A Propósito de Obscenidades
Por Luiz Eduardo Costa
O sexo não é obsceno, se o fosse estaríamos condenando as
espécies vivas à extinção. A forma de fazer ou a escolha com quem fazer o sexo,
não são obscenidades.
O amor, qualquer forma que ele assuma é, precisamente, o
contrário da obscenidade.
Mas o desamor e o ódio são, sim, coisas obscenas.
Obsceno é tudo o que atenta contra a dignidade humana, é a
base sobre a qual se edificam os valores, os valores humanos, celebrando a
justiça, a equidade, o respeito entre as pessoas, e levam equilíbrio e
racionalidade à experiência da vida. Todo aquele comportamento que viola essas
normas, tanto no âmbito pessoal como na esfera pública, pode ser considerado
uma obscenidade.
Discriminar, agredir, ofender, humilhar, matar, odiar, são
atos que podem ser tão obscenos quanto aquele encenado durante o carnaval por
dois jovens repulsivamente devassos, que fizeram da sua libido um ato
repugnante de exibição pública. Um episódio menor, porque limitado à pessoas
que talvez tenham perdido a noção momentânea de respeito a si mesmos, e
desconsiderado a dignidade pessoal dos demais, enojados com tudo aquilo.
Poderia ser um ato restrito e sem maiores consequências, a
merecer apenas uma providencia da polícia, se o presidente Bolsonaro, em vez de
ocupar-se com a gravidade dos problemas que nos castigam, não estivesse a
procurar nas redes sociais, cenas carnavalescas deprimentes, como se houvesse
sido eleito para fiscalizar costumes, ou devassidões.
Sempre houve excessos nos carnavais. Excessos costumam
ocorrer onde há a vertigem da festa, o delírio do álcool, e agora, de todas as
drogas imagináveis. Nos carnavais passados havia o lança-perfume, uma espécie
de spray que espirrava gás misturado a um líquido. Podia ser disparado de forma
inocente sobre os corpos suados de moças atraentes, nos seios, de preferência,
quando recobertos por uma leve blusa. Quando cheirado causava variados efeitos,
desde a euforia esfuziante até o desmaio, algumas vezes o colapso cardíaco. Era
um troço perigoso, principalmente quando vendido em recipientes mais baratos,
de vidro, que as vezes explodiam, feriam as pessoas. Um conceituado
comerciante, tio de João Augusto Gama, ex-prefeito de Aracaju, ficou para
sempre cego. Tinha menos de vinte anos, e numa festa carnavalesca um
lança-perfume marca Colombina, de vidro, explodiu no seu rosto.
Os pais que tinham recursos, presenteavam os próprios
filhos, inclusive menores, com caixas do lança-perfume Rodouro, um tubo
metálico dourado, sem risco de explosão. Eram raros os que, de posse daquele
presente tentador, não o utilizavam como droga.
Num assomo de ímpeto moralisteiro o presidente Jânio
Quadros, que não se afastava do copo, dizendo-se defensor da moral e dos bons
costumes, baixou um decreto, segundo ele, para “livrar o Brasil de vícios e
obscenidades”. Proibia três coisas: o biquine, as rinhas de galo e o
lança-perfume.
A mulherada bonita, desafiadora, resistiu. O uso do biquine
generalizou-se, tendo começado nas sempre vanguardistas praias do Rio de
Janeiro, e estreado, mais ousado ainda, em Búzios, nada mais nada menos do que
por Brigitte Bardot, na época enamorada do
playboy líbano-brasileiro, Bob
Zaguri.
Em Aracaju a moda foi lançada iluminadamente, numa manhã de
sol na Atalaia pela jovem estudante Silvinha Simões, cujas formas valorizavam o
comportadíssimo duas peças.
O lançamento foi previamente anunciado na Rádio Liberdade
pelo festejado colunista social e promotor público Carlos Henrique de Carvalho.
Contrariou o Bispo, que antes havia proibido um desfile de misses trajando
imensos maiôs Catalina, patrocinadores do concurso. O farisaísmo episcopal foi
muito elogiado em longos artigos escritos por pudonorosos intelectuais
carolíssimos.
Silvinha Simões, a precursora do biquíni em Sergipe, segundo
informação da sua prima, a Procuradora de Justiça aposentada Maria Luiza Cruz,
vive hoje com o marido em Portugal. Maria Luiza foi Miss Sergipe, deve ser uma
questão de DNA de família.
No carnaval cantava-se: “Chiquita bacana, lá da Martinica.
Se veste com uma casca de banana nanica. Existencialista com toda razão, só faz
o que manda o seu coração".
Década dos cinquenta, o mundo de pós-guerra passando por
grandes transformações, a filosofia existencialista de Jean Paul Sartre e
Simonne de Bouvoir, fazendo a cabeça da moçada, e da intelectualidade
“avant-garde".
E o mundo não acabou como as Cassandras de sempre
alardeavam, em vozes soturnas. Pelo contrário, evoluiu, libertário,
contestador, e dando um tempo para a razão, o bom senso, que sempre se
sobrepõem aos excessos.
Jânio, um farsante que se fez “salvador da pátria",
interrompeu um ciclo virtuoso de desenvolvimento e evolução social que
Juscelino, seu antecessor, iniciara. Preocupou-se com miudezas, chegou ao
ridículo, renunciou, mal completava sete meses, e os esperançosos que nele
votaram descobriram, decepcionados, que haviam transformado um louco em
presidente da república. Por muito pouco não mergulhamos na desgraça de uma
guerra civil.
O Brasil tem essa característica: perde-se, por lapsos de
tempo na insanidade, mas, se reencontra no roteiro da racionalidade.
As brigas de galo continuam até hoje, clandestinas, mas os
idiotas que as frequentam não largam o vício das apostas, e do prazer sádico de
ver dois bichos se esfolando.
O lança-perfume clandestinamente continua chegando. Faz
parte do kit de drogas pesadas, negócio lucrativo das facções criminosas, e das
milícias também bandidas.
As licenciosidades, ou devassidões, como queiram, aconteciam
em alguns bailes fechados, onde a elite se permitia transgredir os recatados
costumes de então, tão recatados quanto hipócritas.
O povão nas ruas comportava-se com um forçado comedimento.
Pobres, negros, tinham sempre por perto a companhia disciplinadora e seletiva
do aparato policial.
Hoje, o povão ganhou as ruas, raças e poder aquisitivo
diversos se encontram, democraticamente, na celebração da alegria plena “da
festa pagã".
Os jovens que praticaram a cena repulsiva definem agora o
que fizeram como um “ato político", e essa característica vai acabar por
prevalecer, diante do erro clamoroso, da falta de bom senso e noção do que é
ser um Estadista, mais uma derrapada entre tantas outras gravíssimas que têm
sido, lamentavelmente, a marca desses primeiros meses de um governo que dá a
impressão de alimentar-se à custa de tumultos. E agora espalhou a obscenidade
pelo Brasil, e pelo mundo, a pretexto de condenar a devassidão.
No começo da era cristã, quando Nero o imperador devasso,
dividia-se entre suas bacanais e o orgasmo da crueldade nas arenas, Petrônio,
um intelectual, organizador dos requintes daqueles festins, inspirado naquilo
tudo, escreveu um livro que atravessaria o tempo como uma crítica demolidora da
sociedade da sua época, o Satiricon.
Petrônio, não era exatamente um homem guiado por escrúpulos,
muito ao contrário. Condenado à morte por traição, ele deixou no ar a suspeita
de tudo era resultado de uma conspiração política, porque a cena que domina o
livro, o banquete de Trimalquião, um rico devasso, era a sátira da própria
corte de Nero.
Texto e imagem reproduzidos do blogluizeduardocosta.com.br

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