Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 18 de agosto de 2026
'Data centers' vão acabar com o mundo?
Eles impactam o meio ambiene, mas há muito preconceito nas denúncias. Dagomir Marquezi para a Oeste:
Data centers (“centros de dados”) viraram tema constante do noticiário. Foram eleitos como a nova ameaça à vida no planeta. Esse medo pode esconder outra realidade. Vamos por partes. Primeiro, uma definição da Enciclopédia Britânica: “Um data center é uma instalação projetada para abrigar sistemas e equipamentos de computação destinados ao armazenamento e processamento de grandes volumes de dados. Esses centros são fundamentais para a computação em nuvem, que envolve a execução de aplicativos e o armazenamento de dados em sistemas centrais acessíveis pela internet”.
Data centers já eram importantes para cada um de nós. Eles processam dados quando mandamos uma piadinha para alguém pelo WhatsApp ou conferimos o saldo do banco. Agora, na era da inteligência artificial, se tornaram vitais. Um data center reúne milhares de computadores de alta potência conectados entre si. Quando formulamos uma pergunta ou pedimos para que o aplicativo de IA faça uma ilustração, ocorre, claro, um consumo de energia, que não é pequeno, mas também não é um absurdo de grande. Exemplo: pedir uma imagem para um aplicativo de IA gasta o equivalente a cerca de 8 segundos de uso de um forno de micro-ondas. Criar de 20 a 50 imagens equivale ao gasto de energia de uma hora de TV LED. Um simples ciclo de secadora de roupa gasta cerca de 3.500 Watt/hora — energia suficiente para criar milhares de imagens.
O alto consumo de energia gera aquecimento, e o aquecimento exige uma grande quantidade de água para o resfriamento, o que faz muitas pessoas dizerem que “a inteligência artificial vai provocar uma catástrofe ecológica devido ao aquecimento dos data centers”. A IA veio para ficar e mudar os rumos da história humana. Hoje existe uma tendência, especialmente entre os “formadores de opinião”, de atribuir a ela um caráter maligno, que pode assumir várias formas — da perda de empregos até a ameaça de aquecimento global.
Data centers consomem, sim, grandes quantidades de eletricidade para operar. E uma enorme quantidade de água (que pode ser reciclada) para seus sistemas de refrigeração. Isso provoca críticas especialmente em regiões que já enfrentam secas ou dificuldades de abastecimento. Há ainda queixas de impactos locais, como ocupação de terrenos, ruído constante e a necessidade de construção de novas linhas elétricas.
Suco de Brasil
A revista britânica The Economist mostrou recentemente que a construção de grandes data centers virou uma importante fonte de crescimento econômico para a Índia. O Brasil também está nessa corrida. Há unidades especialmente no interior de São Paulo, e também no Rio de Janeiro e no Ceará. Grandes projetos estão em processo de implantação nesses mesmos Estados e no Rio Grande do Sul. Quase sempre são vistos com desconfiança e hostilidade.
Uma reportagem publicada recentemente pelo site G1 demonstra um pouco dessa má vontade. A reportagem fala sobre o BEL1, um data center que está sendo construído no bairro do Barreiro, na cidade de Belém, capital do Pará. O repórter do G1 relata o temor, segundo o Ministério Público do Pará, de que o empreendimento crie “ilhas de calor”. O promotor local Márcio Maués já anunciou que quer “apurar a legalidade da instalação e os riscos de ‘dano climático’”. A matéria cita um estudo que indica que “data centers de IA aumentam a temperatura do solo em média de 2 a 9,1 graus Celsius, com dispersão de calor no raio de até dez quilômetros”.
O promotor Maués “destaca ainda a vulnerabilidade de comunidades ribeirinhas nos arredores da cidade, como a Ilha das Onças, situada a apenas 4,5 km do local”. Existe também, segundo o pesquisador Juliano Ximenes, da UFPA, a possibilidade de que manter o resfriamento contínuo dessas máquinas pode “gerar uma poluição sonora severa”. Outro professor, Marcus Braga, cita um suposto “novo ciclo de ‘extrativismo tecnológico’” e defende que “o Estado poderia exigir, por exemplo, 10% da carga de processamento para que possa utilizar essa infraestrutura para setores estratégicos, como saúde e monitoramento ambiental”. O professor Ximenes “reforça a urgência de regulamentar o uso de IA e exigir transparência das transnacionais”, diz a reportagem.
É um suco de Brasil. Não inventamos nem máquinas de somar, não inventamos os computadores, não criamos a internet. Mas quando chega a oportunidade de um gigantesco salto tecnológico por meio da inteligência artificial, o que vemos são essas forças de sempre torcendo contra a evolução — jornalistas e professores militantes, burocratas, juízes, promotores, “anti-imperialistas”, e os fãs do aparelho estatal.
Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o consumo global de eletricidade dos data centers alcançou algo em torno de 1,5% da demanda elétrica mundial. A projeção é que essa participação dobre até 2030. Para diminuir o impacto ambiental, empresas que trabalham com IA — inclusive a Elea, que está construindo o data center de Belém — buscam o resfriamento com o uso de ar-condicionado. O CEO da Elea declarou ao G1 que “será como um shopping center de médio porte, que ainda consome muito mais calor do que um data center deste tamanho na fase inicial”.
Outro dado não pode ser deixado de lado: o consumo de energia usado pela inteligência artificial está sendo otimizado pela… inteligência artificial. Segundo estimativas da Agência Internacional de Energia, em dez anos os benefícios dessa otimização vão ultrapassar, de maneira geral, o impacto ambiental produzido pelos data centers.
A IA está gerando uma reação desproporcional aos fatos. Muitas pessoas utilizam diariamente os serviços de streaming, as redes sociais, os jogos online, os serviços bancários e o armazenamento em nuvem sem questionar a infraestrutura necessária para todas essas facilidades. Mas passam a denunciá-la quando ela serve à IA.
Isso sugere que, em parte, o alvo não é o data center, mas aquilo que a inteligência artificial simboliza: uma transformação rápida, difícil de controlar e capaz de alterar as relações de trabalho e poder. A inteligência artificial assusta os que têm ideias fixas, os que querem viver dirigidos por ideologias e velhas crenças, os que consideram o ser humano o auge da racionalidade e sentem medo de perder a comodidade de tantas certezas.
Uma solução pode estar vindo do vilão das esquerdas, Elon Musk. Sua empresa SpaceX protocolou o pedido para instalar nada menos que um milhão de satélites em órbita para funcionarem como data centers orbitais de IA. As vantagens: energia solar abundante, resfriamento natural no vácuo, ausência de limites. Os primeiros lançamentos estão previstos para 2027 ou 2028.
Não é o único projeto. A empresa americana Starcloud já lançou um primeiro satélite para esse fim no ano passado. Outros projetos estão a caminho: o Sunrise (da Blue Origin, de Jeff Bezos), a Orbital, o projeto Suncatcher (da Google), além de programas chineses como o ADA e a constelação Three-Body.
Aí não haverá mais as “ilhas de calor” dos data centers terrestres, nem a “poluição sonora severa”, nem o “extrativismo tecnológico”. Vai começar então a gritaria reclamando que os milhares de satélites vão prejudicar nossa visão do espaço e provocar, segundo aquela velha canção, “as derradeiras noites de luar”.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

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