Historiador Boris Fausto, em depoimento para a série Memórias.
Publicado originalmente no site do jornal EL PAÍS BRASIL, em 31/03/2019
Boris Fausto e o golpe de 64: “É impossível ir contra fatos
estabelecidos”
Historiador diz que as Forças Armadas nunca reconheceram os
aspectos mais negativos do regime militar e que não havia ameaça imediata de
implantação de um regime comunista
Historiador Boris Fausto, em depoimento para a série
Memórias.
Por Thiago Domenici
O historiador e cientista político Boris Fausto, 88 anos, é
autor de estudos clássicos sobre a história do Brasil e foi professor titular
do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo. Em entrevista
à Pública, ele diz que não havia “ameaça imediata de implantação de um regime
comunista” nas vésperas do golpe militar que completa 55 anos na próxima
segunda-feira. Segundo ele, as afirmações mais recentes de Jair Bolsonaro sobre
a ditadura não são uma “reinterpretação”, mas a “negação de fatos” comprovados
na historiografia em documentos, testemunhos e reconhecimento do estado
brasileiro dos crimes cometidos no período de exceção (1964 a 1985). Fausto,
que também é membro da Academia Brasileira de Ciências, vê o cenário futuro com
preocupação. “Andei falando antes das eleições que estávamos na corda bamba, na
beira do abismo e não vejo muitas razões para mudar essa sensação. É triste”.
Pergunta. O presidente Jair Bolsonaro disse que as Forças
Armadas podem comemorar 1964. O porta-voz da presidência justificou que o
presidente não considera que houve um golpe militar, mas uma reação apoiada
pela sociedade contra uma alegada ameaça comunista. Qual sua avaliação como
historiador?
Resposta. Ele [Bolsonaro] vai contra as evidências. A
história comporta sempre muitas interpretações na dependência da época em que
se escreve e na dependência da opinião de quem escreve. Agora, é impossível
negar os fatos. É impossível ir contra fatos estabelecidos. E, no caso de 1964,
houve a interrupção de um mandato de um presidente legítimo, houve cassação de
deputados, houve perseguições de toda ordem, houve violências. Então, não se
trata de uma reinterpretação, se trata de negar fatos e isso não faz sentido.
P. Mas isso não é preocupante vindo de um presidente da
República, negar fatos que, de várias maneiras, levaram pessoas a morrer sob
tortura, desaparecimentos?
R. É preocupante embora não seja surpreendente. Conhecendo a
carreira, o histórico do presidente eleito, não há nada de surpreendente que
ele queira comemorar o golpe de 1964. Ele tem feito coisas nessa linha, tem se
pronunciado nessa linha. Não há surpresa mas é uma pena que isso ocorra.
P. Muitos argumentos usam a ameaça do comunismo para o golpe
naquele período. Até pra gente estabelecer questões históricas, afinal de
contas, o Brasil estava à beira do comunismo em 1964?
R. Vamos tentar discriminar essa questão. É preciso
considerar essa época de uma forma diferente dos dias de hoje. Nós estávamos em
plena Guerra Fria, existia Cuba com a vitória de uma revolução que seguiu para
um certo tipo, digamos, de socialismo autoritário. Então, é nesse contexto que
a gente pode entender a preocupação de setores militares. Ameaça imediata de
implantação de um regime comunista não havia. O que havia era uma situação de
divisão do país, de uma radicalização, às vezes, era efetiva, às vezes, era
mais verbal do que efetiva. Agora, evitar essa situação por um golpe que durou
20 e tantos anos, aí as coisas pesam de um modo diferente na balança. Se
houvesse uma convicção de que era preciso enfrentar, sim, uma situação muito
difícil mas preservar de qualquer forma as instituições democráticas a gente
não teria chegado ao ponto que chegou, e, enfim, com o fechamento que foi grave
em 64 e se tornou gravíssimo em 68 e resultando num período triste, difícil da
nossa história.
P. Ainda desse ponto de vista da historiografia, não é
incomum ver declarações que dizem que a história tem sido contada com matiz
ideológico socialista. O presidente já falou a respeito, o próprio filho do
presidente, Eduardo Bolsonaro, publicou mensagens em que afirma que a ditadura
militar é mal retratada pelos livros didáticos. Também o general da reserva
Aléssio Ribeiro Souto já declarou que “os livros de história que não tragam a
verdade sobre 64 precisam ser eliminados”. Estamos passando por uma tentativa
de revisionismo? Em que medida o revisionismo se torna perigoso para o registro
dos acontecimentos históricos?
R. Que há uma tentativa de revisionismo, não há dúvida. As
Forças Armadas nunca reconheceram os aspectos mais negativos de 1964, nunca
fizeram uma análise de um ponto de vista em que fosse ressaltada as violências,
a quebra da ordem democrática, uma quebra até dos padrões de convivência dentro
do país. Na medida em que isso ocorre e com a chegada desse governo de direita,
sob certos aspectos, de extrema direita, entende-se que essa revisão que vinha
forte no meio militar ocorra também, digamos, no setor da direita como um todo.
Isso é muito ruim porque transforma um episódio de violência, de ruptura do
regime democrático, num episódio que pareceria uma espécie de salvação
nacional. Não existe dúvida que há um entendimento de revisão no governo de
tudo que ocorreu em 1964 e nos anos seguintes.
P. Tem gente que chama de golpe, gente que chama de
movimento, gente que chama de revolução. Com base na tua pesquisa como
historiador como o senhor define o período?
R. Tendo a chamar mais de ditadura. O que não quer dizer que
a minha interpretação dos fatos tenha se alterado. É evidente para qualquer
pessoa que se disponha a estudar esse período que a ditadura de 1964 não é uma
quartelada. Acho que ninguém diz mais isso. Saiu dos quartéis, surpreendeu os
civis e eles se instalaram numa situação de absoluta força. O que quero dizer é
que, nas condições de divisão da sociedade brasileira, tal como estava e nas
condições de insatisfação de determinados setores, não estou falando só de
setores da elite, mas também de uma ampla classe média, o golpe contou com uma
mobilização importante. Isso legitima. E na medida que os anos se seguiram
foram os anos do milagre etc, das altas taxas de crescimento, esse prestígio
durou. É importante assinalar esse aspecto. Até para entender a durabilidade do
regime que não se deve apenas à força. Agora, quando você vê a supressão das
liberdades, a violência, a limpeza no Parlamento, as prisões de toda ordem, a
perseguição de dirigentes sindicais, não há dúvida que se trata de um golpe. É
um golpe com parte de mobilização popular mas a natureza de golpe predomina.
P. Em nota enviada sobre as “comemorações” do 31 de março, o
general Azevedo, ministro da Defesa, e os comandantes das Forças Armadas,
destacam que a intervenção militar ocorreu com o apoio da população e citam a
Marcha por Deus e a Família. O senhor considera que de fato o golpe foi apoiado
pela população? Até que ponto a Marcha pode ser vista como representativa do conjunto
da sociedade?
R. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade mostrou que o
golpe tinha um lastro social significativo no meio urbano, em setores da classe
média e da classe alta. Mas daí a falar em “movimento representativo do
conjunto da sociedade” vai uma enorme distância. A divisão social era evidente,
mesmo no seio das Forças Armadas. Basta lembrar o número de expulsões e
violências na instituição militar, logo após o golpe.
P. Analisando agora os tempos recentes, há paralelos na
história republicana brasileira de algo parecido com esse conjunto de forças
que fazem a composição do Governo Bolsonaro?
R. Não vejo. É uma situação absolutamente inusitada e uma
situação que produz espanto.
P. O que produz mais espanto ao senhor?
R. Muitas coisas.
P. No terreno dos costumes?
R. Iniciativas retrógradas que colocam o Brasil a não sei
quantos decênios para trás. Aliás, de uma forma muito tosca, muito retrógrada
mesmo, numa sociedade que avançou muito no terreno dos costumes. Mas que também
tem um setor ponderável que se firmou muito numa tradição hoje superada, fora
até do entendimento histórico. Aliás, isso ficou muito claro desde antes da
vitória do Bolsonaro. Aí não tem surpresa nenhuma. Mas é um recuo que é uma
coisa bastante triste.
P. O senhor classificou que é um governo de direita e em
certos aspectos de extrema direita. O senhor consegue me dizer qual é essa
direita que hoje está no poder?
R. Primeiro, é uma direita com raízes internacionais. Essa
direita tem horror a globalização como processo mas ela própria é uma direita
globalizada. E essa direita não é igual em todos os lugares. Em cada região ou
até em cada país, há um elemento que é mais característico desse avanço. Se
você pegar a Europa, é a xenofobia, fator que potencializa essa direita, que dá
um lastro a essa direita. A gente sabe qual é a força da xenofobia, a gente
conhece os movimentos totalitários ou autoritários do século XX e sabe que esse
é um elemento mobilizador muito forte. Num país como o Brasil, para chegar até
nós, a xenofobia não existe com essa força da Europa. Não é esse o elemento
central. O elemento central é: a questão dos costumes, de uma sociedade muito
dividida nesse ponto. A meu ver a questão de gênero, da identidade feminina,
que tem nos setores masculinos e não só neles, um impacto muito forte que é
preciso considerar. Isso tudo deu muito lastro a uma direita nacional. O ódio
ao PT, de que “PT nunca mais”, e é preciso entender isso também. E o quarto
fator é o medo e a impotência da população diante da criminalidade. São caldos
para o avanço dessa direita.
P. Na sua visão, a questão do feminismo aglutina uma direita
contrária ao movimento de mulheres?
R. Sim. A verdade é que há perda do poder, um cisma do poder
do macho, seja no interior da família, seja nas relações de trabalho, e essa ideia
de que a subordinação da mulher está sendo quebrada – e está sendo quebrada
mesmo – tem um impacto muito grande para essa direita. E não é à toa que
Bolsonaro saiu na frente bem na faixa masculina da população e levou muito
tempo para alcançar uma votação quase equilibrada no setor feminino da
sociedade.
P. Gostaria que o senhor fizesse uma análise desse perfil
militar no governo.
R. Só observação preliminar. É por isso que a revisão pelos
militares do que ocorreu em 1964 e nos anos seguintes seria muito importante.
Eles não fizeram essa revisão. Ao contrário do que aconteceu na Argentina,
Chile etc. Há algumas diferenças que são significativas, como o fato de que
esse grupo militar que assumiu o poder, não assumiu sozinho, mas tem um peso
muito grande. E esse peso tende a crescer, porque eles não são loucos e eles
enfrentam loucos de todo o tipo. Esse grupo não tem, como tinha em 1964,
interesse em interromper um processo formal democrático. E nem mesmo, pelo
menos até aqui, tem impedido a liberdade de expressão. Os arreganhos a
liberdade de expressão tem ocorrido por parte de setores ligados ao presidente,
a própria presidência, aos seus filhos, Olavo de Carvalho e companhia bela.
Ataques específicos à Folha de S.Paulo e coisas assim… Nesse quadro, acho que
há uma diferença grande com 1964 e há, de fato, um setor militar que está
disposto a manter o regime democrático e as liberdades. Está disposto, mas não
a qualquer preço. Acho que se você tem uma situação de desordem, de um caos
muito grande na sociedade essa linha pode mudar, porque creio, de modo geral,
que a posição militar é assim: a ordem vem antes da democracia. Democracia tudo
bem, mas se a democracia, no entender deles, estiver comprometendo a ordem,
eles não impedirão medidas de exceção. Mas esse não é o quadro de hoje, de
jeito nenhum. Tem-se que entender isso se não você entra numa posição de estar
em bloco contra tudo e isso não leva a nada ou leva a coisas piores.
P. A sensação é que de 2013 para cá as questões políticas e
sociais se agudizaram muito. O que o senhor acha?
R.Sim, acho que as coisas se enrolaram cada vez mais. Para
alguém que tenha frieza e não viva no Brasil e está meio distanciado, o que
acontece aqui é inusitado, causa muito espanto. Agora, nós estamos vivendo
desde 2013 anos inteiramente alucinantes.
P. Historiador gosta mais do passado mas o cenário futuro o
senhor vê com que perspectiva?
R. Com bastante preocupação. Com preocupação do mundo, eu
diria. E olha que, em geral, sou otimista. Andei falando antes das eleições que
estávamos na corda bamba, na beira do abismo e não vejo muitas razões para
mudar essa sensação. É triste. Eu já falei várias vezes essa palavra triste e
não por acaso, mas porque até para a vida cotidiana você ver problemas muito
grandes dentro de nós não é bom, em todos os sentidos. Mas vamos lá, tem-se que
viver.
Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

Nenhum comentário:
Postar um comentário