Publicado originalmente no site da revista TRIP, em 19.12.2018
Dores de Crescimento
Fernanda Lima questiona os próprios privilégios, empresta
sua voz a diferentes causas e lida com as consequências dessas escolhas
Por Milly Lacombe
O porteiro avisa que Fernanda Lima está subindo e antes de
desligar pergunta: “Vocês são amigas?”. Respondo: “Não nego nem confirmo”.
Felipe ri. Fernanda e eu somos colegas de trabalho em Amor & sexo, programa
do qual sou roteirista, mas o motivo da visita seria a entrevista a seguir.
Entrevistar amigas é tarefa dura: você persegue uma
inalcançável imparcialidade enquanto tenta encontrar doses jamais reveladas de
verdades. Nessa manhã de uma segunda-feira de novembro, tocaríamos em temas
sensíveis, passearíamos por assuntos de alto teor emocional, que apenas a
intimidade permite, e Fernanda traria verdades.
A apresentadora está no olho do furacão, alvo daqueles que
se opõe à batalha contra o racismo, o machismo e a homofobia, bandeiras que
decidiu levantar quando entendeu que a luta política, como explicou o filósofo
Vladimir Safatle, é uma luta sobre formas diferentes de vida que se organizam a
partir de afetos. Os afetos a fizeram sair do conforto: bonita, rica,
bem-sucedida, casada com “o homem perfeito”, dois filhos. Por que não deixou
para lá as injustiças sociais e foi dançar a fama?
Fernanda é, como todos nós, um ser humano em transformação.
A mulher que conheci em 2005, durante a entrevista que seria nosso primeiro
contato, ganhou consciência social e decidiu ir à luta. A mulher que conheci em
2005 era uma celebridade; a de hoje é uma ativista que escapou, com todos os
benefícios e prejuízos que o ativismo traz, da bolha protetora que a
posteridade oferece.
Trabalhando desde os 14 anos como modelo, depois como
apresentadora dos programas Mochilão e Fica comigo na MTV, aos 41 anos enfrenta
um tsnunami de ódio conservador.
Quando começamos a pensar esta temporada, em 2017, durante
uma imersão criativa em seu sítio em Teresópolis (RJ), me lembro do momento em
que ela, com uma taça de vinho no jardim, disse: “Guria, te prepara porque essa
vai ser nossa temporada mais política. Vem chumbo pra cima da gente”.
E chumbo veio. Ausente de um olhar criterioso, os números de
audiência viram argumento para que se construa uma falsa narrativa de fracasso.
O machismo se agarra a esse dado e rasteja sorrateiramente por entre as
frestas. Amor & sexo ajuda a conduzir o debate público, causa desconforto,
trazendo à luz temas fundamentais à dignidade humana. Cronistas usam o programa
de televisão como tema, a internet consagra a pauta, Fernanda é assunto de
mesas de bar a palcos acadêmicos. Só por isso já não seria um sucesso?
Sororidade
Fernanda não é apenas uma voz da resistência; ela amadureceu
para ser a mulher à mesa de criação, a chefe que orienta e provoca, a loira
gostosa que rompeu o contrato do bela-recatada-e-do-lar.
Qualquer ser humano acordado sabe que quem não está confuso
não está atento. Estamos em busca de alguma compreensão, em intensa
investigação e em barulhenta transformação. Fernanda reconhece o momento e abre
a guarda. Como o poeta Manoel de Barros, ela poderia dizer: “Me procurei a vida
inteira e não me achei; pelo que fui salva”.
Fernanda Lima está sentada no tapete da sala de meu
apartamento. Dando um gole no chá de hortelã que acabei de trazer diz: “Fala,
guria. O que tu quer saber?”.
Nas próximas páginas, um ser humano entregue à procura por
ela mesma. Como nada no universo pode ser mais erótico do que uma mulher
suficientemente corajosa para se mostrar vulnerável e, ao mesmo tempo, inundada
de atitude, lidem como puderem com o erotismo contido a seguir.
Trip. O que fez você começar a se manifestar politicamente?
Fernanda Lima. Minha vida mudou quando me dei conta dos meus
privilégios, e nem sempre isso foi óbvio. Sou branca, sulista, heterossexual...
São muitos lugares de privilégio. Sei que a vida de todo mundo tem desafios,
mesmo as privilegiadas, mas quando tu entra num restaurante e percebe que quem
está te servindo é sempre um negro, quando tu está em um grupo e todo mundo faz
piada de gay e tu nota que alguém ali pode se ofender, quando tu saca que tem
mulher falando e homem desconsiderando a opinião dela, ou mandando um “você não
tá entendendo nada”, a coisa muda. Perceber e calar é ignorar as estatísticas
que contam como mulheres, gays e negros são assassinados. Privilégio gera
oportunidade, e oportunidade gera responsabilidade. Foi essa consciência que
mudou tudo na minha vida.
Como era antes? Não entendia a opressão como entendo hoje,
como uma estrutura de poder. Ia desafiando intuitivamente as regras dessa
sociedade patriarcal, mas sentia uma culpa, nem eu sabia do quê. Depois que comecei
a me informar sobre o feminismo, percebi que sentir culpa faz parte dessa
estrutura em que o homem tem a última palavra e a mulher, se “muito bem
representada”, é relegada a frases como: “Por trás de um grande homem tem
sempre uma grande mulher”.
Como faz para romper esses padrões? Tudo é feito para que a
gente não enxergue as estruturas de poder. Trabalho desde os 14 anos e já me vi
em situações em que me sentia julgada, objetificada e até assediada, mas não
via a opressão. Dia desses, li que uma mulher que nunca se sentiu oprimida é
porque viveu a vida distraidamente. Eu andava distraída.
E o que sente lendo as mensagens de ódio que têm chegado?
Tristeza. Entendi que ódio é um tipo de afeto, um afeto violento, que resiste
aos fatos e à transformação. Não acredito que o ódio destilado nas redes
traduza o que essas pessoas são. Mudar estruturas de poder exige rupturas, e o
ser humano tende a resistir à mudança, por medo do desconhecido, medo de ser
livre e da responsabilidade que a liberdade traz.
O que você diria a essas pessoas? Eu diria que esse medo
passa e vira coragem, e que coragem é agir com o coração.
Essas mensagens remetem ao episódio em que você foi acusada
de racismo? [Em 2015, quando um shopping center no Rio soltou nota dizendo que
babás deveriam entrar nas dependências trajando branco, Fernanda postou uma
foto das babás que trabalhavam em sua casa, e eram negras, para dizer que elas
não usavam roupas brancas. Na época, foi chamada de racista.] Ser chamada de
racista talvez seja o pior xingamento que alguém pode receber. Esse episódio me
doeu porque eu nunca me considerei racista. Quando postei a foto das gurias sem
uniforme, pensei que estava combatendo a polêmica da obrigatoriedade da tal
roupa branca, que tinha me deixado indignada. Só que me manifestei de forma
ingênua, sem perguntar para as pessoas que estavam naquela luta se a ação era
coerente.
Como você entendeu que tinha sido ingênua? O entendimento é
um processo, né? Quando conheci a Djamila [Ribeiro, filósofa feminista],
perguntei onde eu tinha errado e ela me respondeu que o erro estava em produzir
esse tipo de imagem, comum na época da escravidão. De lá pra cá, fiquei mais
atenta, entendi que o racismo é estrutural e que mesmo não concordando com ele
a gente acaba reproduzindo a opressão em pequenas, mas nocivas, atitudes.
Lembra de outras situações como essa? Fui mãe de gêmeos com
30 anos, a gente vivia longe das nossas famílias, o Rodrigo [Hilbert, seu
marido] estava fazendo uma novela... Procurei ajuda e ela veio embalada por uma
estrutura-padrão de uma sociedade branca: babás vestem branco. Isso me causava
um certo incômodo, mas não sabia o que me incomodava, achava que o branco
reproduzia a ideia de enfermeiras, estava desesperada com o novo desafio e
alheia à estrutura racista. Nessa época, tiraram fotos minhas nas ruas com as
crianças e a babá de branco, fotos que usam agora para tentar desqualificar meu
discurso. Eu sofri e sofro, mas isso me fez aprender.
O quê? A enxergar essas estruturas. Toda a aprendizagem é
maravilhosa, mas ela nem sempre vem da maneira leve e sublime que a gente
gostaria. Dói crescer porque a gente confronta pensamentos interiorizados que
nem a gente sabia que tinha. Hoje sei que as roupas brancas em babás são um
símbolo que diferencia casta, manifesta hierarquia e que isso incomoda porque
remete à escravidão associada ao trabalho doméstico. É um símbolo usado para
deixar claro quem está “abaixo” nessa escala. Quando entendi isso, sugeri que
as gurias usassem a roupa que quisessem. E foi nessa pegada que mais tarde fiz
a foto “elogiando o grau das minas”.
Quem te ajudou a entender? Mulheres negras que tiveram
paciência para me ensinar e que até hoje me acompanham nessa aprendizagem.
Do que te acusam normalmente? A maior acusação é: “Luta
pelas minorias, mas tá morando nos Estados Unidos”. Pois é, estou morando nos
Estados Unidos e esse sempre foi um projeto de vida do Rodrigo e meu; queria
ter a experiência de levar meus filhos à escola e ser anônima. Desde muito
pequenos os meninos já reconheciam os paparazzi na rua. Eles diziam:
“Olha
lá um papagaio, mãe!”[risos]. Por causa da profissão
dos pais, eles estavam sendo privados de uma infância sem rótulos.
“Privilégio gera oportunidade, e oportunidade gera
responsabilidade. Foi essa consciência que mudou tudo na minha vida”
Não acha que pode parecer white people’s problems? Pode
parecer aquele drama de classe média, e de fato é, mas morar fora não me tira o
direito de participar das lutas em que acredito para construir um país melhor.
Minha casa sempre foi e vai ser o Brasil. Trabalho no Brasil, pagos meus
impostos no Brasil. O pior seria se eu morasse fora e ficasse calada, não?
Tem muita gente calada. Acho que cada um escolhe suas
batalhas livremente, só não compactuo com a ideia de que para lutar pelas
minorias políticas você tem que ser minoria. Temos que respeitar o lugar de
fala, mas a luta por justiça social é responsabilidade ética de todos; o
compromisso deveria ser o de criar oportunidades para que todas as pessoas
tenham os mesmos acessos. Se você tem privilégios, tem que ter muita
responsabilidade, sim.
O problema começa quando a gente se manifesta? Esse Amor
& sexo tá incomodando, eu sei. Eu me posicionar incomoda. Falar contra o
racismo, contra o machismo, contra a homofobia incomoda. Aí eu pergunto: quem
se incomoda com lutas tão humanas? Tem críticas de todo o jeito. Tipo: “Só tem
gente chata no seu programa!”. Ah, tá. Quando a mulher opina não é agradável,
né? Mulher tem sempre que concordar para não parecer chata? E a travesti
inteligente incomoda? Ô se incomoda. A negra que fala com propriedade incomoda?
Ô! “A gente estava aqui ‘de bouas’ e agora vêm vocês com essa necessidade de
achar o clitóris...” O tesão da mulher incomoda? Incomoda, e incomoda pessoas
que nunca imaginei que se incomodariam. Mas aprendi que uma coisa é eu me
manifestar sobre isso; e outra é eu passar o microfone: a importância de a
gente ouvir outras histórias.
Você se arrepende de ter se posicionado? Não. A gente tá
falando de coisas que precisam ser faladas.
O que você acha dos comentários sobre a audiência? A
audiência não deve ser preocupação do artista. A gente faz o que pode: pensa,
escreve, rala para dar o melhor para quem vai assistir. E se diminuiu em
números pode ter aumentado o barulho no debate público, mas não cabe a mim
falar de audiência.
Como estabelecer um diálogo? Não existe diálogo enquanto a
gente só escutar a própria voz. É preciso ouvir as histórias daqueles que
sempre foram calados, perceber outras realidades.
Você se transformou muito nos últimos anos? Saí de casa bem
cedo, morei em São Paulo, no Japão, em Milão, na Suíça... Isso já expande o
olhar. Quando tu volta, o sentimento de empatia com teu país e com as pessoas
vem mais fortalecido. Mas o Amor & sexo é minha maior escola, e é isso que
tento dividir com o público que acompanha minha desconstrução desde a MTV.
Quem tem te influenciado? Eu digo: o mundo. Esse mesmo mundo
diz o tempo todo para onde tu deve ir; se tu estiver desatenta, segue esse
caminho e, se for cheia de privilégios, como eu, talvez tudo dê certo. Mas o
que é certo? Certo é manter vantagens ou lutar para que todos tenham as mesmas
vantagens?
Deve ter gente que acha que alguma coisa deu errado na sua
educação. Guria, eu poderia ter sido uma Barbie. Sou uma mulher dentro dos
padrões, tenho um maridão, dois filhos, vivo bem e, se seguisse o recado do
mundo, estaria bem quietinha comprando uma casa em Portugal e ninguém me
esculhambando nas redes sociais. Mas eu disse para o mundo que não vou por aí.
E não acho que sou um ser humano especial por fazer isso. Só estou fazendo o
que me parece certo.
O que fez você olhar para além do seu confortável mundo?
Dentro dos meus privilégios não se fazia necessário entender muitas coisas, não
fui intimada a participar desse assunto porque a água não batia na minha bunda.
Só mesmo com tomadas de consciência eu mudei. O feminismo abriu uma teia. É
espantoso e assustador, num primeiro momento, mas é maravilhoso porque não vou
passar a vida ignorando as necessidades de tantos.
O que te move? Ensinar meus filhos a pensarem com a própria
cabeça, propor experiências significativas. Quero me orgulhar dos humanozinhos
que estou ajudando a educar. Quero ser feliz, mas sem esquecer dos que me
cercam, daqueles com os quais esbarro nas ruas, no sinal ou no hospital.
Preciso lembrar que tenho o privilégio de poder pagar um plano de saúde e que
tem muita mãe sem isso.
O que levou você a pensar de outra forma? O feminismo. Os
últimos três anos foram determinantes. Há seis anos, eu dizia que não sofria
com o machismo. Eu realmente achava que não sofria com o machismo. E aos
poucos, com a campanha do primeiro assédio e todas essas coisas, fui me
lembrando de episódios. Hoje sei que não existe mulher que não tenha sofrido
assédio, mas muitas negam, como eu negava até ontem.
Essa é uma viagem sem volta? É, e quando digo isso eu não
quero julgar nenhuma mulher, mas, no momento que a gente toma consciência, só
resta dar a mão àquelas que ainda não tiveram a mesma oportunidade. A gente é a
revolução que faltava [risos]. Podem jogar pedras, como faziam com as nossas
irmãs do passado; elas morreram, mas as ideias delas, não. O tempo que dura uma
revolução ninguém pode prever, mas o resultado um dia vai ser vivido por muita
gente.
Por que acha que te atacam? Levo muito em consideração a
força das estruturas de poder. A gente começou a pensar essa temporada de Amor
& sexo há mais de um ano e eu nunca poderia imaginar esse cenário de agora.
Havia polarização, mas não com esse nível de hostilidade. Guria, a gente aborda
os mesmos temas desde 2012, por que agora as pessoas estão criticando?
Você interage com as pessoas que te atacam? Às vezes
pergunto: “Você é contra gays?”. E elas: “Não”. “É racista?” “Não.” “É contra
justiça social?” “Não.” “Mas então por que tu tá criticando?” Nunca ouvi uma
resposta que me convencesse. Só posso pensar que essas estruturas de poder
estão internalizadas a ponto de causar uma espécie de confusão entre o sentir e
o dizer, uma confusão que fantasia que feminismo é contra o homem, que justiça
social é pauta de determinado partido, que a lgbtfobia foi inventada pela
esquerda e que o racismo se inverteu contra o branco. Essa surdez é um tampão
de ouvido que muita gente tem medo de tirar. Eu, se pudesse, chegaria a cada
uma dessas pessoas, daria uma abraço e diria: “Não tenha medo, somos irmãos”. Não
foi isso que Cristo ensinou? Então por que estamos brigando contra a felicidade
do outro?
Estamos evoluindo? A gente está, mas tem muito medo em
volta. Quando a gente vê feministas negras sofrendo nas redes sociais, a gente
se pergunta: “Que ódio é esse?”. É medo. Como as pessoas têm coragem de atacá—
las assim? O que autorizou essas pessoas a se manifestarem assim? Medo. Por que
comentários tão perversos vindos de mulheres contra mulheres? Medo.
Mas sempre foi assim? No mundo em que vivíamos, as minorias
não ameaçavam, elas não tinham voz. Hoje as minorias não se calam, então a voz
que oprimia sussurrando agora grita. Essa opressão está com os dias contados,
mas antes de morrer ela vai dar um último grito.
Como você passa esses valores para os seus filhos? Repito
essas coisas. Agora chamei eles e falei: “Vamos pensar antes de falar palavrão?
Quando a gente fala palavrão, a gente só xinga as mulheres”. Chamei o Rodrigo,
as crianças e falei para eles e para mim mesma: “Bora prestar atenção no que
estamos falando”. Agora tento usar “canalha”, “mau caráter” [risos]. O Rodrigo
falou: “Nossa, nunca tinha pensando nisso”. A gente não se dá conta.
“Eu poderia ter sido uma barbie. Se seguisse o recado do
mundo estaria bem quietinha comprando uma casa em Portugal”
O Rodrigo tá te acompanhando nessa jornada política? A gente
muda junto, né? Hoje ele é um homem que entende e apoia o feminismo. Tem horas
que o Rodrigo tá me pedindo pra falar um pouco menos de política e mais de amor
em casa [risos]. Aí eu digo: tudo isso é amor [risos].
Outro dia, ele postou a favor do #elenão, você entrou na
rede dele e escreveu: “Por isso que te amo tanto”, e foi 10 mil vezes mais
agredida do que ele estava sendo. Esse episódio serviu como uma tomada de
consciência, ele enxergou o privilégio em que está inserido. O tempo inteiro o
mundo te dá exemplos de que o que está acontecendo não é mimimi, é um fato. É
só andar atento e você vai ver que existe racismo, machismo, homofobia. Se você
tomar consciência, tudo passa a te abalar. A ignorância protege a gente de
muitas dores, mas sentencia a destinos que nós nem temos consciência. Se livrar
da ignorância é voltar a ter algum tipo de gerência sobre o destino. Você pode
optar por dois mestres: a ignorância ou a consciência. O segundo é mais
interessante e bonito, mas exige que você viva praticando o “orai e vigiai”:
todo dia você constrói e todos os dias você pode destruir. É preciso estar
atento e forte.
Qual é o seu propósito nisso tudo? Meu propósito virou a
pauta do Amor & sexo. Não consigo pensar em outra coisa. Com o boicote, o
programa ganhou ainda mais importância porque tu pensa: “O que é que estamos
dizendo que eles fazem tanta questão de não ouvir? Como a gente não vai falar
de uma coisa tão importante como a execução da Marielle?”. Tenho conversado com
a Mônica [Benício, viúva de Marielle] e as coisas que ela me conta são tristes
demais. Faz oito meses e a gente não sabe de nada ainda. Como assim? E os
ataques que ela tem sofrido? A mulher dela foi assassinada e ela é atacada? Ela
é ameaçada? Oi? Eu digo: “Como tu tira forças para lutar, guria?”. E ela: “Se
você, com seus privilégios e voz, abaixa a cabeça, como você vai dar forças
para que outras sigam na luta?”. Falei para ela meditar, é o que me coloca no
eixo. Se tu sente que tem mais coisas entre o céu e a terra, tu consegue se
alimentar de uma força maior.
No meio disso tudo, o restaurante do qual você é sócia, o
Maní, foi atacado porque a Helena [Rizzo, sócia e chef] se manifestou a favor
do #elenão. A Helena foi atacada violentamente porque se manifestou dando um
dedo em riste, que é um símbolo fálico, apoiando o #elenão. Será que esse
gesto, usado cotidianamente por qualquer um na rua, é mais violento do que o de
uma criança sendo ensinada a imitar uma arma com as mãos? As mesmas pessoas que
exigem respeito à opinião delas e juram amor à democracia se comportam desse
jeito tão violento, quase tirânico. Qual a intenção? Varrer do comércio quem
pensa diferente?
Você duelou com a ideia de se juntar ao movimento #elenão?
Muita gente diz que a manifestação não teve efeito. Pensem o que quiserem: foi
das coisas mais lindas que eu já vi na vida. Vi mulher passar batom na boca de
mulher. Vi mulher se dando a mão, se olhando nos olhos, se encorajando. Guria,
eu nunca tinha ido para a rua. Foi poderoso. Eu me emocionei demais.
O posicionamento político afetou sua carreira? Não, porque
as marcas que me solicitam estão se colocando ao lado dos direitos humanos, da
inclusão, de um mundo ecologicamente correto e livre. Guria, as pessoas estão
andando nas ruas de cabeça baixa porque estão ferradas e endividadas. Quase
toda família rachou, a minha inclusive. Tem um choque de gerações grande. Todas
as pessoas que eu conheço saíram do grupo da família, amigos viraram desafetos,
muita gente se sentindo abandonada... Eu acho que vai ter uma onda positiva
disso tudo. Textos, estudos, análises. Mas como a gente começa a se curar?
Como sua família lida com o seu ativismo? Sem entender muito
meus motivos. Tem gente que me acha superingênua... Tipo: “Estão fazendo a
cabeça dela, coitada” [risos].
“A gente começou a pensar essa temporada de Amor & Sexo
há mais de um ano e eu nunca poderia imaginar esse cenário de agora”
Qual é o seu partido? O meu partido é um coração partido,
como diria o Cazuza. Mas as ilusões não estão todas perdidas. Fui criada na
base do “política, futebol e religião não se discute”. Se não se discute, como
tu forma opinião? Sempre ouvi que político era a pior raça do mundo, tudo
ladrão etc. e tal. Acreditei em um salvador da pátria, aquele que iria fazer o
que nem a gente sabia que era bom pra gente. Nesse processo, percebi que não
existe salvador da pátria, que, se não nos organizarmos como sociedade, não
vamos nos salvar. Não tenho partido, mas tenho valores que acho importantes em
uma democracia e, dentro do que o cenário me apresenta, vou escolher aquele que
está mais perto desses valores. Vou votar e cobrar, não vou deixar meu país
correr frouxo, como um dia já fiz. Agora elegemos mais mulheres, tem muito
jovem se interessando por política... Cidadania é coisa séria, imagina se eu
tivesse aprendido isso na idade dos meus filhos.
Tem alguma solução para essa divisão marcada por tantos
ódios? A gente precisa ser afetado por coisas que vão além do medo, afetado por
amor. E o amor não é um afeto só doce e delicado, é um afeto que tem mais
potência do que o ódio, ele revoluciona, quebra estruturas. Somos todos pais e
filhos de alguém, amigos de alguém e não vai ser essa polarização que vai
separar a gente. O amor vai chamar nossa consciência e vamos transformar juntos
esse país. Desejo ao senhor presidente Jair Bolsonaro iluminação para que ele
governe para todas e todos, sem exceções. Essa vai ser a grande prova de amor
dele com o país.
As questões políticas têm afetado o seu dia a dia? Hoje, sei
que sair de casa e botar o pé na rua já é um ato político. A maneira como tu te
veste, como tu te posiciona, como tu conversa com o porteiro ou com o dono do
restaurante: tudo é política. Não tenho mais como dar um passo atrás em relação
ao meu ser político.
Tem um preço isso, que é o de a gente passar por chata. Às
vezes sento com amigos e alguém diz: “Não vamos falar de política”. Não? Então
não dá pra gente começar a conversar, né?
O que sente quando pensa na Fernanda de dez anos atrás? Há
dez anos, eu estava tendo filho, estava em mim, pela minha sobrevivência, pela
minha casa própria, pela construção da minha família, do que eu considerava um
ideal. Dez anos atrás, eu achava que não sofria machismo, que as pessoas faziam
por merecer seus destinos… Era uma pessoa mais voltada para as minhas
realizações pessoais.
Você acredita em meritocracia? Eu trabalho desde que sou
adolescente, por opção, e não necessidade. Modelei, morei fora, construí
relações, cavei espaço na TV, teve uma longa e dura jornada aí e eu achava que
era tudo por merecimento. Há dez anos eu estava usufruindo essas conquistas:
morava no mato e estava feliz. Não conseguia olhar para o lado e acho que é
isso que acontece com muita gente. A vida te encoraja a focar em você e nos
seus. Os meus privilégios me fizeram chegar num lugar onde pude me aquietar, me
estabelecer como mãe, como mulher, como profissional e aí consegui olhar para o
lado e falar: “De que adianta eu ter essa vida linda se eu olho para o lado e
vejo uma pessoa jogada ali, enrolada num cobertor verde na porta do prédio?”.
Foi nessa hora pintou a chance de falar de sexo na TV? E eu
achei que seria incapaz de fazer isso, achava que não tinha o vocabulário e de
repente fui vendo o frentista me pedindo para abrir o vidro do carro para me
contar que a mulher dele não gostava de sexo, o porteiro me chamar pra dizer
que tinha desejo em homem e que não sabia como lidar... Aí eu falei: “Meu Deus,
que missão eu tenho aqui!”. Sei que sou uma pessoa melhor hoje, mas muita gente
do meu círculo deve me achar chata: “Lá vem ela falar de mimimi, de injustiça…”
[risos].
Como é esse processo de reconstrução? É um processo doloroso
de enfrentamento de uma série de medos e de coisas que eu tinha como certas e
que tive que colocar no chão. Desgasta? Ô! Hoje ensino meus filhos a falar de
política: “Vocês têm que entender o mundo em que estão inseridos, vocês têm que
reconhecer o privilégio para poder ter empatia”. Não existe eu querer um mundo
melhor só para os meus, existe um mundo melhor para todos.
Que tipo de empatia pode-se ter pelos que te atacam? Eu até
entendo por que as pessoas me atacam. Parece que sou uma desertora daquela
corrente de reprodução de hábitos e costumes. “Como você pode trair essa
tradição de que a gente tem que ser conciliatória, de que a gente tem que
acatar e ser prudente?” Porque a gente não faz como nossas mães faziam quando a
situação fica complicada: fala com a mãe e ela, com jeitinho, convence o pai,
que manda em tudo. Não era essa a estrutura familiar? Aí aparece alguém
dizendo: “Vou fazer o que é melhor para você mesmo que isso te gere privação de
direitos”. Esse é um lugar familiar para todos e todas nós.
O que é o feminismo para você? É uma tomada de consciência
que pressupõe responsabilidade, coragem, afeto, solidariedade, atenção e
disciplina. É entender que não existe liberdade parcial. O que exclui o outro
vai virar prisão para você. Eu posso fazer tudo, mas não posso andar na rua
sozinha, e nenhuma mulher pode, porque existe um risco social.
Como comunicar essas coisas às crianças? Converso sobre
tudo. Outro dia alguém mandou um vídeo com conteúdo homofóbico, uma piada, e eu
vi os dois rindo. Chamei e expliquei por que não era certo rir. Aquilo que a
sociedade constrói como preconceito, dentro de casa você desconstrói. Mas essa
desconstrução, que envolve os próprios preconceitos que te habitam – porque
todos nós fomos formados por dezenas deles –, exige atenção e esforço. Todos os
dias. E para sempre.
Vamos falar sobre tudo. Uma das vozes mais importantes do
movimento negro no Brasil, a arquiteta e urbanista Joice Berth acha importante
a forma como Amor & sexo promove discussões junto à maior e mais diversa
audiência do país. “Passei a gostar mais ainda depois que a Djamila Ribeiro
entrou, porque ela traz assuntos que não eram tratados com tanta profundidade –
feminismo, questão LGBT, intersecção entre raças...”, explica. “Ela é didática,
simples e alcança todas as camadas.” A ativista lembra do estresse entre
Fernanda e militantes negros no episódio envolvendo suas babás, mas acredita
que ela cresceu a partir disso. “Ela se abriu para o entendimento, se aproximou
mais das pautas, e isso se traduz na maneira como ela lida hoje em dia com o
programa.” Há quem critique Fernanda por ocupar um lugar de fala que não lhe
pertence. “Vi uma explicação muito interessante [do filósofo] Mario Sergio
Cortella. Ele fala que há uma diferença entre falar ‘sobre’ algo e falar ‘de’
algo. Você pode falar ‘sobre’ todas as pautas, algo que presenciou, leu,
estudou, escutou. Agora, para poder falar ‘de’ alguma coisa, é preciso estar
dentro daquele contexto social.”
Não é só Amor & Sexo. A jornalista e crítica de TV
Cristina Padiglione entende a queda de audiência do Amor & sexo como
consequência de um momento turbulento associado a oscilações que a Rede Globo,
e não apenas o programa, tem enfrentado. “Essa última temporada enfrentou o
pós-eleição, Fernanda se manifestou pelo #elenão e teve uma onda de reações.
Mas acho que tem muito barulho em cima disso, não sei até que ponto essa queda
na audiência é consequência de um boicote. A audiência da Globo de modo geral
tem sofrido um pouco”, explica sobre a dificuldade enfrentada pelo programa
neste ano. “Eles tiveram nove programas que perderam a liderança. Não é uma
coisa normal.” Padiglione, porém, não acredita que a fórmula tenha se esgotado
e, como crítica de TV, enxerga a importância da atração para a grade da emissora.
“Eles anunciaram uma mudança interna de diretores e quem assume o
entretenimento [o jornalista Mariano Boni] tem o Amor & sexo no
guarda-chuva dele. Por aí, já imagino que existam planos de fazer mais
temporadas”, lembra. “Acho o programa muito corajoso na abordagem, mesmo não
atingindo todo mundo que alcançaria às 21 horas. Não temos programas falando de
sexo na televisão.”
Didatismo x dinamismo. “Acho o programa muito importante
para a TV aberta com a missão de discutir assuntos que, para muita gente, são
considerados tabus. É corajoso, nesse sentido”, diz o jornalista e crítico de
TV Mauricio Stycer, que entende a fórmula como necessária. “A televisão não
pode só oferecer o que o espectador quer ver, precisa mostrar coisas que ele
não está esperando. Ninguém vai morrer às 11 horas da noite por ver uma mulher
pelada ou um beijo entre dois homens.” Stycer, no entanto, acredita que o
programa poderia ser mais dinâmico. “Critiquei pelo excesso de didatismo,
brinquei que era o ‘telecurso do sexo’. Fernanda respondeu no próprio programa
que era mesmo, e necessário porque existe muita ignorância. Reclamei enquanto
espectador, porque para mim estava didático demais, mas respeito se ela tem
dados que mostram essa necessidade. Mas quando fica didático demais, se arrisca
a perder um pouco do público que não tolera tanto isso.” Stycer, no entanto,
não acha que isso seja razão para encerrar o programa. “Se a audiência caiu
porque as pessoas já sabem tudo o que está sendo dito, aí tudo bem o programa
acabar. Mas se a audiência diminuiu por conta dessa hipótese [de afastar quem
não concorda com o posicionamento], acho que é mais uma razão para ele
continuar. Não pode ceder.”
Caça às bruxas. “Há uma situação geral de caça às bruxas, em
um momento político muito complexo do país”, define a psicanalista Noemi Moritz
Kon, autora do livro Freud e seu duplo: Reflexões entre psicanálise e arte,
sobre as críticas sofridas pelo Amor & sexo. “Acho que é um programa
muitíssimo bom. Temos que continuar
complexificando os debates. Imagina se não tivesse sido feito todo o trabalho,
por exemplo, com a aids, com o uso de camisinha?” Falar sobre estes temas na TV
aberta é, na opinião da psicanalista, fundamental. “Não é porque não se fala de
sexo que as pessoas vão deixar de praticá-lo. Ao contrário, vão praticar de
maneira mais impensada, se colocando em risco. Colocando outras pessoas em
risco. A quantidade de casos com vínculos de violência que tenho recebido no
consultório está chamando minha atenção. Se a gente não lidar com o outro como
um ser que também deseja, que também tem seus direitos que merecem ser
respeitados, vamos ter uma ignorância e uma violência colossal entre nós.”
Texto e imagem reproduzidos do site: revistatrip.uol.com.br

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