domingo, 19 de fevereiro de 2023

O mercado religioso trata a fé como commodity e usa a miséria de todos nós

Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 19 de fevereiro de 2023

O mercado religioso trata a fé como commodity e usa a miséria de todos nós

A vida é muitas vezes insuportável e as religiões nos dão uma esperança de poder torná-la menos insuportável. A crônica se Luiz Felipe Pondé para a Folha de São Paulo:

A fé é uma commodity e as religiões a disputam. Alguém pode dizer que sempre foi assim. Dizer isso é como comparar as velhas feiras dos burgos onde se vendia comida e outras bugigangas com a sociedade capitalista.

A sociedade capitalista é um sistema global que se caracteriza, além de outras coisas, pelo fato de que só tem futuro o que vira produto. À medida que se agrega valor financeiro a algo, imediatamente ele começa a responder dentro da dinâmica da mercadoria. E nessa dinâmica o que importa é aumentar o PIB do player religioso.

Essa dinâmica é marcada pelo estágio da midiatização da religião que começa com o televangelismo dos anos 1970 nos Estados Unidos. Sendo a mídia o mercado de conteúdos por excelência, as religiões se transformaram em empresas de conteúdo que formam ministros religiosos no marketing mais do que na teologia ou sistemas mitológicos.

Com as redes sociais, esse processo se radicalizou e ficou mais barato. Uma das marcas da sociedade capitalista é a emergência de uma microfísica da competição que é fundamental no processo de destruição dos players dentro do mercado em questão.

Uma vantagem do mercado religioso sobre outros é seu custo relativamente baixo para quem paga pela adesão e pelo que ganha em retorno —um produto que tem a característica de ser infinito e maleável, ou seja, a fé.

A fé tem uma plasticidade gigantesca e é adaptável às mais diversas situações e narrativas. A fé nunca acaba porque ela está ancorada na experiência profunda do desamparo dos seres humanos, como diz Freud no seu memorável "Futuro de uma Ilusão".

A vida é muitas vezes insuportável e as religiões nos dão uma esperança de poder torná-la menos insuportável. Nada há de racional nisso, por isso é tão poderosa. Tudo que é ancorado na razão é frágil, já o que é ancorado na miséria é sempre poderoso.

A violência entre os players religiosos é clássica, sempre foi. Hoje, ela se tornou passível de gestão de conteúdos e comportamentos segmentados. Falar mal dos competidores, inclusive no plano das ideologias políticas, marca nichos específicos no mercado da fé.

Esse fato pode aparecer em toda e qualquer comunidade religiosa que disputa fiéis, independente da identidade de fé em questão.

Na Igreja Católica isso ocorre entre ordens religiosas, entre grupos conservadores contra progressistas, e dentro da hierarquia de carreira na instituição.

Sendo uma instituição que deita raízes profundas na antiguidade e medievo, a Igreja Católica tem mais dificuldade para se tornar uma empresa ágil em nosso admirável mundo novo. Sua lentidão pode ser mortal num futuro próximo.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com

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