sábado, 16 de maio de 2026

O que é mortal... morre

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 16  de maio de 2026

O que é mortal... morre

A filosofia oferece ao homem uma forma de permanecer humano diante da perda, sem revolta cega contra a realidade e sem fuga sentimental para ilusões confortáveis. Dennys Xavier para a Crusoé:

Algumas perdas chegam sem solenidade. Outras dão sinais de aproximação… sinais muitas vezes ignorados ou atropelados pelas tarefas do dia.

O sol continua sobre as ruas, pessoas seguem seus compromissos, motores continuam ligados, cafés continuam sendo ritualmente servidos, e o mundo mantém seu movimento indiferente diante da ausência recém-instalada.

Talvez uma das experiências mais desconcertantes da condição humana esteja justamente aí: perceber que a realidade não interrompe seu curso quando alguém desaparece.

A morte entra na vida como um silêncio novo, incômodo, amargo, dentro de uma paisagem antiga. Tudo permanece no lugar, mas o peso semântico muda.

Alguns filósofos observam esse fenômeno com uma lucidez cortante.

Entre os estóicos existia a convicção de que a consciência da mortalidade deveria acompanhar o homem como companhia permanente da razão. Eu mesmo, inspirado por esses antigos sábios, trago com força essa admoestação para o meu dia a dia (quase nunca bem compreendida por terceiros… pior para eles).

Não por morbidez, tampouco por pessimismo… pelo contrário!

A lembrança da finitude concede nitidez às coisas essenciais.

Marco Aurélio escreveu: “Poderias deixar a vida agora mesmo. Que isso determine o que fazes, dizes e pensas”. A frase tem a firmeza de uma pedra lançada contra as distrações humanas, contra nossas vaidades tolas, infantilóides.

Quando alguém entende que o tempo tem limites invisíveis, certas preocupações começam a perder densidade, presença. Pequenos ressentimentos enfraquecem. Perfumarias sociais revelam sua fragilidade. Muitas disputas parecem (e são) tolas diante da precariedade comum a todos os homens.

Talvez o espírito humano carregue uma expectativa secreta de permanência, mantida de forma meio envergonhada.

As pessoas vivem como se houvesse sempre uma extensão garantida do amanhã. Fazem planos longos, adiam conversas importantes, acreditam que haverá tempo suficiente para reorganizar afetos, pedir perdão, aproximar-se novamente de quem se afastou. Mentiras contadas para nós mesmos…

A morte surge e desmonta essa arquitetura imaginária construída sobre futuros inexistentes.

Sêneca observava isso com severidade: “Enquanto adiamos, a vida passa”. Não há qualquer exagero retórico na frase. O tempo se dissolve atrás de nós.

Os estóicos insistiam que a natureza nunca prometeu estabilidade ao homem. Ela é coisa de uma realidade mal compreendida (logo, problema de quem compreende mal).

Os corpos adoecem, os anos avançam, acidentes acontecem, famílias enfrentam perdas inesperadas. Epicteto dizia que o sofrimento humano nasce do desejo de controlar aquilo que jamais pertenceu inteiramente à nossa vontade.

Ora, a realidade não negocia com expectativas emocionais. Ela segue sua ordem própria, muitas vezes incompreensível para quem permanece preso à esperança de que a existência devesse obedecer a algum senso íntimo de justiça.

Mas a realidade é o que é, não veio para celebrar expectativas pessoais.

Apesar disso, os estóicos não cultivavam desespero.

Havia neles uma disciplina interior voltada para a serenidade. Marco Aurélio contemplava a dissolução de impérios, nomes célebres e glórias militares sem cair em niilismo, sem cair numa "nadificação” de valores ou princípios.

A mortalidade produzia nele humildade. Tudo desaparece: títulos, riqueza, poder, reconhecimento público. Resta somente aquilo que cada homem construiu dentro da própria alma enquanto atravessava o breve intervalo de sua existência.

Os epicuristas seguiram outro caminho para alcançar serenidade diante da morte. Epicuro desejava libertar o homem do terror constante produzido pela imaginação. Grande parte da angústia humana nasce da antecipação mental do sofrimento. O espírito projeta ausências futuras, imagina dissoluções, teme o desaparecimento como se pudesse observá-lo de fora.

Epicuro desmonta esse medo com uma simplicidade impressionante: “A morte não é nada para nós. Quando existimos, ela não está presente; quando ela está presente, nós não existimos.” A frase dissolve séculos inteiros de superstição emocional. A morte não constitui experiência do morto. Toda dor pertence aos vivos.

E os vivos permanecem cercados por memórias. Um objeto esquecido sobre a mesa. Uma fotografia antiga. O modo singular como alguém pronunciava determinadas palavras. A presença humana continua ecoando dentro da consciência daqueles que amaram. Talvez por isso Epicuro atribuísse tamanho valor à amizade. “De todas as coisas que a sabedoria proporciona para tornar a vida feliz”, escreveu ele, “a maior é a amizade.” Existe grande verdade nisso.

O homem atravessa o tempo sustentado pelos vínculos que conseguiu construir. No instante final, prestígio, dinheiro e ambição perdem importância diante da experiência concreta dos afetos compartilhados.

Os antigos compreendiam também que a brevidade da vida intensifica sua beleza. O homem contemporâneo aprendeu a pensar o tempo em termos quantitativos, como quem administra reservas futuras de dias.

Os filósofos antigos pensavam de outra forma. Importava a densidade da existência, a qualidade moral da alma, a capacidade de viver conscientemente dentro do instante recebido. Uma vida longa podia tornar-se espiritualmente vazia. Uma vida breve podia adquirir grandeza interior suficiente para permanecer viva na memória de muitos.

Sêneca dizia que alguns homens morrem cedo e outros apenas são enterrados tarde.

A frase continua atual porque existem pessoas que abandonam a própria vitalidade muito antes do fim biológico. Perdem a capacidade de contemplar, agradecer, amar, admirar. Vivem mecanicamente, aprisionadas por rotinas e preocupações sem profundidade. A consciência da mortalidade pode funcionar como despertar contra esse adormecimento da alma.

Talvez seja por isso que os estóicos valorizassem tanto a atenção ao presente. Não havia sentimentalismo nessa atitude. Existia rigor filosófico. O homem atento percebe a preciosidade escondida nas experiências simples: uma conversa tranquila, uma refeição compartilhada, uma tarde comum cercada por pessoas amadas, sentados na guia do passeio.

Grande parte da tragédia humana nasce do fato de que o valor de certos momentos só se revela plenamente depois que eles se tornam impossíveis de recuperar.

Marco Aurélio escrevia para si mesmo como alguém empenhado em permanecer desperto diante da transitoriedade universal. “Tudo é efêmero”, registrou ele. Corpos desaparecem. Casas envelhecem. Civilizações transformam-se em ruínas. O próprio nome dos homens termina dissolvido dentro do tempo. Mas essa percepção não destruía sua capacidade de amar a existência. Pelo contrário. A fragilidade das coisas parecia torná-las mais dignas de atenção.

Os epicuristas também compreendiam isso. O prazer verdadeiro não dependia de excessos, riqueza ou grandiosidade exterior. Epicuro vivia entre amigos, cultivando tranquilidade e liberdade interior. Havia sabedoria nessa simplicidade. O homem costumeiramente busca felicidade em regiões distantes enquanto negligencia aquilo que sustenta silenciosamente sua vida cotidiana: presença, amizade, serenidade, gratidão.

A morte de alguém querido obriga os vivos a olhar para a própria condição mortal. Nenhuma filosofia elimina completamente a dor da ausência.

Os filósofos, por óbvio, sabiam disso.

O que eles procuravam era outra coisa: impedir que o sofrimento destruísse inteiramente a alma de quem permanece. A filosofia oferece ao homem uma forma de permanecer humano diante da perda, sem revolta cega contra a realidade e sem fuga sentimental para ilusões confortáveis.

No fim, estóicos e epicuristas parecem convergir para uma mesma intuição: a vida adquire profundidade quando o homem abandona a fantasia da permanência absoluta.

Tudo o que existe carrega vulnerabilidade. Os dias passam, os corpos se desgastam, as pessoas partem. E talvez justamente por isso cada instante possua tamanho valor. A consciência da brevidade transforma o cotidiano em experiência mais intensa, mais lúcida, mais verdadeira.

Há vidas longas que atravessam o mundo sem deixar marcas interiores.

Há vidas breves que permanecem acesas dentro da memória dos outros durante décadas.

O tempo mede duração. A alma humana mede presença. Escolham a baliza.

Descanse em paz, Maíra.

PS: Homenagem a Maíra, prima que morreu na semana passada, tomada pelo câncer, aos 41 anos.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

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