Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 29 de agosto de 2025
O incrível poder do nada
A tirania da positividade, com os seus profetas de sorriso plastificado e de discursos sobre a "vibração" e "gratidão", não se contenta em dominar a vida; tem a ousadia de querer colonizar a morte. Filipe Carvalho para o Observador:
Estamos perante uma das mais perversas ironias da nossa era. Numa sociedade que se declara mais livre, informada e céptica do que nunca, emerge uma nova casta de profetas: os gurus da autoajuda. Vendem a salvação, mas a troco de um preço, e em vez de sermões nas montanhas, oferecem palestras em palcos iluminados e palavras de ordem que, de tão ocas, parecem ecoar no vazio das nossas incertezas. Estes não são os filósofos que nos ensinam a pensar, mas sim os mercadores da felicidade que nos prometem a resposta para tudo, desde a falência emocional até à bancarrota financeira, numa sedutora, mas perigosa, simplificação da complexidade do viver.
Estes novos gurus da autoajuda, com as suas promessas de felicidade instantânea e sucesso garantido, emergem como parasitas emocionais, que se alimentam da desesperança e do anseio por uma vida perfeita. São os mercadores da ilusão, que vendem manuais de “felicidade” que mais se assemelham a receitas de bolo instantâneo, onde o principal ingrediente é a nossa conta bancária.
Através de livros, palestras e publicações nas redes sociais, estes pregadores da “solução para tudo” erguem um império sobre alicerces frágeis de frases feitas e pseudociência. Apresentam-se como portadores de uma sabedoria ancestral, quando na realidade não passam de meros repetidores de chavões vazios. A sua mensagem, à primeira vista, parece empoderadora: “podemos ser quem quisermos”, “o universo conspira a nosso favor”, “vamos pensar positivo e tudo se resolverá”. Mas, se nos aprofundarmos, percebemos que isto é uma armadilha retórica, um atalho perigoso para a passividade. Em vez de promoverem a reflexão e a ação genuína, estes gurus incentivam uma espécie de pensamento mágico, onde a responsabilidade pelo fracasso é sempre do indivíduo, que “não se esforçou o suficiente” ou “não visualizou a prosperidade corretamente”.
O que há de mais perverso nesta indústria é a sua capacidade de se apropriar de conceitos complexos e diluí-los em cápsulas de consumo rápido. A resiliência, por exemplo, não é a capacidade de sorrir perante a adversidade, mas sim a árdua e dolorosa jornada de aprender a lidar com as perdas e as cicatrizes. A felicidade não é um estado de espírito permanente, mas a soma de momentos fugazes de alegria, intercalados por momentos de profunda tristeza e dor. No entanto, na visão destes “especialistas”, tudo se resume a um processo de “transformação pessoal” que se pode comprar, consumir e replicar.
A verdadeira filosofia, essa que nos convida a questionar, a duvidar e a confrontar a nossa própria fragilidade, é substituída por um hedonismo superficial, onde o objetivo final é a busca incessante pelo prazer e pela ausência de qualquer tipo de sofrimento. E é aqui que reside o maior perigo: ao fugirmos da dor, fugimos também da oportunidade de crescimento e autoconhecimento. Afinal, as maiores lições da vida não são aprendidas nos palcos iluminados das conferências de autoajuda, mas sim nas sombras das nossas próprias derrotas. E isso, meus caros, não há guru que o consiga vender.
A tirania da positividade, com os seus profetas de sorriso plastificado e de discursos sobre a “vibração” e “gratidão”, não se contenta em dominar a vida; tem a ousadia de querer colonizar a morte. A morte, esse último grande mistério, essa certeza implacável, torna-se, nas mãos destes “gurus”, apenas mais um obstáculo a ser superado, um “processo de transição” que se pode gerir com a atitude certa.
Assistimos, com um misto de repulsa e de fascínio, à venda de manuais que prometem “uma morte sem medo”, onde o luto é rebaptizado de “celebração da vida” e a dor é tratada como uma emoção “de baixa frequência” que deve ser evitada. O fim, o ponto final da nossa existência, é transformado num capítulo de autoajuda, com a sua própria playlist de músicas “elevadas” e frases motivacionais. A dor da perda, essa experiência profundamente humana e necessária, é subitamente vista como um fracasso pessoal, um sinal de que não se “trabalhou” bem o “processo de aceitação”.
Este discurso é uma afronta à dignidade humana e à complexidade da experiência do luto. A morte não é um problema a ser resolvido. É um evento que nos confronta com a nossa vulnerabilidade e com a nossa finitude. O luto não é um estado de espírito que se possa “ultrapassar”, mas uma jornada interior, caótica e imprevisível, que nos obriga a enfrentar a nossa própria mortalidade.
Ao tentarem reduzir a morte e o luto a mais um nicho de mercado, estes gurus desumanizam-nos. Negam-nos o direito de chorar, de gritar e de sentir a brutalidade da ausência. O que nos vendem é uma anestesia emocional, um substituto artificial para a experiência genuína de viver e de morrer. E isso, é o mais cínico e cruel dos negócios.
Para todos vós, que chegaram ao fim destas linhas, o meu mais profundo e sincero “obrigado”. E sim, é um agradecimento genuíno e não uma “gratidão” daquelas que se publicam nas redes sociais com um pôr do sol de fundo e uma frase genérica sobre a abundância do universo. Não, a minha gratidão não é um emoji, nem duas ridículas mãos em punho e em forma de coração. É apenas a constatação, humilde e real, de que houve alguém, do outro lado, que me deu o seu tempo e a sua atenção. E por isso, sem a necessidade de visualizar um futuro próspero ou de vibrar numa frequência elevada, o meu obrigado é suficiente. Que as vossas vidas se encham de “obrigações” e não de “gratidões”.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com
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