Olavo de Carvalho: suas ideias estão para a filosofia como sua astrologia para a astrofísica
Arte Revista CULT/Reprodução YouTube
Publicado originalmente no site da revista CULT, em 24 de janeiro de 2019
Ideologia do medo
Por Alvaro Bianchi *
Há pouca verdade na narrativa filosófica de Olavo de
Carvalho. Seus textos, principalmente aqueles dedicados à filosofia, trazem a
marca da superficial erudição do autodidata. Pouco importam, entretanto, as
simplificações e os erros a respeito dos autores criticados. O público-alvo não
é formado por filósofos especialistas e provavelmente sequer conhece os autores
execrados. Para seus leitores, mais importante do que o texto criticado é a
própria crítica, na qual podem encontrar uma explicação para seus medos. E se
essa crítica vier embalada com sinais de erudição, mais sedutora ela será.
A narrativa apressada, na qual personagens da cultura
filosófica são empilhados e espancados para que confessem seus pecados,
constitui um dispositivo eficaz de legitimação intelectual. Contrapor a esse
pensamento uma filosofia profissional, retificar o argumento, demonstrar as
falhas interpretativas ou corrigir os erros factuais têm pouco valor. Não é
isso o que trará ou retirará definitivamente dignidade a seu discurso. Ele tem
uma dignidade própria. O valor desse discurso está em sua eficácia, em sua capacidade de traduzir as angústias de seu
público em uma narrativa eficaz.
Carvalho afirma-se orgulhoso artífice de um trabalho
prometeico, original, nunca antes levado a cabo por nenhum brasileiro, cuja
missão é, simplesmente, revelar a ideologia da maldade existente em um mundo
grande e terrível. Sua narrativa tem como pano de fundo o declínio da
civilização ocidental e dos valores cristãos a ela associados. No lançamento de
O imbecil coletivo (1996), o último e mais vendido livro de sua conhecida
trilogia, Carvalho expôs de modo dramático o conflito entre as figuras bíblicas
do Behemoth, representação das necessidades naturais e das forças obedientes a
Deus, e do Leviatã, encarnação da
infranatureza diabólica e da rebelião.
É nesse conflito entre as forças do bem e do mal que está a
síntese de seu pensamento tradicionalista. Só Deus poderia vencer esse
conflito, subjugando o Leviatã. Quando a humanidade recusa o salvador, essa
luta culmina inevitavelmente em um confronto destrutivo. Guerras, revoluções e
catástrofes acossariam a humanidade trazendo consigo a aniquilação e o medo.
Uma ameaça desse porte à civilização ocidental necessita de um sacerdote
supremo. Carvalho encontrou em Antonio Gramsci a encarnação desse maligno
hierofante. É no início de tudo que ele se encontra, já em A nova era e a
revolução cultural (1994), primeira obra daquela trilogia.
Nosso autor conhece muito pouco sobre a vida e a obra de
Gramsci. Comete erros biográficos e amontoa anacronismos, divertindo o leitor
informado. Refere-se a uma suposta “filha” de Gramsci, pai de apenas dois
meninos, e escreve repetidas vezes que no Brasil foram publicas suas “obras
completas”, o que nunca ocorreu nem aqui nem na Itália. Mas isso pouco importa.
Carvalho acredita ter identificado a mente por detrás de uma conspiração cuja tropa
de elite é formada por “jornalistas, cineastas, músicos, psicólogos, pedagogos
infantis e conselheiros familiares”. Isso basta. Não é preciso sequer que esse
exército diabólico conheça Gramsci, ele seguirá suas ideias enfeitiçado, “mesmo
sem ter disto a menor consciência”. Os indivíduos são apenas o suporte dessa
misteriosa estrutura.
Um conhecimento melhor da vida e da obra daquele malévolo
sardo não traria nada de novo, pensa Carvalho. Em O imbecil coletivo, ele
explica que inteligir é uma atividade intuitiva: “É captar, num relance, a
unidade objetiva de um conjunto de dados, dispondo-os num quadro que é posto
imediatamente à disposição de todas as faculdades psíquicas, da vontade, do
sentimento, da imaginação, etc.” Intuído o mal, apreendido num relance, não há
nada que a leitura possa acrescentar. Mas a intuição de Carvalho é muito
particular. Ela é a percepção de um homem aterrorizado pelo declínio de um
mundo e de suas tradições. Uma percepção que ele pode compartilhar com o homem
comum. A uma suposta ideologia da maldade, Carvalho opõe uma ideologia do medo.
É preciso levar a sério as ideias de Olavo de Carvalho e seu
trabalho como intelectual público. Isso não implica atribuir a essas ideias o
valor de uma filosofia profissional, um valor que provavelmente o próprio autor
não desejaria. As ideias de Olavo de Carvalho estão para a filosofia acadêmica
assim como sua astrologia está para a astrofísica. O objetivo desse autor não é
expor a verdade dos textos filosóficos e sim apresentar uma narrativa coerente
e consistente que revele às pessoas comuns a origem do mal e aponte os
responsáveis pelos medos que as afligem. A análise dessa narrativa escapa
portanto à filosofia acadêmica. Ainda assim é preciso conhecer sua obra para
não repetir seu erro. Os historiadores e sociólogos da cultura terão assim o
desafio de se dedicar aos textos de Carvalho com o mesmo afinco e rigor com os
quais Theodor Adorno se debruçou sobre a coluna de astrologia do Los Angeles
Times para escrever As estrelas descem à Terra. Isso requer paciência e
autocontrole.
* Alvaro Bianchi é professor livre-docente do Departamento de
Ciência Política da Unicamp e autor de O laboratório de Gramsci: filosofia,
história e política (Zouk, 2018).
Texto e imagem reproduzidos do site: revistacult.uol.com.br

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