Ben Nelson, fundador da Universidade Minerva, durante visita
a Barcelona
Foto: Massimiliano Minocri
Publicado originalmente no site El País Brasil, em 7 de março de 2019
A universidade que quer oferecer uma educação do nível de
Harvard pela metade do preço
Chama-se Minerva, e seus alunos estudam em sete cidades
espalhadas pelo mundo, provocando uma revolução no panorama universitário dos
EUA
Por Bárbara Sánchez
Todos os anos, dezenas de milhares de estudantes de todo o
mundo tentam a sorte em um caminho que, para muitos, parece impossível de ser
percorrido: conseguir uma vaga em uma das universidades de maior prestígio dos
Estados Unidos e, por extensão, do mundo. São elas: Stanford, o Instituto de
Tecnologia de Massachusetts (MIT) e o seleto grupo Ivy League (que inclui
Harvard e Yale). Em média, cada uma recebe quase 38.000 pedidos por curso, e os
percentuais de admissão variam entre 4% e 7%. Mas se esses dados servem como
prova da qualidade dos cursos oferecidos, há outra universidade que assumiu a
liderança. Chama-se Minerva, e esse curso só aceitou 1,2% dos 23.000 alunos que
se candidataram a uma vaga, 1.300 a mais do que no MIT. A Minerva, onde estudar
custa metade do preço do que nas instituições de ponta mencionadas acima, está
revolucionando a oferta universitária dos EUA e pretende demonstrar que uma
educação de elite não é sinônimo de educação para os mais ricos.
Não se trata de uma instituição centenária, não acumula
prêmios Nobel entre seus ex-alunos, nem oferece um campus espetacular. Pelo
contrário, a Minerva — que também é uma universidade privada — tem pouco mais
de quatro anos de vida e nem sequer tem salas de aula. Os cursos podem ser
acompanhados on-line, por meio de uma plataforma que transmite as aulas ao
vivo. Os alunos, no entanto, enfrentam uma disputa acirrada por uma vaga. “A
razão para a alta demanda é que resolvemos os problemas das outras universidades:
a falta de acesso para alunos com menos recursos e a necessidade de ensinar o
conhecimento prático”, diz Ben Nelson, responsável por este projeto com sede em
São Francisco, a meca do ecossistema startup.
O local de nascimento da universidade não é casual. Tampouco
o currículo de seu fundador. Nelson é um produto do próprio sistema Ivy League,
que ele agora crítica. Educado na Universidade da Pensilvânia, primeiro fez
carreira no mundo do empreendedorismo digital como presidente do Snapfish, um
serviço digital de impressão de fotos comprado em 2005 pela HP. Em seguida,
traçou como objetivo criar uma universidade reinventada, capaz de ofuscar
Harvard e companhia, com uma receita aparentemente simples: selecionar os
melhores estudantes do mundo com o único critério do mérito e oferecer educação
adaptada ao século XXI.
O sistema universitário, diz Nelson, é arcaico e está
pensado para um mundo que não existe mais. “O problema é que as universidades
estão fazendo um bom trabalho, mas para o mundo de ontem. Não estão adaptadas a
este mundo, no qual você muda de carreira, faz coisas muito diferentes e
precisa de transferibilidade”, critica.
Nelson participou na semana passada em Barcelona de uma
palestra organizada pela escola de negócios Esade, após o evento 4YFN, durante
o Mobile World Congress. O debate – que também contou com a participação de
Koldo Echebarria, diretor-geral da Esade, e de Mark Vernooij, da escola de
liderança THNK, fundada em Amsterdã – teve como objetivo refletir sobre a
necessidade de reinventar a educação. Quando perguntado sobre qual deve ser o
papel das universidades no século XXI, Nelson começa descartando qualquer
pergunta que seja formulada no tempo verbal futuro. “As conversas que começam
com um ‘como deverá ser a universidade do futuro?’ fazem as pessoas se
acomodarem.”
A ideia tradicional de que a universidade é responsável por
ensinar seus alunos a fazerem apenas uma coisa, embora com alto nível – ser
advogado, médico, matemático... –, é “falsa”, segundo ele. “O trabalho das
universidades é, acima de tudo, oferecer acesso a um conjunto de ferramentas
que podem ser transferidas para qualquer situação, independentemente do caminho
que se decida tomar. E, então, treinar a pessoa no campo em que está
interessada”, afirma. “Mas esse primeiro elemento é o que as universidades
geralmente ignoram. E isso é um desastre.”
Sem campus nem classes
O projeto Minerva, que em 2012 conseguiu 25 milhões de
dólares em financiamento do fundo de investimento Benchmark Capital, surgiu em
2014 com apenas 69 alunos, e sua proposta inédita e singular despertava fortes
dúvidas. Para começar, nas provas de acesso não são levadas em conta as notas
do SAT (o equivalente ao ENEM dos EUA). Em vez disso, vigora um processo de
admissão próprio, que seleciona os alunos com base unicamente no seu mérito.
Tampouco há campus. Os alunos começam sua jornada de quatro anos em São
Francisco, onde vivem numa residência comum com o resto dos colegas e assistem
às aulas interativas de forma virtual (embora Nelson negue ser uma universidade
on-line). Depois, a cada semestre viajam e vivem em outras cidades de seis
países diferentes: Buenos Aires (Argentina), Londres (Reino Unido), Berlim
(Alemanha), Hyderabad (Índia), Taipei (Taiwan) e Seul (Coreia do Sul).
“Expomos aos
estudantes à forma como o mundo funciona realmente”, explica seu responsável.
As classes têm um máximo de 20 alunos, e sob nenhum conceito podem ser aulas
expositivas. “Não funcionam. Ficou demonstrado que só há 10% de retenção.” A
universidade oferece por enquanto cinco cursos – em Artes e Humanidades,
Ciências Computacionais, Ciências Naturais, Ciências Sociais e Negócios –, numa
concepção aberta do que deve ser um currículo acadêmico. A ideia é formar
profissionais flexíveis, capazes de se movimentarem em ambientes complexos e se
adaptarem às mudanças drásticas que, certamente, terão de enfrentar assim que
começarem sua caminhada profissional.
O debate sobre como educar aos cidadãos do futuro, longe de
ser novidade ou exclusividade da Minerva, está no topo da lista de prioridades
de qualquer instituição educacional. A fórmula que esta universidade propõe é
focar a aprendizagem não tanto em um corpo de conhecimento que se recebe de
forma passiva, e sim em habilidades mais profundas e transversais que são
trabalhadas de forma ativa: o pensamento crítico, a resolução criativa de problemas,
a comunicação eficaz... Mas esse discurso tampouco é novo. “Qualquer
universidade do mundo diz que ensina tudo isto”, reconhece Nelson. “Mas se
vocês perguntar como fazem, dirão que ensinam História, ou Ciências… e depois o
resto de coisas as aprende por acidente”. Durante o primeiro ano, os alunos se
dedicam exclusivamente a trabalhar essa base intelectual, e não tanto a receber
conhecimento técnico.
Quatro anos depois de os primeiros alunos inaugurarem as
peculiares não-salas-de-aula da Minerva, o número de estudantes que querem
engrossar suas fileiras não para de crescer. As quase 2.500 solicitações da
primeira turma se multiplicaram por nove, e a percentagem de admissões caiu de
2,8% para 1,2%, apesar de a universidade não ter um limite de vagas.
Isto não contribui para reforçar a ideia de que uma educação
superior de qualidade é uma educação reservada para poucos? “Somos a
universidade mais seletiva dos EUA, mas temos 90% de alunos estrangeiros, e
nosso corpo discente é mais diverso social e economicamente que em qualquer
outra universidade do país”, observa Nelson. “O que ocorre nas universidades
tradicionais mais seletivas é que elas dão enormes vantagens aos solicitantes
com mais recursos.” Enquanto metade dos alunos da Ivy League paga em média
70.000 dólares (268.000 reais) por ano, diz ele, na Minerva 80% de seus alunos
não podem se permitir mais de 30.000 dólares (114.900 reais) de anualidade. A
cifra está a anos-luz do que custa a universidade no Brasil, mas muito em
sintonia com os preços nos EUA (entre 40.000 e 50.000 dólares por ano, segundo
o College Board).
Na equipe fundadora da Minerva figuram nomes de peso, como o
de Larry Summers, ex-reitor de Harvard (que não está mais vinculado ao
projeto), embora as vozes críticas apontem que por enquanto se trata apenas de
um protótipo, um experimento com margem de risco. O fato é que sobre ela paira
a incógnita de como o mercado trabalhista avaliará seus egressos, pois sua
primeira turma acaba de se formar. A proposta, em todo caso, pretende chamar a
atenção sobre os grandes desafios da educação superior: digitalização,
internacionalização e igualdade no acesso à universidade.
Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

Nenhum comentário:
Postar um comentário