Publicado originalmente no site HuffPost Brasil, em 30/12/2018
Por um 2019 em que metas sejam sinônimos de propósito, e não
falhas
Você tem mais chances de alcançar 100% da meta se, quando
você chegar nos 50%, estiver satisfeito e vibrando pela sua "pequena"
vitória.
Por Ana Beatriz Rosa
Todos os finais de ano eu costumo separar um momento para
listar tudo aquilo que eu fiz e aquilo que eu desejo realizar no ano que está
por vir. Em 2018 não foi diferente. Abri o meu celular e bem ali no bloco de
notas estavam as listas de metas mensais que me propus ainda no fim de 2017.
Ler mais, correr x quilômetros, me dedicar a atividade y,
ter uma rotina equilibrada de alimentação, gastar menos, estudar mais, comprar
apenas de marcas que eu conheça a produção. Viajar para tal lugar, ligar todos
os dias para a minha mãe, controlar a ansiedade, reclamar menos. Trabalhar
mais, realizar z coisas, cuidar de outras y atividades. Encontrar o meu
objetivo de vida. Enfim.
A medida em que li a lista, percebi que, de todas as metas
que havia estabelecido, talvez eu tenha realizado no máximo 3. Algumas não
chegaram nem perto de sair do papel, outras eu simplesmente falhei, a maioria
delas eu sequer lembrei que existia.
Eu sempre acreditei que estabelecer objetivos e planejar uma
rotina me ajudariam a ter uma vida mais feliz. Mas desde que parei para pensar
sobre o significado de "autocuidado", desenvolvi a tese da
"redução de danos" para tudo o que me circunda.
Funciona mais ou menos assim: Não consegui me alimentar bem
durante a semana inteira? Não tem problema, pelo menos comi saudável por dois
dias. Vida que segue. Afinal, 50% é melhor que nada, ou como me disse a Cecília
Barretto, especialista em neurociência e psicologia positiva, "há beleza
no intermediário".
Mas foi ao fazer o balanço de 2018 que me peguei
questionando: afinal, o que é melhor, ter metas ou não?
Eu acredito que deve ter pessoas que funcionam melhor sem
elas. Que conseguem lidar muito bem vivendo um dia de cada vez e não sentem a
necessidade de um "compromisso" a longo prazo para se sentirem
"no caminho certo". Mas eu diria que o padrão da nossa sociedade é
ter metas. E muitas delas.
Só que o fato de ter metas não significa que sabemos lidar
com elas. Como estabelecer, o que priorizar e como realizar cada uma das metas
ao longo do tempo... bem, isso é outra história.
Conversei com Cecília Barretto, especialista em neurociência
e psicologia positiva, sobre como desenvolver um plano para 2019 que realmente
funcione. Aqui estão algumas dicas:
Em quais momentos a meta se torna um problema?
Quando a meta for inalcançável, se ela é muito desafiadora,
se está muito além do que a pessoa pode alcançar.
"Um exemplo: meu noivo colocou uma meta de ler 30
livros esse ano, mas ele trabalha o dia todo e tem um tempo limitado para ler.
Na época, eu avisei que esse número talvez tenha sido muito alto, mas ele disse
que era plausível. Já eu, que praticamente trabalho com a leitura, porque eu
sou autodidata, coloquei como meta ler 12 livros esse ano. Ele até brincou
comigo e disse que eu estava sendo pouco desafiadora. O que aconteceu? O meu
noivo deve ter lido apenas 3 livros esse ano. Se ele tivesse estabelecido 10
livros, talvez ele tivesse conseguido", compartilha a especialista em psicologia
positiva.
De acordo com o relato, o que aconteceu com ele é que, ao
perceber que não ia conseguir atingir o determinado ritmo de leitura, ele se
deparou com aquele efeito "foda-se", que é literalmente uma
"barreira" e tem a ver com quando você chega a um estado total de
desânimo porque você percebe que aquilo que você tinha estabelecido é
totalmente inalcançável.
Ou seja, é melhor ter uma meta mais palpável do que ser tão
ambicioso e acabar não realizando nada.
Mas afinal, o que é uma meta?
Outra questão muito importante é entender o porquê da meta.
A gente gosta de pensar que uma meta é apenas um resultado. Mas ela vai além. É
importante você entender o propósito daquela meta, o que está para além de um
objetivo específico.
"Quero emagrecer 10kg." Ok, vamos lá. Você tem
essa meta porque quer atingir um determinado peso na balança? O que isso diz
sobre a sua autoconfiança? O que ela tem a ver com os padrões que são impostos
em nossa sociedade? E com a sua saúde? Você quer isso por você ou para que te
aceitem de determinada maneira?
Para estabelecer uma meta, primeiro você tem que ter clareza
de qual aspecto de sua vida está envolvido naquela meta. Uma meta sempre surge
de uma insatisfação com algo. O primeiro movimento é o de a pessoa olhar para a
vida dela como um todo e analisar onde é que estão as insatisfações.
"Essa capacidade realista de olhar para o futuro é muito
importante".
Cecília Barretto, especialista em psicologia positiva
Já tenho uma meta, mas como realizá-la?
Todo mundo sempre quer mudar um milhão de coisas. Todo mundo
anda meio insatisfeito com as suas próprias vidas. Todo mundo quer melhorar.
Mas a gente sabe que esse processo não é fácil. Então, antes de estabelecer as
metas, é legal priorizar quais os aspectos que estão precisando de uma melhora significativa.
É a sua saúde? Carreira? Casa? Financeiro? Tem sempre um aspecto gerando mais
insatisfação que o outro.
"Não pense que você vai resolver tudo no ano de 2019.
Então priorize um aspecto, estipule o resultado que você quer alcançar naquele
aspecto e é isso", diz Barretto.
Mas o trabalho não termina quando a gente estabelece a meta.
Depois disso, é preciso pensar em "como" vamos realizá-la. A partir
daí, você precisa traçar planos de ação.
Nesse momento, você precisa entender quais são as partes
burocráticas (se inscrever em um curso, comprar uma agenda) e quais são as
partes comportamentais (estabelecer um hábito, não se sabotar, desenvolver uma
nova competência). Tudo isso diz respeito ao "como" eu vou fazer para
chegar aquele resultado.
Quão disposto eu estou para me dedicar?
As pessoas pensam muito naquilo que elas querem. Mas, muitas
vezes, a frustração surge porque ninguém se faz uma pergunta mais honesta: O
que eu estou disposto a fazer?
"Imagino que muitas pessoas querem emagrecer, comprar
uma casa ou ser promovido. Mas o que elas estão dispostas a passar por aquilo
que é preciso ao se dedicar para a meta? Porque aí surge um movimento de você
analisar se vale a pena criar expectativa sobre essa meta, ou se de repente ela
não faz muito sentido para você agora. E tudo bem. Não precisa se enganar. Eu
adoraria ter esse resultado, mas não estou disposta a passar por isso. Beleza,
tchau, próxima meta. Essa capacidade realista de olhar para o futuro é muito
importante", acrescenta a especialista.
Seu plano para 2019 pode e deve ser flexível
É ilusão achar que você vai dar conta de todas as suas metas
em uma semana. Quando falamos em concluir objetivos, estamos falando realmente
de um planejamento mais a longo prazo. E o que pode acontecer nesse caminho ao
longo de 1 ano? Tudo.
Pode ser que o que você imaginou que era importante para
você, simplesmente deixe de ser. Ou ainda, pode ser que o cenário mude e você
precise rever as suas metas. Pode ser que você ache mais difícil do que você
imaginava. Ou mais fácil.
"Eu não gosto da ideia do 'Plano de 2019' que você faz
no dia 1º de janeiro e guarda na gaveta. Eu gosto da ideia do 'Plano de 2019'
olhando para mim a cada semana. Por que aí eu consigo olhar para ele e dizer:
realmente faz sentido; ou não, preciso rever", explica a consultora.
O que a gente precisa ter, então, é um plano de metas que
seja vivo. Que eu possa ser atualizado e não aquela coisa inflexível. A gente
precisa adaptar o nosso planejamento à nossa realidade, e não o contrário.
Se não alcancei as metas de 2018, como lidar com a
frustração?
"As pessoas tendem a ser muito 8 ou 80, mas eu gosto de
falar da beleza do intermediário", explica Barretto.
Isso significa pensar que você tem mais chances de alcançar
100% da meta se, quando você chegar nos 50%, estiver satisfeito e vibrando pela
sua "pequena" vitória. Então, a ideia é que, ao longo do processo,
você acompanhe o seu desempenho e celebre a sua evolução.
"Se você tiver com um desempenho abaixo do esperado, é
o incentivo para que você possa procurar novas estratégias. Esse acompanhamento
é importante justamente para você ir se conhecendo."
Na maioria dos casos, a frustração vem para ensinar algo à
gente. As emoções negativas, em geral, trazem aprendizados se estivermos
dispostos a olhar para elas. Uma frustração serve para a gente analisar,
também, o que poderia ser feito diferente.
"É por isso que é preciso lidar com a frustração, ao
invés de simplesmente escondê-la debaixo do tapete", defende a
especialista."É preciso criar a coragem de se enxergar e perceber o que
poderia ter feito diferente."
Por outro lado, não adianta ficar se martirizando. Se você
não alcançou o que você tinha planejado, é mais importante que você siga em
frente. É preciso colocar aquilo como encerrado, enxergar que você aprendeu o
que precisava aprender e fez o que podia ter feito.
É preciso, então, exercitar também essa capacidade de
superar a sua falha e seguir para o próximo desafio. Pode não ser tão
agradável, mas é importante.
"Quando a gente se frustra com nós mesmos, com o nosso
resultado, porque é normal - todo mundo falha -, eu gosto de pensar o que eu
falaria se fosse outra pessoa passando por isso. Eu seria tão dura? Eu seria
mais compreensiva? Eu mostraria a ela que ela ainda tem novas chances? Eu
mostraria a ela o que poderia ser melhorado e quais são as oportunidades agora?
Então isso pode ajudar, porque muitas vezes temos a tendência de sermos os
nossos primeiros carrascos."
O que a gente precisa ter, então, é um plano de metas que
seja vivo. Que eu possa ser atualizado e não aquela coisa inflexível. A gente
precisa adaptar o nosso planejamento à nossa realidade, e não o contrário.
Alcancei as minhas metas, logo sou feliz?
Quando falamos em felicidade, existe uma tendência natural
em perseguir o sucesso para ser feliz. E, na lógica que rege a nossa sociedade,
muitas vezes o sucesso está atrelado à carreira profissional.
É mais ou menos assim: eu preciso realizar tudo isso aqui
que envolve a minha carreira, que é o meu sucesso, e quando eu alcançar isso
aqui será ótimo, porque aí eu serei bastante feliz. Então, a felicidade se
torna uma espécie de vantagem competitiva que faz as coisas darem certo.
Mas isso não é 100% verdade. Antes de buscar o sucesso, a
felicidade está em cuidar de algo muito particular que é o seu bem-estar.
"Se você cuida de você, do básico, do essencial, para
você ser uma pessoa mais feliz, você tem muito mais chance de que as suas metas
que envolvem outros campos de sua vida, e não só a carreira, darem certo",
explica Barretto.
As pessoas felizes realizam mais. Elas estão mais
abastecidas de energia, de humor, elas se relacionam melhor, são mais
criativas.
"O nosso bem-estar é o adubo para o terreno. Sem ele,
não adianta você ficar pensando em entregar mais no trabalho, ganhar mais
dinheiro, ou o que quer que seja. Quando a gente fala em felicidade, eu penso
muito no equilíbrio. Como se a nossa vida fosse aqueles vários planetinhas
rodando e que precisam estar minimamente alinhados. Óbvio que ninguém consegue
estar com tudo perfeito, mas você tem que estar minimamente cuidando deles.
Nenhum pode estar 100% negligenciado", completa.
*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas
do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo.
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Texto e imagem reproduzidos do site: huffpostbrasil.com

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