Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 26 de março de 2026
Ser infeliz e querer morrer justifica o Estado tirar a vida de alguém?
O caso da espanhola Noelia Castillo, paraplégica depois de tentativa de suicídio, exemplifica as complexidades éticas e humanas da eutanásia. Vilma Gryzinski:
Todo mundo entende que alguém com um câncer terminal, com poucas e terríveis semanas de vida pela frente, peça para partir e encerrar o sofrimento. Mas e o sofrimento mental, doenças psíquicas paralisantes, um desejo profundo de morrer, são justificativas válidas para a eutanásia legal? Noelia Castillo teve sua vida encerrada hoje, aos 25 anos. Era evidente que vivia em dor emocional, com tratamento psiquiátrico desde os 13 anos, dois estupros – um ex-namorado e outro praticado por três jovens, segundo relatava -, e uma tentativa de suicídio que a deixou paraplégica ao pular de uma janela do quinto andar, diante do pai, que perdeu a batalha legal para conservar a vida da filha, rompida com ele por causa disso.
Quem estava certo, o pai ou a filha? O caso é complexo justamente porque as duas partes têm argumentos fortes.
A eutanásia em si já é uma questão repleta de dilemas éticos e eles só aumentam quando está em questão a saúde mental. Uma depressão é obviamente diferente de um tumor cancerígeno. Uma pessoa que quer morrer através de instrumentos da medicina poderia ser curada de seu sofrimento psíquico? É certo usar o poder do Estado para encerrar sua vida? O individualismo do mundo contemporâneo provoca distorções absurdas ou é um argumento sólido em favor do “direito de morrer”?
A revista The Atlantic publicou há duas semanas uma reportagem com o médico holandês Menno Oosterhoff, um homem de setenta anos que matou legalmente pela primeira vez uma jovem de 18 anos, em outubro de 2022. Diagnosticada com transtorno obsessivo-compulsivo, distúrbio alimentar e autismo, ela queria morrer. O médico tinha autoridade para conceder o seu desejo. A eutanásia é legal na Holanda desde 2002.
‘MENTALMENTE TERMINAL’
Não deveria ele ter tratado a doença mental da jovem paciente? Colaborar para a sua morte não é uma forma de aceitar os argumentos em favor do suicídio que os médicos foram treinados para combater? Uma jovem de 18 anos está no pleno controle de suas capacidades para pedir para morrer – e ser atendida?
A conclusão de Oosterhoff que permitiu o suicídio assistido da sua primeira paciente foi que ela era “mentalmente terminal”. É uma tremenda confissão de derrota.
São casos assim que dão argumentos aos adversários da eutanásia – e é possível sê-lo mesmo se não for por motivo religioso nem com base na convicção que “Deus dá e Deus tira a vida”. A vida, revestida de santidade da perspectiva cristã, também pode ser encarada do ponto de vista humanista como um valor único e inquebrantável, o mais fundamental dos direitos humanos.
Na Holanda, uma criança de doze anos pode dizer que quer morrer por motivos de saúde mental e procurar ajuda para isso. Se os pais concordarem, terá início o processo que culmina com a eutanásia. Segundo os dados da Atlantic, houve 9 958 casos de eutanásia na Holanda em 2024. Desses, 86% foram por doenças físicas. Motivos psiquiátricos levaram a 675 casos de eutanásia entre 2020 e 2024.
SUPERIODADE MORAL
As facilidades para a eutanásia são maiores ainda no Canadá. Os números oficiais alcançam até 2024 e listam mais de 76 mil casos desde a legalização do suicídio assistido, em 2016. De cada vinte mortes no país, uma é por suicídio assistido, obviamente um número desproporcional que gera uma terrível impressão: em vez de tratar pessoas que se sentem sozinhas, abandonadas ou sem saída, o Estado aceita a opção de encerrar suas vidas. Até a perda de domicílio passou a ser vista como um motivo razoável para o suicídio assistido.
Casos como o de Noelia Castillo também passam uma mensagem extremamente negativa para vítimas de eventos devastadores: é melhor morrer do que procurar tratamento para sair do estado em que são precipitadas. Muitos sobreviventes relatam, ao contrário, que sentem a vitória do impulso da vida quando superam seus traumas, mesmo ao preço de enormes batalhas.
Não deixa de ser um fracasso não só das profissões médicas, mas de toda a civilização, quando o sofrimento psíquico é admitido como razão para tirar a vida legalmente de uma pessoa. Para seus defensores, claro, é uma vitória civilizacional. A maioria das pessoas fica dividida entre os dois sentimentos, com aqueles situados nos extremos em geral dotados de um sentimento de superioridade moral.
Noelia Castillo escolheu morrer sozinha na casa de repouso onde vivia, brigada com a família, com um vestido bonito e quatro fotos remetendo a momentos felizes de sua infância.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

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