terça-feira, 25 de agosto de 2026

O país dos golpes

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 22 de agosto de 2026

O país dos golpes

O brasileiro se adapta rapidamente às novidades tecnológicas. Os bandidos aproveitam. Dagomir Marquezi para a Oeste:

Eu tinha um exame marcado no hospital X. Uma semana antes do procedimento, recebi um recado na conta do hospital no WhatsApp me avisando que eu deveria assinar um documento adicional. A identificação do hospital era clara, e o logotipo era o oficial. E a pessoa que me escreveu conhecia exatamente o exame que eu deveria fazer.

Eu respondi que não poderia ir até o hospital, que é longe de casa. “Pode deixar, nós mandamos um motoboy. Só precisa pagar a taxa dele. O motoboy leva a maquininha de débito.” No dia marcado, o rapaz apareceu, todo agitado, e perguntou se poderia cobrar a taxa. Como acontece em tantas lojas, ele pegou meu cartão e enfiou na maquininha. Nos cinco segundos seguintes, eu esperei para colocar a senha. “Não está funcionando”, disse ele. “Vou buscar outra maquininha.”

No dia seguinte, descobri que o tal “motoboy” tinha feito uma compra (por aproximação) usando o limite do meu cartão de crédito no valor de R$ 25 mil. Ora, eu costumo gastar cerca de R$ 300 por mês neste cartão de crédito. Mesmo assim, o banco Y e a bandeira Z liberaram todo meu limite, sem confirmar se era eu mesmo que estava gastando esse monte de dinheiro fora do padrão, num segundo. Liguei para o banco, não reconheci a despesa, bloqueei o cartão, fiz um boletim de ocorrência eletrônico e reforcei a denúncia na delegacia do bairro.

Agora estou no limbo. A bandeira do cartão tem até 60 dias para confirmar se a compra foi mesmo suspensa e reconhecer o erro que cometeram ao não me avisar da movimentação súbita. São até dois meses de espera para saber se o crime do falso motoqueiro e da falsa atendente do hospital compensou para eles. Mas existe algo amargo além do golpe em si: sentir-me um perfeito idiota ao cair na conversa desses bandidos. Além do roubo, é um atentado à nossa autoestima.

A vergonha e o prejuízo

Com o tempo, fui descobrindo ao meu redor quantas pessoas tinham caído nesse tipo de golpe, ou conheciam vítimas entre parentes e amigos. A delegada que me atendeu disse que hoje mal atende casos clássicos como assaltos e assassinatos. A imensa maioria das pessoas que vão prestar queixa com ela começa com a mesma história: “Eu recebi um recado pelo WhatsApp dizendo que…”.

O brasileiro tem uma vantagem: adapta-se rapidamente a novidades tecnológicas para tornar sua vida mais fácil. Foi o caso do Pix, criado aqui, que se transformou numa verdadeira revolução financeira. Aderimos rapidamente ao WhatsApp, que substituiu o velho telefone por ser muito mais prático.

Infelizmente, a cultura do crime também é especialmente forte em nosso país. Os bandidos mostram criatividade e conhecimento técnico para arrancar dinheiro de quem cai em golpes construídos a partir de sites falsos, vozes clonadas, links maliciosos, conversa mole e exploração de sentimentos.

Os golpes se multiplicam. Quase todos exploram as mesmas emoções: urgência, medo, confiança, tensão, solidariedade, ambição, constrangimento. Sua arma mais poderosa é a capacidade de paralisar nosso raciocínio e atenção por alguns segundos. Depois do roubo, eles partem com suas motos. E nós ficamos com a vergonha e o prejuízo.

Se você foi uma vítima (como eu), fique sabendo que somos uma multidão. Segundo o estudo “O Estado dos Golpes no Brasil 2026”, publicado pela Global Anti-Scam Alliance (Gasa), nosso país registrou neste ano 34,5 bilhões de tentativas de golpes digitais. São 259 golpes por hora ou quatro por minuto. Cerca de 81% dos adultos brasileiros relataram ter recebido algum tipo de golpe em seus celulares. Mais de 16,5 milhões de pessoas sofreram perdas financeiras, numa média de R$ 1.287 por vítima. Total: R$ 21,2 bilhões desviados.

A principal porta para esses crimes é o WhatsApp — e quem vive sem ele hoje? O aplicativo é a ferramenta inicial em 64% das abordagens dos criminosos; 34% de todas as fraudes consumadas passam por ele. Segundo a Serasa, o WhatsApp registra um fluxo de 152 mensagens fraudulentas por minuto. É preciso cuidado especial contra chamadas telefônicas que surgem do nada. Geralmente são spam (ofertas indesejadas de telemarketing). Mas muitas vezes são golpistas. Acostume-se com a ideia de não atender quem você não conhece. E de bloquear quem você não conhece.

Além disso, e ainda mais importante: os bancos e cartões de crédito vão ter que criar mecanismos efetivos para não entregar de forma tão irresponsável o dinheiro que ganhamos honestamente a esses marginais.

Menos de 10% dos casos são reportados. A pena para estelionato (o famoso artigo 171 do Código Penal) prevê de 1 a 5 anos de cadeia — mas é muitas vezes convertida em penas alternativas. Na prática, poucos golpistas são presos. E muito menos devolvem o dinheiro roubado. Falta estrutura policial especializada para cuidar dessa epidemia. Esse território pantanoso de “golpes cibernéticos” está virando um vale-tudo. A bandidagem se multiplica, praticamente impune. E nos atira num estado de permanente paranoia.

A pequena enciclopédia dos golpes

Se você for vítima deles, procure, antes de tudo, não perder a cabeça. Junte provas, tire cópias das mensagens, anote datas e horas, faça um boletim de ocorrência. Se possível, vá a uma delegacia e registre tudo pessoalmente. A raiva, nesses casos, não adianta nada. Dificilmente o golpista será apanhado. Mas você terá os documentos necessários para lutar pelos seus direitos. Procure saber se o seu banco tem seguros específicos contra roubos e golpes.

Mas como evitar os golpes? Multiplique as autenticações no seu celular. Use sua digital, senha e desenho de destravamento. Muita gente está recorrendo, inclusive, a um celular extra. Um celular você leva na rua, o outro deixa em casa com os aplicativos mais sensíveis, como os bancários.

Segue uma pequena enciclopédia de golpes utilizados atualmente. Eles nem sempre dependem da tecnologia. Sua principal arma é a capacidade de desligar por alguns segundos a capacidade de raciocínio da vítima.

A fraude fraudulenta

O golpista liga usando o número do gerente do banco. Diz que alguém está usando o aplicativo do banco. Passam links para cancelar supostos pagamentos do suposto golpista. A cada link, um roubo é realizado. Uma variação: um suposto gerente do banco avisa o cliente que sua conta foi “hackeada”. E indica uma “conta segura” para que a vítima transfira o que tem via Pix. É a conta do ladrão.

A farsa do novo número de WhatsApp

Um golpe dirigido especialmente a pais e avós. O bandido consegue uma foto de um parente mais jovem da vítima. Manda uma mensagem com um número desconhecido e avisa: “Mudei de celular, anota o novo aí”. Algum tempo depois o golpista diz, em nome do filho/neto, que está precisando de uma grana urgente e manda um número de Pix para o depósito.

O golpe do motoboy

É o descrito no início da matéria. O cliente pede um produto ou serviço. O motoboy chega e diz que tem uma “taxa de entrega” num valor baixo, digamos, R$ 5. A maquininha de cobrança está com o visor encoberto ou adulterado. O motoboy registra 5 mil reais e o cliente, que não quer que a pizza esfrie, mal olha o visor enquanto coloca a senha.

Infeliz aniversário

Uma variação do golpe anterior. O bandido descobre o dia do aniversário da vítima e aparece com um presente surpresa. Basta pagar uma “pequena taxa” ao entregador. Curioso para conhecer a identidade do admirador secreto, o aniversariante não presta atenção na maquininha de cobrança.

Pix agendado

O golpista faz uma compra e paga com um Pix agendado. O comerciante entrega a mercadoria e o malandro cancela o agendamento.

O link-armadilha

A isca varia. Pode ser um SMS ou mensagem de WhatsApp avisando qualquer coisa urgente: a conta bancária vai ser bloqueada, os pontos do cartão vão expirar, uma encomenda do Correio está retida. Para resolver qualquer coisa, basta clicar num link. O link leva a uma página clonada (e idêntica) à do banco, ou do Correio, ou seja lá o que for. A vítima é convidada a preencher uma série de dados (como agência bancária, conta e senha) que vão direto para os olhos do criminoso.

A mão fantasma

A pessoa é convidada por um “gerente de banco” a instalar um aplicativo de suporte ao usuário. Com o aplicativo instalado, o golpista passa a controlar os aplicativos bancários da vítima.

A voz clonada

É o crime na era da inteligência artificial. O bandido clona a voz do parente de, digamos, um empresário. Com aquela voz falsificada (e talvez com sua imagem), pede um dinheiro urgente para alguma emergência.

O advogado do diabo

Você recebe um e-mail com a marca do seu advogado avisando que “aquela indenização foi finalmente aprovada”. Pede para você mandar os dados de sua conta para que a tal indenização seja aprovada. Confirme com seu advogado se a tal indenização existe mesmo.

Boleto adulterado

A conta parece verdadeira, mas o código de barras (ou QR Code) leva seu dinheiro direto para os criminosos. Cheque a origem de qualquer boleto que aparecer do nada.

Loja falsificada

Você está numa rede social e descobre uma oferta irresistível. Um link o leva a um site igualzinho ao da loja real. Você paga, ainda ganha um desconto, mas jamais recebe seu produto. Procure sempre entrar diretamente nos sites das lojas; desconfie de alguns links das redes.

Oferta de emprego

Um golpe especialmente cruel. A vítima, precisando trabalhar, se inscreve e paga pelo exame, treinamento, uniforme e cadastro. O bandido fica com o dinheiro e ainda usa os dados da vítima para abrir contas e contratar empréstimos.

Lucro vira prejuízo

“Influencers”, celebridades falsificadas e grupos de mensagens prometem lucro fácil e rápido com criptomoedas, ações e robôs financeiros. E exibem resultados milagrosos no site da “empresa”. Os resultados exibidos são falsos.

Prova de vida

O aposentado é convocado a mostrar que está vivo por meio de documentos, reconhecimento facial e dados bancários. Comunicações desse tipo precisam ser verificadas através do site Meu INSS ou pelo telefone 135.

O golpe da intimidade

Num site de relacionamento, homem conhece uma garota jovem (ou vice-versa). Com o tempo, trocam imagens íntimas. Um dia aparecem falsos parentes ou advogados dizendo que se tratava de menor de idade e exigem dinheiro para evitar um processo. 

Texto e imagens reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

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