sábado, 10 de janeiro de 2026

Fiilme O Agente Secreto concorre ao Globo de Ouro

Legenda da foto - O Agente Secreto chega ao Globo de Ouro
 com mais de 50 prêmios no currículo

Publicação compartilhada do site BBC NEWS BRASIL, de 10 de janeiro de 2026

O Agente Secreto chega mais forte que Ainda Estou Aqui ao Globo de Ouro?

Por Rute Pina (Da BBC News Brasil em São Paulo)

O filme brasileiro O Agente Secreto concorre ao Globo de Ouro neste domingo (11/1) já tendo mais de 50 prêmios nacionais e internacionais no currículo.

Até agora, o longa-metragem já conquistou 54 troféus em 35 premiações, incluindo Melhor Diretor e Melhor Ator no Festival de Cannes, e chega à premiação americana com uma campanha numericamente mais robusta do que a de Ainda Estou Aqui no ano passado.

Em 4 de janeiro de 2025, véspera do Globo de Ouro, o filme de Walter Salles havia vencido 17 prêmios em 12 festivais e premiações, no Brasil e no exterior.

O desempenho quantitativo ajuda a entender uma parte da força da campanha atual. Ainda Estou Aqui ganhou fôlego após a vitória de Fernanda Torres no Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz - Drama. O filme encerrou a temporada com 70 prêmios em 42 festivais.

Mas, àquela altura, o filme tinha apenas quatro meses de carreira: havia estreado no Festival de Veneza, em setembro de 2024, onde venceu o prêmio de Melhor Roteiro. A partir dali, construiu forte reconhecimento principalmente em festivais ibero-americanos.

Já O Agente Secreto estreou mundialmente em maio de 2025, no Festival de Cannes, e chega ao Globo de Ouro com oito meses de circulação internacional, o que amplia sua presença em festivais, premiações e campanhas de divulgação.

Desde que estreou em Cannes, o filme de Kleber Mendonça Filho vem acumulando reconhecimento de importantes associações de críticos norte-americanos, como o New York Film Critics Circle, a Los Angeles Film Critics Association e o National Board of Review.

As indicações deste ano no Globo de Ouro já são históricas. É a primeira vez que um filme brasileiro concorre em três categorias no Globo de Ouro: Melhor Filme – Drama, Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme – Drama.

Também é a primeira indicação do país na principal categoria da premiação. Em edições anteriores, produções brasileiras haviam sido lembradas apenas na disputa de Melhor Filme em Língua Não Inglesa.

Wagner Moura também se tornou o primeiro brasileiro indicado a Melhor Ator em Filme – Drama.

No ano passado, Ainda Estou Aqui concorreu ao Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, mas perdeu para Emilia Pérez. A vitória de Fernanda Torres, no entanto, impulsionou a campanha internacional do longa, que meses depois conquistaria o inédito Oscar de Melhor Filme Internacional para o Brasil.

Além dos prêmios tradicionais, O Agente Secreto também tem acumulado honrarias e menções divertidas e inusitadas.

Na quinta-feira (8/1), a gata Carminha recebeu o troféu Golden Beast ("Bicho de Ouro", em tradução livre), em reconhecimento às atuações das personagens Liza e Elis. O prêmio foi concedido pelo New York Film Festival, criado em 1963 e dedicado à celebração de filmes de destaque mundial.

Já o jornal americano The New York Times destacou a atuação da atriz Tânia Maria como uma das melhores de 2025, descrevendo-a como provavelmente a "melhor atuação com cigarro" do ano.

Embora as comparações entre os dois filmes brasileiros sejam inevitáveis, Dora Amorim, produtora executiva de O Agente Secreto, ressalta que cada obra percorre um caminho próprio.

"Cada filme tem a sua trajetória, o seu DNA. Mas é impossível não pensar nos dois juntos, porque no ano passado Ainda Estou Aqui fez uma trajetória histórica, e agora estamos vivendo algo semelhante com outro filme", afirmou.

Segundo ela, o fato de O Agente Secreto ser uma produção nordestina, realizada no Recife por uma produtora de pequeno porte, amplia o simbolismo do momento.

"Esse lugar é muito significativo para os técnicos do audiovisual brasileiro e também para os brasileiros, por causa da representatividade cultural", disse.

Amorim destaca ainda o impacto simbólico de ver um filme falado em português disputar espaço em premiações tradicionalmente dominadas por Hollywood.

"A gente cresceu assistindo a esses prêmios pela televisão. Ver um filme brasileiro ocupar esse espaço e as pessoas comentarem a atuação do Wagner é algo incrível para o reconhecimento da nossa cultura e do cinema como indústria."

Forte campanha nos Estados Unidos

A produtora explica que o desempenho internacional do filme também está ligado à estratégia de distribuição nos Estados Unidos. No país, o filme foi lançado pela Neon, distribuidora independente responsável por títulos como Parasita e Anora, vencedores do Oscar.

"O filme estreou em novembro, ao mesmo tempo no Brasil e nos Estados Unidos, e está indo muito bem lá fora. Hoje temos três pessoas da equipe em Los Angeles participando de encontros e sabatinas com membros da Academia", diz.

Para Amorim, as próximas semanas são decisivas para o futuro do filme, principalmente em relação ao Oscar, considerada a principal premiação do cinema.

"Esse é um momento de convencimento. Para votar, as pessoas precisam assistir ao filme. A indicação ao Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama foi algo incrível, que a gente não esperava, porque é a primeira vez que o Brasil chega a essa categoria."

O Agente Secreto também chega com a vantagem de Wagner Moura já ser conhecido internacionalmente. Ele já concorreu ao Globo de Ouro, em 2016, como Melhor Ator em Série – Drama por Narcos. Ele perdeu o prêmio para Jon Hamm, de Mad Men.

Além disso, o ator também tem uma carreira com participação em grandes produções internacionais, como Elysium e Guerra Civil.

Redes sociais, memes e engajamento

No ano passado, Ainda Estou Aqui contou com um "exército de likes", com brasileiros determinados a fazer bombar toda e qualquer postagem nas redes sociais sobre o filme.

Na madrugada de 6 de janeiro, por exemplo, logo após Fernanda Torres vencer o Globo de Ouro de Melhor Atriz – Drama, brasileiros comentaram e curtiram em massa as publicações do perfil da premiação.

Já uma foto de Torres publicada no perfil oficial do Oscar alcançou 1 milhão de curtidas e dezenas de milhares de comentários em menos de 24 horas.

Amorim avalia que, embora a campanha de O Agente Secreto não seja centrada nas redes sociais, o engajamento digital tem desempenhado um papel importante. "É a primeira vez que participo de uma campanha tão estruturada de divulgação também nas redes", afirmou.

Ela citou a repercussão de memes e postagens virais, como uma montagem de Wagner Moura caracterizado como personagem de Wicked, além da fala do ator durante a cerimônia em que apresentou o prêmio de Melhor Filme.

"Quando ele anunciou o vencedor e disse 'melhor filme estrangeiro' para os brasileiros, isso viralizou. Eles distinguem muito bem o que é estrangeiro, e acho que nós estamos começando a fazer essa distinção agora", disse. "Essas coisas surgem espontaneamente e acabam virando munição para a equipe trabalhar."

Já a atriz Tânia Maria, que cativou o público com a personagem Sebastiana, também tem sido objeto de memes e vídeos virais. "Esse burburinho só acontece quando as pessoas assistem. Para a gente, o boca a boca é essencial", afirmou.

Apesar das comparações com Ainda Estou Aqui, Amorim reforçou que se trata de trajetórias paralelas. "São diretores, histórias e pontos de partida muito diferentes. Acho que, no futuro, a lembrança vai ser positiva."

Embora distintos, os dois filmes são de época e dialogam com períodos históricos próximos, ainda que com abordagens diferentes.

O Agente Secreto já ultrapassou dez semanas em cartaz no Brasil e foi visto por mais de 1 milhão de pessoas. Já o filme de Walter Salles levou 6 milhões de pessoas ao cinema. "Que bom que, em dois anos, tivemos uma safra tão forte do cinema brasileiro", diz a produtora.

Texto e imagem reproduzidos do site: www bbc com/portuguese

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Encontro desmarcado com Fernando Sabino

Os textos de Fernando Sabino fazem um panorama da vida 
intelectual carioca e brasileira dos anos 1950/60

Editora Record lança edição especial de O encontro marcado para celebrar o centenário de Sabino. Imagem: Divulgação/Record

Fotos Acervo do autor/Cortesia

Artigo compartilhado do site da REVISTA CONTINENTE, de 11 de outubro de 2023

Encontro desmarcado com Fernando Sabino

Centenário de um dos grandes cronistas brasileiros é lembrado por um admirador de muitos anos

Por Marcelo Abreu*

No final dos anos 1970, o escritor Fernando Sabino assinava uma coluna dominical em vários jornais do país, entre eles o Diario de Pernambuco, intitulada Dito e feito. Eu lia e gostava tanto da coluna, que recortava o jornal e guardava os textos. Sabino era então um dos maiores vendedores de livros do Brasil. Era recomendado pelos professores de literatura do Ensino Médio como um dos ícones da crônica brasileira, junto com Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Rezende e Carlos Drummond de Andrade.

Em 1979, tornou-se best-seller com o romance O grande mentecapto. No início dos anos 1980, já na faculdade, comecei a ler seus livros. O primeiro foi A cidade vazia, coleção de crônicas que escreveu quando morou em Nova York nos anos 1940. E depois muitos outros: A inglesa deslumbrada, A companheira de viagens, Deixa o Alfredo falar etc. Por aquela época, Sabino esteve uma tarde no Centro de Artes da Universidade Federal de Pernambuco. Terminada a palestra, foi cercado por um grupo de estudantes e admiradores em busca de um autógrafo ou um contato mais próximo. Ao perceber o cerco, disse com seu usual bom humor: “Eu poderia ter sido apunhalado pelas costas, sem saber”.

Em 1989, ele esteve na então grande Livro Sete, lançando o livro de viagens De cabeça para baixo, numa noite memorável. A essa altura, eu já tinha lido o O grande mentecapto e o romance O encontro marcado, seu livro mais famoso, de 1956, e me deliciava com as histórias da Inglaterra, sobretudo. Alguns dos casos engraçados contados por Sabino, da época em que morou na ilha, fazem parte de um repertório que alegra o pensamento até hoje. É o caso de episódios impagáveis envolvendo as noites de chuva. Talvez a mais famosa seja a crônica intitulada A lua quadrada de Londres, reproduzida em várias coletâneas. Outro texto antológico é Basta saber Latim, sobre as confusões linguísticas em um congresso internacional do Pen Club.

Suas crônicas e histórias curtas representam também um belo panorama da vida intelectual carioca e brasileira dos anos 1950 e 1960, povoados por figuras como Jayme Ovalle, Vinícius de Moraes, Augusto Frederico Schmidt e o próprio companheiro de crônicas Rubem Braga.

Sabino nasceu em 1923, em Belo Horizonte, no dia 12 de outubro, apropriadamente no Dia da Criança. A infância, sempre esteve muito presente na obra dele, seja nas observações do cotidiano transformadas em crônicas, seja nas reminiscências processadas em textos como o romance O menino no espelho.

No inverno de 1991, eu estava morando em Nova York quando soube que Sabino se encontrava na cidade. Pensei imediatamente que seria uma pauta perfeita, o escritor já maduro revisitando a cidade onde morou na juventude e sobre a qual tanto escreveu. A informação chegou até mim através de Benito Romero, um pequeno empresário mineiro que vivia na cidade havia mais de 20 anos e “conhecia todo mundo”.

Vale a pena abrir um parêntese para explicar a figura. Benito se dizia amigo dos brasileiros famosos que circulavam em Nova York, a começar por ninguém menos do que Pelé, que na época mantinha um apartamento na cidade. A gente não acreditava muito nessas histórias. Mas algumas delas acabaram se confirmando: certa vez, deparei com ninguém menos do que Nelson Pereira dos Santos, ele mesmo, o grande pioneiro do Cinema Novo, na agência de viagens Benito, na Rua 45. Outra vez, lá chegou Cyro Baptista, renomado percussionista brasileiro, na época famoso por tocar na banda de Paul Simon, um dos maiores nomes do pop rock daquele momento, na turnê do disco The rhythm of the saints. Cauby Peixoto também apareceu por lá porque Benito promoveu shows dele em Miami e Nova York.

O próprio Pelé se casaria, em 1994, com uma cunhada de Benito. Portanto, nem tudo era conversa fiada. Então, quando Benito disse que era amigo do também mineiro Fernando Sabino e que o escritor estava na cidade, frequentando à noite uma casa noturna chamada Red Blazer, na Rua 45, tudo fazia sentido. Segundo se dizia, depois de alguns uísques, Sabino fazia questão de tocar bateria, acompanhando grupos de jazz (uma de suas paixões), sendo ele um admirador declarado do famoso baterista Gene Krupa.

Eu imediatamente pedi a Benito Romero que facilitasse um contato meu com o escritor, informando a ele que gostaria de fazer uma entrevista. Disperso entre os seus muitos negócios (uma pequena agência de viagens, uma pequena revista publicada em português, promoção de pequenos shows no próprio Red Blazer, comércio de produtos brasileiros etc.), Benito ia me levando com desculpas e não falava com Sabino. Umas duas semanas se passaram até que, temendo perder a oportunidade, saí cedo num domingo de manhã em direção a um hotel onde o escritor estava hospedado, pelo que me lembro também na área “brasileira” de Manhattan, talvez na Rua 50 (na época, tudo relacionado aos brasileiros se concentrava entre as ruas 45 e 50, no lado oeste). Apresentei-me na portaria e disse o nome de quem procurava. O recepcionista norte-americano o conhecia e disse: “Mister Sabino acabou de pegar um táxi para o aeroporto. Voltou para o Brasil com a mulher”. E assim, eu perdia a chance de fazer uma entrevista com Sabino num dos cenários mais sugestivos de sua trajetória como escritor.

Já nos anos 2000, como professor de um curso de Jornalismo, estimulava os alunos a lerem Fernando Sabino para observar as qualidades da prosa, clara, límpida, divertida, direta, grande inspiração para a modernização do texto jornalístico no Brasil, a partir dos anos 1950. O estímulo não despertava nenhum interesse aparente. Parecia que estava me referindo ao um nome obscuro do século XVIII. Teria a passagem de apenas algumas décadas levado o nome de Fernando Sabino ao caminho do esquecimento?

Seus livros não estão mais em destaque nas prateleiras, mas é verdade que isso não acontece somente com ele. De toda forma, uma nova edição de O encontro marcado, acaba de sair para comemorar o seu centenário de nascimento (o livro chegou à centésima edição em 2018). E as coletâneas das Melhores crônicas de Fernando Sabino, assim como os Melhores contos e Melhores histórias ainda estão disponíveis, excelentes introduções para quem quiser entrar no universo ao mesmo tempo divertido e poético do escritor mineiro.

Quando vou ao Rio de Janeiro, gosto de passar a pé pela pequena Rua Canning, que fica entre Copacabana e Ipanema. É lá que Fernando Sabino morava, num predinho estreito e antigo. Por algum motivo, o endereço saía em algumas edições de seus livros pela Record. Sempre fico pensando na injustiça de um dos maiores escritores brasileiros (em qualidade e em quantidade de vendas) passar décadas morando naquele prédio, enquanto milhares de profissionais liberais, sem o mesmo brilho, morarem em grandes apartamentos ali perto. Um testemunho da falta de valorização da vida intelectual no Brasil.

* MARCELO ABREU, jornalista e autor de livros de viagens.

Texto e imagens reproduzidos do site: revistacontinente com br

domingo, 4 de janeiro de 2026

B.B.: a transgressora.

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 4 de janeiro de 2026

B.B.: a transgressora.

Ainda no auge do seu tempo de ícone de um novo feminismo, já estragara tudo, entregando-se ao vício da dissidência: “Le féminisme ce n’est pas mon truc, moi, j’aime bien les mecs…”. Jaime Nogueira Pinto para o Observador:

Quando Brigitte Bardot irrompeu nos écrans com Et Dieu créa la femme nada ficou como dantes. “Um corpo selvagem, animal e livre irrompe no écran. Subverte e revoluciona os costumes sociais em França e em todo o mundo.” – escrevia o realizador e crítico Jean Douchet, um dos fundadores dos Cahiers du Cinéma –, enquanto um jornal inglês dizia que BB era “o maior choque europeu desde 1789”. Exagero, talvez. Mas o impacto da sensualidade e da reversão de papéis que Brigitte Bardot trazia atirava-a para a ribalta das grandes estrelas.

A estreia do filme de Roger Vadim na América de Eisenhower, do cardeal Spellman, de John Foster Dulles e do Código Hays também não prometia ser pacífica. O Código Hayes era o regulamento censório, prévio ou póstumo, que entre 1930 e 1968 vigorava em Hollywood, ditando inclusões, exclusões e cancelamentos. Em matéria de moral e bons costumes, pesava-se a nudez feminina, cronometrava-se a duração dos beijos e cancelavam-se indícios de “sexual perversity”. No resto, monitorizava-se a correcta definição e distribuição de bons e maus.

Ora, em Et Dieu créa la femme, Bardot oscilava entre a perversa invenção do Diabo para tentar os americanos de bem e a assombrosa criação do Bom Deus. Talvez por isso em Dallas, no Texas, a polícia local – precocemente preocupada com a especial sensibilidade de certas minorias ou num outro assomo racista mais compatível com a época – tenha proibido os afro-americanos de ver a fita, considerada demasiadamente excitante para a natureza (intrinsecamente “vitalista”?) do homem negro.

Não se pode dizer que os brancos (supostamente mais fortes, ou mais fracos) lhe tivessem ficado indiferentes. De resto, veja-se a história: Juliette tem 18 anos, é órfã, e vive em Saint Tropez; os homens que a seguem e perseguem são Eric (Curd Jürgens), Antoine (Christian Marquand) e o seu irmão mais novo, Michel, (Jean-Louis Trintignant). Juliette ama Antoine, assedia Eric, e acaba por casar com Michel, que a ama, mas que não é correspondido. Isto entre cenas, ao tempo, escandalosas e com um final ambíguo.

Marlene Dietrich, a Lola de Der Blaue Engel (1930), de Joseph von Sternberg, ou Ava Gardner, a Southern belle de The Killers (1946), um filme de Robert Siodmak a partir de um conto de Hemingway, eram mulheres fatais; BB, algures entre a femme fatale e a pin-up, era outra coisa, encarnava todo um outro tempo e toda uma outra liberdade.

A má menina de boas famílias

Bardot vinha de uma família católica, abastada, conservadora. Era uma “menina bem”, cujo nascimento, em 28 de Setembro de 1934, saíra na muito pouco inclusiva secção “Vida Social” de Le Figaro. Os avós estavam ligados à Indústria e aos Seguros.

“Fui educada de um modo muito burguês, muito severo. Frequentei um colégio católico. Era vigiada por uma governanta. Nunca saía sozinha. Fui muito bem-comportada até aos 15 anos”.

Brigitte faz estas confidências, mais tarde, a Jean Cau, acrescentando que tinha sido então, precisamente aos 15 anos, que começara a sair da linha: “Bruscamente, tive vontade de me libertar”.

Andou no Conservatório em cursos de dança e começou a aparecer como modelo de fotografia. Em 1950, com 16 anos, foi capa da revista Elle.

Foi aí que a viu Roger Vadim, nascido Roger Vladimir Plemiannikov, filho de um aristocrata fugido da Rússia dos bolcheviques. Dois anos depois, cumpridas as exigências do pai Bardot – que o russo abraçasse o catolicismo e arranjasse emprego – casava-se com ela.

A grande mudança

Quando saiu Et Dieu créa la femme, no Outono de 1956, dois episódios marcaram a França e a Europa: em Budapeste, depois de manifestações estudantis contra o governo comunista de Mathias Rakosi, reprimidas a tiro pela polícia secreta, estalava um levantamento popular; no Egipto, na crise que sucedera à nacionalização por Nasser do Canal do Suez, tropas anglo-francesas ocupavam a zona do Canal para marcharem sobre o Cairo.

Na Hungria revoltada, o comunista moderado Imre Nagy, um ex-primeiro-ministro patriota, era chamado ao poder. Kruschev denunciara Estaline e os seus crimes no 20º Congresso do Partido Comunista e esperava-se que Moscovo, em fase pós-estalinista, se abrisse a um acordo com os insurrectos.

Nada disso aconteceria: os húngaros pagariam cara a revolta; afinal, a brutalidade e o desprezo pelas fronteiras e pelos direitos humanos não eram um “desvio estalinista” ao “humanitarismo marxista-leninista”, mas um atributo fundacional e funcional do modelo comunista. Quanto ao Suez, quando os paraquedistas franceses e ingleses pareciam prontos a tomar o Cairo, Eisenhower condenou a operação: os Estados Unidos queriam o fim dos impérios coloniais do Velho Mundo.

E se a revolta húngara e a sua repressão levaram muitos intelectuais e militantes comunistas europeus à dissidência e Suez marcou o princípio do fim dos impérios europeus, o filme de Vadim e Bardot foi sinal de uma mudança na cultura e nos costumes, ao apresentar como protagonista uma mulher que fazia com os homens o que tradicionalmente os homens faziam com as mulheres É verdade que, na História – de Messalina a Catarina da Rússia – as mulheres poderosas sempre tinham usado o seu poder (e, em suplemento, os seus dotes físicos e agudeza mental) para dominarem o “mundo dos homens”; mas BB fazia-o agora despreocupadamente, frivolamente, frente às câmaras.

Em 1959 protagonizava La femme et le Pantin, com o nosso António Vilar, e em 1960 aterrava em Lisboa para promover o filme entre “um dilúvio de chuva e de admiradores”. Vieram, entretanto, os filmes mais sérios da Nouvelle Vague, como La Verité e Le Mépris, a partir dum romance de Alberto Moravia.

Mais tarde, em 1967, estoirava o escândalo do sussurrado Je t’aime, moi non plus, com Serge Gainsbourg.

Houve ainda comédias épicas, como Viva Maria, com Jeanne Moreau e George Hamilton, e, em 1973, Les Pétroleuses, também com a Moreau.

Antes de fazer 40 anos, BB retira-se do cinema e volta-se para novos amores, lançando uma campanha contra os maus-tratos e a matança das focas bebés, prelúdio do seu grande empenho na defesa dos animais.

Paralelamente à vida artística, fica uma vida privada agitada, com quatro casamentos e muitas aventuras, levando Raymond Cartier a escrever no Paris Match com uma severidade moral inusitada: “Brigitte Bardot é imoral da cabeça aos pés”

Divorciada de Vadim em 1957, casa com Jacques Charrier, em Junho de 1959. Depois, em 1966, desposa o milionário alemão Gunter Sachs, separando-se três anos depois. Só voltará a casar em 1992, com Bernard d‘Ormale. Entretanto, foi tendo casos, muitos casos, com homens mais ou menos conhecidos.

Porém, as indulgências progressistas que toda esta transgressão de linhas vermelhas da moral convencional, do papel tradicional da mulher e do tratamento dado aos animais lhe deveria garantir ficariam em quase nada perante a sua imperdoável transgressão de outras linhas vermelhas. É que, aparentemente, a nova moralidade não se mostra particularmente compassiva com a liberdade desregrada, ou com os prevaricadores da sua intocável cartilha.

Entre “Le P.A.N.” e Le Pen

Assim, na Comédia da grande comunicação, parece não haver nada, nem mesmo o voto de pesar do P.A.N. pela morte de uma grande defensora dos animais, que possa redimir BB do inferno a que a condenaram as suas simpatias pela direita radical. O Le Monde lembra os seus “Trente ans de simpathie pour l’extrême droite” e o The Guardian denuncia, como pecado capital, o que Brigitte escreveu no seu livro Mon BBcédaire, publicado pouco antes de morrer: que o Rassemblement National era o “único remédio para a agonia da França”, um país que, por causa das políticas no poder e da imigração descontrolada, estava a ficar “chato, triste, submisso, doente, arruinado, devastado, ordinário e vulgar”.

Se a sua liberdade não tivesse teimado em ensombrar um percurso libertário que tinha tudo para ser imaculado, Brigitte Bardot podia agora ascender calmamente ao céu laico do progressismo de referência. Mas não. O desviacionismo era nela uma coisa endémica. Tanto que, ainda antes de incorrer no pecado capital de pensar abertamente à direita, ainda no auge do seu tempo de ícone de um novo feminismo, já estragara tudo, entregando-se ao vício da dissidência:

“Le féminisme ce n’est pas mon truc, moi, j’aime bien les mecs…”.

Enfim, fica a fé na consoladora distância entre a Justiça Divina e os nossos pensamentos e julgamentos carnais.

Que o supremo Criador de toda a beleza, de toda a alegria e de toda a liberdade a receba na sua infinita Misericórdia.

Texto reproduzido do blog: otambosi blogspot com

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Jesus não é só um objeto de fé, ...também ...campo acadêmico de estudos


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 21 de dezembro de 2025

Jesus não é só um objeto de fé, mas também um campo acadêmico de estudos.

Aquele mais tarde chamado de "O Cristo" —o ungido—, ao contrário do que muita gente pensou e pensa por aí, era um judeu "liberal" que nunca pensou em inventar nenhuma religião nova. Luiz Felipe Pondé para a FSP:

Jesus existiu? Essa pergunta, hoje, não é só ultrapassada, ela é cafona. Até o século 19, existiam autores que tentaram pôr em dúvida a existência histórica de Jesus Cristo, mas, hoje, ninguém sério mais faz isso.

Claro que uma coisa é você saber que houve um judeu chamado Jesus no período do segundo templo de Jerusalém, no qual a Israel antiga estava sob o domínio romano. Outra é você crer que ele ressuscitou. Este relato já não faz parte do conjunto de evidências que sustentam a existência histórica de Jesus de Nazaré.

Por outro lado, narrativas como aquela em que o discípulo cético Tomé pede a Jesus que mostre a ele suas chagas para que ele as toque, a fim de provar que Jesus havia voltado da morte com seu próprio corpo, é orgânica com o conjunto de crenças judaicas da época.

Para os judeus, vencer a morte era voltar dela com o corpo —e não apenas vagar por aí como uma alma penada. Espíritos de mortos vagando no mundo tinham em toda esquina. Quem criou essa narrativa conhecia esse conjunto de crenças da época.

A fortuna crítica sobre Jesus é vastíssima e de alto nível. Para quem estuda religiões, é sabido que o substantivo "religião" tem vários sentidos. Por exemplo, religião é uma coisa para uma senhorinha católica que reza o terço e vai à missa. É outra coisa para o rabino estudioso e responsável pela vida espiritual de uma comunidade judaica. E ainda outra para um estudioso do fenômeno histórico que costumamos chamar de religião para facilitar o entendimento entre nós.

Em português, temos alguns volumes excelentes sobre o personagem histórico e o seu contexto social, político e espiritual.

O livro "Jesus Fora do Novo Testamento: Uma Introdução às Evidências Primitivas" de Robert R. Van Voorst, da editora Biblioteca Teológica, é rico no tratamento do personagem histórico Jesus a partir de fontes clássicas, judaicas, canônicas e pós-canônicas.

O livro "Jesus", do historiador israelense David Flusser, pela editora Perspectiva, é indispensável. Entre outras características, um dos eixos argumentativos centrais é a constatação de que o que está descrito nos evangelhos sinóticos —Marcos, Mateus e Lucas— é historicamente consistente com a época, seja em suas estruturas de poder dentro da sociedade israelita de então, seja no tocante ao ensino de um judeu típico da sua época, como era Jesus.

Aquele mais tarde chamado de "O Cristo" —o ungido—, ao contrário do que muita gente pensou e pensa por aí, era um judeu "liberal" que nunca pensou em inventar nenhuma religião nova.

Vale lembrar que, naquele tempo, o judaísmo era uma religião como qualquer outra. Isto é, qualquer um poderia se tornar judeu sem toda a questão da linhagem matrilinear tão conhecida atualmente. A rigor, a ideia de partida era trazer novos convertidos para o messias judeu recém-chegado.

Outro fator importante é que o termo "o Cristo", ou "o ungido", era uma categoria política. Por isso, os romanos olhavam com desconfiança —ungido era o rei de Israel, visto naquele momento como um possível inimigo do imperador. Não foi à toa que colocaram na cruz, em forma de deboche, que Jesus era o rei dos judeus.

Outro título, esse escrito por especialistas do Brasil na área, é o volume "Jesus de Nazaré: Uma Outra História", da editora Anna Blume, com apoio da Fapesp, organizado por André Leonardo Chevitarese, Gabrielle Cornelli e Mônica Selvatici. Distante de qualquer tratamento teológico ou movido pela fé, a coletânea traz um olhar "outro", ou mesmo "estranho", para o personagem histórico antigo, o "homem divino da Galileia".

Um volume essencial que temos traduzido no Brasil é "O Jesus Histórico: Um Manual", organizado por Gerd Theissen e Annette Merz, pela editora Loyola. Este volume enfrenta todos os campos de estudos acadêmicos sobre a figura histórica de Jesus: as fontes cristãs e não cristãs, a avaliação dessas fontes, o contexto da época, as relações políticas, as diversas figuras do Cristo, o messias judeu para alguns, herege para outros, o curador de doenças e milagreiro, o profeta, o líder político, o rebelde, o mestre de sabedoria, o Jesus histórico como fonte da cristologia nos primórdios do cristianismo.

Há estudos também da igreja primitiva em tradução no Brasil, como os três volumes magistrais de James D. G. Dunn, "O Cristianismo em seus Começos", pela editora Paulus.

Enfim, Jesus não é só um objeto de fé, ele é um campo acadêmico de estudos de peso, que exige uma vasta erudição e muito folego. Um campo atravessado por polêmicas ricas, estimulantes e intermináveis.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Doença da fama: “encolhimento” de Ariana Grande, morte de Rob Reiner

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 18 de dezembro de 2025

Doença da fama: “encolhimento” de Ariana Grande, morte de Rob Reiner.

A interminável lista de celebridades com graves problemas ou levadas pela droga agora tem um duplo homicídio chocante e as vítimas do "efeito Ozempic”. Vilma Gryzinski: 

Marilyn Monroe e Kurt Cobain se suicidaram; John Lennon e Selena foram assassinados; James Dean morreu num acidente de carro com apenas 24 anos; a droga levou Janis Joplin, Jim Morrison, Jimi Hendrix e River Phoenix, e o álcool envenenou Amy Winehouse aos 27 anos. É impossível não pensar nessa lista vendo dois casos chocantes do momento: a quantidade de mulheres famosas que simplesmente “desaparecem”, como a cada vez mais frágil Ariana Grande, e o duplo assassinato do ator e diretor Rob Reiner e sua mulher, Michelle Singer, degolados pelo próprio filho

Mesmo pelos padrões de Hollywood, o violento homicídio é um fato estarrecedor, ao qual nem sequer se aplica o clichê da frase “daria um filme”. Nem nas piores produções de terror o tabu profundamente arraigado do matricídio e do patricídio é quebrado.

Mas, como nos filmes, a impressão de que alguma coisa ia muito mal foi testemunhada por figuras conhecidas do show business, convidadas para uma festa de fim de ano pelo humorista e ex-apresentador de um conhecido programa de entrevistas, Conan O’Brien.

A festa foi no sábado e Nick Reiner, que não estava na lista, mas acabou sendo incluído a pedido do pai, preocupado em deixá-lo sozinho em meio a surtos de fúria. Circulou entre os convidados, incomodando muita gente, incluindo a atriz Jane Fonda, com três perguntas inconvenientes: “Qual é seu nome? Qual é seu sobrenome? Você é famoso?”.

O dono da casa, que ironicamente estava dando a festa para deixar para trás um ano ruim, incluindo o grande incêndio de Los Angeles que o obrigou a ser evacuado de casa, tal como outros nomes do mundo do show business, acabou pedindo que se retirasse. Pai e filho brigaram feio.

SEQUESTRADO ENTRE HIPPIES

Em lugar de mais um episódio em que o filho, drogado a ponto de ter ido morar na rua a certa altura de seus 32 anos, constrangia os pais, o caso terminou no esfaqueamento de Rob e Michelle, alvos de múltiplos golpes e de degolamento. Antes de morrer, a mãe apontou Nick como o culpado. Em lugar de irem jantar com Barack e Michelle Obama no domingo, como estava combinado, o casal assassinado foi para o necrotério.

O caso, obviamente, tem aspectos específicos, mas se enquadra na categoria geral da “maldição da fama”, uma espécie de síndrome de distúrbios emocionais que afeta não apenas celebridades, mas também seus filhos, colocados na posição de cavar um lugar à sombra dos pais famosos e conviver eternamente com a ideia de que são “nepobabies”, uma expressão nova para um fato antigo, o favorecimento aos descendentes de figuras de destaque.

Um dos casos mais famosos aconteceu quando um dos filhos de Marlon Brando, Christian, matou o namorado da irmã por parte de pai, Cheyenne. Christian até tentou ser ator, mas como encarar a profissão quando se é filho de Marlon Brando? E ainda por cima com uma infância infernal, em que o pai e a mãe divorciados se enfrentaram numa das piores disputas por guarda de menor da história do cinema (a mãe sequestrou o menino e tentou escondê-lo com um grupo de hippies da Califórnia, mas um detetive contratado por Marlon Brando o encontrou).

Depois de um casamento que durou duas semanas com Deborah Presley, suposta filha natural de Elvis Presley, Christian Brando acabou morrendo de pneumonia aos 49 anos.

TEMPORADA CANCELADA

São histórias que parecem tornar irrelevante o caso de Ariana Grande, cuja magreza evoca uma reação unânime: está sofrendo de algum distúrbio alimentar. Ariana é naturalmente esguia, com ossatura delicada e tipo frágil como uma bonequinha de porcelana, mas a magreza atual não tem nada de natural.

Ela também está no centro de ondas de boatos, inclusive sobre um relacionamento com Cynthia Erivo, alimentado pela linguagem corporal durante a temporada de divulgação de Wicked: Parte 2. Quando Cynthia pulou como uma feroz pantera negra sobre o fã idiota que havia agarrado Ariana, a reação rápida e a atitude protetora aumentaram ainda mais a boataria. A temporada de divulgação acabou cancelada.

É errado fazer diagnósticos à distância, sobre pessoas cuja ficha médica não é conhecida, mas são de domínio público os efeitos da pressão pelo emagrecimento das mulheres do mundo do show business, inclusive as que começaram a carreira precocemente, ainda crianças ou adolescentes, como Ariana, com sua garganta angelical, capaz de atingir o registro vocal mais agudo da voz humana.

Distúrbios alimentares são uma doença mental e devem ser tratados com extrema seriedade, inclusive porque têm um componente social muito forte e hoje são incentivados pelos casos espantosos de mulheres famosas que perdem dezenas de quilos e desfilam seus novos corpos com orgulho. Inclusive quando não parecem nada saudáveis, como Kelly Osborne, apresentadora de programas de televisão e filha do metaleiro Ozzy Osborne, morto em julho passado.

Kelly exibe o corpo típico do emagrecimento não saudável: cabeça desproporcional ao corpo, ossos que parecem furar a pele dos ombros e peito encovado. Ela emagreceu 38 quilos com cirurgia de redução do estômago e outros tratamentos, incluindo medicação. A mãe dela, Sharon Osborne, praticamente virou outra pessoa com o Ozempic.

Outra transformação impressionante é da comediante Amy Schumer, com um histórico de luta de uma vida inteira contra a balança. Ela apagou das redes sociais todas as “fotos de gorda”. É como se um pedaço de sua vida desaparecesse. Com o emagrecimento, anunciou também o fim do casamento.

Os remédios para emagrecer que explodiram no mundo são um espetacular avanço no combate à diabetes e aos males do excesso de peso, mas é óbvio que podem induzir a um culto nada saudável à magreza excessiva, sem nenhuma relação com as pessoas que são naturalmente magras.

Em 1983, a cantora Karen Carpenter morreu aos 32 anos. Pesava 35 quilos. A integrante do grupo The Carpenters foi um dos primeiros casos de ampla divulgação de anorexia, até então um distúrbio pouco conhecido.

FORÇAS INCONTROLÁVEIS

Distúrbios alimentares são diferentes de quem tem “mania de regime” e agora se vê com um medicamento que parece milagroso, incomparável com tudo o que existiu antes para cortar os quilos a mais que praticamente todas as mulheres enxergam nos próprios corpos. É bom e saudável se cuidar, é doentio se tornar obcecado com isso. Difícil é estabelecer as fronteiras.

As pressões sociais pelo emagrecimento são forças praticamente incontroláveis, só contrabalançadas por uma vida interior sólida e uma autoimagem capaz de se sustentar em pé sem o julgamento dos outros.

Imaginem como essas forças se concentram em quem vive na frente das câmeras e tem cada punhado de gramas extras controlado tanto por críticos quanto por fãs. Até mulheres lindas e naturalmente magras que entraram para a realeza desencadeiam suspeitas de anorexia, como Kate, a princesa de Gales, e Letizia, a rainha consorte da Espanha.

A “doença da fama” se manifesta em regimes brutais para emagrecer, uso descontrolado de drogas, comportamentos autodestrutivos. Num caso extremo, sem antecedentes, contribui para os distúrbios mentais graves que levaram um filho a assassinar a mãe e o pai. Nem em Hollywood parece possível.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

domingo, 30 de novembro de 2025

António Damásio: "Não é impossível fazer consciência artificial"


Entrevista compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 29 de novembro de 2025

António Damásio: "Não é impossível fazer consciência artificial".

O que significa consciência? Como é que os sentimentos falam com o cérebro? Onde está o bem e o mal na biologia? São temas de conversa nesta entrevista e no novo livro do neurocientista. Alexandra Carita para o Observador:

António Damásio é, há décadas, um dos mais proeminentes neurocientistas do mundo. A sua investigação tem vindo a ensinar-nos a pensar o ser humano de uma outra forma e a rever a matéria dada sobre comportamentos, afetos e emoções. É professor catedrático e diretor do Brain and Creativity Institute na Universidade de Southern California, em Los Angeles. Agora, em A Inteligência Natural & a Lógica da Consciência, o livro que acaba de lançar pela Temas & Debates, apresenta-nos um cérebro que conversa em contínuo com o corpo e os seus sentimentos. E explica da forma mais simples a complexidade da nossa condição biológica. Em conversa com o Observador, António Damásio traça as linhas que definem a nossa inteligência e que tanto a distinguem da novíssima Inteligência Artificial. Otimista q.b., acredita que a vulnerabilidade é a chave para uma IA mais parecida connosco.

Este novo livro fala sobre a Inteligência Natural num momento em que estamos todos a falar da Inteligência Artificial. Foi preciso aparecer esta inteligência artificial para nos questionarmos sobre o que é a inteligência natural, no fundo, a única que conhecíamos?

Sim, essa é a única, é a nossa, a que temos.

De que forma ela se diferencia da inteligência artificial, que é a que nos assusta?

A Inteligência Natural é esta junção magnífica entre o nosso corpo e a sua inteligência e a inteligência que o cérebro nos dá. Esse cérebro tão complexo que tem uma componente afetiva, aquilo a que chamo The Feeling Mind, a Mente que Sente, e uma outra a que chamo a Mente Percetual/Reflexiva/Linguística, uma outra componente ou uma outra história.

Uma outra história porque isso significa que funcionam ao mesmo tempo, mas em partes diferentes do cérebro?

Funcionam ao mesmo tempo, mas em partes diferentes do cérebro, exatamente. E essas partes diferentes têm uma origem evolutiva diferente também. Tudo aquilo que tem a ver com a nossa inteligência afetiva é extremamente antigo, entre aspas, em matéria de evolução, enquanto que a inteligência que tem a ver com a perceção, com a linguagem e com a reflexão e a criatividade, é uma inteligência muito mais moderna, também porque vem de um cérebro muito mais moderno. Em termos gerais, tudo o que tem a ver com o afeto vem antes do córtex cerebral, enquanto que grande parte daquilo que acontece com a inteligência percetual, linguística e reflexiva vem do córtex cerebral. Para mim, isto são coisas perfeitamente óbvias e têm-no sido há décadas, mas que para as pessoas que trabalham neste campo não são. De certa maneira, estou a dizer neste livro uma série de coisas muito óbvias, mas que não são óbvias de todo para os outros neurocientistas, e é por isso que é preciso dizê-las.

Ao lê-lo, percebe-se que defende que há uma relação contínua, constante, entre os sentimentos, tudo o que sentimos através do corpo, e o cérebro. É um diálogo entre os sentimentos e a consciência, consciência essa que vai atuar precisamente ao receber a informação que esses sentimentos lhe dão.
Exato.

E vai atuar sempre no mesmo sentido, no sentido da homeostasia, um conceito que podemos definir como equilíbrio, bem-estar?

Antes ainda do equilíbrio e do bem-estar, a homeostasia atua no sentido de salvar a vida. É essa a lógica da consciência. A verdadeira razão de todos estes desenvolvimentos evolutivos tem a ver com a vida. A natureza não só inventou a vida, como também está extremamente preocupada em que a vida não desapareça. Defendo que os sentimentos apareceram pela primeira vez como sistemas de alerta.
Sentinelas?

Sentinelas, sim, belíssima palavra em português. Podemos dizer que a natureza criou a vida e ao mesmo tempo tem imensas preocupações para que essa vida não desapareça. Esta é uma forma de descrever o processo, evidentemente. Primeiro houve a invenção da vida, e claro que a vida é extremamente arriscada, a probabilidade de perder a vida ou de a vida ficar doente é muito alta. Todos estes mecanismos que têm aparecido na natureza são mecanismos que visam reduzir a probabilidade da doença e reduzir a probabilidade da morte. É um jogo curioso pensar que a natureza, que não é evidentemente uma pessoa, tem uma inteligência implícita: uma vez que foi criada vida, vamos tentar mantê-la! Vamos salvar essa vida. Tudo o que se tem desenvolvido em termos dos nossos sistemas nervosos da nossa mente, visa a manutenção da vida. E, às vezes, e o que é o lado bom, visa também uma espécie de prémio pela boa manutenção da vida, que é aquilo a que chamo prazer. O prazer é o prémio pelas coisas funcionarem bem, por estarmos a fazer o que devíamos.

Por estarmos atentos àquilo que o próprio corpo nos diz?

Exato. Os sentimentos homeostáticos são isso mesmo, são esses alertas, ou sentinelas, gosto muito da palavra que usou.

Como é que algo tão complexo pode no fundo ser tão simples, como nos mostra neste livro?

Gosto de escrever e gosto de explicar. Quando uma pessoa está interessada em mecanismos, na realidade dos mecanismos e em que é que eles resultam, pode haver também um gosto pela forma como exprimimos esses problemas. Gosto de escrever, pensei mesmo, durante uns tempos da minha vida, que ia ser poeta ou escritor. Foi muito melhor que ficasse neurocientista.

Este mistério tão profundo que é o cérebro, um mistério que nos anima a todos e a todos desanima, e que nos põe a pensar sobre nós próprios e a existência, deve ser o mais estimulante que existe para estudar…

É, é muito estimulante. E este tema da consciência que desenvolvo neste livro é especialmente estimulante. Este foi um livro que gostei de escrever porque o que digo é, por um lado, tão natural e tão lógico, mas, por outro lado, é tão diferente do modo dominante como a neurociência tem abordado a consciência, que me dá muito gosto fazê-lo. Grande parte das teorias sobre consciência, pelo menos dos últimos 30 anos, são defendidas por pessoas — algumas das quais são minhas amigas, de quem gosto muito — que pensam de forma diametralmente oposta à minha. O princípio destes desenvolvimentos surge muito à volta do trabalho de Francis Crick [(1916-2004) biólogo molecular e neurocientista britânico que descobriu a estrutura da molécula do ADN], pessoa notabilíssima e um grande amigo, e nós discordávamos completamente da forma de abordar este problema. Francis Crick dizia-me sempre que o córtex cerebral é a coisa mais sofisticada que temos no nosso organismo, o que é verdade, a consciência é a coisa mais notável que temos na nossa vida, o que se pode debater mas que é aceitável. E para ele, o córtex cerebral tinha que ser o que criava a consciência. E isso está fundamentalmente errado.

O que o professor António Damásio nos diz é que o que cria a consciência é tudo aquilo que sentimos…

Sim. E o que sentimos vem-nos do tronco cerebral, vem-nos da parte mais velha do nosso sistema nervoso central. Quando toda a informação do corpo entra na medula espinal e depois caminha para o tronco cerebral, é aí que se constroem os sentimentos e é aí que se constrói a possibilidade da consciência. Já o córtex cerebral dá-nos a possibilidade de descrever esta sala, por exemplo, e o facto de que é oval em vez de ser circular ou quadrada, e dá-nos os pormenores da forma como esta mesa foi trabalhada com estes embutidos e está polida. Tudo isto é muito bonito, mas tudo isto requer uma forma de apreciação da realidade através da visão, do sistema auditivo, ou do tato, o que é realmente muito sofisticado. Aquilo que temos na nossa visão é extraordinário, a maneira como podemos descrever o mundo que nos rodeia… É muito mais penoso para o cérebro, e muito mais detalhado e pormenorizado do que aquilo que se passa ao nível dos sentimentos. Os sentimentos são uma espécie de coisa bruta, algo de brutal que nos está constantemente a dizer, olhando para todo o corpo, para todos os pedaços do nosso corpo, que isto está bem ou menos bem, ou há aqui um problema, ou isto está ótimo.

É uma avaliação?

Isso, é uma avaliação, um descobrir de qualidades e depois um descobrir de quantidades. Enquanto que aquilo que estamos a fazer com a nossa visão ou com a audição é analisar os pormenores e descrevê-los. Uma coisa é descrever qualidades e quantidades, que é o que acontece com os sentimentos, outra coisa é descrever os pormenores da realidade que nos rodeia. O descrever dos pormenores é do ponto de vista do sistema nervoso extremamente duro e extremamente sofisticado, esta é talvez a melhor palavra porque há tantos pormenores. Enquanto que no que diz respeito aos sentimentos tudo é mais vago, não tem que ser pormenorizado. É mais, menos, bom, mau, simpático, antipático.

Podemos dizer que damos mais importância aos sentimentos do que àquilo que estamos a querer descrever?

Normalmente, a nossa vantagem é dar mais importância aos sentimentos. O que vai muito contra a tendência atual quando se olha para aquilo que está a acontecer na nossa cultura. Há, ao mesmo tempo, uma preocupação com os sentimentos, o que é óbvio. Se as pessoas querem a felicidade, têm de querer certos sentimentos. Mas, ao mesmo tempo, é como se aquilo que contasse mais fosse aquilo que eu descrevo como digital. E é fundamental percebermos que, de certo modo, os sentimentos são um processo analógico. Tudo aquilo que tem a ver com o córtex cerebral e com a nossa perceção pormenorizada é digital. Não é que o nosso sistema nervoso seja ou digital ou analógico, é ambos, tal como é percetivo e sentimental também.

Tudo isso envolve um eu, um eu a que chama “experienciador” e “percecionador”, um eu individual e que está em primeiro lugar…

É a esse eu que chegamos através deste processo.

Qual é a diferença entre a consciência de que fala, que é a consciência de nós e de que existimos, e a consciência moral ou ética de que falamos normalmente quando falamos, por exemplo, em “peso na consciência”?

A língua portuguesa, tal como a francesa ou a italiana e a espanhola, tem um grande problema: não arranjou uma palavra separada para a consciência de que estamos a falar aqui. Quando se diz consciência, mistura-se constantemente o sentido de consciousness com o de conscience, em inglês, o sentido de consciência de nós com o de consciência moral. Isso é um enorme problema porque leva estas várias culturas latinas a confundirem as duas coisas e é muito difícil para as pessoas, a não ser que façam um esforço filosófico de separação dos conceitos, perceberem do que é que se está a falar. Dir-lhe-ia que a maioria das pessoas com quem se fala que não sejam especialistas na matéria ouvem a palavra consciência e pensam nesse lado moral e é por isso que têm um temor enorme em discutir a consciência. Claro que nas culturas latinas, que ainda por cima são religiosas, o problema é ainda maior.

No entanto, há algo que liga essas duas consciências. Há um momento no livro em que nos explica que para essa tal homeostasia individual, o bem-estar ou equilíbrio, ou manutenção da vida, de que começámos por falar, nos preocupamos com a homeostasia do outro. Ora aí parece-me que essa preocupação com o bem-estar do outro se aproxima dessa consciência moral…

É verdade. Tem outras raízes. Não surge porque Deus Nosso Senhor veio à terra para nos dizer o que devemos fazer. Mas, para começar, percebamos que a natureza tem preocupações com o outro porque se o outro não tiver bem-estar o nosso bem-estar também sofre. As razões são muito diferentes.

São mais egoístas.

São absolutamente egoístas. Temos caridade com o outro porque não ter caridade com o outro é mau para nós. Não é Jesus vindo à terra a dizer-nos “isto é o que devem fazer”…

Se calhar Jesus só veio à terra para nos dizer isso porque a nossa consciência primeira precisa de uma palavra.

É exatamente isso. No fundo, grande parte das coisas que criamos culturalmente, quer sejam histórias, quer sejam poemas, quer seja a grande e enorme sabedoria que aparece na Bíblia, são o resultado e uma projeção daquilo que somos biologicamente e nem podia ser de outra maneira. Somos o que somos biologicamente e essa biologia leva-nos, curiosamente, mais para o bem do que para o mal.

Isso é uma esperança?

Neste momento, politicamente, não se percebe que haja nem esperança nem governo, mas sim, é exatamente assim, pendemos para o bem. É de facto excelente termos na nossa natureza, por razões que têm a ver com o egoísmo da nossa condição, a necessidade de ter também um altruísmo.

Se não formos altruístas, o nosso bem-estar pode ser posto em causa? Dessa forma egoísta é que somos os tais altruístas?

Exato.

Quando fala destes outros fenómenos sociais, não só da religião, mas também da economia, da política e da sociedade em geral, fala numa construção ou projeção de nós, indivíduos biologicamente ativos.

Trata-se efetivamente de uma projeção. Quanto mais soubermos sobre a nossa fisiologia fundamental, quanto mais soubermos sobre a nossa natureza biológica, melhor podemos compreender a nossa situação no mundo, e melhor podemos compreender até que ponto há certas coisas que são verdadeiramente inventadas de novo e coisas que são criações, trabalhos à volta daquilo que somos. Grande parte daquilo que é o nosso altruísmo é um resultado daquilo que somos biologicamente. Quando se escreve um poema sobre o amor, há também uma projeção daquilo que somos biologicamente quando estamos apaixonados, mas há mais novidade, é menos restrito. Quando se pinta um quadro, como a Vieira da Silva, há coisas que vêm da nossa natureza, é evidente, da nossa perceção visual, mas é muito mais liberto, muito mais livre de todos esses arranjos biológicos que temos.

Vem tudo daí, no entanto?

Claro. Vem tudo do mesmo cérebro a trabalhar juntamente com o corpo. Sempre que as pessoas querem arranjar explicações para a consciência e que querem só o cérebro, dá asneira. Não funciona. A lógica de tudo isto é que há um corpo. Primeiro a vida, a vida está num corpo e quanto mais se complica a estrutura, quanto mais a estrutura aumenta e se diferencia, mais há necessidade de verificar que se inclui sempre o corpo. É sempre tudo por causa do corpo, é sempre tudo por causa da vida.

Tudo isto serve para salvar a vida e um corpo sem vida não existe, podemos resumir assim?

A lógica está toda aí. Estamos sempre à procura de manter a vida e de manter uma vida em bem-estar. E essa é a lógica de tudo o que criamos, numa replicação da mesma necessidade, que é manter a vida.

Só que tudo isso é tão complicado que chega a ser confuso que o possamos explicar de forma tão simples…

São precisas duas coisas. Primeiro: ter dados científicos, portanto fazer a observação daquilo que é a realidade biológica. Depois: refletir sobre essa realidade. Grande parte da melhor ciência é o resultado das duas coisas. Um microscópio ou a forma de fazer um ensaio químico são maneiras para descobrir mais pormenores da realidade, por si só conseguem-se fazer vários progressos. Mas por si só não têm a profundidade que resulta de ter esses dados e depois refletir sobre esses dados e perguntar-se como é que isto faz sentido. Porque é que existe ADN e ARN da forma que existe? A boa ciência no meu entender tem essas duas coisas. Tem um lado que procura dados cada vez com mais profundidade e tem, por outro, reflexão sobre esses dados de forma que se possa construir uma história que faça sentido.

Para aí também concorrem outras disciplinas. Desde a filosofia à psicologia e até à música, de que também fala.

Há uma reunião de disciplinas que pode conduzir a um melhor trabalho. Não vamos estar vivos daqui a cem anos, mas daqui a cem anos haverá, se as pessoas não destruírem o mundo entretanto, maneiras ainda mais profundas de compreender toda esta biologia.

Fala com otimismo?

Com algum otimismo, sim.

Apesar da Inteligência Artificial ainda não ser vulnerável? Avança neste livro com a vulnerabilidade como chave para os problemas levantados atualmente pelos sistemas de IA.

O conceito de vulnerabilidade tem muito a ver com aquilo de que estivemos a falar. É esse descobrir da nossa vulnerabilidade e o descobrir da vulnerabilidade do outro que nos leva a ter certos comportamentos. As pessoas que trabalham em IA estão completamente dominadas pelo pormenor da IA, pelo facto de que existe — e também, em grande parte dos casos, pelo facto de que é uma coisa altamente utilizável e altamente comerciável. Falei esta semana com o português Fernando Pereira, [vice-presidente da Google DeepMind], na Fundação Champalimaud, e surpreendeu-me por não ser assim e por ser tão raro. Aquilo que estamos a viver neste momento é o delírio da descoberta da IA. É quase impossível abrir um jornal ou uma revista sem encontrar um artigo ou uma notícia sobre IA. O que não é comum é encontrar pessoas que sabem onde é que a inteligência artificial fica no grande esquema das coisas. O Fernando Pereira percebe isso perfeitamente porque é um cientista, um cientista que tem trabalhado em sistemas digitais, mas que está muito mais preocupado, embora esteja em companhias que fazem milhões de dólares, em perceber o que são as coisas do que em perceber como é que se vai comercializar um produto, ou como é que esse produto se adequa ou não à vida diária. E falei com ele sobre a questão precisamente da vulnerabilidade, que é uma coisa rara e que tem que ser introduzida artificialmente dentro de um sistema artificial e que é uma das chaves para aproximar esses sistemas daquilo que são os sistemas vivos.

É fazer com que esse sistema artificial sinta? Sinta uma ameaça?

É fazer com que esse sistema artificial sinta uma ameaça artificial. É tudo artificial.

Mas é para que de uma certa forma esse sistema artificial se comporte como um humano?

Exato. Uma vez que um dos grandes problemas da IA é que não está inserida num esquema biológico de evolução e não há parceiros. Um sistema artificial é um sistema isolado. E o que não tem acontecido é a possibilidade desse sistema artificial perceber o que se está a passar com outro sistema artificial e fazer qualquer coisa como a entreajuda de que estávamos a falar aqui. Isso não existe na IA. O que existe são sistemas muito, muito artificiais que estão perfeitamente longe daquilo que é o ser humano, ou um ser biológico complexo. Não há entendimentos de cooperação por exemplo. Mas é possível desenhar esses entendimentos artificialmente. Chegámos noutro dia à ideia de que é possível desenhar sistemas que façam aproximações sucessivas daquilo a que são os sistemas humanos. Continuarão a ser artificias, não há a carne que vai sofrer e que vai estar em risco. Mas quanto melhor apreciarmos aquilo que são os seres vivos, mais possível é aproximar os sistemas artificiais desses seres vivos. Se soubermos com muito pormenor quais são as linhas fundamentais que descrevem um ser vivo, então é possível transpor algumas dessas linhas e desses conhecimentos para os sistemas artificiais. Quando as pessoas me perguntam se é possível haver consciência artificial, normalmente digo que não é. E não é porque os sistemas não a tenham, mas é diferente de dizer que nunca vai haver. Tenho impressão de que é possível chegar a aproximações quanto mais pudermos transpor aquilo que é a biologia para um sistema artificial. E é muito bem possível que haja certas transposições que de repente façam aparecer qualquer coisa que parece uma consciência. Portanto, não é impossível fazer consciência artificial, o que não é possível é fazê-la com os sistemas artificiais de hoje.

Com certeza que teria de ser também com as pessoas certas a fazer esse trabalho?

É preciso uma quantidade de avanços e desenvolvimentos e uma conjunção muito benigna para chegarmos a tal coisa.

Que é tudo o que não temos neste momento?

Neste momento não temos. E torna-se ainda mais difícil por todas as razões, por exemplo, comerciais que estão por detrás da IA. A IA e todos estes dispositivos estão a responder a certas necessidades — mais uma vez entre aspas — que as pessoas têm. Os sistemas dos nossos telemóveis, a maneira de organizar dados têm princípios que são muito, muito diferentes dos princípios da biologia e dos princípios da vida. Tudo isto é simples, como vê.

Parece simples. É com certeza muito mais complexo ainda do que conseguimos, nós, leigos, perceber.
Não é simples, não. Mas é curioso e é simpático sentir que há certos progressos e especialmente compreender aquilo que é a vida e a forma como a regulamos. Isso é extraordinariamente importante.

Não sente algum receio, e falando do contexto político atual nos EUA, de que todos estes avanços e estes estudos sejam condicionados pela liberdade ou falta dela para continuar a entender a biologia, ou a produzir ciência?

Claro que sinto. Há uma enorme preocupação. Há certos dias em que há muita esperança em que as coisas se componham e que as pessoas percebam o absurdo de certas posições, mas, por outro lado, o dinheiro é uma coisa muito importante e é o dinheiro que governa grande parte das decisões de certos organismos políticos. E isto não é só nos EUA. É claro que os EUA são um caso extremo. E são um caso extremo talvez porque o que se está a passar é tão diferente daquilo que definiu os EUA. Falo de coisas como liberdade e generosidade. Tudo isso de repente desaparece para dar lugar a uma preocupação com dinheiro e sucesso que tem a ver com dinheiro. Mas isto também está a passar-se noutros países. Preocupa-me que sistemas sociais e políticos estejam a abandonar o habitual desejo de liberdade, de generosidade e de apoio aos seres humanos para qualquer coisa que é muito mais egoísta no sentido literal do termo.

O dinheiro também passa a ser uma preocupação das instituições científicas se deixarem de ser apoiadas e não puderem trabalhar.

Claro. Há e vai haver restrições de generosidade em sistemas de subvenções, por exemplo. Não é possível fazer ciência, esta ciência de que estamos a falar, se não houver subvenções dos governos dos países mais ricos e que mais têm tradição científica. Mas tudo está a mexer. Neste momento, o mecenato também está a desenvolver-se, o que pode compensar em parte a falta de subvenções. O que é certo é que as coisas são muito mais difíceis. É muito mais difícil fazer ciência hoje do que fazer ciência há 20 anos ou há 50, exatamente por causa das restrições ao nível das subvenções. E enquanto for só o dinheiro… o pior é se houver mais restrições que têm que ver com as ideias. Então aí é o fim.

Quem é que mais o procura, jovens?

Sim, muitos. E isso é um aspeto positivo que tem a ver com a disseminação de conhecimentos através de redes socias. Há muito mais pessoas que sabem aquilo que os cientistas fazem do que havia há dez anos. O meu email está sempre cheio de pedidos de pessoas que querem vir estudar connosco, que fazem perguntas, que pedem opiniões. O interesse é enorme.

E em relação ao cérebro, ainda nos falta saber muita coisa?

Tanta. Mas é possível que estejamos a atravessar um momento de pico em que sabemos o suficiente para avançar do ponto de vista de possibilidades teóricas, coisa que não existia há 30 ou 40 anos. A conversa que tivemos aqui sobre sentimentos e consciência é uma conversa que seria impossível há 50 anos.

Porque não conseguiríamos entender estes conceitos?

Exato. Ainda não tínhamos tido a possibilidade de raciocinar sobre estes conceitos. Um dos locais de ciência mais interessantes na nossa vida, minha e da Hanna [Hanna Damásio, sua mulher e também neurocientista], foi o Salk Institute, em La Jolla, em San Diego, na Califórnia, [instituto de investigação biológica], um sítio muito particular, de uma beleza arquitetónica tremenda e onde se juntaram uma série de pessoas de alto calibre científico, por exemplo Francis Crick, que deixou a Inglaterra e foi sediar-se lá, ou o Jonas Salk, o inventor da vacina para a poliomielite, que é uma invenção absolutamente lapidar. Havia ali um grupo de pessoas que o que mais faziam era conversar sobre isto. Aquilo que se conversava era este tema geral, mas não com a profundidade que temos hoje. Pensando naquilo que se estava a passar nessa altura, havia muitas, muitas questões que estavam em aberto e em ponto de interrogação. Quando lhe falei da conversa com o Francis Crick é exatamente isso. Aquilo que ele estava a afirmar eu podia contrariar de um ponto de vista daquilo que era a minha ideia geral, mas não tinha os dados para lhe dizer não, aquilo que me está a dizer é uma burrice. Não era possível. Aí o progresso é de facto excelente e tenho impressão que vai continuar inevitavelmente.

Texto e imagens reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

A guerra das enciclopédias


Volumes da Enciclopédia Britânica em uma prateleira de uma biblioteca 

Capa da Enciclopédia Familiale Larousse 

Volumes da Enciclopédia Barsa

Página inicial do site Wikipédia 

Grokipedia v0.1 no smartphone colocado na frente da página inicial da Wikipédia 

Logotipo da Grok é exibido em um smartphone com Elon Musk ao fundo

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 13 de novembro de 2025

A guerra das enciclopédias

Dois mil anos depois, a busca do conheimento completo chega a uma nova fase com o Grokipedia, que não é escrita por humanos. Dagomir Marquezi para a Oeste:

“Enciclopédia” é definida como “obra de referência que contém informações sobre todos os ramos do conhecimento ou que trata de um ramo específico do conhecimento de forma abrangente”. A definição é da mais prestigiada das enciclopédias tradicionais, a Britannica.

A palavra vem do grego enkyklios paideia e significa “educação geral”. Gregos e romanos antigos já tinham o princípio de acumular conhecimento para tornar as pessoas mais competentes. Enciclopédias árabes e persas apareceram nos séculos 9 e 10, respectivamente. No Ocidente, elas eram escritas especialmente por monges católicos.

O formato de enciclopédia como as que conhecemos hoje surgiu no século 18 por meio do filósofo e cientista Francis Bacon. A primeira edição da Encyclopædia Britannica foi publicada em 1768. Com o tempo, ela passou a contar com colaborações de mais de cem ganhadores do Prêmio Nobel, incluindo Albert Einstein e Marie Curie. O conhecimento adaptado a ditaduras apareceu na União Soviética (com a Granat Encyclopaedia) e na Itália fascista (com a Enciclopedia Italiana). Desde o início, enciclopédias de todos os tipos foram acusadas de tendenciosas.

A importância da Barsa

Brasileiros de classe média tiveram a chance de possuir uma enciclopédia na estante da sala a partir dos anos 1960. Como a tradução da francesa Larousse e a popular Conhecer, lançada em fascículos pela Editora Abril em 1966. Os fascículos de Conhecer chegaram a vender mais de 100 milhões de exemplares em 13 edições.

Mas o grande símbolo dessa época ocorreu em 1964 com o lançamento da Barsa. A princípio, ela seria uma tradução em português da Britannica, mas sua proprietária, Dorita Barrett, optou por um projeto voltado para o público brasileiro. Chamou como redator-chefe o escritor Antonio Callado. Do seu corpo editorial faziam parte nomes ilustres como Jorge Amado, Oscar Niemeyer e Antônio Houaiss. Nem é preciso dizer qual foi a tendência política da enciclopédia. Callado falava abertamente em “mudar a visão que os homens têm do mundo”.

Mas ninguém pode negar a importância fundamental da Barsa. Seus 16 volumes encadernados em vermelho formaram a base da educação de gerações, com seus verbetes produzidos no Brasil e os traduzidos da Britannica. Suas páginas destinadas à anatomia, por exemplo, com suas lâminas transparentes, inspiraram muitos médicos do futuro. Hoje, a Barsa pertence à editora Planeta e continua à venda, apenas em formato impresso, com 18 volumes.

A enciclopédia de qualquer um

As grandes transformações da instituição enciclopédia começaram em 1985. Caras obras com dezenas de volumes impressos encontraram um novo caminho na mídia eletrônica. A Microsoft lançou a Encarta, disponível em CD-ROM. A venerável Britannica optou por uma edição online em 1994 (e deixou de ser impressa em 2010). A obra monumental, que custava o equivalente (em preços atuais) a US$ 3 mil, ficou disponível por uma mensalidade de US$ 9.

No dia 15 de janeiro de 2001, Jimmy Wales e Larry Sanger acabaram com o monopólio dos especialistas e criaram a Wikipedia — a primeira enciclopédia feita por qualquer um. Quem entendesse de qualquer assunto poderia escrever um verbete. E todos os verbetes estavam abertos a quem quisesse colaborar. Através da licença Creative Commons, os textos eram abertos e não pertenciam a ninguém.

O crescimento foi rápido. A Wikipedia logo estava sendo escrita em dezenas de línguas. Só a sua versão em inglês tem mais de 7 milhões de verbetes. Na versão em português, aproximadamente 1,15 milhão.

Nos anos seguintes à sua criação, a Wikipedia, até por ser gratuita, se transformou no material de referência básico da humanidade como um todo. E, num certo sentido, se vulgarizou. Ter um verbete na enciclopédia equivalia a um currículo de prestígio. Muitos passaram a escrever verbetes sobre si mesmos.

A Wikipedia foi logo tomada pela fama de “não confiável”. O que se tornou uma generalização injusta. Claro que não se podia comparar a Wikipedia com a rígida Britannica, onde cada informação é rigorosamente checada por especialistas.

Ao mesmo tempo, a Wikipedia, por não ter limite de tamanho, se tornou muito mais abrangente que as enciclopédias convencionais.

Se alguém quiser se informar sobre, digamos, fusão nuclear ou a vida da escritora Emily Brontë, deve procurar a Britânica. Mas se quiser procurar os detalhes da terceira temporada da série Breaking Bad ou o nascimento do Baby Shark, vai encontrar recursos fartos na Wikipedia.

Plataforma do ódio

O problema mais sério de credibilidade da “enciclopédia de todos” foi a praga do aparelhamento ideológico. Qualquer um podia colaborar com ela, mas os mecanismos de controle sobre a edição final foram crescendo. Em questões mais polêmicas, a Wikipedia passou a ter um lado.

“As regras da plataforma se tornaram mais rígidas, exigindo citações e documentação, e grupos de interesse se mobilizaram em torno de determinados verbetes para protegê-los contra possível distorção”, descreveu Jeffrey Tucker, colunista do Brownstone Institute e colaborador da Oeste. “É claro que qualquer pessoa pode editar, mas suas edições serão revertidas imediatamente se não estiverem em conformidade com as regras. Para muitos verbetes, tornou-se praticamente impossível alterá-los sem antes acessar as páginas de discussão e pedir permissão.”

“Na Wikipedia, 85% dos editores mais influentes permaneceram completamente anônimos”, observa Tucker. “Isso se revelou um grave problema. Permitiu que indústrias poderosas, governos estrangeiros, agentes de serviços secretos e qualquer pessoa com grande interesse em um determinado assunto controlassem a narrativa, banindo pontos de vista contrários. À medida que a política se tornava cada vez mais controversa, a Wikipedia, em geral, seguiu o caminho da mídia tradicional, apresentando um viés consistentemente de centro-esquerda em qualquer tópico que impactasse a perspectiva política. Depois da vitória de Trump em 2016, toda a plataforma foi tomada pelo ódio que se seguiu. Os editores criaram listas de fontes confiáveis ​​e não confiáveis, banindo assim qualquer mídia de direita de ser citada em nome do equilíbrio. De fato, o equilíbrio desapareceu completamente.”

Nasce a Grokipedia

Esse desequilíbrio incomodou uma pessoa muito poderosa: Elon Musk. Em 2019, o homem de meio trilhão de dólares olhou seu perfil na Wikipedia e considerou o que leu “insano”. Musk frequentemente chamava a Wikipedia de “Wokipedia”. Alega que é controlada por “ativistas de extrema esquerda” que manipulam biografias e artigos para promover agendas progressistas.

Em dezembro de 2024, ele postou no X: “chega de doações à Wikipedia até que eles comecem a falar a verdade”. Criticou especialmente o uso de US$ 50 milhões em iniciativas de DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão) em vez de melhorar o conteúdo. No mês seguinte, defendeu um boicote à Wikipedia “até que o equilíbrio fosse restaurado”.

O empresário não ficou só na crítica. Em 27 de outubro, usando como base seu aplicativo Grok, Musk lançou a primeira enciclopédia escrita por inteligência artificial, a Grokipedia. Ela coleta informações, redige e tem mecanismos internos para evitar informações falsas e tendenciosas. O que não a impediu de ser chamada, claro, de “extrema direita” por quem não gosta de Musk.

“As máquinas fazem um trabalho melhor”

Com tão pouco tempo de vida, a Grokipedia tem um longo caminho de aperfeiçoamento pela frente. Em comparação com a Wikipedia, seu número de verbetes ainda é muito pequeno, pouco mais de 885 mil, ainda tem apenas a versão em inglês e não usa qualquer recurso de mídia — mapas, ilustrações, som ou imagem. É apenas texto. Seus poucos links estão direcionados para as fontes usadas nos verbetes. Por sua própria natureza de buscar outras fontes, muito de seu conteúdo simplesmente tem copiado o que está publicado na Wikipedia, com correções dos trechos mais marcados pelo viés ideológico.

É apenas o começo. A ideia de uma “máquina” de criação automática de conteúdo sem a interferência (e os vícios) dos humanos talvez seja a maior revolução na história das enciclopédias nos 2 mil anos em que a humanidade resolveu reunir em livros e sites a “educação geral”.

“A Grokipedia, mesmo em sua primeira versão, já está muito à frente da Wikipedia em termos de equilíbrio e variedade de fontes de informação”, escreveu Jeffrey Tucker no site do Brownstone Institute. “Ao que parece, as máquinas fazem um trabalho melhor do que oligarcas anônimos para nos aproximar da verdade. Bem-vindos à era pós-Wikipedia. Foi divertido enquanto durou. Que seja bem-vinda a sua obsolescência e substituição por algo muito melhor.”

Texto e imagens reproduzidos do blog: otambosi blogspot com