Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 12 de agosto de 2026
O fim da leitura?
Depois de milênios, o meio básico de comunicação entra em crise, mas está longe do fim. Dagomir Marquezi para a Oeste:
A revista Atlantic publicou uma matéria escrita por Rose Horowitch dizendo que o hábito da leitura está no fim e que estamos entrando numa era “pós-literária”. Bom, se é assim, foi bom enquanto durou. Valeu, letrinhas! Obrigado por tudo que vocês me ensinaram!
A d e u s ...
Opa, vamos com calma. O longo artigo de Horowitch fala de uma crise, não do apocalipse alfabético. Vamos começar do começo.
A escrita, que hoje parece sempre ter existido, é muito recente. Para se ter uma ideia, o Homo sapiens surgiu há aproximadamente 300 mil anos. Comunicavam-se por gestos, sons, danças, pinturas e objetos. Só por volta de 3200 a.C. surgiram os primeiros sistemas de escrita, no Egito e na Mesopotâmia.
A escrita é um código de sinais com significados. Nosso cérebro enxerga alguns desses sinais (como estas letras) e decifra automaticamente o que significam. A linguagem escrita permitiu que não fosse mais necessário se comunicar pessoalmente. Ela fica registrada, pode ser transportada e preservada. Foi uma enorme evolução, uma conquista que permitiu o florescimento de civilizações através da educação e da transmissão do conhecimento. Mas é importante ter consciência de que a humanidade passou cerca de 295 mil anos sem a escrita. Ou seja, fomos “analfabetos” por mais de 98% da história da nossa espécie.
Os sinais da crise
A arte da escrita e da leitura existe, portanto, há “apenas” 5,2 mil anos. Em termos de perspectiva histórica, não representa praticamente nada. Outras conquistas são ainda mais recentes. Johannes Gutenberg imprimiu sua célebre Bíblia entre 1452 e 1455. Em 1650, surgiu o primeiro jornal diário conhecido, também na Alemanha.
Outros grandes saltos foram dados na passagem para o atual século 21. Surgiu a leitura digital, que dispensou meios físicos permanentes. O Google Translator (e depois a inteligência artificial) eliminaram a distância entre 250 línguas diferentes. Publicar um livro ou uma revista passou a estar disponível agora para qualquer pessoa com acesso à internet.
Então, por que a escrita estaria em crise? O artigo de Rose Horowitch baseia-se na situação dos Estados Unidos. Ela cita dados que, para os padrões americanos, são preocupantes. A pesquisa foi realizada pelo National Endowment for the Arts, um instituto que acompanha atentamente os hábitos de leitura dos EUA.
Segundo essa pesquisa, menos da metade de todos os adultos declarou ter lido ao menos um livro em 2022. Só 38% leu um romance ou um conto. A proporção de americanos que leu por prazer em qualquer dia caiu de 28% em 2004 para 16% em 2023. E esse índice engloba qualquer tipo de leitura — livro, revista, jornal, e-book, ou mesmo ouvir um audiobook. Em 1975, metade dos americanos na faixa dos 20 anos de idade lia jornais diariamente. Hoje, esse número caiu para menos de 10%.
Se a situação está assim nos EUA, imagine no Brasil, que nunca foi um campeão nessa área. Não é preciso imaginar. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Ipec com 5.504 pessoas de 5 anos ou mais em 208 municípios, mostra o tamanho do nosso problema. Apenas 47% dos entrevistados tinham lido ao menos um trecho de algum livro. Os não-leitores se tornaram maioria: 53%. Em outras palavras, o Brasil perdeu estatisticamente 6,7 milhões de leitores entre 2019 e 2024.
Apenas 27% dos entrevistados leram um livro inteiro nesse período. Entre os brasileiros alfabetizados, só 7% afirmaram ler livros de literatura por vontade própria todos ou quase todos os dias. Outros 11% leem ao menos uma vez por semana, enquanto 62% disseram não ler literatura espontaneamente.
Entre todos os brasileiros, a quantidade média de literatura lida por vontade própria foi de somente 1,17 livros por ano. Considerando apenas obras literárias inteiramente concluídas, a média geral foi de aproximadamente 0,51 livros em três meses. Em 2024, 29% dos brasileiros disseram não gostar de ler, contra 22% em 2019. Somente 26% afirmaram gostar muito de leitura. Apenas 7% dos brasileiros alfabetizados dizem ler todos os dias ou quase todos os dias.
Não estamos preparados
O artigo da Atlantic lembra que existe uma curiosa contradição com esses fatos hoje em dia: “Estranhamente, os americanos estão lendo mais palavras do que nunca leram antes. O que mudou é o que eles leem, e como. As pessoas são bombardeadas por e-mails, mensagens de texto, posts nas redes sociais, legendas no Instagram. Essa explosão de fragmentos de texto surgiu às custas da atenção a trabalhos escritos que transmitem informação rica e detalhada”.
Nós estamos vivendo mesmo um momento de extrema superficialidade. As pessoas nunca tiveram tanto acesso à leitura. Um simples celular poderia ser uma biblioteca completa ou a mais rica das bancas de jornais e revistas. No entanto, estamos na era do “kkk”.
O que estamos vendo nas redes sociais é o contrário da leitura profunda. São vídeos rápidos, frases isoladas, polarização ideológica rasteira, exibicionismo, dancinhas, truques baratos para atrair algoritmos, cenas engraçadinhas e atitudes condenáveis a que assistimos repetidas vezes para acumular raiva.
A culpa então é da tecnologia? A era digital deu aos humanos um poder que nunca tiveram. A inteligência artificial multiplicou esse poder ao infinito. O que estamos fazendo com tantas possibilidades não é um problema da tecnologia. Apenas mostra que talvez ainda não estejamos mentalmente prontos para tanto poder.
A palavra escrita não desaparece no ar
Tudo se move com muita rapidez nos dias de hoje. E vai se mover muito mais rapidamente amanhã. Quando sabemos que existem experiências como uma touca para ler pensamentos ou chips para conectar cérebros diretamente a computadores, tudo se torna possível. É cedo para prever como essas possibilidades tecnológicas vão mudar nossas vidas. Talvez chegue o dia em que a gente não precise mais ler. O conhecimento poderá entrar direto em nossas mentes sem precisar dessas letrinhas que você está visualizando agora.
Mas nada que possa acontecer deveria nos tirar o prazer de ler da forma convencional — uma letra depois da outra, palavras organizadas em frases, frases encaixadas em parágrafos, tudo recheado por pontos, vírgulas, acentos, travessões e aspas.
“Como escrever uma frase leva mais tempo do que pronunciá-la, a escrita obriga o autor a desacelerar e refletir”, escreveu Rose Horowitch em seu artigo para a Atlantic. “A linguagem escrita tende a empregar estruturas de frases e um vocabulário mais complexos do que a linguagem falada. E, ao contrário da fala, ela não desaparece no ar. Os leitores podem voltar a um texto e explorá-lo em busca de novos significados e de uma compreensão mais profunda. Como a escrita perdura, as pessoas podem esquecer temporariamente o que escreveram, confiando que aquilo não se perderá para sempre. Isso libera a mente para pensar em novas ideias e fazer novas descobertas.”
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

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