segunda-feira, 18 de maio de 2026

Cannes: um espectro ronda os festivais

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 17  de maio de 2026

Cannes: um espectro ronda os festivais

Artistas deixaram de ter ambições estéticas e passaram a querer mudar a visão das pessoas e impor o próprio conjunto de ideias. Josias Teófilo para a Crusoé:

A 79ª edição do Festival de Cannes renovou o debate que aconteceu no Festival de Berlim do ano passado sobre cinema e política.

O presidente do júri do festival, Park Chan-wook, afirmou que arte e política não são incompatíveis, desde que a mensagem seja expressa com valor artístico.

Demi Moore, também integrante do júri, defendeu que artistas não deveriam ser prejudicados por opiniões políticas, dizendo que a autocensura sufoca a criatividade.

Esse debate iniciou-se ano passado no Festival de Berlim, o mais politizado do mundo. O diretor alemão Wim Wenders provocou uma verdadeira reviravolta nesse ambiente tão engajado.

Questionado sobre o posicionamento do festival em relação ao “genocídio em Gaza”, ele respondeu o seguinte: “Os filmes podem mudar o mundo, mas não de uma maneira política”.

E mais: “Nós somos o contrapeso da política. Somos o oposto da política. Temos que fazer o trabalho das pessoas, não o dos políticos".

O mundo veio abaixo. Houve grande comoção pela suposta insensibilidade de Wim Wenders.

Um abaixo-assinado foi feito para que o festival se manifestasse contra a situação em Gaza.

O cineasta brasileiro Kleber Mendonça Filho, que cumpria agenda na ocasião com o filme O Agente Secreto, tentou rebater Wim Wenders, dizendo que “se você fala da sociedade, fala de política”.

A esquerda diz que toda arte é política — o que é um erro.

Existe um aspecto político em toda obra de arte, assim como toda obra de arte tem um aspecto social, histórico e até espiritual.

Muitas vezes esse aspecto político é totalmente irrelevante. O que existe de político em Diário de um pároco de aldeia, de Robert Bresson? Ou em Morangos Silvestres, de Bergman? Ou Ondas do Destino, de Lars von Trier?

Pior: o que essas pessoas entendem por política não é a política no sentido amplo, de pensar a organização da sociedade, mas a política do dia a dia.

Elas esperam que se comentem as atualidades políticas, que se tome posição em relação aos temas do momento (Gaza, Guerra do Irã etc).

Isso é reduzir os festivais de cinema a um ambiente reativo ao noticiário. O debate deixou de ser estético e passou a ser uma disputa de posicionamentos imediatos. Virou o meme “I support the current thing”.

E os artistas deixaram de ter ambições estéticas e passaram a querer mudar a visão das pessoas, mudar o mundo, impor o próprio conjunto de ideias.

Um filme não precisa ter uma posição clara sobre tema algum. Ele pode ser motivado por uma certa atmosfera, por certo conjunto de cores, por um pensamento vago. E ainda assim comover o espectador até as lágrimas.

A pior fase da politização dos festivais — esse espectro que os ronda — parece, entretanto, ter passado. E a programação de filmes do Festival de Cannes parece confirmar isso.

O primeiro filme que vi no festival, La vie d’une femme, de Charline Bourgeois-Tacquet, foi nesse sentido: um filme delicado e simples sobre uma médica que tem uma relação homossexual.

Apesar do tema, o filme é de uma delicadeza tremenda, muito longe de uma abordagem engajada.

Veremos os próximos.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

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1 Ver comentários

Amigo do Amigo, maio 18, 2026 

Cinema é diversão, além disso, vira peça ideológica, como o tosco "Agente Secreto", bem diferente de "La vie d’une femme". Aliás, o cinema foi o principal pilar da máquina de propaganda nazista!

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