domingo, 4 de janeiro de 2026

B.B.: a transgressora.

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 4 de janeiro de 2026

B.B.: a transgressora.

Ainda no auge do seu tempo de ícone de um novo feminismo, já estragara tudo, entregando-se ao vício da dissidência: “Le féminisme ce n’est pas mon truc, moi, j’aime bien les mecs…”. Jaime Nogueira Pinto para o Observador:

Quando Brigitte Bardot irrompeu nos écrans com Et Dieu créa la femme nada ficou como dantes. “Um corpo selvagem, animal e livre irrompe no écran. Subverte e revoluciona os costumes sociais em França e em todo o mundo.” – escrevia o realizador e crítico Jean Douchet, um dos fundadores dos Cahiers du Cinéma –, enquanto um jornal inglês dizia que BB era “o maior choque europeu desde 1789”. Exagero, talvez. Mas o impacto da sensualidade e da reversão de papéis que Brigitte Bardot trazia atirava-a para a ribalta das grandes estrelas.

A estreia do filme de Roger Vadim na América de Eisenhower, do cardeal Spellman, de John Foster Dulles e do Código Hays também não prometia ser pacífica. O Código Hayes era o regulamento censório, prévio ou póstumo, que entre 1930 e 1968 vigorava em Hollywood, ditando inclusões, exclusões e cancelamentos. Em matéria de moral e bons costumes, pesava-se a nudez feminina, cronometrava-se a duração dos beijos e cancelavam-se indícios de “sexual perversity”. No resto, monitorizava-se a correcta definição e distribuição de bons e maus.

Ora, em Et Dieu créa la femme, Bardot oscilava entre a perversa invenção do Diabo para tentar os americanos de bem e a assombrosa criação do Bom Deus. Talvez por isso em Dallas, no Texas, a polícia local – precocemente preocupada com a especial sensibilidade de certas minorias ou num outro assomo racista mais compatível com a época – tenha proibido os afro-americanos de ver a fita, considerada demasiadamente excitante para a natureza (intrinsecamente “vitalista”?) do homem negro.

Não se pode dizer que os brancos (supostamente mais fortes, ou mais fracos) lhe tivessem ficado indiferentes. De resto, veja-se a história: Juliette tem 18 anos, é órfã, e vive em Saint Tropez; os homens que a seguem e perseguem são Eric (Curd Jürgens), Antoine (Christian Marquand) e o seu irmão mais novo, Michel, (Jean-Louis Trintignant). Juliette ama Antoine, assedia Eric, e acaba por casar com Michel, que a ama, mas que não é correspondido. Isto entre cenas, ao tempo, escandalosas e com um final ambíguo.

Marlene Dietrich, a Lola de Der Blaue Engel (1930), de Joseph von Sternberg, ou Ava Gardner, a Southern belle de The Killers (1946), um filme de Robert Siodmak a partir de um conto de Hemingway, eram mulheres fatais; BB, algures entre a femme fatale e a pin-up, era outra coisa, encarnava todo um outro tempo e toda uma outra liberdade.

A má menina de boas famílias

Bardot vinha de uma família católica, abastada, conservadora. Era uma “menina bem”, cujo nascimento, em 28 de Setembro de 1934, saíra na muito pouco inclusiva secção “Vida Social” de Le Figaro. Os avós estavam ligados à Indústria e aos Seguros.

“Fui educada de um modo muito burguês, muito severo. Frequentei um colégio católico. Era vigiada por uma governanta. Nunca saía sozinha. Fui muito bem-comportada até aos 15 anos”.

Brigitte faz estas confidências, mais tarde, a Jean Cau, acrescentando que tinha sido então, precisamente aos 15 anos, que começara a sair da linha: “Bruscamente, tive vontade de me libertar”.

Andou no Conservatório em cursos de dança e começou a aparecer como modelo de fotografia. Em 1950, com 16 anos, foi capa da revista Elle.

Foi aí que a viu Roger Vadim, nascido Roger Vladimir Plemiannikov, filho de um aristocrata fugido da Rússia dos bolcheviques. Dois anos depois, cumpridas as exigências do pai Bardot – que o russo abraçasse o catolicismo e arranjasse emprego – casava-se com ela.

A grande mudança

Quando saiu Et Dieu créa la femme, no Outono de 1956, dois episódios marcaram a França e a Europa: em Budapeste, depois de manifestações estudantis contra o governo comunista de Mathias Rakosi, reprimidas a tiro pela polícia secreta, estalava um levantamento popular; no Egipto, na crise que sucedera à nacionalização por Nasser do Canal do Suez, tropas anglo-francesas ocupavam a zona do Canal para marcharem sobre o Cairo.

Na Hungria revoltada, o comunista moderado Imre Nagy, um ex-primeiro-ministro patriota, era chamado ao poder. Kruschev denunciara Estaline e os seus crimes no 20º Congresso do Partido Comunista e esperava-se que Moscovo, em fase pós-estalinista, se abrisse a um acordo com os insurrectos.

Nada disso aconteceria: os húngaros pagariam cara a revolta; afinal, a brutalidade e o desprezo pelas fronteiras e pelos direitos humanos não eram um “desvio estalinista” ao “humanitarismo marxista-leninista”, mas um atributo fundacional e funcional do modelo comunista. Quanto ao Suez, quando os paraquedistas franceses e ingleses pareciam prontos a tomar o Cairo, Eisenhower condenou a operação: os Estados Unidos queriam o fim dos impérios coloniais do Velho Mundo.

E se a revolta húngara e a sua repressão levaram muitos intelectuais e militantes comunistas europeus à dissidência e Suez marcou o princípio do fim dos impérios europeus, o filme de Vadim e Bardot foi sinal de uma mudança na cultura e nos costumes, ao apresentar como protagonista uma mulher que fazia com os homens o que tradicionalmente os homens faziam com as mulheres É verdade que, na História – de Messalina a Catarina da Rússia – as mulheres poderosas sempre tinham usado o seu poder (e, em suplemento, os seus dotes físicos e agudeza mental) para dominarem o “mundo dos homens”; mas BB fazia-o agora despreocupadamente, frivolamente, frente às câmaras.

Em 1959 protagonizava La femme et le Pantin, com o nosso António Vilar, e em 1960 aterrava em Lisboa para promover o filme entre “um dilúvio de chuva e de admiradores”. Vieram, entretanto, os filmes mais sérios da Nouvelle Vague, como La Verité e Le Mépris, a partir dum romance de Alberto Moravia.

Mais tarde, em 1967, estoirava o escândalo do sussurrado Je t’aime, moi non plus, com Serge Gainsbourg.

Houve ainda comédias épicas, como Viva Maria, com Jeanne Moreau e George Hamilton, e, em 1973, Les Pétroleuses, também com a Moreau.

Antes de fazer 40 anos, BB retira-se do cinema e volta-se para novos amores, lançando uma campanha contra os maus-tratos e a matança das focas bebés, prelúdio do seu grande empenho na defesa dos animais.

Paralelamente à vida artística, fica uma vida privada agitada, com quatro casamentos e muitas aventuras, levando Raymond Cartier a escrever no Paris Match com uma severidade moral inusitada: “Brigitte Bardot é imoral da cabeça aos pés”

Divorciada de Vadim em 1957, casa com Jacques Charrier, em Junho de 1959. Depois, em 1966, desposa o milionário alemão Gunter Sachs, separando-se três anos depois. Só voltará a casar em 1992, com Bernard d‘Ormale. Entretanto, foi tendo casos, muitos casos, com homens mais ou menos conhecidos.

Porém, as indulgências progressistas que toda esta transgressão de linhas vermelhas da moral convencional, do papel tradicional da mulher e do tratamento dado aos animais lhe deveria garantir ficariam em quase nada perante a sua imperdoável transgressão de outras linhas vermelhas. É que, aparentemente, a nova moralidade não se mostra particularmente compassiva com a liberdade desregrada, ou com os prevaricadores da sua intocável cartilha.

Entre “Le P.A.N.” e Le Pen

Assim, na Comédia da grande comunicação, parece não haver nada, nem mesmo o voto de pesar do P.A.N. pela morte de uma grande defensora dos animais, que possa redimir BB do inferno a que a condenaram as suas simpatias pela direita radical. O Le Monde lembra os seus “Trente ans de simpathie pour l’extrême droite” e o The Guardian denuncia, como pecado capital, o que Brigitte escreveu no seu livro Mon BBcédaire, publicado pouco antes de morrer: que o Rassemblement National era o “único remédio para a agonia da França”, um país que, por causa das políticas no poder e da imigração descontrolada, estava a ficar “chato, triste, submisso, doente, arruinado, devastado, ordinário e vulgar”.

Se a sua liberdade não tivesse teimado em ensombrar um percurso libertário que tinha tudo para ser imaculado, Brigitte Bardot podia agora ascender calmamente ao céu laico do progressismo de referência. Mas não. O desviacionismo era nela uma coisa endémica. Tanto que, ainda antes de incorrer no pecado capital de pensar abertamente à direita, ainda no auge do seu tempo de ícone de um novo feminismo, já estragara tudo, entregando-se ao vício da dissidência:

“Le féminisme ce n’est pas mon truc, moi, j’aime bien les mecs…”.

Enfim, fica a fé na consoladora distância entre a Justiça Divina e os nossos pensamentos e julgamentos carnais.

Que o supremo Criador de toda a beleza, de toda a alegria e de toda a liberdade a receba na sua infinita Misericórdia.

Texto reproduzido do blog: otambosi blogspot com

Nenhum comentário:

Postar um comentário