Steven Spielberg em 28 de fevereiro, em Los Angeles.
Foto:CHRIS PIZZELLO/INVISION/AP
Publicado originalmente no site El País Brasil, em 5 de
março de 2019
Steven Spielberg ataca Netflix e reabre o debate sobre
‘streaming’
Diretor quer propor mudanças à Academia de Cinema que
dificultem para a plataforma de vídeo concorrer ao Oscar como aconteceu com
‘Roma’
Por Pablo Ximénez de Sandoval
Se a Netflix quer acabar de cruzar as portas de Hollywood,
tem que dar um último passo: convencer Steven Spielberg. O diretor está dizendo
há um ano que não gosta do modelo de negócio da plataforma de streaming e da
forma como está rompendo as regras tradicionais da produção e da distribuição
de filmes e, desde este ano, da corrida pelo Oscar. Essa desconfiança se
transformou em um confronto aberto que agitou Hollywood nos últimos dias e
promete uma longa batalha.
Na quinta-feira passada, o site IndieWire publicou que
Spielberg, governador da Academia de Cinema pela categoria de diretores,
planeja apresentar na próxima reunião uma mudança nas regras que dificultaria
para a Netflix competir pelo Oscar. A polêmica surge alguns dias depois de que
Roma, o filme de Alfonso Cuarón que estreou na Netflix, ter levado três Oscars
(diretor, fotografia e melhor filme estrangeiro). Foi uma surpresa não ter
recebido o de melhor filme.
“Steven tem uma
opinião muito forte sobre as diferenças entre cinema e streaming”, disse à
publicação um porta-voz da Amblin, a produtora de Spielberg. “Ele gostaria que
outros se juntassem à sua campanha quando ela começar. Veremos o que acontece.”
Segundo essa informação, Spielberg planeja levantar a questão em uma reunião
dos governadores da Academia em abril.
A Netflix respondeu à polêmica neste domingo via Twitter. A
conta Netflix Film, sem mencionar Spielberg diretamente, escreveu: “Nós amamos
o cinema. Estas são outras coisas de que também gostamos: acesso às pessoas que
não podem se permitir ir ao cinema, ou que moram em cidades sem cinemas; deixar
que todo mundo em todos os lugares desfrute das estreias o mesmo tempo; dar aos
cineastas mais formas de compartilhar sua arte. Estas coisas não são mutuamente
excludentes.”
Ainda não está claro quais condições Spielberg quer propor,
mas o diretor dá voz a uma opinião corrente que diz que a Netflix não pode
ficar tão perto de ganhar o grande prêmio de Hollywood quando não joga com as mesmas
regras que os estudos tradicionais. As diferenças são muitas: os filmes da
Netflix não estreiam exclusivamente nos cinemas 90 dias antes do lançamento em
vídeo; os mercados internacionais não são compartimentados; e a Netflix não
divulga dados de audiência ou bilheteria. As regras atuais da Academia exigem
que um filme tenha sido exibido nos cinemas de Los Angeles e de Nova York
durante ao menos uma semana.
Spielberg, de 72 anos, é uma das grandes lendas vivas de
Hollywood. Recebeu sete indicações ao Oscar de melhor diretor e ganhou dois.
Foi indicado 10 vezes para o prêmio de melhor filme. A Academia concedeu-lhe o
prêmio honorário Irving Thalberg aos 40 anos.
O lendário diretor vem desconfiado publicamente da Netflix
há algum tempo. Em março do ano passado, enquanto promovia seu filme Jogador
Nº1, chamou a atenção quando disse: “Não acredito que os filmes que foram
classificados de maneira testemunhal, em alguns cinemas durante menos de uma
semana, deveriam concorrer ao Oscar”. Spielberg se dizia preocupado com o fato
de que cada vez menos diretores lutariam para levantar dinheiro para seus
projetos e trabalhariam o circuito de festivais para mostrar seus filmes. No
final, diz, se tenderá a um mercado no qual as plataformas de vídeo financiarão
os filmes. E na opinião de Spielberg, “uma vez que você se compromete com um
formato de televisão, é um TV movie”. Spielberg acredita que os produtos da
Netflix deveriam disputar o Emmy.
Em Oscars recentes, Spielberg fez campanha ativa para
promover Green Book: O Guia contra a Roma, o filme de Alfonso Cuarón produzido
pela Participant Media, que a Netflix comprou para distribuir em todo o mundo.
A plataforma fez uma campanha de exibição em salas de cinema para poder concorrer
ao Oscar. O filme foi projetado em cerca de cem salas nos Estados Unidos, algo
inédito para um filme em espanhol e em preto e branco que ainda não tinha
ganhado nada. A Netflix usou seu vasto orçamento para montar uma campanha
publicitária sufocante que inundou Los Angeles e que o The New York Times
estimou em 25 milhões de dólares (cerca de 95 milhões de reais). A divulgação
de Green Book: O Guia custou 5 milhões de dólares.
Cinco dias depois, Spielberg ainda não tem vozes importantes
do seu lado. Mas já existem artistas que estão defendendo a Netflix nas redes
sociais. A diretora Ana DuVernay, indicada ao Oscar pelo documentário 13th,
produzido pela Netflix, escreveu um tuite dirigido à Academia em que pedia que,
se era verdade que a proposta Spielberg seria discutida, que na reunião de
governadores fossem lidas cartas de diretores que, como ela, pensam
“diferente”. O ator Bruce Campbell tuitou: “Eu sinto muito, senhor Spielberg,
Roma não é um TV movie. É tão impressionante como qualquer outro. As
plataformas se tornaram irrelevantes. Faça um filme com a Netflix”.
No mês passado, a Netflix foi admitida como membro da Motion
Pictures Association of America (MPAA), o lobby das grandes produtoras de
Hollywood. O anúncio foi significativo às vésperas do Oscar. A próxima aposta
da Netflix para concorrer ao prestígio dos grandes prêmios é, por enquanto, The
Irishman, filme dirigido por Martin Scorsese.
Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

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