensagem, à primeira vista, parece empoderadora: “podemos ser quem quisermos”, “o universo conspira a nosso favor”, “vamos pensar positivo e tudo se resolverá”. Mas, se nos aprofundarmos, percebemos que isto é uma armadilha retórica, um atalho perigoso para a passividade. Em vez de promoverem a reflexão e a ação genuína, estes gurus incentivam uma espécie de pensamento mágico, onde a responsabilidade pelo fracasso é sempre do indivíduo, que “não se esforçou o suficiente” ou “não visualizou a prosperidade corretamente”.

O que há de mais perverso nesta indústria é a sua capacidade de se apropriar de conceitos complexos e diluí-los em cápsulas de consumo rápido. A resiliência, por exemplo, não é a capacidade de sorrir perante a adversidade, mas sim a árdua e dolorosa jornada de aprender a lidar com as perdas e as cicatrizes. A felicidade não é um estado de espírito permanente, mas a soma de momentos fugazes de alegria, intercalados por momentos de profunda tristeza e dor. No entanto, na visão destes “especialistas”, tudo se resume a um processo de “transformação pessoal” que se pode comprar, consumir e replicar.

A verdadeira filosofia, essa que nos convida a questionar, a duvidar e a confrontar a nossa própria fragilidade, é substituída por um hedonismo superficial, onde o objetivo final é a busca incessante pelo prazer e pela ausência de qualquer tipo de sofrimento. E é aqui que reside o maior perigo: ao fugirmos da dor, fugimos também da oportunidade de crescimento e autoconhecimento. Afinal, as maiores lições da vida não são aprendidas nos palcos iluminados das conferências de autoajuda, mas sim nas sombras das nossas próprias derrotas. E isso, meus caros, não há guru que o consiga vender.

A tirania da positividade, com os seus profetas de sorriso plastificado e de discursos sobre a “vibração” e “gratidão”, não se contenta em dominar a vida; tem a ousadia de querer colonizar a morte. A morte, esse último grande mistério, essa certeza implacável, torna-se, nas mãos destes “gurus”, apenas mais um obstáculo a ser superado, um “processo de transição” que se pode gerir com a atitude certa.

Assistimos, com um misto de repulsa e de fascínio, à venda de manuais que prometem “uma morte sem medo”, onde o luto é rebaptizado de “celebração da vida” e a dor é tratada como uma emoção “de baixa frequência” que deve ser evitada. O fim, o ponto final da nossa existência, é transformado num capítulo de autoajuda, com a sua própria playlist de músicas “elevadas” e frases motivacionais. A dor da perda, essa experiência profundamente humana e necessária, é subitamente vista como um fracasso pessoal, um sinal de que não se “trabalhou” bem o “processo de aceitação”.

Este discurso é uma afronta à dignidade humana e à complexidade da experiência do luto. A morte não é um problema a ser resolvido. É um evento que nos confronta com a nossa vulnerabilidade e com a nossa finitude. O luto não é um estado de espírito que se possa “ultrapassar”, mas uma jornada interior, caótica e imprevisível, que nos obriga a enfrentar a nossa própria mortalidade.

Ao tentarem reduzir a morte e o luto a mais um nicho de mercado, estes gurus desumanizam-nos. Negam-nos o direito de chorar, de gritar e de sentir a brutalidade da ausência. O que nos vendem é uma anestesia emocional, um substituto artificial para a experiência genuína de viver e de morrer. E isso, é o mais cínico e cruel dos negócios.

Para todos vós, que chegaram ao fim destas linhas, o meu mais profundo e sincero “obrigado”. E sim, é um agradecimento genuíno e não uma “gratidão” daquelas que se publicam nas redes sociais com um pôr do sol de fundo e uma frase genérica sobre a abundância do universo. Não, a minha gratidão não é um emoji, nem duas ridículas mãos em punho e em forma de coração. É apenas a constatação, humilde e real, de que houve alguém, do outro lado, que me deu o seu tempo e a sua atenção. E por isso, sem a necessidade de visualizar um futuro próspero ou de vibrar numa frequência elevada, o meu obrigado é suficiente. Que as vossas vidas se encham de “obrigações” e não de “gratidões”.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com 

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Platão para o século 21

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 22 de agosto de 2025

Platão para o século 21

Não há espaço para os melhores onde o bem deixou de ser a medida última das coisas. E é nesse momento que os piores começam a governar. Dennys Xavier para a Crusoé:

O clássico diálogo de Platão A República não é um estudo sobre a construção da cidade-ideal, da pólis perfeita, como muitos imaginam.

Aliás, essa é uma leitura que reduz Platão a um arquiteto de cidades utópicas, ignorando que seu verdadeiro ofício era mais profundo: Platão era um topógrafo da alma e, quando pensa a cidade, pensa na mais bem ajustada estrutura comunitária para acolher o melhor da natureza humana e para afastar, tanto quanto possível, o pior de nós.

A cidade, n’A República, é apenas imagem, símbolo, um espelho ampliado do que se passa no interior do ser humano.

O que se organiza ali não é um Estado, mas a psique, o interior de cada um de nós: é o óbvio magistralmente exposto; não se pode esperar que uma cidade (que é, em última instância, a projeção coletiva das almas que a compõem) seja justa, livre ou virtuosa, se seus cidadãos estão desordenados em seu interior.

Quando a alma está doente, dominada pela epithymía (o desejo desenfreado), sem a regência do logos (razão) e o equilíbrio do thymós (ânimo, coragem), o que se projeta no espaço público é uma cidade corrupta, injusta, tirânica.

Nesse sentido, as formas de governo descritas por Platão não são modelos institucionais abstratos, mas arquétipos de tipos humanos (oligarca, democrata, tirano) conforme a alma que os anima.

Platão nos fala, pois, de nós mesmos. Quando aponta a necessidade de uma educação rigorosa, de uma ginástica da alma e de uma vigilância permanente da razão sobre os apetites, está desenhando um ideal de vida filosófica, não de regime político.

A justiça que se busca não nasce de instituições, mas da integridade que pode ser virtualmente encontrada em cada um de nós.

A pólis verdadeira, nesse sentido, é a que se realiza em cada um: quando se consente, livremente, à autoridade do logos, e não à sedução do desejo.

A cidade moderna, fundada não na ordem da alma, mas na desordem das massas, se tornou hostil à excelência.

Não há lugar para os melhores onde impera o igualitarismo vulgar, que confunde justiça com nivelamento forçado, e liberdade com concessão de burocratas estatais apedeutas.

Platão já via isso com clareza no livro VIII da República, quando descreve a transição da democracia para a tirania: ali, o homem livre degenera em licencioso, o amante da sabedoria é ridicularizado, e o desejo reina como tirano.

Para Platão, quando a alma perde seu apreço pelo domínio da razão e, então, passa a delirar em paixões (especialmente a paixão política, que, nas sábias palavras de Nelson Rodrigues, é a mais cretinizante de todas, por ser a única sem grandeza, a única capaz de imbecilizar o homem), a cidade se torna incapaz de acolher o filósofo.

Ao contrário: ela o expulsa ou o mata, como fez com Sócrates.

A cidade moderna não é apenas indiferente aos melhores: ela é, por estrutura, impermeável à excelência, porque esta exige hierarquia interior/exterior, disciplina e um senso de medida que são incompatíveis com o hedonismo democrático que se impôs como norma.

O resultado é uma cidade ruidosa, cheia de vozes, mas surda à verdade; cheia de opiniões, mas vazia de sabedoria; cheia de regras (aos milhares, quiçá milhões), mas sem justiça.

A excelência, nesse ambiente, é tratada como arrogância; o mérito, como privilégio; o discernimento, como opressão.

E assim, tal como na caverna, os que enxergam mais são tomados por loucos, e os que tentam libertar são acusados de tirania.

Não há espaço para os melhores onde o bem deixou de ser a medida última das coisas. E como diria Platão, é exatamente nesse momento que os piores começam a governar.

Sim, a vida não refletida desorganiza o individuo internamente e isso vai projetado na cidade. Você não tem boa organização social se, dentro, está tudo por fazer.

Nesse exato sentido, a ascensão dos piores, então, não é um acidente, mas uma consequência lógica.

Quando a cidade se afasta da paideia, da formação da alma segundo a razão e a virtude, ela se torna terreno fértil para a demagogia.

Os piores, aqueles cujas almas são desordenadas, cujos apetites governam seus pensamentos, e cujas palavras são moldadas para agradar, não para esclarecer: esses são os que melhor se adaptam a uma pólis também doente.

Platão desenha essa realidade com amarga precisão. Na transição da democracia para a tirania, os homens deixam de buscar o bem e passam a buscar o prazer; deixam de querer ser bons e passam a querer parecer bons.

A retórica substitui o logos, e o aplauso substitui o bom-senso.

Nesse ambiente, os piores triunfam naturalmente. Eles não precisam disfarçar sua desordem: ao contrário, eles a usam como bandeira.

Qualquer semelhança com o que você vê diariamente em sua janela não é mera coincidência.

O populista triunfa porque traduz em slogans o que há de mais raso nas paixões populares monopólicas.

O coletivista é celebrado porque promete ao indivíduo a redenção que este se recusa a buscar em si mesmo.

E o demagogo reina porque diz aquilo que todos já pensam, evitando o esforço de pensar melhor.

Platão via esse processo como uma doença espiritual da cidade.

E como toda doença, ela tem um pathos: um sofrimento que a alimenta e a reproduz.

O sofrimento de uma vida interior mal-ajambrada (sem ordem, sem direção), que exige anestesia constante: e é isso que os piores oferecem.

Alívio, não cura.

Conforto, não verdade.

Massa, não indivíduo.

Todos entorpecidos, aguardando o novo corte “tramontina” ao final do vídeo.

Os piores tendem ao poder porque encarnam a cidade que os produz. Eles são seus legítimos herdeiros.

Não se trata, portanto, de uma aberração, mas de uma coerência trágica.

A cidade moderna, ao se afastar da excelência, se aproxima da tirania; não necessariamente da tirania do Estado, mas da tirania do ruído, do ressentimento e da mediocridade entronizada, da qual o Estado é um retrato ampliado.

Platão compreendeu que nenhuma cidade se ergue acima do nível moral de seus habitantes, em suma.

Não há leis suficientemente justas, instituições suficientemente eficientes, nem governantes suficientemente hábeis que possam salvar uma cidade cujos cidadãos se recusam a ordenar suas próprias almas.

Toda degeneração política é, em sua origem, uma degeneração antropológica.

Assim, se quisermos um Estado melhor, mais livre, mais justo, bem … não é nas urnas que começa essa busca, mas no espelho. A reforma das leis vem depois da reforma da alma. A constituição da cidade depende da constituição do homem.

Mas aí está o ponto: estaríamos dispostos? Estaríamos dispostos a renunciar à doce embriaguez do ressentimento e da vitimização?

A abandonar a ilusão de que o mal está sempre no outro, na estrutura, no sistema, e nunca em nós mesmos?

Estaríamos dispostos a suportar o peso da liberdade, que exige esforço e disciplina interior?

Platão parece dizer que não. Por isso, o filósofo é quase sempre um estrangeiro em sua própria cidade.

Por isso, a cidade justa é rara. E por isso, Sócrates morre, e não governa.

Entretanto, é justamente a pergunta que nos salva. Porque, se feita com sinceridade, ela já é o início da cura.

Quando o homem se pergunta se está disposto a melhorar a si mesmo (em vez de querer mudar o mundo) ele já deu um passo fora da caverna.

E esse passo, por pequeno que seja, pode ser o início de uma nova Politeía, de uma nova cidade, não nos mapas, mas nas almas.

Estamos dispostos?

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sexta-feira, 22 de agosto de 2025

A humanização excessiva dos animais pode levar...


 Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 19 de agosto de 2025

A humanização excessiva dos animais pode levar à bestialização de humanos

Na Itália, o número de animais de estimação aumenta enquanto a taxa de natalidade afunda, afirma o jornal Financial Times. João Pereira Coutinho para a FSP:

"Quanto mais conheço os homens, mais estimo os cachorros", teria dito Lord Byron.

Os italianos concordam. Leio no Financial Times que o aeroporto de Roma tem um hotel de luxo, com salão de massagens e jardim comunitário, para que os viajantes possam deixar seus cachorros antes de embarcar.

O fenômeno se explica com números: 40% das casas italianas já têm um animal de estimação. É muito? Para a Itália, talvez. Não para o Reino Unido (60%) ou para os Estados Unidos (66%).

Atrás desses números existe uma economia gigantesca —comida gourmet, vestuário, clínicas, creches, serviços funerários et cetera— que movimenta bilhões de euros por ano e só confirma a crescente humanização dos bichos.

Eu próprio, confesso, já assisti ao funeral de um cachorro por ser amigo dos donos. Teve direito a discurso emotivo e vídeo com os melhores momentos do defunto.

Era inevitável. A "modernidade líquida", como ensinava um sociólogo célebre, dissolveu as estruturas tradicionais (e sólidas) que enquadravam a vida dos indivíduos. Família? Comunidade? Religião?

Tudo se foi perdendo —até na Itália. As relações humanas tornaram-se mais frágeis, intermitentes e utilitárias, aumentando o estado de insegurança e incerteza permanentes em que vivem os contemporâneos.

Os animais preenchem esse vazio pela reposição de certas virtudes "sólidas": lealdade, afeto incondicional, presença constante.

Por sua vez, os humanos devolvem a gentileza com cuidados e luxos que seriam impensáveis há alguns anos. E que, às vezes, soam quase caricaturais.

Quando pergunto a familiares ou amigos por que motivo elevaram o cachorro ou o gato a um estatuto quase humano, eles repetem, com outras palavras, a frase atribuída a Lord Byron. Os animais não decepcionam.

Longe de mim criticar a tendência. Meu pessimismo antropológico não permitiria. Além disso, uma gota de misantropia sempre cai bem em qualquer circunstância.

Mas uma gota é uma gota, não um modo de vida. Por isso nunca troquei os humanos pelos animais. Não por algum amor abstrato aos humanos, mas porque preciso deles para continuar sendo humano.

Para polir a linguagem, preciso da "alteridade" como uma planta precisa de luz e água. Preciso da presença dos outros, da fricção, da crítica, da oposição, do conflito.

Preciso do risco, das desilusões, das iluminações. Preciso de alguém que me derrube e me recomponha. Que transforme meus erros em virtudes, minhas virtudes, em erros.

Preciso escutar o que não quero, o que não sinto, o que não vejo. Preciso viver e aprender. O inferno são os outros? Fato. Mas, como lembrava Millôr Fernandes, o paraíso também.

Não me entenda mal. Gosto de cachorros. Gosto de gatos. E até concordo, em parte, com a filósofa Donna Haraway que escreveu em tempos um conhecido "Manifesto" em defesa da "espécie companheira".

Nossa relação com os animais é bidirecional, defendia ela: somos parceiros históricos que se moldaram mutuamente. E nossa identidade como humanos depende dessa reciprocidade.

Meu ponto é outro: não a convivência entre humanos e animais, mas a substituição dos primeiros pelos segundos. E, nesse quesito, nada substitui a presença do outro —o seu rosto, os seus gestos, e as suas palavras.

A relação entre um ser humano e um animal pode ser importante, mas é sempre assimétrica. O cachorro é leal, mas não critica. O gato pode ser boa companhia, mas não obriga ninguém a justificar uma escolha.

Repito: gosto de cachorros e gatos. Mas latir e miar é, para este seu criado, insuficiente. A humanização dos animais, quando levada a certos excessos, pode ter um preço: a bestialização dos seres humanos.

Conheço casos. Personalidades que ficaram mais achatadas, mais previsíveis, mais unidimensionais, como se vivessem numa fábula às avessas. Não latem nem miam, é verdade, mas até a linguagem ficou mais pobre. Na Itália, o número de animais de estimação aumenta ao mesmo tempo que a taxa de natalidade afunda, informa o Financial Times.

Correlação não implica causalidade, eu sei, mas a paisagem fala por si: onde antes havia crianças, há agora animais.

Em que espécie estaremos nos transformando a partir dessa troca?

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quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Glória Perez: por causa da cultura woke, a censura moral...

Entrevista compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 11 de agosto de 2025

Glória Perez: por causa da cultura woke, a censura moral às novelas está pior que na ditadura militar.

A autora afirma que o politicamente correto está por trás da crise da teledramaturgia e que 'Travessia' foi implodida de propósito. Entrevista à FSP:

Gloria Perez se expressa com a objetividade de quem não tem tempo a perder. Ao longo de uma hora e meia de entrevista, não titubeou. Nada do que dizia soava acidental. Verbos e adjetivos eram escolhidos a dedo, como se soubesse o efeito que causaria no interlocutor —característica própria de alguém que encontrou na palavra o seu ofício.

Em mais de quatro décadas de carreira, Perez criou novelas de forte apelo emocional, adicionou aos folhetins causas sociais, culturas estrangeiras e inovações tecnológicas que viraram sua marca na teledramaturgia nacional.

A assinatura pode ser vista em enredos como "O Clone", "América" e "Caminho das Índias", que venceu o Emmy Internacional, em 2009. "No contexto atual, essas novelas nem chegariam ao público", diz. "Foram tramas inovadoras, e inovar pressupõe correr riscos."

Ela fala do medo de ofender o público e das preocupações com o politicamente correto. As tramas, inclusive, já foram alvo de críticas. Para alguns, o retrato que fez de países como Índia ou Turquia, em "Salve Jorge", é estereotipado.

Perez discorda. "Quem foi ao Marrocos, à Índia, à Capadócia viu de perto o quanto a população dos locais gostou desses retratos", afirma. "Hoje em dia, com essa coisa de não poder ofender um grupo, não poder ofender outro, você acaba fazendo uma novela sem conflito", elemento que considera a espinha dorsal do gênero.

Perez entrou na Globo em 1979, como pesquisadora do departamento de teledramaturgia. Em 1983, colaborou com Janete Clair na novela "Eu Prometo", antes de começar a tecer sua obra. Em abril, veio a público que os laços com a emissora haviam sido rompidos, três anos após "Travessia", que sofreu diversas críticas e amargou uma audiência ruim para a faixa das nove. "Essa novela foi implodida por dentro", diz a autora. "Detestei não ver no ar aquilo que eu escrevi."

Mas a saída da emissora se deu após seu projeto seguinte, "Rosa dos Ventos", ter recebido vetos da direção por sua trama com teor político e por abordar o aborto.

Para ela, essa preocupação em não desagradar o público teria feito com que a censura moral sobre a teledramaturgia, hoje, se tornasse pior que a da ditadura militar.

Perez ainda se lembra dos vetos da censora Solange Hernandes, a chamada "dama da tesoura". "Agora nós temos uma multiplicidade de Solanges. Nas redes, com raras exceções, cada pessoa é uma Solange diferente", afirma a novelista. "Antes, você tinha uma censura. Agora, a censura está espalhada na sociedade. É muito pior."

Em uma entrevista de 2011, a senhora disse que o politicamente correto na teledramaturgia é um saco e que a vida não é politicamente correta. Catorze anos depois, mantém essa opinião?

Sempre achei que o politicamente correto engessa, reduz e elimina a possibilidade do conflito. Ao fazer isso, ele amordaça e empobrece o autor. Só que novela é conflito. O que você procura como criador de histórias é compreender e mostrar os sentimentos humanos em relação a um determinado assunto. Mas, hoje em dia, com essa coisa de não poder ofender um grupo, não poder ofender outro, você acaba fazendo uma novela sem conflito.

Quando eu fiz "Hilda Furacão", a gente deixava a conclusão para o público. As pessoas entenderão e concluirão o horror do que o personagem está fazendo. Não cabe a mim cassar a fala dele ou fazer um discurso em cima disso.

É como um quadro. Não é necessário ter uma explicação ao lado da tela dizendo de que forma o público a deve enxergar. Como os avisos que aparecem em novelas antigas, dizendo que a obra reproduz comportamentos da época em que foi realizada. Para quê?

É óbvio que os valores e os costumes mudam em cada período histórico. Quando vejo uma novela de época em que é maravilhoso cortar a cabeça de alguém com uma espada, eu sei que aquilo é algo específico do passado e que é uma ação horrível. Eu não preciso ser informada sobre isso.

Quando dizem "as novelas estão assim porque os talentos morreram e não aparecem outros", eu discordo. Existem talentos, mas eles foram engessados.

Críticos de TV afirmam que as novelas passam por dificuldades não só de audiência, mas também de criatividade. A teledramaturgia nacional está em crise?

Sem dúvidas. As novelas não estão tendo a relevância de antes nem como entretenimento nem como porta-voz de temas importantes. A explicação disso não se resume à multiplicação das telas e das opções do público. A cultura "woke" introduziu um cerceamento à imaginação. A opção de não desagradar, de não tocar em temas sensíveis, de transformar conflitos humanos em pautas, acabou por encerrar a dramaturgia numa espécie de fórmula, retirando dela a capacidade de provocar. A cultura "woke" foi arrasadora para a dramaturgia.

Diante dessas preocupações, tramas como ‘O Clone’ e ‘Caminho das Índias’ seriam possíveis hoje?

No contexto atual, elas nem chegariam ao público. Foram novelas inovadoras, e inovar pressupõe correr riscos. "Salve Jorge", além de tratar de um tema muito sensível, o tráfico de pessoas, trazia a personagem da Nanda Costa como a primeira protagonista favelada e prostituída. Não imagino que essa ousadia fosse aprovada hoje em dia.

Em abril, a senhora decidiu encerrar o contrato com a Globo após uma trama envolvendo aborto na sua próxima novela ter sido vetada. Quais foram os bastidores da sua saída?

Eu decidi pôr um ponto final porque meu contrato acabaria quando terminasse esta novela que foi barrada. Decidiram adiar a novela por causa do aborto. Aí eu falei "gente, se tem uma pessoa que sabe tocar com delicadeza nesse tipo de tema, sou eu, a minha história toda mostra isso". Mas aí veio o medo de desagradar algumas áreas. A minha assinatura é lidar com temas delicados e trazer o público para a discussão. Se eu não puder fazer isso, eu acabo.

A emissora queria que eu assinasse um contrato de extensão para fazer a próxima novela, que viria depois de "Três Graças", do Aguinaldo Silva. Eu falei que não me interessava e que queria rescindir o contrato. Eu senti que eu não conseguiria mais fazer as novelas que sei e quero fazer. Eu sou incapaz de pensar engessada. Ou eu tenho liberdade para voar, ou não tenho liberdade nenhuma.

A senhora entrou na Globo em 1979, num momento em que a censura da ditadura ainda era uma realidade. Como compara a vigilância moral naquele período com a atual?

Na época, você tinha uma censura comandada pela dona Solange [Hernandes, chefe da Divisão de Censura de Diversões Públicas do regime militar]. Era ela quem mandava cortar as coisas. Só que agora nós temos uma multiplicidade enorme de "Solanges". Nas redes sociais, com raras exceções, cada pessoa é uma Solange diferente, julgando o outro e tentando cassar a palavra alheia. Não era assim. Antes, você tinha uma censura. Agora, a censura está espalhada na sociedade. É muito pior.

Novelas suas foram criticadas por trazer um suposto retrato estereotipado de culturas estrangeiras. De que modo avalia essa crítica?

Fico com a aprovação das culturas retratadas. Quem foi ao Marrocos, à Índia, à Capadócia sabe disso e viu de perto o quanto a população dos locais gostou desses retratos. Sempre busquei incluir a face mais progressista e a mais tradicional de cada cultura. Mês passado, uma amiga jornalista viajou pelo Arzebaijão. Num restaurante, ao saber que era brasileira, os garçons falaram com entusiasmo de "O Clone".

A sua última novela na Globo foi ‘Travessia’, de 2022. Ao longo da exibição, a obra foi alvo de críticas, muitas delas direcionadas à atuação de Jade Picon. A senhora se arrepende da escalação dela para a trama?

Eu não escalei a Jade. Quem escalou foi o Ricardo Waddington. Olha, eu vou falar pouco sobre isso, porque vou comentar mais no meu livro de memórias. Mas "Travessia" foi um ponto fora da curva. Essa novela foi implodida por dentro. Não deu certo intencionalmente.

Quem atuou para que a novela não desse certo?

Posso dizer que a Jade Picon, apesar da inexperiência dela, foi muito importante para mim nessa novela. Ela deu vida a momentos emocionantes e não atrapalhou o enredo. Mas eu não quero falar sobre isso. Detestei não ver no ar aquilo que eu escrevi.

A senhora aceitaria escrever novelas para o streaming ou para outras emissoras?

Eu não me aposentei. Apenas tirei uns meses sabáticos para descansar, botar em dia tudo o que ficou atrasado no que diz respeito à saúde e às pendencias da casa. Tenho muitas propostas a avaliar. Quando encerrar o tempo para me dedicar a mim, vocês terão notícias.

Em ‘América’, de 2005, uma cena de beijo gay que seria exibida no último capítulo foi vetada pela Globo. Como recebeu essa notícia na época?

Fiquei chocada e chateada. Não era um beijo de sacanagem. Estava tudo muito bem construído. Nós fizemos sete versões da cena. Tinha versão mais punk, mais suave. Tivemos muito cuidado para ver se uma delas passava. Aí aconteceu uma reunião de cúpula no dia da exibição em que levamos as sete versões. Um monte de diretores se reuniu para assistir às cenas e votar. Os votos contrários predominaram e a cena foi suspensa.

Eu tinha que entender que a dona do produto era a emissora e que ela tem o direito de decidir o que é melhor para o público. Eu e o Marcos Schechtman, diretor da novela, achávamos que era um tiro no pé e um grande erro.

Em 1998, a senhora fez o remake da novela ‘Pecado Capital’, da sua mentora, Janete Clair. Agora está no ar o remake de ‘Vale Tudo’. O que a senhora tem achado da novela?

Eu vi só o primeiro e o segundo capítulo. Tive uma péssima experiência com remake. Não gosto e não acredito neles. O remake de "Pantanal" deu certo porque essa novela passou na TV Manchete, emissora que tinha uma audiência menor do que a da Globo. Mas eu não lembro de nenhum remake recente que tenha dado certo e despertado o mesmo entusiasmo que a versão original despertou. O que fica na boca do povo é sempre o que foi feito lá atrás.

Em uma entrevista recente, o ator Raul Gazolla disse que a senhora voltou a sorrir quando soube da morte de Guilherme de Pádua, que assassinou a sua filha, Daniella Perez, em 1992. Como reagiu à morte dele?

Tive uma reação estranha. Não senti nada. Recebi esse fato com a alma e o coração em branco. Era uma pessoa que já tinha morrido havia muito tempo para mim.

Nas entrevistas à época do assassinato de Daniella, chama a atenção o modo objetivo com o qual a senhora falava sobre o caso. Como conseguiu manter a lucidez?

Eu sabia que a minha filha seria assassinada de novo todos os dias se não tivesse ninguém para a defender. Quem pode defender o filho, antes de mais nada, é a mãe. Por isso, era preciso preservar a lucidez. Por esse motivo, continuei a escrever "De Corpo e Alma" [na qual Daniella atuava quando foi morta]. A novela me obrigava a ter um foco.

Nessa época, me lembrei de uma história do professor Manoel Maurício de Albuquerque, com quem tive aula na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele sempre contava para a gente como sobreviveu quando foi preso na ditadura. Sozinho na cela, só tinha uma caixa de fósforo. Todos os dias, tirava os palitos para contar. Depois, guardava e recomeçava a contagem de novo. Fazer isso o mantinha lúcido.

Foi isso o que eu fiz. Cada palito era um capítulo que eu continuei escrevendo. Tem momentos em que você não pode se deixar no vazio, se não você cai. Se eu caísse, minha filha cairia junto.

Raio-X | Gloria Perez, 77

Nascida no Rio de Janeiro, passou a infância em Rio Branco, no Acre. Cursou história na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 1979, entrou na TV Globo como pesquisadora do departamento de teledramaturgia. O primeiro passo como autora se deu em 1983, quando colaborou com Janete Clair na novela "Eu Prometo". Depois disso, emendou um trabalho atrás do outro, tornando-se uma das autoras mais importantes do país, com folhetins como "Barriga de Aluguel", "O Clone", "América" e "Caminho das Índias".

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Guerra dos gênios...

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 1 de agosto de 2025

Guerra dos gênios: o que você faria com um salário de 100 milhões por ano?

Mark Zuckerberg está recrutando os melhores do mercado - e isso cria uma situação sem precedentes em matéria de remuneração. Vilma Gryzinski:

O mundo da alta tecnologia precisa de duas coisas: gênios e energia elétrica. São a matéria prima para a “superinteligência”, uma evolução da inteligência artificial capaz de emular em tudo e até superar o cérebro humano. As duas coisas custam caro e não são encontradas em qualquer lugar, mas o dinheiro faz milagres. Mark Zuckerberg, por exemplo, está abrindo os cofres, com pacotes de até 250 milhões de dólares por quatro anos, sendo 100 milhões no primeiro ano.

Dá para imaginar o que fazer com um “salário” desse tamanho? Pois ele já ouviu recusas. Todos os que receberam propostas desse tipo no Thinking Machines Lab não aceitaram. O Thinking Machines é um projeto de Mira Murati, engenheira nascida na Albânia que já trabalhou na Tesla e na OpenAI. Ela deve ser muito boa para cultivar a lealdade das equipes pois teve gente da sua turma que recebeu proposta de até 1 bilhão de dólares num pacote plurianual.

Outros, obviamente, não resistiram. O New York Times relata o caso de Matt Deitke, de 24 anos, que não queria largar sua startup. Zuckerberg mais do que dobrou a proposta inicial e colocou na mesa 250 milhões de dólares, por quatro anos.

Como no mundo do futebol americano ou do basquete, surgiu a figura do recrutador, que em certos casos consegue levar equipes inteiras, geralmente formadas por americanos, indianos, chineses e um punhado de outras nacionalidades que dominam o mercado da superinteligência humana.

Zuckerberg está investindo 14,3 bilhões de dólares num novo laboratório de pesquisas de superinteligência. Colocou no comando Alexandr Wang, a pessoa mais jovem do mundo a se tornar bilionária por esforço próprio – aos 24 anos. Mas, segundo as fofocas, os convites milionários recusados são relacionados a críticas a seu “estilo”.

Segundo o Times, existem dúvidas sobre a viabilidade da superinteligência, ou a máquina que é mais poderosa do que o cérebro humano. Mas alguns acreditam que é questão de poucos anos.

CLIENTES E PATRONOS

Zuckerberg já tem um laboratório de inteligência artificial, mas “é ambicioso e se preocupa em ser ficar para trás dos outros gigantes” do ramo. Ele também tem que provar a viabilidade do projeto para os talentos que tenta recrutar. Dinheiro não falta: a Meta levou no segundo semestre 47,5 bilhões de dólares, um aumento de 22%. Ele diz que quer colocar o poder da superinteligência nas mãos de todas as pessoas para que possam “direcioná-la para o que valorizam em suas vidas”. E, claro, ficar no topo do mundo.

A alta tecnologia atrai os maiores gênios do mundo de maneira parecida como a Roma renascentista congregou Michelangelo, Leonardo da Vinci, Rafael, Donatello e Botticelli – inclusive com a mesma disputa por clientes e patronos.

As máquinas que realizam os programas das inteligências humanas consomem incríveis quantidades de energia elétrica e essa é outra frente onde se trava o combate do futuro. Dos dez maiores data centers do mundo, três são chineses e sete são americanos. Há previsões de que a demanda desses centros de dados vai mais do que dobrar até 2030, chegando a vertiginosos 945 terawatts-hora.

O governo Trump anunciou na semana passada um plano de ação concernente à inteligência artificial, baseado em três pilares: inovação, infraestrutura e influência global. Todos os gigantes tecnológicos querem acesso a energia nuclear para suas instalações. É um mundo que ignorado apenas pelos que querem ficar para trás. Os mais brilhantes entre os que pensam para a frente já estão ganhando 100 milhões de dólares por ano.

Texto e imagem reroduzidos do blog: otambosi blogspot com

quinta-feira, 24 de julho de 2025

Provocações filosóficas


De Post compartilhado do Facebook/Provocações filosóficas, de 24 de julho de 2025

Provocações filosóficas.

Em um trecho da palestra para a TV Feira do Livro, Leandro Karnal fala sobre a relação entre inteligência e sociabilidade, em sua fala ele mostra que ao adquirir mais conhecimento, cultura, e a medida que se lê mais, nos tornamos mais exigentes com nossas relações sociais.

Para o historiador, essa mesma inteligência adquirida não representa uma vida mais feliz, pois muitos dos grandes nomes da nossa sociedade eram atormentados e sozinhos.

Abaixo deixamos um pequeno trecho adaptado da fala de Karnal onde ele discorre sobre o assunto:

“Ao ler livros como Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, e Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, eu reconheci que havia mentes muito privilegiadas sobre as quais eu poderia pensar, discorrer e me aprofundar, mas eu não faria a mesma coisa. Então tive que achar um nicho na humanidade, que foi ser professor: cabe ao grande intelectual, ou seja, alguém do mesmo porte de Clarice Lispector, criar ideias, e cabe a um professor ensiná-las.

E por intelectual estou me referindo a pessoas que um dia olham para o espaço sideral e têm aquela intuição que, entre 1906 e 1907, Pablo Picasso teve ao pintar Les Demoiselles d’Avignon, criando então o cubismo como linguagem, que olham para algumas gravuras japonesas e criam uma explosão de pinturas, como Vincent Van Gogh fez entre 1889 e 1890.

Para me consolar em relação ao meu estágio intermediário de inteligência eu pensei: ‘Van Gogh se matou. Clarice Lispector era uma pessoa atormentadíssima, segundo sua biografia feita por Benjamin Moser, pois, dotada de sua capacidade de visão, ela tinha uma dificuldade extrema de convívio com as pessoas, já que, para conviver bem com as pessoas, é necessário estar mais ou menos no mesmo plano civilizacional que elas.’ Por isso as pessoas simples são muito sociáveis; estas pessoas ficam muito felizes com experiências singelas de conversas.

Não é um conselho, mas uma advertência: à medida que vocês forem lendo mais e mais vocês vão ficando mais exigentes com as pessoas. Orações absolutas como ‘Tá quente hoje, né? O tempo tá maluco! E na política só tem ladrão!’ enunciam o mundo como ele é. Mas à medida que eu leio Coração das Trevas, de Joseph Conrad, eu acabo me lembrando do filme, inspirado nesse livro, Apocalypse Now, e minha cabeça dá dez voltas enquanto alguém me diz: ‘Nossa! Que calor!’ Isso me torna mais feliz? Provavelmente não.

Intelectuais e pessoas muito versadas raramente são muito felizes. A universidade não é um local de felicidade intensa – uma reunião de departamento não é uma reunião de pessoas que flutuam no espaço das ideias, iluminadas pela luz da razão. Uma reunião de qualquer departamento é quase sempre idêntica a uma reunião de pessoas não formadas, só variando o vocabulário. O ressentimento, a inveja, a fofoca e a detração são iguais entre pessoas que vendem balas no mercado de Porto Alegre e entre pessoas que estão nos departamentos, especialmente nos da área de humanas”.

Transcrição adaptada feita pelo Provocações Filosóficas do trecho da Palestra - Ler e viver - Tv feira do livro.

Texto e imagem reproduzidos de post Facebook/Provocações filosóficas

terça-feira, 15 de julho de 2025

Roger Simões fala sobre tecnologia, inovação e comunicção

Entrevista compartilhada do site do JORNAL DA CIDADE, de 2 de junho de 2025

Roger Simões fala sobre tecnologia, inovação e comunicção

Em seu livro Empregos Humanos em Tempos de Robôs, lançado em 2025, propõe uma reflexão provocadora sobre o futuro do trabalho

Apaixonado por tecnologia, comunicação e inovação, Roger Simões encontrou, na interseção entre esses mundos, o caminho para uma carreira sólida e cheia de propósito. Com mais de 20 anos de experiência em tecnologia, marketing e criatividade, ele é uma das vozes que vêm se destacando no debate sobre o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho. Em seu livro Empregos Humanos em Tempos de Robôs, lançado em 2025, propõe uma reflexão provocadora sobre o futuro do trabalho, o papel da inteligência artificial e o que nos torna, afinal, insubstituíveis. Confira abaixo a entrevista.

JC SOCIAL – Roger, o livro Empregos Humanos em Tempos de Robôs foi lançado recentemente e nele temos boas reflexões sobre o futuro do trabalho. O que o motivou a escrever essa obra?

ROGER SIMÕES – Minha trajetória sempre esteve ligada à tecnologia, à criatividade e à inovação. Ao longo dos últimos anos, ficou muito evidente para mim que estávamos vivendo uma ruptura histórica causada pela inteligência artificial e pela automação. Escrevi o livro justamente para ajudar as pessoas a compreenderem que essa transformação não é algo distante ou abstrato; ela está acontecendo agora, afetando nossas rotinas e exigindo uma adaptação imediata. A ideia surgiu da minha experiência direta com tecnologia, mas também da preocupação real com profissionais que precisam entender, urgentemente, como navegar nesse novo contexto, valorizando aquilo que a máquina jamais substituirá: nossa criatividade, capacidade crítica e essência humana.

JC SOCIAL – Ao longo da obra, você mostra que áreas antes consideradas “intocáveis” estão sendo impactadas pela IA. Quais os principais desafios que você enxerga para profissionais da economia criativa e do mercado de serviços?

ROGER SIMÕES – O maior desafio é a reinvenção constante. Profissionais dessas áreas, muitas vezes, se acomodaram em processos que eram considerados seguros e imunes à automação. Agora, porém, precisam aceitar que a inteligência artificial já consegue executar tarefas criativas e consultivas com rapidez e eficiência surpreendentes. Nesse cenário, é preciso abandonar a mentalidade tradicional de resistência à tecnologia e abraçar um modelo colaborativo, no qual humanos e máquinas trabalhem em sinergia. Outro grande desafio é a necessidade de aprimorar continuamente habilidades como inteligência emocional, empatia, pensamento estratégico e criatividade genuína — competências que continuam insubstituíveis.

JC SOCIAL – Seu dia a dia envolve tecnologia de ponta, mas você também fala da valorização do trabalho manual e da experiência humana. Como essa dualidade aparece na sua rotina pessoal?

ROGER SIMÕES – Na minha rotina, essa dualidade é muito clara. Trabalho diariamente com uma equipe que está na vanguarda da inteligência artificial, automações e ferramentas digitais, sempre buscando otimizar processos, impulsionar resultados e ampliar a produtividade. No entanto, tenho plena consciência de que o verdadeiro valor de qualquer negócio continua sendo a experiência humana, que envolve entender profundamente as necessidades do cliente, estabelecer conexões autênticas por meio de estratégias eficazes de branding e criar significado genuíno em cada interação. A inteligência artificial acelera processos e torna as tarefas mais eficientes, mas jamais poderá substituir a sensibilidade, a criatividade e a capacidade de percepção humana necessárias para construir relações sólidas e duradouras com o público. Encontrar esse ponto de equilíbrio entre eficiência tecnológica e estratégia centrada nas pessoas é, em última instância, o fator decisivo para garantir sustentabilidade e sucesso em um ambiente profissional tão dinâmico e em constante transformação.

JC SOCIAL – Como você avalia o papel de políticas públicas e instituições de ensino nesse cenário de transformação acelerada pelo uso da inteligência artificial?

ROGER SIMÕES – Acredito que as políticas públicas e as instituições de ensino têm um papel decisivo nesse contexto. Um dos principais pontos que defendo é justamente a ampliação do acesso dos jovens às ferramentas digitais e à inteligência artificial desde cedo, em vez de limitar esse contato. Quanto mais cedo forem apresentados a essas tecnologias, mais rapidamente irão dominá-las, aprendendo a utilizá-las com eficiência, ética e senso crítico. Essa familiaridade precoce é essencial para que entendam como funcionam os algoritmos e os impactos dessas tecnologias na vida prática. Isso permitirá que se tornem profissionais mais estratégicos, criativos e adaptáveis às mudanças do mercado de trabalho. Além disso, as políticas públicas devem focar na democratização e universalização do acesso, garantindo que jovens de diferentes contextos sociais possam igualmente se beneficiar das oportunidades trazidas pela inteligência artificial. Ao mesmo tempo, as instituições de ensino precisam modernizar seus currículos, oferecendo treinamentos práticos que permitam aos estudantes desenvolver competências para atuar com segurança e responsabilidade nesse novo cenário digital.

JC SOCIAL – Que conselho você daria para quem está começando agora, tentando entender como encontrar seu espaço em um mercado que muda tão rápido?

ROGER SIMÕES – Meu principal conselho é cultivar, desde cedo, uma mentalidade de aprendizado constante, proatividade estratégica e capacidade de adaptação. É fundamental entender que o conceito tradicional de estabilidade não existe mais. Um diploma, por si só, já não garante nada — é apenas um ponto inicial da sua trajetória. É essencial desenvolver curiosidade genuína, experimentar ideias na prática, ajustar-se rapidamente às mudanças e tomar decisões corajosas e calculadas. As pessoas precisam abandonar a postura passiva de esperar que empresas ou instituições lhes indiquem caminhos, até porque muitas delas também não têm clareza sobre o futuro do mercado. É indispensável assumir o protagonismo ativo da própria carreira, trabalhando continuamente para expandir suas competências, adquirir novos conhecimentos e manter uma perspectiva aberta e crítica para enxergar claramente as oportunidades e desafios do futuro profissional que já está diante de nós.

Texto e imagem reproduzidos do site: jornaldacidade net

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Analógicos ajuda jovens a desconectar e preservar saúde mental


Artigo compartilhado do JORNAL DE BRASÍLIA, de 3 de setembro de 2024 

Volta a aparelhos analógicos ajuda jovens a desconectar e preservar saúde mental

O objetivo desta volta ao passado é preservar a saúde mental dos efeitos da digitalização da vida

Redação Jornal de Brasília

Por kalil de Oliveira (Florianópolis,SC (Folhapress)

“É meio saudosista”, diz Vitor Ramiro, 20, dono de uma coleção de mais de 50 discos de vinil. Com um ritual meticuloso, que começa na leitura do encarte e termina na apreciação atenta do álbum, o estudante busca, além de escutar música, preservar a saúde mental dos efeitos da digitalização da vida.

“Dificilmente vou ficar sentado, colocar o fone e prestar atenção em alguma playlist de streaming”, conta, que acha que tudo que é oferecido por algoritmo nas plataformas digitais gera mais ansiedade. “Rolamos o dedo na tela o tempo todo, tendo experiências e reações diferentes dentro de alguns segundos.”

O estudante, que também faz fotografias analógicas, é parte de uma tendência que busca equilíbrio entre tecnologias novas e antigas. De 2022 para 2023, a venda de discos de vinil no país alcançou R$ 11 milhões (+136,2%), segundo a Pró-Música Brasil (Produtores Fonográficos Associados).

Cerca de 60% dos brasileiros passaram tempo excessivo em telas no ano passado, com um salto na faixa de 18 a 24 anos (76%) e 25 a 34 (71%), segundo a pesquisa Covitel (Inquérito Telefônico de Fatores de Risco para Doenças Crônicas não Transmissíveis em Tempos de Pandemia), realizado pela UFPEL (Universidade Federal de Pelotas) e pela associação de saúde pública Vital Strategies.

Para o psiquiatra e professor aposentado da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Neury Botega, as redes sociais têm um papel importante em fomentar a ansiedade (nos jovens) porque a rapidez do consumo é alta. “As pessoas ficam muito tempo vendo selfies em lugares paradisíacos. A sensação que causa é de que só elas não se divertem, só elas têm dor psíquica e existencial.”

Lilian Lucas, professora de residência do Instituto de Psiquiatria de Santa Catarina (IPQ/SC) explica que os celulares não causam transtornos mentais, mas os potencializam em pessoas com predisposição, embora Botega, da Unicamp, reforce que o uso excessivo das telas faz mal mesmo a quem não tem tendência.

É o caso de Yasmin Wolff, 22, estudante de arquitetura que percebeu que o excesso de informação das redes sociais a deixava distraída e ansiosa. No carnaval, comprou uma câmera da Sony modelo Cybershot (sem conexão à internet). “Com a câmera, não tem esse negócio de instantaneidade”, diz, que passou a se conectar mais com as amigas também nas festas.

Anna King, professora do Instituto de Psiquiatria da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) diferencia o uso excessivo de tecnologias do vício em telas, que seria uma má educação que pode ser combatida com regras, no caso do primeiro, e uma dependência patológica, no segundo. “O viciado geralmente tem um transtorno mental associado à ansiedade, depressão ou compulsão, e precisa de tratamento”, diz a médica, lembrando que não há uma fórmula única para achar o equilíbrio. “Cada pessoa deve usar uma estratégia para determinar o que é melhor para si no dia a dia.”

Eduardo Fernandes, 24, percebeu que era um usuário “cronicamente online” das redes sociais, com dificuldades de se desconectar, fato que estava afetando a sua memória. O estudante de cinema passou a colecionar DVDs como um hobby, mas viu que a experiência o fez se concentrar mais nos filmes que via.

“Às vezes, quando você está vendo no computador ou no celular, para para responder alguma coisa e perde a concentração”, diz.

Lucas, do IPQ/SC, costuma receitar esse equilíbrio entre tecnologias digitais e analógicas para seus pacientes, especialmente os mais jovens. Substituir o alarme do celular por um despertador analógico é um ponto de partida, além de desaconcelhar o uso do celular nas refeições. “Alguns lugares deveriam ser livres de tecnologia. Um deles é o quarto, o outro é o banheiro”, afirma.

André Aguiar, 22, foi diagnosticado com TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade) aos 11 anos de idade, mas após um término de relacionamento no último ano passou a se sentir irritado, tenso, cansado e com falta de ar, e as redes sociais intensificaram os sintomas. “No telefone, fotos que afetavam minha autoestima eram gatilhos”, conta.

Após perceber isso, passou por um processo de reeducação e hoje considera ter um relacionamento “pacificado” com as tecnologias digitais, mas primeiro se isolou socialmente.

“Desenvolvi crise de pânico. Se eu saísse, era porque realmente precisava. Para levantar meu astral, dava um jeito de comprar um disco”, conta ele, que viu sua coleção de vinis crescer no período. Nessas compras, o jovem era obrigado a se relacionar com pessoas.

A vida analógica pode trazer mais tranquilidade e uma forma de relacionamento com os outros mais saudável, diz o psiquiatra da Unicamp. “Vamos ficar um pouquinho analógicos de novo”, diz.

Texto e imagens reproduzidos do site: jornaldebrasilia com br

segunda-feira, 7 de julho de 2025

É perigoso consultar-se com a doutora IA

Artigo compartilhado dosite do GABEIRA, de 7 de julho de 2025

É perigoso consultar-se com a doutora IA

Por Fernando Gabeira (In Blog)

Desde o tempo do Google, costumo consultar a plataforma a qualquer pequena doença, incômodo físico ou ziquizira. Com o advento da inteligência artificial, as consultas se tornaram mais frequentes. As respostas, copiosas, oferecem mais dados, indicam novos exames, novos caminhos de pesquisa. Na aparência, um superconsultório médico.

Em contato com a médica Adrienne Moreno, que me atende já há alguns anos, comentei o desempenho da inteligência artificial e ouvi o que, de certa forma, desconfiava: as coisas não são tão positivas quanto parecem. Na opinião dela, o uso dessas consultas sem treinamento especial traz vários perigos, mesmo para os médicos.

Os modelos de linguagem dos robôs de IA — conhecidos como large language models, ou LLMs — , quando usados de forma descuidada, implicam alguns problemas. É um hábito que expõe o usuário a diferentes vieses: da automação (o paciente substitui sua opinião pela da máquina); da confirmação (ele se satisfaz quando a máquina concorda com ele); da bajulação (a máquina elogia o usuário de forma exagerada). Esses vieses têm sido estudados na prática médica, e já se provou que têm o potencial de diminuir a precisão.

Posso confirmar alguns deles, sobretudo a bajulação. Faço um curso de pronúncia inglesa usando IA. Ao cabo de cada aula, os elogios são abundantes:

— Muito bem, você é ótimo, sua insistência mostra seriedade.

E daí por diante, até o ponto de dizer:

— Seu trabalho mostra bem quem você é.

A pessoa fica se achando, quando, na verdade, é apenas uma aula diária de 15 minutos.

Adrienne ressalta outro aspecto importante na qualidade da máquina no cenário médico: a ética. Máquinas, segundo ela, não carregam valores humanos ou códigos de ética. Podem dar respostas objetivas. Se o algoritmo mostra que um paciente com mais de 80 anos tem poucas chances de sobreviver a uma internação em CTI, um gestor pode decidir não investir recursos nos mais velhos. Outro aspecto destacado por ela é a questão da responsabilidade. Se substituímos a força de trabalho humana pela máquina, quem responde pelos eventuais erros que ela possa cometer? Há uma proporção de laudos da máquina que pode ser revisada por um especialista. Quando esses laudos são muito numerosos, isso excede a capacidade do revisor e pode ser uma fonte de erros.

O mais interessante nisso tudo é a falta de regulamentação. Adrienne foi surpreendida com o anúncio de um aplicativo que se dispõe a fazer um diagnóstico de leucemia apenas com um hemograma. Ela acha que esse é um diagnóstico complexo, e, se alguém descobre uma maneira de abordá-lo apenas com o hemograma, primeiro tem de validá-lo por meio de publicações, e não usar um aplicativo sem qualquer regulamentação.

Tudo isso, segundo ela, indica um caminho mais sério no uso da IA: treinar médicos para que sejam capazes de entender as limitações da máquina. E as empresas de IA precisam introduzir filtros éticos em seus modelos, para que sejam alinhados aos valores de cada país, evitando que as máquinas sejam preconceituosas ao mostrar os dados.

Para Adrienne, é preciso endereçar o problema da responsabilidade da IA antes que a máquina seja incorporada ao cotidiano médico. Médicos — diz ela — conhecem seres humanos em níveis que a máquina ainda não consegue alcançar. Mesmo se a máquina conseguir ser melhor do que nós, será que precisamos que ela substitua as pessoas? O que não estaríamos perdendo com essa substituição?

O interessante em toda a argumentação é que ela não tem um enfoque nostálgico. A ideia é aproveitar ao máximo o uso da IA, exigindo das empresas transparência no raciocínio da máquina em relação a questões médicas — e reconhecendo a superioridade humana quando a questão é cuidar da vida do outro.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

sábado, 28 de junho de 2025

As sombras da IA

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 28 de junho de 2025

As sombras da IA

Nós, humanos, faremos o que as máquinas não aprenderem a fazer. Fernando Schüler para a revista Veja:

Vem causando frisson o estudo divulgado pelo MIT dando conta de uma “atrofia cognitiva” ligada ao uso da inteligência artificial (IA). O experimento comparou três grupos escrevendo redações. Um dos grupos usava o ChatGPT; outro pesquisava no Google; e o terceiro usava apenas a própria cabeça. Ao final de três rodadas, a turma que usou IA apresentou uma “atividade cerebral significativamente menor de memória, cognição e criatividade”, comparada às demais. A IA era conveniente no curto prazo, mas a um alto custo cognitivo. De um observador, li a frase: “O cérebro é como um músculo. Ou você usa, ou você perde”. O estudo é preliminar, mas o sinal é claro: abusar da IA quando se deveria estar treinando o cérebro para criar coisas e pensar criticamente pode ser desastroso. Me lembrei de quando peço aos alunos para ler Dostoiévski. Ler as 600 páginas de Crime e Castigo pode não ter utilidade. E quando peço um artigo a respeito, ou um retrato psíquico de Raskólnikov, isso pode ser obtido em alguns segundos no ChatGPT. Se alguém fizer isso, terá economizado um bom tempo de leitura. Mas terá perdido um universo de sutilezas e imaginação humana.

O estudo do MIT vai em linha com o declínio recente nos testes de QI. Até o final do século passado funcionava o “efeito Flynn”. A cada geração, havia algum avanço cognitivo. Até a reversão, nos anos 1990. Muita gente associa isso ao “efeito Google”, ao fato de “terceirizarmos” parte de nossa memória e esforço cognitivo. Parece lógico. Ainda me lembro quando estudava em Barcelona, meados dos 1990, e o professor nos explicava sobre o buscador AltaVista. Não existia Google ainda, mas na hora compreendi que ia ficando para trás o mundo de enciclopédias e bibliotecas no qual havia sido criado. Um mundo lento e trabalhoso, ainda que sedutor, trocado por um universo instantâneo. E incrivelmente mais fácil, ainda que carente de cheiros e mistérios. Trinta anos depois, a IA dobra a aposta. Nos entrega uma carga de facilidade de uma outra ordem: em vez de informação, traz junto a inteligência. Aquilo que até então era nosso traço distintivo, como espécie, e não é mais.

O estudo do MIT é realista. Nada a ver com a onda de catastrofismo que acompanha o nascimento da IA. E que acompanhou toda revolução tecnológica. Diria que seu campeão, por estes tempos, é Yuval Harari. Seu ponto: “Não provoque uma tecnologia que você não pode controlar”. Soa falso. Qual seria a tecnologia que, no seu início, não pareceria um tanto fora de controle? Não foi assim com os aviões, quando Santos Dumont ou os irmãos Wright faziam seus primeiros voos? Harari diz que a IA pode “lançar ataques nucleares, sintetizar um novo vírus mortal ou gerar uma onda de notícias falsas, humanos falsos, fazendo com que pessoas percam a confiança em qualquer coisa”. Talvez tudo isso de fato aconteça. O bom das previsões longas é que ninguém cobrará nada se coisa nenhuma acontecer. Por isso tenho preferido o cinema e a ficção científica. Um filme como M3GAN, por exemplo. Que tal uma boneca high-tech, criada para cuidar de uma menina, mas que em algum momento ganha vida própria e se torna uma espécie de Chucky versão wi-fi? A mais recente a que assisti foi a série Cassandra, do diretor alemão Benjamin Gutsche. Neste caso, o robô é a governanta da casa, há uma história sinistra no passado, ela acaba saindo do controle (como de hábito) e passa a infernizar a vida dos moradores. Seria como mísseis americanos lançados contra o Irã aderirem ao antissionismo, por conta própria, e explodirem em Tel Aviv. O catastrofismo em torno da IA é uma indústria.

Há riscos mais amenos. Bill Gates sugeriu que em coisa de dez anos profissões como médicos e professores serão tomadas pela IA. Não acho isso. Mas e se for? Se os robôs funcionarem melhor que os médicos e professores de verdade, valendo o mesmo para terapeutas e aeromoças, merecem os empregos. Cocheiros eram imprescindíveis, até inventarem os automóveis. Depois desapareceram. Aprenderam a dirigir ou vender bilhetes no cinema. O mesmo com datilógrafos e donos de videolocadoras, nos anos 1990. Ainda agora os chineses lançaram o primeiro hospital 100% comandado por IA, ainda experimental. Ele consegue atender em poucos dias o que hoje levaríamos dois anos para fazer. Por que isso não se generalizaria, logo ali adiante? É a condição do progresso. Nós, humanos, só continuaremos fazendo, ao menos em grande escala, o que as máquinas não aprenderem a fazer. Penso nisso quando peço um delivery, lá em casa, e vejo o rapaz chegando de moto com a comida. Alguém acha que ele não teria nada melhor para fazer do que andar de moto com uma pizza na garupa, nas madrugadas de São Paulo? O trabalho humano será cada vez mais um exercício de sofisticação e exotismo. Tipo andar de charrete ao redor do Central Park e pagar caro. No mais, a tecnologia sempre é assim: destrói empregos que se tornam arcaicos e cria novos. Ótimo. Sinal de que andamos para frente e não para trás, para desalento de muita gente.

Ninguém freará o avanço tecnológico. O ludismo vandalizou as máquinas malditas, em Manchester ou Yorkshire, no início do século XIX. E sumiu. Em março de 2023, uma penca de cientistas e empreendedores, incluindo Elon Musk e o próprio Harari, lançaram uma carta pedindo que “os laboratórios suspendam durante pelo menos seis meses o treino de IA”, até que se tivesse alguma clareza sobre riscos e regras de segurança. A carta caprichava no tom dramático, mas ninguém deu bola. Nem mesmo os signatários. A IA não funciona como a energia nuclear, que supõe investimento e regulação pesada. Sua expansão é caótica e descentralizada. E quem piscar o olho, como nos ensina o velho jogo do dilema do prisioneiro, vai para o inferno dos sem mercado. De minha parte, fico com os otimistas. Quando os automóveis foram inventados, na Inglaterra, o Parlamento aprovou os Red Flag Acts, que obrigavam alguém a andar na frente dos carros com uma bandeirinha vermelha, para evitar acidente. Durou trinta anos e desapareceu. É compreensível o drama em torno da IA. Mas o que vale a pena mesmo, na vida de cada um, é prestar atenção ao alerta do MIT. A tecnologia é ótima quando expande nosso repertório intelectual, traz informação e novos ângulos para observar o mundo. Mas é péssima se substitui o senso crítico. É triste observar provas e trabalhos inteiros, nas escolas, feitos com aplicativos de IA. Isso não apenas destrói o prazer do exercício criativo, mas impede que se treine o “músculo” da cognição humana. E isso é desastroso. E quem sabe seja esta a verdadeira Cassandra, a nos assombrar, silenciosamente. Em um mundo no qual avança a IA, não deveríamos deixar que nossa inteligência natural caminhe na direção inversa.

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 27 de junho de 2025, edição nº 2950

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

segunda-feira, 23 de junho de 2025

"Somos todos visitantes", por Roberto Motta

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 22 de junho de 2025

Somos todos visitantes

Toda a glória terrena é efêmera porque és pó e ao pó voltarás. Nada é mais certo na vida do que os impostos e a morte. Algumas pessoas até conseguem isenção fiscal. Mas ninguém será isento de morrer. Roberto Motta para a Gazeta do Povo:

Chegamos ao hospital para visitar meu amigo. Foi nesse hospital que meu pai morreu depois de sofrer muito com um câncer de pâncreas. Foi aqui também que meu amigo Marcelo passou seus últimos dias antes de sua morte, depois que um cirurgião incompetente falhou na remoção de um tumor maligno no rim esquerdo. Hoje o amigo doente é Paulo César. Uma pneumonia dominou seus pulmões e a situação foi agravada por influenza. Paulo ficou vários dias entubado na UTI. Hoje, domingo, viemos visitá-lo.

Depois de dois dias de chuva o sol de outono brilha em um céu limpo e pálido. Dirigimos sem pressa pela Avenida Atlântica rumo ao hospital. Na pista do lado do mar, que aos domingos fica fechada aos carros, senhores de calção e camiseta tentam perder a barriga caminhando. Inutilmente, ao que parece.

Ontem fui dormir de madrugada, depois de horas trabalhando em uma palestra nova, que batizei de A Era da Incompreensão. Inspirado por um texto que achei por acaso na internet, montei uma sequência de slides que misturam literatura, filosofia, geopolítica e tecnologia para apresentar a minha perspectiva sobre o que é viver no mundo de hoje. Talvez essa seja a coisa mais importante que a idade nos traz: perspectiva. “Se fosse possível, você gostaria de saber o dia exato da sua morte?” perguntou meu amigo Luciano Pires. Eu respondi que não. Prefiro ser surpreendido. Se eu soubesse o dia exato em que vou morrer provavelmente não conseguiria mais viver. A paz só é possível se esquecemos que somos mortais.

Hospitais, inevitavelmente, me lembram morte. O cheiro de desinfetante é um lembrete de que, no melhor cenário, um dia entraremos em um hospital e não sairemos. Não tenho medo da morte, só não quero ficar inválido e dependendo dos outros. É claro que minto: tenho muito medo da morte. Ela me parece a forma definitiva de solidão. Para quem tem fé a morte não é mais que uma passagem, sei disso. Mas se minha mente e meu espírito pensam uma coisa, meu corpo sente outra. Esse corpo, com todas as suas forças, quer continuar vivendo. Essa vida é doce demais, como disse Charles Bukowski (algumas pessoas se espantam que eu goste de Bukowski; elas provavelmente nunca leram um poema dele).

Chegamos na UTI. Encontramos meu amigo melhor, sentado na cama lendo um livro sobre a independência americana. Na capa está a famosa pintura de Emanuel Leutze que mostra o general George Washington em pé, na proa de um barco que atravessa o rio Delaware. Washington está prestes a atacar as tropas britânicas. Essa será a primeira vitória na guerra pela independência das treze colônias que um dia formariam os Estados Unidos da América. Paulo César está pálido e cansado, mas se recuperando depois dos quatro dias entubado. Ele também cruzou o seu rio Delaware e foi vitorioso. Ele não vai morrer. Não agora. Não dessa vez. Mas ele vai morrer um dia porque todos nós morreremos um dia e haverá um tempo na face da Terra em quem ninguém mais lembrará nossos nomes, ninguém saberá que andamos por essas ruas e que amamos tanto.

Nos despedimos e vamos embora, minha mulher e eu. Ainda levamos os adesivos de visitante, fornecidos pelo hospital, pregados no peito. É um crachá de mortalidade, a lembrança de que, no fim de tudo, somos todos visitantes. Memento mori, “lembre-se que você é mortal” – era essa a frase que um escravo soprava no ouvido dos generais de Roma, depois que eles voltavam vitoriosos das guerras, para que não permitissem que a glória lhes subisse à cabeça. Será que alguém disse isso a George Washington? Toda a glória terrena é efêmera porque és pó e ao pó voltarás. Nada é mais certo na vida do que os impostos e a morte. Algumas pessoas até conseguem isenção fiscal. Mas ninguém será isento de morrer.

O celular faz um barulho: é uma mensagem de Paulo Cesar, emocionado, agradecendo a visita.

Na orla do Rio de Janeiro pessoas continuam passeando sem ter ideia de quanto tempo lhes resta. Eu penso: daqui a duzentos anos nem uma dessas pessoas estará viva. O sol se põe mais bonito que de costume, e pouco depois começa a soprar o vento leste.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com