Na casa de Steve Bannon, ex-estrategista da Casa Branca, Olavo de Carvalho
comandou a prece antes do jantar (Foto: Josias Teófilo/TWITTER)
Publicado originalmente no site da revista ÉPOCA, em 29/01/2019
POR QUE DEIXEI DE SER OLAVETE: EX-SIMPATIZANTES NARRAM
ROMPIMENTO COM GURU OLAVO DE CARVALHO
Discordâncias filosóficas e retóricas com ideólogo da nova
direita marcam desilusão de antigos admiradores
Por Jan Niklas e Victor Calcagno
“Guru”, “um tipo de mestre”, “professor”, “ideólogo”,
“intelectual”, “filósofo”, “mentor” e “espécie de guia intelectual”, mas também
“charlatão”, “aliciador”, “impostor”, “aproveitador” e por vezes até “líder de
seita”. Os termos utilizados para descrever o pensador conservador Olavo de
Carvalho, de 71 anos, cujos seguidores já ocupam cargos de importância no
governo de Jair Bolsonaro, são diversos entre os ex-alunos ou ex-simpatizantes
do brasileiro natural de Campinas, desde 2005 autoexilado nos Estados Unidos.
Em comum, todos eles compartilham, além de alguma admiração passada por
Carvalho, seja pela “rebeldia” em desafiar paradigmas acadêmicos ou por acusar
problemas da esquerda, a desilusão com o professor expressa em desavenças
intelectuais, religiosas, políticas e pessoais em um momento específico — além
da surpresa em ver sua autoridade potencializada nos últimos meses. Nesta
semana, em que foi convidado pelo Departamento de Estado dos EUA para uma
reunião a portas fechadas em Washington e aproveitou para se encontrar por três
vezes com o ex-estrategista da Casa Branca Steve Bannon, a influência de
Carvalho mostrou-se em expansão.
Em jantar, Bannon sabatinou Carvalho sobre o Brasil e seus
líderes e estimulou-o a se contrapor ao “cara de Chicago”, em referência ao
ministro da Economia, Paulo Guedes, que obteve doutorado na univesidade
americana. Num momento devidamente registrado por um dos convidados, que o
definiu como símbolo da nova era, Bannon, que é católico, pediu para Olavo de
Carvalho fazer uma prece antes da refeição. Olavo rezou um pai-nosso, no que
foi seguido por todos. Bannon pediu que Carvalho explicasse o curso on-line que
oferece. Ele não soube explicar e pediu socorro aos demais brasileiros
presentes. “Passamos um bom tempo tentando, e não foi fácil. Bannon ficou
impressionado com a amplitude do tema tratado”, escreveu o cineasta Josias
Teófilo, que dirigiu documentário sobre o professor de filosofia. Carvalho por
vezes se mostra orgulhoso do protagonismo no governo Bolsonaro, mas, por vezes,
rejeita-o. “E eu sou o guru dessa porcaria? Eu não sou o guru de m... nenhuma”,
reclamou antes mesmo que a nova gestão completasse um mês. A contradição, como
se verá aqui, é uma de suas marcas intelectuais.
Morador da zona rural perto da cidade de Ovar, no Norte
português, o luso-brasileiro Carlos Velasco não se define no passado, quando
começou a frequentar o Curso On-line de Filosofia (COF, ministrado por Carvalho
desde 2009), como um legítimo “olavete”, termo depreciativo usado pelos
adversários para caracterizar os seguidores mais assíduos de Olavo de Carvalho.
Com 42 anos, o empresário do ramo de importação e exportação relembrou o
primeiro contato que teve com o professor, por meio da internet e das colunas
que mantinha na imprensa durante os anos 2000, história parecida com a de
grande parte dos seguidores, antigos ou atuais, acima dos 30 anos.
Olavo de Carvalho (à esq.) teve dificuldade de explicar a
Steve Bannon os temas do curso de filosofia que ministra (Foto: JOSIAS TEOFILO/REPRODUÇÃO)
“Por volta de 2003, me impressionou o fato de ele ser o
único que escrevia em português com capacidade sobre temas que me interessavam
na época, como a centralização dos poderes e a diluição do Estado
institucional. Fui acompanhando até decidir fazer o COF no fim de 2009”, disse
Velasco. Apesar de ter assinado as aulas — uma por semana — até o fim de 2013,
quando teve uma ruptura total com Carvalho, Velasco afirmou que seu interesse
começou a decrescer após algumas sessões. Segundo ele, além do professor ser
pouco pontual, as aulas, que deveriam ser de filosofia, “entravam
constantemente em assuntos paralelos, que só compreenderia, dizia o Olavo, quem
assinasse outros cursos especializados que ele oferecia ou acompanhasse seu trabalho
por fora”. Além disso, incomodava o empresário a virulência com que Carvalho
atacava simpatizantes da esquerda, “como se quisesse iniciar uma guerra civil,
sem lugar para a discussão saudável”. O ponto final de discordância, no
entanto, veio dos desdobramentos da guerra na Síria e da Primavera Árabe:
segundo Velasco, o pensador tentava justificar os acontecimentos baseado numa
espécie de “globalismo islâmico”, “como se houvesse uma agenda comum à religião
no mundo inteiro”, algo que jamais o convenceu.
“Como todo aluno, questionei o professor, primeiro por
e-mail, depois pelas redes sociais, mas ele se esquivava. Então comecei a
escrever sobre isso publicamente, como ele ensinava que devia ser feito.” Desde
2013, Carlos mantém uma cruzada anti-Olavo de Carvalho por meio de um blog em
que rebate Carvalho, o que também rendeu alguns vídeos no YouTube com o irmão,
Jorge Velasco — em uma das gravações, houve uma conversa com Heloisa de
Carvalho, filha e desafeto de Carvalho, que em 2017 publicou uma carta aberta
contra o pai. As críticas tiveram reação: contra o empresário há pelo menos 30
postagens na página oficial do pensador no Facebook desde 2014, algumas em que
Velasco é xingado de “celerado”, “satanista” ou “criminoso”, principalmente
quando o assunto é o passado de Carvalho ligado ao islã.
DISCORDÂNCIA POUCO ENCORAJADA
Não são todos os ex-alunos que têm a disposição de
questionar publicamente o antigo mestre, com receio de perseguições dele ou dos
olavetes, catapultadas pelas redes sociais. Depois de frequentar o seminário de
filosofia que Carvalho oferecia presencialmente enquanto ainda morava no
Brasil, entre o fim da década de 90 e o início dos anos 2000, um aluno que
prefere se identificar como Paulo resolveu se afastar das aulas silenciosamente
por causa de divergências nos posicionamentos religiosos e no que classificou
como “contradições” do discurso olavista. Segundo ele, foi o único que recebeu
com desconfiança a súbita mudança de opinião de Carvalho quanto à invasão
americana ao Iraque, passando a apoiá-la. Paulo descreveu sua relação com o
professor como de “alguém próximo”, tendo lido seus principais trabalhos até
então e contribuído para a difusão de seus posicionamentos, o que perdurou em
diversas aulas de Carvalho. A dinâmica delas e a relação com os alunos, segundo
contou, tinham uma natureza sutil de acordo tácito, no qual o guru não era
questionado, ainda que os alunos, em tese, pudessem fazê-lo a qualquer momento.
“Nunca vi, nas aulas, alguém discordar do Olavo sem ter o pensamento
ridicularizado de algum jeito.”
“Teoricamente, você pode discordar, mas, na prática, não há
clima e ninguém faz. Tudo isso é muito sutil, claro, e a dinâmica não favorecia
o questionamento. Se você discorda, ele diz: ‘Mas isso é um ponto de vista
idiota’. Nessa, descobri que era idiota, mas resolvi ter minha opinião”,
afirmou ele. Ainda sobre as aulas, Paulo destacou a ausência de exercícios, de
produção escrita ou oral, para testar os alunos, como num curso normal, além de
não terem um fim definido: o COF já passa das 450 aulas, uma por semana, ao
custo de R$ 60 por mês e não dá sinais de que vai parar tão cedo, o que
justifica a classificação do ex-simpatizante de “não ser um curso, mas uma
espécie de seita”. A falta de uma área definida das exposições, que, apesar de
se rotularem como filosofia, pulam nos ramos da política, da religião,
literatura, moral e ética, também o incomodou: “No começo, era realmente sobre
filosofia, mas depois a aula se resumia no Olavo abrindo o jornal e falando mal
do PT. Ele justificava dizendo que era preciso ‘filosofar em tempo real contra
a ameaça do comunismo’”, disse Paulo, que se definiu como liberal.
O ex-aluno não esconde o motivo que o levou até o professor:
a capacidade retórica de Carvalho, que o faz “vender geladeira no Polo Norte”.
Como é um “ótimo escritor”, Paulo afirmou que o filósofo consegue ser um expert
no mundo da linguagem, trazendo seguidores pela retórica enfática, mordaz,
belicosa, que “atinge quem não tem a capacidade de julgar as referências”.
Apesar das críticas, ele elenca dois bons fatores trazidos pelo guru: a
divulgação e publicação de autores conservadores no país e a difusão do
pensamento liberal num primeiro momento. O ex-aluno classificou Carvalho como
intelectualmente fraco, apesar de conseguir influenciar muitos com argumentos
virulentos: “Ele fala com o máximo de ênfase e o máximo de ambiguidade para, se
errar, poder sair quanto antes”.
'OLAVO NÃO RESISTIU À TENTAÇÃO DE ESTAR CERTO'
A mesma crítica ao conhecimento de Carvalho fazem o mestre
em filosofia Joel Pinheiro da Fonseca, que, apesar de jamais ter sido seu
aluno, foi influenciado pelo professor nos anos 2000, e Francisco Razzo,
escritor e doutor em filosofia que se desentendeu com o guru depois de ter
negado, por ocasião de uma entrevista, que lhe devia “pedágio intelectual”.
Tendo conhecido Carvalho em 2004 como leitor das colunas e
de seus livros, Fonseca chegou a publicar artigos de Carvalho em uma revista
cultural que mantinha, além de cultivar interações on-line com o professor. Na
época, o filósofo lhe pareceu interessante por ser alguém “fora do cânone”,
tanto por sua formação, já que nunca cursou faculdade, quanto pelo conteúdo
divulgado, “sem medo de argumentar, de uma forma debochada, mas muito
assertiva”. A relação degringolou quando os dois se envolveram num debate sobre
filosofia medieval, evidenciado em posts na internet, o que rendeu desavenças,
segundo Fonseca. Ele contou que acusou Carvalho publicamente de sempre tentar
diminuir seus oponentes de forma desleal e pouco respeitosa, com “xingos” — o
professor então teria questionado a existência da palavra e, comprovado o erro
na dedução, bloqueado Fonseca das redes sociais. O episódio é ilustrado por
Fonseca para atacar a erudição de Carvalho: “Ele tem, sim, uma erudição, mas a
aumenta muito além do que ela é. Por exemplo, ele não sabe grego, mas quer
discutir Aristóteles com uma autoridade de quem já leu no original
perfeitamente. Fora que há sempre espaço para alguma teoria da conspiração na
boca dele, desde FHC com maçonaria até programação neurolinguística, entre
outros”.
Razzo, que se define como um “conservador não militante” e
diz ser um ex-simpatizante do professor, mas nunca olavete, acusou Carvalho de
subverter ideias básicas quando se trata de conceitos filosóficos, cometendo
erros que “estudantes do segundo ano de filosofia jamais fariam”. Como exemplo,
cita o pensamento do filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), dos maiores
expoentes do idealismo alemão e frequentemente citado pelo guru em suas aulas
no COF: “Para Kant, todo sujeito só conhece as interpretações dos objetos, esse
é o cerne do idealismo. Olavo diz que, se Kant estivesse certo, você nem
poderia ler os livros dele, uma vez que não seria possível conhecer a obra em
si. Ele dizia: ‘Como pode se promover um pensamento que não é em si mesmo
conhecido’? Erro básico. Kant partilha com seus leitores não a obra em si, mas
as representações expressas na linguagem, enquanto um sujeito do idealismo. De
tão básico, chega a ser vergonhoso que alguém afirme o contrário”, disse o
escritor.
Outro problema de Carvalho, para Razzo, é o fato de defender
a filosofia de forma unitária, de modo que o conhecimento também se expressasse
nas práticas do indivíduo e em seus afazeres cotidianos. O escritor, por sua
vez, afirma que a filosofia do ideólogo “pretende a síntese, mas não apresenta
acabamento de pensamento unificado”, já que a conceituação de Carvalho passa
por vários ramos de forma enfática e grandiosa, mas fragmentada. Para ele,
“Olavo de Carvalho apenas não resistiu à tentação de estar sempre certo”.
A relação entre os dois azedou oficialmente depois de uma
discussão no Facebook em 2014. Entrevistado por um blog, foi perguntado a Razzo
sobre os pensadores que mais o influenciaram. Não citou Carvalho, apesar de
então estar envolvido com a “nova direita”, o que despertou o rechaço do guru:
num post, o professor escreveu que “é natural um estudante universitário só
reconhecer a influência dos seus professores imediatos, sem ter em conta a
atmosfera cultural criada por um antecessor”.
O mestre em filosofia Joel
Pinheiro da Fonseca chegou a publicar artigos de Carvalho
em uma revista que
mantinha nos anos 2000; hoje critica professor e diz que
sua influência passa
por 'jovens à procura de certezas'
Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo
ESOTERISMO MARCA PENSAMENTO DE GURU
Razzo, Fonseca, Paulo e Velasco destacaram todos a
fascinação que Carvalho exerce sobre os alunos, principalmente os mais jovens.
Fonseca afirmou que a maior parte dos olavetes são pessoas à procura
desesperada de certezas, ainda em processo de formação intelectual, que
encontram abrigo nas vociferações do filósofo autoexilado. Já Razzo colocou o
interesse na conta de uma desilusão intelectual — vindos de uma formação da
qual não gostaram ou consideram atingida pelo esquerdismo, os alunos encontram
em Carvalho alguém que não só sempre tem razão, como também elege um culpado
para os desencantos acadêmicos passados. Paulo destacou a capacidade do guru de
ter organizado intelectualmente parte da direita e “ter feito Bolsonaro
possível”, já Velasco creditou o fato à capacidade de Carvalho em se apresentar
como o único pensador existente num mar de lama dominado pela esquerda e pelo
marxismo cultural. O professor de inglês Caio Rossi, no entanto, acredita que a
principal influência no pensamento do professor, e, por consequência, no que é
passado aos alunos, venha de sua ligação com o esoterismo.
Luso-brasileiro
Carlos Velasco está numa cruzada anti-Olavo desde 2013: discordâncias de
empresário vieram em questões geopolíticas que começaram pouco depois de 2009
Foto: Reprodução / Arquivopessoal
Com a leitura de O imbecil coletivo, Rossi foi fisgado pelo
texto de Carvalho e tornou-se um dos colaboradores do portal Mídia sem Máscara,
site à direita do espectro político, fundado e mantido pelo professor em 2002.
Ele afirmou que a capacidade do filósofo em citar e refletir sobre autores
nunca discutidos nas universidades brasileiras era um enorme atrativo numa
época sem internet. Tomou conhecimento, por esse meio, dos filósofos René
Guénon e Frithjof Schuon, expoentes do perenialismo, ou tradicionalismo, linha
de pensamento que defende a existência de uma verdade absoluta e transcendental
comum às principais religiões do planeta. Schuon (1907-1998), explicou Rossi,
aproximou-se do sufismo, ala esotérica do islã, tendo fundado uma tarica, ou
confraria islâmica, da qual Carvalho fez parte e influenciou fortemente nos
anos 80, antes de declarar-se católico: “Esses grupos têm a ideia de um resgate
da ‘tradição’. O que eles querem construir é o retorno de uma mentalidade
conservadora religiosa, porém coordenada por uma elite esotérica gnóstica.
Tendo uma posição mais cristã e contrária a esse tipo de perspectiva, comecei a
rejeitar”, disse Rossi.
Ex-estudante de psicologia e filosofia, Rossi afirmou que
seu interesse por esses autores citados por Carvalho aconteceu porque resolveu,
de fato, lê-los. A desilusão com o guru veio pela análise detalhada dessas
leituras, o que lhe tomou tempo e energia: “Era muitas vezes uma interpretação
pessoal do Olavo, e não raro as posições dele contrariavam as dos autores citados”.
Rossi afirmou que chegou a conversar algumas vezes pessoalmente com Carvalho
sobre o assunto, até que resolveu criticá-lo on-line. Como resposta, recebeu um
vídeo, em que foi escrachado, além de ter sofrido ameaças, contou.
Os ex-simpatizantes de Carvalho veem de diferentes formas a
relação dele com o governo Bolsonaro. Se Paulo disse “se perguntar o que quer”
o guru da nova direita, Razzo afirmou que há um “projeto de poder”, mais
importante que qualquer projeto de formação intelectual. Já Fonseca, que em
2015 já alertava para o crescimento da influência da “ala olavista”, agora
disse que a questão é quanto o governo pode dar ouvidos a ela, principalmente
via Eduardo Bolsonaro, olavete convicto. Rossi, por sua vez, expandiu os limites
dessa influência: “O Olavo sabe exatamente aonde ele quer ir e, no meio do
caminho, tenta se adequar à tendência. A relação dele com Bolsonaro é
acidental. Já com Bannon, não, mas de outro nível: estão construindo algo”,
completou. Olavo de Carvalho preferiu não conceder entrevista a respeito das
críticas dos ex-simpatizantes.
Texto e imagens reproduzidos do site: epoca.globo.com




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