Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 28 de março de 2026
Herança sem voz
Os gregos de hoje praticamente não estudam seus próprios filósofos. Mesmo assim, somos todos gregos. Dennys Xavier para a Crusoé:
Os gregos de hoje praticamente não estudam seus próprios filósofos.
Tenho ouvido isso durante minha atual viagem à Grécia. No começo, isso me pareceu um exagero. Depois, incômodo com arestas. Por fim, foi uma revelação.
Não é uma constatação dita com orgulho, nem com vergonha. Soa mais como um fato banal, conformado, desses que emergem numa conversa qualquer e seguem adiante.
Ainda assim fico com aquilo na cabeça por dias… talvez porque contrarie uma expectativa silenciosa.
A tradição que moldou parte decisiva do pensamento ocidental não desapareceu do mundo, mas desapareceu da vida cotidiana de quem a produziu.
E o curioso é que isso não acontece só aqui. Em quase todo lugar, até mesmo entre pessoas muito instruídas, Sócrates, Platão ou Aristóteles aparecem mais como nomes familiares do que como presenças reais.
Estão por perto, mas de maneira difusa, meio decorativa. Permanecem como referências smbólicas, raramente como interlocutores, merecedores de escuta crítica.
Mesmo assim, continuamos pensando com eles. Mesmo sem saber.
A ideia de discutir o que é justiça, por exemplo, não surgiu naturalmente em qualquer sociedade humana.
Ela precisou ser inventada como problema. A noção de que a vida pode ser examinada com rigor, debatida em público, posta em questão sem apelo imediato à autoridade religiosa ou ao costume herdado, também precisou surgir em algum momento.
Isso não acontece sozinho, no automático. Alguém começa. Alguém insiste. Alguém transforma a pergunta em hábito.
Hoje essas coisas parecem tão evidentes que raramente lembramos que tiveram origem, um momento inicial no tempo.
Herdamos uma forma de pensar e passamos a tratá-la como se fosse apenas o modo natural de pensar.
A lógica, tão maltratada em tempos de barbárie das redes sociais, virou ferramenta tácita. A ética virou vocabulário cotidiano. A política virou cenário inevitável.
O passado permanece ativo, mas recoberto, como se tivesse sido absorvido pelo ar.
Na Grécia contemporânea, pelo menos nas conversas que tenho, percebe-se uma relação ambígua com esse passado.
Existe orgulho, claro. Mas também distância. Às vezes, uma espécie de saturação silenciosa, como se o peso simbólico daquela herança fosse grande demais para acompanhar a vida comum.
Em outros momentos, aparece algo mais próximo de recusa, ligado a disputas ideológicas recentes, a mudanças no sistema educacional, a tentativas de redefinir o que significa ser moderno num país constantemente comparado com sua própria antiguidade.
Essa recusa não precisa ser estridente para produzir efeitos profundos. Basta que a filosofia deixe de ser considerada necessária. Basta que ela se torne um tanto dispensável. Basta que passe a parecer ornamental.
Aos poucos, a familiaridade com esses textos se retrai, e com ela se retrai também a memória de que certas perguntas/respostas foram conquistadas com esforço.
O que chama atenção é a velocidade discreta com que isso se espalha.
Não se trata de um fenômeno exclusivamente grego, preciso sublinhar. Em muitos países, a filosofia (especialmente a antiga) vai sendo empurrada para as margens da formação comum, substituída por conteúdos considerados mais úteis, mais práticos, mais alinhados com exigências imediatas.
A transformação acontece sem escândalo. Quando alguém percebe, ela já está instalada.
Mesmo assim, continuamos falando em democracia como se fosse uma palavra autoexplicativa.
Continuamos esperando que decisões públicas possam ser justificadas racionalmente (torpe ilusão).
Continuamos supondo que existe algo como responsabilidade individual diante da vida coletiva.
Ora, nada disso surgiu espontaneamente. Tudo foi pensado, discutido, disputado em algum momento por pessoas cujos nomes hoje raramente aparecem fora de contextos especializados.
Talvez por isso essa observação feita aqui tenha ficado comigo, latente.
Não parece apenas um detalhe local.
Soa mais como um pequeno sinal de um processo maior, algo que atravessa fronteiras com facilidade e quase não encontra resistência porque não provoca choque imediato.
Um esquecimento lento raramente chama atenção.
Existe também um elemento ideológico nesse movimento.
Em certos ambientes intelectuais, o passado clássico é tratado com desconfiança, como se fosse inseparável de hierarquias antigas, de exclusões históricas ou de projetos políticos que já não queremos repetir.
Parte dessa crítica é compreensível. Ainda assim, quando a reação se transmuta em afastamento sistemático, perde-se a possibilidade de reler essa herança com liberdade.
O contato desaparece antes da interpretação.
E então ocorre algo curioso: continuamos vivendo dentro de estruturas mentais herdadas de filósofos que já não lemos.
Seguimos discutindo questões que eles formularam com precisão surpreendente, mas como se estivéssemos começando do zero. A sensação de novidade cresce ao mesmo tempo que a memória diminui.
Talvez seja justamente por isso que ouvir gregos falarem com naturalidade sobre a ausência desses autores na formação atual produz um efeito tão persistente em mim.
Um sinal discreto de que uma tradição inteira pode continuar operando mesmo quando deixa de ser reconhecida como tradição.
E quando isso acontece, algo se desloca sem fazer barulho. Continua difícil dizer exatamente o quê.
Talvez seja apenas a maneira como passamos a habitar as perguntas que recebemos.
Talvez seja a forma como deixamos de perceber que elas vieram de muito longe.
Talvez seja só a impressão de que seguimos avançando enquanto esquecemos quem abriu o caminho antes de nós.
De todo modo, fica o gosto amargo de uma perda: gregos que não conhecem seu glorioso passado, mundo que desconhece o passado glorioso dos gregos… enquanto urge reconhecer, segundo algo já dito: de uma forma ou de outra, nós, ocidentais, somos todos gregos.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

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