Theodore Dalrymple: Bye bye Brasil em Paris
Ao se aproximar de uma cidade, a trupe circense já sabe: se vir aquelas "espinhas de peixe" - as antigas antenas de TV - sobre os telhados, ninguém vai ao espetáculo. Theodore Dalrymple para a revista Oeste:
O autor considera Paris a melhor cidade do mundo para o cinema, destacando suas pequenas salas que exibem filmes variados, embora muitas vezes em horários inviáveis para o público geral. Ele assistiu ao filme brasileiro "Bye Bye Brasil", de 1980, que retrata a adaptação de um circo ambulante às mudanças sociais e tecnológicas, como a chegada da televisão, que diminuiu o interesse pelo entretenimento ao vivo.
Paris é a melhor cidade do mundo para o cinema — ou, para ser mais modesto, a melhor que eu conheço, já que não posso afirmar ter visitado os cinemas de todas as cidades do planeta. Mas, se estou certo, isso é mais do que justo: o cinema, afinal, foi uma invenção francesa.
Basta dizer que Paris está cheia de pequenas salas que exibem filmes de todos os cantos do mundo. É possível assistir a um filme de um país diferente todos os dias da semana sem esgotar o que está em cartaz. O problema é que, para aproveitar isso de verdade, é preciso ser aposentado, ocioso ou crítico profissional de cinema, pois muitas dessas obras passam apenas uma vez, em horários absurdos, que impedem qualquer pessoa ocupada de vê-las.
Essas salas precisam ser subsidiadas. Várias vezes entrei em sessões em que eu era o único espectador ou estava entre três ou quatro pessoas no máximo, e os ingressos não são caros. Isso é um luxo para mim, que só preciso agradar a mim mesmo (e à minha esposa) quando estou em Paris. Mas se esses subsídios se justificam de verdade, eu não sei dizer. Que argumentos poderiam sustentá-los?
Ontem fui ver um filme brasileiro antigo, Bye Bye Brasil. Quando digo “antigo”, falo de 46 anos — embora 1980, o ano em que foi feito, ainda pareça ontem para mim. Não sei qual é o tamanho da fama desse filme no Brasil, nem como se mede fama em um país tão grande. Limito-me a dizer que a história acompanha a trajetória de um pequeno circo ambulante no final dos anos 1970. Enquanto o país se moderniza, os gostos mudam, e o que antes fascinava (e até pasmava) o público das pequenas cidades do interior deixa de interessar. O circo é obrigado a se adaptar.
Além de retratar as condições do Nordeste na época, o filme tem mais de um aspecto que me chamou a atenção.
O primeiro é que não há nada de remotamente político nele. Em tempos como os atuais, em que a temperatura política subiu em quase todo o mundo, isso chega como um alívio. Não sei se a ausência de qualquer comentário sobre a ditadura em 1980 foi fruto de prudência, medo, ou porque os realizadores queriam apontar mudanças mais profundas na sociedade, que vão além da política. O fato é que o filme mostra, com sucesso, que, dentro de limites bastante amplos, o que mais afeta as pessoas não é a política — apesar da paixão que o discurso e a disputa política sempre despertam. Em 1980, o Brasil mudava, como todas as sociedades que não são rigidamente totalitárias, sem nenhuma liderança centralizada, sem um comitê central de partido ditando os rumos.
O segundo aspecto, que torna o filme surpreendentemente atual, é o impacto da introdução de uma nova tecnologia na sociedade: no caso, a televisão. A pequena equipe do circo percebe que, onde a TV chega, o interesse pelas apresentações cai praticamente a zero. Ao se aproximarem de uma cidade, eles já sabem: se virem aquelas “espinhas de peixe” — as antigas antenas de TV — sobre os telhados, ninguém vai ao espetáculo.
A pobreza é tanta que a televisão muitas vezes é assistida de forma coletiva, mas atrai multidões e as hipnotiza completamente, ao mesmo tempo em que abre seus olhos para um mundo além daquele que sempre conheceram. O filme transmite uma ambivalência clara: vemos o início de um enriquecimento material, de uma vida melhor em termos concretos, mas também o começo de uma perda — a perda do encanto e da autenticidade do entretenimento ao vivo, substituído pelo abstrato, pelo distante, pelo virtual. Os truques do mágico da Caravana Rolidei já não espantam nem divertem um público que agora está vidrado em telenovelas e outros produtos de uma indústria urbana.
Isso é interessante porque a chegada do smartphone produziu efeitos semelhantes, talvez ainda mais profundos. Para muitos jovens, as relações sociais acontecem quase que exclusivamente por meio de plataformas digitais, e não cara a cara. Muitos se sentem constrangidos diante de pessoas de verdade. Quantas vezes já vi, em restaurantes, quatro jovens sentados à mesma mesa, sem conversar entre si, todos grudados nas telas dos celulares como se uma força invisível os prendesse ali. E se, por acaso, as pessoas com quem eles estão conversando pelo telefone aparecessem ali em carne e osso, eles imediatamente procurariam outras para “conversar” pelo celular.
O filme não é perfeito — aliás, só consigo lembrar de um ou dois exemplos de filmes perfeitos, assim como de romances perfeitos —, mas tem cenas comoventes. Uma delas, em especial, me tocou. Entre os artistas da Caravana Rolidei está Andorinha, um homem negro mudo e muito forte. Pelo interior do país, ele ganha dinheiro fazendo braço de ferro com desafiantes. Em uma cidade, porém, é derrotado por um homem ainda mais forte, e o veículo da caravana é perdido em apostas feitas na vitória dele. Após a derrota e suas consequências, Andorinha é encontrado chorando. Depois, some para sempre. Não só foi humilhado pessoalmente e teve seu orgulho destruído, mas também acabou com o ganha-pão de todos. O dono da caravana diz à trupe que não devem procurá-lo: ele não iria querer.
Isso me fez lembrar do conto magistral de Turguêniev, Mumu, em que um servo mudo cria um profundo vínculo afetivo com uma cadelinha. Sua patroa, cheia de caprichos, exige que ele se livre do animal porque não suporta seu latido, que lhe causa dor de cabeça. Em uma das cenas mais devastadoras da literatura, o servo afoga sua amada cadela e depois desaparece. Thomas Carlyle disse que esse conto era a denúncia mais poderosa já escrita contra o poder arbitrário. Eu não conheço nenhuma mais forte.
Havia outras quatro pessoas no cinema naquela quinta-feira, às 15h30, quando assisti a Bye Bye Brasil em Paris.
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Theodore Dalrymple é pseudônimo do psiquiatra britânico Anthony Daniels. É autor de mais de 30 livros sobre os mais diversos temas. Entre seus clássicos (publicados no Brasil pela editora É Realizações) estãoA Vida na Sarjeta, Nossa Cultura… Ou o que Restou Dela eA Faca Entrou. É um nome de destaque global do pensamento conservador contemporâneo. Colabora com frequência para reconhecidos veículos de imprensa, como The New Criterion, The Spectator e City Journal
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

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